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Genealogia, comunicacao e cultura somatica.

Genealogy, communication and somatic culture

Criado por Nietzsche no final do seculo XIX e desdobrado por Michel Foucault no seculo seguinte, o metodo genealogico fornece ferteis e preciosas pistas para o enriquecimento dos estudos teoricos em Comunicacao e Cultura, abrindolhes novos e imprevisiveis caminhos. Em sua perspectiva antimetafisica, a visada genealogica considera sentidos, valores e crencas culturalmente compartilhados bem como os modos de se configurar a subjetividade como producao historico-cultural. Sentidos e valores sao tomados como plasticamente cambiantes e as formas-sujeito, como nao substancializadas. Ambos estariam, portanto, abertos tanto a variacoes historicas quanto a novas experimentacoes. Para podermos dimensionar com precisao possiveis contribuicoes do metodo genealogico para estudos em Comunicacao, cabe de inicio explicitar seus pressupostos filosoficos, seu modo de funcionamento e de que premissas se afasta. E o que faremos a seguir, remetendo ao pensamento de Nietzsche e de Foucault.

No paragrafo 13 da segunda dissertacao da Genealogia da moral, aproximando-se de visoes estoicas acerca do sentido como um incorporal, Nietzsche enfatiza a distincao entre o aspecto relativamente duradouro de certos costumes, atos ou "dramas" e o carater eminentemente fluido dos sentidos que os recobrem, atribuindo-lhes direcoes e fins especificos (Nietzsche, 1998). Enquanto certos costumes ou praticas podem se repetir no tempo, seja em uma mesma formacao cultural, seja em outras culturas, os sentidos que lhes sao atribuidos, suas finalidades, o que deles se pode e deve esperar possuem um carater necessariamente fluido, aberto a infinitas e imprevisiveis variacoes. Essa distincao entre pratica, ato ou costume e sentido, aplicada por Nietzsche ao tema do castigo para desatrela-lo da necessaria producao de culpa e de ma-consciencia, convida o pensamento a um duplo desafio. Por um lado, a adotar uma perspectiva que desnaturaliza sentidos e crencas arraigados; por outro, desdobrando a premissa anterior, a investigar a producao historico-cultural das "verdades" que funcionam e sao acreditadas em dadas formacoes historicas. O interesse dessa perspectiva para estudos no campo da Comunicacao e assim crucial, ao ensejar a investigacao acerca da producao e disseminacao de sentidos, de "verdades" e crencas em distintos horizontes culturais.

Em um conhecido ensaio intitulado Nietzsche, a genealogia e a historia, publicado no livro Microfisica do poder (Foucault, 1982), o autor ressalta que o filosofo alemao identificou as implicacoes do pensamento que busca uma suposta "origem" (Ursprung, literalmente: salto primordial, primeiro)--por exemplo, da religiao ou da poesia. A crenca em uma origem supoe que algo teria necessariamente de ter surgido na historia, como em um salto inaugural e desinteressado, sentidos ou valores que estariam, sob a forma de germe, desde sempre presentes, mesmo que ainda nao manifestos. Como lembra Foucault, para marcar sua distancia radical com relacao a perspectiva da origem, Nietzsche acionou outros termos, tais como nascimento (Entstehung ou Geburt), proveniencia (Herkunft), ou ainda invencao (Erfindung).

Para o olhar genealogico, nada teria de ter aparecido na historia, nenhum sentido ou valor se apresenta como uma fatalidade. Todos eles provem de um solo, de determinadas condicoes de existencia, de certas pulsoes (Triebe). Nascem, em suma, de interesses, de perspectivas vitalmente interessadas. Uma vez que nenhum sentido ou valor teria uma origem, isto e, um surgimento necessario, inevitavel, previamente inscrito na historia do homem (mesmo em estado de latencia, desde os primordios); uma vez que sentidos e valores sempre foram "inventados", produzidos por forcas e pulsoes em configuracoes historicamente determinadas, deve-se interrogar sua historicidade, coloca-los sob suspeicao, submete-los a um olhar arguto e curioso.

