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Fruit and vegetable distribution in Brazil: the role of food supply centres and supermarkets/ Distribuicao de hortifruti no Brasil: papel das Centrais de Abastecimento e dos supermercados/ Distribucion de frutas y verduras en Brasil: el papel de las centrales de abastos y de los supermercados/ Distribution de fruits et de legumes au Bresil: le role des centres d>approvisionnement et des supermarches.

Introducao

Desde meados da decada de 1990, o setor supermercadista do Brasil e de outros paises latino-americanos tem experimentado uma reformulacao impulsionada pela extensiva entrada de capital estrangeiro, sobretudo em direcao as grandes redes ja existentes. Tendo-se ai o aprofundamento de fusoes e aquisicoes no setor. Investimentos em logistica e tecnologias de informacao e comunicacao (TIC) passam a dar o tom de um processo de verticalizacao com fornecedores--em 2000, o setor varejista brasileiro investiu R$ 1,9 bilhoes (1) em tecnologias de informacao e comunicacao, em infra-estrutura logistica e em aquisicoes (Silverman e Wasserman, 2001). Ao mesmo tempo, experiencias de origem estatal, como as centrais de abastecimento (CEASAs) enfrentaram relativo abandono quanto a sua gestao e a suas condicoes infraestruturais. De modo geral, as centrais de distribuicao das grandes redes de supermercados passaram a impor uma outra relacao com os seus produtores-fornecedores.

Ate assumir a complexidade atual, o varejo alimentar brasileiro cresceu de forma horizontal e vertical, incorporando funcoes paralelas (Benetti, 2004), o que acabou por induzir a coordenacao mais estrita em toda a cadeia produtiva com reducao de custos e maior controle de qualidade dos produtos (Farina, 2002). Desse modo, a funcao dos supermercados, no setor hortifruti, passou a se confundir com funcoes de atacadistas. Na Europa por exemplo, as antigas centrais publicas atacadistas tiveram que repensar o seu papel, reposicionando-se quanto a sua relacao entre produtores e distribuidores (Cadilhon, Fearne, Hughes e Moustier, 2003). No Brasil, onde as centrais de atacado foram planejadas como um instrumento para o funcionamento da politica publica ainda nao esta claro para que lado deve caminhar esse reposicionamento (Reardon et al, 2003). Por um lado, a modernizacao do varejo se deu com tanta forca que o abastecimento alimentar deixou de ser apontado como um ponto de estragulamento para o escoamento da producao de hortifrutis. Por outro lado, por se tratar de um aspecto diretamente ligado a seguranca alimentar da populacao e fundamental que o Estado preserve algum espaco de regulacao.

No debate do final da decada de noventa, chegou-se a colocar as centrais atacadistas e os supermercados em posicao de competidores (Green e Schaller, 2001), criando-se uma oposicao entre a distribuicao tradicional e distribuicao moderna, respectivamente. Nessa perspectiva, as centrais de distribuicao privadas substituiriam as CEASAs devido a sua maior eficiencia, tendo em vista as novas condicoes de competicao agroalimentar. No entanto, as CEASAs se mantem como estruturas cruciais para interconexao entre produtores e consumidores de diferentes estados brasileiros. Dessa forma, e inegavel a sua importancia para o abastecimento alimentar--um eixo especifico para a concretizacao da Seguranca Alimentar e Nutricional (SAN)--e para os pequenos e medios varejistas. Ademais, as grandes redes de supermercado se utilizam, em alguma medida, dos servicos de empresas atacadistas. Com isso, em meados da decada 2000, a discussao sobre o papel que as centrais teriam que cumprir volta com maior forca sob a perspectiva renovada de que estas deveriam ser modernizadas de forma a se constituirem como plataformas logisticas (Green, 2003; Gonzalez, 2003).

Nesse trabalho, objetiva-se apresentar as mudancas observadas no sistema de distribuicao de hortifrutis no Brasil nos ultimos anos e as possibilidades colocadas para as Centrais Publicas de Abastecimento. O texto se baseia em estudo realizado durante o ano de 2010 e que contou com levantamento de dados secundarios e entrevistas realizadas com diversos atores do segmento de distribuicao. A analise se encontra dividida em cinco secoes, a saber: aspectos historicos e caracterizacao do abastecimento de hortifrutis no pais; consideracoes teoricas sobre o tema; metodologia empregada na pesquisa; resultados e conclusoes.

1. Centrais de abastecimento, centrais proprias de distribuicao e consumidores: contextualizacao do abastecimento de hortifruti no Brasil

Na decada de 1980, quando a Uniao transferiu o controle acionario das centrais de abastecimento para estados e municipios, havia trinta e cinco unidades em operacao, alem de trinta e dois mercados do produtor, nas zonas rurais e cento e cinquenta e oito equipamentos varejistas--vinte e sete hortomercados; cinco feiras cobertas; cinquenta sacoloes; dois sacoloes volantes; oito modulos de abastecimento; sete feiras livres e cinquenta e nove varejoes--na zona urbana (Mourao e Magalhaes, 2009). Nesse periodo, as operacoes das CEASAs se articulavam com equipamentos varejistas e com os mercados do produtor conforme havia sido planejado com a criacao do Sistema Nacional de Centrais de Abastecimento (Sinac). Passados mais de vinte anos do fim desse sistema, existem no Pais 72 entrepostos atacadistas, que seriam administrados por 41 instituicoes gestoras. Dessas instituicoes, 15 sao estaduais, 19 municipais, duas sao federais e 5 sao Organizacoes conveniadas (Cunha, 2010).

O fim do SINAC nao culminou na reducao do numero de centrais de abastecimento, porem sua funcao na atividade abastecedora se tornou difusa e sem articulacao. Em outras palavras, a pulverizacao, em 1988, do controle acionario das centrais de abastecimento nao desencadeou uma revisao do paradigma de relacionamento entre setor privado e publico que possibilitasse a construcao de uma nova regulacao da atividade abastecedora de hortifruti no Brasil.

A partir da ruptura do sistema de centrais de abastecimento, distinguem-se dois comportamentos principais na trajetoria de comercializacao das unidades atacadistas um observado de 1995 a 1999, e que e marcado por uma oferta relativamente constante dos volumes comercializados, e outro, que vai de 2000 a 2009, no qual ocorre aumento significativo do volume ofertado em relacao ao periodo anterior, bem como crescente ao longo de 2000-2009. O grupo frutas e aquele com maior volume comercializado nesse segundo momento--cerca de 44 milhoes de toneladas contra 39 milhoes de toneladas de hortalicas. Ademais, de 1995 a 2009, esses grupos representaram 97,17% da quantidade de hortigranjeiros ofertada pelos entrepostos (2).

