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Hemathological and biochemical paramaters of Iguana iguana species--review/PARAMETROS HEMATOLOGICOS E BIOQUIMICOS DA ESPECIE Iguana iguana: REVISAO DE LITERATURA.

1 Introducao

De acordo com o levantamento coordenado pela Sociedade Brasileira de Herpetologia, ate o ano de 2005 eram conhecidas 641 especies de repteis no territorio brasileiro, representando cerca de 8% das mais de oito mil especies conhecidas no mundo (MARTINS; MOLINA, 2008). A especie Iguana iguana, reptil da familia Iguanidae, se distribui do Mexico ao Brasil Central e Paraguai (VITT et al, 2008). No Brasil, e encontrada em parte da regiao Centro- Oeste, Pantanal e na Caatinga (CAMPOS, 2003). Quando jovens, alimentam-se principalmente de insetos e na vida adulta sao herbivoros generalistas. Sao lagartos de grande porte, com coloracao que pode variar entre verde intenso, verde acinzentado ou vermelho acinzentado (ANDRADE, 2009).

Poucos estudos foram realizados em iguanas verdes para se determinar como interpretar a patologia clinica nesta especie. ParAmetros hematologicos e bioquimicos sericos em reptilianos podem variar de acordo com o genero, idade, estado nutricional, estado fisiologico e pela variacao da temperatura e outros fatores ambientais (CAMPBELL, 2006). Segundo Divers (1996), a necessidade de informacoes sobre as alteracoes fisiologicas e patologicas e crescente na medicina clinica de repteis. Nas ultimas decadas esses animais vem sendo cada vez mais vistos como pets exoticos ou expostos em zoologicos. Portanto, o conhecimento sobre a ecologia e a biologia da especie e necessario para avaliacao da saude desses individuos em cativeiro e a carencia de estudos expoe a importAncia de investigacoes mais aprofundadas, visto que os valores hematologicos e bioquimicos normais, mesmo para as especies mais populares, ainda sao de conhecimento insuficiente.

Diante do exposto, o presente artigo tem como objetivo revisar os conceitos da hematologia e bioquimica clinicas em iguanas verdes, abordando desde o manejo do animal no ato da colheita de sangue ate a interpretacao dos resultados obtidos nos exames laboratoriais.

2 Desenvolvimento

2.1. A especie estudada

A Iguana iguana, popularmente conhecida como iguana verde ou iguana comum. E uma especie distribuida do Mexico, atraves da America Central e parte das Antilhas, ao Brasil Central e Paraguai. Sao repteis pertencentes a ordem Squamata, subordem Lacertilia, da familia Iguanidae (VITT et al., 2008). No Brasil, tem distribuicao na regiao Amazonica, parte da regiao CentroOeste, Pantanal e na Caatinga (CAMPOS, 2003). Os lagartos da familia Iguanidae apresentam estruturas corporais caracteristicas, dentre elas: uma crista parecida com espinhos ao longo do dorso e da cauda, uma escama grande e arredondada abaixo dos timpanos e uma prega gular bem desenvolvida. Sao lagartos de grande porte, podendo pesar ate seis quilos. Quando jovem, assume uma coloracao verde intensa e, a medida que se aproximam da fase adulta, sua coloracao varia do verde acinzentado ao cinza avermelhado, algumas vezes com listras verticais escuras distribuidas ao longo do corpo e da cauda (ANDRADE, 2009). Medem cerca de quarenta centimetros de comprimento rostro-cloacal e, incluindo a cauda, podem atingir um metro e cinquenta centimetros de comprimento na fase adulta (VITT et al., 2008).

O meio mais confiavel de determinar o genero de lagartos adultos e atraves dos poros femorais e pre-cloacais, que, quando presentes, sao maiores em adultos machos do que em femeas (BARTEN, 2006). As iguanas atingem a maturidade sexual a partir do segundo ou terceiro ano de vida e se reproduzem uma vez ao ano, geralmente entre os meses de outubro a abril (ANDRADE, 2009).

Por serem ectotermicos, repteis sao dependentes das condicoes ambientais para controlar a temperatura corporal e regular seu metabolismo (ROSENTHAL, 2002). De acordo com Barten (2006), a ecologia termica dos repteis e complexa e envolve muitos fatores. Nos lagartos, o mecanismo de regulacao termica atinge um maior grau de refinamento comparado com o restante dos reptilianos e grande parte das atividades diarias de lagartos e despendida em interacoes com o ambiente termico. A perda ou ganho de calor depende tanto do habitat em que o lagarto se encontra quanto da atividade que ele esteja exercendo naquele determinado momento, como forrageamento, digestao de alimentos, reproducao e interacoes sociais (ROCHA et al., 2009).

