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Happines evaded. An interpretation of nostalgia/A felicidade evadida. Uma interpretacao da nostalgia.

Para me aproximar de meu tema sera necessario fazer um desvio, e em especial algumas observacoes sobre o tema de todas estas contribuicoes: a felicidade. Chama a atencao do sociologo que de certa maneira se cumpriu a reivindicacao, surgida no seculo XVIII, de uma felicidade terrena para todos. Em suas origens esta ideia pareceu exagerada e gozou de pouca credibilidade. Caso se estabelecesse como objetivo ultimo a satisfacao das necessidades de todos os seres humanos em um determinado patamar, tal coisa seria possivel. Mas em uma sociedade regida por filosofos, como a sonhada por Platao, a felicidade estaria numa situacao diferente e, felizmente, ha poucas chances de que possamos ainda vivenciartal coisa.

Ao contrario: por toda a parte vemos como a ideia de felicidade se introduz no ideal de bem-estar, visto como condicao de nossas reivindicacoes. O sociologo Gotz Briefs afirma ja em 1926, em seu ensaio "O proletariado industrial", que o nucleo da transformacao etica da Era Moderna assentaria na eticizacao do ideal de bem-estar (BRIEFS 1926).

Eticizacao significa aqui algo diferente. Em primeiro lugar, e uma prioridade da demanda por satisfacoes de todo tipo e que se vive com a consciencia limpa; embora o destinatario das demandas individuais seja a sociedade ou o Estado. Em segundo lugar, este anseio de felicidade se antepoe as demandas que o Estado poderia nos colocar, embora as pessoas empreguem de bom grado a formula segundo a qual o Estado esta em funcao delas e nao o contrario. Em terceiro lugar, a divisao desigual dos bens garantidores de felicidade e percebida como uma injustica e mesmo como a mais fundamental das injusticas. E em quarto, perdem credibilidade e carater de exemplaridade todas aquelas situacoes em que se exigem mais sacrificios que direitos.

Todas essas inovacoes no campo dos valores remontam ao seculo XVIII, sao filhas do Iluminismo. Isso foi demonstrado por Jacob L. Talmon no livro "As origens da democracia totalitaria". O jacobino Gracchus Babeuf, ele proprio guilhotinado em 1797, exigiu: "Garantam a cada cidadao individual um nivel de felicidade permanente, a satisfacao das necessidades de todos e um rendimento fixo, independentemente de suas incapacidades, de sua imoralidade ou das mas intencoes dos poderosos" (apud TALMON 1961, p. 178). A ultima revolucao (a de 1789), dizia ele, evidentemente nao fora ainda concluida porque nao tinha realizado a felicidade geral (TALMON 1961, p. 190).

Mas o ideal aqui caracterizado e problematico em seus limites tanto para cima quanto para baixo. O nivel de bem-estar nao deve ser elevado de maneira tao descabida caso queira parecer realizavel. Tambem nao se pode negar que, enquanto tal, a ansia por felicidade e antipolitica porque, do ponto de vista politico, existem Estados bem-sucedidos e com grande autoridade que fomentam em si e em seus cidadaos objetivos politicos ambiciosos, e que deles exigem que abram mao do que nao pode ser realizado, posto que nao fazem da edificacao do bem-estar a maior das prioridades.

Foi alias por estas razoes politicas que, diante das guerras de coalizao contra a Franca, Saint-Juste Robespierre se viram obrigados a diminuir significativamente as suas expectativas. Saint-Just achava que a soma da virtude a um pedacinho de terra poderia garantir a felicidade, que consistiria no gozo do necessario sem fartura. "Um arado, um pedaco de terra e uma casinha, distante da ganancia do assaltante, e ali que esta a felicidade" (apud TALMON 1961, p. 148).

Surge aqui, talvez pela primeira vez, a ideia de uma primitivizacao consciente do padrao de vida coletivo com o objetivo de se elevar o poderio militar nacional que, desde entao, rejuvenesceu de diversas formas e sob diferentes palavras de ordem. Caso a prioridade do bem-estar tivesse de ser sacrificada, que fosse sob a famosa formula "quereis manteiga ou canhoes?"