Em meados dos anos 1980--ainda sob a regulacao do SINAC--passavam pelas CEASAs mais de 8 milhoes de toneladas de hortigranjeiros por ano e os atacadistas--que seriam em torno de 14 mil--eram responsaveis por 30% da comercializacao da producao brasileira desses alimentos (Araujo, 1986). Apesar de nos anos 1990 e 2000, os volumes de frutas e hortalicas vendidos por empresas atacadistas serem robustos, o setor privado, leia-se redes de supermercado, passou a coordenar a distribuicao de hortifruti especificamente para suas lojas e a 'desenvolver' fornecedores exclusivos de hortifruti. A partir da distribuicao moderna, os supermercados sairam da esfera local de abastecimento desses alimentos, uma vez que: "expansion efforts to date have been largely intra-regional [...] some chains are starting to move beyond their traditional territory in order to tap new market potential" Silverman e Wasserman (2001, pp. 28-29).

Os supermercados surgiram no pais na decada de 1950, tiveram uma grande expansao a partir da urbanizacao e das reformas tributaria e bancaria estabelecidas pelos governos militares, a partir da decada de 1960. Entretanto, as maiores mudancas em relacao ao relacionamento supermercadista com a agricultura ocorrem desde inicio dos anos 1980, quando se passa a buscar suprimentos para a comercializacao de hortigranjeiros por meio do estabelecimento de contratos com produtores: "as transformacoes na esfera da circulacao caracterizaram-se, portanto, pela tendencia a concentracao de capital, com a consolidacao do grande capital comercial" (Maluf, 1988, p. 284). Alem de ter contado com incentivos financeiros estatais (Campino e Cyrillo, 1990), os supermercados se beneficiaram de uma paralisia nos investimentos publicos e da falta de um amplo plano de abastecimento urbano de modo que se configurou sua quase hegemonia na distribuicao de alimentos para a populacao que se acumulava nas cidades.

A contundente participacao do autoservico que, em 2010, controlava 91,8% das vendas do varejo (3) no Brasil pode ser desmembrada em outros indicadores do setor supremercadista do Pais, considerando-se as 500 maiores empresas do setor, tais como: 35.766 lojas; 148.968 chekouts; 762.666 funcionarios; 14,1 milhoes de metros quadrados de area de vendas e faturamento nominal de R$ 162,5 bilhoes. A Companhia Brasileira de Distribuicao e o Carrefour se revezavam entre as primeiras posicoes do Ranking da Associacao Brasileira de Supermercados (ABRAS) desde fins dos anos 1980. Esse aspecto combina com o pioneirismo da Companhia Brasileira de Distribuicao nas transformacoes ensejadas na distribuicao de frutas e legumes, sobretudo, a partir de fins da decada de 1990.

Portanto, ha uma grande diferenca na forma de operacao desse 'comercio moderno' e os sistemas tradicionais operados pelas Centrais Publicas Atacadistas no que se refere a interface entre a producao e os consumidores, uma vez que enseja inovacoes organizacionais para coordenar as atividades comerciais em massa. Na distribuicao atacadista moderna, o momento da transacao entre comprador e fornecedor prescinde da presenca fisica da mercadoria hortifruti. Com isso essas centrais tem permitido a reducao da manipulacao fisica, tempo de transporte e armazenagem de produtos pereciveis como os hortifruti. Ademais, essas plataformas estao adaptadas tecnicamente a manutencao de grandes volumes fisicos que, por sua vez, conduzem a uma reducao substancial dos custos (Cury e Freitas, 2001; Belik, 2000). O sistema de plataformas de distribuicao constituiu um modelo de distribuicao homogeneo, como um prolongamento natural das operacoes de producao com funcionamento agregado das atividades (Green e Schaller, 1996). Vale mencionar que o controle da plataforma de distribuicao garante um maior poder de negociacao entre as partes e a possibilidade de regular oferta e demanda de modo a permitir um maior equilibrio de posicoes.

Analisando o exemplo europeu e mesmo latino americano observa-se que a coordenacao desses equipamentos raras vezes e feita pelo elo da producao agricola sendo mais comum o dominio do varejo, setor de restauracao ou mesmo de empresas de logistica independentes (Reardon et al., 2006). Ou, conforme Meer e Ignacio (2006), a pequena producao perde sua posicao no mercado agroalimentario quanto maior for a coordenacao entre cadeia de suprimentos e produtores, agroindustria, exportadores e varejistas. Dessa forma, segundo esses autores, caberia ao setor publico promover condicoes menos desiguais de competicao para a pequena producao por meio de mudancas institucionais e na legislacao.

Frutas, legumes e verduras "alcancam sua qualidade maxima no momento da colheita, nao podendo ser melhoradas, mas somente preservadas ate um determinado limite. (Oliveira e Rocha, 2005, p. i). Segundo as autores nao ha, entre os produtores, o seguimento de iguais padroes de tecnologia de producao, alem de se observar diferentes praticas de manejo. Nesse contexto, seus precos sao variaveis, aumentando a incerteza no setor (Souza, 2005). Por outro lado, iniciativas nessa area, mantidas pelo setor privado, sao insuficientes para dar conta de problemas estruturais como: alto custo dos fretes agricolas nacionais, uso de veiculos inadequados, acondicionamento dos produtos em embalagens inadequadas. Da mesma maneira, as Centrais Publicas--cuja operacao esta atrelada a distribuicao e comercializacao--raramente podem se dedicar a assumir funcoes de assistencia tecnica aos produtores e sua capacidade de logistica em relacao ao pos-colheita e bastante limitada.

1.1 Importancia de CEASAs e centrais proprias de distribuicao para o abastecimento de hortifruti

De acordo com o diagnostico dos mercados atacadistas realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 2009 e tendo por base 60 CEASAs quanto ao destino dos bens comercializados, 25 entrepostos foram classificados como 'internalizado forte'--ou seja, entregam os seus produtos dentro dos limites regionais--e, em outro extremo, ii entrepostos sao do tipo 'externalizado forte' e responderiam por 19% da comercializacao nacional e aqueles, por 25%. Alem disso, Cunha (2010) identifica a existencia de entrepostos com elevado grau de proximidade e participacao de produtores rurais que exercem papel importante para o abastecimento de suas regioes de influencia.