Segundo Rocha et al. (2009), os lagartos herbivoros, assim como a Iguana iguana, precisam manter suas temperaturas elevadas para digerir a materia vegetal ingerida. A radiacao solar direta nao e apenas a principal fonte de calor, mas tambem da radiacao ultravioleta (UV). A luz UV aumenta a atividade em lagartos e cobras e a exposicao a certos comprimentos de onda e essencial para a saude dos lagartos com habitos diurnos, pois a luz UV esta diretamente relacionada com a sintese de vitamina D3. Esta vitamina e necessaria para o metabolismo do calcio da dieta, uma vez que a hipovitaminose D leva ao raquitismo e osteomalacia. Outro efeito de um desequilibrio no calcio e a producao de ovos mal calcificados, elevado numero de ovos inviaveis e pouco sucesso de eclosao (DICKINSON; FA, 1997).

A umidade e um fator importante, mas muitas vezes esquecido no manejo de lagartos em cativeiro. Em geral, as especies de florestas tropicais precisam de umidade maior que especies de deserto. A maioria das especies ficam bem em niveis de umidade entre 50% a 70%. (BARTEN, 2006).

As iguanas verdes sao herbivoros e em vida livre se alimentam quase inteiramente de folhas, flores e frutos. Seu trato gastrointestinal e composto por esofago, estomago monocavitario, um intestino delgado curto, um intestino grosso com um colon largo e compartimentado, reto e cloaca. E no colon que ocorre a fermentacao no intestino grosso (DIAZ-FIGUEROA; MITCHEL, 2006). A dieta herbivora e uma estrategia de alimentacao incomum na maioria dos lagartos, entretanto, isso ocorre principalmente na familia dos Iguanideos e a iguana verde e um dos mais folivoros (BAER et al., 1997).

A dieta recomendada por Barten (2002) para iguanas verdes em cativeiro inclui uma variedade de vegetais verdes folhosos e cortados. Mesmo que as fontes de proteina animal tenham sido tradicionalmente recomendadas para iguanas, a sua necessidade nao foi cientificamente comprovada, portanto a proteina fornecida deve ser de fonte vegetal. Os graos devem ser limitados a petiscos ocasionais ou serem totalmente evitados na dieta. A suplementacao com vitaminas e minerais e indicada em todas as fases de desenvolvimento de iguanas.

2.2. Metodos de contencao e colheita de sangue

Existem duas formas de se conter os animais: a contencao quimica e a contencao fisica. A contencao quimica produz efeitos comportamentais no animal, tais como sedacao, analgesia, ou relaxamento muscular atraves do uso de farmacos, que facilitam sua manipulacao. Ja os metodos de contencao fisica incluem o uso de gaiolas, caixas, e armadilhas, dentre outros, visando o bemestar do animal, para que este tenha um manejo adequado e seguro (SANTOS; ZAPPA, 2009). Lagartos possuem um potencial de perigo aos manipuladores devido as estruturas dentais, que variam entre as especies entre placas osseas duras a dentes afiados; suas caudas, que podem ser utilizadas como armas de defesa causando pequenas escoriacoes ou ate lesoes graves ao manipulador; e suas garras longas, que tambem apresentam perigo, infligindo arranhoes desagradaveis (FOWLER, 2008).

A contencao fisica de um iguana agressivo deve ser feita pela parte superior do animal, fixando a cabeca e cauda ao mesmo tempo. Deve-se ter cuidado ao manipular a cauda do animal, para se evitar a autotomia. Por este motivo nunca se deve realizar a contencao pelo agarramento ou levantamento dessa estrutura. Com o auxilio de uma toalha e possivel que o animal seja envolvido, protegendo o manipulador do ataque de dentes, garras e cauda. Com uma mao o manipulador deve segurar ao redor do pescoco acima dos ombros do animal. O polegar e o dedo indicador devem estar posicionados caudalmente a cabeca para evitar mordidas. A segunda mao deve estar segurando os membros posteriores e a base da cauda (BARTEN, 2006). Lagartos de grande porte podem ser contidos atraves de redes ou camboes. Deve-se ter o cuidado com a tensao provocada no pescoco e pela forca dos proprios animais na intencao de escapar (FOWLER, 2008).

