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Frames in interaction and the social indexicality of gender in interviews with Laerte Coutinho/Frames em interacao e indicialidade social de genero em entrevistas com Laerte Coutinho.

Introducao

O objetivo deste artigo (1) e analisar a ativacao e a mobilizacao de frames de genero social (doravante "genero" (2)) realizadas por meio de construcoes referenciais em 02 entrevistas televisivas com a cartunista Laerte Coutinho (que se identificava como cross-dresser (3) em 2012 e, posteriormente, passou a se identificar como transgenero (4)), de modo a mostrar como a indicialidade social de genero pode ser textual e sociocognitivamente organizada.

Muitos linguistas tem chamado a atencao para os aspectos cognitivos de fenomenos sociolinguisticos (BYBEE, 2016; SILVA, 2009a, 2009b; inter alia), aprofundando o conhecimento sobre aspectos das relacoes entre linguagem, cognicao e sociedade. Este estudo esta no bojo desse background epistemologico ao investigar determinadas relacoes entre frames, construcoes textuais e indicialidade social de genero. Uma premissa comum entre estudos sociocognitivos e sociolinguisticos interacionais, presente neste trabalho, e a de que a interacao envolve a evocacao de conhecimentos relativamente pressupostos e/ou (tomados como) compartilhados (GUMPERZ, 2001; MARCUSCHI, 2007).

Este estudo trabalha com as nocoes de indicialidade social (SILVERSTEIN, 1976; HANKS, 2008) e de genero (CAMERON & KULICK, 2003; CAMERON, 2005) concebidas a partir de abordagens interacionistas da Antropologia Linguistica e da Sociolinguistica. Fundamentamo-nos teoricamente na Semantica de Frames (FILLMORE, 1982; 1985; FILLMORE & BAKER, 2011) e na abordagem sociocognitivo-interacional da Linguistica de Texto, que integra acoes linguistico-textuais e sociocognitivas das interacoes humanas (KOCH, 2004; KOCH & CUNHA-LIMA, 2011; MARCUSCHI, 2007; BENTES & REZENDE, 2008).

Focalizamos aqui a indicialidade do tipo social (SILVERSTEIN, 1976; GUMPERZ, 2001; HANKS, 2008, inter alia). Assim, nao se trata propriamente da indicialidade referencial stricto sensu, de base mais semantico-pragmatica, relacionada, por exemplo, ao fenomeno deitico (VAN DIJK, 2012), embora ela tambem participe da indicialidade social. Esta consiste na possibilidade de a linguagem "apontar" ou indicar elementos contextuais para os participantes de uma situacao interativa por meio de inferencias socioculturais realizadas por esses participantes (SILVERSTEIN, 1976; HANKS, 2008). Cameron & Kulick (2003), que estudam as categorizacoes de sexo, sexualidade e genero, comentam que:

[Q]uando linguistas dizem que elementos particulares da linguagem, como o sotaque regional ou o lexico especializado 'indiciam' uma identidade do falante ou o status social, o que eles querem dizer e que esses elementos sao associados a posicoes sociais especificas e que um falante, ao usa-los (ou ao demonstrar usa-los), torna-se associado com as posicoes a que esses elementos linguisticos apontam. (CAMERON & KULICK, 2003, p. 56) (5)

Assim, a indicialidade social (doravante "indicialidade") nao se da de forma direta: Cameron & Kulick (2003, p. 58) afirmam que "elementos linguisticos sao associados com genero por meio da sua associacao com alguma outra coisa, que, por sua vez, pode ser associada com genero" (6). A nosso ver, essa "associacao" pode consistir em expectativas em torno de sexo e sexualidade ou de outras caracteristicas individuais, como vestuario, gestualidade, prosodia caracteristica etc. Entendemos que esse processo pode ser baseado em construtos sociocognitivos, como os frames, que organizam elementos linguistico-textuais e colaboram para a realizacao de inferencias (FILLMORE, 1982, 1985; FILLMORE & BAKER, 2011).

A nocao de frame adotada neste estudo e a proveniente da Semantica de Frames (FILLMORE, 1982, 1985; FILLMORE & BAKER, 2011): "um sistema de conceitos relacionados de tal forma que, para entender qualquer um deles, e necessario entender toda a estrutura em que se insere" (FILLMORE, 1982, p. 111) (7). Ela sera trabalhada neste estudo a partir de uma abordagem dinamica e discursiva (FILLMORE, 1982; 1985; CROFT & CRUSE, 2004; CIENKI, 2007; MIRANDA & BERNARDO, 2013; MIRANDA & LOURES, 2016; MORATO, 2010; MORATO & BENTES, 2013; MORATO et al., 2017), que integra linguagem e cognicao em uso na evocacao de frames.

Entendemos que a linguagem em uso pode ser um espaco de negociacao, no sentido de que nela se podem apresentar as diferentes perspectivas dos interlocutores (TOMASELLO, 2003), por vezes marcadamente assimetricas do ponto de vista de quadros sociais mais amplos. Do encontro entre perspectivas divergentes, podem emergir movimentos textuais que tomam expressoes linguisticas, atos enunciativos, pressupostos etc., como escopos de referencia ou de enquadramento, com o proposito de refletir e negociar os sentidos (co)construidos pelos interlocutores.

A analise apresentada neste trabalho pode contribuir para a compreensao da forma com que os interlocutores interagem em uma situacao de encontro interacional entre frames e pontos de vista sociais divergentes sobre genero. Essa contribuicao se evidencia em relacao a questao social do genero quando consideramos, por exemplo, os conflitos ideologicos existentes entre os que criticam uma suposta "ideologia de genero" (SOMMERS, 1994), segundo a qual, em termos breves, a nocao de genero deturpa a naturalidade das relacoes entre os sexos, e os que entendem o genero como um construto socio-historico-cultural (CAMERON & KULICK, 2003; CAMERON, 2005, inter alia). Este trabalho tambem pode contribuir para os estudos linguisticos (socio)cognitivistas e interacionistas na medida em que discutimos que a indicialidade pode ser tomada como textual, interativa e sociocognitivamente organizada. Nesse caso, a analise textual-interativa de frames, particularmente, pode contribuir para uma compreensao da forte inter-relacao entre processos considerados sociocognitivos e interacionais, como a dinamica de frames, e formas e processos textuais da linguagem em uso.

1. Sexo, sexualidade e genero

Para explicitar a definicao de genero adotada neste artigo, e necessario explicitar tambem as definicoes de sexo e de sexualidade, ainda que em termos breves, uma vez que o estudo do genero nao se desvincula destas nocoes (CAMERON & KULICK, 2003; KULICK, 1997; 1998; inter alia).

Entendemos sexo como um atributo biologico pautado nas diferencas identificadas entre pessoas do sexo masculino e pessoas do sexo feminino (CAMERON & KULICK, 2003). Entendemos sexualidade como o conjunto de praticas sexuais e de seus sentidos sociais construidos por uma pessoa ou grupo cultural (CASTANEDA, 2007). Entendemos o genero, por sua vez, como a forma com que determinada sociedade ou cultura se relaciona com o(s) sexo(s), com a(s) sexualidade(s) e com os papeis sociais, chamados "generos", relacionados aqueles. Nesse sentido, o genero e socio-historicamente construido (CAMERON & KULICK, 2003) e diz respeito, alem disso, a forma com que o individuo se relaciona e se identifica com um desses papeis.

Ha diferentes formas de conceber, de se relacionar e de se identificar com as construcoes socio-historicas de genero. O modelo tradicional e dominante de genero e o que podemos chamar, para os fins deste estudo, de genero como sexo, que constroi pressuposicoes sobre o sexo biologico e sobre a vida social dos individuos. Nessa concepcao, a interconexao entre sexo, sexualidade e genero e altamente naturalizada, no sentido de que essas categorias se apresentam de forma indiferenciada.

