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Globalization and deglobalization: another dilemma of Post-Modernity/ Globalizacao e desglobalizacao: outro dilema da Pos-Modernidade.

Introducao

Noticias que deixaram perplexos os espectadores e a comunidade mundial no ano de 2016, como a saida da Inglaterra do Mercado Comum Europeu e a Eleicao de Donald Trump com sua visao protecionista e critica a globalizacao, parecem contraditorias em relacao as tendencias globalizantes das relacoes sociais e politicas que os meios digitais imprimem na sociedade.

Por causa desses indicios protecionistas e de fechamento das fronteiras, que tem sido apresentados, mais frequentemente, pelas propostas politicas das nacoes, este artigo investiga o movimento paradoxal dessas politicas, em relacao ao movimento contrario dos meios de comunicacao digital e a internet, que tendem a pressionar as populacoes para ampliacao dos contatos, cada vez mais globalizados, dado ao alto potencial de alcance e extensao da percepcao que esses meios sao capazes de produzir nas relacoes humanas. Por causa dessa questao, parece surgir uma pergunta: sera possivel que o aparente movimento contrario a globalizacao, ou desglobalizante, podera resistir a pressao globalizante dos meios de comunicacao?

Para analisar esse fenomeno de contradicao entre os meios de comunicacao e a politica externa, parte-se da visao entre sociedade e midia de Marshall Mcluhan (1996), com suas teorias sobre alcance e extensao dos meios, e a sociedade. Alem de Mcluhan (1996), buscou-se compreender sobre a pos-modernidade, globalizacao e sujeito pos-moderno, atraves das ideias de Stuart Hall (2004); sobre incerteza, liquidez, e interregno, pelos pensamentos de Zygmunt Bauman (2008); o entendimento sobre a mundializacao, desterritorializacao e nao-lugar a partir dos conceitos de Marc Auge (2004) e dos debates de Renato Ortiz (2000).

A verificacao do descontentamento da populacao mundial em relacao a globalizacao e analisada pela visao critica de Milton Santos (2007). Essa insatisfacao tem sido considerada um dos motivos para a vitoria de Trump nos Estados Unidos da America e, provavelmente, pode estar pressionando algumas decisoes dos eleitores da Franca. Essa insatisfacao com a globalizacao das doencas, da pobreza, e da centralizacao das riquezas cada vez maior, pode ser a mola propulsora para um resgate do pensamento xenofobico no mundo, que se alimenta do odio e que tem se potencializado por causa das grandes imigracoes de povos que fogem da miseria, da fome e das guerras.

Essas tensoes sociais e politicas direcionam essas relacoes para um processo que, neste artigo, denominou-se de desglobalizacao. Esse termo e designado para denominar tendencias que surgiram contrarias ao processo de globalizacao, que sao percebidas cada vez mais nos discursos politicos da pos- modernidade.

Com esta reflexao, apresenta-se o movimento complexo e paradoxal de desglobalizacao dos sistemas politicos e de globalizacao dos meios de comunicacao, para buscar compreender esse impasse que amplia as incertezas e as tensoes entre os grupos humanos da sociedade em ambito mundial.

Globalizacao e Desglobalizacao

Mas, o que e globalizacao? Dos diversos conceitos de globalizacao, neste texto preferiu-se o de Stuart Hall (2004), no qual o autor fala de um processo mundial de contatos e de conectividade, que ultrapassam os limites das nacoes, transformando pelas trocas de informacoes entre culturas diferentes, o comportamento e a consciencia do sujeito.

[...] a "globalizacao" se refere aqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizacoes em novas combinacoes de espaco-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiencia mais interconectado (Hall, 2004, p. 67).

A globalizacao somente se concretiza, pois e sustentada pela dinamica mundial de trocas de informacoes entre culturas distintas, que se torna possivel gracas ao desenvolvimento de tecnologias que ampliaram e estenderam o alcance dos meios de comunicacao.

