Printer Friendly

Hibridismo na profissao de agentes comunitarias de saude no atendimento a tuberculose: entre a ordem institucional, a pratica profissional e a agencia pessoal.

Introducao

A hibridizacao, no ambito da Linguistica Aplicada das Profissoes, no campo da saude, esta relacionada a heterogeneidade discursiva, com mescla de generos, de modos de fala, de enquadres na interacao, entre vozes de aprendizes e profissionais, com multiplicidade de papeis (Misher, 1984; Labov e Fanshell, 1977; Fairclough [1992] 2001; Linell, 1998; Sarangi & Roberts, 1999a, 1999b; Sarangi, 2010, 2011). A hibridizacao aponta para a complexidade e a natureza multifacetada das praticas de trabalho na saude (Sarangi & Roberts, 1999a:62) e indica relacoes de assimetria, de desigualdade de poder e diferenciacao de conhecimento sobre as praticas. Traz tambem tensoes e contradicoes para os participantes, sinalizadas na ordem interacional dos eventos.

A profissao de agentes comunitarias de saude (ACS), embora existente desde 1970 (Giffin and Shiraiwa, 1989), passa a ter carater oficial em 1991, com a fundacao do Programa de Agentes Comunitarias da Saude (PACS) pelo Ministerio da Saude, em uma proposta de mudancas na politica de saude publica (Brasil, 1991, 1997). Os ACS devem ser moradores locais (Mialhe, 2011:57), com perfil mais social do que tecnico (Kluthcovsky e Takayanagu, 2006), o que contribui para o carater hibrido e polifonico do papel profissional dos agentes--fazer parte da equipe da saude e ser morador local (Nunes et al., 2002). De acordo com as autoras, os ACS articulam contradicoes entre duas formas de conhecimento e praticas: os saberes locais e aqueles associados ao discurso cientifico.

A atividade profissional de agentes comunitarias de saude esta vinculada ao Programa Nacional de Agentes de Saude (PNAS), que, a partir de 1992, passou a ser denominado como Programa de Agentes Comunitarios de Saude (PACS) (Rolim, 2009:34; Silva e Damaso, 2002:76), no ambito do Programa de Saude da Familia (PSF). O governo brasileiro, atraves do Ministerio da Saude, passou tambem a dar enfase ao envolvimento de organizacoes nao governamentais (ONGs) e de parcerias com organismos nacionais (Universidades, Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) (1) com o PACS. Agentes comunitarios de saude, nao vinculados ao SUS, atuam junto a ONGs e outras organizacoes filantropicas (v. Pereira e Cortez, no prelo).

O presente estudo (2) insere-se em uma pesquisa (3) de natureza qualitativa e interpretativa (Denzi, Lincoln et al [2003] 2006), de natureza colaborativa (Sarangi, 2006), realizada no Instituto Vila Rosario, uma organizacao nao governamental, filantropica (4), com sede em Duque de Caxias--RJ, com atuacao profissional de agentes comunitarias de saude no tratamento da tuberculose na regiao. Houve duas fases da pesquisa de campo--uma no periodo de setembro a novembro de 2009 (Pereira, 2009b; Cortez, 2011: 80), mediante participacao da Equipe de Pesquisa da PUC-Rio (5) em reunioes na sede do Instituto em Duque de Caxias; outra realizada por duas pesquisadoras, junto as agentes, em visitas por elas acompanhadas a residencia dos moradores (6).

Os dados para analise sao segmentos de uma reuniao realizada na primeira fase da pesquisa, em que houve interacao entre a Equipe de Pesquisa, as agentes de saude e o Diretor do Instituto. A participacao nas reunioes foi uma fase importante na pesquisa, em que as agentes falavam sobre suas praticas de trabalho, sobre as insegurancas que sentiam no cotidiano dos atendimentos, ja que a regiao e extremamente carente de recursos e atendimento social, com favelas ao redor (7), e o Diretor comenta tambem sobre os planos do Instituto (8).

A partir de atividades e papeis dos participantes, que emergem e sao co-construidos durante uma reuniao no Instituto Vila Rosario, procuramos discutir:

1) Como a discussao sobre 'hibridismo', no ambito da Linguistica Aplicada das Profissoes, se coloca em relacao a pratica profissional de agentes comunitarias de saude?

2) Como sao atribuidas e ressignificadas as atividades e papeis das agentes comunitarias de saude do Instituto, entre a ordem institucional, a pratica profissional e a agencia pessoal?

3) Como se posicionam as agentes comunitarias em relacao a sua profissao no atendimento ao tratamento da tuberculose e enquanto moradoras na comunidade em que atuam?

O objetivo do estudo consiste em buscar um olhar de dentro, da propria instituicao e dos seus profissionais, procurando mostrar como as atividades e os papeis de agentes sao concebidos e ressignificados, no curso da interacao, especialmente do ponto de vista do Diretor do Instituto e das agentes, a partir de praticas cotidianas de trabalho e de conhecimentos da atuacao social por eles parcialmente partilhados.

O referencial teorico que orienta a pesquisa tem seu ponto de partida em estudos: (i) da Linguistica Aplicada das Profissoes, especialmente na area da saude, mediante a discussao do hibridismo na pratica profissional; (ii) da Sociolinguistica Interacional, a partir dos conceitos de enquadres (Tannen & Wallat, [1987] 2002), alinhamentos (Goffman, [1979] 2002), com mudancas sinalizadas por pistas de contextualizacao (Gumperz, [1982] 2002.), em processos de mudancas de ordem micro e macro na interacao (Ribeiro e Pereira, 2002), trazendo a emergencia e co-construcao de atividades e papeis relativos a pratica profissional das agentes comunitarias da saude.

1. A nova profissao de agente comunitario de saude e seu carater hibrido e polifonico

O Ministerio da Saude (2009) define os agentes comunitarios de saude (ACS) como um dos elementos fundamentais para a implementacao do Sistema unico de Saude (SUS) no Brasil, responsavel pelo elo entre a comunidade e os servicos de saude da Atencao Primaria a Saude (APS). Esta proposta

foi consolidada com a implementacao do Programa de Saude Publica (PSF) em 1994, que ampliou a assistencia a saude a municipios pobres com necessidades de atendimento ao servico publico.

Sobre a descricao profissional dos agentes comunitarios de saude, Kluthcovsky e Takayanagu (2006) argumentam que os ACS sao "profissionais sus generis" e, de acordo com o Ministerio da Saude, devem possuir mais de 18 anos, residir na mesma area em que irao atuar, devem possuir um perfil mais social do que tecnico e ter disponibilidade total para execucao de suas tarefas (Kluthcovsky e Takayanagu, 2006: 2). Sobre suas atribuicoes profissionais, os ACS devem trabalhar em uma area definida geograficamente para poderem acompanhar familias atraves de entrevistas, visitas domiciliares, cadastramento dos individuos, mapeamento comunitario e reunioes com a comunidade (Brasil, 1991, 1997, 1999, 2003, 2004).

De acordo com Nunes et al. (2002), o Programa de Saude Publica e um modelo cuja base e a pratica da vigilancia da saude, que procura articular a acao regional de politicas publicas, atraves da incorporacao de membros da comunidade local, contribuindo, desta forma, para o carater hibrido e polifonico do papel profissional dos agentes, assim como para a tensao nas diferentes vozes. De acordo com as autoras, os ACS articulam contradicoes e possibilidades entre duas formas de conhecimento e praticas: os saberes locais e aqueles associados ao discurso cientifico, pois sao treinados com referenciais cientificos sobre saude, mas, tambem, vivem diariamente as praticas sociais e de saude da comunidade em que atuam, por serem membros destas comunidades.

Neste sentido, os agentes comunitarios de saude situam-se como membros da equipe profissional que atua na comunidade, enquanto moradores da propria comunidade (Giffin and Shiraiwa, 1989; Kluthcovsky and Takayanagu, 2006; Nogueira and Ramos, 2000; Nunes at al., 2002; Silva and Dalmaso, 2002). Para Nogueira e Ramos (2000), o dilema enfrentado pelos ACS reside nesta tensao: lidar com os escopos social e tecnico. Os autores tambem discutem o fato de que os programas governamentais nunca realizaram uma reflexao que pudesse articular satisfatoriamente estas duas dimensoes, o que possibilita uma tendencia maior para um ou outro polo nas praticas de atuacao dos ACS, pois, ao serem confrontados com as praticas sociais de sua comunidade, os ACS sao levados a fazer opcoes em relacao as demandas, recompensas, expectativas e suas proprias referencias. Neste sentido, Silva (2001: 202) Silva e Dalmaso (2002: 78) afirmam que os ACS nao possuem largo conhecimento para sua atuacao, face as dimensoes de sua pratica, assim, muitas vezes agem com base no senso comum, na religiao, e raramente utilizam os saberes e recursos da propria comunidade e das familias.

2. Hibridismo no discurso profissional na area medica

O campo interdisciplinar de estudos do discurso desenvolveu-se rapidamente no ambito do discurso das profissoes, com foco no discurso intraprofissional, em profissoes especificas; no discurso entre profissionais em locais de trabalho, em reunioes e conferencias; no discurso entre profissionais e leigos, em consultas medicas, processos judiciais, interacoes em sala de aula, entrevistas de emprego, aconselhamento e sessoes de psicoterapia, dentre outros (Linell, 1998: 143).