Entendidos por esse vies, os sentidos e valores acreditados estao longe de serem desinteressados ou a-historicos. Exprimem, antes, forcas vitalmente interessadas, perspectivas distintas, em luta constante. A producao de sentidos supoe, portanto, um gesto violento de apropriacao. No entanto, conforme salientado por Nietzsche, a moral ancora-se em uma denegacao do carater "inventado" dos valores, negacao sem a qual nao poderia cingir-se com o manto do desinteresse e da validade universal (Nietzsche, 1998). Tomar-se como unico modo de valorar possivel e jamais existente, pleitear validade universal sao corolarios da crenca teorica na origem, na Ursprung--um salto desencarnado, a partir do nada. E essa metafisica da origem, tao salientada por alguns pensadores do seculo XX, que a genealogia nietzschiana, voltada para o diagnostico e para a estimacao do valor dos valores, denuncia e abala.

A genealogia suscita, igualmente, outra relacao com o tempo, com a historia. O pensamento da origem postula a existencia de marcos inaugurais, cujo surgimento estaria inscrito, em germe, desde o inicio. O tempo historico e entao pensado como uma sequencia linear que necessariamente avanca e, nesse sentido, progride, evolui. Aqui nos referimos a Hegel, que formulou com precisao a nocao linear e teleologica do tempo que marcou o seculo XIX. Para darmos um exemplo das implicacoes dessa perspectiva teorico-metodologica, basta lembrarmos de que modo, no curso sobre a filosofia grega (Hegel, 2007), Hegel estabelece Socrates como ponto de origem da Filosofia, amalgamando os mais diferentes (e mesmo antagonicos) pensadores/poetas gregos antigos sob a rubrica homogeneizante de pre-socraticos, tratando-os em bloco como os "ainda nao" Socrates, aqueles que, na melhor das hipoteses, preparavam o surgimento (inevitavel e triunfal) de Socrates. Nesse sentido, ser pre e ser nao apenas anterior, mas--e por isso mesmo--menos: desqualificados dessa maneira (na melhor das hipoteses, como preparadores de Socrates), alem de neutralizados em sua diversidade, os que vieram antes de Socrates representam, para Hegel, um mero balbucio da filosofia, um "ainda nao" do pleno filosofar. No mesmo gesto, Socrates se torna a figura que nao poderia ter deixado de advir: eis as implicacoes desse modelo de pensamento, rebatido sobre uma temporalidade linear e teleologicamente pensada.

Ressaltemos, agora, algumas pistas metodologicas oferecidas por Foucault, sobretudo no subcapitulo Metodo incluido no primeiro volume da Historia da sexualidade (Foucault, 1980), que explicitam ainda mais o modo de operacao da genealogia e podem fertilizar nosso campo de estudos. A primeira delas diz respeito a intencionalidade de taticas e estrategias implicadas em praticas e discursos que atravessam o tecido social. Na perspectiva nominalista de Foucault, o poder supoe, nietzschianamente, um campo movel de multiplas relacoes de forca. "O" poder passa a ser entendido como um nome atribuido "a uma situacao estrategica complexa, numa sociedade determinada" (Foucault, 1980, p. 89). As relacoes de poder sao sempre "interessadas", mas, ainda na esteira de Nietzsche, esses "interesses", provenientes de um incessante jogo de forcas, deixam de ser remetidos a qualquer sujeito por tras. A persistente crenca nessa categoria de sujeito e sugerida pela propria gramaticalidade de nossas linguas, que (como tambem mostrou Nietzsche (1)) nos leva a acreditar na ficcao de um agente por tras de todo agir, de um sujeito identico a si comandando acoes e predicados. No subcapitulo Metodo acima referido, Foucault caracteriza, portanto, as relacoes de poder como "intencionais e nao subjetivas". O poder (apenas como palavra no singular) e certamente atravessado por calculos, por uma serie de miras e de objetivos. Mas--esclarece Foucault--"[...] isso nao quer dizer que resulte da escolha ou da decisao de um sujeito, individualmente" (Foucault, 1980, p. 90). Nao se trata, portanto, de sair em busca de quem estaria "por tras" das taticas e estrategias que perpassam o social e o comunicacional. Trata-se, antes, de identificar como se exercem e de que maneira se processam seus mecanismos, que se cristalizam em nossas crencas, corpos e modos de vida.