Com esse processo de trocas de informacoes, a consciencia do humano em sociedade se modifica. Quanto maior a quantidade de informacoes, e quanto mais rapida for a troca dessas informacoes, maiores e mais rapidas serao as mudancas. Quanto mais rapidas essas mudancas forem, mais instaveis serao as certezas e, com isso, maior a sensacao de incerteza perante tantos modelos e conceitos novos que surgem constantemente. Ou seja, dentro desse processo, como pode-se perceber, surge o sujeito da sociedade da incerteza, fragmentado e com valores cambiaveis: o sujeito pos-moderno. Dessa forma, com a globalizacao produzida pelos meios de comunicacao eletricos e digitais, se constitui uma identidade pos-moderna.

Logo, a revolucao dos meios digitais, o sujeito da pos-modernidade e a globalizacao sao fenomenos que nao sao independentes, pelo contrario, estao intimamente relacionados, e, de certa forma, um influencia o outro. Contudo, nao existiria a globalizacao, nas dimensoes que se conhece hoje, nem, consequentemente, se constituiria o sujeito, que Hall (2004) denomina como pos-moderno, se nao houvesse a possibilidade de trocas eficientes e intensas entre os individuos de culturas e nacoes distintas, ou seja, nao existiria pos-modernidade, nem tampouco a globalizacao, se nao houvesse o desenvolvimento dos meios de comunicacao, principalmente os digitais, e a internet.

Se a globalizacao e esse fenomeno de mistura de culturas--que Roland Barthes (2004) denomina como intertextualidade--que se torna possivel atraves dos meios de comunicacao com alcance mundial, entao o que e a desglobalizacao?

A desglobalizacao e um termo que esta sendo utilizado nesse texto para identificar algumas tendencias e ideias que estao povoando o imaginario de alguns grupos humanos, alem de atitudes que estao sendo tomadas por instituicoes, ou enunciadas em discursos por representantes politicos de algumas nacoes. Pode-se notar essa tendencia de fechamento de fronteiras culturais, sociais e economicas no discurso do recem-eleito presidente dos Estados Unidos da America, ou na decisao, em plebiscito, da populacao do Reino Unido em deixar o Mercado Comum Europeu. Tambem e possivel perceber essas tendencias desglobalizantes no crescente sentimento de xenofobia nos paises europeus, ou na limitacao das fronteiras ideologicas do Estado Islamico. Essas ideias de protecionismo, politicas contra as imigracoes, fechamento de fronteiras fisicas ou ideologicas, todos esses movimentos sao sintomas de uma crescente desconfianca das estrategias globalizantes do mercado, contudo, vao em direcao contraria ao movimento de aumento de contatos globais impressos pelos meios de comunicacao digitais e a internet.

No decorrer do texto, amplia-se a reflexao do seguinte debate: como esta se apresentando esse paradoxo, e o impasse que ele cria, ou seja, como tendencias desglobalizantes da politica de algumas nacoes e grupos sociais vao resistir a pressao globalizante dos meios de comunicacao digitais e a internet? Se houver resistencia, como as instituicoes deverao desenvolver maneiras tecnicas e legais para coibir a globalizacao, consequencia inevitavel do uso dos meios digitais?

Claro que nao se pretende ter a resposta para um problema tao complexo, mas ampliar o debate e a consciencia sobre esse assunto, e, principalmente, entender a relacao entre meios de comunicacao, pos-modernidade e globalizacao, para poder concluir que existe essa situacao contraditoria entre a vontade (tendencia) globalizante dos meios de comunicacao digitais e a vontade protecionista de alguns grupos humanos e instituicoes politicas.

Meios de Comunicacao e Organizacao Politica

Considera-se nesse artigo, a partir das ideias de McLuhan (1996), que os meios de comunicacao, a partir da invencao dos meios eletricos e dos meios de comunicacao de massa, tendem a constituir uma aldeia global entre os grupos humanos disseminados pelo mundo. Segundo McLuhan (1996) os meios de comunicacao sao tribalizantes. Porem, antes de entender essas questoes, e preciso destacar tres ideias consideradas fundamentais na teoria de Mcluhan (1996) para compreender a influencia dos meios de comunicacao na organizacao politica do ser humano. Sao elas:

1) Meios como extensoes do humano;

2) Meio e a mensagem;

3) Aldeia Global;

