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Hierarchy of spaces on the fanpage "Suburban of Depression"/Hierarquia dos espacos na fanpage "Suburbano da Depressao".

Introducao

No Rio de Janeiro, o sul e o norte. E esse imaginario que permite a eventual referencia a Barra da Tijuca, por exemplo, como a "zona Sul da zona Oeste". E o que autoriza, por mimetismo, os moradores da vizinha Niteroi chamarem de sul sua regiao oeste, como o bairro de Icarai. E o que causou indignacao aos moradores do Flamengo quando, em 2016, a Prefeitura chegou a retirar sua administracao das maos da 4a Regiao Administrativa (RA)--a chamada zona Sul--, transferindo-a para o Centro. Foi tambem o no do problema quando, em outubro do mesmo ano, um projeto de lei propunha a separacao administrativa de Barra da Tijuca, Jacarepagua e Recreio do restante da zona Oeste, criando uma "zona Oeste-Sul", "para que nao mais se fizesse a confusao de dizer que os bairros da Barra da Tijuca e Jacarepagua tambem pertenciam a regiao da zona Oeste" (PROJETO QUER TRANSFORMAR ..., 2016).

Esses exemplos sugerem que a localizacao territorial configura certa marca cultural, de modo que, enquanto signo, a coordenada geografica "sul" tem valor de distincao capaz de agregar uma suposta qualidade superior a quem ela e atribuida. Essa longa construcao historica teve inicio na virada do seculo XIX para o seculo XX, quando as freguesias comecaram a ser urbanizadas, expandido a cidade. Naquele processo, surgiam os suburbios cariocas, marca identitaria singular do Rio de Janeiro, cujo sentido se atualiza ate hoje por uma serie de embates simbolicos, entre os quais certo grau de diferenciacao em relacao ao "sul", seja ele epistemologico ou em relacao a imagem projetada da cidade. Segundo a proposta desenvolvida aqui, as disputas em torno desse territorio simbolico apontariam justamente para sua riqueza cultural.

Para tentar sustentar esse argumento, o artigo investiga os processos identitarios que se desenvolveram discursivamente entre 2015 e 2017 na fanpage do Facebook "Suburbano da Depressao" (SD), uma pagina de humor dedicada ao conjunto de bairros que o carioca identifica como "suburbios". Enquanto objeto empirico, a pagina tem aqui duas funcoes. Em primeiro lugar, ela se apresenta como pretexto para uma serie de articulacoes discursivas, portanto e entendida aqui como mediacao. Em segundo lugar, funciona como rastro que permite ao pesquisador observar processos de comunicacao que se deram no passado e que continuam se dando na medida em que continuamos a falar daquela pagina--agora na forma de artigo. Ao longo de tres anos, "Suburbano da Depressao" foi acompanhada semanalmente. Foram selecionados posts (com seus comentarios), de modo tematico, quando trataram da questao identitaria por meio do debate acerca da definicao de certo territorio cultural. O objetivo foi tracar os principais embates em torno do conceito de suburbio carioca, para alem de quaisquer definicoes geograficas, urbanisticas ou administrativas. A reflexao se insere numa perspectiva culturalista, de estudos de linguagem e cidade, e nao tem a pretensao de desenvolver questoes tecnologicas.

A relacao entre um norte e um sul cultural e parte fundamental dos estudos decoloniais, que propoem uma redistribuicao geopolitica do pensamento (MIGNOLO, 2002, 2008, 2017). Embora esta breve reflexao nao se alinhe totalmente a essa corrente teorica, foram autores como Mignolo e Boaventura de Sousa Santos que inspiraram, de duas formas, o esquema argumentativo deste artigo. Em primeiro lugar, porque tentamos lancar a perspectiva decolonial sobre a microescala da cidade do Rio; em segundo, porque a ideia da desobediencia epistemica decolonial (MIGNOLO, 2008) permitiu pensar conceituacoes populares sobre os suburbios para alem do debate academico. Por isso, invertemos a logica epistemologica de um norte cientifico (SANTOS; MENESES, 2010), usando como base teorica nao apenas as contribuicoes dos proprios usuarios ao estabelecerem um dialogo nos comentarios da fanpage, mas partindo tambem da reflexao do dono da pagina, Vitor Almeida. Ele rejeita tanto uma concepcao geografica quanto uma classificacao dos suburbios por estratificacao social, deslocando seus criterios definidores da esfera do lugar para os atores sociais. Surgiram, em SD, alguns conceitos interessantes, como "reliquismo" e o carater "moralizante" de objetos e praticas, que dialogam diretamente com expressoes da cultura popular dos suburbios cariocas, como no item "Icones suburbanos".

Para Almeida (2016), o suburbano se caracterizaria por aquele individuo que quebra protocolos e sua pagina esta repleta desses exemplos. A quebra de protocolo ja comeca pela iniciativa de Almeida de extrapolar a ambiencia digital de SD para outra plataforma mais estavel: o livro. Tentamos aqui seguir pistas dos embates identitarios que se deram na relacao entre os posts e os comentarios na fanpage, bem como a leitura que Almeida fez desses processos no livro homonimo por ele publicado.