A partir de dado momento da historia ocidental moderna, no entanto, a concepcao de genero estritamente como sexo passou a conviver com outra. Assim, temos a concepcao de genero como sexo, quase sempre menos reflexiva e mais incorporada no cotidiano, e a concepcao de genero como genero, isto e, a identificacao e a reflexao sobre a existencia dessa construcao socio-historico-cultural. Nesta, a interconexao entre sexo e sexualidade e identificada, mas nao naturalizada. Esta concepcao surgiu de novas teorizacoes, que engendraram, no seculo XX, a categoria teorica de genero, com base na reflexao sobre as relacoes sociais mais ou menos tradicionais (LOURO, 1997) da concepcao de genero como sexo.

No ambito particular da concepcao de genero como genero, vale o entendimento de que "[a]queles que cunharam e entao popularizaram os termos genero e sexualidade estavam deliberadamente tentando sair de definicoes estreitamente biologicas/reprodutivas" (CAMERON & KULICK, 2003, p. 2) (8). Segundo essa forma de conceber genero, ter genitalia ou corpo masculino nao implica necessariamente ser sexualmente atraido por pessoas do sexo feminino e nem necessariamente ter a identidade, entendida como autoidentificacao, de homem. Isso nao significa que sexo, sexualidade e genero sejam "e ntendidos ou experimentados pela maioria das pessoas na realidade social de hoje" e na concepcao de genero como genero "como distintos e separados" (CAMERON & KULICK, 2003, p. 5) (9), mas que a interconexao entre eles nao e naturalizada, ou seja, e entendida como socio-historicamente construida.

A cada um desses dois quadros sociais amplos descritos acima (genero como sexo e genero como genero), podem corresponder frames ativados ou mobilizados por construcoes textuais nas interacoes em curso. Em relacao a categorizacao das pessoas de acordo com dado frame de genero, existe, na cultura ocidental, de um lado, um frame que corresponde a concepcao de genero como sexo, o frame Pessoas_por_sexo, compartilhado pela maioria da populacao ocidental, e um frame que corresponde a concepcao de genero como genero, Pessoas_por_genero, compartilhado principalmente por comunidades de ativistas, de academicos, LGBTT ("Lesbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Trans") e por outras pessoas que adquiriram conhecimentos sobre o genero como genero, ainda que de forma variada.

Segundo o frame Pessoas_por_sexo, existem pressuposicoes, caracteristicas fisicas, psicologicas e sociais "naturais" ou "normais" para as unicas categorias consideradas legitimas: a dos homens e a das mulheres (CAMERON & KULICK, 2003). Como esse frame serve de referencia ate mesmo para o seu questionamento por quem opera com o frame Pessoas_por_genero, por exemplo, ele pode ser considerado, em nossa cultura, como um frame mais estavel do que o segundo, que, por sua vez, corresponde a outra(s) forma(s) de conceber ou de falar sobre sexo, sexualidade e genero, com uma visao menos biologica/reprodutiva stricto sensu (CAMERON & KULICK, 2003). A ativacao e a mobilizacao desses frames focalizados serao observadas nos dados que analisaremos mais adiante.

2. A nocao de frame

Como vimos, o frame e "um sistema de conceitos relacionados de tal forma que, para entender qualquer um deles, e necessario entender toda a estrutura em que se insere" (FILLMORE, 1982, p. 111). Os elementos inter-relacionados que formam esse construto linguistico e sociocognitivo tem sido chamados de Elementos de Frame, no campo da Semantica de Frames. A Semantica de Frames e:

[...] o estudo do modo com que associamos, como parte de nosso conhecimento da linguagem, formas linguisticas (palavras, frases fixas, padroes gramaticais) a estruturas cognitivas--os frames--que determinam largamente o processo (e o resultado) da interpretacao dessas formas. (FILLMORE & BAKER, 2011, p. 134) (10)

Fillmore & Baker (2011) tambem definem a Semantica de Frames como "o estudo de como as formas linguisticas evocam ou ativam conhecimento de frame e como os frames entao ativados podem ser integrados na compreensao das passagens que contem essas formas" (FILLMORE & BAKER, 2011, p. 317)11. A dinamica de enfases dos frames ou de seus elementos mobilizados e realizada em interacao. Assim, adotamos, nesse estudo, uma abordagem de frames que considere suas faces semantico-cognitiva e textual-interacional.

De um ponto de vista sociocognitivo-interacional, Morato (2010), Morato & Bentes (2013) e Morato et al. (2017) tem chamado atencao para o papel de construcoes textuais para a ativacao e a mobilizacao de frames, nao entendidos como estritamente semanticos nem estritamente interativos. Morato & Bentes (2013) postulam que os frames sao "evocados ou elaborados tanto por unidades lexicais, quanto por construcoes textuais" (MORATO & BENTES, 2013, p. 126). Para as pesquisadoras:

[O]s frames podem ser entendidos de forma relacionai, isto e, como enquadres cognitivos que se forjam a partir nao apenas dos esquemas de conhecimento ativados e elaborados conjuntamente pelos interactantes, como tambem a partir do enquadramento social dos participantes da conversacao e do contexto interacional local em que estao imersos. (MORATO & BENTES, 2013, p. 128)

Se a linguagem em uso na interacao pode ser um espaco de negociacao, considerando quadros sociais indiciados pela dinamica de frames, isso ocorre em parte porque construcoes textuais, como as referenciais, baseiam-se em pressuposicoes, demandam inferencias socioculturais e ativam frames com e sobre os quais atuam os interlocutores ao tomarem as formas referenciais utilizadas como escopos de (re)categorizacao e de enquadramento. Alem disso, a linguagem em uso pode ser um espaco de negociacao porque os interlocutores levam em consideracao que os frames, de forma importante, e as (re)categorizacoes realizadas por construcoes referenciais influenciam a interpretacao de propositos comunicativos, "moldam as metas que buscamos, os planos que fazemos, a maneira com que agimos e o que conta como resultado bom ou mau de nossas acoes" (LAKOFF, 2004, p. xv) (12). Pode haver, assim, uma importante dinamica de frames ativados, mobilizados, rejeitados ou assumidos de acordo com os pontos de vista dos interactantes justamente porque esses pontos de vista adotados se submetem a acao dos interlocutores atentos a inferencias (pressu)postas na cena referencial e interativa.

Para a analise textual-interativa de frames, adotamos neste estudo a formalizacao das descricoes de frames oferecida pelo projeto FrameNet Brasil, que utiliza dados do portugues do Brasil. Entendemos, assim, que o frame pode ser uma "ferramenta singular no suporte a interpretacao da realidade perspectivada pelos atores sociais" (MIRANDA & BERNARDO, 2013, p. 83). No entanto, a base de dados do projeto FrameNet Brasil nao possui uma grande variedade de frames disponiveis. Como o projeto original de referencia tem sido a FrameNet dos EUA, lancamos mao tambem deste como outra fonte de frames descritos, quando nao encontramos no FrameNet Brasil a descricao de determinado frame. A FrameNet (EUA) e sediada no ICSI (International Computer Science Institute) na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e seu correspondente brasileiro, o projeto FrameNet Brasil, e sediado na Universidade Federal de Juiz de Fora (13). Os frames ativados e mobilizados neste estudo, quando nao descritos pelos projetos FrameNet, foram definidos com base em frames ja identificados nessa plataforma.