Uma das ideias fundamentais de McLuhan ja se identifica no titulo de um dos seus principais livros: Os Meios de Comunicacao como Extensoes do Homem (1996). O conceito de extensao e central na teoria dos meios, pois rompe com uma visao tradicional de que os meios de comunicacao eram meros transmissores de informacao, ou simples canais, que faziam a ponte entre emissores e receptores. Os meios de comunicacao nao sao apenas meios responsaveis pela transmissao das informacoes, mas, para McLuhan (1996), sao extensoes do humano. Mas o que significa isso? Significa que os meios de comunicacao como extensoes do humano fazem com que os sentidos humanos sejam ampliados e, com eles, a percepcao humana do mundo. Com a televisao, por exemplo, sou capaz de ver alem do limite dos meus olhos, com o radio posso escutar alem do alcance dos meus ouvidos. Ou seja, com os meios de comunicacao os meus sentidos se estendem pelo mundo, e sou capaz de receber muito mais informacoes, e muito mais influencias de outras culturas, que, de certo modo, caracteriza o fenomeno da globalizacao que os meios de comunicacao sao capazes de promover.

Entendendo informacao nao somente como um conteudo de uma mensagem, mas um conteudo capaz de produzir mudanca no comportamento e na consciencia do receptor (Netto, 1990), pode-se concluir que quanto mais informacao um receptor recebe, e quanto mais variada ela for, maiores e mais rapidas serao as mudancas que serao percebidas nas sociedades e nas culturas humanas. Por isso, os meios de comunicacao, mais do que meros transmissores, promovem a extensao da percepcao humana, e, por conseguinte, promovem mudancas profundas nas organizacoes sociais humanas, inclusive (o que interessa muito para essa pesquisa) na organizacao politica humana. Por causa dessas questoes e que McLuhan (1996) define os meios de comunicacao como extensoes humanas.

A segunda questao, talvez a frase mais conhecida de McLuhan (1996), "o meio e a mensagem", amplia esse debate sobre a influencia dos meios de comunicacao na vida humana, quando afirma que, mesmo independente das mensagens, os meios de comunicacao promovem mudancas no comportamento e na consciencia dos seres humanos e em suas organizacoes sociais. A simples invencao e uso dos meios alteram o comportamento humano, assim como as informacoes contidas nas mensagens. Por isso, mais do que meios transmissores de mensagens, como dito anteriormente, os meios de comunicacao estendem a percepcao humana, promovem mudancas nos seres humanos, entao pode-se considerar que os meios de comunicacao sao informacoes puras, por isso que McLuhan (1996) afirma que o meio e a mensagem.

A terceira questao, a aldeia global, e uma consequencia da extensao da percepcao humana e das alteracoes que produzem no comportamento humano. A partir da invencao dos meios eletricos houve um aumento do contato entre as culturas, e essa ampliacao produz um efeito de trocas de informacoes e, consequentemente, uma uniformizacao das culturas, fenomeno que o autor acredita que vai produzir a aldeia global. Termo que parece antagonico, pois se refere ao contato global de culturas, que se aproximam convivendo de maneira mais proxima, como as relacoes dos individuos que compoem uma pequena tribo. Por isso, para McLuhan (1996), os novos meios de comunicacao eletricos, posteriormente, os meios de comunicacao em massa, sao retribalizantes. A partir dessa conclusao, pode-se estender esse fenomeno de retribalizacao atraves dos meios de comunicacao digital. Um exemplo que se pode dar desse fenomeno nas novas midias digitais sao os sites de relacionamento, como o Facebook, Twitter etc., onde os individuos se juntam em comunidades por interesses comuns, e nao somente por questoes de proximidade espacial, legal ou nacional.

O alcance e extensao dos meios de comunicacao modificam a consciencia e o comportamento humano. Dessa forma, e que a organizacao politica humana esta intimamente relacionada ao alcance e a extensao dos meios de Comunicacao. Percebe-se melhor isso ao ler McLuhan (1996), quando ele relaciona as grandes revolucoes tecnologicas dos meios de comunicacao, as transformacoes da organizacao politica da historia da humanidade.

