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GENDER SYMBOLISMS AND MANAGEMENT: AN ANALYSIS OF BRAZILIAN FEMALE EXECUTIVES FEMININITY/SIMBOLISMOS DE GENERO E GESTAO: UMA ANALISE DAS FEMINILIDADES DE EXECUTIVAS BRASILEIRAS.

1 INTRODUCAO

Ao longo da historia, o trabalho tem sido uma categoria importante de diferenciacao sexual, na medida em que a divisao entre duas esferas de atuacao social--uma publica e outra privada--atribuiu aos homens o espaco publico, politico, do trabalho remunerado, e as mulheres o espaco privado, domestico, do cuidado familiar (Pateman, 1993). Entretanto, no momento historico atual, as mulheres vem avancando no mercado de trabalho e conquistando postos de prestigio e poder. Historicamente, a nocao de divisao sexual do trabalho apresenta tais ocupacoes como pertencentes aos homens, ja que existe uma hierarquia entre as ocupacoes masculinas e as femininas, e estas ultimas estariam em desvantagem em relacao as anteriores (Kergoat, 2009).

No novo contexto, em que ha um numero maior de mulheres ocupando as posicoes gerenciais, de diretoria e presidencia em organizacoes de diversos tipos, as relacoes de genero devem ser pensadas como um conjunto de atributos ligados nao apenas ao sexo, mas tambem ao lugar que o sujeito ocupa no espaco social. Nesse sentido, os simbolismos de genero, entendidos como simbolos--palavras, objetos e acoes--sao ricos em significados e evocam respostas subjetivas por parte das pessoas que fazem parte de uma mesma cultura (Alvesson & Billing, 2009). Os conceitos de masculinidades e feminilidades sao uteis na medida em que possibilitam uma ligacao entre o que se entende culturalmente como feminino ou masculino, bem como na forma com que homens e mulheres constroem seus sentimentos, valores e pensamentos que os caracterizam como individuos.

Diante do exposto, objetivamos neste artigo compreender os ideais da profissao executiva na narrativa das proprias mulheres que a exercem. Como elas se aproximam ou se afastam desses ideais? Partimos do pressuposto de que, por mais masculina que seja representada uma mulher em cargos de gestao, ela nao se desvincula de sua condicao feminina, e que esta historicamente sempre ocupou o segundo plano das relacoes de genero na esfera publica.

A nocao de simbolismo de genero embasa, assim, a proposta apresentada. Partimos da divisao sexual do trabalho, que separa as ocupacoes em masculinas e femininas. Em seguida, percorremos especificamente a generificacao da profissao executiva. Para ilustrar esses aspectos, realizamos uma pesquisa acerca das feminilidades de executivas com 64 mulheres em cargos de gestao, em organizacoes de diversos portes e setores, em sete capitais brasileiras--Belo Horizonte, Brasilia, Vitoria, Rio de Janeiro, Sao Paulo, Salvador e Porto Alegre. Os dados foram analisados por meio da Analise de Discurso, levando a identificacao de dois percursos semanticos principais: um que se alinha com a "neutralidade" de genero na profissao executiva e o outro que destaca competencias especificas atribuidas as mulheres, considerando aquelas que sao favoraveis e outras que deveriam ser suprimidas no espaco organizacional.

2 SIMBOLISMOS DE GENERO NO TRABALHO EXECUTIVO

Os aspectos organizacionais relacionados a gestao refletem as relacoes de genero na medida em que a logica da racionalidade demonstra influencias masculinas (Mavin, Bryans & Warring, 2004). Nesse sentido, podemos afirmar que no ambiente de trabalho, a masculinidade e colocada positivamente a servico da administracao, ja que e por meio de construcoes de subjetividades supostamente vinculadas ao masculino que as organizacoes sao administradas. Valorizam-se atributos como produtividade, performance, cumprimento de metas, competencia e competitividade --representacoes que refletem e reproduzem as concepcoes de masculinidades e transformam individuos em sujeitos masculinos. Knights e Kerfoot (2004) atentam ainda para que, nesse contexto, mesmos as feminilidades destacadas como desejaveis sao reduzidas a uma capacidade de gerar flexibilidade e responsividade, num claro processo de masculinizacao da feminilidade, colocada a servico da organizacao.

Noutra direcao, estariam processos contemporaneos referidos por alguns autores como feminizacao da gestao (Fletcher, 2004; Fondas, 1997). A essa tendencia na area da administracao estariam associados comportamentos mais cooperativos, humanos, dotados de sensibilidade e criatividade--atributos mais aproximados de feminilidades -, em oposicao aos valores tipicamente masculinos, como frieza, impessoalidade, competicao e racionalidade (Fletcher, 2004; Fondas, 1997; Alvesson; Billing, 2009; Linstead& Thomas, 2002).

No estudo de Fondas (1997) acerca de uma suposta tendencia de feminizacao da gestao, a autora analisou livros contemporaneos da literatura gerencialista norte-americana, com forte influencia sobre o publico executivo a que se destina, por tratar de assuntos da moda na decada de 1990, como reengenharia, ambiente de equipes e gerenciamento para a excelencia. A autora verificou que, embora proponham formas de administrar mais identificaveis como femininas--como renunciar ao controle e dividir responsabilidades, ajudar e desenvolver os outros, construir uma rede de relacionamentos, elevando o ideal de conexao com os outros de uma forma associativa, colaborativa, e relacionamentos cooperativos -, em nenhum momento tais caracteristicas desejaveis aos novos gerentes sao nomeadas como femininas. Dentro dessa perspectiva, a autora considerou que o possivel problema dos autores em nomear a feminizacao e que isso significa nao masculino, e como tal, nao teria espaco no ambiente organizacional, visto que, dentro da cultura geral, os binarismos de genero carregam fortes significados e a maioria dos leitores dos livros seria de executivos homens.