Ainda retornando ao subcapitulo intitulado Metodo (Foucault, 1980), o autor fornece nesse texto outra pista relevante para o trabalho genealogico: operar nao mais com a via de mao unica causa-efeito, mas com a logica efeito-instrumento. Nessa linha, meios de comunicacao e tecnologias, por exemplo, deixariam de ser tratados como causas ou como efeitos de determinadas mutacoes historicamente assinalaveis. Remeteriam antes a um complexo tecido historico-cultural de que sao, ao mesmo tempo, expressoes e instrumentos.

Concluido esse breve percurso de cunho mais filosofico, cabe agora salientar de que modo a visada genealogica pode enriquecer estudos em Comunicacao e Cultura. De inicio, uma observacao preliminar: em vez de considerar que um objeto proprio ja se encontra previamente dado, a genealogia gera campos de problematizacao nos quais emergem os objetos a serem investigados. A perspectiva genealogica tampouco isolaria produtos midiaticos, tecnologias, crencas e sentidos em um plano a parte, como que autonomizado, procurando antes estabelecer paralelos entre varios efeitos de superficie historicamente adjacentes, gerando novos solos de problematizacao que possam ser relevantes tanto para o campo da Comunicacao e Cultura quanto para areas afins.

Para esclarecer seu modo de funcionamento, podemos remeter a um exemplo bemsucedido do rendimento do metodo genealogico: o trabalho do historiador de arte Jonathan Crary (Crary, 2000). Estudando e mapeando em paralelo o desenvolvimento de novas ciencias empiricas no seculo XIX (fisiologia optica, psicofisiologia, etc.), a emergencia de novas praticas culturais no ambito do que chamou de "industrializacao dos regimes de contemplacao", quadros de certos pintores (sobretudo Manet, Seurat e Cezanne) e novos dispositivos opticos (taumatropios, estereoscopios, etc.), Crary assinalou a producao, no seculo XIX, de um observador distinto daquele prevalecente nos seculos anteriores no Ocidente. Nesse sentido, por exemplo, em vez de estabelecer uma linha evolutiva entre a camera obscura (camera escura) e a camera fotografica--que possuem de fato elementos analogos--, Crary distingue radicalmente o regime optico e epistemologico que preside ao dispositivo da camera obscura dos modos de perceber e de conhecer introduzidos no seculo XIX nas sociedades liberais avancadas, caracterizando esse novo modelo como estereoscopico. Na esteira do metodo genealogico, Crary considera as maquinas, antes de mais nada, como sociais, referindo-se diretamente a Gilles Deleuze.

Articulando efeitos de superficie paralelos, com a agudeza, o rigor e o gosto pelo enigmatico que toda genealogia requer, e possivel produzir hipoteses produtivas acerca das transformacoes pelas quais estamos passando. Evidentemente, nesse movimento, afasta-se da logica do pre e do pos, privilegiando o mapeamento de determinadas mudancas em curso, que se cristalizam por vezes de modo mais evidente, revelados pela lente de aumento que o teorico projeta sobre a empiria e seus fenomenos multiplos e distintos, articulando-os entre si. Sempre cabe lembrar que e a perspectiva teorica (e nao o tempo historico, em seu constante, continuo e indivisivel vir-a-ser) que, a partir de um entrelacamento de certos fenomenos detectados e analisados, ressalta certas descontinuidades e determinadas rupturas. Por exemplo, no caso aqui utilizado, no que concerne aos modos de perceber, aos regimes de atencao e as formas de conhecer emergentes ao longo do seculo XIX, Crary evidencia de que maneira certas caracteristicas por demais apressadamente atribuidas a "pos-modernidade"--fragmentacao, desreferencializacao, descentramento do sujeito--encontravam-se plenamente em curso no seculo retrasado.

Talvez a maneira mais eficaz de pleitear o rendimento da genealogia para a Teoria da Comunicacao seja coloca-la em funcionamento na analise investigativa de alguns fenomenos culturais recentes. Privilegiaremos, aqui, a titulo de exemplo, certos produtos culturais, investigados no ambito de minha pesquisa acerca dos vinculos entre midia, novas tecnologias de imageamento do corpo, a emergencia do que se pode chamar de cultura somatica e a alteracao dos roteiros de subjetivacao nela implicada.