Nos ultimos tempos e depois que a pax americana logrou erigir sempre novas piramides de reivindicacoes e para as quais a palavra "qualidade de vida", em sua franqueza, e ainda mais caracteristica, surpreende que inclusive nas opulentas sociedades industriais um numero nao desprezivel de pessoas abra mao de suas necessidades de consumo. Por meio de um padrao de vida pronunciadamente simples se atinge com facilidade um fortalecimento do ideal de liberdade, no sentido de uma independencia interna e externa. O conhecido psicologo Peter H. Hofstatter mostrou que 25% dos estudantes universitarios do sexo masculino sao avessos ao trabalho e inclinados a deixar o emprego, demonstrando odio e repulsa pela ideia de terem uma profissao. A ideia de profissao eles associam termos como avareza, escravidao, nojo, miseria (HOFSTATTER 1972, p. 108 e ss.).

A interpretacao nao e facil. Pode ser que se trate de verdadeiros preguicosos, mas tambem de pessoas com concepcoes atipicas de felicidade, que talvez se coloquem politicamente em luta contra a sociedade de consumo capitalista, ou que apesar da eticizacao do bem-estar em nossa sociedade percebem um deficit de ideais que elas nao querem que seja satisfeito apenas retoricamente. Somente depois de novas pesquisas sera possivel saber qual dessas hipoteses e a mais correta.

Ja indiquei o limite superior da ideologia do bem-estar. Como se sabe, e movel o patamar abaixo do qual se pode falar em carencia e acima do qual em excesso. Com efeito, todos se acostumam ao nivel mais alto atingido, que se torna autoevidente e, deste modo, um ponto zero a partir do qual se comeca a contar novamente e a partir do qual novos indices de prosperidade se tornam visiveis. Esta e a razao pela qual toda classe de endinheirados inveja apenas a camada que se situa acima dela e porque somente poucas pessoas refletem sobre a possibilidade de equiparacao que se lhes apresenta. Dai se pode enfim compreender o inteligente conceito de felicidade de Thomas Hobbes (De homine, 11, 15), que a definiu como ad fines semper ulteriores minime impedita progressio, um progresso o menos impedido possivel a consecucao de fins cada vez mais distantes.

A constituicao e essencia do ser humano pertence urna sobrecarga de impulsos que estao por tras daquelas forcas, e que ja tem um alcance excessivo, que sao seus sentidos, seu pensamento, seu desejo. Vale dizer, o potencial desses impulsos ultrapassa em muito as necessidades vitais basicas necessarias ao longo de uma vida. O individuo quer a satisfacao de pulsoes, ampliacao de experiencias e multiplicacao de estimulos para alem todo ponto zero das condicoes habituais da vida. Ele e empurrado, digamos assim, para um "mais alem", para uma situacao qualquer de superabundancia, seja ela de tipo material, espiritual ou intelectual. Superabundancia (Uberfluss) e uma palavra duvidosa, que se aproxima da de "superfluo" (uberfiussig). O quadro acima descrito esta prenhe de conflitos e nos torna dependentes de chances e acasos forcados, mas tambem de intervencoes perturbadoras, pois o aumento de nosso bem-estar depende de condicoes que nao estao sob nosso controle. Alias bem pode ser que a mecanizacao e a coletivizacao da vida, com sua distribuicao de oportunidades da ideia de felicidade, tenham uma importancia cada vez menor.

Mas com isso nao esgotamos tudo o que ha de obscuro na questao. Como sobrecarga psiquica adicional ha ainda uma lei que se pode formular desta maneira: somente o adquirir esta envolto em prazer, nao o possuir. Vimos acima como esta lei nos leva, no melhor dos casos, a situacoes de neutralizacao do prazer, quando nao de desinteresse em relacao as ocupacoes do dia a dia em nossas esferas cotidianas; ou entao a ampliacao das vivencias ou da capacidade de acao. Diante dos estados mais habituais, estes sao incomuns e e justamente a eles que se relacionam as sensacoes de felicidade. Dai o fascinio irresistivel de impressoes, experiencias e encontros extracotidianos a que corresponde uma curiosidade intima, ate mesmo uma pulsao intelectual pelo improvavel e pela novidade. Tudo o que por sua aparencia exterior ou seu estado interior ultrapassa o patamar mediano atrai nossa atencao e dedicacao, sendo esta a razao pela qual os homens pre-historicos ja recolhiam e guardavam pedras cintilantes e minerais coloridos. E se hoje nos surpreendemos com a disseminacao das drogas nao devemos esquecer o fato de que nunca existiu uma sociedade tao primitiva que nao tenha identificado em seu meio ambiente toda sorte de substancias toxicas e drogas--tabaco ou alcool, mescalina, opio ou o que quer que fosse --a fim de transformar radicalmente o seu espaco de vivencias de tempos em tempos. Subsiste tambem uma ansia por auto-elevacao nesses estados de ebriedade, talvez no sentido de uma aceleracao dos efeitos, tal como o viciado que injeta sua droga em si mesmo ou o jogador apaixonado que abandona a roleta por considera-la demasiado lenta e que passa entao a procurar um jogo mais rapido.