Outra pesquisa nessa linha de investigacao, que analisa a feminizacao da gestao a luz de novas teorias gerencialistas e a de Fletcher (2004). A autora analisou a literatura que trata da tematica de lideranca pos-heroica, um modelo de gestao que valoriza o comportamento colaborativo e relacional, dependente da rede de influencia social, e privilegia o aprendizado nas organizacoes, em substituicao ao modelo de lideranca heroica, que era individualista, centrado em poucos lideres e com sistemas autoritarios de controle. Fletcher (2004) distingue tracos nitidos para separar os dois modelos de lideranca, sendo o masculino o da lideranca heroica, e o feminino o da lideranca posheroica. Nesse sentido,

muito do que vem sendo notado e que os tracos associados a lideranca heroica tradicional sao masculinos. Homens ou mulheres podem exibi-los, mas os tracos em si, como individualismo, controle, assertividade e habilidades de advogar e dominar--sao socialmente atribuidos a homens e geralmente entendidos como masculinos. Em contraste, os tracos associados com a nova lideranca pos-heroica sao femininos. Novamente, homens ou mulheres podem apresenta-los, mas os tracos em si, como empatia, comunicacao, vulnerabilidade e habilidades de conquista e colaboracao sao socialmente atribuidos a mulheres e entendidos como femininos. (Fletcher, 2004, p. 650, traducao nossa).

Diante dessas consideracoes, poderiamos esperar que as feminilidades fossem cada vez mais valorizadas nas organizacoes e, consequentemente, as mulheres. Entretanto, nao e isso que ocorre. A partir do trabalho de Fletcher (2004), depreendemos que os discursos que acompanham os novos rotulos da gestao, como a lideranca pos-heroica, surgem como neutros quanto ao genero. Porem, trazem imbuidas ideias de que a gestao e tais discursos relacionados sao feitos por e para os homens, e reiteram os ideais de masculinidade, dominantes nas organizacoes.

Voltando-se o foco da analise para a pratica gerencial, a qual inclui homens e mulheres, ainda constatamos que o peso das diferencas entre eles recaem mais negativamente sobre as mulheres. No que se refere a comunicacao, por exemplo, Rojo e Esteban (2005) analisaram como mulheres que exercem autoridade sao vistas e avaliadas em organizacoes espanholas, partindo da teoria dos estilos de comunicacao, da sociolinguistica. As autoras adotaram o pressuposto de que existiria, na Espanha, uma associacao do estereotipo masculino como requisito para ocupar posicoes gerenciais--autoridade, decisao, liberdade de julgamento, forca.

Partindo de varias interacoes discursivas em situacoes de trabalho, Rojo e Esteban (2005) distinguem tres possibilidades para exercer o poder, tendo o genero como pano de fundo: manter o estilo considerado feminino ou relacional, adotar um estilo masculino ou informativo, ou uma terceira possibilidade, que e adotar o modelo performativo, que considera adotar um estilo masculino ou feminino dependendo da situacao de comunicacao e de outros fatores.

Outro estudo que analisa as relacoes de poder entre homens e mulheres a partir de interacoes discursivas e o de Holmes (2005). Ao investigar mulheres gerentes em uma empresa de Tecnologia de Informacao, a autora constatou que nao ha discurso neutro, ou seja, as relacoes de genero influenciam a construcao de estereotipos associados ao feminino, como a expectativa de que as mulheres exibam alguma polidez convencional. Entretanto, no caso das gerentes investigadas, ficou claro na forma como discordam de seus colegas, que fazem o poder muito explicitamente, usando uma estrategia associada ao estereotipo masculino, defendendo com veemencia seus pontos de vista, mais do que simplesmente concordando com o que esta acontecendo. Nesse sentido, exercer o poder, para as mulheres, implicaria em adotar um comportamento estereotipado masculino, mesmo que atributos femininos comecem a ser percebidos como necessarios para ocupar tais posicoes.

3 PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS

Como mulheres que atuam em posicoes executivas sao afetadas pelas expectativas de genero? Para tentar responder a essa questao, partindo da nocao de divisao sexual do trabalho, e do simbolismo de genero no trabalho executivo, realizamos uma pesquisa com a finalidade de investigar os ideais da profissao executiva na narrativa das proprias mulheres que ocupam tais postos, e as formas como vivem suas feminilidades no ambiente de trabalho. Considerando que elas ocupam uma posicao ambigua--do lugar "do poder" no espaco publico, sem desvincular-se da condicao de mulher, como elas se aproximam ou se afastam dos ideais da profissao?

Para direcionar as questoes acerca dos discursos de mulheres de negocios, foram realizadas 64 entrevistas semiestruturadas com mulheres que ocupam as principais posicoes de decisao em organizacoes de trabalho em sete capitais brasileiras--Sao Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasilia, Vitoria, Salvador e Porto Alegre.

As entrevistas ocorreram no periodo de julho de 2009 a fevereiro de 2010. Cada pesquisador utilizou sua rede pessoal de contatos para dar inicio a indicacao das primeiras executivas pesquisadas, em geral, colegas de trabalho, conhecidas ou alunas de cursos de pos-graduacao em gestao. Posteriormente, estas mesmas indicavam outras possiveis participantes, dando continuidade ao processo por meio da tecnica da "bola de neve". O encerramento das entrevistas ocorreu quando foi constatada a construcao de um corpus bastante diversificado, contando com narrativas de executivas de multinacionais, do setor publico, pequenas empresarias, com idade variando entre vinte e oito e sessenta anos, casadas, solteiras, divorciadas, brancas e negras, com filhos e sem filhos, enfim, com experiencias variadas o suficiente para que tivessem diferentes visoes acerca de feminilidades, e da forma como o trabalho executivo se relaciona com essa tematica.

Quanto ao roteiro, este contemplava questoes especificas sobre as concepcoes de genero, destacando o aspecto relacional das feminilidades, que se constroem em relacao as masculinidades, aspectos gerais do mundo trabalho, para verificar como a nocao de divisao sexual do trabalho se apresenta a estas mulheres na contemporaneidade, e aspectos especificos do trabalho executivo, aos quais podiam estar associadas caracteristicas desejaveis de serem exibidas por homens ou mulheres, da mesma forma como tais entrevistadas podiam se identificar ou nao com tais expectativas. Para elaboracao do presente artigo, limitamos a discussao sobre este ultimo topico, ou seja, as especificidades do trabalho executivo, as quais sao permeadas pelas tematicas anteriores, ja que os dados foram coletados conjuntamente.