Os referidos projetos constroem bases de dados de frames semanticos e gramaticais que enquadram itens lexicais ou construcoes sintaticas na lingua inglesa (EUA) e na lingua portuguesa (Brasil), respectivamente (14). Ambos vem construindo uma base de dados de frames semanticos e unidades lexico-gramaticais relacionadas. Utilizamos a formalizacao dos frames empreendida por esses dois projetos FrameNet para identificarmos e analisarmos os dados que dispomos, a partir do ponto de vista teorico-analitico que adotamos, o da Linguistica Textual (MORATO et al.., 2017; MORATO & BENTES, 2013; MORATO, 2010; MARCUSCHI, 2006) e de estudos que integram cognicao, linguagem, interacao e texto/discurso (SALOMAO, 1999; MONDADA & DUBOIS, 2003; KOCH, 2004; MIRANDA & BERNARDO, 2013; VEREZA, 2013; TOMASELLO, 2003).

Como um dos aspectos do frame e o de ser um construto sociocognitivo que (re)organiza e e (re)organizado pela experiencia de mundo (FILLMORE, 1982, 1985; CIENKI, 2007; MORATO, 2010), ele e considerado sociocognitivamente estavel, sendo alguns mais estaveis do que outros (MORATO et al., 2017). Os frames sao definidos a partir de um cenario cognitivo, do qual fazem parte Elementos de Frame (EF) conectados. Na linguagem em uso, o frame emerge a partir de enfases em determinadas relacoes e EFs, que sao colocados mais em evidencia do que outros (FILLMORE & BAKER, 2011). Como os frames enquadram e perspectivam os referentes textualmente construidos (MORATO et al., 2017; MARCUSCHI, 2006), eles, os frames, sao ativados e mobilizados dinamicamente ao longo do texto e da interacao. Nesse sentido, os frames sao mobilizados para a construcao textual-interacional do sentido. Reciprocamente, a organizacao textual-interativa contribui para a dinamica de frames ativados e mobilizados (MORATO et al, 2017).

2.1. Os frames Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero

Focalizamos aqui os frames ativados e mobilizados pelos interlocutores na indicialidade de genero, que envolve, portanto, os sentidos construidos e os conhecimentos compartilhados ou nao, mais ou menos pressupostos. Nao ha frames na base de dados dos projetos FrameNet correspondentes as concepcoes de genero apresentadas anteriormente. A definicao dos frames Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero em foco neste artigo foi baseada em frames de classificacao de individuos, de acordo com alguma de suas caracteristicas, uma vez que a categorizacao social dos sujeitos em relacao a determinado aspecto humano subjaz determinada forma de conceber esse aspecto, que pode ser idade, religiao, genero etc. Foram encontrados 07 frames na FrameNet e 03 na FrameNet Brasil em relacao a categorizacao de pessoas: People_along_political_spectrum (15), People_by_age (16), People_by_jurisdiction (17), People_by_military_specialty (18), People_by_morality (19), People_by_religion (20) e People_by_residence (21), na FrameNet dos EUA; Pessoas_por_atividade_de_lazer (22), Pessoas_por_origem (23) e Pessoas_por_vocacao (24), na FrameNet Brasil.

Quase todas as definicoes encontradas desses frames descrevem palavras para individuos nos termos dos criterios de classificacao correspondente (idade, vocacao, especialidade militar etc.). Alem disso, sao apresentadas nessas definicoes as caracteristicas relacionadas a classificacao em questao, na forma de Elementos de Frame (Idade e Etnia, por exemplo). Assim, os dois frames em foco, Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero foram descritos como segue:

Para a definicao do frame Pessoas_por_sexo, que apresentamos acima, deve-se considerar que as pessoas, nessa forma de conceber e de falar sobre genero, geralmente entendem sexo, sexualidade e genero como sobrepostos, como partes integrantes de um mesmo papel social monolitico (CAMERON & KULICK, 2003; LEVON, 2016). Como vimos, o frame de Pessoas_por_genero, por sua vez, corresponde nao a identificacao da pessoa em relacao apenas a seu sexo, nem apenas a sua sexualidade, embora esses aspectos se interconectem (CAMERON & KULICK, 2003).

3. Contextualizacao dos dados

Em relacao aos dados analisados, selecionamos neste trabalho o genero discursivo entrevista como ambiente textual-interativo no qual acoes reflexivas se apresentam de forma tipica, levando os entrevistados a construir avaliacoes e apreciacoes em relacao ao tema em discussao (FERREIRA-SILVA, 2015; LIMA, 2014; FAVERO et al., 2010). Nesse sentido, o programa televisivo de entrevistas tambem se apresenta como um ambiente empirico importante no qual as apreciacoes dos entrevistados podem, de forma publica, assumir ou questionar textualmente quadros sociais mais amplos de forma mais ou menos explicita.

Neste artigo, analisamos 02 entrevistas com a cartunista Laerte Coutinho nos programas Roda Viva da TV Cultura (26) e Gabi quase proibida do SBT (27), uma vez que, nessas entrevistas, os entrevistadores perguntam para Laerte sobre seu processo de identificacao de genero, pois a cartunista assume identidades nao compativeis com a concepcao de genero como sexo. Selecionamos entrevistas em que Laerte Coutinho evoca ou mobiliza frames de genero, explicitando ativamente pontos de vista relacionados ao frame Pessoas_por_genero. A expectativa de analise, ao selecionarmos esses dois dados interacionais, e a de que Laerte, nessas situacoes comunicativas, realiza acoes textuais que tem como escopo os conhecimentos sobre genero que ela possui, nao apenas por conta do carater reflexivo acima referido do genero discursivo entrevista, mas tambem porque essas entrevistas, em particular, tematizam nao apenas o trabalho de Laerte como cartunista, mas, como dissemos, a sua identidade de genero, envolvendo dinamica de frames relacionados.

Laerte Coutinho (doravante LC) e uma renomada cartunista brasileira. Trabalhou em reconhecidas revistas de quadrinhos com importante papel no cenario cultural brasileiro, como O Balao e O Pasquim, alem de trabalhar para as revistas Veja e ISTOE e para os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Junto com os tambem quadrinhistas Angeli, Glauco e, posteriormente, Adao Iturrusgarai, desenhou as historias de Los Tres Amigos, que comecaram a ser publicadas em 1991. Em 2010, aos 57 anos, deu uma entrevista para a revista Bravo! em que explicou ser cross-dresser (28). Desde entao, a cartunista tem sido chamada para muitas entrevistas sobre identidades transgenero e sobre sua carreira de quadrinhista. Segundo essas entrevistas, Laerte teve sua primeira aproximacao com o cross-dressing em 2004, iniciando essa pratica propriamente em 200929. Em 2012, tornou-se cofundadora da Associacao Brasileira de Transgeneras, a ABRAT.

A entrevista de LC, para o programa Roda Viva, foi ao ar na TV Cultura no dia 20 de fevereiro de 2012 e, para o programa Gabi quase proibida, no dia 17 de outubro de 2013, no SBT. LC se apresentava na primeira entrevista como cross-dresser e na segunda ja tinha passado a se identificar como transgenero.

O programa Roda Viva, no qual uma das entrevistas aqui focalizadas foi realizada, comecou a ser exibido em 29 de setembro de 1986, na TV Cultura. Trata-se de um programa de entrevistas com figuras publicas de destaque nacional e internacional. Segundo o formato do programa, os entrevistados sentam-se em uma cadeira giratoria no centro de uma roda de entrevistadores, sentados por sua vez em um nivel mais alto (FERREIRA-DA-SILVA, 2015). O apresentador na epoca da entrevista com LC (2012) era o jornalista e escritor Mario Sergio Conti, que ficou no programa de 2011 a 2013. O Roda Viva e descrito, em sua pagina na Internet, como um "espaco plural para a apresentacao de ideias, conceitos e analises" (30).

A entrevista de LC no Roda Viva e marcada pela presenca de alguns entrevistadores bastante conhecidos da entrevistada. Assim, ha referencias a experiencias compartilhadas entre os entrevistadores e LC, principalmente experiencias de trabalho. Assim, os conhecimentos menos compartilhados com os entrevistadores em termos de temas e a sua identidade de genero e o processo de explicitacao dessa identidade tanto para si mesma quanto para a esfera publica.