Como fundamento teorico, partimos do principio dialogico da comunicacao (BAKHTIN, 2009) para entender que os comentarios em SD pertencem a cadeias discursivas que atualizam, ao mesmo tempo que se ancoram, em imaginarios sobre os suburbios. Acreditamos que, metodologicamente, este trabalho se aproxima da proposta de Recuero e Soares (2013) quando montam uma estrategia com base na analise do discurso mediado pelo computador (CMDA), embora tenhamos nos mantido apenas em Bakhtin. Buscamos, nos posts e nos comentarios, discursos citados, isto e, comentarios anteriores ou discursos previos em circulacao que, muitas vezes, so podem ser capturados a partir de rastros de reacoes a eles. Procuramos entender as taticas de antecipacao do discurso do outro tanto nas "provocacoes" que alguns posts mobilizavam quanto na defesa de certos pontos de vista por parte dos comentadores, a quem interessava marcar, as vezes, a diferenca em relacao ao resto da cidade e, em outros momentos, a continuidade. Em outros momentos, acentuava-se a pluralidade interna ao se buscar demarcar o desenho movel dessas fronteiras suburbanas. Outras vezes, foram os objetos em circulacao naquele territorio que serviram como marcadores culturais (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2009) de uma suburbanidade, especie particular de modernidade descolonializada (MIGNOLO, 2008), como se vera em alguns exemplos.

Definicoes de suburbio

Criada em 2012, "Suburbano da Depressao" tinha 363.258 seguidores no inicio de 2019. O fenomeno se inscreve num conjunto mais amplo de fanpages dedicadas a cidades. Oliveira (2015) estuda as fanpages no Facebook "Fortaleza Nobre", de Fortaleza, e "O Rio de Janeiro Que Nao Vivi", do Rio de Janeiro, sob a otica da nostalgia. Ja Carvalho (2017) usa a fanpage "Sao Goncalo Da Depressao" para pensar cidadania e critica social por meio do humor. Rabello, Oliveira e Musse (2014) analisam "Maria do Resguardo", de Juiz de Fora (MG), problematizando questoes de memoria. Tambem pensando a descentralizacao da producao de memoria sobre a cidade, desta vez num perfil sobre o Rio de Janeiro no Instagram, Gauziski, Amaro e Goncalves (2013) trabalham com a materialidade fotografica. Sobretudo os dois primeiros parecem compartilhar a logica da mediacao (MARTIN-BARBERO, 1997), tao central para a virada cultural na comunicacao e na qual esta reflexao se fundamenta. Porem, cada um desses trabalhos estabeleceu abordagens metodologicas proprias. O que se acentua aqui, em referencia ao caso de "Suburbano da Depressao", e o carater intertextual em torno das definicoes dos suburbios cariocas e como essas definicoes sao encenadas em objetos e conceitos do cotidiano. Assim como nesses outros trabalhos, nao trilhamos os compartilhamentos dos posts. Nosso recorte foram as discussoes fechadas dentro da propria pagina.

Em 2018, o gestor Vitor Almeida colocou uma capa em SD que parecia tentar delimitar seu recorte de atuacao. A imagem apresentava uma montagem com quatro fotografias de diferentes bairros, um texto escrito "Zona Norte--Zona Oeste--Baixada" e um eloquente mosaico. A solucao conceitual do mosaico apareceu depois de concluido este estudo, mas a historia de sua formacao e longa. (2) Desde o inicio do nosso monitoramento, em 2015, havia, na fanpage, grande tensao em torno das definicoes sobre os suburbios cariocas, tema sensivel, que mobiliza paixoes por parte de seus moradores. Porem, em vez de tentar chegar a um consenso ou escolher uma das inumeras concepcoes ja debatidas, acentua-se aqui exatamente essa tensao e a intensidade dos afetos envolvidos nesses embates. Identificamos, em SD, pelo menos tres grandes linhas argumentativas que desenham o entendimento sobre os suburbios: a primeira, uma divisao de classe traduzida geograficamente no territorio; a segunda, uma definicao geografica que teria nas duas linhas ferroviarias o traco definidor dos suburbios; por ultimo, uma associacao mais recente a ideia de zona Norte. Nenhuma delas se sustenta sozinha, muito menos traduz ontologicamente essa experiencia cultural chamada suburbio. Seus limites ultrapassam as tres definicoes, gracas tanto a dinamica do conceito quanto a dinamica do proprio territorio cultural. (3)

No entanto, essas definicoes povoam de fato o imaginario. Um marco historico aceito como o auge da dicotomia norte/sul, que se perpetuaria e, ao mesmo tempo, se confrontaria ao longo de todo o seculo seguinte, teria sido a gestao do prefeito Pereira Passos (1902-1906). A chamada "zona Sul" se caracterizava ate entao como um balneario com algumas mansoes esparsas e tambem era chamada de suburbio ou de freguesia. Enquanto isso, a grande expansao habitacional se dava principalmente no sentido norte, acompanhando as linhas costeira (Leopoldina) e continental (Central do Brasil) do trem, que ja existiam desde metade do seculo XIX. Cada qual com suas particularidades, essas regioes assumiam gradativamente feicoes urbanas, repletas de contradicoes e com recursos infraestruturais desiguais.