Para analisar o corpus resultante, foi empreendido o procedimento da Analise de Discurso. Para Maingueneau (2000, p. 13), a analise do discurso e "a disciplina que, em vez de proceder a uma analise linguistica do texto em si ou a uma analise sociologica ou psicologica de seu contexto, visa articular sua enunciacao sobre certo lugar social". Assim, percebemos que uma das principais vantagens da utilizacao desse procedimento e a possibilidade de interpretacao nao apenas do que e dito, explicitado, mas, sobretudo, trabalhar a ideologia que esta por detras das falas, entendendo o que os atores realmente querem dizer e que nao e necessariamente explicitado.

Faria e Linhares (1993) apontam quatro estrategias de persuasao nos discursos individuais. Segundo esses autores, as estrategias de persuasao relacionam-se aos discursos que sao aprendidos no decorrer da vida dos atores sociais. Nesse sentido, os atores falariam o que lhes e socialmente e organizacionalmente permitido dizer, e que traduziria uma determinada visao de mundo. Como resultado de suas pesquisas, esses autores relatam a existencia de quatro principais estrategias de persuasao: a) a construcao das personagens no discurso e sua relacao com as personagens efetivamente existentes; b) a selecao lexical, isto e, a escolha do vocabulario, metaforas e demais figuras de linguagem usadas nos discursos; c) as relacoes entre os conteudos explicitos e implicitos, que possibilitam criar um efeito ideologico de sentido; d) o silencio sobre determinados temas, ou seja, aquilo que nao e dito.

Para cada um dos percursos semanticos constituidos, entendidos como conjunto de significados relacionados a um tema especifico--nesse caso, genero, trabalho e profissao executiva--, buscou-se evidenciar como tais estrategias perpassam os discursos das executivas, desvelando como vivenciam suas feminilidades no trabalho.

4 OS IDEAIS DA PROFISSAO EXECUTIVA

Para responder a questao "como e um executivo?", as mulheres entrevistadas utilizaram diferentes estrategias de persuasao, as quais atribuiam significados relacionados principalmente ao poder, status e responsabilidade desse profissional para a consecucao dos resultados organizacionais.

A analise do discurso levou a identificacao de quatro personagens principais, em torno dos quais se articulam o percurso semantico do ideal da profissao executiva: O Comandante, O Nobre, O Politico e O Dedicado. Notamos que tal percurso semantico e apreendido pelas entrevistadas sem se darem conta de que tambem sao executivas, o que nos leva a caracterizacao do executivo idealizado de modo supostamente independente do genero. Em outras palavras, tal percurso e delineado a partir da ideia generica construida pelos sujeitos de pesquisa sobre o que constitui o cargo ou a funcao executiva, atributos que, na visao deles, nao seriam recortados pelas diferencas de genero. E importante ressaltar que tais ideais sao pontos em torno dos quais, para alem dos consensos, estabelecem-se conflitos, contradicoes e disputas. Nesse sentido, estes sao marcados por positividades e negatividades, por aproximacoes dos sujeitos daquilo que se espera--ou se acredita esperar--dessa profissao e por distanciamentos.

O Comandante

Observamos que, por um lado, o ideal da funcao executiva como comandante retoma as nocoes do profissional que se pauta no conhecimento para exercer sua atividade, do profissional estrategico ao qual cumpre delinear os caminhos a serem percorridos na organizacao e o que se posiciona na linha de frente, indicando caminhos e influenciando pessoas a executarem tarefas, como verificado no trecho 1, em que sao utilizados os vocabulos front, dar a cara a tapa, poder de execucao.

(1) Estou no front, estou para dar a cara a tapa, para ir atras de cliente, para fazer, para gerar receita para o negocio [...] Entao, acho que ser executivo significa voce ter poder de execucao. Voce nao precisa ser a pessoa que tem as melhores ideias, mas voce pode ter o dom de transformar ideias em praticas, sejam suas ou de outras pessoas (E19).

Por outro lado, este mesmo comandante remete a ideia de um gestor centralizador, que pode vir ate a desconsiderar os funcionarios no momento de delimitacao desses mesmos caminhos. Ao mesmo tempo, observam os o embate entre dois tipos de executivos: aquele que usa de seu poder e autonomia para articular os diferentes membros organizacionais, e aquele que usa dos mesmos poder e autonomia para impor as decisoes tomadas em prol de beneficios individuais, como ilustrado pelo depoimento de E45 (trecho 2):

(2) Eu acho que os executivos pensam muito neles. Eles querem crescer, nao falam nunca na equipe. So falam neles, no que e deles [...] Os executivos chegam em um certo topo e nao acham que precisam dos funcionarios. E tratam muitos funcionarios como... "se nao quiser, sai, porque a fila esta grande. (E45)

No trecho 2 acima, o executivo e apresentado como egoista e egocentrico, preocupado apenas consigo e nao com a equipe. Alem disso, a entrevistada afirma que ao alcancarem sucesso profissional, ao chegarem ao topo, os executivos passam a desconsiderar os funcionarios, exigindolhes a subjugacao aos seus interesses e ordens ou, entao, descartando-os. Tal questao adianta a representacao do executivo como o pragmatico, que em prol dos objetivos pessoais e institucionais, abandona valores e se desumaniza.

O Nobre

No ideal do executivo como o nobre, depreendemos que este se refere a positividade de um profissional importante e reconhecido, que ocupa um alto cargo na hierarquia organizacional e que, em decorrencia desse cargo, e bem-sucedido materialmente e valorizado simbolicamente, como colocado por E45 no depoimento 3.