Em 2009, as centrais ofertaram 74,1 milhoes de toneladas de hortigranjeiros, totalizando uma movimentacao anual de R$ 10,7 bilhoes. As principais centrais brasileiras de abastecimento naquele ano foram: Ceagesp (estado de S. Paulo) cuja quantidade comercializada representou 34,6% do total; CEASA-MG Grande Belo Horizonte, com 15,7%, CEASA-RJ Grande Rio, 11,1%. O raio de atuacao das centrais de distribuicao proprias, por sua vez, se restringe as regioes Sul, Sudeste e, em alguma medida, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Dessa forma, o provimento de municipios e estados distantes desse raio, da-se por centrais de abastecimento, com destaque para Ceagesp. Como afirmaram os gerentes comerciais entrevistados durante a realizacao do presente trabalho, para as suas lojas localizadas no nordeste do Pais, as centrais publicas de abastecimento constituem-se importantes elementos para garantir suas vendas desse alimento (4). Em 2009, as duas principais redes de supermercado, juntas, teriam nao mais do que quinze centros de distribuicao que se concentram na regiao sudeste do Brasil. A Companhia Brasileira de Distribuicao contaria com plataformas logisticas que somariam area de 28.000 metros quadrados.

Em outras palavras, a localizacao geografica dos supermercados pode ser desenhada como segue: 51,2% das lojas na regiao Sudeste com 54,86% do faturamento total; 25,8% na regiao Sul com 19,78% do total; 18,6% das lojas nas regioes Norte e Nordeste com faturamento equivalente a 19,62% do total. A regiao Centro-Oeste conta com apenas 4,5% das lojas, as quais representam 5,74% do faturamento total divulgado pela ABRAS. Destaca-se o estado de Sao Paulo com 32,1% das lojas; Rio Grande do Sul 14,5%; Rio de Janeiro 7,7%; Minas Gerais com 9,9% e Bahia 9,2% das lojas do setor apresentado no Ranking ABRAS 2010. Nesse mesmo ano, Amazonas, Maranhao, Amapa, Acre, Tocantins, Rondonia e Roraima juntos representaram 1,2% do numero de lojas. Ha uma parte da populacao brasileira que nao esta coberta pela atuacao dos supermercados e, por conseguinte, pela sua secao de vendas de hortifruti.

Ademais, transformacoes acarretadas pelos supermercados na comercializacao de hortifruti podem ser percebidas por meio da dimensao que esses equipamentos detem junto a populacao urbana do pais. Dados da ACNielsen, apresentados por Martins, Margarido e Bueno (2007), mostram que no periodo 1981/82, cerca de 90,2% das frutas, em media, eram adquiridas pelos consumidores brasileiros em feiras livres contra apenas 5% adquiridos nos supermercados. Em 1998/99, tal disposicao se modificou, isto e, nas feiras livres os brasileiros teriam adquirido 54% das frutas e nos supermercados 33%, o que teria representado aumento de 577% na comercializacao de frutas pelos supermercados no periodo. Em 2003, pesquisa da Latin Panel demonstrou que 46% dos brasileiros entrevistados nao compram frutas e hortalicas em supermercados, o que, em 2007, teria caido para 31%, enquanto que apenas 30% dos brasileiros entrevistados declararam o supermercado como local exclusivo para compra de hortifruti (Martins et al., 2007). Ao passo que uma pesquisa realizada pela Hortifruti Brasil, em 2009, mostrou que nos ultimos anos, 39% da populacao brasileira entrevistada adquiriu esses alimentos tanto em supermercados como em outros equipamentos (Hortifruti Brasil, 2010).

Dessa forma, as grandes redes de varejo de alimentos precisam adotar estrategias do lado da demanda e da oferta, em ambito local, que as mantenham competitivas globalmente. Berdegue et al (2002) lembram que especialmente do lado da oferta, a distribuicao moderna determina para todos os elos da cadeia--da producao ate a venda ao consumidor final--a necessidade de maior eficiencia. Assim, as grandes redes determinam aos seus fornecedores de hortifruti especificacoes tecnicas sobre aparencia, qualidade, acondicionamento desses alimentos, bem como, esses produtores-fornecedores devem atende-las em uma escala minima de produtos (Berdegue et al., 2002).

Greater control is observed along the entire food supply chain. Inputs are no longer obtained in the open markets but sourced from suppliers certified to have good agricultural and good manufacturing practices and a tracking and tracing system. The focus is no longer on the quality of outputs only but also on the methods and safety conditions of production and manufacturing processes (Meer e Ignacio, 2006, p. 86).

A disponibilidade desses alimentos, especialmente no ambito da Seguranca Alimentar e Nutricional, deve ocorrer para toda a populacao do territorio brasileiro. Sendo a distribuicao de hortifruti um elemento para que isso se materialize, distinguem-se duas situacoes: (i) as centrais de abastecimento gestionadas pelo setor publico com unidades na maioria dos estados brasileiros e (ii) a presenca de supermercados restrita a areas onde nao ha certo potencial de consumo nao demandam instalacao de lojas.

1.2. Abastecimento alimentar: centrais de abastecimento, centrais proprias de distribuicao e a exigencia de qualidade dos alimentos hortifruti

A partir da definicao de Barret e Mutambatsere (2005, p. 2): "markets aggregate demand and supply across actors at different spatial and temporal scales", entende-se que, basicamente, a atividade de abastecimento permite interligar a producao de hortifruti em escala nacional. Garante-se, assim, que regioes nao produtoras de determinado produto possam consumi-lo, uma vez que outra regiao o produz. O abastecimento possui um carater mercadologico e outro de bem comum, que deveria estar sob regulacaoestrategica do setor publico. E tambem no abastecimento que se podem implementar diretrizes com vistas a garantir qualidade aos alimentos hortifruti.

O centro de distribuicao, os recursos de logistica e o estabelecimento de contratos pelos supermercados com os produtores seriam o nucleo da chamada distribuicao moderna. Eles possibilitaram: "[...] d'une part d'optmiser les niveaux de charges des camions, et d'autre part d'homogeneiser les systemes techniques de traitement des ruptures de charges, avec un impact significative sur l'evolution des couts logistiques" (Green e Schaller, 1996, p. 15). Esta refletida, assim, uma importante mudanca estrutural da empresa comercial moderna que, alem de 'multi-unit' e 'multi-functional' se transforma em 'multiindustrial' e 'multi-nacional', mais ainda, "they continued to integrate mass production with mass distribution" (Chandler, 1978, p. 122). A distribuicao de hortifruti operada pelos supermercados envolve a coordenacao da negociacao de precos e do transporte, manipulacao, expedicao dos produtos e da orientacao, via sistemas de informacao, dos fluxos de produtos. Nessa perspectiva, a competicao entre as redes de supermercado pressupoe investimentos em processos de distribuicao mais eficientes, melhora dos produtos por meio de P&D, localizacao vantajosa da planta produtiva--em relacao ao mercado consumidor e/ou insumos produtivos--, alem da expansao do mercado consumidor atraves da propaganda (Chandler, 1978).

