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Georges Canguilhem and (In)disciplinary linguistics: concepts, discontinuities and recurrences/Georges Canguilhem e a linguistica (in)disciplinar: sobre conceitos, descontinuidades e recorrencias.

Introducao

(Re)conhecendo Canguilhem nos caminhos da ciencia Todos sabem que na Franca, ha poucos logicos, mas que houve um numero razoavel de historiadores das ciencias. Sabe-se que eles ocuparam na instituicao filosofica--ensino ou pesquisa--um lugar consideravel. Mas talvez se saiba com menos clareza o que foi ao certo, durante estes ultimos 20 ou 30 anos, e ate para alem das fronteiras da instituicao, um trabalho como o de G. Canguilhem (FOUCAULT, 2008, p. 352).

Quando em 1985 a revista Revue de metaphysique et de morale dedicava um numero especial ao filosofo Georges Canguilhem, Foucault apresentou um texto que era resultado da modificacao do prefacio que o autor de A Historia da loucura havia escrito para a edicao norte-americana do livro de Canguilhem (2006), O normal e o patologico. No texto, que mais tarde seria publicado em uma das edicoes da colecao Ditos & Escritos, intitulado A vida: a Experiencia e a Ciencia, Foucault (2008) apresenta Canguilhem como 'historiador das racionalidades', 'filosofo dos erros' e dedica seu tributo ao mestre que participou da defesa da tese que originaria um dos mais conhecidos trabalhos sobre a historia da loucura ja vistos em todos os tempos, seguida de outros titulos nao menos representativos, como Arqueologia do saber (FOUCAULT, 2012), As palavras e as coisas (FOUCAULT, 1999), Historia da sexualidade (FOUCAULT, 1980, 1984, 1985). Para Foucault, a historia do pensamento frances nao pode deixar de ter presente a memoria e a presenca de Canguilhem, ja que [...] esse homem, cuja obra e austera, deliberadamente bem delimitada e cuidadosamente dedicada a um dominio particular em uma historia das ciencias que, de qualquer forma, nao se apresenta como uma disciplina dada a grandes exibicionismos, esteve de certa forma presente nos debates dos quais ele proprio sempre evitou participar. Mas suprimam Canguilhem e voces nao compreenderao mais a grande coisa de toda uma serie de discussoes que ocorreram entre os marxistas franceses: voces nao mais aprenderao o que ha de especifico em sociologos como Bourdieu, Castel, Passeron e que os marca tao intensamente no campo da sociologia: voces negligenciarao todo um aspecto do trabalho teorico feito pelos psicanalistas, especialmente os lacanianos. Mais: em todo debate de ideias que precedeu ou sucedeu o movimento de 1968, e facil reencontrar o lugar daqueles que, direta ou indiretamente, haviam sido formulados por Canguilhem (FOUCAULT, 2008, p. 353).

Separando uma filosofia da experiencia, do sentido do sujeito (que tem Sartre e Merleau-Ponty como nomes representativos) de uma filosofia do saber da racionalidade e do conceito (representada por Cavailles, Bachelard, Koyre e Canguilhem), Foucault vai caracterizar a segunda, na qual coloca Canguilhem, como sendo aquela que permaneceu ao mesmo tempo a mais teorica, mais voltada para atividades especulativas e mais afastada de interrogacoes politicas imediatas. Paradoxalmente foi ele quem tomou parte muito direta durante a guerra, tomando partido no combate, "[...] como se a questao do fundamento da racionalidade nao pudesse ser dissociada da interrogacao sobre as condicoes atuais de existencia" (FOUCAULT, 2008, p. 354). Por outro lado, o mestre tambem reconheceu os estudos de seu aluno, chegando a remanejar sua teoria a luz da obra de Foucault, como podemos notar pelas palavras de Canguilhem em 1991:

De 1961 para ca, outras obras de Foucault, Nascimento da Clinica, As palavras e as coisas, Historia da sexualidade, em parte ofuscaram a irradiacao inicial da Historia da loucura. Admiro as duas primeiras. Contei em O normal e o patologico o quanto ficara comovido com a primeira. Escrevi sobre a segunda um artigo que so me valeu aprovacoes. Entretanto, 1961permanece e permanecera para mim o ano em que se descobriu um grande filosofo. Eu ja conhecia pelo menos dois, que haviam sido meus colegas de estudos, Raymond Aron e Jean-Paul Sartre. Eles nao se davam. Tampouco se davam com Michel Foucault. Um dia, porem, os tres foram vistos juntos: era para defender uma empreitada sem fronteiras contra a morte (CANGUILHEM apud ROUDINESCO, 2007, p. 48).

Sabendo que, como declarou Foucault (2008), a obra mais conhecida e, sem duvida, mais representativa de Canguilhem e O normal e o patologico (2006), por nela constar uma especie de panorama da obra canguilheana:

[...] reflexao sobre a vida e a morte; valorizacao do status de 'erro' e da racionalidade na historia das ciencias; insistencia sobre as nocoes de continuidade e ruptura [...] atualizacao [...] das relacoes entre experimentacao e conceptualizacao (ROUDINESCO, 2007, p. 14, grifo da autora).

Tomaremos aqui outro caminho que vai alem de especificar a importancia da totalidade dos estudos de Canguilhem (se e que e possivel, visto o grande numero de desdobramentos que ela pressupoe) para utilizar a operacionalizacao de alguns conceitos apenas.

Desse modo, nas reflexoes que aqui pretendemos operar, pretendemos mostrar de que modo as teorizacoes que envolvem termos como 'conceito', 'descontinuidade' e 'recorrencia' percorrem os estudos desse autor e de que modo eles podem trazer contribuicoes para a dessuperficializacao dos modos de perceber a ciencia linguistica na atualidade, sobretudo no campo da Linguistica Aplicada enquanto campo indisciplinar de estudos (MOITA LOPES, 2006).

O conceito, a descontinuidade e a recorrencia: (re)atualizacoes do pensamento de Canguilhem

Neste estudo, consideramos a atualidade do pensamento de Canguilhem a partir de dois autores: Roberto Machado e Vera Portocarrero. Ambos os autores mencionados trazem contribuicoes significativas sobre a atualizacao dos estudos caguilheanos. Neste contexto, Machado (1982) visa destacar as especificidades da historia epistemologica de Canguilhem, nao propondo uma exposicao geral sobre a epistemologia, mas uma analise por meio dos principais representantes desse tipo de filosofia e historia das ciencias. Assim, e Canguilhem, o epistemologo, de quem Michel Foucault se sente mais proximo, de quem o autor de A Historia da loucura (1978) reconhece ter aprendido que a historia das ciencias deve ser conceptual. Diferente de Foucault, encontramos em Canguilhem uma unidade metodologica, o que faz com que Machado subdivida o capitulo dedicado ao autor a partir de tres pontos: "[...] o conhecimento cientifico, a descontinuidade historica e a normatividade epistemologica" (MACHADO, 1982, p. 14).

Vera Portocarrero, por sua vez, reflete acerca das ciencias da vida que nao visa partir da historia dessas ciencias, ja que nao se pretende definir uma

[...] verdade ontologica essencial da vida, nem a verdadeira logica da ciencia, mas a historicidade das ciencias da vida. Trata-se, antes de analisar formas de problematiza-la em nossa sociedade (PORTOCARRERO, 2009, p. 8).

Nesse sentido, o campo da epistemologia para a autora vai ser situado como aquele que permite o estudo das construcoes de verdades realizadas pelas ciencias da vida em movimento, "[...] apontando rupturas, explicitando a atualidade desta construcao [da verdade] e tornando-a compativel com o pensamento filosofico" (PORTOCARRERO, 2009, p. 8).