Aos suburbios do norte restavam poucos investimentos, apesar de sua disparada demografica. Os bairros que margeavam o ramal ferroviario da Leopoldina cresceram populacionalmente 293% somente entre 1890 e 1906 (SILVEIRA, 2009). A imprensa local da virada do seculo tinha clareza sobre a distribuicao desigual de investimentos publicos e surgiu, naquele momento, uma profusao de jornais de bairro, semanarios e revistas literarias destinadas a defender os interesses dos moradores dos suburbios. Segundo Mendonca (2014), pode-se classificar essas dezenas de semanarios em tres principais grupos: um grupo literario, dedicado a promocao da cultura dos bairros dos suburbios; uma imprensa sindical, ligada aos operarios que moravam nesses bairros, onde havia grandes fabricas e vilas operarias; e um terceiro grupo voltado para a defesa dos interesses do comercio local e da populacao em geral.

Esse terceiro grupo reivindicava investimentos publicos, enquanto a zona central passava pela famosa Reforma Passos, um conjunto de obras de remodelacao do Centro a luz de uma idealizacao sobre o que era modernidade--uma modernidade evidentemente europeia, sobretudo parisiense, reproduzindo por aqui a logica do pensamento colonizado, criticada pelos decolonialistas (MIGNOLO, 2008). Porem, esses jornais ja procuravam valorizar uma identidade suburbana e deixavam isso muito claro ao escolherem como titulo das publicacoes o termo "suburbio", reivindicando, assim, um lugar de pertencimento. Sao alguns exemplos: Tribuna Suburbana e Jornal Suburbano (Madureira), Echo Suburbano (Engenho de Dentro), O Suburbano (Ilha do Governador, Meier, Madureira, Inhauma), Progresso Suburbano (Piedade) e Revista Suburbana (Meier). O Suburbano da Ilha do Governador e um exemplo que contraria a narrativa que se popularizou a partir da decada de 1950 de que os suburbios seriam os bairros a margem da linha da Central do Brasil, pois, em sendo uma ilha, aquele bairro obviamente nao tinha ferrovia (MATHEUS, 2016/2017).

Essa classificacao e, portanto, extremamente dinamica e SD entra nesse jogo de disputas pelas definicoes desse espaco, ao mesmo tempo que se configura como uma arena de luta simbolica devido aos debates que ali se dao. Bairros que foram considerados suburbios no passado podem eventualmente nao mais ser. O proprio desenho territorial dos bairros foi mudando ao longo dos anos. A regiao tambem nao coincide espacialmente com a zona Norte, pois inclui bairros da zona Oeste e nem todo bairro da zona Norte pertence ao suburbio historicamente falando, embora tenhamos percebido a crescente aceitacao dessa sobreposicao pelos seguidores de SD. Ao procurar por "suburbio Rio de Janeiro" na Wikipedia, aparecem listados 99 bairros, entre eles alguns da zona Oeste e sem trem, enquanto, oficialmente, a zona Norte abarca apenas 87 bairros (Decreto municipal no. 3.158/1981). Portanto, e preciso deixar claro que suburbio e um territorio simbolico que se encontra numa intersecao entre o conjunto de bairros da zona Oeste e o conjunto de bairros da zona Norte. Alem disso, uma definicao ainda aceita por moradores mais antigos e que somente os bairros que margeiam a Central do Brasil seriam suburbio. Porem, enquanto territorio simbolico, talvez seja inutil procurar um tracado espacial definidor dos suburbios, uma vez que eles habitam o terreno da imaginacao.

Essas contradicoes aparecem nos posts, que sao compostos, em parte, por memes (conjunto visual de texto sobre fotografia inscrito pelo humor), embora as publicacoes, as vezes, sejam so texto e, outras vezes, uma ou mais fotografias (em montagem) com um texto separado no corpo do post (nao por cima da fotografia). Essas fotografias, em geral, foram feitas em diferentes ambiencias suburbanas, tanto em espacos publicos quanto privados. Nao foi encontrada nenhuma postagem com recurso sonoro. (4)

"Suburbano da Depressao" vai contra o criterio da linha do trem. Uma seguidora argumenta que, se assim fosse, toda a Europa seria suburbio, retirando a singularidade do fenomeno carioca ao acionar uma aplicabilidade universal ao conceito. Em resposta, outro seguidor defende que o tracado ferroviario e sim fator definidor dos suburbios cariocas. Outros seguidores comecam, em seguida, a listar seus proprios bairros como nao tendo linha de trem, porem reivindicando uma identidade suburbana. Assim, os interagentes (PRIMO, 2005) discutem entre si, acionados pelo post. Essas relacoes intertextuais se dao em multiplos niveis, a comecar pelo proprio dialogo entre linguagem verbal e nao verbal do meme (Figura 1), alem do fato de esse conjunto visual ja ser uma resposta--ironica--a suposta tese definidora de a linha do trem ser condicao necessaria de suburbanidade.