Ja afirmei que somente o adquirir esta envolto em prazer, nao o possuir. Alguns de voces colecionam alguma coisa e assim conhecem a excitacao que envolve a obtencao uma peca rara. Mas depois de certo tempo diminui a sensacao de jubilo desta descoberta, mesmo quando o seu valor se eleva e no horizonte de expectativa surge algo ainda mais raro e que passa entao a ser unica coisa desejavel.

Mas se apenas a aquisicao envolve prazer, entao a posse se torna algo entediante. O que alias pode valer para descobertas intelectuais e mesmo as mais elevadas dentre elas. Se a isso acrescentamos outra constatacao, de que para alem de todo ponto-zero somos empurrados para a regiao do ordinario, entao chega-se a conclusoes que nao sao muito claras. E como se, por nossa propria constituicao, estivessemos obrigados a ficar entre alternativas ruins: o ordinario, isto e, o tedio, que segundo Schopenhauer finalmente desenharia o verdadeiro desespero sobre os rostos, sendo necessario tomar medidas publicas contra ele. Ou entao a busca por alguma coisa que, no melhor dos casos, se revela insossa tao logo e obtida ou que se mantem completamente fechada para nos. Eu nao vejo nenhuma outra forca capaz de nos resguardar de tal principio que nao a vitalidade da juventude.

Tenho de me deter ainda um pouco mais nessas observacoes inquietantes para poder introduzir o tema da nostalgia. Apoio-me agora nos enunciados de um dos mais notaveis pensadores modernos, Sigmund Freud, que em seu escrito de 1930 O mal-estar na civilizacao perguntou sobre o que os seres humanos querem da vida. Sua resposta: "Eles buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes". E prosseguiu: "Este programa e absolutamente inexequivel, todo o arranjo do universo o contraria; podemos dizer que a intencao de que o ser humano seja 'feliz' nao se acha no plano da 'criacao'" (FREUD 2011, p. 19).

Baseado em sua teoria ele justificou isso, primeiro, com a negacao das pulsoes que a civilizacao exige de nos e nos impoe, e, segundo, com a hostilidade de principio, originaria, que os seres humanos mantem entre si, a conhecida pulsao de agressao. Nao me ocuparei com esta ultima aqui, embora ela possa ter algo a dizer. Mas justificar o mal-estar com a negacao das pulsoes deixou de ser algo convincente desde que as pulsoes sexuais e de agressao passaram a obter ampla liberdade de acao e os seres humanos nao se tornaram mais felizes--a nao ser que eles sejam adeptos da politica do prazer de Marcuse, que advoga a felicidade futura na absoluta ausencia de impedimentos. Na verdade, comecamos a nutrir a suspeita de que concomitantemente ao aumento da oferta por felicidade tambem se vende uma crescente expectativa de decepcoes. Difunde-se algo como um porre por excesso de oferta.

Poder-se-ia, porem, perguntar: e quanto aos prazeres intelectuais? O que se denomina intelecto tem diversas caracteristicas e tambem pode ser visto enquanto uma forma de organizacao do afa pelo novo e pelo que ainda nao foi posto a prova. Nesse ponto as inovacoes dos artistas ou as descobertas dos cientistas poderiam ser descritas como surpresas intelectuais encontradas apos uma longa busca. Quando se e jovem, quando faz se descobertas ou se descobre um territorio ainda virgem, o intelecto e capaz de proporcionar sentimentos de felicidade; mas quanto a posse estou convencido de que a maioria dos autores nao leem com prazer seus escritos mais antigos; provavelmente acontece o mesmo com os artistas, sobretudo quando sao obrigados a reiteradamente copiar o proprio estilo depois deste se tornar um artigo de marca. Tambem aqui parece que o que produz felicidade e apenas o adquirir e nao o possuir.