Ambos os autores (MACHADO, 1982; PORTOCARRERO, 2002, 2009) consideram a relacao dos estudos epistemologicos de Canguilhem com a arqueologia foucaultiana, o que nao nos cabe diferenciar aqui por nao ser o foco desse trabalho. Tambem cabe acentuar que, inspirados na epistemologia canguilheana, os autores apresentam estudos, visando mostrar a natureza do pensamento filosofico que esta sempre em movimento e apontam como uma necessidade, se nao de toda pesquisa, pelo menos dos desdobramentos reflexivos, conforme suas proposicoes, pois cabe assinalar: "[...] a filosofia questiona aquilo que, em seu proprio pensamento, pode ser mudado atraves do exercicio com outros saberes" (PORTOCARRERO, 2009, p. 9).

Nesse contexto, em Machado (1982), a historia das ciencias a partir de Canguilhem nao deve ser percebida como uma busca incessante de precursores, visando legitimar pelo passado a novidade do presente, pois "[...] a ciencia nao pode ser encarada como um fenomeno natural ou cultural como outros" (MACHADO, 1982, p. 20).

Desse modo, se a ciencia nao pode ser encarada como natural e porque, para Machado (1982), a ciencia nao deve ser vista como algo dado, pois se trata de um objeto construido, produzido e, tambem, nao se pode reduzi-la a 'naturalizacao' do aspecto institucional, porque "[...] naturalizar a ciencia e confundi-la com seus resultados e, pior ainda, com os cientistas" (MACHADO, 1982, p. 20). Isso porque, para o autor, a ciencia e essencialmente discurso, um conglomerado de proposicoes articuladas sistematicamente, sendo um tipo especifico de discurso, aquele que tem a pretensao da verdade; ou, em nossos termos, um discurso alcado pelo efeito de verdade. Porem, o autor assinala um deslocamento importante nas discussoes de Canguilhem: "[...] a ciencia nao reproduz uma verdade; cada ciencia produz a sua verdade. Nao existem criterios universais ou exteriores para julgar a verdade de uma ciencia" (MACHADO, 1982, p. 21). Assim, na epistemologia de Canguilhem, recorre-se continuamente a afirmacao de que

[...] so no interior da ciencia tem sentido colocar a questao da verdade. A ciencia nao e a comprovacao de uma verdade que ela encontraria ou desvelaria. Tambem e inteiramente despropositado procurar fundar a verdade nas faculdades de conhecimento ou em uma realidade ontologica. [...] Por outro lado, relacionar intrinsecamente ciencia e verdade nao significa dizer que todo discurso cientifico seja necessariamente verdadeiro. Toda ciencia e constituida de proposicoes verdadeiras e falsas. O erro tem uma positividade. 'Um verdadeiro sob o fundo de erro, esta e a forma do pensamento cientifico', diz Bachelard (MACHADO, 1982, p. 20).

A centralidade do termo 'conceito' em Canguilhem emerge nas discussoes de Machado e Portocarrero, quando ambos concordam que "[...] cada ciencia e um objeto especifico, um objeto discursivo, que tem suas caracteristicas, seus criterios e sua historicidade" (MACHADO, 1982, p. 25), ja que, sem os conceitos, nao ha ciencia, pois nao se realiza uma

[...] atividade axiologica, e a historia das ciencias e, por excelencia, uma busca da verdade. Contudo, a historia das ciencias nao pode ser uma ciencia e seu objeto nao pode ser cientifico (PORTOCARRERO, 2002, p. 5).

Nesse contexto, o 'conceito' nao e uma palavra, mas uma denominacao que implica uma definicao inerente a um objeto que e continuamente deslocado e reconstruido na historia das ciencias, a fim de que se torne capaz de

[...] interpretar as observacoes e as experiencias. E uma interpretacao; nao existe propriamente falando a nao ser onde existe, pelo menos um esboco, uma relacao entre um definens e um definierum (PORTOCARRERO, 2002, p. 2).

