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Giordano of Pisa (1260-1311) and the threefold meanings of the city. An essay on medieval urban politics/Giordano de Pisa (1260-1311) e os tres significados da cidade: um ensaio de politica urbana medieval.

Introducao

Em um esclarecedor capitulo da obra coletiva organizada por Chris Wickham e Dean Trevor (2003), Bernadette Paton (2003, p. 109-123) mostrou o quanto os pregadores dominicanos de Siena envolveram-se na defesa dos valores republicanos em uma epoca de grande crise politica como o seculo XV italiano. A autora defendeu a premissa de que os dominicanos de Siena compartilhavam com seus confrades de Florenca igual engajamento na reflexao e acao politicas, sobretudo sustentando os ideais civicos que creditavam a comuna. O resultado do trabalho da conta de explicar que os frades nao contrariavam a tradicao politica de suas cidades, ainda que, com isso, tivessem de infringir certos canones da teologia dominicano-tomasiana, propria de espacos regios como Paris, em que a politica era interpretada pelo vies da monarquia; assim, os pregadores traduziram os termos politicos classicos (aristotelicos e ciceronianos), de modo a dar maior realce as proprias ideias, e, ao fazer isso, nao agiram individual, mas corporativamente, como ordem, isto e, segundo um cabedal de reflexao politica fradesca nascido nas comunas e na relacao com elas. Paton nos ajuda a perceber como os sermoes pregados em Siena, no seculo XV, continham um verdadeiro pensamento politico que nao pode ser negligenciado na hora de estudar a dinamica de poder nas cidades comunais italianas.

Por sua vez, Daniel Lesnick (1989), priorizando o caso de Florenca, entre os seculos XIII e XIV, investigou o papel social dos dois principais conventos mendicantes da cidade, Santa Maria Novella, dos dominicanos, e Santa Croce, dos franciscanos, e, com isso, verificou que os sermoes produzidos nesses conventos urbanos continham um significado social, economico e politico perceptivel, inclusive pelo confronto com os ouvintes, seja os do popolograsso (a elite banqueira e mercantil), que frequentava Santa Maria Novella, seja os do popolo (uma especie de classe media formada de artesaos e comerciantes locais), que preferia Santa Croce.

A especial relacao dos dominicanos com a elite dirigente reproduzia-se tambem no interno do convento; John M. Najemy calcula que 43% dos frades professos de Santa Maria Novella, em 1300, pertenciam as poderosas familias da cidade, como os Adimari, Bardi, Cavalcanti, Donati, Mannelli, Soldanieri, Spini, Tornaquinci, Uberti e Visdomini (Najemy, 2006, p. 34). Essa percepcao viva da pregacao, cujos sermoes, longe de fornecer a imagem de uma cidade homogenea, acentuavam suas idiossincrasias, aguca a curiosidade por um tipo de pratica politica cotidiana em que o pulpito podia transmitir o eco das discussoes e dissensoes da assembleia. Especialmente influente nos jogos de poder de Florenca foi o frade Remigio dei Girolami, filho de uma dessas linhagens fortes que controlavam a politica local; entre 1293 e 1315, Remigio dedicou numerosos sermoes a tentar aplacar os animos dos grupos dirigentes, proferindo varias predicas especialmente aos priores da assembleia comunal. De particular interesse e o fato de Remigio com frequencia unir seus sermoes aos conteudos de seus tratados politicos, como o De bono comuni (de 1301-1302) e o De bono pacis (de 1304), como se pode ver nos chamados Sermones de pace, pregados entre 1314 e 1315 (Gagliardi, 2013, p. 118).

De minha parte, pretendo investigar a relacao de pregacao com a politica, no seculo XIV florentino, pela analise de tres sermoes (2) de Giordano de Pisa (ou da Rivalto), discipulo e sucessor de Remigio dei Girolami no cargo de pregador-geral do Convento de Santa Maria Novella. Entre 1302 e 1307, Giordano fez ecoar sua pregacao em Florenca de modo intenso: contam-se 399 sermoes pregados na cidade e anotados em vulgar toscano por peritos (reportatores), provavelmente membros das confrarias leigas que orbitavam ao redor de seu convento (Iannella, 1999, p. 7-24); para nossa sorte, os reportatores registraram tambem as datas, os momentos do dia e do ambiente em que as predicas aconteceram, de modo que temos uma profusao de informacoes que colocam os sermoes de Giordano entre os mais fecundos para um estudo das inter-relacoes entre politica e pregacao na Italia comunal.

Quanto a isso, e o proprio pregador quem nos encaminha para tais consideracoes; suas predicas sao prioritariamente destinadas as populacoes urbanas, com destaque para os membros das organizacoes artesanais que, em Florenca, eram pelo menos cinco: Calimala, Cambio, Por Santa Maria, Giudici e Notai e Arte della Lana, esta ultima citada diversas vezes; (3) a mencao as Artes durante os sermoes nao e mera informacao. Em Florenca, desde 1282, os membros da aristocracia patricia (magnati) foram repelidos do centro das decisoes politicas e do governo com a ascensao das Artes que impuseram seus representantes (os priores) como colegio governante da comuna. Alijados do poder, os aristocratas passaram a fazer ferrenha oposicao aos priores, organizando-se no partido dos Neri (os guelfos negros), cindindo a tradicional unidade politica da Parte Guelfa filopapal. Os membros das Artes, por sua vez, organizaram-se em um partido oposto conhecido como os Bianchi (os guelfos brancos), em que predominavam os ricos banqueiros e comerciantes (popolograssoDessi, 2011, p. 22).

A proclamacao dos Ordinamenti di Giustizia, em 1293, intensificou a ingerencia das Artes na vida politica de Florenca e, entre elas, a Arte della Lana, o que amiude provocou o enfrentamento entre a aristocracia patricia e os ricos mercadores, levando a cidade a luta armada, ao exilio de diversas familias e ao derramamento de sangue. Essa oposicao entre nucleos sociais distintos, todos em disputa pela maior fatia dos recursos municipais, atingiu o Convento de Santa Maria Novella, bastante ligado ao partido aristocratico; em 1301, diante da luta armada, o frade Remigio dei Girolami, de resto oriundo de familia guelfa branca, pregou nove sermoes aos priores de Florenca, sermoes esses justamente intitulados De Pace (Sobre a Paz), pelos quais imprecava os governantes a empregar as vias legais para o restabelecimento dos equilibrios politicos da cidade (Gagliardi, 2013, p. 119).

A realidade historica oferecia a pregadores florentinos, como Remigio e Giordano, a oportunidade de manifestar sua opiniao em relacao a realidade historica. Nesse pormenor, ve-se que o frade Giordano nao assume uma simples postura de tendencia aristocratica ou antiaristocratica, mas procura pensar o politico pela chave da complementaridade partidaria e profissional. A recorrencia com que Giordano menciona os comerciantes (mercatanti), usurarios (usurai), sapateiros (calzolai), alfaiates (sartori), forneiros (fornai), medicos (medici) e cavaleiros (cavalieri) demonstra que sua pregacao, como uma pratica social legitima (Zorzi, 2008, p. 62), visava a encontrar solucoes aplicaveis para a cidade e seus problemas.

Os exemplos que toma para incrementar seus sermoes sao tirados do cotidiano urbano, e seu grande empenho pastoral e sempre aquele de restaurar o equilibrio da comunidade urbana, donde a recorrencia de temas como o bem comum, o governo, a justica, o bom uso do dinheiro e do comercio etc. Como escreve Zorzi (2008, p. 62), "a Italia comunal representa um caso exemplar de sociedade complexa em que os modos institucionais interagiam com praticas informais de acao politica" e, entre estas, encontrava-se a pregacao, cuja natureza, simultaneamente retorica, performatica, coletiva e, ao mesmo tempo, religiosa, concentrava boa parte da forca simbolica que alguns teoricos das comunas denominam religiao civica (Iogna-Prat, 2016, p. 196), e outros, religiao comunal (Thompson, 2005), isto e, a assuncao, pelo corpo comunal, da forca simbolica manipulada pela religiao oficial em prol da cidade. Diante disso, nao e estranho que as elites florentinas tenham investido tanto capital na manutencao dos pregadores, alargando pracas para conter a multidao e favorecendo a participacao dos pregadores (clerigos e leigos) nos assuntos publicos municipais.