A suposta diferenca de classe tambem e relativizada em SD. Embora haja, no senso comum, uma percepcao de distincao economica em relacao a zona Sul, os suburbios cariocas foram formados sobretudo pela classe media. Lima (2014), porem, recupera a ideia de estratificacao social para pensar a heterogeneidade dentro dos proprios suburbios. A autora lembra que a dinamica economica entre diferentes bairros suburbanos e dentro de um mesmo bairro impoe ao tecido social diferentes temporalidades de acordo com diferentes processos de ocupacao e de atividades economicas historicamente diversas. Ou seja, por processos singulares de modernizacao. No Rio de Janeiro, o Sul e o Norte. E esse imaginario que permite a eventual referencia a Barra da Tijuca, por exemplo, como a "Zona Sul da Zona Oeste". E o que autoriza, por mimetismo, os moradores da cidade vizinha, Niteroi, chamarem de Sul sua regiao Oeste, como o bairro de Icarai. E o que causou indignacao aos moradores do Flamengo quando, em 2016, a Prefeitura chegou a retirar sua administracao das maos da 4a Regiao Administrativa (RA)--a chamada Zona Sul--, transferindo-o para o Centro. Foi tambem o no do problema quando, em outubro do mesmo ano, um projeto de lei propunha a separacao administrativa da Barra da Tijuca, Jacarepagua e Recreio do restante da Zona Oeste, criando uma "Zona Oeste-Sul", segundo a justificativa, "para que nao mais se fizesse a confusao de dizer que os bairros da Barra da Tijuca e Jacarepagua tambem pertenciam a regiao da Zona Oeste". (EXTRA, 15/10/2016, online). Essa e uma caracteristica muito particular da cidade do Rio de Janeiro: um mesmo bairro integrando grupos que se percebem como economicamente distintos. O que parece claro, entretanto, e que, independentemente da adocao ou nao de uma nocao de estratificacao que substitui simplisticamente o conceito de classe, a ideia de subalternidade e rejeitada (MAIA; CHAO, 2016). Ainda que o conceito de suburbio, a partir de seu dominio tecnico, pudesse indicar certo grau de urbanizacao (sub-urbano), seu uso corrente e muito mais amplo do que isso. Do ponto de vista geografico, o conceito se refere as areas que circundam concentracoes urbanas onde se consideraria haver um deficit infraestrutural (SOTO, 2008).

Como o autor explica, mesmo esse criterio tecnico nao serve para definir os suburbios de maneira geral, pois algumas regioes classificadas como tal em outras cidades sao, muitas vezes, altamente urbanizadas. Esse e o caso dos suburbios cariocas, ainda que tenham contado com graus diferenciados de investimento publico ao longo da historia. O que muitas vezes nao se compreende e que os suburbios cariocas sao um fenomeno particular, cuja ideia nao e aplicavel ao resto do mundo. E mesmo esse conceito carioca se encontra em permanente disputa ha mais de 100 anos. A Barra da Tijuca, por exemplo, que nao e tradicionalmente parte dos suburbios, ate porque e um bairro muito novo--mas, que se fosse adotada a perspectiva tecnica, poderia ser classificada como suburbio--, somente nos ultimos anos vem recebendo esgotamento sanitario. Por outro lado, os chamados suburbios cariocas sao altamente urbanizados. Pensando de modo decolonialista, eles nao sao o "efeito colateral" do progresso na regiao Centro-Sul, mas parte do mesmo processo modernizador, intrinsecamente cheio de contradicoes. A relacao do morador do Rio de Janeiro com sua cidade nao se reduz a um criterio de urbanizacao. Os suburbios cariocas dos quais tratamos nao sao um conceito urbanistico. Trata-se de um conceito cultural construido cotidianamente por seus moradores, assim como por aqueles que la estiveram so em imaginacao.

A disputa continua. Na publicacao de 11 de novembro de 2015 (Figura 2), SD defende que Barra da Tijuca e Recreio sao suburbios, retomando, de alguma forma, a concepcao original do termo empregado no seculo XIX, como sinonimo de arrabalde, freguesia, periferia. Houve quem argumentasse, nos comentarios, que "elite e so zona Sul, o resto e suburbano", mais uma vez fazendo coincidir a questao da estratificacao social, o que nao necessariamente esta implicado no conceito. Alem disso, outros comentadores argumentam que quem ocupou a Barra foram suburbanos que enriqueceram, apontando para uma contiguidade cultural. No caso da Figura 2, o dialogo provavelmente se da com todo o repertorio de artistas populares que apontam o dedo ao posar para fotografias, o que remeteria tambem, por sua vez, ao famoso cartaz de 1917, com a personificacao norte-americana do Tio Sam apontando o dedo: "I Want You for U.S. Army". Alem disso, ha a referencia a letra da musica gravada pelo cantor Wesley Safadao, "Aquele 1%". O uso da imagem do artista agregaria autoridade a mensagem, dentro daquilo que seria um regime cultural de autenticacao, tributario do popular (APPADURAI, 2008).

E preciso insistir na diferenca entre um debate conceituai cientifico e um debate conceituai operacional do cotidiano, sendo este ultimo o que nos interessa, embora um se infiltre no outro em alguma medida. Um conceito cientifico e sempre ligado a uma teoria--por exemplo, sobre urbanizacao--e mesmo esses conceitos mudam ao longo do tempo pelos modos como sao apropriados e pela transformacao dos proprios fenomenos aos quais servem de abstracao. O mesmo ocorre com os conceitos do senso comum, essa forca pratica cotidiana que permite intervir no mundo. Resumindo Koselleck, Jasmin e Feres Junior (2006) explicam que um conceito pode mudar porque o estado de coisas mudou ou por causa de uma dinamica do proprio conceito.