Sei inclusive que no processo de producao pode se manifestar um tipo de aversao a posse da propria producao intelectual, e que, portanto, trabalhamos desde o inicio imersos numa nuvem de tedio. A pressa seca ou a brevidade, tantas vezes observadas justamente no estilo daqueles que atingiram a maturidade, parecem confirma-lo. A pessoa fica entediada com suas proprias criacoes antes mesmo delas serem concluidas. Madame de Stael ou quem sabe o seu oraculo August Wilhelm Schlegel reconheciam algo assim em Goethe, sobre o qual se afirma em De l'Allemagne que ele s'approche des plus grands effets pour les delalsser tout a coup, comme s'll ne valalt pas la peine de les produire--que ele aproxima-se dos maiores efeitos para abandona-los repentinamente, como se se nao valesse a pena produzi-los (DE STAEL 2016, p. 389). Nao posso me esquivar aqui de mais uma reflexao embora ela nao tenha a ver com meu tema, a de que nas palavras acima encontramos uma explicacao para o obscuro conceito de ironia romantica. Caso imaginemos a inteligente observacao da Sra. de Stael aplicada tambem aos artistas e poetas, o que se obtem entao e esse pairar do intelecto sobre suas proprias realizacoes, e por sobre as quais ele parece nos sorrir la das alturas. A obra de arte e a maior das descobertas cientificas ja contem, em forma embrionaria, algo como uma parodia de si mesmas. Foi assim que um extraordinario artista como Josef Conrad classificou a si mesmo: como uma especie de inspirado embusteiro.

E mais que passada a hora, porem, de explicar por que estas analises foram antepostas ao tema da nostalgia. Ja vimos que a busca pela felicidade e uma conta que nao fecha. As vezes a felicidade ao consumir gera, em nos mesmos, o inimigo do consumo que defende sua liberdade. A felicidade associada a certas experiencias, por outro lado, so pode surgir de maneira casual e instavel; quando e procurada de forma metodica, por exemplo no caso do viciado, entao ela se quebra sobre si mesma como uma onda. A felicidade da produtividade intelectual, e que mesmo assim so e acessivel a poucas pessoas, se revela fragil porque mostra uma outra face, geralmente omitida, de tedio ou de esgotamento. No longo prazo e em geral, o trabalho intelectual de segunda mao satisfaz apenas aos pedantes. Que possibilidades restam entao?

Quando a realidade nao confirma ou ate mesmo contradiz nosso incansavel impulso por um "mais alem", ainda assim resta uma ultima alternativa--evadir no tempo e povoar a propria fantasia com imagens de felicidade. Quando este processo se volta para o futuro, surgem as utopias, que como que reificam magnificas situacoes vindouras para nos. A utopia haure seus elementos constitutivos somente a partir do presente, mas e de forma seletiva que ela edifica um belo edificio, ainda que destituido de fundamentos. Nunca obtemos uma resposta a pergunta sobre o que faremos para escapar ao tedio, caso a utopia seja realizada. Quando, porem, a fantasia de felicidade brilha retrospectivamente e que chegamos, enfim, a nostalgia.

Nostalgia significa saudades de casa (Heimweh), e hoje muitas pessoas pensam como se ainda vivessem em tempos passados, devotando-lhes um sentimento luminoso. Colecionam-se os restos de epocas antigas, ate mesmo o cotidiano em quantidades crescentes, a mobilia domestica, e atualmente estes restos atraem inclusive os mais jovens. Quando se iniciou esse movimento espiritual que hoje se espalha ao infinito e abarca sempre novas reliquias?