Como destacam diferentes autores (Viteri, 2006; Wilkinson, 2001; Busch, 2000; Cavalcanti, 2004, Meer e Ignacio, 2006 e Reardon et al, 2006), a globalizacao agroalimentar culmina no uso da qualidade como um dos instrumentos principais de comunicacao entre o varejo e o consumidor, haja vista a demanda assumir significativo papel no ordenamento de cadeias agroalimentares. A logistica usada pelos supermercados constituiria, entao, um instrumento para atender as exigencias dos seus clientes. Ao mesmo tempo que o consumidor passaria a diagnosticar o supermercado como um local onde os produtos sao mais bem expostos e manipulados e contam com garantias sobre a origem do produto, alem da sua area de vendas e mais higienica e de facil circulacao comparativamente ao ambiente das feiras. Em outras palavras, o consumidor transfere a confianca e a reputacao que atribuia ao produtor ao supermercado.

No mercado brasileiro de hortifruti, a qualidade e definida a partir de caracteristicas individuais de cada rede de supermercado, o que tambem ocorre com a embalagem e a forma de apresentacao do produto. Nao ha, entao, uma "dependencia bilateral" entre distribuicao e fornecimento, por outro lado, ha um exercicio de poder de oligopsonio da parte do varejo, que pode ser notado pela crescente co-responsabilidade pelas vendas entre fornecedores e supermercados (Belik, 2000). Desse modo, o produto hortifruti em si e cada vez mais objeto de parametros e criterios cuja definicao escorre da alcada do setor publico.

A regulacao estatal dada a liberalizacao dos canais de comercializacao de alimentos promovida, sobretudo nos anos 1990, poderia ocorrer de modo a desenhar economias de escala por meio da construcao de infra-estrutura especialmente no tocante a distribuicao; provimento de bens publicos como informacao e padronizacao, bem como aprofundamento de arcabouco institucional para tratar desta questao (Jones, 1995). As medidas criadas teriam por intuito "... to assist new private marketing channels" (p. 553), de forma que o setor publico assumiria sua responsabilidade sobre a alimentacao, sem deixa-la exclusivamente a cargo do mercado.

E importante ressaltar que a forma como um pais assume a questao alimentar em suas politicas publicas e reflexo do seu nivel de desenvolvimento economico (Couto, 2001). A necessidade de elaborar e implantar instrumentos de carater emergencial--estrategia reforcada na decada de 2000--com vistas a fornecer alimentos a um dado grupo da populacao e um aspecto dessa relacao (Belik, 2007), embora possa ocorrer ambiguidade, interposicao e confusoes da parte do setor publico na conducao do abastecimento alimentar.

2. Metodologia

Para desenvolver esse estudo foram selecionados como componentes da amostra para a entrevista semi-estruturada, as seguintes unidades de analise: as Centrais Publicas de abastecimento--CEASA Campinas (SP), considerada modelo de central municipal e a Companhia de Entrepostos e Armazens Gerais de Sao Paulo Ceagesp, que representa ponto de referencia na atividade atacadista nacional, alem de cumprir relevante papel no abastecimento de varios municipios brasileiros. E uma das principais centrais atacadistas da America Latina. Vale considerar que a CEASA Campinas comercializa volumes robustos de hortigranjeiros apesar de estar localizada no mesmo estado que a maior central do pais.

Alem desses entes, incluiram-se as redes de supermercado: Companhia Brasileira de Distribuicao (Grupo Pao de Acucar); Grupo Carrefour, Oba Horti Fruti e Supermercados Covabra. As duas primeiras sao as principais redes de supermercados do Brasil, a Oba e uma rede de venda exclusiva de hortifrutis para o consumidor de alta renda e a Covabra e uma rede de porte medio no interior de Sao Paulo. Alem desses entrevistou-se alguns atacadistas fornecedores para supermercados.

Para as CEASAs a base de dados BI-ProHort deveria apresentar informacoes para 61 unidades, que tambem constituiriam o sistema de informacoes dos mercados de abastecimento do Brasil (SIMAB). Porem, em maio de 2010, a tabulacao de dados junto a essa base trouxe informacoes referentes a 2009 para apenas vinte e seis centrais atacadistas, alem de nao se ter encontrado no site da Conab referencia acerca da entrada em operacao do SIMAB. Alem disso, o BI-ProHort nao disponibiliza informacoes sobre a origem dos produtos comercializados nas centrais de abastecimento. Cunha (2010) salienta a inexistencia de dados acerca do setor atacadista de hortigranjeiros, de modo geral, no pais.

Ha aproximadamente trinta anos, a Associacao Brasileira de Supermercados (ABRAS) divulga, por meio da revista SuperHiper, o Ranking dos supermercados brasileiros, que busca fornecer um retrato do varejo de alimentos do pais em termos de concentracao, tamanho de lojas, indices de eficiencia, faturamento, numero de funcionarios. Cabe a empresa ACNielsen tabular as respostas dadas aos questionarios preenchidos pelos supermercadistas. No mais, para elaborar o Ranking, sao coletadas informacoes de quinhentas empresas--por volta de 59% do setor--cujo faturamento minimo anual seja R$ 100.000 e o numero de checkouts, maior do que dois. Para tanto, trabalhou-se com informacoes mais recentes, isto e, com o bienio 2008-2009.

3. Resultados

3.1 Estrutura atual dos centros atacadistas e varejistas

Quao mais concentrada a estrutura varejista, menor o papel dos atacadistas, atestam Cadilhon et al. (2003). No Brasil, em 2002, o faturamento das cinco maiores redes representava 38% do faturamento das quinhentas empresas tomadas por base para o calculo do Ranking ABRAS. Em 1994, as cinco maiores empresas correspondiam a 37,24% das trezentas maiores e, em 1988, as cinco maiores correspondiam a 31,47% do faturamento das trezentas e cinquenta maiores empresas. Em 2009, o faturamento das cinco maiores representou 43% do faturamento das quinhentas maiores empresas do Ranking, porem esse indice alcancou 63,68%, considerando-se somente as trezentas maiores empresas do setor. O faturamento das cinquenta maiores, em 2002, consistiu 49% da amostra trabalhada pelo Ranking ABRAS e, em 2009, 60% do faturamento total do setor. Esse grau de concentracao induziria uma relacao de oligopsonio entre o varejo supermercadista e os produtores, bem como reduziria o poder de mercado dos atacadistas. Corroboraram esse argumento o tecnico da CEASA Campinas e um dos socios da empresa atacadista Benassi. Para eles, quanto menor a concorrencia no varejo, maior o volume de vendas no entreposto.