Quando o humano apenas dispunha da fala, o alcance da fala, que e limitado espacialmente em relacao a outros meios, influenciava a dimensao da organizacao politica humana. O alcance da fala possibilita grupos humanos limitados, tanto na ocupacao espacial, como na quantidade de integrantes: a fala esta para tribo. A fala esta para a tribo, pois esse meio de comunicacao nao tinha registro material, ou seja, as expressoes culturais de um povo deveriam ficar registrados na memoria, e deveriam ser passadas de geracao para geracao atraves da repeticao dos ritos, das historias. A fala e transmitida de pessoa para pessoa, voltada para a exteriorizacao, e nao tem segredo, ela se constitui a partir do momento em que o emissor esta transmitindo a mensagem para o receptor. Essa comunicacao de pessoa para pessoa, preve a necessidade da presenca de seus interlocutores. A dimensao da tribo esta relacionada ao alcance da fala.

No momento em que o ser humano desenvolve um registro eficiente de sua memoria, de sua cultura, de sua fala, ou seja, atraves da escrita fonetica, sua relacao passa a ser burocratica, e as liderancas podem se separar dos liderados, pois a escrita os representa, mesmo quando estao ausentes, por isso burocraticas, a escrita pode representa-los, presentifica-los. Como a mensagem pode ser transportada sem a presenca fisica do emissor, a informacao pode atingir uma populacao maior, e ocupar tambem um espaco maior. Dessa forma, pela escrita, as comunidades ampliam a uniformizacao de culturas e diversas tribos se juntam, seja pela forca, seja por interesses.

Entao, se a fala esta para tribo, a escrita esta para as grandes civilizacoes. A escrita seria a extensao da fala, de acordo com McLuhan (1996). E se a escrita e a extensao da fala, tambem devera estender a organizacao politica humana. Ou seja, a escrita estende a tribo. Pode-se perceber isso, pois o desenvolvimento da escrita fonetica coincide com o surgimento das grandes civilizacoes egipcia, mesopotamica e classica (Cidades-Estados Gregas, Macedonia e Roma).

Apos a escrita, a invencao da reproducao da escrita, da prensa movel e da tipografia, simbolizada por Gutenberg no final do seculo XV, fim da Idade Media e Inicio da Moderna, apenas ampliou esse fenomeno denominado por McLuhan (1996) de destribalizacao, pois, as comunidades cresciam e as relacoes pessoais ficavam diluidas nas grandes massas de uma populacao uniformizada, as quais chamamos de nacoes. O que justifica a nacao e a proximidade espacial e cultural, as fronteiras e o sentimento de nacionalismo, o qual e preciso ser semeado constantemente naquela populacao heterogenea. A nacao foi uma invencao que foi possivel gracas a meios de comunicacao mais potentes e rapidos, capazes de uniformizar massas cada vez maiores em torno de um ideal. A nacao esta para a impressao, como a fala para tribo, e a escrita para as grandes civilizacoes.

Contudo, McLuhan (1996), diferente do pensamento da Escola de Frankfurt, acredita que com a revolucao dos meios eletricos, e os meios de comunicacao de massa, esse processo se reverteria, pois com a velocidade eletrica dos novos meios, e com a quantidade de informacoes que eles poderiam transmitir, um novo tipo de relacionamento nasceria, uma aldeia global, onde as culturas se aproximariam, como foi dito anteriormente, criando um novo espaco retribalizado, nao de relacoes burocraticas como as impressas pela escrita, mas de participacao e de aproximacao por interesses.

Dessa reflexao, pode-se chegar aos meios de comunicacao digital, que se constituem com o fortalecimento da possibilidade de os individuos emitirem suas mensagens de forma global, e mais independente, do que era feita por outros meios anteriores. Individuos que trocam informacoes globais, que se aproximam de outros grupos de interesse, acabam por criar novas comunidades, novas tribos. Conforme essas trocas continuarem, e se ampliarem, e possivel chegar ao humano global, as culturas misturadas, hibridas e, tambem, globais: ou seja, a aldeia global. A globalizacao das culturas e apoiada pelos meios de comunicacao eletricos, de massa e digitais. Como sinalizou Ortiz (2000, p. 140), de maneira critica, "[...] a dimensao global supera o aspecto nacional".