Foi o escritor norte-americano William Faulkner, nascido em 1897 e originado numa familia empobrecida da aristocracia agraria do sul, quem nos anos 1930 resgatou em grandes epicos, apartados do entorno plebeu, a vitalidade selvagem, a nobreza e a gloria, a degeneracao e a crueldade dos estados do sul dos Estados Unidos. Ele direcionou entao sua fantasia para a epoca da gloriosa decadencia dos estados confederados, por volta de 1865. Ele proprio nao a viveu, mas tinha sido a epoca de seus pais. Nascida em 1900 em Atlanta, Georgia, Margaret Mitchell escrevia naquele mesmo momento seu livro mundialmente aclamado E o vento levou, e cuja versao cinematografica foi ainda mais bem-sucedida. Ela recolheu e estudou por anos os menores resquicios, documentos e descricoes dos estados do sul, inclusive os costumes linguisticos, a etiqueta, as modas. Estes romances nao sao historicos no sentido de Walter Scott ou Felix Dahn; eles nos apresentam um mundo rustico, imenso e exotico, destruido por forcas que lhe sao externas e vitima de um transcorrer absurdo da historia; destinos grandiosos que sobreviveram apenas por meio da literatura, como os burgundios na Cancao dos Nibelungos. A felicidade evadida e a possibilidade de viver de uma forma que nos teria purificado e elevado.

Nesse contexto deve-se ainda acrescentar a Forsyte Saga de Galsworthy, obra que apareceu em cinco volumes entre 1906 e 1921. Causa admiracao o genio de sua fina audicao, por meio da qual ele ouviu os cupins nas vigas muito antes do advento da guerra. Aqui ja soava a grande decadencia. Nunca mencionada, ela e pressentida com honra e nao com vergonha. Apareceram entao os Buddenbrooks, em 1901, com o tema similar do declinio de uma familia da alta burguesia. Mas ha uma diferenca fundamental se o pano de fundo e Lubeck ou Londres. O encanto nostalgico destes romances epicos assenta no fato de que seus personagens sao por assim dizer vestidos com um prazo de validade. Eles vem a um mundo dotados do olhar da providencia e no entanto sao cegos; um mundo que termina para todos, mesmo os mais dilacerados individualistas, com uma moral de sindicato--disso sabemos nos, nao eles.

Muito mais direta e a influencia de Fontane atraves de seus romances sobre os meios berlinenses e o distrito de Markisch de seu tempo. Foram publicados em revistas perfeitamente burguesas como Gartenlaube, Uber Land und Meer ou Deutsche Rundschau. Fontane nao esperava obter fama postuma atraves destes romances que hoje tanto fascinam, nem das cerca de 3.000 paginas de sua historia local da Prussia, as Peregrinacoes pelo Margraviato de Brandenburgo, e que agora aparecem em edicao de baixo custo, mas sim por meio de suas baladas, que hoje em dia ninguem conhece mais. Ao lado desses grandes autores, os mediadores da nostalgia, ha o circulo dos pequenos, e, devo admitir, indiferente a acusacao de kitsch, que considero magnificas as novas e grandes versoes cinematograficas em cores dos romances de Eugenie Marlitt. Ha bem pouca literatura moderna hoje em dia a qual nao se possa fazer a acusacao de kitsch, e com isso quero dizer o demasiado acessivel e a fragmentacao dos pensamentos e sentimentos.

Depois destes exemplos por hora tomados apenas a literatura, podese finalmente chegar a algumas conclusoes. Nossa nostalgia sempre se prende a um espaco de tempo pregresso que alcanca ate meados do seculo anterior. Volta-se para a epoca de Bismarck ou dos Imperadores Guilherme e Franz Josef. Para alem do ano de 1850 nao ha nostalgia alguma, o periodo Biedermeier nao gera nostalgia e a epoca do classicismo rococo muito menos. (1) Por conseguinte, a epoca nostalgica se estende aproximadamente de 1850 a 1914, epoca do inabalado prestigio e dominacao da Europa. Ela nao e apresentada, como supoe um tolo slogan, como um "mundinho em ordem", pelo contrario. Acontecem ali todos os tipos de crimes e aviltamentos, mas ha tambem decencia e fidelidade, o sacrificio cego tanto quanto o consciente. Le-se no Ptolemaer de 1949 o alto lamento nostalgico na consciencia do fim da civilizacao ocidental: "o primeiro gesto sustentou o falcao no pulso, o ultimo segurou o pardal na mao" (BENN 1949, p. 11).