Para a avaliacao do estado de saude do reptil, a colheita de uma amostra de sangue venoso e indicada para se obter os parAmetros hematologicos do animal (SCHUMACHER; YELEN, 2006). Lagartos possuem uma veia na regiao ventral da cauda. Neste local, a colheita se da pelo posicionamento do animal em uma superficie em decubito dorsal, localizando-se o processo espinhoso ventral de uma das vertebras caudais. Introduz-se uma agulha de 25 ou 22 gauge acoplada a uma seringa de 1 ou 3 mL, direcionando-a num Angulo de 45 graus paralelamente ao processo espinhoso ate que ponta da agulha encoste na estrutura ossea, puxando o embolo para tras (FOWLER, 2008).

Uma via alternativa de acesso a ser considerada e feita atraves da veia abdominal ventral de lagartos, que se estende ao longo da parede abdominal na linha mediana (BARTEN, 2006). Essa veia possui grande calibre e pode ser utilizada para colheita de amostra sanguinea. O acesso e mais facil quando feito na regiao celomica caudal, cranial a cicatriz umbilical. A agulha e posicionada na linha mediana ventral e avancada na direcao craniodorsal. Outros acessos para puncao venosa em lagartos sao a veia jugular, plexo axilar, seio orbital e cardiocentese (DIVERS, 1996).

Todo o sangue obtido deve ser depositado em tubos heparinizados de litio, pois o acido etilenodiamino tetracetico (EDTA) pode causar lise de eritrocitos. O volume de sangue em repteis varia de 5% a 8% do peso corporal total. Em uma aproximacao grosseira, o volume retirado para a amostra nao deve ser maior do que 1% do peso total do corpo do animal (MADER; RUDLOFF, 2006).

2.3. Hematologia clinica de iguanas

O sangue de repteis e composto por eritrocitos nucleados, plaquetas nucleadas (trombocitos), heterofilos, eosinofilos, basofilos, linfocitos e monocitos (CAMPBELL, 2006). A avaliacao hematologica comeca com a colheita de amostras de sangue, tecnicas de manipulacao das amostras e procedimentos laboratoriais (STACY et al., 2011). Cuidados devem ser tomados na utilizacao de anticoagulantes. A heparina de litio, embora seja normalmente utilizada como anti coagulante na colheita de sangue de repteis, pode conferir uma coloracao azul para a coloracao total da pelicula de sangue, provocando o acumulo de leucocitos e trombocitos, causando variacao na contagem de celulas. A amostra deve ser processada imediatamente para minimizar os efeitos da heparina sobre as celulas. Sempre que possivel, o exame de esfregaco deve ser obtido a partir de sangue fresco, sem anticoagulantes.

Doencas sistemicas podem se manifestar no hemograma de repteis, alertando o medico veterinario para a necessidade da analise de outros exames laboratoriais (NARDINI et al., 2013). Variacoes nos valores de eritrocitos podem indicar anemia ou policitemia, que sao classificadas de acordo com as alteracoes clinicas apresentadas. Alem disso, o estudo do hemograma pode revelar a presenca de hemoparasitas, que sao achados comuns nestes animais. Da mesma maneira, o aumento ou reducao do numero de leucocitos totais pode nos indicar processos infecciosos ou doencas virais (FALCE, 2009).

A rotina da avaliacao hematologica dos repteis inclui a determinacao de hematocrito ou volume globular (Ht ou VG), hemoglobina (Hb), contagem de hemacias, contagem de leucocitos (leucometria global), contagem diferencial de leucocitos (leucometria especifica) e avaliacao da morfologia das celulas do sangue (NARDINI et al., 2013). Os valores hematologicos para a especie Iguana iguana encontram-se na Tabela 1.