No entendimento giordaniano, a pregacao ultrapassa os tradicionais significados que lhe sao atribuidos, como o de exposicao publica e oral de um texto biblico; Giordano considera esse sentido, mas enfatiza outros elementos, como o carater instrucional, pedagogico e especulativo da pregacao; por isso, ele a associa a escola, e o pregador, ao mestre que educa para a vida em comunidade. Essa caracteristica, para nos, e de suma importancia: o frade mostra-se ciente do quanto sua epoca se destacava das demais pela maior oferta de escolas e de mestres; contrariando a tradicional visao petrarquiana (4) de um seculo XIV imerso em trevas, Giordano chega a colocar sua epoca acima dos tempos antigos, dada a acessibilidade da ciencia, que faz com que o presente seja mais iluminado do que o passado: seu tempo tem mais luz devido "a abundancia de sabedoria, a abundancia de pregadores e professores e pelo exemplo dos santos" (Manni, 1739, p. 152). (5) Deve-se ressaltar a estreita relacao entre pregador e professor: ambos exercem oficio semelhante, isto e, transmitem sabedoria e retiram os ouvintes da ignorancia. Por isso, muito melhor e quando os pregadores, como os dominicanos, abrem tambem escolas e aumentam as chances de aprendizado, inclusive para citadinos leigos:

Vivemos neste tempo de luz gracas aos muitos doutores e mestres que existem hoje. Antigamente nao havia mestres: e se havia alguns, eram rarissimos e de pouca virtude; costumava bastar um mestre para toda uma provincia. [...] Mas hoje sao tantos os mestres, todas as cidades estao plenas deles; tantos pregadores, e bastante bons e verazes; existem escolas em cada convento, e estes sao milhares onde quotidianamente procura-se, declara-se e ensina-se a sabedoria; e mesmo assim, nao saimos do lugar. (Manni, 1739, p. 152-153)

O lamento do frade nao oculta seu contentamento com a realidade institucional de sua ordem espalhada pelas comunas e trabalhando por elas. Ao falar de pregadores e bem de dominicanos que o frade fala, esses mestres de iscuola di divinitade que povoam o mundo todo. No caso de Florenca, essas escolas eram de nivel superior (universitario) e funcionavam nos tres conventos mendicantes da cidade, isto e, em Santa Maria Novella (dos dominicanos), Santa Croce (dos franciscanos) e Santo Spirito (dos agostinianos). No tempo de Remigio dei Girolami, Dante Alighieri (1265-1321), como atesta seu Convivio (II, xii, 17), frequentou essas escolas e ali aprendeu "a docura da filosofia" com frades como Pietro di Giovanni Olivi e o proprio Remigio (cf. Brunetti e Gentili, 2000, p. 22). Como se ve, Giordano nao exagera quando destaca a capacidade inventiva das escolas dos conventos.

Para esse frade, a acao social da predica e muito concreta e se relaciona com o ambito do saber pratico: "em quanta escuridao nao estaria o mundo se nao existissem os pregadores? Certo, estariamos em trevas maximas, como se diz dos Gregos [isto e, os bizantinos ortodoxos] que nao tem pregadores. [...] Ainda, se nao existissem as pregacoes estariamos em piores erros e sujeira que os Sarracenos" (Moreni, 1831a, p. 236); no entender de Giordano, os frades pregadores ensinavam a ciencia, a teologia, a politica e o exemplo dos santos que constituem o nucleo duro da vida comunitaria.

Os sermoes que tomarei para investigar o sentido politico contido na pregacao da Baixa Idade Media italiana, particularmente no caso de Giordano de Pisa, foram escolhidos pela afinidade tematica-todos os tres exemplos comentam a mesma pericope evangelica, retirada de Mateus (9,10) Venitincivitatemsuam [Jesus voltou a sua cidade]; o tema do Cristo que volta a sua cidade deu ao pregador o motivo para explanar acerca dos muitos sentidos do termo cidade e de sua realidade fundamental. Acrescente-se a isso a estreita ligacao cronologica entre eles: seguindo a datacao proposta pela edicao de Moreni (1831b), temos que o primeiro sermao ocorreu na manha de 4 de outubro de 1304, no Convento de Santa Maria Novella; o segundo, na tarde desse mesmo dia que, sendo domingo, comportava duas pregacoes [essa segunda predica aconteceu no centro da cidade, na Igreja de Santa Reparata]; o terceiro sermao foi pregado no dia 8 de outubro na Praca do Bispado. A fim de evitar confusoes, adotarei a numeracao utilizada por Moreni no segundo volume das Prediche del beato fra Giordano da Rivalto dell'Ordine dei Predicatori, correspondendo respectivamente aos Sermoes 44, 45 e 46.

O pregador e a cidade: esbocos de uma teologia politica de pulpito

"Mas hoje nao ha ninguem que se esforce para retornar aquela cidade verdadeira que e cidade veraz, que jamais deve ser considerada menor" (Sermao 44; Moreni, 1831b, p. 66); "Cidade soa tanto como amor e por amor e que se edificaram as cidades" (Sermao 45; Moreni, 1831b, p. 77); "[...] e assim ficamos de boa vontade nas cidades, onde existem muitas coisas e onde se encontra tudo aquilo de que se necessita" (Sermao 46; Moreni, 1831b, p. 89). Tres citacoes tomadas das predicas dedicadas a meditacao do versiculo evangelico "E Jesus voltou a sua cidade" (Mat. 9,10), isto e, Cafarnaum. Como bom pregador, Giordano explora os quatro sentidos da Escritura, isto e, o literal, o alegorico, o moral e o anagogico, mas nao obedece a essa ordem; antes, parte do fim e vai ao comeco: e o sentido anagogico que da substancia a toda a sua fundamentacao teologica; a cidade, nesse caso, e aquela "bem-aventurada cidade de vida eterna, onde habitam os bem-aventurados cidadaos" (Moreni, 1831b, p. 66); justamente por isso, ela e a cidade verdadeira e veraz, como insiste o sermonista. Na sequencia vem o sentido moral: a cidade do ceu e modelo para a cidade da terra, construida pela vontade deliberada dos homens. O sentido literal fica por ultimo: refere-se a cidade naquilo que tem de pragmatico, pois ela supre a deficiencia humana, que nao da conta de viver no isolamento ou na selva. Chama a atencao o fato de o sentido alegorico nao vir atrelado a nenhum dos tres significados de cidade em particular, mas, antes, aparecer conectado a todos os outros, como que os costurando entre si.

Nao se trata de forcar a unidade dos tres sermoes; o proprio pregador enuncia esse proposito na terceira predica, (6) e o faz de uma maneira, ao mesmo tempo, mnemonica e didatica: retoma o conteudo dos sermoes anteriores e da-lhes nova sintese:

Ora, como eu vos disse anteontem, nosso Senhor Jesus Cristo teve tres cidades, as quais foram consideradas cidades de Cristo; a primeira e aquela onde nasceu, Belem; a segunda onde viveu por muito tempo, Nazare; a terceira, onde ele mais pregou, mostrou mais virtude e operou mais milagres, chama-se Cafarnaum, sua cidade de adocao. (7) Cristo teve tres cidades tambem num outro modo, isto e, o mundo, onde nasceu; o pais dos judeus, onde viveu; e o Paraiso. E assim nos temos estas tres cidades; como Cristo teve estas tres cidades, tambem nos as temos de modo semelhante. A primeira e este mundo, a segunda e o Paraiso-aquele bendito lugar que a Escritura todos os dias chama de cidade, a terceira e a cidade de adocao, como Roma e de Sao Pedro, pois ali se verificam mais coisas e virtudes de Sao Pedro do que em qualquer outro lugar; e como Florenca e [cidade] especial de Santa Liperata. (Moreni, 1831b, p. 89)

Novamente, os quatro sentidos da exegese antiga sao decisivos; o sentido literal (ou historico) encabeca a todos, referindo-se as cidades concretas em que o Cristo historico nasceu, cresceu e atuou; os demais sentidos se misturam, levando o ouvinte a ultrapassar o nivel historico, mas sem perde-lo de vista: Cristo, Sao Pedro e Santa Liperata (ou Reparata) habitam a "cidade do ceu", mas foram, antes, cidadaos de cidades da terra. O pregador nao despreza nenhum dos quatro sentidos, apenas brinca com eles ao sabor de seu engenho oratorio. A historia, nesse caso, da-lhe materia para levar o ouvinte a subir os degraus do entendimento, passando para o sentido moral (iluminar as praticas) a fim de chegar ao nivel anagogico (a fruicao de Deus), meta sublime de toda pregacao crista.

Essas predicas pronunciadas no coracao da republica de Florenca podem nos levar a conhecer algumas facetas da complexa compreensao politica do mundo comunal italiano: em sintese, a primeira predica nos forca a ir em busca da "verdadeira cidade", que transcende os muros e predios dos centros urbanos; a segunda insiste na ineludivel analogia entre a "cidade do alto" e esta "de baixo", e compreendemos que o fenomeno citadino esta intimamente ligado ao ambito da vontade humana e a sua fundamental antropologia; a terceira faz-nos, enfim, tocar a concretude da historia com suas contradicoes. O exercicio politico do tempo das comunas exige esse percurso; sua natureza primaria e a autoridade, nao o poder; e a sociedade, nao o Estado; e o ordenamento juridico, nao o direito-lei (Grossi, 2014, p. 22-23). Nada disso a inferioriza, nem marca seu lugar temporario em uma cadeia progressiva de evolucoes. Em um mundo, como o nosso, que enfrenta a coercao do onipotente Estado de direito, as republicas comunais oferecem a experiencia de outro arranjo social, em que o Estado atua pelo direito, mas nao e sua fonte, nem seu exclusivo guardiao (Reynolds, 2006, p. 89-112).