A descontinuidade da historia inerente ao estudo da (historia da)s ciencias traz uma contribuicao importante dos estudos canguilheanos: a de que a ciencia nao se restringe aos conceitos. Por isso, tanto em Portocarrero (2002, 2009) quanto em Machado (1982) e o conceito que garante a eficacia teorica ou o valor cognitivo da ciencia, uma vez que a teoria consiste em um conjunto de conceitos sistematizados, mas os estudos da historia da ciencia nao se esgotam na questao do conceito, estendendose para a nocao de descontinuidade.

Dessa forma, a epistemologia procura explicitar as inter-relacoes conceituais que apontam para a relacao de varios conceitos entre si em uma mesma teoria ou em teorias diferentes e ate mesmo com saberes nao cientificos, posto que um conceito nao se restringe ao interior de determinada ciencia, podendo existir ate mesmo antes de se tornar cientifico (CANGUILHEM, 1977). A descontinuidade revela a ciencia como um campo processual em constante devir. O fato e que a historia das ciencias e a historia de seu progresso, revela Canguilhem (1977), inspirado em Bachelard, o que faz com que a historia das ciencias seja necessariamente a "[...] determinacao dos sucessivos valores de progresso do pensamento cientifico" (MACHADO, 1982, p. 32).

Pensar que a ciencia se mede a partir do progresso de um saber que vai sobrepondo outro saber, 'ultrapassando-o', faz com que seja negligenciado o terreno das descontinuidades, visando depreciar, a partir da atualidade, a forma como se tornaram obsoletas as postulacoes anteriores do saber cientifico. Ao perceber o progresso das ciencias como descontinuo, Canguilhem vai apresentar a historia das ciencias como sendo conceptual, fazendo com que a historia epistemologica critique o mito do precursor e a aproximacao historica dos discursos heterogeneos (CANGUILHEM, 1977).

Ao afirmar que o progresso das ciencias e descontinuo, Canguilhem (1977) vai inscrever-se sob a egide do pensamento de Bachelard, para quem a historia de uma ciencia ocorre por meio de rupturas sucessivas, sendo o progresso, nesta perspectiva, nao evolutivo, mas dialetico. Isso porque

[...] o progresso nao e o germe desde o mais longinquo passado, a mais distante origem e evolui linearmente ate a atualidade; nao e tampouco um aumento de volume por justaposicao (MACHADO, 1982, p. 34-35),

ja que a historia do pensamento cientifico "[...] se desenrola como um processo de reorganizacao incessante de suas bases" (MACHADO, 1982, p. 37).

No contexto das descontinuidades, encontra-se assinalado, no ambito dos estudos canguilheanos, o conceito de normatividade epistemologica (MACHADO, 1982). Isso quer dizer que a historia das ciencias nao pode abster-se de perceber a ciencia a partir de valoracoes. Esses direcionamentos sao percebidos nao apenas no campo da historia das ciencias, mas tambem na constituicao das ciencias em geral, visto que podemos perceber (des)continuos julgamentos acerca dos modos de observar e construir o aparato analitico epistemologico atraves dos tempos. Dessa forma, para Bachelard (que foi sucedido em 1955 por Canguilhem, na Sorbone, na funcao de diretor do Instituto de Historia das Ciencias e das Tecnicas da Universidade de Paris, onde o segundo permaneceu ate 1971), julgar a ciencia e procurar

[...] distinguir o erro e a verdade, o inerte e o ativo, o nocivo e o fecundo, e examina-la no que diz respeito a sua cientificidade, a racionalidade cientifica; e, portanto, avalia-la quanto a producao da verdade (MACHADO, 1982, p. 45).

Seguindo este raciocinio, Machado (1982) e Portocarrero (2002; 2009) assinalam em seus estudos que nao ha existencia de criterios de cientificidade validos universalmente como tambem apontam, a partir de Canguilhem, para a inexistencia de tempos homogeneos e cronologicamente estabelecidos no campo da ciencia.