A hibridizacao e entendida, no discurso profissional na area de saude, a partir da mescla de generos, de mudancas de enquadres interacionais, de diferenciacao de vozes e de multiplicidade de papeis. Procuramos entender como a reflexao pode nos auxiliar em inteligibilidades sobre a pratica profissional de agentes comunitarias de saude, no atendimento a tuberculose.

A mescla de generos remete a heterogeneidade discursiva, atraves das relacoes de interdiscursividade e de intertextualidade. A interdiscursividade diz respeito ao entrecruzamento de diferentes discursos que transitam socialmente. A interdiscursividade e constitutiva porque todo discurso provem de outros. A intertextualidade esta estritamente ligada a interdiscursividade, mas remete aos casos em que a relacao discursiva e materializada em textos (9) (v. Maingueneau, [1987] 1997: 75, 86, 111; Fairclough, [1992] 2001: 43 Linell 1998: 149).

Linnel (1998: 150-1) destaca tambem a polivocalidade, enquanto multiplicidade de vozes, de acordo com Bakhtin (1981) (10); diferentes vozes indicam tambem conflitos sociais. Ha diferentes vozes e interesses entre profissionais e leigos no discurso de determinadas categorias profissionais assim como em generos especificos do discurso ou textos particulares. Elementos de diferentes discursos podem competir uns com os outros.

Se a heterogeneidade e constitutiva dos discursos, como se torna relevante nas praticas de trabalho na area da saude? Sarangi e Roberts (1999: 61-2), na introducao a contribuicao de estudiosos ao hibridismo discursivo na area medica, trazem a discussao sobre a complexidade e a natureza de multiplas camadas nas praticas de trabalho, em relacao as identidades, aos modos de fala, a socializacao em comunidades de pratica. Dentre os estudos, Atkinson (1999) e Erickson (1999) tratam de situacoes com aprendizes de medicina, com estudo de casos de pacientes. Atkinson (1999: 89-91, 103-4) mostra, em seu texto, atraves do estudo de casos e de narrativas entre supervisores e estudantes, no trabalho cotidiano em um hospital, que ha uma complexa divisao de trabalho na clinica moderna. Os participantes produzem e negociam as atividades. A ordem institucional e a profissional coincidem no conhecimento especializado, na divisao de trabalho entre os especialistas. A hierarquia da senioridade e gerenciada na organizacao discursiva. Erickson (1999) tambem focaliza o contexto de aprendizes de medicina, em um ambulatorio da clinica medica, em situacoes pedagogicas. O autor analisa a apresentacao de casos feita por estudantes, mediante conceitos de ameaca a face e performance de identidade social (p. 114-5). O relato de casos sobre pacientes, feitos por aprendizes, funciona como um relato sobre si mesmos como profissionais competentes. A situacao e pedagogica, por envolver oportunidade de aprender mediante a apropriacao de praticas profissionais.

Sarangi e Roberts (1999b) analisam o exame oral, no contexto do trabalho, a partir de diferentes 'modos de fala'. Os autores distinguem entre os seguintes modos de fala (11): experiencia pessoal, profissional e institucional (p. 480). O modo profissional inclui o diagnostico dos sintomas e a discussao do tratamento; o modo institucional e analitico e protocolar da doenca, e inclui praticas sociais das instituicoes (p. 482); o modo pessoal, incluindo a fala em registro informal, anedotas, pode ser um recurso utilizado como forma de acesso ao mundo de experiencias do paciente (p. 487). A partir dos dados analisados, os autores observam que ha mescla entre modos da experiencia pessoal e profissional, e que sao usados em interacoes entre os medicos e entre medicos e pacientes. A voz da experienca pessoal e utilizada tambem para educar, em tarefa profissional particular (p. 481-2). O hibridismo e a interdiscursividade, no exame oral, indicam que nao ha um uso absoluto entre os tres tipos, podendo haver um enquadre mais profissional, institucional ou pessoal em uma dada pergunta (p. 488-9). O hibridismo entre os modos de fala pode, no entanto, trazer dificuldades para candidatos que nao correspondem as expectativas dos medicos examinadores sobre que modos de fala deveriam utilizar para uma dada atividade, ja que resultam em complexidades interacionais e podem indicar ausencia de partilhamento de conhecimentos da organizacao (p. 491-2, 496).

Sarangi (2010, 2011) traz outras discussoes sobre o hibridismo, considerando a multiplicidade de papeis dos participantes, na atividade profissional. Para o autor, hibridismo e hibridizacao nao sao simplesmente textuais, semioticos, multimodais, enquanto processos manifestos atraves da intertextualidade e da interdiscursividade, mas constituem tambem atos comunicativos mediados por papeis. No contexto da pratica profissional, o hibridismo de papeis esta relacionado a posicionamentos e intersubjetividade, indexando ambivalencia profissional (2011:2, 22) (12).

Sao importantes, para o presente estudo, especialmente os tipos de papeis, de multiplos papeis, da relacao entre o 'eu' e o outro. Nos tipos de papeis, ha distincoes entre o papel social, o papel discursivo e o papel de atividade. O papel social inclui as relacoes sociais de um dado individuo. O papel discursivo e estabelecido em funcao do que fazem os participantes em relacao a atividade comunicativa (13). O papel de atividade e dependente do tipo de atividade em que o individuo esta engajado, na relacao com outros participantes (14) (Sarangi, 2010; Sarangi 2011: 8). A discussao sobre os papeis multiplos e competitivos (2010:37), em que as pessoas podem estar relacionadas a varios papeis na ordem social (2011: 3), e que conduz ao hibridismo e a tensao na pratica profissional, em funcao da possibilidade de papeis conflitantes. A inclusao do outro e tambem colocada em foco, a partir de estudos de Mead (1934: 140), que advoga pelo social, em oposicao ao individualismo (Sarangi, 2010) (15).

3. A emergencia e a co-construcao de atividades e papeis na ordem interacional

As atividades e papeis das agentes comunitarias de saude do Instituto Vila Rosario, no curso da reuniao de trabalho, serao analisados a partir de sua emergencia e co-construcao na ordem interacional, na perspectiva da Sociolinguistica Interacional, a partir dos conceitos de footing (Goffman, [1979] 2002), pistas de contextualizacao (Gumperz, [1982] 2002; 1999) e enquadres interacionais (Tannen & Wallat, [1987] 2002).

No curso da interacao entre os participantes, ha mudancas na estrutura de participacao (Goffman, [1979] 2002; Schiffrin, 1994) no evento interacional. A Sociolinguistica Interacional, a partir dos conceitos de alinhamentos, enquadres e pistas de contextualizacao, possibilita-nos analisar mudancas de ordem micro e macro na interacao.

Gumperz, um dos principais fundadores da Sociolinguistica Interacional (1982), uma abordagem interpretativa dos processos interacionais em encontros face a face, retoma, em seu texto de 1999, questoes sobre as inferencias situadas e sobre a ausencia de partilhamento de procedimentos interpretativos nas interacoes. O autor reafirma que as interpretacoes sao construidas localmente, em contextos especificos, a partir da inferencia conversacional, e que a sequenciacao interacional, embora possa contribuir para o que e interpretado, funciona apenas como um dos elementos; muitas vezes, a inferencia se da a partir do que nao e dito (p. 458).

Entendemos, a partir do modelo de discurso de Schiffrin (1987) (16), que elementos que interferem nas diferenciacoes de atribuicoes de atividades e de papeis as agentes comunitarias de saude dependem tambem da estrutura de participacao e do estado da informacao. Ha conhecimentos partilhados e nao partilhados por falantes e ouvintes. O metaconhecimento relaciona-se ao que falantes e ouvintes conhecem sobre seus respectivos conhecimentos.

Mudancas de footing (Goffman, [1979] 2002) e de enquadres ( Tannen & Wallat, [1987] 2002), sinalizadas por convencoes de contextualizacao (Gumperz, [1982] 2002), podem indicar interpretacoes e ressignificacoes de categorias atribuidas as agentes comunitarias de saude, no curso da reuniao de trabalho.

Os enquadres sao aqui entendidos em relacao ao envolvimento dos participantes nao apenas com o evento em curso, a reuniao, mas tambem em relacao as orientacoes institucionais e a outros eventos inseridos no curso da interacao, a partir das praticas cotidianas de trabalho das agentes. Nos dizeres de Goffman (1974), os enquadres situacionais "sao construidos de acordo com principios de organizacao que governam os eventos e de acordo com nosso envolvimento subjetivo nesses eventos" (p. 10-11) (17).

As mudancas de footing sao complexas, por envolverem mudancas "que assumimos para nos mesmos e para os outros presentes, expressas na maneira como conduzimos a producao ou a recepcao de uma elocucao" (Goffman, [1979] 2002: 113). Tais mudancas envolvem formatos de producao e de recepcao, diferenciados em relacao a cada evento interacional em curso. Em se tratando de uma reuniao em contexto de trabalho, o evento situase na ordem institucional, com diferenciacoes nas relacoes de poder, e a ordem interacional estara permeada por conhecimentos e praticas diferenciadas (Cook-Gumperz & Messerman, 1999: 149-51)).