Mas o historiador, sobretudo o historiador da politica medieval, quando le discursos como esses de Giordano de Pisa, sente-se tentado a deixar de lado os sentidos alegorico, moral e anagogico para so reter o literal, como se aquilo que Giordano definiu como cidade "historica" fosse suficiente para explicar o que ele entendia por cidade (e por cidadania) na Florenca do seculo XIV. Tal procedimento e anacronico e nao respeita a logica exegetica do periodo; trabalhos como o de Honess (2006) e Mackin (2013) destacam que nem mesmo o "laico" Dante Alighieri articulava seu pensamento em chave oposta ao dos pregadores florentinos, em primeiro lugar porque ele aplicava os quatro sentidos das escrituras as suas obras e, em segundo lugar, porque nao reproduzia simplesmente a polarizacao politica-religiao/clerical-laico, que caracteriza as pesquisas de tantos interpretes contemporaneos da politica comunal medieval.

A observacao torna-se mais inteligivel se nos lembrarmos de que essa cidade toscana e evocada, na tradicao politica ocidental, como um dos lugares fundadores da politica moderna, berco do republicanismo civico e dos humanistas (Skinner, 1996; Zorzi, 2008, p. 64). Do ponto de vista de uma critica da narrativa da modernidade, que instaurou o medievo como o tempo antipoda da razao e da liberdade civil, retornar a Giordano de Pisa e, a partir dele, aos dominicanos florentinos e tentar restabelecer o chao teorico-pratico do movimento politico comunal italiano naquilo que teve de experiencia politica, ousaria dizer, de vivencia do politico, na integralidade social que o conceito supoe: os politologos modernos conhecem os tratados politicos "medievais", elencando-os e definindo-os a partir de uma selecao extemporanea baseada na oposicao secular/religioso. Por conta dessa oposicao anacronica, a literatura sermonaria e, com ela, uma pilha de outros tratados eclesiasticos, pelo simples fato de serem supostamente "palavra da Igreja" em um mundo "civil" (portanto, oposto a ela), foram completamente excluidos do estudo do republicanismo medieval; persistir nesse procedimento e permitir que a narrativa da modernidade continue a embalar nosso sono dogmatico idealista ou materialista e evolucionista. Nao e minha intencao polemizar as escolhas dos historiadores do politico; quero trazer para este debate textos e aspectos que, em um contexto historiografico especifico, ja vem sendo debatidos, mas cujos resultados ainda nao ultrapassaram os limites da pesquisa especializada.

La nostra verace cittade (Sermao 44): primeiro significado da cidade

Dia 4 de outubro de 1304, convento dominicano de Santa Maria Novella, festa de Sao Francisco de Assis. O pregador tem diante dos olhos a passagem do Evangelho de Mateus, capitulo 9, verso 1: "Jesus subiu a uma barca, atravessou a outra margem e chegou a sua cidade", isto e, Cafarnaum, banhada pelo mar da Galileia. Como e esperado de um pregador, o sermonista precisa fazer coincidir o trecho da liturgia do dia com a festa de Sao Francisco; sua pericia oratoria reside justamente nessa capacidade de adaptar o discurso as ocasioes e situacoes. E Giordano domina seu oficio. O "ammaestramento" que tira dessa passagem evangelica puramente descritiva ou narrativa e de suma importancia para entendermos o lugar que o pregador confere a pregacao na historia da Igreja e na historia das cidades. Cafarnaum e a cidade em que "Cristo maximamente pregou, e onde mais sinais e prodigios mostrou do que em qualquer outra cidade" (Moreni, 1831b, p. 65); Giordano insiste: Cristo nasceu em Belem, cresceu em Nazare, mas sua cidade mesmo e Cafarnaum; ali ele mostrou que e mais do que um homem e fez isso por meio da pregacao.

Podia-se pensar que a cidade de Cristo fosse Jerusalem; afinal, os evangelhos associammo a descendencia do rei Davi e ao messianismo libertador de Israel, o que o torna vocacionado a cidade de Davi, a capital do povo eleito; ali Cristo morreu crucificado, gesto lido em chave sacrificial e escatologica. Mas, para o pregador de Florenca, o gesto redentor ja comeca com a pregacao de Cristo, longe de Jerusalem, na Galileia das Nacoes. Seria isso um modo de o pregador dotar de forca carismatica e escatologica seu proprio oficio? A sequencia desse e dos demais sermoes mostra que sim. (8) Ao voltar para "sua cidade", Cristo ensinou aos homens o caminho para a "cidade da vida eterna", caminho que nao e feito sem um extremo esforco por parte dos homens, mas o pregador esta ali, no coracao das cidades, para incentivar essa trajetoria e facultar a caminhada.

Cristo volta a sua cidade, como tambem Sao Francisco; eis o exemplum a ser seguido pelos fieis florentinos. Mas Giordano deixa esse exemplo para depois e inicia a predica mostrando que ate mesmo as criaturas insensiveis, como as pedras, as estrelas, o sol e os planetas, e as sensiveis, como o passaro e o leao, voltam sempre a seu lugar de origem, a seu lugar natural, como afirmavam os filosofos antigos. Diz o pregador que uma pedra cairia infinitamente se nao encontrasse a terra, para a qual tende. E a lei da fisica, isso e natural. Um passaro na gaiola, uma vez solto, volta imediatamente a seu lugar de origem, ao bosque onde foi capturado; o mesmo sucede ao leao. Entao, por que os homens, dotados de espirito imortal, nao voltariam para seu lugar natural, isto e, o reino do ceu? Ha algo de errado com essas criaturas compostas de corpo e espirito; elas tendem naturalmente a Deus, mas se veem presas a realidades sufocantes. O pregador reconhece: e preciso muito esforco, muito amor e dedicacao para retornar a nossa cidade verdadeira, onde todos seremos santos. Constatacao um pouco pessimista expressa em um jogo retorico: quem em Florenca quer ir para o ceu e ser santo? Ninguem! Quem se esforca para se superar? Ninguem. Mas como? Nao e o ceu o lugar natural das almas? Por que os homens nao correspondem mais a sua natureza?

A compreensao de uma "natureza sobrenatural" constitui boa parte do pensamento cristao ao longo dos seculos. Giordano e formado na escola dominicana, cujos mestres ensinavam que a graca supoe a natureza e a aperfeicoa (Narducci, 1867, p. 3). Para esses frades, o fim da teologia e a pregacao, e o fim da pregacao e a salvacao dos filhos de Deus; (9) no fundo, os frades veem-se como agentes da graca, libertadores das gaiolas que prendem as almas que, por isso, nao voam para o ceu, seu lugar natural. Pregar, portanto, e uma acao obrigatoriamente politica, pois ela so existe em vista de homens pecadores, e foi o pecado a origem da primeira cidade; todo o pensamento politico de Giordano e, com ele, o de outros dominicanos, como Guilherme Peraldo (Guillelmus Peraldusc. 1200-1271), Vicente de Beauvais (1184/1194-1264), Iacopo de Varagine (1228-1298) e Ptolomeu de Lucca (1236-1327), dependem de uma leitura atenta dos tres primeiros capitulos do Genesis, das obras politicas de Santo Agostinho e de Dionisio, o pseudo-Areopagita.

De modos diversos e com nuancas proprias, esses dominicanos conceberam que o regimen politicum ja existia na historia antes do pecado, de modo natural, isto e, perfeitamente ordenado para seu fim, que e a maxima felicidade dos homens, como ja previa Aristoteles na Politica, cuja traducao latina era conhecida dos frades desde 1260; mas a acao do pecado, que originou a cidade e o governo tiranico, nao permite mais a realizacao do homem, donde os pregadores, como Giordano, insistem com tanto afinco em um "ceu politico", como veremos: e o casamento de Aristoteles com o Evangelho, da razao com a fe.

Patrick Gilli (2013, p. 45) fala de uma "formamentis florentina", que se mostra concreta no arrazoado de Remigio dei Girolami (no tratado De bono comuni), mas tambem em Dante Alighieri (poderia estar tambem em Giordano?). Essa forma mentis florentina e "urbanocentrica", de modo que a Politica de Aristoteles era interpretada em um sentido estrito (quem nao e cidadao nao e homem). Em Giordano, encontramos nao so a autoridade de Aristoteles, mas tambem a de Agostinho de Hipona e sua metafora das duas cidades. O pregador organiza seu pensamento a partir da pratica da vida em sociedade: quando pede para que seus ouvintes partam de um lugar nao natural (a cidade deste mundo) e vao para seu lugar natural (a cidade da vida eterna), imitando Cristo, que foi a Cafarnaum, Giordano nao desmerece a politica propriamente dita, bem como sua historicidade; ao contrario, reforca ainda mais a compreensao de que a politica, por ser tao natural ao homem, encontra seu fundamento na eternidade, (10) pois para a eternidade os homens foram criados. A politica nao e passageira; nao e um modo provisorio de existencia, mas e toda a existencia, neste e no outro mundo.