Somada aos estudos acerca dos conceitos enquanto inter-relacionados a outros conceitos e ao estudo das descontinuidades, podemos inferir que a normatividade epistemologica pode lancar luzes, entao, aos modos de perceber a constituicao das ciencias em geral a partir dos deslocamentos, das reiteracoes, das problematizacoes inerentes a toda construcao do saber cientifico. Vejamos entao como os estudos canguilheanos podem dialogar com os estudos da linguistica indisciplinar enquanto campo de estudos na atualidade.

Canguilhem e a Linguistica Indisciplinar: deslocamentos e problematizacoes possiveis

O termo 'indisciplinar' e utilizado por Moita Lopes em um livro que se propoe a fomentar a problematizacao do campo de atuacao da Linguistica Aplicada (doravante apenas LA). Ele aparece, inclusive, no titulo do livro referido (ao qual sao acrescidos outros termos como 'mestica' no bojo das discussoes da area, por exemplo) e popularizou-se no exterior a partir das discussoes do professor de Sociologia da Sorbone, de Paris, Guy Oliver Faure. Para Faure, as praticas de pesquisa interdisciplinares, devido ao fato de nao constituirem disciplinarizacoes especificas, constituem, na verdade, INdisciplina, suscitando, assim, problemas institucionais (MOITA LOPES, 1998).

Gracas aos agenciamentos, sentido foucaultiano do termo, e as clivagens produtoras de curtos-circuitos que abrem para o novo e o possivel, tais constructos passam de instrumento a objeto de reflexao, sempre prestes a diferirem, a se transformarem, quando nao a se racharem completamente em funcao de questoes e interesses novos e especificos. E, a exemplo do que ocorre tambem em outras areas do conhecimento, muitos dos agenciamentos e clivagens nesse processo se dao de forma transversa as configuracoes tradicionais das disciplinas, ou seja, em percursos transdisciplinares de investigacao (EVENSEN, 1998, p. 90).

Situando-se na perspectiva dos estudos transdisciplinares, de acordo com Signorini e Cavalcanti (1998), a LA percebida sob o vies critico manifesta alguns deslocamentos e redirecionamentos que extrapolam as nocoes de um campo que se intitula entre disciplinas. Dessa forma,

[...] os termos em que se coloca hoje a questao [...] nao tem mais como referencia unica os principios cientificos classicos de reducao do complexo ao simples, da diversidade a uma unidade fundamental, do dinamico e do instavel ao isomorfo e estatico. Na medida em que esta e uma questao que se impos pela natureza dos objetos de interesse na area e pela pratica dos que nela trabalham, a legitimidade que se busca agora e justamente a de uma pratica cientifica de investigacao do diverso, do complexo e do instavel ou provisorio, a exemplo do que ocorre em outros campos de producao do conhecimento cientifico. Nos termos de Evensen, trata-se, pois, de discutir a logica da pera, mas nao mais visando o calculo do que na pera e ou nao maca (SIGNORINI; CAVALCANTI, 1998, p. 8).

Essas reflexoes vem ao encontro das postulacoes de Canguilhem no campo de estudos da historia das ciencias a partir do momento em que ele tece uma critica as valoracoes que pressupoem 'inerentes' a toda constituicao do saber cientifico que, olhando para o passado a partir do presente e do estado atual das ciencias, se busca aquilo que foi sendo 'substituido' pelo que veio depois, tornando-se 'ultrapassado'. Para Canguilhem, a historia das ciencias nao e feita de um aglomerado de conceitos cronologicamente estabelecidos que vao se sobrepondo a outros. Assim, remetendo-nos agora a Foucault (2008), o 'momento presente' vai ser transformado segundo interrogacoes que colocam esse momento a partir de um processo historico geral do qual a filosofia que nao pode mais desvincular-se desta questao vai ser utilizada, na medida em que ela e a base de onde partem as interpretacoes possiveis da historia decifrada com as condicoes do pensamento atual, revelado a partir da emergencia historica que o constituiu como tal.