Com essas reflexoes, pode-se chegar a conclusao de que os meios de comunicacao alteram comportamentos, consciencias e a propria organizacao politica humana, com isso, os meios de comunicacao digitais sao tambem responsaveis pela globalizacao. Essa tecnologia, com sua capacidade intensa de interacao, de contato constante, de mobilidade, possibilita uma extensao global da percepcao humana, possibilitando o surgimento de um humano global, em uma cultura global. Por isso, nesse artigo defende-se a ideia de que os meios de comunicacao pressionam a populacao para um processo de globalizacao, e que e paradoxal, o movimento contrario que determinadas politicas protecionistas, e de fechamento de fronteiras, querem implantar e resgatar nesse momento contemporaneo. Esse movimento parece surgir na contramao do potencial dos meios de comunicacao, e essa situacao podera criar uma pressao que podera ampliar as tensoes ja existentes em nosso panorama social. A pergunta e: quem resistira a esse embate, a tendencia globalizante dos meios, ou a forca burocratica das nacoes? Esse e um debate que se deve acompanhar com atencao.

Pos-Modernidade: A Era da Incerteza, a Liquidez, o Interregno e o Nao-Lugar

Uma das grandes marcas da pos-modernidade e, com certeza, a incerteza. Porem, uma incerteza que autores consideram como uma mudanca de paradigma, como Lyotard (2000), que ve a pos-modernidade como o "reconhecimento da heterogeneidade", assim como observa que o "consenso se tornou valor ultrapassado" (Lyotard, 2000, p. 118). Essa incerteza acaba por gerar a necessidade do desenvolvimento de novas metanarrativas (discursos que influenciam a consciencia de uma sociedade--familia, moral, lei, politica, religiao, etc.), ou seja, novas leis, novas ciencias, novas verdades, que vagueiam incertas nos jogos de linguagens. "Nesta disseminacao dos jogos de linguagem, e o proprio sujeito social que parece dissolver-se" (Lyotard, 2000, p. 73).

Porem, essas incertezas acabam por afetar a identidade cultural na posmodernidade, como disse Lyotard (2000) referindo-se a dissolucao do sujeito social. Essa dissolucao, essa incerteza, pode ser observada na investigacao de Hall (2004), quando o pesquisador dos Estudos Culturais ve no sujeito pos-moderno tanto a incerteza como o potencial de adaptacao desse sujeito, qualificando-o como sendo uma "celebracao movel" (Hall, 204, p. 13). As fronteiras desse sujeito social se confundem, ele se torna mais fragmentado, pois ao receber informacoes rapidas, de diversas culturas diferentes, suas verdades se tornam menos solidas, suas certezas mais fragmentadas e as fronteiras das metanarrativas se tornam menos definidas. Essas caracteristicas emergem, tambem, da tendencia globalizante dos meios.

Ou seja, o mundo do sujeito pos-moderno se torna mais volatil, e segundo Bauman (2008), mais liquido. Essa falta de solidez da identidade, do sujeito e da sociedade pos-moderna, e denominada por Bauman (2008) por liquidez: a liquidez da sociedade pos-moderna.

Bauman (2008) afirma que, a modernidade liquida, ou como denominamos de maneira mais comum, a pos-modernidade, vive um interregno,"[...] um espaco e um tempo estendidos, moveis, imateriais, sobre os quais reina o principio da heterogenia de fins, talvez como nunca antes" (Bauman e Mauro, 2016, p. 09).

O interregno de Bauman parece muito com o que Auge (2004) conceituou como nao-lugar e Ortiz (2000), em concordancia com Auge, definiu como um espaco desterritorializado que, devido a eliminacao das particularidades, e a colagem de diversos elementos, das mais variadas culturas, acaba por ser capaz de abrigar qualquer individuo.

Contrariamente aos "lugares", carregados de significado relacional e identitario, o espaco desterritorializado "se esvazia" de seus significados particulares. [...] parecem constituir uma especie de "nao-lugar", locais anonimos, serializados, capazes de acolher qualquer transeunte, independentemente de sua idiossincrasia (Ortiz, 2000, p. 105-106).