Os suburbios que nos interessam nao sao abstracoes cientificas. Sao modos de vida e saberes praticos no sentido bourdieusiano. E o senso comum (GEERTZ, 1997), um saber pratico, ao qual se chegou por experiencia ou transmissao de experiencia. Ele e um sistema cultural que se caracterizaria, entre outras formas, pela nao metodicidade. Nele, a contradicao nao e um problema. Por isso, nao se pode esperar que haja um consenso acerca das definicoes correntes sobre os suburbios, pois a contradicao e intrinseca a vida social. Por outro lado, Geertz tambem atribui ao senso comum o carater de um conhecimento que parece natural. Isso significa que nao se cogitaria uma interpretacao diferente em relacao a algum aspecto da realidade, o que nao se aplica ao conceito de suburbio, que se encontra em estado permanente de intensas disputas. Interessa aqui, portanto, um saber pratico (BOURDIEU, 1996), um conjunto que referencias que operacionalizam o cotidiano, muito mais que um debate cientifico sobre as fronteiras desses suburbios cariocas.

A Figura 3 e composta a partir da logica da autoironia (AMARAL, BARBOSA, POLIVANOV, 2015) e trata de um dos maiores conflitos na fanpage, que diz respeito a posicao simbolica da Tijuca. Enquanto o gestor defende, numa postagem de marco de 2015, a sobreposicao integral da zona Norte ao suburbio, afirmando que a Tijuca a ela pertence, outros usuarios discordam.

Alo galera do "Suburbio e todo bairro que tem linha de trem": esse conceito nao existe mais, afinal nao foram os bairros que cresceram decorrentes das paradas da linha ferrea, mas as paradas que foram instaladas decorrentes das demandas dos bairros. Alo, vamos estudar ae! (SD, 14 mar. 2015).

Uma seguidora discorda: "Suburbio sao todos os bairros beirando a linha do trem", o que SD responde: "Conceito desconsiderado ja faz algum tempo. Vamos atualizar essa bibliografia", ate que aparece um seguidor que reage a definicao cientifica a qual o gestor apelava em seu argumento: "Nao e terminologia desatualizada, e terminologia classica!".

Com excecao do gestor da pagina, que se identificou ao publicar o livro, nao revelamos os nomes dos comentadores por questao de privacidade, uma vez que nao temos autorizacao para usar seus nomes. (5) Por se tratar de material empirico, os erros ortograficos e gramaticais foram preservados. Eles revelam o carater da oralidade secundaria (ONG, 2002), tao evidente na cultura midiatica e seu tributo a expressividade popular.

A: Exato! E como seriam classificados os bairros do Lins e Cachambi, por onde nao passam a linha ferrea? Sao bairros do suburbio do RJ, e nao tem estacao de trem.

B: Suburbio no sentido original e todo bairro afastado do centro, entao seguindo essa logica seria suburbio a zona sul tambem. O choro e livre.

C: Sao Cristovao e suburbio entao? RS Suburbio na definicao mundial sao regioes longe do centro da cidade, independe de trem. Existem bairros ricos que sao graciados pela malha ferroviaria. Existem bairros ricos no suburbio no RJ, no BR, no mundo.

D: O Lins nao e suburbio entao? La nao passa trem.....

E: Aonde que a Tijuca e longe do Centro?! Kkk ... tenho que rir e Sao Cricri e suburbio da Leopoldina ... Bangu como zona norte tambem e otimo ... rsrs. amo essa pagina!

F: No Lins passa trem sim :D

G: Chegamos a uma contradicao. O centro e suburbio que nao fica longe de si mesmo. :o

II: Acabei de descobrir que Vila Isabel tbm nao e suburbio, pois nao tem trem.

I: E Cachambi, Engenho da Rainha, Vila da Penha, Acari ... kkk (SD, 14 mar. 2015).

O debate, que se estende ate dia 16 de marco, revela convergencias e divergencias entre algumas linhas argumentativas. Primeiro, percebe-se uma nitida divisao entre aqueles que pensam um conceito ampliado de suburbio, que, em parte, se confunde com o conceito de periferia, e outros que pensam a singularidade do fenomeno carioca. Destes, ha nova subdivisao entre aqueles que adotam ou nao o criterio da linha do trem. Tanto na definicao generalista quanto na particularista, surge o atravessamento da opcao pela estratificacao economica: se se deve ou nao associar suburbio a alguma posicao de classe (aqui no sentido bourdieusiano).

Icones suburbanos

No livro Suburbano da depressao: causos, contos e cronicas, Vitor Almeida, gestor da fanpage, traz esse debate na introducao e, por falta de consenso, propoe brilhantemente o deslocamento de uma definicao geografica para caracterizacoes em torno das praticas sociais. Ele relata uma percepcao pessoal sobre um novo modo de apropriacao discursiva dos suburbios por parte da Prefeitura a partir de 2010 por conta da proximidade dos megaeventos que aconteceram na cidade. O divisor de aguas teriam sido as megaoperacoes policiais nos complexos de favelas da Penha e do Alemao, quando se tentou estabelecer o mito da "reintegracao" daqueles territorios (MATHEUS; SILVA, 2013). Os jornais passaram a tratar a zona Norte com euforia, como nova area de interesse comercial e turistica, com uma serie de reformas, incluindo a construcao do parque de Madureira e a instalacao do sistema de transporte BRT (onibus de corredor exclusivo no Rio). Como aponta Almeida (2016), tentava-se integrar um repertorio suburbano a imagem estereotipada do Rio de Janeiro das novelas de Manoel Carlos (fundamentalmente cenarios da zona Sul). Se, por um lado, ganhava-se em diversidade de representacao, por outro, afirmavam-se novos estereotipos. Alem disso, tentava-se instaurar uma integracao supostamente inedita que, na pratica, sempre existiu. "Sempre estivemos aqui," afirma Almeida (2016, p. 15).