O hemograma e uma mensuracao valiosa da saude em iguanas, mas os valores de referencia para a maioria dos repteis nao sao conhecidos. Valores baixos de leucocitos podem ou nao ser associados com doenca viral, sequestro de celulas ou supressao da medula ossea. Erros na confeccao de esfregacos levam a contagens mais baixas de leucocitos equivocadas. A elevacao dos leucocitos e supostamente relacionada com doencas inflamatorias, infecciosas e neoplasias. Nas iguanas, os heterofilos sao mais comuns que os linfocitos e os eosinofilos e basofilos sao pouco visualizados se comparados aos outros leucocitos. Em casos de doencas inflamatorias e infecciosas, especialmente devido a cronicidade, os monocitos se mostram elevados. O monocito azurofilico, ou simplesmente azurofilo, parece estar elevado em doencas infecciosas e quanto mais alta for sua contagem, mais severa sera a infeccao (ROSENTHAL, 2002). Ainda este autor comenta que e esperado que a maioria dos repteis tenham um hematocrito mais baixo do que o esperado em mamiferos. Quando o hematocrito se apresenta alto em sua contagem, associado a dosagem de proteina total, possivelmente ha uma desidratacao, quadro comum em repteis devido a erros de manejo. Quando o hematocrito apresenta-se baixo, casos de anemia e doenca cronica devem ser considerados.

2.3.1. Eritrocitos

Os eritrocitos de repteis sao similares em morfologia microscopica e estrutural aos de outros vertebrados nao mamiferos, como aves, anfibios e peixes. Sao nucleados maiores do que os seus homologos encontrados nos mamiferos. (STACY et al., 2011).

Sao produzidos na medula ossea a partir de celulas da linhagem eritroide, mas, diferentemente dos mamiferos, podem ser geradas em outros sitios hematopoieticos, como o figado e baco (FALCE, 2009).

Os estagios iniciais dos eritrocitos sao normalmente encontrados no sangue dos repteis, representando 1% do total da contagem de globulos vermelhos em animais saudaveis. Este baixo numero em comparacao com os mamiferos e aves, se da provavelmente por conta do ritmo lento de producao e rotatividade dos eritrocitos de repteis, da grande vida util dos eritrocitos (de 600800 dias em algumas especies) e de sua baixa taxa metabolica (NARDINI et al., 2013). Frequentemente sao menores do que eritrocitos maduros, redondos ou irregulares, com grandes nucleos redondos e citoplasma basofilico. Podem ser vistos no sangue periferico de repteis muito jovens ou submetidos a ecdise. (CAMPBELL, 2006).

2.3.2. Trombocitos

Segundo Falce (2009), a producao de trombocitos nos repteis e similar a das aves. Sao celulas nucleadas, variando entres formas elipticas e fusiformes. Dentre suas funcoes, destacamse a sua capacidade de fagocitose, participando ativamente na defesa do organismo, a sua capacidade de se transformar em eritrocitos e a sua participacao crucial na hemostasia, participando do mecanismo de coagulacao. Trombocitos com nucleos polimorfos podem indicar doencas inflamatorias de carater grave e trombocitos reativos sao encontrados em quadros de sepse severa, como a causada por Salmonella. A trombocitopenia--reducao da quantidade de trombocitos--nos repteis geralmente e associada ao excesso de utilizacao ou deficiencia na producao, onde pode ser observada em casos de coagulacao intravascular disseminada (CID).

2.3.3. Leucocitos

Segundo Stacy et al. (2011), os leucocitos reptilianos sao classificados em granulocitos (heterofilos, eosinofilos e basofilos) e de celulas mononucleares (linfocitos, monocitos e azurofilos). Os granulocitos de repteis podem ser classificados em acidofilos e basofilos, baseado sua aparencia em esfregacos de sangue corados. Os acidofilos sao divididos em heterofilos e eosinofilos (CAMPBELL, 2006).

2.3.3.1 Basofilos, heterofilos e eosinofilos

Os basofilos sao pequenos e arredondados e possuem grAnulos citoplasmaticos basofilicos metacromaticos, que podem camuflar o seu nucleo. Ao contrario de tartarugas e crocodilos, os lagartos tendem a ter pequenos basofilos (CAMPBELL, 2006). A funcao dos basofilos em repteis ainda nao e bem entendida. O aumento do percentual de basofilos e relatado em certas hemoparasitoses e infeccoes virais.

Em geral os heterofilos equivalem aos neutrofilos de mamiferos, enquanto os monocitos e os linfocitos de repteis possuem morfologia e funcao similares aos das aves, peixes e mamiferos. Os azurofilos sao exclusivos da ordem reptiliana (STACY et al., 2011). Estes apresentam-se como celulas redondas com citoplasma granuloso cor de laranja, em formato fusiforme e eosinofilico. Estas celulas sao facilmente identificadas por seu grande tamanho. Em lagartos, principalmente em Iguana iguana, o nucleo e geralmente bilobulado ou multilobulado (NARDINI et al., 2013).