As mudancas de enquadres e de footing sao sinalizadas por pistas de contextualizacao, enquanto micro ou macro mudancas na interacao. A nocao de pistas de contextualizacao e estabelecida por Gumperz (1982), junto as bases para a inferencia conversacional. Seriam "quaisquer tracos da forma linguistica e/ou nao-linguistica (i.e., os gestos, postura, etc.) que contribuem para assinalar as pressuposicoes contextuais" (Pereira e Cortez, 2011: 83).

Alem dos enquadres e footings, a Sociolinguistica Interacional considera ainda os esquemas de conhecimento, enquanto expectativas dos participantes acerca das pessoas, objetos, eventos e cenarios no mundo" (Tannen e Wallat ([1987] 2002): 189). Para as autoras, a unica forma de compreender um discurso e atraves do preenchimento de informacoes nao proferidas, decorrentes do conhecimento de experiencias anteriores (p. 190; v. Pereira e Pereira, 2005:39). No entanto, as autoras comentam ainda que, embora a nocao de esquemas de conhecimento tenha sido vista anteriormente como estatica, tais conhecimentos sao revistos e continuamente mudados. Acrescentamos ainda que conhecimentos sao construidos ao longo de uma dada interacao (18). Schiffrin (1987), conforme vimos anteriormente, concebe, em seu modelo, o estado da informacao entre os participantes, com conhecimentos partilhados e nao partilhados.

4. Metodologia de pesquisa

A metodologia da pesquisa insere-se no ambito da pesquisa qualitativa e interpretativa (Rice e Ezzy, 1999; Denzin e Lincoln, [2003] 2006) bem como na perspectiva da Linguistica Aplicada, de modo colaborativo e consultivo (Sarangi, 2006).

Os dados foram gerados utilizando-se orientacao etnografica, observacao participativa, notas de campo e gravacoes de entrevistas informais e reunioes de trabalho (Erickson , 1992; Geertz, 1973; Mattos, 2001).

4.1. Sobre o contexto da pesquisa e da atuacao das agentes comunitarias de saude do Instituto Vila Rosario

Vila Rosario e uma comunidade carente situada no municipio de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, com aproximadamente 50.000 moradores e um indice ainda elevado de tuberculose, cerca de 200/100.000 habitantes. O Instituto Vila Rosario (IVR) e uma ONG que atua na prevencao e combate a tuberculose atraves do trabalho de suas sete agentes comunitarias. As agentes do IVR, tambem moradoras da localidade, sao responsaveis por descobrir, cadastrar e acompanhar os moradores sintomaticos, assim como levar informacoes sobre a prevencao e tratamento da tuberculose.

O trabalho das agentes e feito atraves de visitas a todos os moradores da comunidade de Vila Rosario e da realizacao de entrevistas padronizadas e do preenchimento de uma ficha cadastral com informacoes socioeconomicas de todos os membros, usada para o cadastramento dos sintomaticos. Apos o cadastro, os moradores com suspeita de tuberculose sao orientados a realizar exames para a comprovacao da doenca. Se a doenca for comprovada, as visitas passam a ser periodicas, ate a comprovacao de alta com cura, abandono do tratamento ou obito.

4.2. Procedimentos da pesquisa

As atividades de interacao entre o Instituto Vila Rosario e as pesquisadoras da PUC-Rio transcorreram de julho a dezembro de 2009, com visitas a sede do Instituto em Duque de Caxias--RJ e a comunidade de Vila Rosario em acompanhamento as agentes de saude.

As visitas a sede caracterizaram-se pela participacao nas reunioes de trabalho entre a direcao do Instituto e as sete agentes de saude, e outras atividades, tais como oficinas oferecidas as agentes e aos moradores. Durante as reunioes, as agentes comunitarias trouxeram historias relacionadas a seu trabalho e ao cotidiano da comunidade de Vila Rosario. As participacoes do Diretor foram geralmente direcionadas a orientacoes sobre o trabalho das agentes e informacoes sobre os projetos que seriam implementados no Instituto.

E neste contexto que os dados de analise do presente estudo estao inseridos, em segmentos de uma das reunioes, realizada no dia 7 de outubro de 2009. Nessa reuniao estavam presentes todas as sete agentes de saude, a secretaria do Instituto (Carla), o Diretor do Instituto (com o nome ficticio de Flavio) e duas pesquisadoras da PUC-Rio (Cinara e Clarissa). Foram mantidos, nos dados, os nomes reais das agentes, de acordo com o termo de consentimento para a realizacao da pesquisa.

A reuniao foi gravada em audio e tambem contou com notas de campo e observacao participante. A gravacao total da reuniao esta divida em dois momentos, pois a reuniao foi interrompida pela presenca de outros dois participantes. A primeira etapa de gravacao contou com 16':20" de gravacao e a segunda, foco de nossa analise, contou com 1:16':56" totais.

5. Hibridismo na configuracao e reconfiguracao das atividades profissionais de agentes comunitarias de saude

Como veremos, a ordem institucional e a pratica profissional estao imbricadas no curso da reuniao, mas sao diferenciadas na atribuicao de atividades de papeis (Sarangi, 2010, 2011) as agentes comunitarias de saude, ao se tornarem relevantes na ordem interacional. Ha partilhamento parcial de conhecimentos (Schiffrin, 1987), entre o Diretor e as agentes sobre as praticas cotidianas de trabalho e diferenciacoes de poder se estabelecem na co-construcao interacional.

O hibridismo se da a partir de enquadres diferenciados (Goffman, 1974; Tannen & Wallat, [1987] 2002), sinalizadores de diferenciacoes de pontos de vista entre a ordem institucional, o 'olhar' do Diretor, e a pratica profissional cotidiana, o olhar das agentes.

Reunioes em contextos institucionais podem servir a diferentes propositos, enquanto lugares para o trabalho colaborativo entre os profissionais bem como para o exercicio informal do poder entre os participantes (Boden, 1994; ap. Cook-Gumperz and Messerman, 1999: 149). A interacao face a face em reunioes cria um micro ambiente propicio que pode afetar o posicionamento de individuos no grupo, um em relacao ao outro (Schwartzman, 1988; ap. Cook-Gumperz and Messerman, 1999: 149). Em uma dada instituicao, os seus membros partilham de eventos e decisoes passadas, que podem emergir nas reunioes (CookGumperz and Messerman, 1999: 149-150).

5.1. Atribuicao de atividades as agentes comunitarias de saude na ordem institucional

O Diretor retoma, interpreta e orienta as atividades de atendimento das agentes na visita aos moradores, com foco especialmente no como fazer, no que representar e com que tipo de habilidade.

Ao retomar a atividade de relato de casos dos atendimentos realizados pelas atendentes, aqui entendida como atividade de papel (Sarangi, 2010, 2011), o Diretor assume conhecimento partilhado em relacao as rotinas do trabalho das agentes: "essa historia da do que voces escrevem em relacao ao que voces estao vendo que e a conversa do indiano" (ls 1 e 2); "voces vao la conversam com o pessoal anotam umas coisas" (1. 4). A remissao da referencia para um contexto partilhado e indicada por "essa historia" e pelo tempo verbal no presente "voces escrevem" e "voces vao la conversam", "anotam", enquanto atividades discursivas de rotina, para compor o relato: escrever, ver, conversar e anotar. Ao dizer "eu ja comentei isso com voces ne?" (1.3), explicita o conhecimento partilhado e a remissao a outro contexto na ordem institucional e interacional. Costa Neto (2007:19) discorre sobre esse trabalho de rotina realizado pelas agentes, enquanto relato de casos apurados e de acompanhamento do tratamento nas visitas feitas pelas agentes.

Temos, assim, a partir da atividade de papel (Sarangi, 2010, 2011), os papeis discursivos de ouvinte, observadora e relatora, associados a pratica profissional como funcoes necessarias a realizacao de seu trabalho. As atividades discursivas relacionam-se a papeis circunscritos a pratica profissional do agente comunitario de saude, tornados relevantes, neste momento da interacao pelo Diretor em sua fala., a partir de conhecimento partilhado sobre as rotinas ja estabelecidas pelo Instituto.

Entretanto, ha mudanca no alinhamento em relacao as atividades discursivas de escrever/ relatar das agentes para uma orientacao mais critica, sinalizada enquanto pista de contextualizacao (Gumperz, [1982] 2002; 1999) pelo marcador discursivo agora: "agora quanto: do que voces realmente estao escrevendo representa aqui-aquela situacao" (ls 5 e 6). A critica e explicitada em relacao a superficialidade da 'representacao' do que e observado pelas agentes (ls 9 e 10).

Em outra mudanca de alinhamento, as atividades discursivas das agentes passam a ser orientadas a partir de uma nocao mais especifica, a nocao de psicologia, que emerge, a partir da visao do Diretor, como mais um atributo necessario a realizacao de suas funcoes: "vai precisar de um pouco mais de psicologia" (l. 12); "e e essa essa compreensao a psicologia" (ls 14 e 15). Este atributo torna-se necessario para que as agentes possam "representar" (ls 5 e 6), "apreender toda a situacao" (ls 7 e 8) em "seus varios niveis de de representacao" (1. 9) de forma a "entender" menos superficialmente (l. 10) o que precisam relatar ao Instituto atraves de suas anotacoes sobre o que dizem os moradores.