O livro se divide em duas partes: a primeira discute temas polemicos que surgiram na fanpage, enquanto a segunda tem carater mais literario, ainda que com inspiracao no mesmo universo cultural de SD. Sao apresentadas praticas que, segundo Almeida, representariam a quebra de protocolos (de praticas e usos dos objetos culturais). Essa perspectiva se alinha a ideia de Michel de Certeau (2008) acerca da cultura popular, marcada pela grande capacidade de adaptacao e de reinvencao do cotidiano em funcao das dificuldades concretas enfrentadas pelas classes trabalhadoras. Sao recursos que apontam para uma inteligencia pratica da qual falamos anteriormente. Tambem tem afinidade com a ideia da gambiarra como inteligencia tecnologica descrita por Messias (2017). Embora o autor esteja pensando jogos eletronicos, esta presente em seu conceito de gambiarra a premissa da personalizacao, de modo intimo e ludico. E essa customizacao tendendo a diversao que se encontra nas praticas apontadas por SD, alem do aspecto ludico da propria rememoracao dessas taticas cotidianas. Essa forma indireta de ludicidade estaria na propria forma como se apresenta a fanpage, pautada pelo humor justamente para tentar impregnar o cotidiano de solucoes mais leves. Ainda que, nessas postagens, possa eventualmente haver alguma dose de efeito estereotipante do morador dos suburbios, como nos foi questionado, (6) rejeitamos que o humor apareca ai como deboche. Pelo contrario, parece haver uma positivacao do sentido atribuido ao conceito de suburbio. O riso que essas postagens podem provocar e nitidamente o riso critico carnavalesco de Bakhtin (2008), capaz nao somente de rir de si proprio, mas, sobretudo, de subverter as hierarquias dos espacos no Rio de Janeiro. Pelo riso, o Norte carioca passa a ser Sul. Passa a ser seu proprio Norte global.

Tentando reproduzir o registro oral, Almeida conta, no livro, "causos" como o da macarronese (prato feito a base de macarrao fusilli em substituicao a batata), um classico suburbano segundo ele; as sessoes de defumacao; as festas infantis, entre outros. Algumas dessas narrativas reverberam primeiro na fanpage como lugar de teste, mobilizando novas historias ao lado de um conjunto de icones suburbanos que vao desde a bacia de aluminio (Figura 6), em que toda crianca ja tomou banho, passando pela cantora Alcione e pelo musico Zeca Pagodinho ate o ex-jogador de futebol Adriano, considerado o rei dos suburbios por ter abandonado a Italia para voltar a viver na Vila Cruzeiro. Tal atitude e celebrada na fanpage como demonstracao de honestidade por parte do jogador ao assumir o que o fazia feliz, sendo prova, por isso, das qualidades dos suburbios e do amor de seus moradores pelo lugar. Discute-se, por exemplo, se a pessoa se mudaria para a zona Sul caso tivesse oportunidade, ao que os usuarios respondem que nao. Entao, surgem memes com provocacoes tanto em relacao aos bairros de la quanto de parte do proprio suburbio.

Apesar da presenca dos memes, os posts a partir dos quais se dava o debate em torno da definicao de uma qualidade suburbana eram compostos por fotografias com texto e legenda de objetos que encarnariam um estilo de vida suburbano (Figuras 6 a 10). Um importante objeto presente nas casas suburbanas e o ventilador, elevado, em SD, a condicao de icone cultural. Ele se apresenta a partir de multiplos modos de uso, incluindo acelerar o degelo do freezer e ser usado na janela para aumentar a troca de ar numa tentativa de funcionar como ar-condicionado. Diante do post de um ventilador, os seguidores da pagina imediatamente responderam mandando fotografias de seus modelos, transformando a postagem numa especie de catalogo de uma arqueologia domestica popular.

Esses objetos, tais como a bacia de aluminio (Figura 6), o copo de geleia ou os ventiladores apoiados nas janelas, sao elevados nas discussoes a categoria de icones suburbanos, dentro daquilo que Appadurai (2008) chamou de regimes de valor. Eles operam sentidos dentro de determinados quadros culturais. Segundo o autor, "as coisas em movimento elucidam seu contexto social" (APPADURAI, 2008, p. 17). Nesse caso, imagens e sentidos dos ventiladores na janela, cujas fotografias sao postadas nos comentarios pelos interagentes em resposta ao post de Vitor Almeida, agenciam valores comuns. Ao darem ciencia de tais sentidos e modos de uso, as pessoas performatizam seu pertencimento aos suburbios. Dessa forma, esses moradores afirmam positivamente sua identidade pela logica da autoironia mencionada anteriormente, fazendo ao mesmo tempo com que esses objetos desenhem identidades e inscrevam seu proprio pertencimento a essa cultura suburbana. Ao exibir proficiencia nessa linguagem do ventilador de janela, a pessoa tambem se inscreve nesse territorio cultural.