Os heterofilos de iguanas possuem funcao analoga aos neutrofilos em mamiferos, incluindo fagocitose e atividade antimicrobiana (FALCE, 2009). Estudos funcionais em que heterofilos de aves foram comparados com neutrofilos de humanos e caes revelaram que os neutrofilos produzem substancialmente mais oxidantes em resposta a estimulos do que os heterofilos, presumivelmente por causa da atividade da peroxidase. Isto pode indicar que heterofilos em iguanas possuem capacidade bactericida e respostas oxidativas mais semelhantes as de neutrofilos de mamiferos do que heterofilos de aves ou outros repteis (HARR et al., 2001).

A morfologia dos eosinofilos de repteis se assemelha a dos mamiferos. Possuem um citoplasma com grAnulos roseos (eosinofilicos), mas em algumas especies, como em iguanas, os grAnulos coram-se em azul. O nucleo geralmente e ovalado, unico ou bilobado e localizado excentricamente (STACY et al., 2011). O numero de eosinofilos e influenciado por fatores sazonais, com menores numeros reportados no verao e maiores numeros durante o periodo de hibernacao. Os valores podem aumentar casos de parasitismo e estimulacao imune inespecifica (STRIK et al., 2007). O significado da eosinopenia e desconhecido para repteis (IRIZARRYROVIRA, 2004).

2.3.3.2 Azurofilos, monocitos e linfocitos

Os azuroflos sao um tipo de leucocito exclusivo para repteis. Combinam caracteristicas morfologicas de monocitos e granulocitos em uma so celula. O citoplasma dos azurofilos contem inumeros grAnulos eosinofilicos finos e parecidos com poeira. Sao comumente observados em lagartos, cobras e crocodilianos e ocasionalmente em quelonios (STRIK et al., 2007). Segundo Falce (2009), possuem tamanho e funcao semelhantes aos monocitos e assumem cerca de 20% dos leucocitos totais de Ball Pitons e Iguanas.

Os monocitos reptilianos se assemelham aos monocitos dos mamiferos. Possuem tamanho maior que as demais celulas de periferia e variam de formato circular a ameboide. O nucleo varia da forma oval a lobulada e possui menos cromatina condensada, o que o deixa com aspecto mais palido quando comparado ao nucleo de linfocitos (FALCE, 2009). A presenca de vacuolos e uma camada fina de grAnulos azurofilicos tambem podem ser visualizados no citoplasma (HARR, 2001). As causas predominantes de monocitose em repteis sao decorrentes de doencas inflamatorias agudas ou em processos inflamatorios cronicos devido a infeccoes bacterianas, infeccoes micoticas, parasitismo, infeccoes virais, corpos estranhos, dano tecidual e neoplasias (IRIZARRY-ROVIRA, 2004).

Os linfoblastos, prolinfocitos e linfocitos maduros aparecem igualmente ao dos mamiferos e aves, e eles podem ser encontrados em orgaos linfopoieticos, como o baco (FALCE, 2009). Os linfocitos possuem tipicamente um grande nucleo arredondado que e proporcionalmente maior em relacao ao citoplasma. A cromatina nuclear e fortemente concentrada em linfocitos maduros (CAMPBELL, 2006). Na maioria das especies de repteis, os linfocitos sao predominantes e compoe cerca de 80% dos leucocitos. As causas de aumento do numero de linfocitos incluem inflamacao ou infeccao, processos de cicatrizacao de feridas, parasitismo e doencas virais. A reducao do numero de linfocitos pode ser associada a desnutricao e excesso de corticosteroides endogenos e/ou exogenos (STACY et al., 2011).

2.4. Bioquimica plasmatica de iguanas

Os perfis bioquimicos do sangue sao muitas vezes utilizados para avaliar o estado fisiologico dos pacientes repteis. Porem, a bioquimica clinica de repteis ainda nao atingiu o mesmo grau de analises e avaliacoes criticas como visto na medicina de mamiferos domesticos, devido a uma falta geral de estudos controlados, destinados a esclarecer o significado de mudancas nas analises bioquimicas do sangue dos repteis (CAMPBELL, 2006). A interpretacao dos parAmetros bioquimicos do sangue nos repteis e, em muitos aspectos, semelhante a de mamiferos, mas devese considerar que as formas de controle da homeostase em repteis sao diferentes dos mamiferos e aves (SILVESTRE et al, 2013).