De inicio, lembremos uma exposicao que percorreu mais de trinta cidades do mundo, com grande sucesso de publico: a exposicao Corpo Humano--Real e Fascinante. Apresentada ate fevereiro de 2009 no Museu Historico Nacional do Rio de Janeiro, eis uma de suas significativas chamadas publicitarias em jornais e outdoors: "Voce tem um encontro marcado com o seu interior". Na exposicao, corpos reais (reais e fascinantes: mote da exposicao) de cadaveres chineses plastificados, revelavam seu verdadeiro interior, ou seja, o que se e verdadeiramente por dentro: orgaos, visceras, veias, ossos, musculos, mas tambem proteses--caucionando a rasura da velha dicotomia natural/artificial. O corpo morto e fragmentado, purificado de seus odores, de sua temporalidade organica, de sua irrefreavel tendencia a putrefacao. No mesmo gesto, e tambem dessacralizado e purificado de qualquer narrativa, de toda historia ou ancoragem politico-social. Expoe-se, em certa secao, horizontalmente fatiado, em camadas, emulando imagens digitais que ressonancias magneticas e tomografias computadorizadas podem fornecer.

Ressecado, desencarnado e digitalizado, esse corpo humano servia como suporte didatico para a vulgarizacao cientifica e para a incitacao a uma moral do cuidado de si, centrado em habitos saudaveis de vida, na prevencao de riscos e na preocupacao constante com a producao de saude. Por exemplo, diante de pulmoes destruidos pelo tabaco, o visitante era convidado a depositar em uma urna de acrilico transparente (em geral repleta) seu inimigo, verdadeiro atentado contra as boas normas da saude e da prevencao de riscos. Eis uma das obvias faces da intensa moralizacao que tem recoberto as praticas somaticas. Como exposicao cientifica, o que ela ensinava, acima de tudo, era uma nova forma de nos vermos "por dentro" e de gerirmos nossa saude, incitando a uma responsabilizacao moral por eventuais futuras doencas.

Como diversos produtos culturais e midiaticos que permeiam nosso cotidiano, essa exposicao exprime a tendencia atual de ultrapassagem do regime moderno da interioridade em favor da enfase crescente no ambito somatico, na bioquimica do corpo, acompanhada por um processo de externalizacao do eu na superficie lisa de imagens, tambem de neuroimagens. No inicio de 2009, outra exposicao internacional, na Casa de Ciencia da UFRJ, intitulada Paisagens neuronais, tambem pode ser identificada como efeito-instrumento desse privilegio crescente do somatico sobre o social, o historico e o cultural. A exposicao exprimia, disseminava e aprofundava, no imaginario cultural, a tendencia que podemos denominar de somatizacao do eu. Nela eram expostas imagens ineditas (digitais, leves e multicores) do sistema nervoso--elemento privilegiado na cultura somatica, em plena sintonia com os corpos hiperexcitaveis contemporaneos.

Nessa exposicao, o personagem principal era o cerebro, com suas redes neurais, mostradas em figuras abstratas e multicores reveladas por tecnologias digitais. A exposicao privilegiava neuroimagens atuais (em sua maioria, nao humanas), acompanhadas de citacoes e de pequenos textos produzidos por escritores, intelectuais, pintores, filosofos e escultores. Referencias pictoricas--Miro, por exemplo--e literarias acoplavam-se as neuroimagens, ironicamente submetidas ao (suposto) fascinio, a dimensao altamente persuasiva dessas imagens neurais. A ironia e dirigida a tradicao literaria e pictorica moderna, nao as atuais crencas que subjazem as neuroimagens. Uma dessas neuroimagens, por exemplo, era interpretada sinteticamente como: "Godot chegou?". Emocoes, sentimentos (como a ira) e micronarrativas tambem compareciam nessa leitura interpretativa de neuroimagens. Ou seja: o vocabulario dos afetos, protocolos narrativos, a tradicao literaria e pictorica ocidental se rendem as neuroimagens, apontando para a relevancia de explicacoes cerebrais e fisicalistas de todos os fenomenos humanos, do proprio misterio da personalidade, conforme afirmava o video didatico sobre o funcionamento do cerebro que abria a exposicao.