As duas maiores redes de supermercado do Pais detem, cada uma, em torno de 20% do faturamento do setor. Ambas se utilizam de centrais proprias de distribuicao, tendo-as como estrategicas para uma melhor posicao de mercado no setor hortifruti. Recorrem aos entrepostos atacadistas em situacoes especiais, como quebra de safra, compra de algumas frutas importadas e para suprir lojas localizadas no nordeste do pais. Por isso e possivel afirmar que as duas maiores redes do Pais fazem uso, apenas contingencial dos entrepostos atacadistas. Ao passo que o supermercado Covabra, com 0,3% do faturamento total, depende do entreposto atacadista localizado em Campinas para comercializar hortifruti em suas lojas.

Alem de representar um instrumento para 'fidelizar' clientes, a secao de vendas hortifrutis vem se destacando como rentavel para as redes de supermercado. Conforme o Ranking ABRAS, em 2003 a secao de vendas de hortifruti equivalia a 6,3% do faturamento de quatrocentas e quarenta e tres empresas do setor e, em 2006, a secao de frutas e hortalicas participava com 6,3% do faturamento, sendo o parametro, 399 empresas. A partir de 2007, entretanto, hortifruti, acougue, frios e peixaria foram aglutinados pela metodologia do Ranking ABRAS em uma so categoria, a dos pereciveis. Desse modo, a participacao dos pereciveis no faturamento dos supermercados foi de 14,7%, em 2007 e de 18,1%, em 2008. No ano de 2009, quando o indice de vendas da secao de hortigranjeiros alcancou 6,1% do faturamento de 349 empresas que representariam 50,5% do faturamento do setor e, para 2008, a participacao deste produto foi divulgada como tendo sido de 6,0%. Para a Companhia Brasileira de Distribuicao, essa secao representa de 10 a 12% do seu faturamento; para o Grupo Carrefour, 33% do faturamento obtido com os pereciveis (media nacional); e para rede de lojas Oba Horti Fruti, esse produto representa de 40 a 50% do seu faturamento (5). Esses produtos tem se tornado, cada vez mais, um instrumento de concorrencia para os supermercados se diferenciarem uns dos outros.

Sobre o papel das centrais publicas de abastecimento na distribuicao e comercializacao de hortifruti, tendo em vista o processo de obsolescencia enfrentado pelas centrais desde a ruptura do SINAC, em 1986, podemos apontar um conjunto de problemas que materializam perdas para os produtores desses alimentos, tais como:

a) descaracterizacao do papel da central, ou seja, nao necessariamente ela se mantem sendo um local em que a negociacao possa levar a precos justos;

b) a compra consignada--produtor entrega hortifruti ao atacadista para que ele as venda em seu nome--e bastante frequente; os produtores enfrentam dificuldades para receber seu pagamento; e possivel observar certo nivel de concentracao entre os atacadistas. No decorrer do dia, o preco desse produto vai decaindo, isto e, o produtor nao tem garantias de renda;

c) empresas atacadistas que vendem diretamente a supermercados--em alguns entrepostos, como Ceagesp, CEASA Campinas e CEASA-SC Florianopolis, a distribuicao dos boxes seria desfavoravel para os produtores.

Em resumo, seja na distribuicao moderna, seja na tradicional, ha um gargalo quanto a coordenacao das trocas comerciais de hortifruti. Assim como fornecer para os supermercados representa um risco para o produtor o sistema antigo tambem nao o favorece estritamente.

De fato, os centros de distribuicao constituem estrategia fundamental das grandes redes de supermercado. Isso faz sentido nao somente por elas se valerem de maior numero de lojas--demandando maior esforco em supri-las continuadamente--como e, principalmente, pelo aspecto concorrencial, se os centros de distribuicao forem entendidos como inovacao tecnologica. Desse modo, o nivel de concentracao no setor supermercadista e a montagem desse aparato logistico na distribuicao de hortifruti estao interrelacionadas. Tecnicos da Ceagesp e da empresa atacadista Benassi afirmaram que os centros de distribuicao constituiriam estrategia de logistica e nao de concorrencia com as empresas atacadistas, logo, com os entrepostos atacadistas.

Para os gerentes comerciais de empresas como OBA Horti Fruti e Covabra (6), as Centrais Publicas de Abastecimento sao imprescindiveis--nao apenas quanto a logistica, mas tambem quanto a formacao de precos--e os seus problemas nao afetariam as transacoes comerciais dessas unidades varejistas. Essas empresas fazem de seus boxes na CEASA Campinas uma especie de central de distribuicao onde ha cameras frias, pessoal recebendo e controlando os produtos que chegam e saem para suas lojas--isto e, elas investem em TIC e na qualidade de hortigranjeiro, porem ambas prescindem do estabelecimento de contratos com produtores de hortifruti.

3.2 Principais entraves e novas possibilidades/ alternativas de organizacao do setor a partir da modernizacao das CEASAs

No ambito dos entrepostos, os problemas relacionados a gestao, a falta de recursos financeiros, dentre outras razoes, comprometem a percepcao do papel das centrais na distribuicao e abastecimento. De fato, as atividades de intercambio de hortifruti que ocorrem no interior dos entrepostos carecem de organizacao, fiscalizacao e dos beneficios proporcionados pela informatica e pela logistica moderna na organizacao dos fluxos de cargas. Nao somente com base nas afirmacoes obtidas por meio da aplicacao do metodo desse estudo--a entrevista semiestruturada--mas tambem com base em Green (2003); Gonzalez (2003); Viteri (2006); Cunha (2010)--, afirma-se que nao se trata de substituir os entrepostos pelas centrais de distribuicao, dado ambas constituirem um dos elementos de um todo complexo.

E no sentido de responder ao desafio que representa a distribuicao moderna e analisando o caso europeu que o autor afirma que, em meados dos anos 1990, as centrais atacadistas da Franca e da Espanha, passaram por uma segunda onda de mudancas na atividade e organizacao.

As centrais brasileiras, de modo geral, nao se valem de instrumentos bem delimitados para garantir que os produtos que intercambiam estejam de acordo com rigidas especificacoes de qualidade. Sao os supermercados, notadamente as grandes redes, que mais se aprofundaram nesse sentido. Embora as redes consideradas nesse estudo mantenham conhecimento do trabalho de classificacao e padronizacao elaborado e divulgado pelo Ceagesp, nao o seguem, porque 'ninguem o seguiria', exacerbando-se, assim, uma auto-organizacao do varejo impulsionada pelo supermercado. Vale, entao, a afirmacao de Green (2003, p. 28) "la evolucion se da principalmente hacia una nueva forma de relacion con el comercio moderno", que seria de complementaridade entre CEASAs e centros de distribuicao.