As condicoes ambientais e os parAmetros fisiologicos, tais como estado nutricional, sexo, idade, estacao do ano e estado fisiologico influenciam a bioquimica do sangue de repteis. Valores de referencia normais para testes bioquimicos especificos de algumas especies de repteis tem sido relatados em alguns estudos, mas em muitas vezes nao sao levadas em consideracao variacoes das condicoes ambientais, parAmetros fisiologicos, sazonalidade e particularidades quanto a idade e sexo desses animais. Outras variacoes, tais como os metodos de recolhimento de amostras, manuseio e analise bioquimica tambem sao pouco relatadas (CAMPBELL, 2006).

Segundo Rosenthal (2002), existe um numero limitado de informacoes sobre a bioquimica plasmatica em iguanas, o que torna a interpretacao dos valores obtidos em exames laboratoriais muito dificil. Para a maioria das substAncias analisadas, a quantidade de informacao tende a ser ainda menor, dificultando a determinacao do significado de um valor fora da variacao normal. Os valores bioquimicos encontram-se descritos na Tabela 1.

2.4.1 Acido urico

Por representarem o primeiro grupo de animais a se adaptar a um estilo de vida totalmente terrestre, os rins dos repteis evoluiram para maximizar a conservacao da agua. Isto e conseguido com relativamente poucos nefrons, uma taxa de filtracao glomerular baixa, capacidade de cessar a filtracao glomerular por completo em momentos de estresse hidrico e a producao de acido urico como o produto final do metabolismo de nitrogenio (HOLZ, 2006). O acido urico e considerado produto primario final do catabolismo de proteinas, nitrogenio nao proteico e purinas em repteis terrestres e representa 80 a 90% do nitrogenio excretado pelos rins (CAMPBELL, 2006).

Segundo Silvestre et al. (2013), embora os tubulos renais de repteis sejam muito eficientes na remocao de acido urico no sangue, concentracoes maiores que 15 mg/dL podem estar associadas com doenca renal e tambem relacionadas a ingestao recente de uma dieta rica em proteinas ou gota visceral. Outros fatores como elevados niveis de calcio, hipervitaminose D ou pouca disponibilidade de agua tambem fazem com que as concentracoes de acido urico se elevem no sangue.

2.4.2 Ureia

Os valores normais para ureia sanguinea sao baixos para a maioria dos repteis, pois, por serem uricotelicos, nao formam ureia como produto final do metabolismo de nitrogenio, que e direcionado a biossintese de purinas, resultando em acido urico (TESSEROLI, 2004).

Esta determinacao tem alta variacao sazonal, chegando a valores maximos durante a hibernacao (SILVESTRE et al., 2013). Um aumento na concentracao de ureia plasmatica pode ser sugestivo de doenca renal grave, azotemia pre-renal ou alta ingestao de ureia na dieta de repteis (CAMPBELL, 2006).

2.4.3 Calcio e fosforo

O metabolismo de calcio no sangue e a quantidade de calcio plasmatico ionizado dos repteis e mediado pelo paratormonio (PTH), calcitonina e vitamina D3 ativada (colecalciferol). Outros hormonios, como o estrogenio, tiroxina, e glucagon tambem podem influenciar o metabolismo do calcio em repteis (CAMPBELL, 2006).

Segundo Divers (2000), a determinacao da concentracao plasmatica de calcio e fosforo e importante no diagnostico de varias doencas. A relacao calcio/fosforo e provavelmente um bom indicador de doenca renal em repteis. Uma relacao de calcio/fosforo (Ca:P) menor que 1:1 sugere doenca renal (SILVESTRE et al, 2013).

Alem disso, a concentracao normal de calcio plasmatico varia com a especie e o estado fisiologico do reptil (CAMPBELL, 2006). Em repteis cativos, a hipercalcemia iatrogenica e comum devido a dietas com excesso de calcio e vitamina D3 ou pode ser observada tambem quando a amostra de sangue e lipemica ou apos anestesia com propofol em iguana comum. Raramente alguns casos de hipercalcemia podem ocorrer em neoplasias, hiperparatireoidismo primario e doenca ossea osteolitica e acidoses metabolicas (SILVESTRE et al., 2013). Acreditase que a hipercalcemia possa ocorrer por causa do ciclo reprodutivo das femeas, que exibem caracteristicas do metabolismo do calcio semelhantes as de aves em fase de producao de ovos e tambem em resposta ao estrogeno e a atividade reprodutiva, onde podem ser observados valores de calcio sericos de duas a quatro vezes o valor normal (LIMA et al., 2012).