E possivel observar a atribuicao de papeis de atividade e discursivos das agentes atraves do discurso institucional como uma forma de organizar e regulamentar as atividades pressupostas a realizacao das funcoes prescritas ao trabalho das agentes. Neste sentido, as orientacoes emergem como uma serie de regras a serem seguidas e tambem sinalizam as atividades que o proprio Diretor assume para seu papel institucional: orientar, regulamentar e direcionar as atividades diarias das agentes.

O papel do Diretor tambem indica como ele interpreta as interacoes durante as reunioes de trabalho no Instituto. Suas falas e intervencoes, durante as mudancas de alinhamento em sua propria fala, acionam e estabelecem o enquadre: "Orientacoes para o trabalho das agentes" (Cortez, 2011; Pereira e Cortez, 2011:86).

Assim, tais papeis estariam, na ordem interacional, mediante o ponto de visa do Diretor do Instituto, necessariamente associados a categoria de agente comunitario de saude do Instituto Vila Rosario, tornados relevantes na interacao, no curso da reuniao.

5.2. Ressignificacao das atividades das agentes em praticas profissionais no atendimento ao morador

Com a tomada de turno pela agente Leila, observamos como a agente ressignifica nao somente os papeis de atividade e papeis discursivos atribuidos a elas pelo Diretor como tambem o proprio momento interacional, trazendo um novo enquadre, o da 'Escuta dos moradores'.

Como os papeis discursivos de ouvinte, observadora e relatora sao construidos pelo Diretor em suas orientacoes em referencia a outro papel relacionado ao de profissionais da area da psicologia, observamos que Leila alinha-se inicialmente ao enquadre trazido pelo Diretor. Contudo, seu alinhamento traz um novo enquadre, com a polivocalidade, entre o ponto de vista do morador e o seu proprio ponto de vista, alem do hibridismo dos papeis, que se fazem relevantes e emergem na interacao.

O segmento 2, no turno 23, traz o papel discursivo de ouvinte na fala da agente como uma condicao inicial para a realizacao de sua atividade profissional: "= a primeira situacao que a gente:: [...] se voce nao se colocar a disposicao de escutar voce tambem nao e bem recebido" (ls 1 a 4). Contudo, no turno 25, Leila interpreta o relato do morador como "desabafo' (ls 6 a 8) e tende a enquadrar a fala nessa modalidade como nao pertinente a atividade profissional no atendimento, embora reconheca a importancia da 'escuta': "voce tem que:: se disponibilizar um pouco pra:: escutar [ne" (ls 8 e 9).

Temos assim o papel de recipiente do relato enquanto atributo importante para o trabalho e para a acolhida por parte dos moradores, o que e tambem corroborado pela agente Clara: "[e:: bastante eu diria [ate ne". Entretanto, Leila, com suas hesitacoes, sinaliza que tem duvidas sobre ate que ponto iria o seu papel de recipiente do relato, enquanto papel discursivo mais especifico, relacionado a atividade de papel de "escuta" do 'desabafo' do morador.

Esse alinhamento e enfatizado pela agente no turno 28 ao sobrepor sua fala a do Diretor quando esse assinala a importancia da escuta: "[ate para nos pra propria acolhida" (l. 13). A enfase em nos e a abertura do turno com o marcador ate sugere certa dissociacao do papel de ouvinte atraves da funcao da escuta (associada ao papel de psicologo) como uma das atribuicoes necessariamente relacionadas a profissao da agente, embora sua importancia seja corroborada.

A escuta tambem parece estar associada a percepcao dos moradores sobre as atividades discursivas e de papel das agentes. Para Leila, o papel de recipiente de relato como uma das funcoes de agente situa-se no ambito de expectativas dos moradores que querem "desabafar" e "contar tudo". Neste sentido, o papel e aceito como necessidade situada ("voce tem que:: se disponibilar um pouco"), nao como atributo fixo da atividade profissional de agente.

Ha assim hibridizacao do ponto de vista de olhares diferenciados, com enquadres diferentes do Diretor e das agentes, em relacao a atividade de agente. Para o Diretor, o enquadre de orientacoes direciona-se para o relato completo do que ouvem, para as agentes, o enquadre volta-se para a escuta do morador, que entende escuta como desabafo. Ha tambem a polivocalidade, com vozes do Diretor, das agentes e dos moradores, com diferentes pontos de vista das atividades discursivas e de papel das agentes.

6. Discursos hibridos em conflito no atendimento a tuberculose: o profissional, o institucional, o religioso, o assistencialismo social

Nesta secao, estao imbricados a ordem institucional, a pratica profissional, o discurso religioso e o assistencialismo social, no ambito de projetos do governo federal, que se estendem aos estados e municipios, no atendimento a comunidade carentes.

No segmento 3, a agente Leila torna relevante na interacao a voz do morador, no enquadre do projeto "Cesta basica", de assistencia a familias de comunidades carentes. Ha, na perspectiva do morador, a atribuicao de papel de assistente social a agente comunitaria de saude. Podemos ver que a atribuicao desse papel social as agentes tem a sua motivacao no perfil social tracado pelo governo federal, um perfil mais social do que tecnico (Kluthcovsky e Takayanagu, 2006: 2).

Neste momento da interacao, observamos, no relato das agentes Leila e Dulcineia, que os moradores mais carentes associam sua atividade profissional ao papel de assistente social, relacionado a programa do governo--"governo, acha que e do governo" (l. 5)--para provisao de alimentos: "voce tem que dar uma cesta [basica pra ele" (ls 3 e 4).

Contudo, as agentes parecem rejeitar o papel de assistente social neste momento da interacao. O uso do verbo achar sugere uma interpretacao dos moradores sobre suas atividades e papeis, de acordo com as agentes: "eles acham que pra voce ta ali [...]"; "acha que e do governo".

Flavio, o Diretor, parece alinhar-se ao topico trazido no enquadre 'Cesta Basica", mas redireciona com o marcador "agora", para os planos do Instituto. Lembramos que a agenda de trabalho do Instituto inclui nutricao, enquanto atividade educativa (Cortez, 2011: 83). Em Costa Neto (2011: 324-5), no programa de nutricao, ha a mencao sobre "as bases de uma nova cesta basica", incluindo disponibilizacao dos recursos, assim que o programa seja implantado.

O enquadre estabelecido e hibrido entre 'Os projetos futuros do Instituto' e 'A tensao entre tuberculose e a pobreza' (ver Pereira e Cortez, 2011: 90). Flavio assume conhecimento partilhado com as agentes "eu disse pra voces tambem o seguinte' (l. 6) e como projeto coletivo do Instituto "nos vamos suprir" (l. 8).

Embora o enquadre trazido pelo Diretor pareca nao corresponder diretamente as orientacoes anteriores, sobre as atribuicoes das agentes, como vimos na secao anterior, e possivel observar a atribuicao desse novo papel social as agentes comunitarias de saude, profissionais do Instituto.

Assim, temos papeis sociais hibridos atribuidos pelo Diretor tanto ao proprio Instituto quanto as agentes: o Instituto assumindo funcoes de assistencia social junto ao trabalho de educacao e monitoramento dos casos de tuberculoses; e as agentes como educadoras, psicologas, assistentes sociais.

As interacoes seguem durante o curso da reuniao e, em outro momento, no segmento 4, temos uma reflexao da agente Madalena sobre outro caso atendido pelas agentes, cujas dificuldades para o tratamento estao associadas as condicoes socioeconomicas dos assistidos.

Goffman ([1979] 2002), ao tratar do footing, comenta que a projecao pessoal do participante esta em questao, com superposicao de papeis (animador, autor, responsavel) e pode ser mantida em um trecho mais longo ou curto (p. 113, 135). Ao discutir a nocao de "atividade de fala" (Levinson, 1979) e encontro social, que considera mais abrangente de que a propria atividade de fala em si, ja que envolve elementos alem da fala (p. 123), ressalta tambem que ha encontros "tao entrelacados com outros encontros que acaba se enfraquecendo a pretensao de autonomia de qualquer um deles" (p. 117). O autor acrescenta ainda que "a conversa nao e o unico contexto de fala" (p. 125) e que "a fala pode tomar a forma de um monologo expositivo, como em discursos politicos ..." (p. 125).

Veremos entao, a seguir, que Madalena, em suas 'projecoes do eu', ao mesmo tempo em que se insere como 'autora e responsavel', tambem se distancia como 'figura' (Goffman ([1979] 2002: 137), em um convite aos participantes presentes a reuniao a com ela refletirem sobre o tratamento da tuberculose aos moradores.