O programa Gabi quase proibida comecou a ser exibido no SBT (Sistema Brasileiro de Televisao) em 26 de junho de 2013 e teve sua ultima exibicao em 26 de fevereiro de 2014, segundo informacoes de sua pagina na Internet (31). O programa tomou o lugar da segunda edicao do extinto De frente com Gabi, que tambem era apresentado por Marilia Gabriela. Gabi quase proibida e um programa de entrevistas com especialistas, artistas e convidados em geral, geralmente figuras publicas relacionadas com a tematica de sexo, sexualidade, genero e temas (tomados como) correlatos.

Na entrevista do programa Gabi quase proibida de 2013, LC ja tinha um maior envolvimento politico com a questao transgenero, em comparacao com a entrevista ao Roda Viva, em 2012. Alem disso, LC, na entrevista ao Gabi quase proibida, ao contrario do que ocorre na entrevista para Roda Viva, nao demonstra ter muitas experiencias compartilhadas com a entrevistadora. Esta realiza perguntas relacionadas principalmente com o tema do genero, ainda que tambem tematize o trabalho de Laerte como cartunista. Nosso foco de analise, tanto naquela quanto nesta entrevista e propriamente as perguntas sobre (identidade de) genero.

4. Frames de genero em interacao em entrevistas com Laerte Coutinho

Observamos que, nas entrevistas com LC, os frames de genero colaboram, nas interacoes observadas, para a organizacao dos conhecimentos pressupostos tomados como compartilhados pelos interlocutores. Esses conhecimentos sobre a identidade de genero de LC e as pressuposicoes instauradas pelas perguntas dos entrevistadores enseja acoes reflexivas, como quando os entrevistadores perguntam a Laerte sobre a forma de se referir a entrevistada. As construcoes referenciais ativam e mobilizam frames de genero quando referentes relacionados a eles sao (re)construidos textualmente. Um conjunto de inferencias contextuais e pressuposicoes realizadas pelos interlocutores pode ser indicado pelas acoes textuais realizadas (como as acoes referenciais). Essas inferencias e pressuposicoes baseiam-se, como vimos, no conhecimento de/sobre os interlocutores e sobre sexo, sexualidade e/ou genero. Nesse caso, esse conhecimento e indiciado pelas acoes textual-interativas.

Destacamos, no quadro a seguir, os Elementos de Frames mais sobressalentes nos dados. No quadro, constam as definicoes dos EFs dos frames Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero identificados. Isso quer dizer que os referidos frames sao ativados e mobilizados nos dados de forma mais especifica do que se apresentou na descricao anterior dos frames:

Mostraremos, a seguir, que as expressoes referenciais utilizadas pelos entrevistadores em relacao a LC, geralmente a partir do ponto de vista relacionado ao frame Pessoas_por_sexo, sao textualmente incorporadas em comentarios avaliativos ou explicativos pela entrevistada, que as recategoriza principalmente a partir de seu ponto de vista relacionado ao frame Pessoas_por_genero. Movimentos como esses indicam uma negociacao de sentidos na qual LC e os entrevistadores se engajam.

Nos dados analisados, a identidade e o conhecimento de LC sobre genero sao principalmente enquadrados pelos entrevistadores a partir do frame Pessoas_por_sexo, ao qual LC se contrapoe. Assim, o frame Pessoas_por_genero, por sua vez, emerge dialogicamente em relacao a forma com que o frame Pessoas_por_sexo e ativado e mobilizado principalmente pelos entrevistadores. Desse modo, LC tambem mobiliza o frame Pessoas_por_sexo, mesmo que para modalizar ou questionar diretamente o ponto de vista instaurado por ele, mas a partir de seu proprio ponto de vista nas respostas as perguntas dos entrevistadores, havendo assim uma relacao de entrelace (VEREZA, 2013) entre os dois frames. Veremos esses movimentos em cada entrevista: primeiro na entrevista para o Roda Viva, em 2012, e, depois, na entrevista para o Gabi quase proibida, em 2013.

4.1. Entrevista de LC para o programa Roda Viva (2012)

No inicio da entrevista ao Roda Viva, dentre as pressuposicoes realizadas pelos entrevistadores, temos a de que LC pode informar ela mesma o genero de tratamento com que gostaria de ser referida. Essa pressuposicao pode ser apontada quando o entrevistador Mario Sergio Conti (MS) introduz a entrevista perguntando a LC como ela gostaria de ser chamada: "voce prefere que a gente te chame de 'senhor' 'senhora' 'senhorita' como devemos nos referir a voce/". Por essa razao, no comeco da entrevista, podemos apontar a emergencia do EF Genero_de_referencia_genero, previsto pelo frame Pessoas_por_genero, ativado pelo entrevistador MS com base em conhecimentos contextuais sobre LC.

Extrato 1 (32)

1 MS [...] nosso entrevistado d- desta noite e Laerte Coutinho boa noite Laerte ... uma: pergunta pre:via.... voce prefere que a gente te chame de "senhor" "senhora" "senhorita" como devemos nos referir a voce/

2 LC ((risos)) eu tenho dito que eu tenho dupla cidadania: ... eu mesmo falo: ... o ta vendo/ e- me ref- me refiro a mi:m como: no masculino e no feminino ass

3 MS mas ce nao tem nenhuma preferencia/

4 LC nao

5 MS e por que que ce se veste de mulher agora Laerte/

6 LC que pergunta essa era a pergun-/ [((risos)) pergunta que era pro final da coisa

7 MS [((risos)) e ... vamos abrir a conversa

8 LC bom comeca que a: a expressao "vesti:r-se de mulher" e: ... e: e tambem conversavel e quer dizer da margem a um- a uma a um outro debate tambem eu uso roupas femininas ... uso maquiagem uso: ... itens do: do: da ... da apresentacao de genero assim que ... sao convencionalmente ... das mulheres ... feminino ... mas eh eu nao estou "vestido de mulher" no sentido de que eu nao estou fantasia:da de que no sentido de que eu nao to tentando "passar por mulher" ou ou "simular" ou "emular ... uma mulher" eu to: ... eu to me entendendo e e confabulando com o universo dos dos do: ... universo feminino ne/ genero feminino

MS tambem ativa em seguida o frame Pessoas_por_sexo, quando pergunta "e por que que ce se veste de mulher agora Laerte/", utilizando a expressao "vestir-se de mulher". Essa expressao emerge perspectivada pelo frame Pessoas_por_sexo, uma vez que o EF Vestuario_sexo enquadra as pessoas consideradas do sexo feminino necessariamente como usuarias de roupas consideradas femininas. Assim, podemos observar que MS, mesmo que tenha ativado o frame Pessoas_por_genero anteriormente, tambem ativa o frame Pessoas_por_sexo, posteriormente. Embora sejam divergentes, esses frames podem ser, assim, coocorrentes.

Na resposta de LC ("eu tenho dito que eu tenho dupla cidadania: ... eu mesmo falo: ... o ta vendo/ e- me ref- me refiro a mi:m como: no masculino e no feminino") a pergunta acima de MS, por sua vez, ela predica a si mesma com verbos cujos complementos mobilizam o frame Pessoas_por_genero, dando saliencia ao EF Genero_de_referencia_genero ("[...] eu tenho dito que eu tenho dupla cidadania: ...", "e- me ref- me refiro a mi:m como: no masculino e no feminino"). Com a mobilizacao desse frame, LC nao precisa necessariamente referir-se em apenas um genero.