Ocorre hipocalcemia na maioria dos repteis quando ha deficiencia de calcio e vitamina D3 na dieta, quantidade excessiva de fosforo na dieta, alcalose, hipoalbuminemia ou hipoparatireoidismo. Em repteis herbivoros, assim como a iguana comum, o hiperparatiroidismo secundario nutricional e um disturbio que causa a reducao dos niveis de calcio no plasma (CAMPBELL, 2006).

As situacoes mais comuns que provocam o aumento da concentracao de fosforo no sangue incluem uma dieta com quantidade excessiva de fosforo, hiperparatiroidismo secundario, a hipervitaminose D3 e doencas renais. Observa-se hiperfosfatemia em amostras hemolisadas (SILVESTRE et al., 2013), devido a presenca do fosforo no interior dos eritrocitos (RAMEH-DEALBUQUERQUE, 2007). A situacao de hipofosfatemia em repteis pode ocorrer por anorexia, inanicao, neoplasias ou deficiencias nutricionais (SILVESTRE et al., 2013).

2.4.4 Proteinas Totais

Casos de hiperproteinemia em repteis incluem desidratacao ou hiperglobulinemia associada a doencas inflamatorias cronicas. As hipoproteinemias estao geralmente relacionadas a ma nutricao cronica, problemas digestivos como reducao da absorcao e ma digestao de alimentos, enteropatias, perdas sanguineas severas e doencas renais ou hepaticas cronicas. Quando mantidos em cativeiro, alguns individuos podem apresentar uma concentracao maior de proteina total plasmatica quando comparados as mesmas especies de vida livre, devido a dietas prolongadas com alto teor de proteina (CAMPBELL, 2012).

2.4.5 Enzimas hepaticas

De acordo com Almosny e Monteiro (2007), o comportamento das enzimas hepaticas de repteis parece ser similar ao de aves. A ALT (alanina aminotransferase) nao e um indicador sensivel no diagnostico da doenca hepatica em repteis e a concentracao plasmatica de AST (aspartato aminotransferase) nao e orgao-especifica porque essa enzima e encontrada em varios tecidos. Normalmente a elevacao da sua atividade sugere doenca hepatica ou lesao muscular. Tambem afirmam que a atividade plasmatica de lactato desidrogenase (LDH) e considerada como de maior distribuicao em repteis e pode estar associada com lesao hepatica, muscular esqueletica ou cardiaca.

Silvestre (2013) menciona que pode ser observado aumento da enzima AST devido a agressividade e efeito hormonal em iguanas e seu aumento tambem pode ocorrer devido ao estresse apos constantes manipulacoes e apos anestesia com propofol. O mesmo autor observou tambem elevacao nos niveis tanto de AST quanto de ALT em consequencia ao uso continuo de carprofeno.

Os acidos biliares nao tem sido estudados na maioria dos repteis e atualmente a sua aplicacao clinica ainda esta para ser determinada. Porem, estudos recentes indicam que, em iguanas, niveis de acidos biliares superiores a 70 p,mol/L estao associados a doencas hepaticas como cirrose, neoplasias e lipidose (SILVESTRE et al., 2013).

2.4.6 Creatina Cinase (CK)

Sabe-se que, em repteis, os niveis de CK variam drasticamente de animal para animal. E uma enzima derivada da atividade muscular esqueletica e cardiaca, com quantidades pequenas nos rins. E considerada musculo-especifica nas iguanas e sua elevacao pode ser provocada por lesoes musculares ou infeccoes cronicas (SILVESTRE et al., 2013). Almosny e Monteiro (2007) afirmam que a sua elevacao pode ocorrer tambem apos injecoes intramusculares.

2.4.7 Glicose

O controle hormonal da glicemia pela insulina e glucagon pancreaticos em repteis e semelhante a mamiferos e outros vertebrados. A acao desses hormonios e afetada pela temperatura. A concentracao de glicose no sangue dos repteis normais tambem varia de acordo com a especie, estado nutricional e das condicoes ambientais. Por exemplo, tartarugas e jacares sujeitos a um aumento de temperatura reagem de forma distinta, o que resulta em hipoglicemia em tartarugas e hiperglicemia em jacares (CAMPBELL, 2006).