Nesse Sermao 44, Giordano toma o exemplo de Sao Francisco, um santo reconhecidamente comunal, filho de Assis e das novas estruturas politicas italianas. As biografias de Francisco ressaltam a imbricacao desse santo com as vicissitudes das comunas, e por elas vemos que toda a missionacao franciscana foi pensada como acao intracitadina (Miatello, 2013). Francisco e mais do que um exemplo para Giordano, e a confirmacao de sua teoria. O texto biblico comentado encontra-se encarnado em Francisco: ele pos-se em fuga de uma cidade de pecado e rumou para a cidade dos santos, "com velocidade, com integridade e com severidade" (Moreni, 1831b, p. 67).

Velocidade porque comecou cedo, ainda na juventude. Giordano adota a visao tradicional de que as criancas sao tabuas rasas sobre quais nada foi ainda escrito e, desse modo, estao isentas das deturpacoes de uma sociedade malvada. Se esses jovens, desde cedo, forem expostos a sa doutrina moral, nao tomarao a forma do mundo e, consequentemente, poderao receber a forma de Deus. Nas entrelinhas, vemos o lugar capital dado aos pregadores, pois se e fato que em uma cidade nem todos sao monges ou frades, todos podem beneficiar-se desses educadores civicos de que fala Nicole Beriou (2002). Sao eles que estimulam a partida de uma ma vida social com velocidade e integralmente: perscrutadores das consciencias e disciplinadores dos costumes, os pregadores creem-se artifices da verdadeira cidade. No caso de Giordano, essa construcao moral da cidade pela via da pregacao exige a penitencia (a "severidade", como ele dizia), isto e, o exercicio individual daqueles que querem endireitar sua tortuosidade interior e crescer.

Por isso, a penitencia e exercicio corporal e espiritual com o intuito de reprogramar as condutas individuais e coletivas, e uma autoviolencia que pretende extirpar o que atrapalha o aperfeicoamento moral: "[...] ele macerava seu corpo com jejuns, com longas vigilias, com frio, fadigas, humilhacoes tais e tantas que ninguem poderia descrever a sua penitencia" (Moreni, 1831b, p. 70). Esse tipo de pratica ascetica, impressionantemente dificil e dura, nao era raridade nas cidades comunais. Augustine Thompson (2005, p. 70), por exemplo, analisa detidamente o lugar comunitario e, diria, politico da penitencia na vida comunal, principalmente no norte italiano. Segundo o autor, ao longo dos seculos XI, XII e XIII, na Italia, dezenas de grupos leigos [confraternite] oriundos das cidades comunais adotaram para si um modo de vida religiosamente comprometido, chamando-se de conversi ou penitenti. Esses leigos, homens e mulheres, casados ou solteiros, ao abracarem a via da penitencia de modo algum fugiam dos dramas de suas cidades; muito ao contrario, geralmente o estatuto publico da penitencia conferia a individuos ou confrarias especificos um destacado lugar no jogo das relacoes de poder, extrapolando qualquer controle eclesiastico. Francisco de Assis, citado por Giordano de Pisa, bem antes de fundar uma ordem de religiosos, viveu como penitente na Umbria, de modo espontaneo, integrando-se aos quadros da devocao comunal cujo apelo religioso coincidia com a demanda espiritual que as proprias comunas criavam.

O lugar politico da penitencia ressalta-se no sermao giordaniano:

Sao Francisco foi grande conversor de almas, tanto pelo exemplo quanto pelas ardentes palavras, pois le-se que foi pregador e pregou pelas Marcas e nestas regioes de ca, e muitas pessoas, por ele, voltaram a penitencia; e ele quis e ordenou pela sua Regra que [os frades] pregassem e fossem pregadores. (Moreni, 1831b, p. 73)

"Voltar a penitencia", como vimos, pode ter um duplo significado: indica o individuo que espontaneamente deixa o genero de vida considerado ruim e abraca um novo genero pautado pelo ascetismo, mas tambem indica o individuo que se associa a um grupo de penitentes organizados dentro das comunas e ali experimenta a ascese. Independentemente do sentido original da expressao, faco notar que ambos manifestam estreita relacao com a comuna, pois o penitente nao abandona sua cidade, dela vive (mendigando ou trabalhando) e nela exerce o papel de pregoeiro de um novo tipo de vida civil, como se pode conferir por uma lista volumosa de penitentes comunais que foram canonizados pela Igreja Romana. A insistencia do frade Giordano em indicar o transito necessario de uma cidade ruim para a cidade verdadeira encontra na vida dos santos sua finalidade e, na penitencia, seu ethos, simultaneamente espiritual e civico.

Citta tanto suona come amore, e per amore s'edificaro le cittadi (Sermao 45): segundo significado de cidade

Desde o inicio do Sermao 45, Giordano emprega um jogo retorico de contraste entre luz e sombras; a cidade de Deus, onde habitam os santos, e a verdadeira cidade, pois so nela e que se verificam as condicoes caritativas para que uma cidade exista ("cidade soa tanto como amor"); as cidades historicas, habitadas por cidadaos maus, interesseiros e viciados, nao merecem o nome de "cidade", pois, ao contrario da celeste, aquelas nao tem o amor como virtude estruturante. (11) O contraste entre as duas cidades pode ser reduzido a oposicao historica entre o bem comum e o bem particular, oposicao essa que, no caso da pregacao giordaniana, aparece sempre como criterio de distincao das acoes sociais, e so as acoes que visam ao bem comum sao verdadeiramente politicas.

"Por amor e que se edificaram as cidades." O argumento nao e so politico, mas antropologico. Giordano explora este sentido: o homem nao vive sozinho ou se basta a si mesmo, ele e um ser de relacoes. Grande e sua necessidade de sentir-se querido; entao, ele ama para que o amem, ele ama porque e amado, e esse e um aspecto natural (Moreni, 1831b, p. 78). A cidade permite que exista esse locus de complementaridade em vista da supressao da deficiencia: individuos diferentes, com vontades distintas e interesses diversos necessitam ultrapassar a pluralidade que divide para alcancar certa unidade que nao liquida a diferenca, apenas disciplina a vontade.

Antes de examinar o importante aspecto da vontade como substrato da politica, e preciso esclarecer em que modo essa unidade nao liquida a diferenca; para alem da tradicional analogia corpo-igreja/corpo-sociedade, propria da teologia paulina e, depois, revisitada por pensadores como Agostinho, Gregorio Magno, Joao de Salisbury e o proprio Giordano, o pregador de Florenca tambem explica a vida social por meio de outra analogia, mais proxima do contexto militar, em que cada profissao ou estatuto social e comparavel a uma fileira de soldados no exercito. Essa referencia aparece no sermao Ego sum pastor bonus, pregado em 9 de marco de 1305. Nele, Giordano expoe que o Criador dispos todos os humanos em fileiras, consoante a funcao que deviam desempenhar coletivamente. Sao muitos os estratos sociais, mas todos compoem um "exercito" bem-montado, indestrutivel. A ordem na cidade exige que cada cidadao ocupe seu lugar em sua ischiera, como fala Giordano:

Olhai estas fileiras: ha aquele que e rei, aquele que e conde, cavaleiro, juiz, mercador, religioso. Todo o mundo e assim ordenado; e, porem, sao tantas as diversidades no mundo! Tudo isso e dispensacao divina, a fim de que o mundo seja governado e regido, e ninguem deve sair de sua fileira e nao deve deixar de estar assim ordenado. [...] Assim deves fazer, nao te movas por ti mesmo para fora do teu estado; pois o homem deve estar no estado em que Deus o pos, e por si nao deve sair. No entanto, vede que todas as lutas e males que nascem, nascem porque o homem abandona a sua fileira [...]. (Narducci, 1867, p. 51)

A primeira vista, esse raciocinio pode dar a entender certo imobilismo social; mas, a meu ver, ele indica antes que, na sociedade humana, ninguem marcha sozinho: o exercito marcha em bloco, em um mesmo ritmo articulado; nas fileiras de um exercito, os individuos desaparecem no coletivo, eles nao competem entre si, e, dessa forma, o que importa e a tropa e sua marcha coletiva.

O pregador esta ciente do quanto custa, para o individuo, adequar-se ao comunitario. Nao a toa, ele afirma que e ato de humildade permanecer no proprio estado, e, ao contrario, sair dele e ato de soberba, raiz de todas as lutas, guerras e confusoes entre os homens. O sermao Ego sum pastor bonus, de 1305, conecta-se conceitualmente ao Sermao 45, de 1304, que estamos analisando. A vontade permanece o nucleo estruturante da organizacao social e, por conseguinte, da politica. Permanecer ou sair de sua fileira e ato movido ou pela humildade, ou pelo orgulho, isto e, ou por uma vontade sadia, ou por uma vontade corrompida, mas, de todo modo, por um ato de vontade. O amor, que edifica as cidades, tambem e ato supremo da vontade: talvez o mais meritorio.

