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Historias fora da ordem: agenciamentos entre Livia Flores e Clovis Aparecido dos Santos.

Stories out of order: Agency between Livia Flores and Clovis Aparecido dos Santo

Livia Flores (1959)--artista visual, pesquisadora e professora universitaria atua em intersticios institucionais e se dedica a investigar questoes referentes ao cinema expandido. A partir do conceito de "cinema sem filme", ela transporta objetos captados as margens da cidade para instituicoes. "Em vez de o filme deslocar o mundo--a cidade--para dentro da galeria, sao os objetos e artistas encontrados em suas franjas" que se evidenciam, devolvendo o cinema ao mundo. Vendo sua "imagem de artista espelhar-se no limiar" entre o visivel e o nao visivel, nos reflexos de um espelho que carrega junto ao seu corpo, questiona-se "sobre a relacao entre o periferico e a formacao de imagem". (Flores, 2007:35). As experiencias contidas nos trabalhos de Livia indicam que "vivemos um estado de ser cinematico", capaz de materializar todos os nossos sonhos e desejos, portanto, antes de vermos o mundo real ja o imaginamos a partir de projecoes e telas radiantes, deste modo, para escapar a luz dos cliches e suas infinitas repeticoes e preciso operarmos dobras que nos dao acesso as areas de invisibilidade (Flores, 2012:13).

Clovis (1960) gosta de andar, coletar, colecionar e combinar objetos que encontra pelo mundo, "diz que quando caminha nao pensa em nada, apenas compoe e canta musicas", assim veio de Avare, uma cidade do interior do Estado de Sao Paulo, caminhando a beira de estradas e rodovias ate chegar a cidade do Rio de Janeiro (Resende, 2015:1). Livia conheceu Clovis na Fazenda Modelo, uma instituicao que recolhia a populacao das ruas do Rio e a alojava em zonas afastadas da cidade.

O primeiro agenciamento entre os dois artistas ocorreu atraves de trabalhos produzidos por Clovis na Fazenda Modelo, deslocados por Livia para a Galeria do Espaco Cultural Sergio Porto, no Rio de Janeiro, um cubo branco de paredes vazias que levava o espectador a se aproximar dos objetos posicionados ao centro (Figura 1 e Figura 2). Para chegar a estes o visitante tinha que atravessar o chao da galeria, coberto por tacos soltos, que faziam barulho e se desordenavam na medida em que eram pisados (esta foi uma potente contextualizacao de Livia para instalar o lustre e a casa de Clovis). Na epoca, o piso de granito instalado no Espaco por uma reforma da Prefeitura nao agradou a direcao nem aos artistas que frequentavam a galeria, os tacos de madeira que o cobriam, agrupados em diferentes formas, ironicamente, foram apreciados em seu conjunto ordenado, mas rejeitados por suas unidades, sempre na iminencia de soltar e desencadear um acidente. A redundancia das linhas que se formam entre um taco e outro--no contexto do Concretismo definidas como linha organica em conceito formulado por Lygia Clark (1954)--e similar a organizacao de moleculas enquanto constituem uma determinada substancia.

Deleuze e Guattari (2011) concebem uma metafora que explica as associacoes que constantemente se criam entre o ser e as coisas do mundo, explicando "a ontologia como geologia: ao inves do ser, a terra, com seus estratos fisico-quimicos, organicos, antropomorficos," com suas camadas estratificadas, em processo de composicao ou decomposicao. O professor Challenger, personagem de historias de ficcao cientifica, diz que no inicio "a Terra era um corpo atravessado por materias instaveis nao formadas", para a frustacao de uns e a felicidade de outros, enquanto tudo parecia ser mutacao e novidade produzia-se no mundo um fenomeno de estratificacao das materias instaveis, que aprisionava "intensidades livres ou singularidades nomades" em sistemas de ressonancia e redundancia. Os estratos formavam camadas que operavam por "codificacao e territorializacao", mas a terra, ou o "corpo sem orgaos" (um corpo sobre o qual o que serve de orgaos se distribui segundo movimentos gerados por multiplicidades), "nao parava de se esquivar ao juizo, de fugir e se desestratificar, se descodificar, se desterritorializar". As camadas estratificadas grupavam-se, no minimo, aos pares, uma servindo de substrato a outra. A superficie de estratificacao entre uma e outra camada era um "agenciamento maquinico", o qual nao se confundia com as camadas, e por ser mais denso, ficava entre elas, tendo uma face voltada para os seus estratos e outra face voltada para o corpo sem orgaos (Deleuze & Guatarri, 2011: 56, 70, 71).