(3) Ah, eu vejo um cara, uma pessoa bem vestida, e as pessoas respeitando e falando: "como aquela pessoa cresceu, como aquela pessoa era tao assim e agora cresceu profissionalmente". (E45)

A distincao do executivo, nesse sentido, estaria bem representada na imagem e postura adotadas, com destaque para os trajes como simbolo de diferenciacao. Concomitantemente, essa distincao social do cargo e percebida de forma negativa, colocando o executivo como o pomposo, aquele que ostenta uma posicao privilegiada. Alem disso, a diferenciacao do executivo desencadearia na imposicao de determinadas posturas e condutas, impelindo que os sujeitos estejam adequados a padroes e estereotipos construidos, como ilustrado pelo depoimento de E48, no trecho 4.

(4) Acho que executivo tem aquela ideia tambem de ser supremo. [E como voce descreve o executivo? Se voce conseguisse descrever uma imagem ...] Uma imagem ... aquela pessoa muito bem-vestida, aquela pessoa com altissimo grau de conhecimento adquirido, porque ele vai pensar estrategicamente. (E48)

Uma negatividade associada a representacao de nobreza do executivo refere-se a ideia de superioridade ou de ostentacao atribuida a esse profissional. No fragmento 5 de E48 tais questoes sao evidenciadas. A superioridade e ostentacao do executivo se fazem presentes nao apenas no modo de vestir, mas, principalmente, por se considerar superior as demais pessoas, nao se envolvendo com elas e com os processos da organizacao, de forma mais ampla com a parte operacional.

(5) E uma pessoa que nao se envolve tanto nos processos. Entao, uma pessoa meio que distante. Quase uma imagem ficticia de um "deus" organizacional. E bem-vestido, uma pessoa que esta sempre nas rodas de negociacao, mas que nao esta preparado para pegar no processo como um todo. (E48)

O nao envolvimento com a operacionalizacao dos processos se da tanto em funcao de seu status de nobreza, quanto em razao de certo despreparo, como explicitado ao final do trecho. Apesar de inicialmente construir uma imagem positiva do executivo, destacando seu alto conhecimento e pensamento estrategico, a entrevistada contrapoe isso ao afastamento das pessoas e processos, deixando explicito o lado negativo desse conhecimento e afastamento por meio da metafora de um "deus" organizacional.

O Politico

Quanto ao ideal do executivo como o politico, observamos a tensao existente entre a necessidade de articulacao com funcionarios e colegas e o desgaste advindo da competitividade entre os pares e das relacoes interpessoais. A necessidade de articulacao e envolvimento dos funcionarios traz implicita a postura pragmatica do executivo. Simultaneo ao fato de tal objetividade implicar capacidade de execucao e dinamismo, essa e apontada como instrumentalidade. A racionalidade instrumental do executivo e, assim, colocada como efeito de uma desumanizacao, marcada pela ausencia de preocupacao com o outro e pela sobreposicao aos valores. Isso fica evidente no carater interesseiro associado as relacoes estabelecidas na empresa, como evidenciado por E9, nos trechos 6e 7:

(6) Isso, das relacoes internas, tem que ter muito "jogo de cintura". Alem de ser muito bom naquilo que faz, tem que ser muito bom nas relacoes, tem que ser muito bom em termos de relacionamento interno, de relacoes, de poder. (E9)

(7) [...] a disputa de poder nas organizacoes e algo que incomoda todo mundo. Esse jogo de poder ... Voce nunca sabe se vai ficar muito tempo, se alguem esta puxando seu tapete [...] (E9)

Entretanto, se por um lado o carater politico da funcao executiva e enfatizado, reforcando a necessaria habilidade de negociacao e gerenciamento de equipes, por outro, este e tido como negativo e deteriorante, especialmente se considerado o contexto de competicao que se estabelece entre pares. Como evidencia E26, (8) "A competicao e muito grande, muito grande, porque e meta [...] Producao! Entao voce estava sempre com a faca no pescoco, se voce nao vender, voce esta fora". A imposicao de alta produtividade e melhores resultados organizacionais conduz, nesse sentido, a disputas e competicao, impactando negativamente nas relacoes de trabalho. Sugere-se que o atributo politico relacionado ao trabalho estaria justamente na necessidade de lidar com a competicao instituida entre os pares.

O Dedicado

Ha uma contradicao relacionada ao ideal do executivo como dedicado e responsavel: por um lado, sao exigidas dedicacao e disponibilidade integral do executivo e responsabilidade mediante as pessoas e empresas--que sao impactadas direta ou indiretamente por suas acoes--conferindo importancia a funcao; por outro, estas desencadeiam em excesso de atividades e tensao, como evidenciado nos trechos 09 e 10:

(9) Dai isso eu nao acho que esta ligado se e a mulher ou homem, ai eu acho que todo mundo tem a mesma oportunidade. Eu acho que e falta de competencia, falta de... disponibilidade para o trabalho, porque isso eu exijo, como eu sou exigida, eu acabo exigindo das pessoas que trabalham comigo, se eu preciso alguma coisa urgente e e sabado, e urgente e tem que fazer. (E20)

(10) E pressao enlouquecedora, as vezes estou com dois celulares na mao, um telefone tocando e mais dez, onze pessoas na minha frente, mais uma fila na minha porta de trabalho. O tempo nao da para fazer o que e demandado, voce tem que fazer a atividade de dez/doze pessoas ao mesmo tempo, voce tem que lidar, aqui, pelo menos, nao so com questoes tecnicas, politicas gerenciais, e enlouquecedor, a pressao e incomensuravel. (E3)

Contudo, se por um lado a disponibilidade e a responsabilidade caracterizam e conferem distincao a profissao, por outro, ela implica maior desgaste ao profissional, delineando a percepcao do executivo como sobrecarregado. E3 recorre aos numeros para explicar a demanda que lhe e colocada e a consequente pressao que sofre.Pelo uso do vocabulo enlouquecedor duas vezes no trecho 10, depreende-se o quanto o trabalho envolve e desgasta psiquicamente o executivo.