Portanto, viver na cidade exige que as vontades individuais sejam disciplinadas, e essa e a tarefa da pregacao e dos pregadores, da confissao e dos confessores: como expoente da ordem dominicana, Giordano de Pisa conecta pregacao e confissao e defende a pericia de seus confrades na salvacao politico-espiritual das cidades. O pregador ensina a vontade individual a querer o bem dos outros como se fosse seu proprio bem e ensina a vontade coletiva dos cidadaos a amar o bem de cada um. Nos sermoes de Giordano, nao ha diferenciacao entre o bem individual e o bem comum, pois ambos se reduzem a um unico bem. Essa e, sobretudo, a licao aprendida de seu mestre e antecessor no Convento de Santa Maria Novella, frade Remigio dei Girolami, cuja obra politica engrossa a discussao sobre a vida civil de Florenca.

Nao so o bem comum inclui e supera todos os bens particulares, como Remigio defende no De bono comuni (1301), mas a vontade assume o posto de principio ordenador (ou desordenador) da cidade; no tratado intitulado Speculum, escrito por Remigio na mesma epoca em que Giordano pregava (1302-1304), ele identifica a causa das lutas politicas de Florenca e, por conseguinte, a dissolucao da cidade naquilo que chamou de disiunctio seu contrarietas voluntatum: "No que diz respeito ao proposito de falar da conjuncao disjuntiva, deve-se saber que nunca houve tanta disjuncao ou contrariedade das vontades entre os gibelinos e os guelfos ou entre a plebe e os grandes quanta a que agora existe entre [o partido] dos brancos e dos negros" (Panella, 2014).

Para Remigio, era um escandalo que Florenca, unida em torno do movimento guelfo, se visse cindida pelas lutas fratricidas entre os guelfos brancos e guelfos negros, uno sconcio e male istato, nas palavras do cronista Giovanni Villani (Nuovacronica, Liv. IX, cap. XII). A vontade dividida, fracionada, levava a cidade a ruina, por mais rica e honoravel que fosse. Giordano aprendeu de seu mestre que a "unidade de vontade" (Moreni, 1831b, p. 79) e uma das razoes pelas quais nasce o amor e, com ele, as cidades. E a vontade que proporciona a reductio ad unum de que falava Giordano. No Sermao 45, o tema aparece ligado ao plano celeste (lacittade di vita eterna), no qual os santos se reduzem a uma so coisa em Deus (Moreni, 1831b, p. 80); mas o pregador, ao contemplar que a uniao de vontades e natural na cidade dos santos, nao deixa de apresenta-la como modelo para a cidade dos pecadores; nessa cidade historica, os muitos "tu" tambem precisam reduzir-se ao "nos" e formar uma so coisa (Moreni, 1831b, p. 78).

A reductio ad unum e a forma concreta com que a ordem manifesta-se na historia e da origem as cidades, como o frade declara no mesmo sermao: "Outro motivo pelo qual ela e chamada cidade e pela ordem. Vede como e bela a cidade quando e ordenada com seus muitos oficios! A ordem na cidade e uma coisa muito bela e esta ordem da tres coisas, Beleza, Fortaleza e Grandeza" (Moreni, 1831b, p. 80).

A ordem de que fala o pregador, nessa predica, coaduna-se bem com a ideia de ischiera, do sermao Ego sum pastor bonus: os oficios (arti) ordenam-se em um conjunto coeso, harmonico e complementar:

[...] nao ha oficio algum que nao seja util; o sapateiro e util a toda a cidade que ele calca; o forneiro e util e necessario, pois te cozinha o pao; o alfaiate outro tanto; o cavaleiro e util a toda a cidade, pois a defende; assim, o bem do sapateiro e o bem do cavaleiro, e o do cavaleiro e o mesmo que do sapateiro; e ainda a sua obra e o seu oficio e mais para os outros do que para si. (Moreni, 1831b, p. 80)

Mas a historia florentina desmentiria essa reductio caritativa que o pregador propoe para a comuna: como vimos, as corporacoes de oficio (as Artes), sobretudo a Arte della Lana, alcancaram um alto grau de influencia politica, obstaculizando o poder dos magnates justamente por volta do fim do seculo XIII: no dizer de Dino Compagni (m. 1324), surge daqui uma luta entre as partes (magnati e popolani) que ameacava acabar com "a beleza da vossa cidade" (Cronica, Liv. II, cap. I). Por isso, inserir cavaleiros e sapateiros em um contexto de complementaridade social pode significar, alem do peso da tradicao romana antiga, uma clara tentativa de conciliacao de vontades discordantes. Como ja apontado, o pregador torna-se um agente politico na medida em que seu discurso de pulpito favorece uma publica revisao das condutas politicas e traz a cena coletiva assuntos ainda dolorosos no imediato da experiencia citadina.

Dai que nao creio que, no trecho citado, Giordano esteja apenas evocando a complementaridade civica, ja fundamentada, por exemplo, no De oficiis de Tulio Cicero (106 a.C.43 a.C.), obra que, alias, gozava de grande importancia na tratadistica medieval. Ao propor a materia de seu sermao, o dominicano afirma que a cidade e um produto da vontade, tese pouco explorada antes de Santo Agostinho; alem disso, a cidade, definida a partir da caritas, assume um contorno ideal que destoa muito de sua real condicao historica, donde, como Agostinho, parece que Giordano professa uma desconfianca em relacao a ela. Para os antigos, ao contrario, nao haveria nada de errado com a cidade historica, fundada pela livre racionalidade e pela equidade de direito entre todos os seus cidadaos. (12) Em Giordano, ao contrario, as cidades sao fracas (sono le citta debili) e desordenadas (disordinate), porque seus construtores, corrompidos pelo pecado, deixam de agir pela razao ou pelo intelecto. O pecado faz dos homens bestas selvagens, e nao somente bestas, mas bestiais (Narducci, 1867, p. 61). Ou seja, o pecado e antipoda do politico, como a selva e o antipoda da cidade. (13)

Aqui, e preciso enfatizar bastante: o pecado e ato deliberado de uma vontade desordenada; e nao saber usar as coisas postas a servico do homem. Giordano o afirma citando Santo Agostinho: "pecado outra coisa nao e do que usar mal as coisas" (Moreni, 1831b, p. 95). No Sermao 46, explora-se justamente o fato de os pecadores nao serem "senhores", mas "escravos" de todas as coisas que cobicam, dominados pela ganancia: e, como escravos, nao sabem habitar a cidade; esta pertence aos senhores, isto e, aqueles que tem liberdade plena e podem dispor dos outros, porque nao sao subjugados por ninguem (la cittade dei santi ou dei giusti). (14) Alem disso, o pecado impede a caritas de congregar a diversidade dos homens em uma sociedade harmonica. Portanto, o pecado tem graves consequencias sociais: ele e sempre desordem, seja espiritual, psicologica ou social. No sermao Sicuti Moises exaltavit serpentem, de 13 de maio de 1303, Giordano desenvolve bem essa ideia: "A desordem e a outra miseria do pecado, Arre!, a que se da o misero pecador! O pecado e todo uma desordem, pois ele e contrario a Deus e ao proximo, e contra a razao; ele macula a consciencia, tolhe a honra e a boa fama, e vitupera o homem de muitos modos, neste mundo e no outro infinitamente" (Narducci, 1867, p. 61).

Desse ponto de vista e que se entende por que o pregador acredita que so no plano divino e que a cidade pode existir: la nao ha pecado, nem pecador. La habitam os santos com Deus. Mas voltemos ao Sermao 45:

Uma harmoniosa cidade que fosse ordenada e estivesse em concordia seria tao forte que nao seria possivel vence-la jamais, ao contrario, ela venceria todos os demais povos. Quao grande deve ser a fortaleza daquela cidade [a de Deus] onde ha tanta concordia e tanta ordem? E os santos, porem, vencem todas as batalhas. (Moreni, 1831b, p. 84)

Parece-me muito apropriado mencionar os santos nesse contexto; a cidade historica e metafora da cidade divina; os pecadores-cidadaos desse mundo tem seus contrarios entre os santos-cidadaos do outro mundo. E tudo cidade. Ela e o bem maior. Os santos ocupam, na sermonistica giordaniana, um papel mediador riquissimo que faz todo o sentido politico. Eles aparecem como baluartes para os homens oprimidos pelos demonios (que pretendem destruir as cidades); para Giordano, sao os santos que ajudam os homens a vencerem a pugna contra o diabo. Em outras palavras, a cidade do ceu esta em relacao direta com a cidade da terra, como que "trocando" seus dons: a cidade celeste oferece refugio, enquanto a cidade terrena, novos bem-aventurados--a comunhao dos santos e perfeita e necessaria.

A ideia de comunhao dos santos, cara a teologia crista, e desenvolvida nesse sermao de uma maneira peculiar. Os santos estao na gloria de Deus, mas a alegria de que gozam ainda nao e suprema. Embora os santos habitem o ceu, eles sao cidadaos e, nesse sentido, precisam uns dos outros para participarem daquela gloria que so e completa no conjunto, nao no individuo. Giordano defende que no ceu ha santos maiores e menores e, como fileiras, uns e outros condividem a gloria entre eles, mas esperam dividi-la tambem com os habitantes deste mundo. (15) O sermao, ao mesmo tempo em que afirma a superioridade da vida eterna, sustenta que a politica nao e uma experiencia fadada ao fracasso, pois encontra no ceu seu fundamento. E os santos, apesar de habitarem o ceu, continuam a atuar como cidadaos de suas comunas. Nao nos esquecamos de que as ordens dominicana e franciscana foram grandes legatarias de santos novos para as novas republicas da Italia dos seculos XIII e XIV, como Sao Francisco e Santa Clara de Assis, Sao Pedro de Verona (ou Sao Pedro Martir), Santo Antonio de Padua (ou de Lisboa), Sao Domingos de Gusmao e Santa Catarina de Siena.