Tenho agora de dar continuidade a minha interpretacao. Ha uma consequencia repugnante do atual estado de coisas, uma repugnancia que nos abre para o efeito magnetico do passado. Os choques que nos chegam pela midia, o agitado ritmo temporal, a excitante politica diaria, a coercao infinita das compras e a falta de credibilidade de solenes declaracoes publicas com seus subterfugios fugazes--isso tudo se desdobra numa energia repugnante, e entao percebemos que ocupar-se com o periodo anterior a guerra, mais do que um valor de relaxamento, tem um valor de orientacao.

Dificilmente, porem, serei contestado em minha opiniao de que nosso presente carece de forcas que o sustentem. Parece que o no a que tudo estava atado se desfez, e agora os fios nos escapam entre os dedos. Nenhuma coisa, nenhum valor que nao seja contestado. Nas camadas inferiores treme-se por causa do desemprego, nas medias por causa de clientes insolventes ou escassez de encomendas, nas superiores por causa de sequestros e terroristas. Mal se consegue pensar numa questao relevante, a comecar pela educacao infantil, o sistema escolar, o servico militar, ate a legitimidade da propriedade ou do poder decisorio existente, que nao seja controversa, e, contudo, e gasta a opiniao de que a liberdade assentaria justamente nisso. Dialogos entre pessoas ao estilo dos de Ionescu, em que cada qual perde exatamente aquilo que procura no contato com os outros, nao podem mais ser vistos como um exagero. Talvez possamos compreender melhor essa desorientacao espiritual quando nos damos conta que as pessoas de trinta anos ou mais jovens nunca viveram situacoes extremas, nenhum perigo de morte, nenhuma fuga, fome, vinganca de conceitos, humilhacoes. Elas se desoneraram de forma totalmente voluntaria.

Na era nostalgica, entretanto, encontra-se possibilidade de prospeccao, posicoes consensuais, pessoas que se posicionaram e se responsabilizaram, encontram-se hostilidades politicas, mas sob condicoes que nos permitem resolve-las; havia certamente baixeza e malevolencia, mas tambem a postura dos grandes lideres, como quando Bismarck em 1862 ou Sir Edward Grey, em 1914, jogaram as claras as cartas do grande jogo.

Tudo isso, tomado em conjunto, ja seria motivo suficiente para um movimento retrospectivo da imaginacao em direcao ao passado, e que por toda parte revela relacoes poeticas, mensuraveis e estaveis. A agitacao e a angustiada diligencia do presente nao existiam ali, e pode-se sustentar a afirmacao de que o ser humano tem o direito de buscar um mundo mais humano, ainda que somente na imaginacao.

Mas eu vejo ai uma outra dimensao. Nao se deve esquecer que o retorno nostalgico no sul dos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha e sustentado pelos netos de superpotencias destruidas. Com isso nao queremos pensar na resistencia sentimental a uma historia que segue inexoravelmente, mas na tristeza espiritual daqueles que percebem quao penetrante e requintadamente age o desenraizamento. Naturalmente, aqui se evidencia um termo como "reacionario", e eu me divirto ao ver o apelo do politico italiano Amintore Fanfani, que inclui a luta contra a nostalgia e as manifestacoes de influencia fascista entre os mais importantes problemas italianos (Die Welt, 21/05/1975). Ora, nao sei pelo que anseia a populacao da Italia, mas o viajante se surpreende ali com as centenas de pichacoes que expoem as condicoes atuais a partir de todas as posicoes politicas possiveis.

Posso enfim recorrer a uma pessoa bastante conhecida, Bertrand Russel, em apoio a minhas opinioes. Por negar-se ao servico militar ele foi preso durante a Primeira Guerra mundial. Era um pacifista, membro da ala esquerda do Partido Trabalhista, agraciado com o premio Nobel. No segundo volume de sua autobiografia, publicada em 1973 pela editora Suhrkamp, e escrita em idade avancada, Russel escreveu literalmente: "Sinto falta do sustentaculo da continuidade historica e do pertencimento a uma grande nacao" (RUSSEL 1973, p. 238). Dificil caracteriza-lo com um fascista.

Caso essa interpretacao historico-politica da nostalgia esteja correta, compreende-se entao por que nao encontramos nostalgia na Franca. Este pais ainda e soberano, nao foi derrotado, tem a coesao politica das grandes nacoes e, apesar de todos os conflitos internos, nao se curva desde a epoca dos gauleses. Tambem na Russia ou na Espanha nao ha nostalgia. Ambos foram capazes de preservar sua substancia e nao estao obrigados a procurar por sua identidade.