Em linha com Green (2003), Scarim e Lucci (2009) e Cadilhon et al. (2003) colocam que a evolucao do entreposto para os equipamentos de plataforma logistica representaria uma alternativa para a relativa perda de espaco dessas estruturas atacadistas. Cunha (2010) esquematiza as caracteristicas desses que seriam os 'mercados de terceira geracao' da seguinte forma: (i) busca de homogeneidade em escala nacional quanto a estrategias de cooperacao entre os mercados; (ii) transporte multimodal e da cadeia de frios em integracao progressiva; (iii) desenvolvimento de modernas estrategias e tecnologias para rastreabilidade; (iv) operacoes mais articuladas a questoes ambientais e tratamento de residuos; (v) estrategias de flexibilizacao fisica e normativa para atender a atacadistas que buscam novos nichos de mercado. Sao caracteristicas que colocariam os entrepostos atacadistas em proximidade com os centros de distribuicao das redes como Carrefour e Companhia Brasileira de Distribuicao.

3.2.1 Alternativas para organizacao da CEASA em vistas as transformacoes da distribuicao de hortifrutis no Brasil

As centrais de abastecimento sao estruturas que apresentam frentes para sua modernizacao, reestruturacao. Como afirmam Zylbersztajn et al. (1997, p. 632): "a funcao fisica, comumente desempenhada por entrepostos ou plataformas de distribuicao, apresenta elevadas economias de escala multiproduto, associadas a racionalizacao do transporte e a manipulacao e reagrupamento dos produtos." Portanto, do ponto de vista operacional, centros de distribuicao e centrais de abastecimento possuem caracteristicas semelhantes.

Green (2003), tendo como base o mercado de Rungis na Franca e a Mercasa na Espanha, aponta que a renovacao das centrais atacadistas passa pela incorporacao de novos servicos, incluindo sua transformacao em plataformas logisticas, pois seria possivel "anadir valor a los productos mediante diferentes servicios: recepcion y control de mercaderias, de almacenamiento climatizado, acondicionamiento, maduracion, empaquetado, preparacion de lotes y distribuicion de los productos" (p. 24). No Brasil, ja se observa a emergencia desse tipo de relacao entre os entrepostos atacadistas e redes varejistas. Lima e Godinho (2008) mostram que a rede Bretas de supermercados--cuja sede esta em Goiania-GO--faz de seus boxes na CEASA-Goias uma especie de central propria de distribuicao como o fazem a loja OBA de hortifruti e o supermercado Covabra na CEASA Campinas.

Gonzalez (2003, p. 9) adverte que cada vez mais o debate sobre a reformulacao do papel das centrais de abastecimento passa pela promocao da seguranca alimentar no ambito das atividades comerciais: "dos cuestiones indisolubles, la calidad y la seguridad alimentaria, que han recobrado un gran protagonismo en los ultimos tiempos". Portanto, aos entrepostos atacadistas caberia coordenar a promocao da seguranca dos produtos hortifruti em toda a cadeia. O autor usa o exemplo do sistema espanhol de abastecimento para afirmar que e fundamental a criacao de instrumentos para certificacao da origem dos produtos comercializados, bem como da classificacao e normatizacao operado pelas unidades atacadistas.

Da atividade atacadista brasileira, convem destacar iniciativas de teor modernizante implementadas na decada de 2000 recolhidas atraves dos meios de divulgacao (quadro 2). Elas refletem, em certa medida, transformacoes acarretadas na producao agroalimentar e no consumo.

Esse Quadro permite demonstrar que, a despeito da perda de uma sistematizacao entre as CEASAs, elas se mantiveram desempenhando funcoes importantes para a comercializacao de horitruti. Elas prestam servicos de informacao sobre precos e produtos de safra, embora o intercambio de informacoes entre as unidades assuma um carater informal. Nos ultimos anos, servicos como regulamentacao de embalagens foram reforcados e se espraiaram por diversas unidades brasileiras. Scarim e Lucci (2009) analisam a situacao da CEASA-ES e reconhecem que "a despeito de todos os problemas, as CEASAs ainda servirao de instrumento de politicas publicas para os hortigranjeiros por serem o unico elo da cadeia capaz de dar transparencia ao mercado, gerando informacao e conhecimento, compensando, assim, a carencia de dados estatisticos, tanto na producao quanto na distribuicao. Setores estes extremamente pulverizados" p. 9.

Nascimento (2008) destaca duas facetas das centrais de abastecimento, que devem ser consideradas na discussao sobre sua reformulacao: (i) mercado no sentido fisico do termo e (ii) instrumento publico de coordenacao do abastecimento de alimentos. Por definicao, prestam-se a apoiar medidas que facilitem a difusao uniforme de informacoes de mercado, homogeneizacao de normas, adequacao das condicoes higienico-sanitarias de manuseio e embalagem. Esses aspectos funcionais nao se esvaneceram.

O Programa de Modernizacao do Mercado de Hortigranjeiros (ProHort), lancado em 2007, concebe intencoes de renovacao da atividade atacadista em nivel nacional nos termos apresentados no Quadro 2. Entretanto, seus avancos se resumiram a estudos tecnicos, implementacao da base de dados BI-Prohort--que para a tecnica do CQH/Ceagesp, estaria aquem do potencial de informacoes das CEASAs--e resgate de documentos elaborados durante o SINAC. Esses avancos marginais podem ser explicados pela falta de recursos financeiros para executa-lo em toda sua complexidade. Cunha (2010) esclarece que o ProHort foi instituido como um programa de diretrizes do governo federal vinculado a Conab, sendo suas caracteristicas institucionais diferentes daquelas do SINAC. Trata-se de um "programa de diretrizes, desprovido de orcamento proprio e sem contar com linhas de financiamento para estudos ou investimentos, o Prohort e definido como uma associacao voluntaria de ajuda mutua que se desenvolve sob coordenacao de um agente publico" (p. 57).