Giordano pregava esse sermao na igreja de Santa Reparata, isto e, a igreja catedral de Florenca que, em 1304, ja se encontrava em processo adiantado de reconstrucao sob o novo titulo de Santa Maria dei Fiori, em frente a qual se destacava o batisterio de San Giovanni, tao elogiado pelos florentinos da epoca e representado em miniaturas de manuscritos e afrescos. Em Florenca, vivia-se profundamente a conviccao de que a cidade terrena estava em comunhao com a cidade celeste, habitada por santos, sobretudo com aqueles que a cidade invocava como seus patronos; a catedral era, a uma so vez, a casa desses patronos e de seus protegidos, os cidadaos florentinos. A argumentacao giordaniana, nesse sermao, certamente encontrava ampla acolhida por parte de seus ouvintes naquela igreja; as cidades italianas do periodo comunal, Florenca sobretudo, eram entendidas como entidades simultaneamente civicas e religiosas, sagradas em si mesmas, e isso nao decorria da simples presenca de forcas clericais, mas pela conviccao de que a existencia da comuna era tao legitima como aquela do sacro imperio romano (Thompson, 2005, p. 3-4). A historiografia vem chamando essa realidade hibrida de "religiao civica" (Vauchez, 1995), influenciada, talvez em excesso, por uma forma moderna de ver o passado. De todo modo, ha de se elogiar o esforco de certos historiadores, como Giorgio Chittolini (1990, p. 69), em superar a tendencia anacronica de conceber o fenomeno comunal como parte de um processo longo, mas certeiro, de laicizacao e secularizacao da politica nos fins do periodo medieval (Weinstein, 1974, p. 268).

De fato, desde o seculo XIX, na Italia e fora dela (Sismondi, 1850; Baron, 1966), eruditos vem insistindo no ineditismo italiano como marco temporal para separar o medievo da modernidade, tendo por base uma ideia pouco apropriada de religiao no contexto das comunas. Nao que o movimento comunal nao tenha trazido a cena politica novos atores, como os universitarios, juristas, notarios publicos e chanceleres, cujo estatuto laico destacava-os dos anteriores enlaces nobiliarquicos e clericais, mas dai considerar que as comunas tardo-medievais representaram uma ruptura com a ideologia da ecclesia (Boucheron, 2003, p. 6) e deixar de considerar as motivacoes que encontramos em uma vasta documentacao de natureza variada, na qual se destacam os sermoes de Giordano de Pisa.

Se, de fato, ha uma debilidade nas cidades historicas, ha para elas uma alternativa. O pregador oferece o espelho da cidade perfeita, em que impera a complementaridade, a condivisao e o bem comum: trata-se de uma imagem invertida da cidade terrena:

A segunda cidade e a cidade de vida eterna, a qual a Santa Escritura todos os dias chama de cidade. [...] Esta outra cidade e significada em Nazare, que se diz florida, como Florenca e chamada cidade florida, pois e cheia de flores. Mas aquela cidade do alto e a correta Florenca, ela e de fato florida. Ela e a cidade correta, e ela e toda de fruicao; ali existe expressamente o senhorio dos santos e, ali, os pecadores nao tem lugar. (Moreni, 1831b, p. 95-96)

A desordem da comuna decorre do fato de, nela, haver mais partidarismo que harmonia, mais espirito de acumulo que de partilha, mais defesa do bem pessoal que do comum; nao podemos perder de vista aquele aspecto factual que dava carne ao sermao giordaniano: entre 1300 e 1304, Florenca atravessava uma crise civil importante; os membros da elite mercantil e do popolo travaram renhida guerra que, apos deposicoes de priores, isto e, representantes das guildas municipais que compunham o governo florentino e exilios de membros de familias facciosas (como o proprio Remigio dei Girolami), culminou na intervencao de Carlos de Anjou, irmao de Felipe IV de Franca, enviado como pacificador pelo papa Bonifacio VIII (Najemy, 2006, p. 92). A chegada do poder angevino subverte os equilibrios internos da cidade, alcando os membros do partido guelfo negro a patamares de dominio sobre a cidade contra os guelfos brancos. Por conta disso, as referencias a "vicios" mobilizadas por Giordano, nesse sermao, nao me parecem ter um fundamento meramente moral e religioso, mas etico e politico. O mesmo se diga acerca de seu antidoto, a penitencia, que recorrentemente preenche os sermoes de Giordano e, principalmente, esses dois de 4 e 8 de outubro de 1304.

Ja apontei o quanto as comunas italianas, ao passo que se organizavam politicamente a partir das corporacoes de oficio, eram influenciadas pelas confrarias leigas penitenciais, sendo muitas vezes os membros das guildas igualmente participantes dessas confrarias. (16) A proposta de penitencia, como antidoto social, nao era exclusividade dos frades pregadores, pois fazia parte do arcabouco comunal laico. A penitencia, tanto quanto o sofrimento, tinha valor pedagogico; ela era metodo de aperfeicoamento e crescimento.

No sermao giordaniano, a penitencia diz respeito tambem a disposicao do homem de procurar meios de forcar seu amor carnal [diletto carnale] a diminuir seus efeitos nocivos. Fazer penitencia leva o homem a enfraquecer em si o que o impede de subir/crescer e, como se diz no Sermao 45, de instaurar uma comunidade digna desse nome. No caso de Giordano, ele nao reforca o papel das confrarias, mas dos pregadores, sobretudo daqueles ligados as ordens dominicana e franciscana:

O senhor Sao Francisco foi grande conversor de almas tanto pelo exemplo quanto pelas ardentes palavras, pois dele se le que foi pregador [...] e ele quis e ordenou, na Regra, que [seus frades] pregassem e fossem pregadores, embora este modo de pregar se encontrasse, antes, naquele bendito senhor Sao Domingos. (Moreni, 1831b, p. 73)

O frade mostra conhecer bem a historia da Ordem dos Frades Menores e a vida de Sao Francisco; ele sabe que o santo pretendeu fundar uma ordem de pregadores, como a Regra o expressa. Uma pregacao penitencial que devia converter os habitantes das cidades da Umbria, das Marcas, mas tambem da Toscana, como bem notou Giordano. Francisco nao foi o primeiro, antes dele havia Domingos. Ha uma estreita ligacao entre ambos os santos fundadores e entre ambas as pregacoes, e essa ligacao e a penitencia. Giordano parece bastante alheio ao cliche historico que credita uma enfase doutrinaria a pregacao dominicana, enquanto a pregacao franciscana enfatizaria o aspecto moral. Ambas as pregacoes sao moralistas, pois ambas privilegiam a penitencia, a conversao, a vida conformada a paixao de Cristo. Frades Menores e Pregadores sao agentes de salvacao da sociedade, pois trabalham pela salvacao de cada alma e de todas as almas: e forcoso lembrar que, como proclama Giordano, a alma tem valor infinito e, por isso, salvar almas e a mais elevada de todas as acoes.

E por conta disso que creio que, apesar de Giordano, em ambos os sermoes, privilegiar uma leitura espiritual da cidade e, no limite, atribuir consistencia apenas a cidade de Deus, ele nao desacredita da cidade historica e nem lhe nega uma alternativa. Toda a primeira parte do Sermao 44 apresenta a penitencia como a via ordinaria, isto e, a diuturna meditacao da Paixao de Cristo que leva o meditante a ir superando cada vicio e a ir passando lentamente o mar deste mundo; tal disciplina obviamente estava a altura da vida secular, dos leigos e leigas, cidadaos das comunas. Nesse exercicio ordinario, existem os santos como farois e modelos; mas existem tambem os pregadores que estao la nos pulpitos, todos os dias estimulando os penitentes a seguir por esse caminho.

Stiamo volentieri alle cittadi (Sermao 46): o terceiro significado da cidade

O Sermao 46 inicia-se por uma parafrase da afirmacao aristotelica de que o homem e um animal politico (Politica, Liv. 1, cap. 1); no dizer de Giordano, "o homem e animal congregavel [congregale] e social [sociale] e nao consegue ficar sem companhia" (Moreni, 1831b, p. 89). A Politica aristotelica, livremente referida, e o ponto de partida dessa predica, o que nos coloca diante da ja tradicional exegese dominicana desse texto, a comecar pelo Comentario a Politica de Aristoteles, feito por Tomas de Aquino, provavelmente entre 1269 e 1272: aqui e preciso lembrar da consolidada proximidade que os mestres dominicanos, nao so Tomas de Aquino e Alberto Magno, estabeleceram com as traducoes latinas de Aristoteles, como e o caso de Remigio dei Girolamo.