A aproximacao que aqui se propoe entre Canguilhem e as contribuicoes do que viria a ser na atualidade o campo de investigacoes de uma linguistica preside na associacao que visamos trazer acerca de temas como a descontinuidade--tema caro para ele, que foi elaborado por Koyre e Bachelard--e se faz presente na proposta que preve o redirecionamento de perspectiva a partir da questao que se impos devido a especificidade dos objetos de interesse na area levando, assim, em consideracao a pratica dos que nela trabalham (SIGNORINI; CAVALCANTI, 1998). Assim, em Canguilhem, a identificacao de descontinuidades nao e nem um postulado nem um resultado, mas um modus operandi, "[...] porque ele e requisitado pelo proprio objeto do qual deve tratar" (FOUCAULT, 2008, p. 359). Isso porque

[...] a historia das ciencias nao e a historia do verdadeiro, de sua lenta epifania; ela nao poderia pretender relatar a descoberta progressiva de uma verdade inscrita desde sempre nas coisas e no intelecto, salvo se se pensasse que o saber atual a possui finalmente de maneira tao completa e definitiva que ele pode usa-la como padrao para mensurar o passado (FOUCAULT, 2008, p. 359).

Se Canguilhem, ao criticar a historia que considerou (e considera ainda, em alguns casos) a ciencia a partir do estudo dos 'sabios' da epoca, assinalando apenas o modo de operar desses 'sabios' sobre a ciencia do passado como um desdobramento da ciencia atual, como se o passado fosse apenas "[...] o sotao da interrogacao retrospectiva [...]" (CANGUILHEM, 1977, p. 13), ele esta apontando para a reducao dos fatos passados a uma investigacao mais ou menos desenvolvida ou compacta dos antecedentes da atualidade. Mas ele vai trazer uma problematizacao que propoe um deslocamento, pois "[...] o passado de uma ciencia atual nao se confunde com esta mesma ciencia no seu passado" (CANGUILHEM, 1977, p. 15), ja que

[...] um modelo definitivo atual, retroativamente aplicado como pedra de toque universal, nao e uma seletiva projecao de luz sobre o passado, mas uma especie de cegueira para a historia (CANGUILHEM, 1977, p. 21).

Desse modo, ao propor um elo dialogico (que nao deixa de entrever as especificidades dos estudos aqui referidos em associacao, ao mesmo tempo em que suscita tensionamentos e redirecionamentos noutro campo) entre os estudos de Canguilhem acerca da natureza do objeto de estudo da historia das ciencias e o campo da LA, entendemos que, assim como para Canguilhem, o historiador nao encontra seu objeto dado na realidade dos acontecimentos, mas concebe seu objeto, articulando o contexto de ideias em que este pode vir a ser inserido atraves da historia (CANGUILHEM, 1977). Algo semelhante e mencionado por Pennycook acerca da natureza da linguistica critica na atualidade:

Nao quero passar a impressao de estar oferecendo uma nova receita. Pelo contrario, meus objetivos sao os de ampliar as possibilidades para investigarmos questoes de linguagem e de educacao. Precisamos repensar o que queremos dizer quando nos referimos a linguagem, investigar as circunstancias especificas que nos levaram aos nossos conceitos atuais e ver como, ao adotar uma concepcao de discurso como um conjunto de sinais e praticas que organizam a existencia e a (re)producao sociais, podemos perceber a linguagem como fundamental tanto para manter como para mudar a maneira como vivemos e compreendemos o mundo e nos mesmos (PENNYCOOK, 1998, p. 43).