LC tambem atua textualmente, nessa resposta, sobre a expressao vestir-se de mulher, enunciada por MS ("e por que que ce se veste de mulher agora Laerte/"). Assim, atuando textualmente sobre a fala de MS, em relacao ao uso da construcao "se veste de mulher", LC a incorpora enunciativamente para nega-la, a partir da mobilizacao do frame Pessoas_por_genero: "eu nao estou 'vestido de mulher '". A negacao "eu nao estou 'vestido de mulher '" consiste nao na negacao de que LC esta vestida com roupas convencionalmente femininas (cf. FILLMORE, 1982; 1985), mas da associacao metonimica prevista no frame Pessoas_por_sexo entre as mulheres e as roupas que as mulheres convencionalmente usam, conforme indica o articulador textual axiologico "no sentido de que eu nao estou fantasia:da de que no sentido de que eu nao to tentando 'passar por mulher' ou ou 'simular' ou 'emular ... uma mulher'".

Ainda na resposta a essa primeira pergunta, outros recursos de carater explicativo sao realizados quando LC utiliza a rejeicao do frame Pessoas_por_sexo por meio de construcao negativa: "... eu nao estou 'tentando passar por mulher' ou 'simular uma mulher', eu estou me entendendo e confabulando com o universo feminino, do genero feminino'. Assim, LC atua textualmente sobre construcoes linguistico-cognitivas que mobilizam o frame Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero, mas a partir de um ponto de vista ligado ao ultimo. No extrato 2, tambem podemos observar essa atividade de LC. Nesse extrato, LC e interrompida pelo cartunista Caco Galhardo (CG) quando respondia a uma pergunta da colunista da revista TPM(Trippara mulheres) Milly Lacombe (ML):

Extrato 2

9 LC o movimento a palavra "cross-dress-" "cross-dressing" veio dos Estados Unidos num contexto em que ela era usada para definir homens heterossexuais que se vestem com roupas femininas ... e que fazem disso uma arte que fazem disso um momento de prazer

10 CG pera um pouquinho interrom- desculpa so eu te interromper aqui ...

11 ML nao

12 CG tem cross-dressing hetero/

13 LC ... mas e o que estou te dizendo [no inicio ... no inicio]

14 CG [entao mas eu nao xxxxx tudo bem que ce]

15 LC o cross-dressing foi criado a palavra designava justamente grupos de homens heteros explicitama- que que expli- faziam questao de deixar isso claro "somos heteros" ate hoje existem sites e clubes assim

16 CG na- nao faz nao faz o menor sentido Laerte

17 LC por que/ [...] nao faz sentido o cacete

Temos, nesse extrato, construcoes textuais realizadas por CG que tem como escopo associacoes feitas a partir de conhecimentos organizados relacionados a categoria "cross-dressing', segundo os quais esta seria uma pratica feita por homens homossexuais. O escopo da avaliacao de CG ("nao faz o menor sentido") sao as predicacoes realizadas por LC sobre o uso da categoria "cross-dressing": "a palavra 'cross-dress-' 'cross-dressing' [...] era usada para definir homens heterossexuais que se vestem com roupas femininas ...". As construcoes textuais de CG, como a interrupcao para checar a informacao nova ouvida (turnos 10 a 12) e a predicacao "nao faz o menor sentido" indicam um ponto de vista instaurado pelo frame Pessoas_por_sexo, mobilizado por esse entrevistador.

Assim, CG evoca expectativas e realiza inferencias que poem em questao a significacao da expressao referencial "cross-dressing hetero". Podemos apontar esse construto sociocognitivo evidenciado por CG como a associacao entre os EFs Sexo_sexo, Vestuario_sexo e Orientacao_sexual_sexo do frame Pessoas_por_sexo. Esta previsto nessa associacao que a categoria cross-dresser implicaria que o individuo em questao seja homossexual, uma vez que o cross-dressing consistiria na pratica de homens usarem roupas "de mulher" e essa pratica so poderia ser realizada por homens homossexuais, (pres)supostamente mais afeitos a praticas consideradas femininas.

Por sua vez, LC mobiliza o frame Pessoas_por_genero, particularmente os EFs Sexo_genero e Vestuario_genero, por meio da introducao e da construcao do referente "' cross-dressing'", e o EF Orientacao_sexual_genero, por meio da recategorizacao de "a palavra [...] 'cross-dressing '" por "homens heterossexuais que se vestem com roupas femininas"--referente que, por sua vez, tambem faz emergir os EFs Sexo_genero (por meio da expressao referencial "homens") e Vestuario_genero (por meio da predicacao "que se vestem com roupas femininas").

4.2. Entrevista de LC ao programa Gabi quase proibida (2013)

Na entrevista a Marilia Gabriela (doravante MG), por sua vez, em 2013, LC e, durante quase toda a entrevista, tratada no masculino, ainda que utilize para si categorizacoes no feminino e que corrija a entrevistadora no comeco da entrevista, conforme mostra o extrato 3 a seguir, fazendo emergir o EF Genero_de_referencia_genero do frame Pessoas_por_genero. A negociacao que ai emerge ativa os frames Pessoas_por_sexo, por MG, e Pessoas_por_genero, por LC. No entanto, MG demonstra alinhar-se progressivamente a mobilizacao do frame Pessoas_por_genero realizada por LC por meio de construcoes referenciais (como introducoes referenciais, (re)categorizacoes e encapsulamentos anaforicos) em resposta ao frame Pessoas_por_sexo ativado inicialmente pela entrevistadora.

Extrato 3

18 MG Laerte voce ta ... de um ano pra ca a gente se viu ... pouco mais de um ano ... com mais co:res

19 LC e

20 MG mais feminino posso dizer ou nao/

21 LC mais "feminina" ((risos))

22 MG feminina/ voce o- alias foi bom voce falar isso que eu ja vou comecar aqui tem uma pergunta do: de alguem que pergunta assim "eu li que apo-" ((lendo)) o Eduardo Duarte do Rio de Janeiro diz assim "eu li que apos a revelacao do cross-dressing voce escolheu pra si o nome Sonia ... por que este nome/ voce prefere ser chamado assim pelos seus amigos/ e outra coisa ... voce acha que seus amigos heteros- he- heterossexuais mudaram de comportamento com voce/"... ele ta dizendo isso da Sonia mas eu nao sei se isso ja mudou porque eu li das mais recentes ... entrevistas que voce deu ... eu li voce dizendo que qu- quis ser chamado de Sonia mas hoje voce queria mesmo era ser chamado de Laerte

23 LC ser chamado ter um nome feminino faz parte da praxe ... dos grupos de transgeneros ... eu nao uso mais a palavra "cross-dresser" porque acho que ela tem uma conotacao meio ... ahn ahn classista e e meio preconceituosa em relacao as travestis ... mas enfim ... isso e outra coisa ... ahn eu usei esse nome Sonia e: durante um tempo eu i- eu pensei realmente em adotar uma identidade ... eh de Sonia uma identidade claramente feminina mas eu gosto de Laerte gosto do meu nome ... eh trabalho com ele ele faz parte do meu b- patrimonio ... cultural ... e existe uma senhora Laerte ... foi casada com o prefeito de Sao Bernardo dona Laerte Soares de Oliveira ((risos))

24 MG e mesmo/

25 LC eh o nome e identico nao e Laerta nao e Laercia

26 MG e Laerte [como o seu

27 LC [dona Laerte Soares de Oliveira

Nesse extrato da entrevista, MG tece associacoes entre o uso de vestuario mais colorido e a identidade de genero, como podemos notar pelo uso sequencial das predicacoes "voce ta [...] com mais co:res [...] mais feminino" seguida de um marcador metaenunciativo "posso dizer ou nao/', que busca a validacao da entrevistada para tais predicacoes. Acoes metaenunciativas como esta realizada na entrevista por MG indicam alinhamentos frente a ativacao do frame Pessoas_por_genero realizada pela entrevistada. Outra associacao e tecida quando MG relaciona o uso da categorizacao feminina de LC realizada no turno 21 e a possivel adocao do nome Sonia pela entrevistada. Essa associacao ocorre, por exemplo, por meio do articulador topico "alias foi bom voce falar isso que eu ja vou comecar aqui tem uma pergunta do: de alguem [...]", da citacao direta da pergunta de um telespectador e da propria construcao dos referentes emergentes e concernentes entre si nesse turno de MG.