Notamos que os quatro personagens depreendidos das falas das executivas trazem explicitas as questoes do poder, do fazer e da instrumentalidade da funcao. Implicitamente, tais tracos estao imbuidos de responsabilidade por si, e pelas acoes de outros, ja que serao cobrados pelo que fizeram e pelo desempenho de suas acoes e das pessoas que designaram para tal. Considerando caracteristicas consideradas tipicas de formas de gerenciar masculinas ou femininas (Fondas, 1997; Fletcher, 2004) podemos afirmar que a masculinidade esta na tessitura do que as mulheres entendem como sendo de um executivo, mesmo que esta questao seja silenciada, dando a entender que o trabalho executivo e mesmo neutro quanto ao genero. O trecho 11 da fala de E38 e bastante ilustrativo desse aspecto:

(11) Eu percebo os executivos muito focados num objetivo, isso que eu enxergo de positivo, realmente de dinamismo, de fazer as coisas acontecerem de fato, com rapidez. Mas eu os percebo com um pouco de, talvez uma ausencia de preocupacao com o outro [...] Eu acho que uma boa gestao e uma gestao que voce divide a preocupacao com as pessoas e com os resultados. Tem que ter um equilibrio ai. (E38)

Constatamos, assim, que a analise do genero no ideal do executivo nao e necessariamente neutra, mas silenciada na fala das executivas, dando a entender que a masculinidade e um parametro tido como certo, normal, e garantia de alcance de metas, produtividade, desempenho e competitividade, caras no ambiente organizacional e incorporadas tambem pelas mulheres que exercem a gestao.

O quadro a seguir sintetiza os topicos do discurso analisados nesta secao, partindo das estrategias de persuasao que configuraram o percurso semantico de um ideal de executivo, em torno dos quatro personagens discutidos, do vocabulario, dos sentidos explicitos e implicitos. Como o silenciamento em torno da masculinidade na gestao esta no esteio das falas apresentadas, esta tematica foi suprimida do quadro. Uma vez que a analise realizada revelou o carater contraditorio das explicacoes dadas pelas entrevistadas, tambem as caracteristicas positivas e negativas de tais representacoes sao sintetizadas. Ressaltamos que valorar positivamente ou negativamente determinada representacao ja sinaliza para uma atitude de se aproximar ou afastar de tal comportamento, na medida em que se reconhecem ou nao nele, como sera explorado no topico seguinte.

Tendo em vista esse ideal de executivo--marcado pelas positividades das representacoes analisadas e afastado das negatividades tambem a elas associadas -, na proxima secao serao enfocadas as interfaces entre genero e profissao. O executivo ideal construido, desta forma, constituira um parametro a partir do qual se refletira sobre as feminilidades das executivas. Pretende-se, com isso, nao so discutir o genero em relacao a determinados padroes profissionais, mas especialmente observar o quanto esses padroes criam privilegios ou exclusoes baseadas nas desigualdades de genero, inviabilizando ou dificultando, assim, que as mulheres dividam com os homens os espacos ate entao reservados a eles.

5 AS FEMINILIDADES DAS EXECUTIVAS: SIMBOLISMOS E AMBIVALENCIAS

O segundo percurso semantico e composto pelo reconhecimento, por parte das entrevistadas, de como e ser uma executiva, tendo sido solicitado a elas que apontassem atributos femininos, e como eles influenciam sua atuacao na gestao. Da mesma forma que o ideal do executivo tem caracteristicas positivas e negativas, elas apontaram para a ambivalencia das habilidades tidas como femininas, que podem tanto contribuir quanto prejudicar o exercicio do trabalho. Como estrategias de persuasao, identificamos tres personagens: A Negociadora, A Detalhista, A Versatil. Em torno desses eixos, e possivel distinguir competencias e incompetencias as feminilidades apontadas pelas executivas.

A Negociadora

As caracteristicas associadas a essa personagem podem ser entendidas como habilidades para resolver situacoes sem gerar conflitos, pressupondo que mulheres estao mais dispostas a ceder em negociacoes, se assim entenderem que poderao produzir um resultado melhor. A esta flexibilidade para negociar vinculam-se atributos favoraveis ao trabalho, como apresentar cautela e "jogo de cintura". Esse resultado corrobora os de Fontenele-Mourao (2006), que encontrou a flexibilidade como principal representacao de mulheres que atuam em cargos gerenciais no setor publico federal.

No depoimento de E43 (trecho 12), o "jogo de cintura" e a cautela desencadeariam uma maior capacidade de negociacao da mulher. Alem disso, E43 constata uma mudanca no comportamento da mulher, que deixou de ser boba, pacata e omissa e passou a ser impor mais. Subentende-se que esta capacidade de se impor e uma caracteristica tipicamente masculina, que a mulher tem desenvolvido, mas que, no entanto, esta associada a uma cautela para falar, evidenciada em outros discursos.

(12) Por exemplo, na hora que voce vai negociar, eu acho que a mulher consegue escorregar um pouco mais, em relacao a compra, dar um desconto. Porque eu acho, assim, a mulher ja foi muito boba, muito pacata, muito omissa. Hoje em dia, nao. Acho que ela se impoe mais, e ela tem mais cautela para falar. Entao, de repente, ela acaba ganhando dessa forma. (E43)

Complementando a caracteristica da flexibilidade, E46, no trecho 13, atribui o sentido de saber lidar com as outras pessoas como algo tipico da mulher, e que os homens estao tentando desenvolver, a medida que percebem as contribuicoes que esse atributo oferece para o trabalho gerencial. Assim, a tentativa de se impor, a intolerancia do homem, e vista como algo negativo e que nao leva a lugar algum. Por outro lado, a capacidade de percepcao da mulher e tida como positiva, favorecendo a criacao de um bom relacionamento e ajudando no gerenciamento de situacoes de trabalho. E48 reforca o argumento de E46, de que o homem tende a nao ser tao maleavel quanto a mulher. Destaque deve ser dado aos termos "tem que ser", os quais sugerem uma expectativa sobre o comportamento masculino--como durao -, e pressupoem outra expectativa sobre o feminino- como maleavel e boazinha. Salienta-se, nesse sentido, que, embora tal maleabilidade seja vista como positiva, esta pode tambem ser interpretada como uma expectativa de submissao da mulher ao homem autoritario.