Nenhum dos personagens de Fontane faz isso. Nele as pessoas vivem juntas, mas nao em associacoes. Nao na assim chamada parceria, mas como cada um e, de verdade. Nao como meros suportes de ideias, mas sem serem destituidos de conviccoes. O personagem e um comerciante do interior ou oficial ou a filha de uma familia burguesa, ele e um alemao em um mundo que se mantem de pe.

E agora tenho ainda de defender o esquema do nacionalismo. No seculo XVIII os alemaes das camadas sociais ilustres eram afrancesados, eles perseguiram entao sua autocolonizacao de forma tao obstinada como nos dias de hoje, em que estao americanizados. A respeito disse ha pouco Rudolf Augstein (Der Spiegel n. 10, 1975), que certamente deve ser versado nisso, que a Republica Federal da Alemanha segue mancando cerca de cinco anos atras dos Estados Unidos, e entao teriam comecado as copias. A nostalgia pretende ir alem desta autocolonizacao, de volta a uma epoca em que, por muito tempo, se pode falar em alemao.

Alguem poderia entao dizer: isso e uma superinterpretacao, voce faz de seu tema a voz infeliz de nacoes infelizes, que tiveram de ceder ou mesmo desaparecer completamente, mas tais redescobertas do passado ocorreram inumeras vezes. Voce nao sabia que as pessoas da epoca da Renascenca estavam completamente seduzidas pela Antiguidade, e que por mais uma vez o Romantismo desenterrou a Idade Media? Gostaria, enfim, de tratar disso rapidamente, comecando por algumas poucas palavras sobre a Renascenca.

A redescoberta da Antiguidade, que nunca foi inteiramente esquecida, mas que por assim dizer foi posta na ordem do dia, era uma coisa da elite, que dizia respeito a nobreza, aos filologos e poetas, aos artistas e mecenas endinheirados; a maior parte do povo, mesmo em Florenca, manteve-se alheia. Apenas no espaco cultural das classes superiores e que se pode manter a enorme tensao entre Antiguidade e cristianismo, e nao sem crassos desvios pagaos como em Signorelli e Botticelli. Quando entao comecou a surgir um estilo inteiramente novo, em cenas com um pouco de luminosidade e alvorecer destituidos de sombras, ali se manifestou a Reforma, um movimento fanatico deflagrado entre as classes inferiores que rapidamente se expandiu para a Italia e em breve levou a Contrarreforma, este retorno a um cristianismo de tipo mais vigoroso. O que se acessava e se retinha da Antiguidade eram tres coisas: em primeiro lugar os motivos artisticos empregados em todas as artes, em segundo lugar uma concepcao de politica autonoma, no rastro de Maquiavel, e finalmente, impossivel esquecer, uma nocao do fascinio suscitado pelas civilizacoes aristocraticas e destituidas de sacerdotes. Tudo isso permaneceu mero episodio, a menos que se veja ali uma forma previa do Iluminismo--o que ate poderia ser defendido -, mas este motivo nao teve penetracao nem mesmo entre os mestres; e ate mesmo um octogenario Michelangelo reincorporou elementos goticos (Pieta Rondanini).

No que toca ao Romantismo, com sua inclinacao pela Idade Media, no geral trata-se de um cenario estranhamente difuso, instavel e sem direcao. Por toda parte tem-se a impressao de improviso. Em meio a pihas de producao literaria nos perdemos e somos enredados. Porem algumas linhas se destacam, se se permite a simplificacao.

Existe uma estetica de Hegel, postumamente publicada. Ele empregou o termo Romantismo para o mundo que se seguiu a Antiguidade, o mundo cristao, portanto, e que ele via se estendendo ate o seu proprio eu. Hegel se referiu a interioridade ou a intelectualidade como a essencia deste Romantismo, e as vezes falava tambem da ilimitada subjetividade do ser humano. Muitas vezes nao fica muito claro se esta falando da cavalaria e do gotico ou da poesia e da pintura de seu tempo, repletas que estavam de elementos daquelas epocas. Ja Goethe, em 1774, na sua primeira versao do Fausto, desloca o cenario para um quarto gotico. O gotico era percebido entao, tambem por Goethe, como manifestamente alemao porque sua origem francesa era ignorada.