Ha varias mudancas de alinhamento no enquadre que (vai Madalena) vai estabelecendo, de "Questionamento ao tratamento da tuberculose na mesclagem entre o discurso institucional, a pratica profissional, o discurso religioso, o assistencialista social". Ela inicia sua fala com uma pergunta retorica (Frank, 1990): "quer dizer ai vai voce falar o que da saude nao e?" (l. 1), no alinhamento de provocar um momento interacional "dialeticoargumentativo" (Platin, 2003: 11) junto aos outros participantes da reuniao. Em sua resposta a pergunta retorica (ls 2 e 3), ela ja questiona o discurso institucional que estabelece orientacoes sobre as acoes das agentes do Instituto: "voce nao vai dizer que a tuberculose e: isso e aquilo e dessa forma> por isso por aquilo"(l. 2 e 3) e inicia uma nova pergunta retorica: que que acontece? (l. 3)

Apos a pergunta retorica, Madalena muda de alinhamento e recontextualiza um caso anteriormente discutido, encenando a situacao (ls 3 a 7) (Tannen, 1989), distanciando-se e se incluindo ao mesmo tempo como protagonista na cena descrita (Goffman ([1979] 2002: 137) no grupo de agentes com o uso de "voce", um indexal (Deckert & Vickers, 2011: 19) que se mostra polifonico. Ao encenar a situacao, de forma hipotetica (ver Pereira e Cortez, no prelo), Madalena busca a reflexao e, ao mesmo tempo, provoca maior envolvimento dos participantes.

Linell (1998: 144), ao tratar de questoes sobre a recontextualizacao, comenta que qualquer texto ou discurso esta inserido em uma matriz de contextos. O caso anterior, discutido como caso real entre os participantes, foi analisado em Pereira e Cortez (2011: 90 (19)) e tratava da situacao de uma familia, cujo provedor (o pai), em tratamento de tuberculose, encontrava-se desempregado, desestruturando a renda familiar, e a esposa nao podia trabalhar, porque precisa cuidar do marido.

No caso encenado por Madalena, o discurso institucional da saude e confrontado com a ordem social: o desemprego, a fome, a pobreza aliados a doenca (ls 4 a 6). Vemos, assim, o discurso da saude nao responder ao problema em questao, pois a prescricao das acoes relacionadas as funcoes das agentes nao atende as necessidades dos moradores que estao em situacao menos privilegiada.

Apos a cena, Madalena muda novamente de alinhamento, com outra pergunta retorica, inquirindo os ouvintes enderecados (Goffman ([1979] 2002: 119): "diz pra mim o que voce falaria?" (l.7) e da inicio a inclusao do discurso religioso em sua fala, tambem de forma enfatica/ indagativa, sobre como resolver o problema de saude do morador (ls 8 e 9). A mesma ordem social, trazida pelo caso situado, tambem esta em tensao com o discurso profissional. Madalena questiona a propria pratica profissional atraves do voce, que remete as agentes: "ai voce vai falar o que? [...] o que voce falaria?" (ls. 7-8).

Ha uma tentativa de falas superpostas (ls. 11 e 14), no segmento 4b, mas Madalena continua sua fala reflexiva, no mesmo enquadre de "Questionamento ao tratamento da tuberculose na mesclagem entre o discurso institucional, a pratica profissional, o discurso religioso, o assistencialista social", sempre alternando entre os alinhamentos de convidar os ouvintes enderecados a reflexao; de colocar-se como figura na cena, utilizando relatos em que se insere como personagem; e de introduzir um alinhamento de avaliacao pessoal explicito.

No alinhamento de encenar a situacao e se colocar como personagem em primeira pessoa, inserindo-se diretamente na cena, Madalena introduz o dialogo construido (Goffman, ([1979] 2002: 139 (20); Tannen, 1989). Observamos Madalena abandonar o voce impessoal que remetia as agentes e passar a voz pessoal (eu): "ai eu digo, eu falo assim pra ela, "nao, voce vai ficar bom se voce vai ver vai ficar bo:m" (ls. 17-18). A voz pessoal tambem esta em conflito com a situacao descrita: "... ai ela vai dizer "mas entao mas eu nao tenho o que comer[up arrow] ele nao tem o que comer[up arrow]" (ls. 18-19). Madalena traz novamente o discurso religioso, desta vez, incorporado a voz pessoal e chama atencao para sua argumentacao: "ai eu falo "nao se deus quiser quiser voce vai ficar bom[up arrow]". Madalena muda para o alinhamento reflexivo junto aos ouvintes enderecados para destacar o discurso religioso: "alias presta atencao olha o raciocinio >olha o raciocinio< "deus[up arrow] vai te ajudart vai ficar bom" (ls. 21-22).

Madalena muda novamente para o alinhamento de encenar a situacao, para trazer novamente o voce impessoal e questionar os discursos da saude e o religioso: "ai voce fala da saude e diz que deus[up arrow] vai ajudar[up arrow]" (l. 23). Esses mesmos discursos tambem serao questionados atraves da voz do morador reportada: "ai ela pergunta pra ela mesma "mas que deus e esse que deixa eu morrer de fome? voce vem falar comigo da saude" (ls. 24-25) e traz tambem, na voz do morador reportada, a situacao social de desemparo da familia: "eu nao tenho como trabalhar por que tenho que cuidar do marido" (ls. 25-26). Madalena muda entao seu alinhamento para avaliacao da situacao: "quer dizer, gente o e uma situacao dificil" (l. 29).

Ha assim, na voz de Madalena, no enquadre acionado, a mesclagem e o imbricamento entre o discurso da saude de ordem institucional, o discurso religioso e a pratica profissional da saude vivenciada no cotidiano pelas agentes, em relacao de tensao e sem solucao para a ordem social de carencia dos moradores, em relacao a saude, a alimentacao, ao trabalho, na perspectiva situada da interacao.

A resposta emerge atraves do discurso pessoal e agentivo de Madalena, novamente com encenacao da situacao. Antes mesmo de finalizar sua pergunta retorica "ai o que que voce faz" (l. 30), Madalena complementa"eu, eu falo de mim, eu fui embora" (l. 30).

Madalena introduz novamente o dialogo relatado, em que se insere, e o discurso religioso e ressignificado nas acoes individuais da agente: Madalena, junto a sua familia e outra agente (Neia = Dulcineia), providenciam ajuda material a familia em questao, pela doacao de alimentos (ls 31-36).

Observamos, assim, outros papeis atribuidos pela agente e por ela tornados relevantes, enquanto papel individual e papel social coletivo, no ambito da familia e de outros da comunidade, de suprir a carencia de recursos basicos dos moradores. A propria agente se reconhece como uma agente de Deus: "e deus na pessoa de quem? natminha pessoa" (ls. 3132); como assistente/ativista social e moradora: "que que eu fiz, fu:i pedi um pouco aqui [...], enfim eu consegui que alguem fosse buscar" (ls. 32-37). A agencia e tornada relevante durante o posicionamento pessoal de Madalena e parece apresentar uma melhor resposta ao problema trazido pela agente em sua reflexao.

Madalena finaliza, com mudanca de alinhamento para o seu questionamento do trabalho profissional na area de saude: "gente falar da saude e dizer que vai levar e muito facil agora VAI pro campo trabalhar[up arrow]" (ls 38 e 39). Ela usa uma figura de linguagem, bem popular "com quantos paus se faz uma canoa" (l.39), diz que ja sabe "eu ja sei, pode ser com um pau e com monte de pau" (l. 40), e remete a uma reportagem. E volta a dizer que "falar (...) e muito facil" (ls 41-43).

Consideracoes finais

Buscamos, no presente estudo, no vies teorico entre a hibridizacao na Linguistica das Profissoes e conceitos analiticos da Sociolinguistica Interacional, entender olhares de dentro, da propria instituicao, em uma reuniao de trabalho, em relacao a atribuicao e ressignificacao de atividades profissionais e papeis das agentes comunitarias da saude do Instituto Vila Rosario. Procuramos tambem possibilitar criar inteligibilidades sobre a pratica profissional de agentes comunitarias de saude, no atendimento a tuberculose.

Pudemos ver que, do ponto de vista teorico, considerando a primeira indagacao em relacao a como a discussao se coloca sobre a pratica profissional das agentes, o hibridismo se tornou relevante do ponto de vista dos enquadres interacionais, das vozes articuladas, dos multiplos papeis e da mescla de discursos.

Do ponto de vista analitico, com foco na analise de interacoes da secao 5, retomando a segunda indagacao com foco nas atribuicoes das atividades e de papeis entre a ordem institucional e a pratica profissional, as interacoes analisadas apontaram para diferenciacoes.

Na ordem institucional, observamos hibridismo nos papeis atribuidos as agentes do Instituto Vila Rosario pelo Diretor, que sao interpretados do ponto discursivo como recipiente de relato, observadora e relatora, e, do ponto de vista da qualificacao, no papel social de psicologas, de entendimento mais completo da situacao dos moradores.

Em sua pratica profissional, a agente comunitaria de saude Leila, em seu lugar, 'de dentro' da pratica profissional, ressignifica seu papel de atividade com foco no 'outro', no morador, que e atendido no tratamento de tuberculose. A agente assume a escuta e a acolhida como condicoes para ser recebida pelo morador e exercer sua pratica profissional. Seu foco e o 'outro' (Mead, 1934: 140; ap. Sarangi, 2010). No entanto, Leila ao interpretar a fala do morador, por ela reportada, como "desabafo', aponta para o conflito entre o papel discursivo de recipiente de relato e a relevancia do 'desabafo' para a atividade de 'escuta' associada ao seu papel profissional. Conciliar as diferentes demandas, entre o papel de agente e o de psicologa, do ponto de vista da agente comunitaria Leila, parece se justificar somente como forma de gerar afiliacao com o morador.