A partir desse mecanismo abstrato e possivel imaginarmos a potencia do agenciamento entre Clovis, que tem o acaso e a coleta de coisas encontradas no mundo como principio de sua arte, e Livia, que questiona em suas instalacoes o funcionamento das camadas estratificadas das instituicoes de arte. Em Puzzlepolis II, instalacao realizada na 26a Bienal de Sao Paulo, o cruzamento de imaginarios dos artistas e do campo da arte torna-se mais nitido, nao sao apenas dois objetos em uma galeria, mas uma multiplicidade deles simulando uma cidade pulsante e com luz propria (Figura 3). Cidade esta que se desloca em sintonia com os movimentos do espectador, na medida em que suas luzes sao refletidas nas vidracas do predio da Bienal, cobertas, por Livia, de vinil preto transparente, tendo os reflexos do dia confundidos com a paisagem externa, e de noite se assemelhando a uma cidade real (Figura 4). Vista atraves de reflexos a heterogeneidade desta cidade se estratifica, oculta a relacao de descontinuidade que existe na combinacao de objetos que dispensa criterios de escala, tecnica ou funcao. Objetos hibridos que assentados sobre rodas ou sustentados por improvaveis colunas, permanecem flutuando em meio a mercadorias de alto valor simbolico.

Igualmente notavel e a producao de Clovis instalada por ele mesmo em seu espaco de trabalho na Fazenda Modelo, ali os mesmos objetos pendurados na trama do telhado resgatam a paisagem da cidade que, furtivamente, o convidou a se retirar (Figura 5). A casa da Fazenda que se transfere para o alto de um predio parece ser o comeco de Sao Paulo, do Rio de Janeiro, de todas as cidades do mundo. Clovis, como filho mais velho, ainda bem jovem, ouviu de sua mae "se nao tinha condicoes de ajudar na manutencao da familia, deveria entao procurar o proprio sustento" (Resende, 2015:1). Assim ele saiu de Avare, uma pequena cidade formada pela economia agricola e pecuarista, hoje uma estancia turistica conhecida como "capital nacional do cavalo", que anima sua agenda com dois grandes eventos anuais, a Exposicao de Agropecuaria e a Feira de Musica Popular Brasileira.

Livia, que ja problematizava a questao da identidade nas megalopoles, especialmente no trabalho Lambe, de 2002--no qual predios administrativos da cidade, fotografados a noite, foram impressos em formato 3X4 fazendo referencia a triagem operada nas recepcoes, quando solicitam a quem entra o numero de identidade e o arquivam junto a uma foto registro neste mesmo formato --ao ver a cidade de Clovis se identifica e constata que ela tambem e de sua responsabilidade (Figura 6). Pensando nas condicoes de desigualdade em que foi constituida a sociedade brasileira, em 2007 a artista faz uma intervencao dentro de uma vitrine do Museu Imperial, na cidade de Petropolis, RJ, instalando uma pilha de cobertores baratos (normalmente usados por moradores de rua em tempo frio), junto aos pertences da Princesa Isabel (filha de D. Pedro II, que assinou a Lei Aurea, em 1888, libertando tardiamente os escravos no Brasil) e as ferragens que atavam maos e pes de escravos. (Figura 7).

Em 2015, Clovis realiza sua primeira exposicao individual em Sao Paulo, na Galeria Estacao, um espaco dedicado a revelar a arte brasileira nao erudita, que deseja inclui-la como linguagem no circuito artistico contemporaneo. As pinturas exibidas nessa exposicao sugerem fragmentos vistos ou coletados nas estradas, que desde cedo fascinaram o artista (Figura 8). Clovis somente deseja experimentar o mundo, para isso tem a rodovia e os veiculos que nela transitam, "um corpo sem orgaos", que ignora a negacao e a privacao. Nas linhas e planos tracados pelo seu pincel, carros, plantas, animais e homens nao se deixam reduzir, e nas formacoes do inconsciente se associam, mudam de natureza e formam uma multiplicidade, que se modifica "segundo outras distancias, conforme outras velocidades e com outras multiplicidades, nos limites de limiares". (Deleuze & Guattari, 2011:56-7, 59).