(13) Olha, eu acredito que atualmente ja esteja no mesmo nivel. Porque eu acredito que a mulher ja tenha desenvolvido mais esse sentido de saber lidar com as outras pessoas. Entao, eu acho que o homem esta comecando a ter isso tambem que a mulher ja tem. [...] Porque, as vezes, os homens, eles se poem intolerante sem uma determinada situacao. (E46)

(14) Eu acho que o homem, nao so proativo, mas eu acho que se ele fosse um pouco mais maleavel... [...] Ai o papel inverte: ele e o durao, ele e o mandao, ele tem que ser. E por conta disso, a gente enfrenta as dificuldades. Entao, eu acho que se o homem fosse um pouco mais maleavel seria melhor. (E48)

Os depoimentos destacados nos trechos 13 e 14 sao consoantes com os estilos de comunicacao analisados por Rojo e Esteban (2005). Enquanto o estilo relacional e apontado em seus aspectos positivos para as mulheres, o estilo informativo, direto, associado aos homens, e apontado como menos adequado para interacoes comunicativas. Tambem a possibilidade de escolher entre um e outro de acordo com a situacao, adotando o denominado estilo performativo, aparece subentendida nos depoimentos de E46 e E48.

A Detalhista

Em torno dessa personagem esta a nocao de que as mulheres tem uma capacidade de organizacao, a qual e apontada pelas executivas como atributo positivo para o trabalho. Organizar, primeiramente, esta relacionado a propria organizacao do espaco. Como afirma E21, no trecho 15, a mulher estaria mais apta a identificar pequenas desorganizacoes no espaco em que trabalha. Alem disso, ela se preocuparia em acertar tais desvios, preocupacao que, para a enunciadora, apesar de ser encontrada tambem em homens, e associada ao genero feminino, o que podemos associar a propria nocao de divisao sexual do trabalho, que historicamente relegou as atividades de arrumacao do espaco domestico as mulheres (Pateman, 1993;Enriquez, 1990). A organizacao feminina advem tambem do apego aos detalhes, como sugere E21 e confirma E11, no trecho 16. Nota-se nesse discurso que o apego aos detalhes levaria, inclusive, a uma maior dedicacao das mulheres e a percepcao de questoes que, embora pequenas, fariam diferenca no desenvolvimento do trabalho.

(15) Eu vejo que tem algumas coisas que sao diferentes. Por exemplo, dentre essas coisas do dia a dia, se eu passar e ver que tem alguma cadeira fora do lugar ou alguma coisa, eu vou tender a me desviar pra fazer isso. Entao, sao essas coisas do genero feminino. Nao vou te dizer que o genero masculino nao tenha, porque eu acredito que tem. (E21)

(16) As vezes acontece de um homem nao ser tao dedicado ao trabalho e a mulher ser mais dedicada, porque a gente e muito detalhista. As vezes, o homem ve so o geral. E o detalhe, as vezes, faz diferenca. (E11)

Mais adiante na narrativa, E21 aprofunda as discussoes sobre a mulher como detalhista. Por exemplo, ter uma presidenta na organizacao implica muitas diferencas. Ao relatar a sua experiencia com os presidentes anteriores, sugere que a rotatividade no cargo pode estar associada a inadequacao dos ocupantes a empresa. Ja a nova presidenta, em um pressuposto, mostra-se mais adequada ao cargo, ja que e muito mais detalhista, atributo subentendido nos termos "cri-cri" e "nao deixa passar". Discute-se ainda que o desapego aos detalhes, tipico dos homens, e visto como certo desleixo.

(17) Eu diria para voces que ter uma presidente mulher faz toda a diferenca. A organizacao esta passando por um momento, iniciando um processo de sucessao. Tivemos duas experiencias anteriores de diretores homens. Nao ficaram. Entao, assim, a mulher e muito mais--no bom sentido, mas e a melhor palavra que eu consigo arrumar--ela e mais "cricri". Nao deixa passar. [...] Mas e muito diferente. Tem uma coisa do homem, em alguns momentos, "deixar correr o barco" mais. A mulher nao. Vai mais "isso, isso e aquilo". Eu percebo que tem esse tom. (E21)

O atributo da capacidade de organizacao e potencialmente ambiguo, ja que se apresenta de maneiras distintas dependendo do angulo que se observa. Se tais caracteristicas, por um lado, favorecem a dedicacao da mulher ao trabalho e incrementam sua capacidade de enxergar coisas que outros nao viram--o nao obvio -, por outro, estas podem desencadear em perda do foco principal do trabalho. Discute-se, ainda, se, permeando esse atributo, nao esta o estereotipo da mulher como dona do lar, estereotipo este ligado a socializacao das mulheres desde a infancia para o cuidado e organizacao.

A Versatil

A esta personagem esta vinculada a capacidade da mulher de fazer varias coisas ao mesmo tempo, o que e colocado como algo feminino e que contribui para a execucao de um trabalho que demanda dinamismo. Nesse sentido, as mulheres conseguem alcancar melhores resultados, sendo mais habeis que os homens na organizacao das tarefas, como ilustrado pelo trecho 18, de E23.

(18) A capacidade da mulher de fazer mil coisas ao mesmo tempo. So mulher que sabe fazer mil coisas ao mesmo tempo. So voce consegue mandar um e-mail, atender um telefone e falar com a pessoa que esta sentada na sua frente (sic) ao mesmo tempo. Nenhum homem faz isso. Chega uma hora que eles surtam. Entao, eu acho que isso e o que leva as mulheres a serem infinitamente melhores do que os homens. (E23)

Ao mesmo tempo em que conseguem lidar bem com a diversidade de atividades, mulheres tambem sao apontadas como tendo uma facilidade de se apropriar ou nao de determinadas caracteristicas quando necessario ao trabalho, o que atesta sua versatilidade. Como exemplo, no trecho 19, E20 alega ser o consumismo algo caracteristico do feminino (19)"Ah ... porque, por exemplo, eu sou diretora financeira, tenho que controlar para nao gastar, dizem que mulher e muito gastadeira (risos)" (E20). Apesar de relativizar a presenca de tal caracteristica nas mulheres--implicito em "dizem que"--, afirma, em seguida, que esta e uma caracteristica normal, padrao do feminino, e que ela nao tem. Outra questao a ser enfatizada refere-se ao entendimento de que tal caracteristica seja um empecilho apenas para os diretores financeiros. E20 chega, inclusive, a alegar que em outras diretorias atributos tipicamente femininos influenciariam positivamente. Em um intertexto, sugere-se que a diretoria adequada as mulheres seria a de RH, relacao pautada no estereotipo da mulher mae e cuidadora.