A compreensao de cidade, segundo os ditames aristotelicos, preve que ela seja a fonte de satisfacao das muitas necessidades humanas, tais como a sobrevivencia, o bem-estar e a seguranca, coisas que constituem a finalidade natural da cidade, motivo pelo qual o pregador acentua a diferenca entre os seres humanos e os animais, sobretudo os selvagens, que precisam de bem poucas coisas para viver (Moreni, 1831b, p. 89). Tendo esse horizonte em mente, Giordano poe-se a destacar nas cidades aquilo que tem de belo e ordenado:

[...] entre os motivos que vos disse para que uma cidade receba este nome e quando e bem organizada e estao presentes as muitas artes e todas respondem umas as outras. Assim, este mundo e uma cidade ordenadissima na qual estao presentes as muitas artes e os muitos artifices. E quais sao estes? Toda criatura faz sua arte e nao existe nenhuma que nao faca a sua obra, e todas as artes sao uteis e necessarias, e as artes sao tantas quantas sao as criaturas e todas respondem uma a outra de modo extremamente ordenado; [...] desta forma, somando tudo, este mundo inteiro e uma cidade belissima. (Moreni, 1831b, p. 90)

Apesar de o sentido de arte vir, nesse sermao, entendido como oficio e, ate, como talento proprio de cada cidadao que, ao pactuar com a vida comum, poe a disposicao do comum suas capacidades, e bom nos lembrarmos de que Florenca, no tempo de Giordano, praticava um regime de governo comunal em que "Artes" era o nome das corporacoes de oficio cujos representantes, um por cada Arte, compunham o conselho governamental: "o priorado das Artes" (Najemy, 2006, p. 79). O numero dessas corporacoes podia variar entre cinco (incluindo as maiores e mais influentes) a 32, o que indica a extrema capacidade de interferencia das ricas familias de banqueiros e comerciantes nos jogos politicos da comuna florentina. Para Giordano, essa profusao de Artes nao significava qualquer fraqueza no sistema comunal, uma vez que a variacao de partes contribuia para a beleza da cidade, do mesmo modo que, no Sermao 45, o corpo humano mostrava-se belo na pluralidade de seus membros.

Giordano propoe uma adequacao entre a finalidade do organismo politico, que e a cidade, e a finalidade do ser do homem, que e a liberdade; nao pode haver descompasso entre as duas, sob o risco de desnaturalizacao da politica e de inversao da ordem. A vida em cidade assegura que os homens nao sao como os animais, principalmente os selvagens: dotados de razao e liberdade, os homens tem a capacidade de contrariar seus apetites, (17) coisa que os animais nao podem, presos que sao aos habitos de sua especie: "Deus nos fez de tal modo livres que nao quer que sejamos obrigados a nada" (Moreni, 1831b, p. 99). O ato de contrariasse, portanto, caracteriza o humano e, ao mesmo tempo, afirma sua natureza senhorial, nos termos usados pelo livro de Genesis; (18) acontece que, nesse ponto, o homem racional de Aristoteles e deslocado por Giordano para o sentido que lhe confere a tradicao agostiniana do pecado original. Esse pecado significa a quebra da ordem primitiva, ordem essa que, em termos giordanianos, e o avesso da cidade belissimamente ordinata: o pecado torna feio, porque desordena, aquilo que no principio era belo. (19)

Por um desvio de sua liberdade, definida por Giordano como a capacidade de usar todas as coisas segundo sua justa finalidade, o homem pecador abriu mao do dominio natural sobre as coisas e colocou-se sob o poder das coisas. O pregador insiste nessa imagem tomando como exemplos o avarento e o glutao: o primeiro nao e mais livre porque, em vez de possuir o dinheiro, e por ele possuido, e o segundo porque, antes de comer para viver, vive para comer. Nos dois casos, inverteu-se a ordem, renunciou-se a liberdade e perdeu-se a razao. Por conta da perda da liberdade e, por conseguinte, da razao, ocorre um retrocesso antropologico, pois o homem pecador desce para o estatuto do animal e, com isso, desabilita-se a vida cidada, que supoe sempre a liberdade; em outras palavras, o pecador, na qualidade de escravo de seus vicios, renuncia a sua natureza sociavel e politica e adquire uma condicao selvagem: nao esta mais apto a viver como cidadao.

Giordano interpreta os primeiros capitulos de Genesis de modo peculiar: ora, a tradicao de leitura, baseada em Gregorio Magno (Moraliain Iob e RegulaPastoralis), enfatiza a superioridade do homem diante das criaturas e a igualdade dos homens entre si. Os dominicanos Vicente de Beauvais e Guilherme Peraldo, seguindo Gregorio, analisam o Genesis pela oposicao entre o estagio pre-lapsario, isto e, o periodo antes do pecado, em que o homem dominava os animais, mas nao dominava outros homens, e o estagio pos-lapsario, quando, em decorrencia do pecado, os homens passaram a dominar uns aos outros, o que confere ao poder politico um sentido antinatural e pecaminoso.

Por seu turno, o Sermao 46 opera em outro registro, o do elogio; convem recordar que esse discurso foi pregado na festa de Santa Reparata, copatrona de Florenca, celebrada no dia 8 de outubro. Essa festa nao era apenas uma data liturgica, mas civica; como vimos, Reparata dava nome a primeira catedral da cidade, depois substituida pela atual Santa Maria dei Fiori. A data marcava a vitoria dos florentinos, auxiliados pelas tropas romanas, sobre os ostrogodos comandados por Radagaiso, em 406; o fato de a cidade ter vencido seu inimigo, apos um cerco, justamente no dia em que comemorava a martir sepultada na igreja central, deu ensejo para que, segundo o testemunho de Giovanni Villani (Liv. I, cap. 61), essa festa se tornasse um marco na luta de Florenca pela liberdade, donde seu significado prioritariamente politico.

A celebracao liturgico-civica propiciava ao pregador a ocasiao de associar o louvor de Reparata ao louvor de Florenca, sua cidade; por isso, nao convinha que Giordano insistisse na origem pecaminosa da politica, mas, antes, realcasse o modo pelo qual a cidade se identificava com Deus. A saida do pregador nao implicava, por si mesma, uma negacao das autoridades de sua ordem, mas uma estrategia retorica de tirar elogio ate daquilo que parece torpe. Isso explica por que Giordano insistia em equiparar o verdadeiro cidadao ao homem justo e santo, isto e, ao que nao e tomado pelo pecado: observe que nao ha separacao de estagio pre e pos-lapsario. O pecado ja esta posto na historia, e sua consequencia e a dessemelhanca entre os homens, uns livres, outros cativos; uns senhores, outros escravos; mas, nem por isso o poder e intrinsecamente mau, pois ha um modo de permanecer bom: quando exercido por santos! "Mas, ainda que se diga que o homem e senhor, nao sao todos os homens que possuem a senhoria, mas os que sao justos e os santos; a estes pertencem a senhoria, aos outros nao, pois sao bestiais e se tornaram escravos" ((20) Moreni, 1831b, p. 92).

A partir daqui, o pregador inicia uma longa exposicao dos motivos pelos quais apenas os santos sao verdadeiros senhores e autenticos governantes. Recupera-se todo o significado civico desses homens e mulheres, que, apesar de mortos, ainda trabalham por suas cidades, contribuindo para o crescimento do bem comum. As comunas italianas nao se entendem fora dessa estreita relacao entre a sociedade de devotos, congregados em confrarias, e a sociedade de santos citadinos, congregados no ceu em prol de suas cidades, como vemos ilustrado na Maesta do Palazzo Pubbico de Siena (1315), obra de Simone Martini, e na cupula do batisterio de Padua (1375-1376), de Giusto de Menabuoi.

A comemoracao de Santa Reparata, como referido, oferecia ao pregador o motivo moral necessario para reafirmar o valor social da pregacao: corrigir a cidade e endireitar seus habitantes. Giordano tira sentido, inclusive, do nome da santa florentina, que, chamando-se Reparata, indicava um processo de reparacao, isto e, de conserto e de melhora: "Reparata significa restaurada na vida eterna. Ora, quem a danificou? Deus nao, nem ela, pois foi o nosso primeiro pai Adao que a danificou bem como a todo o genero humano. Tornamo-nos todos defeituosos com o pecado original. Santa Reparata dele foi purificada. Deo Gratias" (Moreni, 1831b, p. 100).

Em sintese, Giordano nao apenas reafirma o limite historico da politica, maculada pelo pecado, como encontra para ela uma solucao que, sem deixar de ser racional e livre, passa pela disciplina interior dos cidadaos. Essa caracteristica que, a principio, soa tao conventual esta bastante presente na compreensao que a comuna fazia de si mesma, expressa, por exemplo, nas numerosas confrarias e corporacoes que a compunham, instituicoes baseadas em lacos morais e praticas penitenciais, como atesta a Confraternita della Misericordia, fundada em Florenca nos inicios do seculo XIII, cujos membros leigos dedicavam-se a socorrer os necessitados pela via das sete obras de misericordia corporais. Associacoes leigas como essas testemunham que a dinamica social das comunas deixava-se influenciar pelos pregadores nao porque fossem credulas, mas porque, como eles, professavam um extremo comunitarismo assentado na ideia crista de caridade. (21)

Referencias bibliograficas

CATALANI, Joseph. Beati Humberti de Romanis Burgundi olim Ordinis Praedicatorum quinti Genaralis Magistri De Eruditione religiosorum praedicatorum Libri duo. Roma: Typis Antonii de Rubeis apud Pantheon, 1739.