A hipoglicemia e observada em animais com privacao alimentar, ma nutricao, dietas com altos niveis proteicos, hepatopatias severas, sepse e doencas endocrinas (RAMEH-DE-ALBUQUERQUE, 2007). A hiperglicemia em repteis ocorre muitas vezes pelo resultado da administracao iatrogenica e glicocorticoides em excesso. A hiperglicemia nao e um indicador especifico de doenca pancreatica ou diabetes mellitus, mas esta mais relacionada a problemas metabolicos, doencas sistemicas e variaveis fisiologicas (SILVESTRE et al., 2013).

2.4.8 Triglicerideos e colesterol

O aumento da concentracao plasmatica de triglicerides e colesterol esta associado a postura de ovos nas femeas e pode ser visto tambem em repteis com lipidose hepatica. O aumento posprandial e visto em algumas especies de repteis (IRIZARRY-ROVIRA, 2004). Devido a acao da tireiode durante o periodo de ecdise, ha diminuicao nos niveis sanguineos de colesterol nestes animais (RAMEH-DE-ALBUQUERQUE, 2007).

3 Conclusao

Concluimos que a especie estudada apresenta particularidades fisiologicas importantes que se refletem atraves de seus parAmetros hematologicos e bioquimicos e sofrem influencia de condicoes intrinsecas, como sexo e idade, e extrinsecas, tais como temperatura, umidade, dieta e regime de criacao, e tem impacto direto nas condicoes de saude destes animais. A crescente introducao destes animais como pets exoticos resulta tambem em maior demanda por assistencia medica veterinaria e as lacunas no conhecimento existente acerca dos parAmetros hematologicos e bioquimicos nesta especie reforcam a necessidade de maiores estudos na area.

4 Referencias

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Mayra Dias SILVEIRA (1), Jose Edgard de Oliveira ALVES (1) & Evelyn Mayara Perrut VIEIRA (2)

(1) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seropedica, Rio de Janeiro, Brasil.

(2) Universidade Severino Sombra. Vassouras, Rio de Janeiro, Brasil.

* Autor para correspondencia: mayraa_dias@hotmail.com

DOI: http://dx.doi.org/ 10.18571/acbm.135
Tabela 1: Valores hematologicos e bioquimicos de referencia para
a especie Iguana iguana.

                                            VALORES

PARAMETROS
                                     Machos             Femeas

Hematologia
  VG (%)                          34 (29,2-38,5)     38 (33-44)
  Eritrocitos ([10.sup.6]/mL)    1,3 (1,0-1,7)      1,4 (1,2-1,8)
  Hb (g/dL)                      8,6 (6,7-10,2)    10,6 (9,1-12,2)
  VCM (fL)                       266 (228-303)      270 (235-331)
  CHCM (g/dL)                   21,1 (22,7-28)     27,9 (24,9-31,0)
  Leucocitos ([10.sup.3]/mL)    15,1 (11,1-24,6)   14,8 (8,2-25,2)
  Fibrinogenio                   100 (100-200)      100 (100-300)
  Heterofilos (%)                3,6 (1,0-5,4)      3,2 (0,6-6,4)
  Linfocitos (%)                 9,7 (5,0-16,5)     9,9 (5,2-14,4)
  Monocitos (%)                  1,3 (0,2-2,7)      1,2 (0,4-2,3)
  Azurofilos (%)                       --                 --
  Eosinofilos (%)                0,1 (0,0-0,3)      0,1 (0,0-0,2)
  Basofilos (%)                  0,4 (0,1-1,0)      0,5 (0,2-2,1)
Bioquimica
  Acido Urico (mg/dL)            2,7 (1,5-5,8)      3,6 (0,9-6,7)
  BUN/Ureia (mg/dL)              2,0 (0-11)         2,0 (0-11)
  Calcio (mg/dL)                11,3 (8,6-14,1)    12,5 (10,8-14,0)
  Fosforo (mg/dL)                5,3 (3,2-7,6)      6,3 (2,8-9,3)
  Colesterol (mg/dL)             161 (82-214)       255 (204-347)
  Glicose (mg/dL)                166 (70-244)       170 (105-258)
  Triglicerideos (mg/dL)              53-691             53-691
  Proteinas Totais               5,4 (4,4-6,5)      6,1 (4,9-7,6)
  ALT                             32 (4-76)          45 (5-96)
  AST                             33 (19-65)         40 (7-102)

Fonte: Adaptado de MADEN (2006).
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Silveira, Mayra Dias; de Oliveira Alves, Jose Edgard; Vieira, Evelyn Mayara Perrut
Publication:Acta Biomedica Brasiliensia
Date:Dec 1, 2017
Words:5743
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