A enfase na rede de neuronios em que o corpo se resume associa-se uma nova visao da interioridade, rebatida sobre um tipo de imagem em que tem se apoiado as neurociencias em expansao, espraiando-se e consolidando sua credibilidade na cultura contemporanea. Cabe lembrar que o avanco das neurociencias tem se valido do amplo desenvolvimento de novas tecnologias de imageamento corporal, sobretudo cerebral (Izquierdo, 2002). O que na modernidade era "interior"--a velha vida subjetiva, com seus conflitos, dilemas, aventuras e desventuras--desloca-se para a materialidade somatica, atravessada por saberes cientificos em franco desenvolvimento, insistentemente difundidos pelos midia, e revelada por um regime de visibilidade digitalizante.

Aquilo que somos mais autenticamente passa a referir-se a um corpo fragmentado, cientifica e assepticamente retalhado, alcancando-se sua composicao molecular. Tal concepcao privilegia os seguintes vetores: o cerebro, hormonios (moduladores da atividade neuronal) e os genes. Indicativo da expansao cultural desses saberes, um vocabulario bioquimico, hormonal, invade significativamente a linguagem cotidiana: a excitacao que certo tipo de cinema produz e diretamente associada a liberacao de adrenalina (adjetivando-se, inclusive, na expressao cinema-adrenalina); ao prazer e a sensacao de bem-estar ligados, por exemplo, as praticas de fitness, a liberacao de endorfina; a tristeza, ressignificada na categoria cada vez mais estendida de depressao, niveis e taxas de serotonina; a atencao cada vez mais requerida e, ao mesmo tempo, levada a dispersar-se entre inumeras excitacoes concorrentes, a Ritalina.

Vai-se assim consolidando uma cultura somatica, na qual declina o modo de subjetivacao moderno, ancorado na experiencia de si como sujeito dotado de uma interioridade balizada por desejos e pulsoes em conflito com coercoes sociais, em favor de biossociabilidades (Rabinow, 2002), bioidentidades (Freire Costa, 2005), individualidades somaticas ou mesmo selves neuroquimicos (Rose, 2007). Desde o inicio dos anos 1990, o antropologo norte-americano Paul Rabinow ressaltara, pioneiramente, de que modo o projeto Genoma sinalizava essa enfase preponderante no biologico, em suas implicacoes identitarias. O conceito de biossociabilidade, desdobramento e reatualizacao do biopoder foucaultiano (Foucault, 1980), enfatiza a formacao de novas identidades, de novas praticas individuais e grupais no ambito do capitalismo atual.

No seculo XXI, esses grupos encontram-se organizados em sites e blogs na web. O pioneirismo coube aos portadores de AIDS, mas a biossociabilidade estende-se, atualmente, a outras sindromes, tais como as de Huntington (Rose, 2007) ou de Asperger (Montardo; Passerino, 2008). No contexto da cultura somatica, assiste-se a um esvaziamento do regime da interioridade psicologica, vinculado ao modo moderno de se constituir e identificar-se como sujeito. A interioridade passa paulatinamente a reconfigurar-se, nas praticas e valores que impregnam os scripts de subjetivacao contemporaneos. Nao se trata, evidentemente, da substituicao de um modo por outro, como por vezes a enfase (e a retorica) teorizante pode levar a sugerir. O que ocorre e, antes, uma mutacao mais ou menos perceptivel nas inflexoes e rearranjos do regime (e do vocabulario) das praticas subjetivantes, ou, mais precisamente, uma subordinacao de antigos mecanismos por outros emergentes, que se vao consolidando. Nesse sentido, o slogan da exposicao Corpo Humano ("Voce tem um encontro marcado com o seu interior") torna-se, mais uma vez, bastante revelador.

Para dimensionar de modo mais preciso essa mudanca, e necessario lembrar brevemente como se constituiu a subjetividade moderna. Essa subjetividade interiorizada, psicologicamente tramada, desenvolveu-se em campos paralelos, historicamente adjacentes, nem sempre plenamente simultaneos. Ela teve na literatura, desde fins do seculo XVII, mas, sobretudo a partir da virada do seculo XVIII para o XIX, um locus privilegiado de exercicio e de elaboracao, bem antes de alcancar consistencia e estatuto epistemologico nas ciencias psicologicas do final do seculo XIX. A propria psicanalise, com Freud, valeu-se de uma ampla tradicao literaria antecedente, em que se elaborou e se fixou o homem psicologico moderno (Bezerra Jr., 2002), campo de batalha entre a esfera profunda do desejo e as coercoes impostas pela vida social. Sua versao epistemologica e mais tardia, remetendo a passagem do seculo XIX ao XX, com a expansao do conceito de desejo, articulado ao de sexualidade (Foucault, 1980), que passara cada vez mais a identificar e a especificar o que se e verdadeiramente.