Para um gestor de uma Central Publica de Abastecimento entrevistado, em 2010, por ocasiao dessa pesquisa, a estrutura do abastecimento brasileiro necessita ser repensada, isto e, a bifurcacao existente quanto a hortifruti que passa pelas CEASAs--atacado--e aqueles que estao sob o padrao das grandes redes de supermercados--centrais de distribuicao--precisa ser analisada quanto a situacao do produtor, alem das condicoes de acesso monetario pela populacao. O entrevistado tambem afirma que e necessario um orgao responsavel pelo abastecimento com diretrizes e prioridades bem estabelecidas, uma vez que no Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento (MAPA) nao existe corpo tecnico que se ocupe do abastecimento.

4. Consideracoes finais

O presente artigo apresentou os resultados de uma pesquisa realizada durante o ano de 2010 junto ao setor de distribuicao de hortifruti no Brasil. Beneficiado pelos levantamentos realizados pelo Prohort, projeto desenvolvido pela Conab junto as Centrais Publicas de Abastecimento, acrescido de dados secundarios e diversas entrevistas com gestores de supermercados, equipamentos publicos de abastecimento e tecnicos da area.

Com o fim do SINAC, o abastecimento nacional de hortifruti perdeu a articulacao entre o atacado, produtores e equipamentos de varejo. Principalmente, deixou de avancar em aspectos atinentes a garantir oferta de hortifruti inocuos com precos razoaveis, ou seja: na padronizacao e classificacao desses alimentos e na sistematizacao de informacoes.

De modo geral podemos afirmar que:

1. Ainda ha espaco para uma atuacao publica relativa ao abastecimento alimentar dentro dos principios da Seguranca Alimentar e Nutricional em que as Centrais Atacadistas controladas pelos governos federal, estadual e municipal desempenhariam papel central.

2. Um pais de dimensoes continentais como o Brasi requer um sistema publico de abastecimento interligado, com regulacao sobre a distribuicao privada.

3. Algumas CEASAs estao se reposicionando com amplos programas de modernizacao, principalmente em aspectos ligados a embalagem, informacoes de mercado e educacao nutricional.

4. Algumas acoes muito simples como a montagem de um sistema de informacoes, padronizacao dos produtos, reducao de perdas poderiam beneficiar o consumidor reduzindo precos e melhorando a qualidade do produto consumido. Do ponto de vista do produtor, uma atuacao direta das centrais de abastecimento poderia romper praticas de oligopsonio presentes no mercado brasileiro.

5. Merece destaque o papel que poderia ser desempenhado por esses equipamentos nos programas de incentivo ao consumo de alimentos frescos, tais como de nutricao e saude publica.

Um sistema publico para o abastecimento de hortifruti teria desafios relevantes para sua implementacao, sobretudo, em vista da parca articulacao existente entre as centrais de abastecimento quanto a administracao da interligacao de centros produtores, da regulamentacao de requisitos para comercializacao de hortifruti e da assistencia ao produtor quanto as transacoes comerciais no ambito dos entrepostos. Ademais, mesmo sendo possivel observar que as centrais privadas de distribuicao determinam uma coordenacao mais bem estabelecida com produtores e, a partir disso, de estabelecimento de criterios de qualidade para esses alimentos, sao basicamente as grandes redes de supermercado que as adotam amplamente como estrategia para alcancar melhores posicoes de mercado. Vale destacar que o 'lado da producao' tambem se transformou em relacao ao periodo no qual o SINAC persistiu, uma vez que se observa nao somente maior organizacao entre os produtores com vistas a assinatura de contrato com os supermercados--bem como atendimento de suas exigencias por qualidade--, como tambem a presenca de grandes distribuidores com boxes dentro dos entrepostos atacadistas.

Referencias

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(1) Em 2000, o grupo Carrefour e a Companhia Brasileira de Distribuicao investiram R$ 817 milhoes e R$ 200 milhoes, respectivamente, na abertura de novas lojas, em tecnologias de informacao e comunicacao, em infraestrutura logistica e em aquisicoes (Retail Forward, 2001).

(2) Informacoes obtidas junto a plataforma BI-Prohort.

(3) Dados levantados pela ACNielsen e tabulados, bem como divulgados pela Revista SuperHiper no Ranking ABRAS de 2010.

(4) Informacoes obtidas por meio das entrevistas semi-estruturadas.

(5) Infelizmente, no Brasil nao existe disponibilidade desses dados para outros equipamentos, como feiras.

(6) Entrevistas realizadas do dia 08/01/2010 a 16/01/2010, em Campinas-SP. Foram entrevistados tres gerentes comerciais do Oba Horti Fruti e um do supermercado Covabra.

Rubia Cristina Wegner ** & Walter Belik ***

* Elaborado a partir da dissertacao de mestrado "Configuracao da politica de Seguranca Alimentar e Nutricional no Brasil: o Estado e o mercado no abastecimento alimentar", defendida em fevereiro de 2011 no Instituto de Economia da Unicamp, Brasil. Esse trabalho foi desenvolvido no Nucleo de Economia Agricola do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnologico (CNPq).

** Mestre em Desenvolvimento Economico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas--Sao Paulo--Brasil (2011). Graduada em Ciencias Economicas pela Universidade Federal de Santa Maria--Rio Grande do Sul--Brasil (2007). Docente horista na Pontificia Universidade Catolica de Campinas, Sao Paulo, Brasil. E-mail: rubicawegner@gmail.com

*** Doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (1992); Pos-Doutorado University of London (1993) e Pos-Doutorado Universidade da California Berkeley (2003); Livre-docencia pela Universidade Estadual de Campinas (1999). Professor Titular (dedicacao exclusiva) do Instituto de Economia na Universidade Estadual de Campinas, Sao Paulo, Brasil. Coordenador do Nucleo de Estudos e Pesquisas em Alimentacao dessa universidade Cidade Universitaria Zeferino Vaz. E-mail: belik@eco.unicamp.br

Recibido: 2011-11-10 Aceptado: 2011-11-12 Evaluado: 2012-05-27 Publicado: 2012-12-30

Codigo SICI: 0122-1450(201212)9:69<195:DDHBCA>2.0.TX;2-K
QUADRO 1. Distribuicao moderna no Brasil: principais elementos no
comparativo dos lideres

                          GRUPO PAO DE ACUCAR    CARREFOUR

Central de Distribuicao   Centralizam as         Representa
                          compras,               instrumento melhor
                          prescindindo dos       para controle de
                          intermediarios -90%    qualidade,
                          dos produtos viriam    rastreabilidade e
                          diretamente dos        possibilita o
                          produtores             abastecimento de
                                                 todas as lojas

Softwares Principais      ECR, Anywhere          ECR

Relacao (tecnica)         Engenheiros            Acompanhamento da
com os produtores         agronomos visitariam   producao de frutas e
                          seus fornecedores      verduras e para
                          com relativa           atender seus pedidos
                          frequencia para        os produtores se
                          alerta-los quanto as   reuniriam em
                          boas praticas          cooperativas

Rastreabilidade           Acreditam que          Acreditam que
                          produtos horticolas    produtos horticolas
                          tenham marca           tenham marca

Controle de Qualidade     "Programa Qualidade    Garantia de origem
                          desde a Origem"        existiria ha dez
                                                 anos sob uma
                                                 filosofia do bom
                                                 cultivo, do sabor,
                                                 da autenticidade

FONTE: elaboracao propria a partir de dados levantados
na revista SuperHiper/ABRAS e por meio das entrevistas
semiestruturadas.