Esse movimento de mistura e homogeneizacao de culturas mundiais, e a incerteza provocada por ele e, certamente, pressionado pela rapidez dos meios de comunicacao digital, que sustentam a globalizacao, pois os meios potencializam a mistura de culturas e as trocas de informacao, como foi dito anteriormente, por isso, que esse sujeito precisa constantemente rever suas certezas e adaptar-se, pois a cada momento novas ideias e conceitos, novas informacoes modificam sua consciencia de mundo e seu comportamento, modifica seus valores e sua cultura. O sujeito da pos-modernidade vive o interregno, pois parece estar em uma transicao constante, como disse Bauman (2016), entre algo que ja foi, e algo que vira. Por isso, torna-se estranho, que os movimentos politicos queiram deter esse movimento.

O sujeito pos-moderno, o interregno, e o nao-lugar sao sintomas que demonstram como a globalizacao, sustentada pelos meios de comunicacao digitais, tem modificado profundamente o comportamento e a consciencia do humano contemporaneo, atraves de seu potencial de troca de informacoes, por isso parece contraditorio as tendencias politicas de fechamento de fronteiras, culturas e economias.

Parece que esse movimento contrario entre a pressao globalizante dos meios, e as politicas restritivas e desglobalizantes, deverao ampliar mais a sensacao de incerteza, que ja e uma marca do sujeito e da sociedade posmoderna. Os discursos de alguns grupos politicos tem a pretensao de querer conter, de maneira artificial e burocratica, a liquidez da pos-modernidade e seu alto potencial de adaptacao. Quem devera vencer essa queda de braco? Isso, se houver vencedores, pois com toda essa tensao, talvez apenas aumente a incerteza e as contradicoes se tornem insustentaveis.

Consideracoes Finais

A globalizacao e uma tendencia de mistura de culturas, que e possibilitada gracas, primeiramente, ao alcance dos meios de comunicacao eletricos e de massa, e potencializada pelo poder de trocas de informacoes dos meios de comunicacao digital. Ocorre e tambem esta relacionada a pos-modernidade, e ao sujeito pos-moderno.

Esse conjunto de fenomenos produziu alguns efeitos como:

1) Formacao de identidades menos centralizadas, mais fragmentadas e com alto potencial de adaptacao, de acordo com Hall (2004);

2) As instituicoes, os discursos formadores do social (metanarrativas), as relacoes e a moral se tornam mais liquidas, de acordo com Bauman (2008);

3) Essa liquidez e incerteza levou a um nomadismo, tanto fisico (deslocamento fisico de individuos no espaco) como um nomadismo ideologico (ideais que se modificam com rapidez);

4) Os individuos estao mais hedonistas, e observa-se uma supervalorizacao da aparencia em detrimento da essencia;

5) O sujeito desse periodo demonstra uma grande autonomia, porem, o individualismo se torna crescente;

6) A sensacao de incerteza e crescente, devido, tambem, a velocidade de trocas de informacao dos meios digitais de comunicacao.

Dessas caracteristicas que se encontram no humano pos-moderno e globalizado, alguns autores destacam elementos positivos. Lipovetsky (2004) destaca a autonomia do sujeito pos-moderno ligado aos meios de comunicacao digital, pois, diferente do sujeito dos meios de comunicacao de massa, o primeiro e mais interativo, participativo, seus discursos sao mais independentes, menos moldados pelas estrategias de massa, ou pelas metanarrativas; enquanto o segundo era mais passivo e conformado, massificado pelas informacoes que vinham pelos meios. Esse sujeito pos-moderno da globalizacao, por exemplo, e capaz de desenvolver uma etica inteligente, "que alterou os valores" (Cruz, 2013, p. 28).

Ja para Linda Hutcheon (1991), pode-se perceber no pensamento da autora que a pos-modernidade foi iniciada recentemente e que uma nova consciencia mais preocupada, por exemplo, com a natureza e com a ecologia, devera surgir, ou seja, a pos-modernidade nesse processo de globalizacao reconstituira novos ideais, novas maneiras de pensar e interagir com o mundo. Ela e otimista em relacao a contemporaneidade.