Saltando para o seculo XXI, encontramos (nao por acaso) na literatura anglosaxonica atual claras expressoes da cultura somatica, amplamente disseminada tambem entre nos pela midia e vinculada a uma concepcao digitalizante do corpo. Um exemplo do que ja se chamou de neuronovel (Roth, 2004) nos servira, a guisa de conclusao, para assinalar certas transformacoes culturais em curso nas sociedades liberais avancadas e para ressaltar o rendimento do metodo genealogico. Publicado em 2008 e escrito por Rivka Galchen, um desses romances tem por titulo Atmospheric disturbances (Galchen, 2008; Ferraz, 2012/2). Eis, em resumo, o ponto de partida do enredo: o psiquiatra/ psicanalista nova-iorquino Leo Liebenstein, ao ver um dia sua mulher (Rema) entrar em casa trazendo um novo cachorrinho, nao a reconhece mais, tomando-a a partir de entao por um simulacro, por uma impostora, uma sosia ou replica; em suma, por uma Ersatz-Rema. Inserido em um regime de sentido biopoliticamente configurado, o personagem central do romance, Leo Liebenstein, parece por vezes transbordar a moldura patologica que domestica sua experiencia ao referi-la unicamente a um disturbio neurologico objetivamente assinalavel (sindrome, ou delirio, de Capgras).

No romance, sua doenca (integrada nas proliferantes rubricas classificatorias psiquiatricas) enquadra e aprisiona a potencia ontologica de sua experiencia singular, na medida em que e de saida sugerida (ja por sua especializacao medica: psiquiatria) e explicitamente reafirmada na trama, sobretudo no desfecho (2). Em outras passagens, essa neuroperspectiva se inscreve de modo mais amplo, sob a rubrica das "sindromes de misidentification, de falsa-identificacao" (Galchen, 2008, p. 207). Entretanto, de modo ambiguo, as percepcoes destorcidas, as variacoes atmosfericas experimentadas por Leo Liebenstein tambem se desdobram no livro em um horizonte ancorado em outras matrizes culturais, especialmente na densa tradicao literaria (introduzida tambem na psicanalise) do tema dos duplos, da figura desconcertante e inquietante do Doppelganger.

Enquanto a moldura cultural (a cultura somatica) a que o romance adere orienta fortemente tanto a producao quanto a recepcao da obra, o recurso a outra matriz cultural, em que a experiencia nao se patologiza, mas se desdobra em um plano ontologicamente pregnante, parece apontar para uma critica implicita aos atuais reducionismos de cunho somatizante. Mantem-se, no entanto, a ambiguidade do romance, convocando no minimo as seguintes indagacoes: trata-se de uma reciclagem de toda a tradicao cultural sedimentada na literatura (e na psicanalise) por leituras de cunho somatico, ou seja, de um transplante da tradicao da cultura letrada para esse novo horizonte de sentido? Ou estaria ai em jogo exatamente um abalo dessas crencas biopoliticas, por meio da forte reintroducao da memoria literaria?

Mesmo emoldurado pela cultura somatica, o romance nao deixa de suscitar certa desconfianca com relacao a biologizacao, a patologizacao da vida e do estranhamento, tambem presente nesses Disturbios atmosfericos. O psiquiatra se pergunta, a certa altura, quem ja nao se teria deparado com comportamentos totalmente resistentes a interpretacao, "moods [estados ou humores] irredutiveis a serotonina ou a circunstancia?" E acrescenta, em um verdadeiro achado: "acoes Teflon, as quais nenhuma teoria adere" (3) (Galchen, 2008, p. 174).