Os embates culturais em SD se caracterizam por tentar definir a autenticidade ou a aura instauradora de identidade de uma serie de objetos, desde os vestuarios mais tipicos ate a alimentacao. Esses objetos passam a performar uma biografia cultural (APPADURAI, 2008). Um desses confrontos foi biscoito Globo versus biscoito Fofura, este como representante do suburbio, aquele da zona Sul. Dicotomia essa que aparece nas redes sociais em outros contextos, com outras formas, como "nutella" versus "raiz." Para garantir a autenticidade desse consumo, o Fofura deveria ser acompanhado do refresco Guaraviton em vez de outros considerados mais "chiques".

A: Biscoito Globo foi mais um item que a Patrulha da Gourmetizacao conseguiu tirar do povao.

B: Sim, principalmente depois que mudaram pra esse saquinho branco om mesmo era aquele transparente que vc tentava abrir e espatifava tudo

C: Nao sei se ainda existe, nao sei nem se era fofurao, mas quando eu era crianca tinha um fofura que era doce, uma copia do froot loops muito melhor do que o original. Todo colorido. Sera que sonhei com isso em alguma composicao do trem ate Campo Grande ou existiu mermo?!

D: Ah nao cara, nada supera o Guaracamp, desculpa ai ... Quando morava em Big Field nem tinha cao

E: Guaraviton e muito caro, tem que ser Muzzy mesmo! Hahaaha (SD, 31 out. 2016).

O que parecia estar em jogo era o quao tradicional a pratica pode ser, numa disputa sobre o grau de representatividade dos suburbios que esses produtos encarnam. Esse sentido de tradicao sera discutido adiante sob o conceito de "reliquismo". O importante e perceber que ha ai pistas para se entender as dinamicas do consumo, o valor simbolico dos objetos e seu circuito de distribuicao. Podemos dizer que a circulacao de um objeto de consumo e da marca tambem desenha territorios e e por ele desenhada. Esses bens e objetos, em geral, "sao dotados de valor pela concordancia dos outros", diriam Douglas e Isherwood (2009, p. 123).

Em SD, os comentadores dao anuencia a essa valoracao "reliquista" dos objetos, que, por sua vez, passam a contribuir para o sistema de classificacao e hierarquizacao do territorio no instante mesmo desses gestos de significacao.

Fontes de reliquismo

Uma das caracteristicas mais marcantes expressas em SD sobre a cultura suburbana e a velocidade e a riqueza na criacao de universos semanticos. Acompanhavamos SD desde 2015 quando, no final de 2017, nos deparamos com a configuracao de um conceito nunca antes escutado: reliquismo. Ao que parece, reliquismo seria o atributo de objetos ou de praticas que carregariam o patrimonio cultural dos suburbios. Em vez de estar "guardado" em museus, o patrimonio suburbano estaria salvaguardado pela tradicao em vestimentas e habitos, como aquele de reaproveitar embalagens de vidro de milho em conserva ou copos de geleia. No caso das roupas, SD descreve os vestuarios classicos feminino e masculino:

Mais um registro para nossa enciclopedia antropologica do suburbanismo:

A tia da bolsinha "tira colo"!

Blusinha soltinha, cabelo vermelho com a raiz branca, e o registro foi mais produtivo pois ela conversava com suas companhias sobre "a morte do marido da Fatima", cujo velorio vai ser hoje, no Caju.

Patrimonio!

Preservamos, cultuamos, registramos, cultivamos e, acima de tudo, GOSTAMOS! (SD, 10 maio 2017).

Importa menos a fidedignidade a uma suposta tradicao imaginada e mais o proprio desejo de representa-la, formulando um passado comum que garantiria a identidade do grupo ao se reconhecer naquelas roupas. O valor da tradicao tem pouca relacao com qualquer vinculo efetivo com o passado remoto (HOBSBAWM; RANGER, 1984). E quase impossivel, no Brasil, nao ter usado ou nao ver com frequencia aquele conjunto de legging com camisa larga por cima e uma pequena bolsa transversal, tendo pouco a ver, portanto, com o passado de fato.

O conceito de reliquismo parece encenar principios altamente codificados de regras de usos dos objetos para que recebam uma autenticacao suburbana. No caso masculino, SD (27 set. 2017) descreve o vestuario masculino que seria uma verdadeira "armadura reliquista: Bermuda caqui e cinto marrom, com a chinela branca de respeito". Para usar esse tipo de roupa, seria necessario ser dotado de autoridade suburbana, o que entendemos como certo grau de respeito as tradicoes capazes de marcar inequivocamente um suburbano. Portanto, nao seria qualquer um que estaria autorizado, pela tradicao e pelo respeito, a porta-la. Nao poderia haver mecanismo mais claro de estabelecimento de marca identitaria com praticas de consumo. Por outro lado, esses objetos tambem emanam uma especie de aura do passado. O termo "reliquismo" deve derivar da ideia de reliquia.

Segundo Pomian (1997), existiria uma dimensao sagrada na reliquia e uma capacidade de portar uma especie de aura de um passado imaginado. Entre esses icones sagrados do vestuario suburbano estaria um tipo de calcado singular ao qual a pagina e seus comentadores atribuem um "carater moralizador". O "pisante moralizador" (Figuras 12 e 13) teria duas opcoes de uso: sem meias, para o verao, e com meias, para o inverno. O par de meias seria o unico "agasalho" necessario no Rio, onde nao faz frio. Segundo o texto do post, a imagem seguinte (Figura 13) foi publicada de emergencia devido ao "peso historico e cultural". Fica claro que grande parte desses registros e feito por seguidores de SD que enviam as fotografias. Algumas sao identificadas com os nomes dos fotografos, mas, pelos motivos ja apresentados, optamos por nao reproduzi-los. De todo modo, a autoria das fotos se encontra nas postagens originais.