Ao explicar porque adota o nome "Laerte' em vez de "Sonia", nome inicialmente aventado para si mesma, LC toma a pergunta de MG sobre esse nome como "gatilho" para fazer uma explicacao de que, em termos breves, o nome "Laerte' pode ser tomado como feminino. Construcoes referenciais, por meio das quais LC realiza esses movimentos explicativos, mobilizam frames que colaboram para a construcao da indicialidade da identidade feminina da entrevistada.

Isso ocorre por meio do encapsulamento "ser chamado ter um nome feminino", que encapsula as informacoes-suporte "voce escolheu para si o nome Sonia", "ser chamado assim", "[voce] quis ser chamado de Sonia" e e predicado por "faz parte da praxe ... dos grupos de transgeneros". O referente instaurado por esse encapsulamento ("ser chamado ter um nome feminino") e ainda recategorizado como "adotar uma identidade ... eh de Sonia uma identidade claramente feminina". Esses processos referenciais colaboram para a mobilizacao do frame Pessoas_por_genero, que envolve processos de autoidentificacao, de adocao de identidades e, relacionado a esta, a adocao ou nao de um novo nome proprio. Alem disso, a introducao do novo referente "uma senhora Laerte", predicada por "foi casada com o prefeito ..." e recategorizada por "dona Laerte Soares de Oliveira", tambem colaboram para a indicialidade da feminilidade do nome "Laerte" e da propria LC.

Tais acoes indiciais sao identificadas por MG que, tendo anteriormente categorizado LC no masculino, checa tal inferencia por meio da pergunta "mas assim ... voce Laerte ... e ... eh e do sexo ... voce e feminina, e isso?", conforme podemos ver no extrato a seguir. Assim, MG tambem mobiliza o frame Pessoas_por_genero, salientando o EF Identidade_de_genero, mas mantem uma perspectiva distanciada, utilizando o anaforico "essa coisa do genero", em seguida, que indicia uma determinacao referencial pouco especifica ou conhecida.

Extrato 4

28 MG mas assim ... voce Laerte ... e: ... eh e do sexo ... voce e feminina e isso/

29 LC e: [entao

30 MG [essa essa essa coisa do genero [se mistura

31 LC [a gente pode comecar por essa coisa da congruencia da necessidade de congruencia entre o sexo genital o sexo biologico com o qual a gente nasce que pode ser macho femea ou indefinido ou intersexo ... pode e: e: tem em s- em seguida o negocio da da identidade de genero que e cultural e que diz respeito a ser masculino feminino ou nenhuma ... e tem a orientacao sexual que e uma outra cousa essa pergunta que a pessoa fez ... ela ... btipicamente misturou as coisas "seus amigos heterossexuais" ... eh ... porque ha essa confusao mesmo se uma pessoa se veste de mulher ela e e e homem nasceu homem "e bicha e viado gosta de dar" ... se a pessoa nasceu mulher ela "tem que se comportar como mulher" se a pessoa- sabe/ essa a necessidade dessa congruencia dessas tres camadas do ser humano ne/... e: uma prisao e uma gaiola e uma convencao e uma coisa que nao faz sentido nao tem sentido

No extrato acima, LC tambem faz uma explicacao tomando como escopo seu proprio ponto de vista a partir do frame Pessoas_por_genero. A cadeia referencial construida por LC mobiliza o frame Pessoas_por_genero, por meio de introducoes de referentes e encapsulamentos cataforicos e anaforicos. Essa cadeia inicia-se com as introducoes referenciais "essa coisa da congruencia da necessidade de congruencia entre [...]", "o negocio da da identidade de genero" e "a orientacao sexual' (recategorizada como "uma outra cousa"); progride com os encapsulamentos "as coisas" (que encapsula os referentes anteriormente introduzidos e e recategorizado posteriormente por "essas tres camadas do ser humano"), "essa confusao", "essa a necessidade dessa congruencia dessas tres camadas do ser humano', alem de outros. Por meio dessas construcoes referenciais, LC questiona a relacao tomada como necessaria entre sexo, vestuario, orientacao sexual, posicao no intercurso sexual e comportamento social, segundo a mobilizacao do frame Pessoas_por_sexo. Assim, LC salienta os EFs Sexo_sexo, Vestuario_sexo, Orientacao_sexual_sexo, Posicao_sexual_sexo e Comportamento_sexo do frame Pessoas_por_sexo como forma de questionar a forte conexao entre eles realizada pela perspectiva do frame Pessoas_por_sexo.

A indicialidade deste frame ocorre tambem por meio da predicacao da pergunta lida pela entrevistadora no extrato acima: "[essa pergunta que a pessoa fez] tipicamente misturou as coisas". Citacoes tambem sao feitas, concernentes a enunciadores genericos relacionados tambem a esse frame: "'e bicha e viado gosta de dar'" e "'tem que se comportar como mulher'". Esses elementos textuais sao encapsulados ao final como "necessidade de congruencia", "prisao", "gaiola", "convencao" e finalmente como "coisa que nao faz sentido", expressoes que encapsulam as informacoes anteriores a partir do frame Pessoas_por_genero mobilizado por LC. Assim, a entrevistada assume um ponto de vista que organiza processos categorizados por LC como "confusao" e como "uma coisa que nao faz sentido, nao tem sentido".

Para fechar esta secao, podemos apontar que, por meio da observacao analitica das entrevistas com LC nos programas Roda Viva e Gabi quase proibida, e possivel observar a emergencia dos frames Pessoas_por_sexo e Pessoas_por_genero que os entrevistadores e LC manejam textualmente. Esses frames divergentes encontram-se e confrontam-se nas interacoes analisadas e sao ativados e mobilizados em um processo de negociacao, indicando elementos de construcao de convergencias entre os pontos de vista, embora nao de forma conclusiva.

O encontro de interlocutores com conhecimentos (expectativas e pressupostos, por exemplo) organizados em frames de alguma forma contraditorios sobre genero leva a condutas reflexivas (avaliacao e explicacao, por exemplo) e tambem a conflitos de perspectiva indicados por construcoes textuais, como construtores textuais de referencia, acoes metaenunciativas etc., que apontam incompreensao ou algum tipo de limitacao ideologica de determinados individuos, como nos encapsulamentos metaforicos "gaiola" e "prisao" realizados por LC, no programa Gabi quase proibida. Ha demonstracoes do nao reconhecimento por parte dos entrevistadores de construcoes de sentido enquadradas pelo frame Pessoas_por_genero, como indica a predicacao "nao faz o menor sentido" realizada pelo entrevistador CG, no programa Roda Viva. Nesse caso, a forma particular com que os frames sao evocados se deve a reorganizacao local da evocacao dos frames, que se faz notar, por exemplo, nos processos de colaboracao e de negociacao que fazem convergir elementos de frames diferentes.