O politetrafluoretileno, um polimero mundialmente conhecido pelo nome comercial de teflon, acidentalmente descoberto nos anos 1930, foi registrado pela empresa americana DuPont e patenteado para fins comerciais em 1946. Quem de nos ainda nao se lembra como era fritar um ovo sem o teflon, tendo de colocar na obsoleta frigideira muito oleo ou manteiga para nao grudar, impotentes diante do embate epico entre o organico e o inorganco? E quem ja nao observou ovos fritos, sem atrito, sem necessidade de mediacao, em uma frigideira teflon magicamente deslizante e nem um pouco dramatica? Material com o mais baixo coeficiente de atrito e maior grau de impermeabilidade, o inorganico teflon parece expressar perfeitamente essas superficies deslizantes e eficientes que temos sido incitados a nos tornarmos. Nessa superficie escorregadia, o desacreditado verdadeiro ou real (no romance, a busca quixotesca pela verdadeira Rema) ja nao se deixa aderir, grudar ou mesmo apreender. O gesto teorico tambem parece nao mais obter aderencia.

Sugerimos entao que a Teoria da Comunicacao, em vez de emular o deslizante teflon, corroendo seu potencial de atrito e tornando-se impermeavel a este mundo, ao operar genealogicamente possa avancar em varias (e imprevistas) direcoes, sem por isso pretender abarcar a mitica apreensao da totalidade ou do suposto real--que sempre escapara a toda aderencia. No caso da pesquisa atualmente em curso, o que esta em jogo e a discussao e compreensao de certas mutacoes no ambito do imaginario cultural que baliza e emoldura tanto valores subscritos quanto modos de construir identidades. Esse imaginario e tambem atravessado pela disseminacao midiatica de novas "verdades" provenientes das tao propaladas pesquisas em neurociencias, bem como pelo forte efeito de crenca suscitado por neuroimagens, por imagens digitalizadas do interior de um corpo--como diria Bergson--"desespiritualizado" (Bergson, 2006). Ao explorar o metodo genealogico em estudos de Comunicacao pretende-se, sem qualquer ranco nostalgico, reforcar e revigorar o papel critico e reflexivo da teoria, escapando tanto a triunfalismos tecnocientificos quanto a catastrofismos, ambos bem pouco fecundos.

Nessa perspectiva, em vez de deslizar por efeitos de superficie, o gesto teorico permite dar a ver efetivos movimentos historico-culturais em curso, nem sempre evidentes ou facilmente tematizaveis. No mesmo movimento, a Teoria da Comunicacao encontraria armas potentes para resistir a alegre e descompromissada palavra de ordem recentemente arquitetada pelos marqueteiros da marca Diesel: "Be stupid!" (Ferraz, 2012/1)--, que, inadvertidamente, parece exercer certo fascinio sobre novas geracoes de pesquisadores. Dessa forma, a teoria pode contribuir fortemente para a tentativa de compreensao do nosso presente, de um tempo em que aberturas e saidas ontologicas encontram-se ameacadas, em favor das alegrias do marketing, da falsa leveza dos modos de vida teflon, que certamente se furtam a aderencia de teorizacoes dogmatizantes, mas que se deixam enredar nas malhas finas, firmes e moventes da operacao genealogica.

REFERENCIAS

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FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade I (a vontade de saber). 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

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NOTAS

(1) Cf., sobretudo, o paragrafo 13 da primeira dissertacao da Genealogia da moral (Nietzsche, 1998), bem como os paragrafos 16 a 19 de Alem do bem e do mal, em que Nietzsche poe em xeque as "certezas imediatas" de Descartes e Schopenhauer, relativas ao cogito e a "vontade". Cf. Nietzsche, 1992 e 1998.

(2) "Eu realmente nao acreditava em uma so palavra do que dizia. Mesmo se acreditasse por um momento, isso teria sido puramente em decorrencia de meu estado neurologico distorcido" (Galchen, 2008, p. 230, traducao e grifo nossos).

(3) Traducao nossa.

Maria Cristina Franco Ferraz

Professora dos Programas de Pos-Graduacao em Comunicacao da Universidade Federal Fluminense--UFF e Universidade Federal do Rio de Janeiro--UFRJ.

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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Franco Ferraz, Maria Cristina
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Article Type:Ensayo
Date:Jan 1, 2013
Words:4989
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