Partindo da questao das descontinuidades para a questao do conceito, poderiamos colocar em discussao o proprio termo, tanto em Canguilhem quanto no escopo da agenda de discussoes da LA na atualidade. Em Canguilhem, 'conceito' nao se define como aquilo ao qual a ciencia se restringe, mas que atua como operador na producao do conhecimento cientifico, ja que

[...] a teoria consiste em um conjunto de conceitos que formam um sistema, dentro do qual o conceito apresenta uma questao, a formulacao de um problema, enquanto a teoria sua resposta (PORTOCARRERO, 2002, p. 2).

Cabe aqui uma explicacao: a palavra 'resposta', tanto em Canguilhem quanto no campo de investigacoes da LA percebido enquanto campo indisciplinar, coloca-se no terreno do provisorio, do multifacetado, do inconcluso e torna-se profundamente afetada por essa 'natureza', diferenciando-se da 'resposta' que buscavam os positivistas, por exemplo, uma vez que "[...] os conceitos nao conhecem fronteiras epistemologicas. Podem se situar em diferentes ciencias" (MACHADO, 1982, p. 26).

Neste contexto, se retomarmos o estudo de Gilles Deleuze e Guattari (1991) sobre a filosofia e a natureza dos conceitos, veremos que os autores declaram haver sempre uma abertura que a criacao de conceitos permite, apontando para a continua reformulacao, de acordo com o 'espirito' das epocas em que os conceitos se situam. Isso ocorre, pois

[...] a verdade cientifica do presente e sempre um termo provisorio, uma conclusao provisoria; a recorrencia tambem e provisoria e transformavel: ela se modifica com os criterios de julgamento (MACHADO, 1982, p. 51).

Temos, entao, que as ciencias passam a ser vistas, tal como Canguilhem (1977) afirmou, como terreno de recorrencias a partir da incidencia da multiplicidade de suas definicoes e redirecionamentos e a nao fixacao em normas rigidas, o que, para Machado (1982), nao atesta uma insuficiencia nem falta de rigor, mas a provisoriedade assumida por aqueles que tomam a responsabilidade de expandir horizontes em areas que se ocupam de questoes tao complexas como a LA ou a historia das ciencias de que se ocupou Canguilhem.

Voltamos a proposicao de Moita Lopes (1998) na qual o autor caracteriza a nova LA como INdisciplinar justamente para fazer oposicao a tentativa por parte de alguns precursores da LA de manter a disciplina estavel a partir de focos unilaterais. Por esse outro vies, a LA caracterizar-seia pelo encontro com outras areas de saber, alem de estabelecer contato social para alem do proprio campo da(s) ciencia(s). Segundo esse raciocinio,

[...] os adjetivos 'indisciplinar', 'mestica' mostram uma 'nova AL', um palco no qual existem atravessamentos de fronteiras disciplinares, contestacao de ideologias e mistura de disciplinas e conceitos. (SCHMITZ, 2008, p. 239, grifos do autor).

Assim, o INdisplinar pode tambem ser percebido a partir da implicacao de dois sentidos justapostos a uma outra grafia: (in)disciplinar. O primeiro, voltado para a problematizacao do campo, do objeto e das implicacoes teoricas assumidas e intercambiaveis, ou seja, engloba o campo semantico em que produz o efeito de sentido 'fazer perder a disciplina'; 'insubordinar-se'. O segundo, aquele que emerge a partir de uma correlacao ao pensamento canguilheano, em que se torna possivel inscrever a LA em uma outra ordem, no qual o prefixo 'in' deixar de levar ao sentido de negacao para fazer emergir o sentido de 'inserir', 'levar para dentro'.

A partir do exposto, tomamos a formulacao de Canguilhem acerca da normatividade epistemologica para pensarmos sobre a formacao conceitual na qual se (re)estabelece a Linguistica Aplicada. Cabe acentuar que, apesar de nao haver hierarquizacao entre as disciplinas, preserva-se a regularidade no estabelecimento da configuracao da area, o que ocorre de modo singular ao estabelecer interseccao entre diversos outros campos disciplinares. Disso temos a percepcao do modo de operar proprio desse campo, ou seja, fazer-se (in)disciplinar configura-se no proprio fazer da disciplina LA.