As informacoes e os conhecimentos pressupostos pelos interlocutores das entrevistas analisadas permitem a Laerte Coutinho (re)construir e atualizar sua concepcao e identidade de genero organizadas na forma de frames, tomando interativamente o terreno da linguagem em uso como um espaco de negociacao em torno das categorias de genero envolvidas. De um lado, ainda que adotem mais fortemente o ponto de vista do frame Pessoas_por_sexo, os entrevistadores sabem, por meio de elementos contextuais, que Laerte nao e mais categorizado como um homem, tal como antes se identificava. Assim, o frame Pessoas_por_sexo, que emerge principalmente nas acoes verbais dos entrevistadores, interage dialogicamente com a ativacao e a mobilizacao do frame Pessoas_por_genero e vice-versa. De outro lado, da parte de Laerte, seu conhecimento sobre a perspectiva do frame Pessoas_por_sexo e utilizado por ela de modo a ativar e a mobilizar o frame Pessoas_por_genero, do qual os entrevistadores tem inicialmente alguns indicios e expectativas indicadas, atualizadas e/ou modificadas (de forma parcialmente previa) na interacao. Esse frame, Pessoas_por genero, tambem e perspectivado por LC de modo particular, no encontro com a ativacao e a mobilizacao do frame Pessoas_por_sexo.

Consideracoes finais

As acoes e construcoes textual-interativas sao algumas das diversas maneiras pelas quais (a identidade de) genero se materializa por meio da linguagem. Assim, as acoes referenciais e a dinamica de frames podem ser algumas dessas "praticas semioticas que indicializam tais categorias" como as de genero (cf. LEVON, 2016, p. 165). Os frames de genero evocam concepcoes por meio de inferencias socioculturais que, assim, permitem nao apenas o reconhecimento, mas tambem o questionamento dos pressupostos implicados na producao textual e na categorizacao dos interlocutores.

Entendendo a indicialidade social como a possibilidade de a linguagem apontar elementos do contexto para os participantes de uma situacao interativa por meio de inferencias socioculturais realizadas pelos participantes (SILVERSTEIN, 1976, 2003; GUMPERZ, 2001; HANKS, 2008), podemos apontar que esse processo, com base na observacao dos dados interacionais em foco, pode ser tomado como construido linguistico-textual, interativa e cognitivamente pelos interlocutores, alem de ser, com diferentes enfases, ideologico e sociohistorico-cultural.

Assim, a indicialidade social parece nao apenas associar os interlocutores a categorias e papeis sociais determinados (SILVERSTEIN, 1976, 2003; GUMPERZ, 2001; HANKS, 2008), mas, tambem, por fazer isso, ela tambem indicia conhecimentos tomados como compartilhados pelos interlocutores sobre os referentes desenvolvidos e tambem conhecimentos que um interlocutor tem ou entende que tem do outro. Parte desse conhecimento esta organizada na forma de frames mobilizados e tomados ou nao como compartilhados.

A guisa de conclusao, podemos destacar tambem, como reflexao final ensejada por este estudo, a associacao reiterada e dominante (ligada ao frame mais estavel Pessoas_por_sexo, como vimos) entre orientacao sexual e "desvio de genero" (para usar a expressao usada por Cameron & Kulick (2003) ao discutirem as identidades trans). Se, como dizem Cameron & Kulick (2003, p. 6), "[a] fusao entre desvio de genero e homossexualidade vem a tona porque a heterossexualidade e de fato um elemento indispensavel na ideologia dominante de genero" (33), as acoes textuais e a dinamica de frames em questao podem tanto ser de "conservacao" dessa ideologia dominante, como de reflexao e questionamento, como as realizadas principalmente por Laerte Coutinho, em nossos dados, procurando construir localmente o modelo de genero segundo o qual, de alguma forma, "desvio de genero", para usar a expressao de Cameron & Kulick (2003), e homossexualidade nao implicam um o outro. Entendemos que essa construcao local reverbera e colabora de alguma forma com a reconstrucao socialmente mais ampla da forma como concebemos (as identidades de) genero.

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Data de envio: 18/06/2018

Data de aceite: 17/12/2018

Rafahel Jean Parintins Lima, Doutorando em Linguistica na Universidade Estadual de Campinas/ Instituto de Estudos da Linguagem/ Programa de Pos-graduacao em Linguistica.

(1) O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior Brasil (CAPES)--Codigo de Financiamento 001. O estudo foi realizado no ambito da Qualificacao em Sociolinguistica requerida pelo curso de Doutorado em Linguistica do IEL-UNICAMP (Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas). Agradecemos a presidente da banca de qualificacao Dra. Anna Christina Bentes (IEL-UNICAMP) e aos demais membros, Dra. Livia Oushiro (IEL-UNICAMP) e Dr. Erik Miletta Martins (UFRN), pelas importantes contribuicoes realizadas. As eventuais inadequacoes existentes sao de responsabilidade do autor. Agradecemos tambem a orientadora de Doutorado do autor, professora Dra. Edwiges Morato (IEL-UNICAMP), pelas reflexoes cientificas perspicazes e sensiveis em torno de fenomenos e processos textuais, interacionais, sociocognitivos, particularmente em discussoes realizadas durante a execucao do projeto de pesquisa "Linguagem e cognicao em interacao--o papel dos frames na organizacao do topico discursivo em conversacoes do Centro de Convivencia de Afasicos (CCA-IEL/UNICAMP)"--Proc. Fapesp 2014/05850-5. Agradecemos ao IEL-UNICAMP, a CAPES (Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior) e aos pareceristas desta revista (pelos importantes comentarios e sugestoes realizados).

(2) Nas passagens deste artigo em que houver possibilidade de sobreposicao entre a nocao social (gender) e a nocao textual/discursiva (genre) (BAKHTIN, 1986 [1929]) de "genero", homonimas em portugues, utilizaremos a expressao"genero discursivo" para identificar o segundo.

(3) O cross-dressing consiste na pratica de usar vestimentas consideradas do sexo/genero oposto.

(4) A transgeneridade consiste em uma autoidentificacao de genero divergente da identificacao baseada estritamente no sexo biologico.

(5) "[...] when linguists say that particular features of language, such as regional accent or specialized lexicon, 'index' a speaker's identity or social status, what they mean is that those features are associated with specific social positions, and that a speaker, in using them (or appearing to use them), becomes associated with the positions that those linguistic features point to" (Todas as traducoes de textos realizadas ao longo deste artigo sao de nossa autoria, exceto quando outra fonte for informada).

(6) "linguistic features are associated with gender via their association with something else that can itself be associated with gender".

(7) "By the term 'frame' I have in mind any sistem of concepts related in such a way that to understand any one of them you have to understand the whole structure in which it fits" (FILLMORE, 1982, p. 111; traducao de Vereza [2013]).

(8) "Those who coined and then popularized the terms gender and sexuality were deliberately trying to get away from narrowly biological/reproductive definitions'".

(9) "[...] the phenomena denoted by the three terms--having a certain kind of body (sex), living as a certain kind of social being (gender), and having certain kinds of erotic desires (sexuality)--are not understood or experienced by most people in present day social reality as distinct and separate. Rather, they are interconnected'.

(10) "Frame Semantics as the study of how, as a part of our knowledge of the language, we associate linguistic forms (words, fixed phrases, grammatical patterns) with the cognitive structures--the frames--which largely determine the process (and the result) of interpreting those forms".

(11) "Frame Semantics is the study of how linguistic forms evoke or activate frame knowledge, and how the frames thus activated can be integrated into an understanding of the passages that contain these forms".

(12) "[...] they [the frames] shape the goals we seek, the plans we make, the way we act, and what counts as a good or bad outcome of our actions".

(13) Projeto FrameNet: <https://framenet.icsi.berkeley.edu/fndrupal/> Acesso em: 17 jun. 2018. Projeto FrameNet Brasil: <http://www.ufjf.br/framenetbr/> Acesso em: 17 jun. 2018.

(14) Ha tambem projetos em outras linguas, cujas informacoes estao disponiveis em: <https://framenet.icsi.berkeley.edu/fadmpalfamenets_in_other_languages> Acesso em: 17 jun. 2018.

(15) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People_along_political_spectrum> Acesso em: 17 jun. 2018.