O segundo agenciamento entre os artistas ocorreu em 2016, quando Clovis ja trabalhava no Atelier Gaia, espaco vinculado ao Museu Bispo do Rosario Arte Contemporanea, que funciona dentro da Colonia Juliano Moreira, uma instituicao municipal que oferece assistencia a saude mental, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A Colonia que antes mantinha seus pacientes em regime interno, isolados do resto do mundo, hoje oferece assistencia e atividades durante o dia, deixando-os sair ou voltar para casa quando quiserem. Clovis tem na colonia um porto seguro, costuma sair sem destino pela Linha Amarela e desaparece por tempo indeterminado, mas sempre retorna ao atelier. Em 2017, no ultimo encontro entre os artistas, Livia dirigiu e produziu um video que foi deslocado do Atelier Gaia, no Museu Bispo do Rosario para a Galeria do Imperio, do Museu Historico Nacional, no Rio de Janeiro (MHN), para dentro da exposicao Historias fora da ordem (da qual participei e realizei a curadoria em parceria com o artista-pesquisador Luciano Vinhosa), onde Clovis aparece, cantando. No MHN, a Galeria do Imperio abriga uma exposicao permanente de pecas referentes ao periodo em que a familia real portuguesa se estabelece no Brasil, entre 1822 e 1889. Temas de destaque nesse periodo sao a economia baseada na mao-de-obra escrava, a Guerra do Paraguai, a Princesa Isabel, a abolicao da escravidao e a Proclamacao da Republica. Como no Museu Imperial de Petropolis, a presenca dos escravos no MHN se restringe a algemas e instrumentos de castigo, salvo raras excecoes como soldados negros sem identidade, vistos ao longe em pinturas de batalhas da Guerra do Paraguai. No video produzido por Livia vemos Clovis no Atelie Gaia cantando uma musica de sua autoria, que traz tanto um imaginario infantil quanto a de um trabalhador rural e seus patroes, ressoando vozes fantasmas de um passado sem representacao (Figura 9).

Andando a margem de viadutos e grandes rodovias, frequentemente Clovis e visto atravessando lentamente paisagens entrecortadas por veiculos velozes. Assim lhe vem as imagens que canta em sua voz monocordia:

olhei pro leste, olhei pr'oeste ... eu vi a boiada que ia chegando ... cheguei na sede da fazenda, o gado estava em frente ao curral ... e o cavalo comendo aquelas graminhas verde ao redor do escritorio ... eu vi o menino tocando violao e ao seu redor cheio de carneirinho ... por isso meu querido filho ouca sempre o conselho de sua mamae e do seu papai, pra mais tarde voce nao se arrepender ... O tempo estava de chuva relampiava muito forte ... mas eu era empregado tinha que trabalha r... arriei o meu cavalo e peguei uma estrada muito velha aonde existia uma bandeira muito antiga ... eu fui obrigado a descer do cavalo e me esconder debaixo daquela bandeira ... onde existiam aquelas abelhas que nao podiam sentir o cheiro do sangue ...

No Museu Historico Nacional o monitor instalado abaixo dos retratos de familias da aristocracia do cafe, a voz de Clovis invade o espaco da Galeria do Imperio, atravessa moveis, porcelanas, livros, armas e bustos de marmore, reverberando nos instrumentos de castigo da senzala (Figura 10).

Foucault, em suas analises sobre as modernas instituicoes de confinamento --"o hospicio, a clinica e a prisao, e suas respectivas estruturas discursivas--loucura, doenca e criminalidade", ja pressupunha "uma outra instituicao similar a espera de uma analise arqueologica--o museu -, e sua fiel disciplina--a historia" (CRIMP, 2015: 45). Se Foucault (2008) propoe repensarmos o museu e a historia, atraves de suas descontinuidades, rupturas, limiares, limites e transformacoes, Deleuze e Guattari com suas metaforas nos fazem imaginar atraves de uma historia de ficcao cientifica, que a violencia e inerente ao nosso devir de transformacao desde o inicio da formacao do espaco terrestre. Na disparada da contemporaneidade para atender a acelerada necessidade de transformacao, parece ser importante tarefa do artista desterritorializar, descodificar, desconstruir a ordem do nosso conhecimento preservado, isolado, dentro de nossas instituicoes.