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DOI: 10.1590/TEM-1980-542X2017v230203

Andre Luis Pereira Miatello (1)

Artigo recebido em 19 de junho de 2016 e aprovado para publicacao em 10 de outubro de 2016.

(1) Departamento de Historia da Universidade Federal de Minas Gerais --Belo Horizonte--Brasil. E-mail: andremiatello@gmail.com

(2) A escolha de apenas tres sermoes, em um universo de quase 400 que Giordano de Pisa pregou, justifica-se, primeiramente, por se tratar de um artigo ensaistico e nao exaustivo, em segundo lugar, por esses tres exemplos conterem um volume sistematizado de ideias de cunho politico que esse pregador apresentava dispersas em varias predicas, e, por fim, pelo fato de esses tres sermoes serem intencionalmente propostos pelo pregador como parte de uma mesma reflexao publica sobre a condicao da politica urbana florentina. No entanto, a proposta de leitura desses tres exemplares da pregacao de Giordano exigiu que se fizesse uma avaliacao conjunta de seu acervo sermonistico dedicado as questoes politicas, como sera possivel verificar pelas referencias apresentadas ao longo do texto.

(3) Giordano refere-se as Artes, em Florenca, em diversos sermoes, mas nem sempre particulariza seus nomes, preferindo dizer "tutte l'arti"; por isso, chama a atencao o fato de se referir a Arte della Lana de maneira especial e sempre em tom de reprimenda, uma vez que, para o pregador, essa corporacao de profissionais do tecido apresentava uma grave situacao de corrupcao, extorsao e improbidade (alguns sermoes que tratam disso podem ser lidos em Delcorno, 1974, p. 269; Manni, 1739, p. 105; Narducci, 1867, p. 144-145; Bodleian Library de Oxford, manuscrito Canoniciano italiano 132, fls. 74v-75r apud Iannella, 1999, p. 106).

(4) Trata-se de Francesco Petrarca (1304-1374), pensador e poeta italiano, que na epistola "Ad Franciscum priorem SS. Apostolorum de Florentia" lamentava-se por viver em uma epoca de trevas e ignorancia (Epistolae Metricae, III, 33).

(5) A edicao de Moreni (1831b) esta disponivel na internet, no site citado a seguir, no qual o leitor podera acompanhar as referencias textuais na lingua original. Neste texto, todas as traducoes para o portugues sao de minha responsabilidade. Disponivelem:<https://books.google.com.br/books?id=vVpz15empg0C&pg=PA1&dq=Prediche+del+Beato+Fra+Giordano+ da+Rivalto+dell'0rdine+dei+Predicatori+recitate+in+Firenze+Tomo+II&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi0oanl9ZTPAhW BhpAKHTvQA8oQ6AEIIDAA#v=onepage&q=Prediche%20del%20Beato%20Fra%20Giordano%20da%20Rivalto%20 dell'0rdine%20dei%20Predicatori%20recitate%20in%20Firenze%20Tomo%20II&f=false>. Acesso em: 16 set. 2016.

(6) Assim comeca o terceiro sermao: "[Jesus] voltou a sua cidade. Sobre esta palavra, pregamos ao longo desta semana, e ainda haveremos de pregar nesta manha em honra desta gloriosa virgem e martir, Santa Reparata" (Moreni, 1831b, p. 88).

(7) Ha certa dificuldade de traducao para o sentido dado pela expressao do autor cittade di cognizione; de fato, o substantivo cognicao/conhecimento, oriundo do mesmo verbo latino cognoscere, traduz o termo "italiano" do pregador, mas o sentido que a expressao parece ter refere-se mais ao fato de que, apesar de Cristo ter nascido em Belem, adotou Cafarnaum, como Sao Pedro adotou Roma, como o proprio frade explica na sequencia.

(8) O carismatismo da pregacao de alguns dominicanos florentinos, como Giovanni Dominici (1400-1406) vem discutido por Nirit Debby (2002).

(9) Para a Ordem dominicana, a autoridade de Humberto de Romans, no De eruditionem Praedicatorum, e fundamental: "U pois as demais ciencias procedem ou da razao, ou da natureza, ou do livre arbitrio: esta ciencia [a pregacao], ao contrario, procede das coisas divinas que transcendem infinitamente todas as demais. U Grande coisa e tratar da Trindade e Unidade divinas, da encarnacao do Filho de Deus, e de assuntos como estes, diante dos quais nenhum outro assunto supera" (Catalani, 1739, p. 2).

(10) Aqui o termo eternidade tem o sentido de "vida eterna", como define Giordano nos sermoes, isto e, a vida perpetua garantida pela salvacao como dadiva de Deus aos justos.

(11) "Que cidade deve ser aquela onde os cidadaos estarao em tanto amor que cada um te amara com amor perfeitissimo e por todos veras que es amado, e amaras a todos de modo geral e singular?" (Moreni, 1831b, p. 78).

(12) Quanto a isso, basta conferir o De republica, de Marco Tulio Cicero, Liv. 1, 49: "Pois o que e cidade senao a participacao de todos no direito comum?"

(13) "U como disse aquele grande Sabio [isto e, Aristoteles], o homem e animal congregacional e social, e nao consegue estar sem companhia. Os demais animais sao selvagens e estranhos e, por isso, vivem solitarios na selva" (Moreni, 1831b, p. 89).

(14) A ideia se repete no Sermao 44, em outro sentido: "Se as pessoas se esforcassem para retornar a nossa verdadeira cidade, nao duvido de que todos seriamos santos e grandes santos" (Moreni, 1831b, p. 66).

(15) Para o sermao analisado, isto e uma maxima constitutiva: "Essa e a razao pela qual cremos que, na vida eterna, havera tanta comunidade, pois meu bem e minha gloria serao de todos os outros, mais do que meus; e terei a gloria, o bem e a beleza de todos os demais. E por essa razao desejarei assim a tua gloria, e reputarei meu o teu bem e tu reputaras ser teu o meu bem. E todos glorificarao um ao outro por cada um" (Moreni, 1831b, p. 87).

(16) A fim de auxiliar o leitor nao familiarizado com essa tematica comunal italiana, gostaria de precisar que confrarias e corporacoes (ou guildas) nao eram, necessariamente, associacoes opostas ou excludentes; ambas eram grupos mais ou menos espontaneos, dotados de regimentos/estatutos que agregavam leigos (homens e mulheres) e clerigos (com destaque para o clero secular) para finalidades simultaneamente civicas e religiosas. Acontece que, nao raro, as confrarias tinham um nitido carater devocional, caritativo e penitencial, com rituais, emblemas e vestuarios proprios do ambito religioso, que as distinguiam das corporacoes. Estas, por sua vez, tinham um carater profissional, isto e, congregavam membros de oficios exclusivos a fim de garantir o bem-estar material de seus membros e a defesa de interesses de classe e trabalho, embora nao fossem estranhos os motivos religiosos, como o culto aos santos patronos, as festas devocionais, a oferta pelos mortos, a construcao de igrejas e cemiterios proprios. A mistura do sacro e do profano, que caracterizava as corporacoes e as confrarias, e, por si so, um bom motivo para se observar o hibridismo da instituicao comunal. Cf. De La Ronciere (1973, p. 31 e segs.) e Orioli (1984).

(17) Por apetites, Giordano entende a vontade de comer, de beber, de fazer sexo, possuir coisas etc. (cf. Moreni, 1831b, p. 91).

(18) Genesis, cap. 1, v. 26: "E Deus disse: Facamos o homem a nossa imagem e semelhanca; que eles dominem os peixes do mar, as aves do ceu, os animais domesticos e todos os repteis" (grifo nosso).

(19) "U foi o nosso primeiro pai Adao que a emporcalhou, bem como a todo o genero humano. Tornamo-nos todos emporcalhados com o pecado original" (Moreni, 1831b, p. 100).

(20) E bem verdade que o termo aqui empregado e servo, e nao ischiavo, mas traduzi por "escravo" a fim de marcar a situacao de reducao radical da liberdade. Nesse mesmo Sermao 46, Giordano assim se expressa em relacao ao "servo": "Cosi eziandio nelle leggi de' pagani era, che qualunque in battaglia vincesse il nemico suo, si gli era servo, ed era suo uomo, e vendealo per ischiavo, e tutte le cose sue s'avea U" (Moreni, 1831b, p. 93). O escravo era uma situacao pior do que a do servo, porque, afora a ausencia de liberdade, ainda podia ser posto a venda.

(21) Andre Luis Pereira Miatello e professor do Departamento de Historia da Universidade Federal de Minas Gerais.
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Author:Miatello, Andre Luis Pereira
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Date:May 1, 2017
Words:12208
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