Ser versatil implicaria ainda distanciar-se da condicao de mulher, quando necessario, alinhando-se com os atributos masculinos, quando entendido que estes contribuem mais para o desempenho organizacional. O estereotipo da mulher faladeira e renegado pela executiva, que nao se reconhece nesse perfil, sugerindo que em determinados momentos e mais conveniente alinhar-se aos homens e sua maneira de trabalhar, sem falacao, como podemos depreender do trecho (20) "Mas assim, regra geral muita mulher pra trabalhar fica aquela falacao e um monte de homem pra trabalhar nao fica aquela falacao. Entao, e engracado, eu trabalho bem com homens e mulheres, mas eu me dou melhor trabalhando com mais homens" (E10).

Temos, dessa forma, os principais atributos associados ao feminino que contribuem ou nao para o trabalho executivo. Como eixos principais das caracteristicas que sao tidas como femininas observam-se a capacidade de negociacao, a qual se desdobra em "jogo de cintura" e flexibilidade. Tambem sinalizamos que a capacidade de organizacao e realizacao de multiplas tarefas, simultaneamente, conduz ao apego aos detalhes e a versatilidade. Ja quanto aos atributos que prejudicam a execucao do trabalho, ressaltam-se a mulher como faladeira, geradora de conflitos e consumista. O quadro 2 sintetiza essas formulacoes, caracterizando as personagens, a selecao lexical e as competencias e incompetencias associadas aos atributos entendidos como femininos, a partir da relacao entre os significados implicitos, explicitos e silenciados.

Nesse sentido, constata-se uma referencia a um possivel estilo feminino de gestao, corroborando os argumentos de autores como Bruschini e Puppin (2004), os quais ressaltam que determinadas qualidades associadas ao feminino sao consideradas como diferenciais, vantagens competitivas no meio empresarial. Porem, indagamos se por tras de tais vantagens nao estaria uma aproximacao ao que Knights e Kerfoot (2004) se referem como uma masculinizacao das feminilidades, colocadas a servico da organizacao. Nesse caso, ao se aproximarem das caracteristicas tidas como masculinas, as mulheres estariam mesmo dispostas a abrir mao de atributos que as caracterizam como mulheres, ou seja, suas feminilidades?

Se respondermos que sim, estaremos reiterando a submissao da mulher ao homem que se impoe, relacionando-se ao estereotipo da mulher naturalmente maternal e generosa,em oposicao ao do homem rigido e autoritario. Outra opcao seria opor-se a essa alternativa, acreditando que e por meio de suas feminilidades que as mulheres legitimam-se no espaco organizacional, e se existe um mecanismo de genero que opera nesse meio, ele reflete, sobretudo, relacoes de poder. Nesse sentido, na medida em que se aproximam dos espacos de poder, as mulheres podem dar novos contornos e apontar para novas possibilidades de atuacao nesse meio, as quais se aproximariam de formas mais colaborativas e dotadas de sensibilidade e humanismo, independente de se ser desempenhadas por homens ou mulheres.

6 CONSIDERACOES FINAIS

A analise empreendida ilustrou como os ideais de gestao referidos pelas executivas sao influenciados pelas relacoes de genero. O que foi referido como supostamente "neutro" ao genero, no percurso semantico do trabalho executivo, traz implicitas ideias apropriadas na literatura gerencialista como pertencentes ao dominio masculino. A objetividade e a racionalidade exigidas para alcancar os resultados pretendidos a qualquer custo, embora nao referidos como influenciados pelo genero, pressupoem uma valorizacao de ser reconhecido pelo outro e certa glamorizacao do trabalho executivo. O distanciamento e a superioridade, nitidamente ilustrados em metaforas como a do "deus organizacional" seriam atributos necessarios para alcancar a diferenciacao por meio do poder.

Constatamos, tambem, que os ideais da funcao executiva guardam inumeros embates. Questionamos se os atributos colocados pelas enunciadoras como distintivos da funcao estao mesmo destituidos das interfaces com o genero. Se considerado que a funcao executiva ate pouco tempo era ocupada prioritariamente por homens, sendo ate hoje em sua maioria masculina, pode-se discutir que a institucionalizacao de tais caracteristicas perpassou, necessariamente, essa construcao historica efetivada pelos e para os homens. Entretanto, independentemente, argumentamos que ao delinearem o que seria um executivo, para alem das influencias do genero, essas mulheres acabam por delimitar um ideal de profissional, a ser seguido no exercicio da atividade laboral.

Como atributos femininos valorizados no espaco organizacional, encontramos a multiplicidade de competencias e a capacidade da mulher de se dividir entre diferentes atividades. E importante salientar que tais atributos, ao mesmo tempo em que contribuem para o desempenho gerencial e aproximam as mulheres do ideal de profissional para a funcao que exercem, as aproximam tambem das negatividades do executivo.

Ressaltamos que o proposito dessa analise nao era encontrar um modelo especifico de gerenciamento feminino, ja que o foco do estudo nao e a gestao em si, mas as feminilidades de quem a realiza. Em suma, os espacos simbolicos de genero no topo da hierarquia organizacional ainda reservam as masculinidades um lugar privilegiado. Por isso, essa postura convencionada ao longo do tempo ainda pauta parte dos comportamentos de pessoas em posicoes de comando, mesmo de mulheres. Entretanto, nao podemos desconsiderar que tais mulheres trazem consigo manifestacoes singulares de suas feminilidades, seja em seu modo de comunicar, liderar e interagir com seus pares e subordinados. Assim, o estudo dessas caracteristicas deve ser aprofundado em novas pesquisas, a fim de se entender as novas significacoes de feminilidades como parte da esfera publica da sociedade, em especial do mercado de trabalho executivo.