Porem, para Milton Santos (2007) a globalizacao e uma farsa, uma fabula, como sentenciou o proprio autor, pois apenas globaliza as perversidades como doencas, pobreza e miseria. Provavelmente e essa percepcao que levou o eleitorado dos Estados Unidos a eleger as propostas de Donald Trump, que se apresentam de maneira protecionista onde, em sua campanha, pregava o fortalecimento interno das fronteiras. O mesmo sentimento de perda perante a globalizacao provavelmente levou o povo ingles, em um plebiscito, a votar pela saida do Reino Unido do Mercado Comum Europeu. Talvez, seja preciso, para tentar reverter esse movimento desglobalizante, buscar, como afirma Santos (2007), uma globalizacao mais justa, "engajada", onde os interesses do capital internacional nao se sobreponham sobre os interesses sociais das populacoes, onde as culturas nao sejam impostas artificialmente e se possa ter uma mistura de culturas mais equilibrada e justa.

Os meios de comunicacao digitais ja possibilitam a miscigenacao de culturas, cabe ao humano, a politica humana, buscar solucoes para os impasses, e, certamente, nao e com o movimento inverso a globalizacao que as politicas protecionistas e desglobalizantes vao conseguir solucionar esse impasse que vive a populacao mundial. Muito pelo contrario, esse movimento apenas devera ampliar as tensoes entre essas populacoes, reforcando as incertezas, e diminuindo a possibilidade das trocas de informacao, dificultando o dialogo entre as culturas, o que pode levar a ampliacao da incompreensao, da xenofobia, e da intolerancia.

Torna-se necessario e urgente refletir sobre a questao da comunicacao entre as diferentes sociedades, para que se impeca um aumento da violencia e da incompreensao. Esse artigo se pretende a isso, nao e capaz de apresentar todas as solucoes, mas sugerir que nao se interfira com o potencial globalizante dos meios, mas sim, com as politicas humanas desglobalizantes, pois essas, sim, parecem estar causando essa onda retrograda de incompreensao entre os humanos, que vale lembrar, pertencem a mesma especie.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.2.27918

REFERENCIAS

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Recebido em: 8/7/2017

Aprovado em: 27/9/2017

Patricio Dugnani

Universidade Presbiteriana Mackenzie

<patricio@mackenzie.br>

Dados do autor:

Patricio Dugnani--<patricio@mackenzie.br>

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Doutor em Comunicacao e Semiotica pela Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo. Professor de Comunicacao e Artes da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Endereco do autor:

Rua da Consolacao, 930--Consolacao

01302-907--Sao Paulo--SP--Brasil
Tabela 1. Globalizacao e Desglobalizacao

Globalizacao                     Desglobalizacao

Meios de Comunicacao             Nacoes e economias protecionistas
Globalizantes

Fragmentacao pos-moderna         Repolarizacao das Culturas e
                                 Ideologias

Fonte: O autor

Tabela 2--Meios de Comunicacao e Organizacao Politica em
Marshall McLuhan

Meios de Comunicacao    Caracteristicas         Organizacao Politica

Fala                    --Memoria               Tribo
                        --Exterior
                        --Tribalizacao
                        -Padronizacao/
                        uniformizacao
Escrita (fonetica)      --Registro material     Grandes Civilizacoes
                        --Segredo               Egito, Mesopotamia,
                        --Burocratico           e Classica
                        --Destribalizacao
                        -Padronizacao/
                        uniformizacao
Meios Impressos         --Registro material     Nacao/ nacionalismo
                        --Segredo
                        --Burocratico
                        --Destribalizacao
                        -Padronizacao/
                        uniformizacao
                        --Mecanizacao
Meios Eletricos         -Padronizacao/          Internacionalizacao de
                        uniformizacao           Culturas
                        --Industrial
                        --Retribalizacao
Meios de Comunicacao    --Receptor passivo      Internacionalizacao
de Massa                -Padronizacao/          de Culturas
                        uniformizacao           Massificacao
                        --Industrial
                        --Retribalizacao
Meios Digitais/         --Interacao             Globalizacao
internet                --Mobilidade            Informacao
                        --Emissor e receptor
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Title Annotation:COMUNICACAO POLITICA
Author:Dugnani, Patricio
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:May 1, 2018
Words:4373
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