QUADRO 2. Principais CEASAs brasileiras: programas existentes que
podem ser ampliados para reformulacao do papel das centrais

CEASA           PROGRAMAS

CEASA Minas     Informacoes                Destaca-se os seguintes
                de Mercado                 instrumentos: Boletim
                                           Diario de Precos; Painel
                                           Diario de Ofertas e
                                           Precos; Oferta de
                                           Produtos; Procedencia dos
                                           Produtos; Preco Medio de
                                           Produtos; Calendario de
                                           Comercializacao

                Cadastro de fornecedores   Substituiu-se os
                de Bens e Servicos         formularios em papel por
                                           formularios on-line.
                                           Objetiva-se atualizar
                                           dados e ampliar o leque de
                                           fornecedores

                Banco de Caixas *          Foi introduzido um aparato
                                           logistico para fazer
                                           cumprir a IN/09. Alguns
                                           entrepostos, como os de
                                           Governador Valadares e
                                           Caratinga deram inicio as
                                           operacoes em 2010.

CEASA           Calendario de              Procura dirimir as
Pernambuco **   Comercializacao            oscilacoes de precos de
                                           hortifruti, informando os
                                           meses de safra

                Hortifruti & Qualidade     Estimulo a padronizacao da
                                           qualidade dos alimentos
                                           que transitam na Central..
                                           Enfrentou resistencia de
                                           todos e foi descontinuada
                                           em2006.

                Programa de                Iniciativa que busca
                monitoramento dos          fortalecer a capacidade do
                niveis de agrotoxicos      setor publico de garantir
                                           a populacao alimentos
                                           seguros. Amostras de
                                           produtos da CEASA sao
                                           coletadas mensalmente e a
                                           CEASA cabe o trabalho de
                                           fiscalizacao, bem como
                                           promover orientacao e
                                           capacitacao dos agentes.

                Indice Ceagesp             Apoia a formacao de precos
                                           em outros entrepostos
                                           atacadistas.

Ceagesp         HortiEscolha               O CQH *** elabora fichas
                                           de alguns produtos para
                                           orientar as compras de
                                           hortifruti para Servicos
                                           de Alimentacao--
                                           responsaveis pelo preparo
                                           de refeicoes fora do lar
                                           facilitando a negociacao
                                           do preco.

                Padronizacao da            Foi pioneira atraves de
                                           Programa lancado em 1997.
                                           Hoje a modernizacao das
                                           embalagens usadas no
                                           entreposto ocorre por
                                           adesao voluntaria dos
                                           permissionarios.

                Apoio ao Produtor          O CQH elabora e fornece
                                           informacoes tecnicas sobre
                                           classificacao, rotulagem e
                                           embalagens de FLV e apoia
                                           grupos de produtores na
                                           classificacao e venda de
                                           seus produtos.

                Tabela de periodo          Procura dirimir as
                de safra                   oscilacoes de precos de
                                           hortifruti, informando os
                                           meses de safra

CEASA           Alimentacao e Saude        Sao informacoes postas no
Campinas                                   site da Central sobre
                                           temas ligados a
                                           alimentacao e reducao do
                                           desperdicio.

                Padronizacao               Orienta os produtores com
                                           cartilha de normas
                                           oficiais. mas nao ha
                                           fiscalizacao do seu
                                           cumprimento.

                Banco de Caixas            Implantado em 2010 para
                                           promover maior qualidade
                                           do FLV

                Produtos de Epoca          Procura dirimir as
                                           oscilacoes de precos dos
                                           produtos FLV, informando
                                           os meses de safra.

                Dados nutricionais         Ficha que especifica o
                de FLV                     valor nutricionais desses
                                           alimentos.

CEASA Porto     Central de Caixas          Procura fazer valer as
Alegre-RS                                  caixas utilizadas na
                                           central que devem ser
                                           plasticas e higienizaveis.
                                           Em junho de 20i0, 50% das
                                           caixas usadas no
                                           entreposto eram
                                           plasticas. ***

                Analise                    Gerencia Tecnica prepara
                                           uma analise conjuntural
                                           para explicar oscilacoes
                                           de precos.

                CEASA no Capricho          Coleta Seletiva.

                Calendario de              Procura dirimir as
                Comercializacao            oscilacoes de precos do
                                           FLV, informando os meses
                                           de safra.

                Programa de                Cooperacao tecnica entre a
                Monitoramento de           secretaria de saude, de
                Hortigranjeiros            agricultura e
                                           abastecimento, Emater,
                                           CEASA e Lacen-RS. Busca
                                           identificar, mapear e
                                           fiscalizar a qualidade
                                           higienico-sanitaria
                                           hortifruti.

CEASA Parana    Cursos e Palestras         Tecnicos da Central
                                           orientam produtos e
                                           permissionarios.

                Calendario de              Procura dirimir as
                Comercializacao            oscilacoes de precos das
                                           frutas legumes e verduras,
                                           informando os meses de
                                           safra.

                Informacoes sobre          Cotacao do dia; evolucao
                a cadeia de FLV            da cesta basica de FLV nos
                                           entrepostos; evolucao dos
                                           precos e procedencia.

Fonte: elaboracao propria a partir de informacoes disponibilizadas
nos sites. Centro de Qualidade em Horticultura-Ceagesp

* De modo geral, o Banco de Caixas funciona na forma de emprestimos
nos entrepostos atacadistas. O sistema leva a entrega, higienizacao
e retirada das caixas necessarias a operacao por parte
dos permissionarios.

** Vale destacar que se trata de uma Organizacao Social vinculada
a Secretaria de Producao Rural e Reforma Agraria. Instalada
oficialmente em 2004, tornando-se a primeira CEASA do Pais a
usar o padrao de gerenciamento administrativo com a participacao
dos seus permissionarios.

*** Fonte: http://www.estado.rs.gov.br/
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Author:Wegner, Rubia Cristina; Belik, Walter
Publication:Cuadernos de Desarrollo Rural
Date:Jul 1, 2012
Words:8185
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