Consideracoes finais: no caminho das reticencias

Um trabalho de escrita que se propoe a investigar determinado campo de estudos, comparando-o a outro, nao pode e nem deve se autodeclarar concluido. Devido ao espirito mesmo que emerge das discussoes aqui aferidas, resta o alerta de Derrida sobre as palavras que vao ao encontro de e ate mesmo de encontro a outras a partir de outros dizeres e leituras indefinidamente. Nao pretendemos, portanto, esgotar a discussao, mas fazer com que autores de tempos diferentes dialoguem entre si com todas as responsabilidades que isso impoe.

Sabemos que, entre a historia das ciencias e os modos como vai se assentando o campo de estudos da Linguistica Aplicada desde a decada de 1990 ate a atualidade no terreno das desconstrucoes, dos deslocamentos e das rupturas epistemologicas que se propoem, ha distincoes, singularidades, mas estas particularidades nao impedem que o dialogo se estabeleca no que faz tergiversar o ambito da descontinuidade, dos conceitos e das recorrencias ai assinalados. E preciso, entao, levar em consideracao estas descontinuidades, mesmo que isso implique correr o risco de andar em circulos no deserto, longe de conforto ou redencao, neste caso, possibilitados por outra visao, cronologicamente estabelecida, de ciencia enquanto terreno de avancos progressivos de evolucao continua, contra a qual Canguilhem se situa.

Nesse sentido, cabe acentuar que, entre as herancas que Derrida nos legou, resta a de que a inconclusao e inevitavel (SILVEIRA, 2014). Sendo assim, temos o caminho das reticencias para que elas possibilitem novos questionamentos e possam instigar os leitores do presente trabalho e suscitar outras reflexoes acerca do que aqui foi discutido. Sobretudo, neste trabalho, a espelho das condolencias prestadas por Foucault em 1985 ao mestre Canguilhem, procuramos demonstrar a atualidade de seus estudos fora do campo em que eles se apresentaram, para ampliar o alcance de suas reflexoes. Resta, entao, o retrato de um dos alunos de Canguilhem, Bertrand Saint-Sernin, retomado por Roudinesco (2007), que deixamos a guisa de uma inconclusao que nao visa esgotar o pensamento desse autor, mas fazer reviver, atraves da memoria do estudante, a presenca daquele que foi um dos mais importantes pensadores do Ocidente:

Ele foi admirado, temido, imitado, amado, mas igualmente cortejado e criticado. Teve socialmente mais poder do que sua etica lhe permitia possuir; e menos brilho imediato porque, por momentos e por uma razao enigmatica, domou o seu genio. Acho que nao se julgava digno do dom que e o pensamento, e repelia, gracas a uma humildade sem fundamento, mas inextirpavel, a evidencia de que possuia grandeza aos olhos dos outros. Entretanto, quando analisava um autor ou, como fazia com incansavel disponibilidade, ajudava um estudante ou pesquisador a descobrir seus interesses ou sua vocacao, manifestava um faro ao mesmo tempo vital e espiritual (ROUDINESCO, 2007, p. 43).

Doi: 10.4025/actascihumansoc.v37i1.26300

Referencias

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Received on January 15, 2015.

Accepted on April 29, 2015.

License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

Ederson Luis Silveira * e Sandro Braga

Programa de Pos-graduacao em Linguistica, Departamento de Lingua e Literatura Vernaculas, Universidade Federal de Santa Catarina, Campus Reitor Joao David Ferreira Lima, s/n, 88040-900, Florianopolis, Santa Catarina, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: ediliteratus@gmail.com
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Silveira, Ederson Luis; Braga, Sandro
Publication:Acta Scientiarum. Human and Social Sciences (UEM)
Article Type:Ensayo
Date:Jan 1, 2015
Words:5045
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