DOI: 10.7769/gesec.v4i1.139

REFERENCIAS

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Knights, D & Kerfoot, D. (2004). Between representation and subjectivity: gender binaries and the politics of organizational transformation. Gender, work and organization. Oxford, vol. 11, n. 4, pp.430-454, 1 julho, 2004.

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Raquel Santos Soares Menezes

Doutora em Administracao pela Universidade Federal de Minas Gerais--UFMG

Professora do Instituto de Ciencias Humanas e Sociais da Universidade Federal de Vicosa--UFV

E-mail: soares.raquels@gmail.com (Brasil)

Janete Lara Oliveira

Doutora em Administracao pela Universidade Federal de Minas Gerais--UFMG

Professora da Universidade Federal de Minas Gerais--UFMG

E-mail: janetelara@cepead.face.ufmg.br (Brasil)

Ana Paula Rodrigues Diniz

Mestre em Administracao pela Universidade Federal de Minas Gerais--UFMG

Analista do Escritorio de Prioridades Estrategicas do Governo de Minas Gerais

E-mail: anaprdiniz@hotmail.com (Brasil)

Data de recebimento do artigo: 13/03/2013

Data de aceite do artigo: 02/05/2013
Quadro 1--Percurso semantico do ideal da profissao executiva.

PERSONAGEM/                         CARACTERISTICAS   CARACTERISTICAS
SELECAO LEXICAL   SIGNIFICADOS      POSITIVAS         NEGATIVAS

O Comandante      Explicito:        -Coloca ideias    -Centralizador.
Front, dar a      profissional      suas ou de        -Egoista.
cara a tapa,      que tem           outros em         -Egocentrico.
poder de          conhecimentos     pratica.
execucao, topo.   superiores, que   -Capacidade de
                  delineia os       articulacao.
                  caminhos para
                  outras pessoas.

                  Implicito: o
                  excesso de
                  pragmatismo
                  leva o
                  executivo a
                  abandonar
                  valores e se
                  desumanizar.

O Nobre           Explicito:        -Profissional     - Superioridade.
Bem-vestido,      profissional      importante e      - Ostentacao.
ser supremo,      bem-sucedido      socialmente bem   - Distanciamen-
deus organiza-    materialmente;    reconhecido.      to de outras
cional, pensar    distincao         - Possui alto     pessoas na
estrategica-      social do         conhecimento da   organizacao.
mente.            cargo.            organizacao.      - Nao envolvi-
                                    - Capacidade de   mento nos
                  Implicito:        pensar e agir     processos
                  construcao de     estrategica-      operacionais.
                  estereotipos e    mente.
                  padroes de
                  postura e
                  imagens
                  requeridas.

O Politico        Explicito:        - Habilidade de   - Desumaniza-
Relacoes          capaz de          negociacao e      cao, sobreposi-
internas, jogo    articular         gerenciamento     cao dos valores
de cintura,       relacoes          de equipes.       economicos aos
relacoes e        conflitantes e                      pessoais.
disputas de       competicoes                         - Relacoes
poder, puxar o    entre os pares.                     interesseiras.
tapete,
competicao.       Implicito:
                  postura
                  pragmatica do
                  executivo;
                  capacidade de
                  execucao e
                  dinamismo; ins-
                  trumentalidade.

O Dedicado        Explicito:        - Senso de res-   - Excesso de
Disponibilidade   dedicacao e       ponsabilidade.    atividades.
para o            disponibilidade                     - Tensao.
trabalho,         conferem          - Importancia     - Centraliza-
exigencia,        importancia a     da funcao.        cao.
urgencia,         funcao do         - Focados no      - Nao se
pressao,          executivo;        objetivo.         preocupam com
enlouquecedor,    excesso de                          as pessoas.
incomensuravel,   atividades e
dinamismo,        tensao.
fazer as coisas
acontecerem.      Implicito:
                  desgaste fisico
                  e psicologico;
                  sobrecarga de
                  atividades.

Fonte: Elaborado pelas autoras.

Quadro 2--Percurso semantico das feminilidades das executivas.

PERSONAGEM/          ATRIBUTO
SELECAO LEXICAL      FEMININO        COMPETENCIAS     INCOMPETENCIAS

A Negociadora     Explicito:        -Cautela e        -Dificuldade de
Escorregar,       capacidade de     jogo de           se impor.
boba, pacata,     resolver          cintura".         -Expectativa de
omissa,           situacoes         -Capacidade de    submissao.
cautela,          conflitantes.     percepcao das
maleavel,                           necessidades
boazinha.         Implicito:        alheias.
                  disposicao para
                  ceder em
                  negociacoes.

A Detalhista      Explicito:        - Capacidade de   -Desviam a
Fora do lugar,    arrumacao e       organizacao.      atencao dos
desviar, mais     trabalho de       - Enxergar o      pontos
dedicada, "cri-   mulher (divisao   nao obvio.        principais.
cri", nao deixa   sexual do
passar.           trabalho).

                  Implicito:
                  pequenas
                  diferencas
                  podem impactar
                  no desenvol-
                  vimento do
                  trabalho.

A Versatil        Explicito:        -Dinamismo        -Dificuldade
Fazer mil         capaz de fazer    -Habilidade de    para falar
coisas ao mesmo   varias coisas     organizar         nao.
tempo, eles       ao mesmo tempo.   melhor as
surtam, elas                        tarefas.
sao melhores,     Implicito:
falacao.          acumulam
                  atribuicoes com
                  naturalidade;
                  escolhem quando
                  querem se
                  aproximar ou
                  afastar dos
                  estereotipos
                  femininos, por
                  conveniencia.

Fonte: Elaborado pelas autoras
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Author:Menezes, Raquel Santos Soares; Oliveira, Janete Lara; Diniz, Ana Paula Rodrigues
Publication:Revista de Gestao e Secretariado
Date:Jan 1, 2013
Words:7342
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