Em outro momento da interacao, ja na secao 6, observamos, a partir dos relatos das agentes Leila e Dulcineia, que os moradores associam a atividade profissional das agentes a de assistente social, no programa de Cesta Basica. As agentes, no entanto, parecem tambem rejeitar esse papel social, ja que atribuem a expectativa do papel aos moradores, como se fossem funcionarias do governo. E interessante observar que o Diretor, no enquadre hibrido entre 'Os projetos futuros do Instituto' e 'A tensao entre tuberculose e a pobreza', inclui a discussao sobre a Cesta Basica no programa de nutricao do Instituto.

Na continuidade da analise das interacoes da secao 6, vimos que a agente de saude Madalena traz um enquadre de questionamento, com a hibridizacao de discursos em conflito, e estabelece um novo momento interacional na reuniao. Refletimos aqui sobre a nossa terceira indagacao, em relacao a como se posicionam as agentes comunitarias em relacao a sua profissao com papeis hibridos, entre a equipe de saude e moradoras na comunidade.

Madalena traz seus questionamentos mediante a articulacao e mesclagem do discurso institucional sobre a pratica profissional das agentes na area de saude, o assistencialismo social, como um dos papeis das agentes, e o discurso religioso, como suposta forma de amenizar a situacao de carencia de desemprego, fome e doenca dos moradores.

O tratamento da tuberculose, no enquadre acionado, fica na tensao dos discursos articulados, que nao dao conta da situacao de carencia dos moradores de Duque de Caxias, na periferia da cidade. A solucao emergencial se da pela agencia pessoal e de grupo, em relacao a uma ordem social macro que se apresenta como problema principal nas questoes e em casos que emergiram durante as interacoes na reuniao de trabalho. Assim, a atividade profissional hibrida da agente comunitaria de saude do Instituto Vila Rosario emerge na tensao de discursos que sugerem papeis sociais e atividades diversas para a sua pratica profissional.

A heterogeneidade e constitutiva dos discursos, mas a profissao hibrida de agente comunitario da saude traz conflitos em funcao dos papeis multiplos das agentes e de discursos conflitantes--o da saude, o da religiao, o do assistencialismo social a moradores da regiao, enquanto discursos que nao resolvem os problemas dos moradores, e transferem a resolucao emergencial de problemas de ordem social para o plano da agencia individual e de grupo dos moradores de Vila Rosario.

Referencias

ATKINSON, P. Medical discourse, evidentiality and the construction of professional responsibility. In: SARANGI, S. & ROBERTS, C. (eds.). Talk, Work and Institutional Order. Discourse in Medical, Mediation and Management Settings. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. 1999. p. 75-107

BASTOS, C. R. P. e PEREIRA, M. G. D. Vila Rosario: o discurso institucional e profissional na prevencao e educacao no combate a tuberculose. Rio de Janeiro: Departamento de Letras da PUC-Rio, 2009.

BODEN, D. The business of talk: organization in action. Cambridge: Polity Press, 1994

BRASIL. Ministerio da Saude. Fundacao Nacional de Saude. Programa Nacional de Agentes Comunitarios de Saude. Brasilia. 1991.

--. Ministerio da Saude. Programa Comunidade Solidaria. Programa Nacional de Agentes Comunitarios de Saude. Brasilia. 1997.

--. Ministerio da Saude. Secretaria de Assistencia a Saude. Manual para a organizacao da atencao basica. Brasilia. 1999.

--. Ministerio da Saude. Secretaria de Gestao do Trabalho e da Educacao na Saude. Departamento de Gestao e Educacao na Saude. Perfil de competencias profissionais do agente comunitario de saude. Brasilia, 2003.

--. Ministerio da Saude. Secretaria de Atencao a Saude. Departamento de Atencao Basica. Monitoramento na atencao basica de saude: roteiros para reflexao e acao. Brasilia: Ministerio da Saude, 2004.

COOK-GUMPERZ, J.; MESSERMAN, Lawrence. Local identities and institutional practices: constructing the record of professional collaboration. In: SARANGI, S. & ROBERTS, C. (eds.). Talk, Work and Institutional Order. Discourse in Medical, Mediation and Management Settings. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. 1989. p. 145-181

CORTEZ, C. M; PEREIRA, M. G. D. Narrativas de agentes comuntarias de saude e de moradores de Vila Rosario: praticas profissionais e discursivas no atendimento a tuberculose. Rio de Janeiro: Departamento de Letras, Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro. 2011. Dissertacao de Mestrado

COSTA NETO, C. Vila Rosario. Rio de Janeiro. Calamo, 2002.

-- Tuberculose, Vila Rosario e a cadeia da miseria angustias e reflexoes de um cidadao. Boletim de Pneumologia Sanitaria, v. 11, n. 2, p.25-40, dez. 2003.

-- Tuberculose, Vila Rosario e a Cadeia da Miseria. Antigas angustias, mais reflexoes e novos caminhos. Boletim de Pneumologia Sanitaria, v. 12, n.3, p.171-183, 2004

-- Vila Rosario e a Cadeia da Miseria. A caminho da eliminacao da tuberculose. Boletim de Pneumologia Sanitaria, v. 15, n.1, p.15-28, 2007

-- Tuberculose e miseria. Rio de Janeiro: Nova Razao Cultural, 2011.

DECKERT, S. K.; VICKERS, C. H. An introduction to sociolinguistics: society and identity. London: Continuum, 2011.

DENZIN, N.; LINCOLN, Y.S et al.. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2a ed., Porto Alegre: Artmed, [2003] 2006

ERICKSON, F. Appropriation of voice and presentation of self as a fellow physician: aspects of a discourse of apprenticeship in medicine. In: SARANGI, S. & ROBERTS, C. (eds.). Talk, Work and Institutional Order. Discourse in Medical, Mediation and Management Settings. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. 1999. P. 109-143

--. Etnographic microanalysis of interaction. In: LeCompte, M. D.; Millroy, W. L.; Preissle, J. (eds.). The Handbook of Qualitative Reasearch in Education. Academic Press: Harcourt Brace Jovanovich, Pubs, 1992.

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudanca social. Izabel Magalhaes (coord. Trad., rev. tecnica, prefacio). Brasilia: Editora da UnB [1992] 2001.

FRANK, J. You call that a rhetorical question? Forms and functions of rhetorical questions in conversation. Journal of Pragmatics. 14 (5): 723-738, 1990.

GEERTZ, C. From the Native's Point of View: On the Nature of Anthropological Understanding. In: Geertz, C. Local Knowledge. Basic Books, Inc. 1973. p. 55-70.

GIFFIN, K.; SHIRAIWA, T. O agente comunitario de Saude Publica: a proposta de Manguinhos. Cadernos de Saude Publica, v. 5, n. I, p. 24-44, 1989.

GOFFMAN, E Footing. In: RIBEIRO, B. e GARCEZ, P. (orgs.). Sociolinguistica interacional. Sao Paulo: Loyola, [1979] 2002 p.107-148

--. Frame Analysis. New York: Harper & Row, 1974. 586 p.

GUMPERZ, J. J. Convencoes de contextualizacao. In: RIBEIRO, B. T.; GARCEZ, P. M. (orgs.). Sociolinguistica interacional. Sao Paulo: Loyola, [1982] 2002. p. 149-182.

-- On interactional sociolinguistic method. In: SARANGI, S. & ROBERTS, R. (eds.) Talk, work and institutional order: discourse in medical, mediation and management settings. Berlim/ New York: Mouton de Gruyter, 1999. p. 453-71

HYMES, D. Ways of speaking. In: BAUMAN, Richard. & SHERZER, Joel (ed.) Explorations in the ethnography of speaking. London, Cambridge Universitu Press, 1974. p.433-51

KLUTHCOVSKY, A. C. G. C.; TAKAYANAGU, A. M. M. O agente comunitario de saude: uma revisao da literatura. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. n14, n. 6, 2006.

LABOV, W.; FANSHEL, D. Therapeutic discourse: psychotherapy as conversation. New York, Academic Press, 1977.

LEVINSON, S. C. Activity types and language. Linguistics, 17:365-99, 1979.

LINARES, F. do N. P.; PEREIRA, M. G. D. Narrativa, escrita e a construcao de identidades na producao de textos de alunos do ensino fundamental da rede publica. Rio de Janeiro: Departamento de Letras da PUC-Rio, 2010. Dissertacao de Mestrado.

LINELL, P. Discourse across boundaries: on recontextualizations and the blending of voices in professional discourse. Text, 18 (2): 143-57, 1998

MAINGUENEAU, D. 3.ed. Novas tendencias em analise do discurso. Campinas, Pontes, [1987] 1997.

MATTOS, C. L. G. A abordagem etnografica na investigacao cientifica. Espaco. Rio de Janeiro. n. 16, p. 42-59, dez., 2001. Disponivel em: <http://www.ines.gov.br/paginas/revista/A%20bordag%20 etnogr para%20Monica.htm> Acesso em 12 mai. 2010

MIALHE, F. L. O agente comunitario de saude: praticas educativas. Campinas/ SP: Editora da UNICAMP, 2011.