Referencias

Clark, Lygia (1954) "Descoberta da linha organica." Disponivel em URL http:// www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT. asp?idarquivo=6

Crimp, Douglas (2015) "Sobre as ruinas do museu" Sao Paulo: Martins Fontes. ISBN: 978-85-806-3233-0

Deleuze, Gilles & Guattari, Felix (2011) "Mil Platos." Rio de Janeiro: Editora 34. ISBN: 978-85-85490-49-2, Vol.1.2a Edicao.

Foucault, Michel (2008) Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, ISBN: 978-85-218-0344-7

Foucault, Michel (2013) Vigiar e Punir. Petropolis: Vozes, ISBN: 978-85-326-0508-5

Flores, Livia (2012) "ARTE BRA Vol. 5.", Rio de Janeiro: Automatica, ISBN: 978-85-64919-05-1. Disponivel em URLhttp:// www.automatica.art.br/livros/artebra_ liviaflores2.pdf

Flores, Livia (2007). "Como fazer cinema sem filme." Revista Arte e Ensaios n.!5. Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, ISBN: 1516-1692. Disponivel em URL http://www.ppgav.eba. ufrj.br/wp-content/uploads/2012/01/ ae15_-Livia_Flores.pdf

Resende, Ricardo (2015) "Biografia" [Texto do catalogo da exposicao de Clovis Aparecido dos Santos], Sao Paulo: Galeria Estacao. Disponivel em URL http://www. galeriaestacao.com.br/artista/91

BEATRIZ PIMENTA VELLOSO * & RAYLTON ZARANZA **

Artigo completo enviado a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

* Brasil, Artista visual e professora universitaria.

** Brasil, artista visual e estudante de graduacao.

AFILIACAO: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Escola de Belas Artes, Departamento de Artes Visuais--Escultura (BAE). Av. Pedro Calmon, 550, Cidade Universitaria, Cep 21941-901, Rio de Janeiro--RJ, Brasil. E-mail (pessoal): tonzaranza@outlook.com.br

Leyenda: Figura 1 * Livia Flores, Puzzlepolis, 2002, instalacao (tacos e objetos de Clovis Aparecido dos Santos), Galeria do Espaco Cultural Sergio Porto, Rio de Janeiro. Fonte: Arte Bra vol. 5.

Leyenda: Figura 2 * Livia Flores, Puzzlepolis, 2002, instalacao (tacos e objetos de Clovis Aparecido dos Santos), Galeria do Espaco Cultural Sergio Porto, Rio de Janeiro. Fonte: Arte Bra vol. 5.

Leyenda: Figura 3 * Livia Flores, Puzzlepolis II, 2004, instalacao vista a noite (objetos de Clovis Aparecido dos Santos e vinil preto), 26a Bienal de Sao Paulo. Fonte: Arte Bra vol. 5.

Leyenda: Figura 4 * Livia Flores, Puzzlepolis II, 2004, instalacao vista a noite (objetos de Clovis Aparecido dos Santos e vinil preto), 26a Bienal de Sao Paulo, 2004. Foto Wilton Montenegro Figura 5 * Local de trabalho e moradia de Clovis na Fazenda Modelo

Leyenda: Figura 6 * Livia Flores, Lambe, 2002, detalhe (66 impressoes fotograficas em formato 3x4 realizadas em colaboracao com Raimundo Bandeira de Mello). Fonte: Arte Bra vol. 5.

Leyenda: Figura 7 * Livia Flores, Pilha, 2007, instalacao (cobertores empilhados), vitrine da Sala Princesa Isabel, Museu Imperial de Petropolis, RJ. Fonte: Arte Bra vol. 5.

Leyenda: Figura 8 * Clovis Aparecido dos Santos, Sem titulo, 2015, pintura (acrilica/vinil sobre papelao), 92x89cm. Fonte: Galeria Estacao

Leyenda: Figura 9 * Livia Flores, Uma bandeira muito antiga, 2017, video (colaboracao de Clovis Aparecido dos Santos, camera e edicao de Joao Wladimir), duracao: 5/56//, Museu Historico Nacional, Rio de Janeiro. Foto Beatriz Pimenta

Leyenda: Figura 10 * Livia Flores, Uma bandeira muito antiga, 2016/201 7, video (colaboracao de Clovis Aparecido dos Santos, camera e edicao de Joao Wladimir), duracao: 5/56//, Museu Historico Nacional, Rio de Janeiro. Foto Beatriz Pimenta
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Title Annotation:Artigos originais/Original articles
Author:Pimenta Velloso, Beatriz; Zaranza, Raylton
Publication:Estudio
Date:Jul 1, 2018
Words:2771
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