Consideracoes finais

"Suburbano da Depressao" integra um fenomeno recente em que bairros e cidades ganham fanpages dedicadas ou a memoria historica ou a dinamica contemporanea. Nao pretendemos dar a essas fanpages nenhuma centralidade nas dinamicas identitarias, apenas ilustrar que as interacoes que se dao nas redes sociais podem permitir que rastreemos essas correntes semanticas que dao sentido ao cotidiano. Isso ocorre nao porque as fanpages dedicadas a cidades supostamente "representem" esses lugares, mas porque, por mecanismos de intertextualidade, parte das correntes discursivas presentes na sociedade atravessa tambem as redes sociais. E pela sua configuracao interativa, acreditamos ser possivel enxergar com mais clareza e de modo concentrado--como um microcosmo --grandes embates que se dao no cotidiano--que inclui o proprio mundo digital. Sabemos que a reflexao poderia ter sido inscrita dentro de um conjunto diferente de problematizacoes, a partir de quadros referenciais relacionados ao funcionamento geral de fanpages, do proprio Facebook ou mesmo das redes sociais em geral, da cultura digital ou da cultura participativa. Entretanto, deixamos esses dialogos para outros momentos.

Na introducao do seu livro, Vitor Almeida afirma que nao reivindica um papel de representante dos suburbios. Mas acreditamos que SD cumpre a funcao de positivar o conceito de suburbio. De la surgiram hashtags de manifestacao de orgulho suburbano e carioca, tais como "O Rio e o meu pais" e "Escolhi suburbanizar". De fato, o suburbio introduz inumeras variaveis a imagem do Rio de Janeiro para alem das telenovelas, com opcoes mais plurais. Esse imaginario ultrapassa as fronteiras dos suburbios cariocas. Talvez a totalidade das praticas descritas em SD e reivindicadas como suburbanas sejam, no fundo, apenas expressoes da cultura popular. Quantos de nos nao tomaram banho de bacia ou usaram ventilador para descongelar a geladeira? Quem nunca tomou cafe em copo de geleia ou colocou o ventilador na janela? Mas parece que o que SD quis fazer foi justamente buscar uma singularidade cultural, funcionando como ferramenta de combate as representacoes governadas pela zona Sul. "Suburbano da Depressao" representa um exercicio de pensamento, de consciencia do lugar de onde se luta, um potente mecanismo de subversao dos polos norte-sul sociais, semanticos e epistemologicos.

DOI: 10.18568/CMC.V16145.1869

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Sobre a autora

Leticia Cantarela Matheus--Professora do Programa de Pos-graduacao em Comunicacao da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCOM-Uerj), doutora em Comunicacao pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Data de submissao: 16/09/2008

Data de aceite: 12/02/2019

Leticia Cantarela Matheus (1)

(1) Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-2860-2607. E-mail: leticia_matheus@yahoo.com.br

(2) Depois de concluido este estudo, Vitor Almeida ainda incorporou ao repertorio suburbano de SD a Baixada Fluminense (sete municipios), como indica a nova capa da fanpage. Essa nova condicao do objeto nao e tratada aqui.

(3) Sobre formacao e definicao dos suburbios cariocas, cf. Moreira (2013), Fernandes (2011), Abreu (2003), Domingues (1994/1995).

(4) Os memes foram abordados teorica-metodologicamente a partir de multiplas chaves interpretativas: segundo uma logica autoral (CHAGAS, 2015), por funcao retorica (CHAGAS et al., 2017), segundo a memoria pela via da analise do discurso francesa classica (BORTOLIN e FERNANDES, 2017), como aforismos (incluindo elementos semioticos das imagens), pela via da analise do discurso de Maingueneau (BOENAVIDES, 2018), pelas caracteristicas dinamicas das proprias redes sociais (RECUERO, 2007), entre outras operacoes intelectuais.

(5) Para ilustrar este artigo, deixamos de lado fotografias em que aparecia o rosto de moradores em seus afazeres domesticos. A excecao no uso da imagem foi o meme com Wesley Safadao por ser uma figura publica.

(6) Debate que teve lugar no coloquio internacional "Modos de ser Sul: territorialidades, afetos e poderes", realizado em outubro de 2017 pelo PPGCOM-UFF.

Caption: Figura 1: So bairro com linha de trem

Caption: Figura 2: Barra e suburbio

Caption: Figura 3: "Aceita que doi menos"

Caption: Figura 4: Provocacoes com os tijucanos

Caption: Figura 5: Comparacoes com a zona Sul

Caption: Figura 6: A bacia de aluminio

Caption: Figuras 7 a 10: Arqueologia do condicionador de ar suburbano

Caption: Figura 11: Globo versus Fofura

Caption: Figuras 12 e 13: Pisante moralizador

Caption: Figura 14: "O Rio e o meu pais"
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Author:Matheus, Leticia Cantarela
Publication:Comunicacao, Midia E Consumo
Date:Jan 1, 2019
Words:7749
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