MINISTERIO DA SAUDE. Secretaria de Atencao a Saude. Departamento de Atencao Basica. O trabalho do agente comunitario de saude. Brasilia: Ministerio da Saude, 2009.

MEAD, G. H. Mind, Self and Society. Chicago: University of Chicago Press, 1934.

MISHLER, E.G. The discourse of medicine: dialectics of medical interviews. Norwood, N.J.: Ablex, 1984.

NOGUEIRA, R., RAMOS, Z.V.O. A vinculacao institucional de um trabalhador sui generis--o agente comunitario de saude. [Texto para discussao 735], 2000. Disponivel em: <http://www.ipea.gov.br/pub/td/td 2000/td0735.pdf> Acesso em: 15 mai. 2010.

NUNES, M. DE O.; TRAD, L. M.; ALMEIDA, B. de A.; HOMEM, C. R.; MELO, M. C. I. de C. O agente comunitario de saude : construcao da identidade desse personagem hibrido e polifonico. Cad. Saude Publica, 18(6):1639-1646, 2002.

PEREIRA, M. G. D. Praticas discursivas e modos de fala: uma perspectiva de abordagem para a comunidade de Vila Rosario. In: XV CONGRESSO DA ASSEL Linguagens em dialogo: pesquisa e ensino na area de Letras Rio de Janeiro, 4 a 6 de novembro de 2009. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 2009a.

-- Vila Rosario: Praticas discursivas da comunidade e representacao social na prevencao e educacao no combate a tuberculose. Rio de Janeiro: Departamento de Letras da PUC-Rio, 2009b

PEREIRA, M.G.D.; CORTEZ, C. Narrativas como praticas de agentes comunitarias: a fala no e sobre o trabalho em uma reuniao sobre o tratamento da tuberculose. Calidoscopio, 9(2): 8095, mai/ago 2011.

--. Agencia e performance em narrativas sobre o tratamento da tuberculose em Vila Rosario: projecoes do 'eu' avaliativo e agentivo. In: FABRICIO, B. F.; PINTO, J. P. Exclusao e resistencia no discurso. Goiania: UFG (no prelo, encaminhado para publicacao em 2011).

PEREIRA, T.C.; PEREIRA, M.G.D. A entrevista psiquiatrica: a rotina, o fazer clinico e as representacoes. Rio de Janeiro: Departamento de Letras, Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro--PUC-Rio, 2005. Tese de doutorado.

PLANTIN, C. A argumentacao: historia, teorias, perspectivas. Sao Paulo : Parabola Editorial, [2005] 2008.

RIBEIRO, B.T. e PEREIRA, M.G.D. A nocao de contexto na analise do discurso. Veredas, v. 6 (2):49-67, jul/dez, 2002.

RICE, P. L. & EZZY, D. Qualitative research methods. Oxford/ New York: Oxford Univ. Pres, 1999.

ROLIM, B. C.. O PSF e o fortalecimento da participacao popular em saude: analise do trabalho desenvolvido pelas Equipes de Saude da Familia no municipio de Duque de Caxias. Rio de Janeiro: Departamento de Servico Social, Universidade Estacio de Sa, 2009. Dissertacao de Mestrado

SARANGI, S. The conditions and consequences of professional discourse studies. In: KIELY, R.; REA-DICKINS, P.; WOODFIELD, H.; CLIBBON, G. (eds.), Language, Culture and Identity in Applied Linguistics. London, Equinox, 2006 p. 199-220.

--. Reconfiguring self/identity/status/role: the case of professional role performance in healthcare encounters. In: ARCHIBALD, J.; GARZONE, G. (eds.). Actors, identities and roles in professional and academic settings: discursive perspectives. Berne: Peter Lang, 2010. p. 27-54.

--. Role hybridity in professional practice. In S. Sarangi, V. Polese and G. Caliendo (eds) Genre(s) on the Move: Hybridisation and Discourse Change in Specialised Communication. Napoli: Edizioni Scientifiche Italiane (ESI), 2011.

SARANGI, S.; ROBERTS, C. Introduction: discursive hybridity in medical work. In:--(eds.). Talk, Work and Institutional Order. Discourse in Medical, Mediation and Management Settings. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. 1999a. p. 61-74

--. Hybridity in gatekeeping discourse: issues in practical relevance for the researcher. In:-- (eds.). Talk, Work and Institutional Order. Discourse in Medical, Mediation and Management Settings. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. 1999b. p.473-503

SCHIFFRIN, D. Discourse markers. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1987.

SCHWARTZMAN, H. Meetings in context. Beverly Hills: Sage Books, 1988.

SILVA, J. A. O agente comunitario de saude do Projeto QUALIS: agente institucional ou agente de comunidade? Sao Paulo: Faculdade de Saude Publica, Universidade de Sao Paulo, 2001. Tese (Doutorado)

SILVA, J. A. da; DALMASO, A. S. W. O agente comunitario de saude e suas atribuicoes: os desafios para os processos de formacao de recursos humanos em saude. Interface--Comunic, Saude, Educ, (6), (10): 75-96, 2002.

TANNEN, D. Talking voices. Repetition, dialogue, and imagery in conversacional discourse. Cambridge, Cambridge University Press, 1989

TANNEN, D.; WALLAT, C. Enquadres Interativos e esquemas de conhecimento em interacao: exemplos de um exame/consulta medica. In B.T. Ribeiro e P. Garcez (eds.), Sociolinguistica Interacional. Sao Paulo: Loyola, [1987] 2002. p. 183-214

ZIMMERMAN, D. H. Discourse identities and social identities. In: Antaki, Ch. & Widdicombe, S. Identities in talk. London: Sage. P.87-106

RECEBIDO EM: 18/01/2012 APROVADO EM: 23/05/2012

(1) <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/profissional/visualizar texto.cfm?idtxt=31109> Acesso em 29/08/2011

(2) O estudo foi apresentado por Pereira e Cortez, em uma versao preliminar, na V Jornada de Estudos do Discurso (PUC-Rio, Programa de Pos-Graduacao em Estudos da Linguagem, 20 e 21/10/11) com o titulo de "Discursos hibridos em narrativas de agentes comunitarias de saude no atendimento a tuberculose: entre a pratica profissional e a cidadania" na Mesa-Redonda "Discurso e praticas profissionais hibridas em contextos urbanos da contemporaneidade".

(3) A pesquisa esta relacionada aos projetos de Pereira (2009a, 2009b), "Vila Rosario: Praticas discursivas da comunidade e representacao social na prevencao e educacao no combate a tuberculose", e Bastos e Pereira (2009) Vila Rosario: o discurso institucional e profissional na prevencao e educacao no combate a tuberculose e a dissertacao de mestrado de Cortez e Pereira (2011) "Praticas profissionais e discursivas de agentes de saude no tratamento da tuberculose junto a comunidade no Instituto Vila Rosario".

(4) O Instituto Vila Rosario e uma organizacao que se originou da Sociedade QTROP de Quimica para o Combate a Doencas Tropicais. No final de 1997, a Sociedade estabeleceu Vila Rosario - Duque de Caxias, como sua area de atuacao, buscando desenvolver um modelo de intervencao para o controle da tuberculose. (Costa Neto, 2003: 26).

(5) Membros da Equipe da PUC-Rio, no inicio da pesquisa em 2009: Maria das Gracas Dias Pereira e Clarissa Rollin Pinheiro Bastos (coordenadoras); Cinara Monteiro Cortez e Marilia Araujo Fernandes (mestrandas do Programa de Pos-Graduacao em Letras sob orientacao de Maria das Gracas Dias Pereira); Maria Tereza Lopes Dantas e Tania Conceicao Pereira (Pesquisadoras associadas a pesquisa).

(6) Cinara Monteiro Cortez e Marilia Araujo Fernandes, que ja concluiram as dissertacoes de mestrado..

(7) Vila Rosario, em Duque de Caxias - RJ, e um bairro situado na area proxima ao canal do rio Sarapui e a avenida Presidente Kennedy, na regiao de Gramacho. A regiao e ocupada por uma grande favela, o Bairro da Fraternidade (Costa Neto, 2002: 336-7)

(8) A agenda de trabalho do Instituto, alem do mapeamento e acompanhamento dos moradores da regiao pelas agentes e acoes de saude no combate a tuberculose, inclui acoes educativas para o esclarecimento e informacao sobre a tuberculose, nutricao e higiene (palestras, folders educativos, cursos, reunioes), acompanhamento escolar para as criancas e jovens da localidade, rodas de leitura, biblioteca e doacao de livros, atividades recreativas e educacionais para criancas, cursos de curta duracao para as agentes e moradores sobre diversos temas, entre outras atividades (Costa Neto, 2011; Cortez, 2011: 83).

(9) Para uma discussao mais detalhada, ver Linares e Pereira (2010: 22-30).

(10) Bakhtin, M. M. The dialogic imagination. Four Essays. Translated by C. Emerson and M. Holquist, edited by M. Holquist. Austin: Texas University Press, 1981.

(11) Hymes (1974:434) estabelece a nocao de modos de fala, ou de estilos de uma dada comunidade, e como sao colocados em uso em contextos e situacoes de fala particulares.

(12) Sarangi (2010) inicia suas reflexoes por uma questao importante , relativa ao uso intercambiavel de conceitos como self, identidade, status, papeis, tratados muitas vezes de forma conflitante, ja que remetem a diferentes abordagens teoricas e analiticas.