Por volta de 1820 Hegel parecia trabalhar com o pensamento de Schlegel, que em suas prelecoes berlinenses de 1801-1804 desenhou uma imagem elevada da Idade Media e elogiou sua suposta unicidade e universalidade para desacreditar o Iluminismo do seculo XVIII. Schlegel foi, por conseguinte, o autor da confrontacao entre o mundo antigo-classico e o romantico-medieval, tendo este sido considerado o mundo moderno e ainda valido.

Assim nao pode surgir nostalgia alguma, mas sim uma frente de ataque romantica de proporcao verdadeiramente universal que se voltou contra o Iluminismo de origem franco-britanica. Este foi combatido inicialmente como alienacao da germanidade, e contra ele os romanticos mobilizaram a investigacao dos primordios de nossa historia, literatura e linguagem; depois polemizaram contra a face elitista do Iluminismo, em que exerciam lideranca homens distintos como Montesquieu, Locke ou D'Alambert. Por oposicao, promoveu-se o popular, o conto folclorico e as sagas. E entao, mais uma vez, uma cristandade artificial levantou-se contra o Iluminismo. Para todos estes ataques encontrou-se municao na Idade Media, na mais antiga lingua, nas tradicoes populares e no cristianismo.

Deste modo, tenho a impressao que a ideologia romantica, por Hegel filosoficamente fundamentada, configura uma defesa geral contra as influencias do Iluminismo. Muito tempo antes da unificacao alema buscou-se conscientemente realizar ali uma unidade espiritual na rejeicao ao Iluminismo, e o movimento como um todo era, em ultima instancia, tao politico quanto sua elaboracao confusa e arbitraria o permitiu. Nas suas Prelecoes sobre literatura e sobre arte dramatica, publicadas em 1809, Schlegel afirma: "Na regiao espiritual da reflexao e da literatura, inacessiveis ao poder politico, os alemaes tantas vezes divididos pressentem sua unidade" (SCHLEGEL 1923, p. cxii). E esta, certamente, a celula embrionaria do topos dos alemaes como o povo dos poetas e pensadores.

Diga-se: se ao menos ainda o fossemos. A saudade nostalgica tem um carater proprio, como mostrei, nao devendo ser comparada com a Renascenca ou o Romantismo, e nenhum augurio de grande politica e nela tematizado. E a voz de nacoes infelizes, que se colocaram a margem da grande Historia. Na pequena, oxala um dia, elas hao de encontrar o seu papel.

doi: 10.15848/hh.v0i23.1235

Referencias bibliograficas

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SCHLEGEL, August Wilhelm. Kritische Ausgabe. Bonn; Leipzig: Schroeder, 1923. v. I.

TALMON, Jacob L. Die Ursprunge der totaIitaren Demokratie. Koln: Westdeutscher Verlag, 1961.

(1) Biedermeier e o nome dado na Alemanha ao periodo que se estende do fim do Congresso de Viena ao inicio da revolucao de 1848 (NT).

* Arnold Gehlen (1904-1976) foi professor de filosofia das universidades de Leipzig e Konigsberg. Depois da Segunda Guerra, lecionou sociologia e psicologia nas escolas superiores de Speyer e Aachen. Seus principais livros sao O ser humano (1940), Ser humano primitivo e civilizacao tardia (1956), Imagens de epoca (1960) e Moral e hipermoral (1969). O ensaio aqui traduzido foi publicado originalmente com o titulo "Das entflohene Gluck. Deutung der Nostalgie", em: HOMMES, Ulrich (Hg.). Was ist Gluck? Ein Symposion [O que e felicidade? Um simposio], Munchen: Fischer, 1976, p. 26-38; e tambem na revista Merkur, v. 30, n. 5, p. 432-442, 1976. Empregou-se a versao disponivel na Arnold Gehlen Gesamtausgabe VI. Frankfurt am Main: Klostermann, 2004, p. 552-565. O tradutor Sergio da Mata expressa seus agradecimentos ao editor geral das obras completas de Gehlen, Prof. Karl-Siegbert Rehberg, pela autorizacao para a publicacao desta versao em portugues.
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Title Annotation:historiographical text and document/Texto e documento historiografico
Author:Gehlen, Arnold
Publication:Historia da Historiografia
Date:Apr 1, 2017
Words:5247
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