(16) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People by age> Acesso em: 17 jun. 2018.

(17) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People by jurisdiction> Acesso em: 17 jun. 2018.

(18) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People by military specialty> Acesso em: 17 jun. 2018.

(19) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People by morality> Acesso em: 17 jun. 2018.

(20) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeley.edu/fnReports/data/frameIndex.xml?frame=People_by_religion> Acesso em: 17 jun. 2018.

(21) Definicao disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeiey.edu/fnReports/data/frameIndex.xmi?frame=Peopie_by_residence> Acesso em: 17 jun. 2018.

(22) Definicao disponivel em: <http://www.ufjf.br/framenetbr/dados/lexicon/> Acesso em: 17. jun. 2018.

(23) Definicao disponivel em: <http://www.ufjf.br/framenetbr/dados/lexicon/> Acesso em: 17. jun. 2018. O correspondente desse frame na FrameNet de lingua inglesa encontra-se em <https://framenet2.icsi.berkeiey.edu/fnReports/data/frameIndex.xmi?frame=Peopie by origin> Acesso em: 17. jun. 2018.

(24) Definicao disponivel em: <http://www.ufjf.br/framenetbr/dados/lexicon/> Acesso em: 17. jun. 2018. O correspondente desse frame na FrameNet de lingua inglesa esta disponivel em: <https://framenet2.icsi.berkeiey.edu/fnReports/data/frameIndex.xmi?frame=Peopie by vocation> Acesso em: 17. jun. 2018.

(25) Seguindo as convencoes de notacao dos projetos FrameNet, as palavras iniciadas com letra maiuscula, nas definicoes dos frames, consistem em Elementos do Frame. Por exemplo: Sexo, Usuario, Local, etc. Acrescentamos a forma "_sexo" em EFs do frame Pessoas_por_sexo e a forma "_genero" em EFs do frame Pessoas_por_genero como um modo de diferencia-los.

(26) Disponivel em: <https ://www.youtube. com/watch?v=j5hXQDThUiA&t=899s> Acesso em: 17. jun. 2018.

(27) Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=6HK6VtiZ-gQ>, <https://www.youtube.com/watch?v=p0uDFm7DRyM>, <https ://www.youtube.com/watch?v=dLJYeW_x12c>, <https ://www.youtube.com/watch?v=pe--hkX0YxU> Acesso em: 17. jun. 2018.

(28) A entrevista foi reproduzida no blog Revista Integra. Disponivel em: <http://revistaintegra.blogspot.com.br/2010/11/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que.html> Acesso em: 17. jun. 2018.

(29) Uma dessas entrevistas esta disponivel em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0411201012.htm> Acesso em: 17. jun. 2018.

(30) A pagina do programa na Internet esta disponivel em: <http://tvcultura.com.br/programas/rodaviva/> Acesso em: 17. jun. 2018.

(31) A pagina do programa na Internet esta disponivel em: <http://www.sbt.com.br/gabiquaseproibida/> Acesso em: 17. jun. 2018.

(32) Para as transcricoes, adotou-se o Sistema de Notacao versao 2011 utilizado pelo Grupo de Pesquisa Cognicao, Interacao e Significacao (COGITES). Esse Sistema de Notacao foi baseado em Jefferson (1984), Marcuschi (1991) e Mondada (2000). Informacoes sobre o grupo de pesquisa estao disponiveis em: <http://cogites.iel.unicamp.br> Acesso em: 17. jun. 2018.

(33) "The conflation of gender deviance and homosexuality comes about because heterosexuality is in fact an indispensable element in the dominant ideology of gender".
Quadro 1 Definicao dos frames Pessoas_por sexo e Pessoas_por_genero

Frames            Definicao (25)

                  Um Individuo pertence a uma categoria de
                  Sexo: homem ou mulher. A categorizacao
                  pelo Sexo permite inferencias sobre a
                  existencia de Orgao_genital correspondente e
1. Pessoas_por_   predicacoes relacionadas a comportamentos
sexo              (EF Comportamento_sexo), ocupacoes,
                  padroes de gestualidade, vestuario (EF
                  Vestuario_sexo), caracteristicas fisicas e
                  psicologicas etc. identificados por
                  Descritores ou Caracteristica persistente.

                  Um Individuo pertence a uma categoria de
                  Identidade_de_genero: homem, mulher,
2. Pessoas_por_   travesti, transsexual, transgenero etc. Essa
genero            autoidentificacao nao necessariamente preve
                  caracteristicas fisicas, psicologicas, sociais,
                  comportamentais, etc., para o individuo.

Quadro 2 Definicao dos EFs emergentes dos frames Pessoas_por sexo e
Pessoas_por_genero nos dados

Frame                            EFs                  Definicao

                                                Diz respeito a
                                                diferenciacao
                        a) Sexo_sexo            biologica de pessoas
                                                de acordo com uma das
                                                duas possibilidades
                                                de Orgao_genital: o
                                                masculino ou o
                                                feminino.

                                                Comportamento ou
                                                conjunto de
                        b) Comportamento_sexo   comportamentos (acoes
                                                ou praticas)
                                                esperados de uma
                                                pessoa de determinado
                                                Sexo sexo.

                                                Este EF indica o
                        c) Vestuario_sexo       Vestuario que o
                                                Usuario veste. Nesse
                                                caso, e importante
                                                saber se o Usuario e
                                                do sexo masculino ou
                                                feminino.

                                                Posicao realizada no
1. Pessoas_por_sexo     d) Postura_de_          ato de miccao de
                        miccao_sexo             acordo com o Sexo
                                                sexo das pessoas.

                                                Diz respeito ao
                                                banheiro a que se vai
                        e) Ir_ao_banheiro_      e as acoes
                        sexo                    diferenciadas
                                                costumeiramente
                                                realizadas no
                                                banheiro de acordo
                                                com o Sexo sexo de
                                                uma pessoa.

                                                Diz respeito ao
                        f) Orientacao_          Sexo_sexo pelo qual
                        sexual_sexo             uma pessoa se sente
                                                atraida e as
                                                implicacoes
                                                comportamentais
                                                disso.

                        g) Posicao_sexual_      Posicao realizada e
                        sexo                    esperada no ato
                                                sexual.

                                                Diz respeito ao
                        h) Genero_de_           genero flexional
                        referencia_sexo         utilizado na
                                                referencia a pessoas
                                                quanto a seu
                                                Sexo_sexo: genero
                                                masculino ou
                                                feminino.

                                                Identidade social
                                                pautada nos
                        a) Identidade_de_       significados
                        genero                  socialmente
                                                construidos em torno
                                                dos sexos, mas sem
                                                relacao necessaria
                                                com o Sexo_genero da
                                                pessoa em questao.

                                                Diz respeito a
                                                diferenciacao
                        b) Sexo_genero          biologica promovida
                                                pelos cromossomos
                                                sexuais. Nao ha
2. Pessoas_por_genero                           implicacoes
                                                necessarias dessa
                                                diferenciacao, a nao
                                                ser biologicas.

                                                Este EF indica o
                                                Vestuario que o
                        c) Vestuario_genero     Usuario veste. O
                                                atributo de masculino
                                                ou de feminino a um
                                                Vestuario_genero e
                                                produto de uma
                                                convencionalizacao
                                                social.

                                                Diz respeito ao
                        d) Orientacao_          Sexo_genero pelo qual
                        sexual_genero           uma pessoa se sente
                                                atraida. Nao ha
                                                implicacoes
                                                necessarias.

                                                Diz respeito ao
                        e) Genero_de_           genero flexional
                        referencia_genero       utilizado na
                                                referencia de pessoas
                                                quanto a sua
                                                Identidade de genero.
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Author:Lima, Rafahel Jean Parintins
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jul 1, 2018
Words:10021
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