(13) (Zimmerman,1998:90) denomina de identidades discursivas, que colocam em jogo componentes relevantes da maquinaria conversacional. Os participantes assumem diferentes identidades discursivas quando participam de diferentes atividades organizadas sequencialmente, tais como falante/ouvinte; narrador/ recipiente de narrativa (ver Pereira e Silveira, 2006: 241)

(14) (Zimmerman,1998: 90, 94-5) denomina de identidades situadas/ Institucionais relacionadas a natureza institucional da atividade de fala em questao, em que entram em jogo normas e rotinas particulares, em decorrencia das metas instrumentais, envolvendo conhecimentos e habilidades relevantes para a realizacao de tarefas discursivas (ver Pereira e Silveira, 2006:241-2).

(15) Mead, G. H. Mind, Self and Society. Chicago: University of Chicago Press, 1934.

(16) Schiffrin (1987) estabelece os seguintes modulos no desenho central do modelo: (i) estrutura de troca (turnos, pares adjacentes, perguntas e respostas, natureza das sequencias); (ii) estrutura de acao (atos de fala situados, acoes em sequencia); (iii) estrutura ideacional (unidades semanticas: proposicoes ou ideias; relacoes coesivas, relacoes de topico). De forma circundante a esses tres modulos, a autora estabelece que falantes e ouvintes estao relacionados: (iv) pela estrutura de participacao (relacoes entre falante e ouvinte; formatos de producao e de interpretacao; conjunto de posicoes dos individuos envolvidos em uma dada interacao); e (v) pelo estado da informacao (organizacao e gerenciamento do conhecimento e do metaconhecimento por falantes ouvintes).

(17) Para um detalhamento de outras posicoes em relacao a enquadres, ver Pereira e Cortez, 2011: 83.

(18) Para uma discussao mais ampla sobre tipos de conhecimentos, ver Pereira e Pereira, 2005: 37-9.

(19) Ver o turno 47, no segmento 6.

(20) Acreditamos ser diferente do animador encaixado, considerado por Goffman ([1979] 2002: 139) como "uma figura inserida em uma afirmacao e cuja presenca se da somente no universo sobre o qual se esta falando, mas nao no universo no qual a narracao em curso acontece".
Segmento 1

T. 22   Flavio   1    [...] essa historia da do que voces escrevem
                        em relacao ao que voces
                 2    estao vendo que e a conversa do indiano,
                 3    eu ja comentei isso com voces ne?
                 4    voces vao la conversam com o pessoal anotam
                        umas coisas,
                 5    agora quanto: do que voces realmente estao
                        escrevendo representa
                 6    aqui-aquela situacao
                 7    entao voce e todo um desenvolvimento
                        intelectua:l pra pra apreender
                 8    toda a situacao e nao,
                 9    que voce tem varios niveis de de representacao
                        dessa coisa
                 10   pode ser uma descricao muito superficial
                 11   pode tenta:r entender um pouco mais
                 12   e vai precisar de um pouco mais de psicologia
                        etc
                 13   que e que isso e que seria interessante
                 14   [down arrow] que a gente tivesse uma ...
                        alguma coisa ligada e e essa essa
                 15   compreensao a psicologia
                 16   = ate ja nos conversamos sobre isso lembra que
                        voce falou que seu
                 17   pai e psicologo ((dirigindo-se a pesquisadora
                        cinara))

Segmento 2

T. 23   Leila    1    = a primeira situacao que a gente:: repara
                        no:: no atendimento:: e a
                 2    acolhida e a escuta porque::[down arrow] se
                        voce nao se colocar a disposicao
                 3    de escutar voce tambem nao e bem recebido
                        ... ne? [eles
                 4
T. 24            5    [((falas sobrepostas))
T. 25   Leila    6    [=geralmente e:: e:: aquela coisa da:: do
                        desabafo
                 7    ne eles querem contar tu::do por mais que
                        voce te::nte ... ne, fazer
                 8    o:: realmente o seu trabalho voce tem que::
                        se disponibilizar um
                 9    pouco pra:: escutar [ne
T. 26   Clara    10   [e:: bastante eu diria
                 11   [ate ne
T. 27   Flavio   12   [e isso e importante por que::
T. 28   Leila    13   [ate pra nos pra propria acolhida

Segmento 3

T. 44   Leila       1    [muitas vezes eles pensam o
                           seguinte que:: e e obriga:do, eles
                    2    querem algo em troca como essas
                           familias de mais necessidade ne, eles
                    3    acham que pra voce ta ali pra voce tem
                           que dar uma cesta [basica pra ele
                    4
T. 45   Dulcineia   5    [governo, acha que e do governo
T. 46   Flavio      6    = agora eu disse pra voces tambem o
                           seguinte = saindo esses projetos essas
                    7    coisas e:: e esse pessoal que esta
                           realmente precisa:ndo de comi:da
                           coMIda [up arrow]
                    8    mesmo nao tem o que comer ai nos vamos
                           suprir = no momento a gente ainda
                    9    nao tem mas ja ja a gente vai ter porque
                           ne [up arrow] nao adianta se
                           nao der comida
10 eles morrem [por que o que adianta?

Segmento 4

T.1   Madalena   1   quer dizer ai vai voce falar o que da
                       saude nao e? voce nao vai dizer que a
                 2   tuberculose e: isso e aquilo e dessa forma>
                       por isso por aquilo< que que
                 3   acontece? voce se depara com essa pessoa que
                       nao pode >trabalhar por que ta
                 4   tuberculosa<, a mulher nao pode >trabalhar<
                       por que tem que cuidar dele por
                 5   que ele e o marido ((incompreensivel)) que
                       quer alguem que cuida, e nao ta
                 6   tendo o que comer por que nao tem o que
                       come:r, ai voce vai falar o que? diz
                 7   pra mim o que voce falaria? ... voce vai
                       falar assim sabe o que e [flecha superior]
                       que "se deus
                 8   quiser voce vai ficar bo:m meu filho [flecha
                       inferior]"
                 9

Segmento 4b

T.2              11   [((vozes sobrepostas))
T.3   Madalena   12   [nao mas sabe o que vai acontecer, vai dizer
                        "mas como se eu nao tenho o
                 13   que comer"
T.4   Carla      14     [= Madalena minha mae teve tuberculo:as
T.5   Madalena   15     [= ((incompreensivel)) nao faz assim,
                 16   deixa eu acabar o raciocinio, deixa eu acabar
                        >meu raciocinio<,
                 17   ai eu digo, eu falo assim pra ela, "nao, voce
                        vai ficar bom se voce vai ver
                 18   vai ficar bo:m" ... ai ela vai dizer "mas
                        entao mas eu nao tenho o que
                 19   comer[up arrow] ele nao tem o que
                        comer[up arrow]" ai eu falo "nao se deus
                        quiser quiser
                 20   voce vai ficar bomt"
                 21   alias presta atencao olha o raciocinio >olha
                        o raciocinio<
                 22   "deus vai te ajudart vai ficar bom"
                 23   ai voce fala da saude e diz que deust vai
                        ajudart ai ela pergunta pra ela
                 24   mesma "mas que deus e esse que deixa eu morrer
                        de fome? voce vem falar
                 25   comigo da saude e eu falo com voce assim o,
                        eu nao tenho como trabalhar
                 26   por que tenho que cuidar do marido, a vizinha
                        tem que cuidar da vida dela
                 27   nao pode ta cuidando do marido o dia inteiro",
                 28   quer dizer, gente o e uma situacao dificil
                 29

Segmento 4c

T.5   Madalena   30   =ai o que que voce faz eu, eu falo de mim, eu
                        fui embora
                 31   mas eu falei o que com ela, [down arrow]deus
                        <vai te ajudar>, e deus na pessoa de
                 32   quem? natminha pessoa voce pode ter certeza do
                        que eu tou falando, que
                 33   que eu fiz, fu:i pedi um pouco aqui um pouco
                        ali um >pouco na minha mae
                 34   um pouco na minha irma um pouco num sei aonde<
                        e juntei um monte "de
                 35   coisa" inclusive a neia ia comigo levar esse
                        carrinho >de feira<, e eu falei
                 36   assim "neia mas ta muito quente o so:l", enfim
                        eu consegui que alguem
                 37   fosse buscar.
                 38   gente falar da saude e dizer que vai levar e
                        muito facil agora VAI pro
                 39   campo trabalhar[up arrow] que ai voce vai ver
                        com quantos paus se faz uma canoa.
                 40   eu ja sei, pode ser com um pau e com monte de
                        pau, que eu ja vi essa
                 41   reportagem (antes) que eu quero dizer com
                        isso, gente, falar de da que voce
                 42   precisa se alimentar pra voce ter saude pra
                        sua imunidade aumentar >pra
                 43   voce nao sentir< fraqueza, e muito facil
COPYRIGHT 2012 Federal University of Juiz de Fora (UFJF)
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

 
Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Pereira, Maria das Gracas Dias; Cortez, Cinara Monteiro
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jan 1, 2012
Words:10848
Previous Article:Early bootstrapping of syntactic acquisition.
Next Article:Analysing language in legal contexts.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2018 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters