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Fontes literarias da cultura brasileira para a historia dos saberes psicologicos.

Literary Sources of Brazilian Culture for the History of Psychological Knowledge

A utilizacao de fontes literarias no ambito da investigacao historica e um caminho que tem sido apontado e recomendado pelos filosofos e percorrido por varios historiadores contemporaneos. As fontes literarias documentam a historicidade da experiencia humana na medida em que, entre outras funcoes, desempenham aquela de elaborar e transmitir conhecimentos utilizando-se dos procedimentos textuais que lhes sao proprios. Desse modo, nelas podem-se encontrar saberes que dizem respeito a experiencia humana em suas dimensoes temporais. Assim acontece no campo de atuacao da historia dos saberes psicologicos, parte da historia cultural que, inspirada nas perspectivas apontadas por De Certeau (1975/2000) e Chartier (1985/1990), busca reconstruir a genese e as diferentes significacoes de conceitos e praticas psicologicos em diferentes contextos espaco-temporais. A partir dessa perspectiva metodologica e que iremos discutir, neste artigo, as interfaces entre historia, psicologia e literatura. Apresentaremos a seguir as contribuicoes de alguns autores que foram pioneiras quanto a abordagem metodologica de analise e interpretacao das fontes focando as importantes relacoes entre os dominios da historia, da psicologia e da literatura. E, num segundo momento, colocaremos um exemplo concreto de utilizacao de uma fonte literaria produzida no ambito da cultura brasileira colonial da perspectiva da historia dos saberes psicologicos.

Interfaces possiveis entre historia, psicologia e literatura no horizonte da epistemologia nao reducionista de Wilhelm Dilthey

Pioneiro na tematizacao da relacao entre historia, psicologia e literatura e W. Dilthey (1833-1911). Este autor, ao romper com a imposicao positivista quanto a um metodo unico para o conhecimento dos fenomenos, discute de uma maneira inovadora as relacoes entre historia, literatura e psicologia, tendo em vista a compreensao da experiencia em sua complexidade e unidade vital.

Dilthey (2006) distingue entre os dominios das ciencias da natureza e os das ciencias do espirito, fundamentando-se na consideracao da multiplicidade dos sentidos do conceito de experiencia. Tal multiplicidade exige modalidades diversas de abordagem; assinala-se assim a necessidade de demarcar as diferencas entre os dois dominios metodologica e conceitualmente. Desse modo, Dilthey afirma que os dois dominios diferem seja quanto ao ideal metodologico, seja quanto ao objeto de investigacao, seja quanto ao tipo de teorizacao possivel.

No que diz respeito as ciencias do espirito, com elas visa-se a compreensao do processo de individuacao do ser humano do ponto de vista historico-social; elas tem por objeto os fatos assim como se apresentam no interior, ou seja, como uma conexao vivente, de modo que, se nas ciencias da natureza se alcanca a explicacao dos fenomenos, pelas ciencias do espirito se compreende a vida interior. As ciencias do espirito investigam a realidade historico-social, sendo elas: a historia, a economia, o direito, a ciencia do Estado, a teologia, a literatura, a arte, a filosofia, a psicologia. Para referir-se a experiencia consciente da conexao vital, que e o objeto das ciencias do espirito, Dilthey introduz a categoria epistemologica da vivencia, em oposicao a categoria da representacao, de matriz kantiana.

Com base nesses pressupostos, uma essencial convergencia entre historia, literatura e psicologia (e as demais ciencias do espirito) e preconizada por Dilthey na medida em que esses saberes buscam apreender as vivencias do homem real em sua concretude, unidas por "conexoes vitais" (DILTHEY 2006, p. 252). Toda conexao vital e significativa: "onde quer que a vida tenha passado e tenha ganho a compreensao, ha historia. E onde ha historia, a significacao se faz presente em sua multiplicidade" (DILTHEY 2006, p. 253).

No que diz respeito a ciencia historica, Dilthey aprofunda o estudo da natureza das conexoes entre os eventos do universo historico, evidenciando que elas diferem das conexoes causais: enquanto estas se referem a existencia de causas capazes de produzirem efeitos necessarios, "a historia nao conhece senao as relacoes proprias ao agir e ao sofrer os efeitos do agir" (DILTHEY 2006, p. 175). Tomando o exemplo do genero autobiografico, Dilthey observa que as conexoes tematizadas pelos autores desse tipo de narrativas se referem sempre a articulacao "entre as partes da vida e a concretizacao de um valor absoluto" (DILTHEY 2006, p. 177) reconhecida como sentido da vida em sua totalidade. Trata-se de "conexoes significativas" (DILTHEY 2006, p. 178).

Entre as ciencias do espirito, existem, porem, diferencas de abordagem: por exemplo, a psicologia descreve as funcoes da vida psiquica, ao passo de que a antropologia descreve os conteudos dos estados psiquicos. Psicologia e antropologia constituem-se em fundamento da historia, que e a ciencia do espirito mais completa, pois so por ela e possivel apreender de modo completo a experiencia do homem. De fato, o conhecimento historico revela o que o homem e ao longo do tempo: na dimensao da temporalidade e "possivel ler, em letras maiusculas, os motivos, os destinos interiores, as relacoes vitais da natureza humana" (DILTHEY 1880 apud AMARAL 1987, p. 19). Da afirmacao de que a consciencia humana se desenvolve historicamente decorre que so e possivel conhece-la focando o processo historico vivo. Assim, segundo Dilthey, na apreensao da subjetividade, e preciso substituir o "cogito" cartesiano e o "eu penso" kantiano pela unidade do "eu penso, eu quero e eu temo" que e dada na nossa consciencia e se revela na historia.

A analise psicologica e essencial para a compreensao das vivencias. A psicologia que tem por objeto as vivencias conscientes e do ponto de vista metodologico uma ciencia descritiva e analitica. A construcao da "psicologia descritiva" encontra-se no texto Ideen Uber Eine Beschreibente und Zergliedern de Psychologie (1894). Cabe assinalar que a proposta da psicologia descritiva de Dilthey se origina na negacao, por um lado, de uma psicologia fundada na metafisica e, por outro, de uma psicologia fundada no modelo das ciencias naturais ("psicologia explicativa", ou psicologia tradicional), resultado da transposicao dos metodos cientifico-naturais para a psicologia.

De modo complementar a psicologia, a literatura, a arte e a poesia sao formas de conhecimento importantes do mundo interior do individuo: "Quao pobre e mesquinho seria o nosso conhecimento psicologico dos sentimentos sem os grandes poetas que expressam toda a variedade dos sentimentos" (DILTHEY apud AMARAL 1987, p. 36).

Na perspectiva de Dilthey, portanto, a colaboracao entre historia, psicologia, literatura e as demais ciencias humanas revela-se essencial. Se, por um lado, o universo historico refere-se a fatos materiais, exteriores, por outro lado, as ciencias humanas buscam nesse universo o sentido e a significacao que tais elementos materiais assumiram "a partir da atuacao do espirito". E e a "compreensao que apreende nesses estados de fato essa significacao, esse sentido" (DILTHEY 2010, p. 71). Desse modo, no ambito da discussao filosofica, Dilthey e pioneiro na tematizacao da fecundidade heuristica proporcionada por abordagens que contemplem os aportes metodologicos historicos, literarios e psicologicos.

Interfaces entre historia, psicologia e literatura no ambito da historiografia: a contribuicao de Johan Huizinga

Varios historiadores contemporaneos exploram as ricas interfaces entre historia, psicologia e literatura em seu fazer historico (CHARTIER 1990; CERTEAU 2000; DOSSE 2004). Diversas sao as contribuicoes a construcao das interfaces entre analise historiografica e analise literaria das fontes: dentre elas destaca-se o aporte de LaCapra (1985a; 1985b; 1992; 2004). Pinto e Valinhos colocam que LaCapra busca "construir um discurso historico que nao se dissolva na literatura, mas que ao nao evitar o contato com ela propicie estudos" mais criativos (PINTO; VALINHOS 2010, p. 5). De fato, segundo as autoras, "a problematizacao de LaCapra a respeito de nocoes caras a historiografia, tais como a de documento, de texto, de contexto e linguagem, permite pensar de maneira instigante a relacao entre escrita e historia" (PINTO; VALINHOS 2010, p. 5). Bariani assim sintetiza a visao desse autor: "O texto--para ele--esta em relacao com outros textos, difere e aproxima-se destes, esta indefectivelmente permeado pelo contexto [...] e nao e redutivel a condicao de 'simples' documento, artefato, registro do passado". Com efeito, "ha dimensoes no texto [...] insubmissas ao mero inventario". Portanto, exige-se uma "atitude critica e transformadora" que realize um "dialogo critico com o texto e os problemas que levanta" (BARIANI 2006, p. 2).

Aqui queremos mencionar a contribuicao de um pioneiro: Johan Huizinga (1872-1945). Este autor, ao definir a historia como "a forma do espirito (da cultura) em que uma civilizacao toma conta de seu passado" (HUIZINGA 2013, p. 17, traducao nossa) (1) estabelece de modo definitivo o nexo entre a indagacao historica e as culturas na multiplicidade de suas expressoes. Com efeito, assim como a historia, a literatura e uma forma cultural: a diferenca e que a historia se interessa pelo passado e exclusivamente por ele; e que ela nao possui o elemento ludico presente na literatura. A historia, segundo Huizinga, e a menos independente dentre as demais areas do saber por ter constante necessidade do auxilio das demais para dar forma aos seus conceitos, para definir suas unidades de medida, para preencher seu pano de fundo. Alem do mais, o historiador lida com acontecimentos que sao por sua natureza fenomenos nao submetidos a leis deterministas: de fato, os fatores presentes num dado tempo passado permitiriam possibilidades diferentes das que ocorreram efetivamente. Inevitavelmente, portanto, o historiador acaba ordenando os fatos historicos segundo categorias derivadas de sua visao do mundo e formacao cultural. Nesse sentido, a representacao e a narrativa historica dependem da civilizacao e da cultura de pertenca do historiador.

O historiador pode reconhecer formas culturais em ato no passado na medida em que ele as compreende em seu presente. Isso nao significa que a historia se reduza a historia romanceada, na qual e amplificado um fator tambem presente na narrativa historica: a imaginacao, a fantasia. A historia romanceada, segundo Huizinga, diferencia-se do romance historico, "genero literario irrepreensivel" (HUIZINGA 2013, p. 101, traducao nossa) (2) que "atinge da historia seu material, usa o pano de fundo de um dado passado historico, mas como puro exercicio de belas letras, sem pretensao de ser considerada uma verdade rigorosa". (3) Por contra, segundo Huizinga, "a historia romanceada contemporanea pretende fazer historia", mas "esses autores nao cuidam da sobriedade da verdade a ser conhecida". Introduzem detalhes fantasiosos de tipo psicologico, com mais cores das que seria permitido usar. Os autores da historia romanceada--ainda segundo o autor--, nao tendo a humildade de reconhecer a propria ignorancia, ignoram "que e mais conveniente renunciar a dizer coisas que nao se conhecem" (HUIZINGA 2013, p. 102, traducao nossa). (4) De modo nenhum, portanto, o "historiador rigoroso deve ceder a tentacao de embelezar literariamente a historia" (HUIZINGA 2013, p. 102, traducao nossa). (5)

A maneira de Huizinga entender os documentos literarios como expressoes da historicidade da experiencia humana e, portanto, auxiliares do historiador em suas pesquisas evidencia-se numa de suas obras mais importantes, O outono da Idade Media (2010), na qual ele utiliza obras literarias, como as poesias de Deschamps, Meschinot, Chastellain, Chartier etc., para descrever as formas de vida e de pensamento dos seculos XIX e XV na Franca e nos Paises Baixos.

Um exemplo de conexao entre teoria literaria e historia da cultura: a contribuicao metodologica de Alcir Pecora

Na busca da apreensao do eixo unitario que perpassa os sermoes de Antonio Vieira, Alcir Pecora (1994) encontrou um metodo de analise que se revela fecundo no que diz respeito a apreensao do conteudo da fonte literaria e nao anacronico do ponto de vista historiografico. Pecora parte de uma critica acerca de algumas analises e interpretacoes dos sermoes vieirianos que observa terem sido construidas "sobre bases largamente anacronicas, isto e, em torno de formulacoes que parecem incapazes de interrogar o seu objeto a partir [...] de um tempo passado que seja mais do que pura arbitrariedade de sua enunciacao" (PECORA 1994, p. 40). Isso produziria, entre outros resultados, uma anacronica "estetizacao da experiencia estetica como esfera autonoma". Segundo o autor, e preciso "evitar a cada passo a tentadora substituicao do enigma historico pela originalidade anacronica com que se o resolve" (PECORA 1994, p. 43, nota 14). Pecora propoe a "reposicao do contexto historico em que se inscreve e constitui a producao discursiva de Antonio Vieira" (PECORA 1994, p. 41), incluindo-se, por exemplo, "a concepcao que preside o uso que faz da linguagem" (PECORA 1994, p. 41). Assim, e necessario entender "a maneira de ver" do autor "para se chegar a conhecer o significado do que diz" (PECORA 1994, p. 41). Nesse sentido, Pecora realiza a busca da "logica de base" que perpassa a obra analisada inserindo--a numa "totalidade com a qual mantem uma relacao essencial" (PECORA 1994, p. 42). Procura assim "levar a serio as formulacoes de base que articulavam as significacoes discursivas da epoca e, especialmente, as que forneciam a Antonio Vieira os lugares comuns de sua invencao" (PECORA 1994, p. 43). Em suma, "trata-se, em termos metodologicos da analise do discurso, de investigar os parametros de significacao previa presentes nas condicoes de producao dos sermoes" (PECORA 1994, p. 44), ou seja, seguindo a indicacao de Pecheux, apreender o "conjunto das representacoes que delimitam as possibilidades de significacao no interior de uma situacao dada de interlocucao" (PECORA 1994, p. 4, nota 16). Desse modo e possivel, no conjunto da obra analisada, "detectar a recorrencia complexa e sistematica de alguns de seus elementos essenciais em uma representacao articulatoria de base" (PECORA 1994, p. 67).

O metodo proposto por Pecora para a analise da obra sermonaria de Antonio Vieira pode ser aplicado tambem ao estudo de fontes do mesmo genero ou de generos proximos e constitui-se num interessante enfoque ao mesmo tempo historico e teorico literario.

Um exemplo do uso de fontes literarias na historia dos saberes psicologicos: a novela do jesuita Alexandre de Gusmao

Na historia dos saberes psicologicos, area de nossa atuacao, e frequente o recurso as fontes literarias. No universo espaco-temporal da cultura brasileira colonial, por exemplo, destacamos as pecas de oratoria sagrada de Antonio Vieira, objeto de varias pesquisas voltadas para a apreensao dos saberes psicologicos (MASSIMI 2002a; 2005; 2009a; 2009b); bem como duas novelas alegoricas: uma de Alexandre de Gusmao, publicada em 1682 (MASSIMI 2012) e uma de Nuno Marques Pereira, publicada em 1728 (SILVA; MASSIMI 1997).

Os saberes psicologicos nao dizem respeito apenas aos conteudos das fontes mas tambem ao genero em que elas se inscrevem: com efeito, seja no caso dos sermoes como das novelas, a estrutura retorica de composicao das fontes e construida de modo a produzir efeitos nos destinatarios. Eles sao obtidos pela mobilizacao do dinamismo psiquico realizada pela palavra (seja oral, seja escrita) ordenada, com os recursos de que a retorica dispoe (metaforas, evidencia, composicao de lugar, etc.). A definicao dos efeitos desejados depende dos objetivos da obra.

Tomemos aqui como exemplo a novela alegorica de Alexandre de Gusmao SI. A analise da obra foi desenvolvida por nos (MASSIMI 2012) utilizando o metodo de Alcir Pecora acima descrito, ou seja, buscando identificar a "logica de base" de sua construcao a partir da evidencia das formulacoes discursivas presentes no texto e da apreensao de sua significacao a luz do universo historico-cultural em que a obra foi redigida. No ambito do arcabouco conceitual que foi possivel reconstituir a partir da identificacao da logica de base do texto e dos topoi nele recorrentes, buscamos apreender os saberes psicologicos, nao baseados nas categorias da psicologia contemporanea (pois isso seria anacronico), mas a partir das formulacoes discursivas presentes no texto e dos significados por elas assumidos, proprios do universo cultural do periodo historico a que pertencem. Utilizando uma expressao de De Certeau, trata-se de identificar os saberes psicologicos no universo do pensavel de um dado tempo historico (CERTEAU 2000), ou seja, no campo das possibilidades conceituais disponiveis naquele momento.

Gusmao, educador jesuita e diretor do Seminario de Belem em Cachoeira (Salvador), escreve este texto quase que paralelamente ao tratado pedagogico A arte de educar bem os filhos da idade da puericia, publicado em Lisboa em 1685. A enfase na relevancia da atuacao da Companhia de Jesus para o trabalho educativo da sociedade perpassa todo o tratado. Na novela, tambem, o papel da escola se revelara decisivo.

Logica de base, topicos recorrentes e conceitos psicologicos na novela

O motivo central da novela e a historia de dois irmaos que, de modo diferente, vivenciam seus percursos existenciais, sendo esses percursos qualificados como peregrinacoes.

O tema da peregrinacao possui significados conceituais que pertencem a um amplo dominio espaco-temporal. Trata-se de uma tematica persistente na longa duracao do tempo e em diferentes pontos do espaco geografico, com conotacoes diversificadas e especificas em diversas epocas historicas e em diferentes tradicoes culturais, sociais e religiosas. No caso especifico da novela de Gusmao, a peregrinacao e tida como metafora da vida humana entendida como percurso no tempo moldado por uma origem e uma direcao a seguir em busca de um destino final. Nesse sentido, sao propostos valores inerentes a essa orientacao do tempo humano, assinalando-se condutas a serem encarnadas para que o destino possa ser alcancado com proveito. Evidenciam-se na leitura da novela dois valores fundamentais: a acao decisiva da liberdade como condicao da ordenacao da pessoa ao seu Destino; e a afirmacao do papel da educacao para a formacao da pessoa.

Com efeito, o autor, ao construir a metafora base do texto, e movido por uma intencao teologica e filosofica que e a de assinalar o papel decisivo do livrearbitrio no delineamento da historia pessoal, acento propositalmente colocado com o objetivo de contrapor-se a leitura teologica do tema realizada pelo protestantismo e condensada na analoga obra O peregrino: a viagem do cristao a cidade celestial, de 1678 (2004), de John Bunjam (1628-1680?). Alem do mais, a imagem da peregrinacao em Jerusalem e muito cara ao proprio fundador da Companhia, Inacio de Loyola (1991). Do objetivo visado por Gusmao de, por meio da novela, adentrar nesse debate teologico, sao sinais os nomes dos dois protagonistas: Predestinado e Precito. A caracterizacao da diferenca entre os dois irmaos, nascidos da mesma mae e cuja origem assinala a condicao universal do ser humano como peregrino, e dada, nao somente pelo nome, mas pelo fato de que "Predestinado era casado com uma Santa e honesta virgem, chamada Razao. Precito era casado com uma ruim e corrupta femea, chamada Propria Vontade" (GUSMAO 1685a, p. 7). Em suma, o eixo da personalidade de cada um e diferente: no primeiro caso, trata-se do uso da racionalidade; no segundo, e a afirmacao da propria vontade.

O pleno entendimento do significado dessa diferenca pode se obter lembrando o que Inacio de Loyola coloca em sua autobiografia, narrada em terceira pessoa; ao relatar os inicios de sua conversao, lembra que "notou [...] esta diferenca: quando pensava nos assuntos do mundo, tinha muito prazer; mas quando depois de cansado, os deixava, achava-se seco e descontente". Pelo contrario, "quando pensava em ir a Jerusalem descalco [...], nao se consolava so quando se detinha em tais pensamentos, mas ainda, depois de deixa-los, ficava contente e alegre". Essa experiencia proporcionara a Inacio um maior conhecimento de si mesmo ("discernimento"): "colheu, entao, por experiencia, que de uns pensamentos ficava triste e, de outros, alegre. Assim veio pouco a pouco a conhecer a diversidade dos espiritos que o moviam" (LOYOLA 1991, p. 23). E justamente discutir essas diferencas nas figuras dos dois protagonistas o proposito da novela de Gusmao (MASSIMI 2012).

Apesar de tais diferencas, porem, Gusmao busca frisar que a condicao humana e dotada das mesmas possibilidades: ambos os irmao preparam-se para o caminho de sorte, que costumam empreender os peregrinos, tendo os mesmos habitos e dotados das mesmas potenciais virtudes (graca e protecao divina, fortaleza, constancia, conforto espiritual, etc ...), metaforizadas pelas roupas utilizadas (habito, capa de pele de cordeiro, chapeu, bordao de peregrinos, alparcatas, alforje, cinta, bolsa). Assim Gusmao ressalta que o exercicio da liberdade humana ocorre no impacto com a realidade, ou seja, diante das circunstancias da vida (metaforizadas pela imagem da floresta e da mata) (MASSIMI 2012).

O outro valor destacado na novela e a importancia da educacao para a formacao da pessoa. Sabemos que Alexandre de Gusmao foi fundador de um Colegio e autor de um tratado pedagogico. Ja dissemos que, na novela, o papel da escola dos filhos e decisivo: a escola a ser escolhida pode ser a da verdade ou a da mentira. Conforme a opcao feita, abre-se um diferente aprendizado: "eis que chegam das escolas os filhos de ambos referindo as licoes, que naquele dia aprenderam. Os filhos de Predestinado referiam as excelencias, que da santa Cidade de Jerusalem apregoavam os Profetas. [...]. Os filhos de Precito repetiam as grandezas, que de Babilonia referiam as escrituras" (GUSMAO 1685, p. 13). Assim, a escola proporciona o direcionamento de intencoes e desejos de cada um em relacao a um horizonte ultimo, que e o proprio sentido da vida, metaforizado pelas duas cidades de Jerusalem e Babilonia. Ao longo da viagem, o discernimento acerca do melhor rumo depende da decisao acerca de uma meta reconhecida mais consoante ao desejo de felicidade e de realizacao que caracteriza o ser humano: ambos os peregrinos aspiram a ser felizes: tudo se joga na diferenca que ha entre amar a si mesmo como destino (destinado) e amar a si mesmo naquilo em que imediatamente nos espelhamos. Analogo e o percurso que ocorre nos Exercicios espirituais inacianos, onde, a partir da segunda semana, o sujeito e provocado a ler seu proprio desejo e nesse momento se faz presente a possibilidade do engano no discernimento (LOYOLA 1982). Ambos os protagonistas irao empreender um processo trabalhoso, mas cada um se posicionara conforme o que ama. Desse modo, Predestinado chega a Jerusalem por um caminho de purificacao enquanto Precito chega a Babilonia e termina tragicamente sua jornada.

O que esta em jogo e o destino da pessoa, topico caracteristico da tradicao ocidental que sintetiza o dinamismo humano nas suas dimensoes corporal, espiritual, psicologica, segundo as matrizes conceituais postas por Agostinho (1994), Aristoteles (2006) e Tomas de Aquino (2001). As tres dimensoes desse dinamismo compoem unitariamente a pessoa, mas possuem movimentos proprios (MASSIMI 2010a). O tema da pessoa e de sua educabilidade e central para Alexandre de Gusmao, conforme revela analise de suas outras obras. Com efeito, na Arte de criar bem os filhos na idade da puericia (1685b), Gusmao compara os caracteres dos meninos aos metais das minas, os quais, mesmo tendo valor e consistencia diferente, podem todos ser lavrados pela arte: "assim nao ha condicao de menino tao ruim, que nao possa ser domada pela boa educacao". (GUSMAO 1685b, p. 4). Em outra obra, Eleycam entre o Bem e o Mal Eterno (1720), Gusmao recomenda o cuidado para com a alma por meio de seu conhecimento, pois "do conhecimento que tivermos das nossas almas depende o amor, que lhe devemos" (GUSMAO 1720, p. 341). Neste contexto, pode-se entender que a Historia do Predestinado Peregrino e de seu irmao Precito (1685a) tem a funcao de evidenciar a importancia desse cuidado de si e de propor alguns metodos para atua-lo, assim como de descrever os efeitos nocivos do descuido: a pessoa realiza-se a si mesma somente na medida em que se desenvolve de modo ordenado conforme o seu destino ultimo. Conhecimento da pessoa e pratica de orientacao da pessoa para que o seu ser em potencia se atue coincidem na novela.

No que diz respeito aos saberes psicologicos, evidencia-se na novela um eixo importante e derivado da concepcao antropologica dos jesuitas: para que o ser humano seja integro e realize seu destino, e preciso que a razao ordene o dinamismo pessoal; que a existencia seja conforme a razao; e que a vontade seja submetida a uma alteridade e nao se afirme por ela mesma. Ha, com efeito, duas possibilidades inerentes ao ser humano e que colocam para ele constantemente uma escolha: ele pode viver conforme a razao ou conforme a propria vontade. Por sua vez, essas conformidades originam duas posicoes diferentes, metaforizadas pelos filhos dos dois casais: Predestinado tinha dois filhos de sua esposa Razao, Bom Desejo e Reta Intencao. Precito tambem tinha dois filhos de Propria Vontade: Mau Desejo e Torta Intencao (GUSMAO 1685a, p. 7). Em suma, o desejo ou apetite (afeto) e o movimento da vontade (intencao), podem ser orientados pela razao e, entao, sao bons e retos; ou pela vontade propria, sendo assim maus e tortos. E isso depende da educacao na primeira infancia, conforme assinala o autor: "sabia de quanto dano era criarem-se os filhos de sua primeira idade com Vontade Propria" (GUSMAO 1685a, p. 8).

Na novela evidencia-se assim a concepcao jesuitica acerca das interacoes entre dinamismo espiritual e dinamismo psiquico, ou seja, sobre o funcionamento das potencias da alma, suas operacoes, suas doencas e seus remedios. Tais potencias constituem-se na interface entre o corpo e o espirito. Com efeito, a ordenacao da pessoa como um todo demanda um funcionamento saudavel do dinamismo psiquico indicado pelo rotulo de "potencias da alma". E a partir da ocorrencia de alguma desordem nessas potencias que se instalam as "mas inclinacoes" nas pessoas. Na viagem dos dois peregrinos, as potencias sao metaforizadas pela imagem de um aparelho hidraulico composto por fontes de agua (estas podendo, ou nao, estarem limpas), canais e regatos. Segundo o relato, "estas fontes nao sao outras que as duas potencias principais de nossa alma, Entendimento e Vontade, donde todo o bem e todo o mal provem" (GUSMAO 1685a, p. 260). As operacoes das duas potencias principais ocorrem pela mediacao de outras potencias animicas: as fontes correm por "dois canos que chamam Apetites Sensitivos", o cano Irascivel e outro Concupiscivel. Ambos os canos "se desaguam por onze regatos que chamam Paixoes", isto e, os afetos. Sao eles: cinco paixoes do Concupiscivel (Amor, Odio, Desejo, Abominacao, Deleite, Gozo e Tristeza); e cinco paixoes do Irascivel (Esperanca, Desesperacao, Ousadia, Temor, Ira e Indignacao) (GUSMAO 1685a, p. 260).

Analoga concepcao do psiquismo de matriz aristotelico-tomista pode ser encontrada nos tratados jesuitas rotulados de "Conimbricenses". Tais tratados, manuais escolares utilizados no Colegio das Artes de Coimbra, constituem-se nos alicerces fundamentais da formacao dos jesuitas em Portugal e em suas colonias. O nome "Conimbricenses" deriva do fato de terem sido redigidos pelos professores do referido Colegio. Tais manuais foram utilizados para os estudos filosoficos nos colegios da Companhia no Brasil (GIARD 1995; MASSIMI 2002a). Trata-se de comentarios dos textos gregos de Aristoteles. No caso do estudo antropologico e psicologico, destacam-se os seguintes textos: o comentario ao tratado De Anima (Sobre a alma; GOIS 1602), o comentario ao tratado Parva Naturalia (Pequenas coisas naturais; GOIS 1593a), o comentario ao tratado Etica a Nicomaco (GOIS 1593b), o comentario ao De Generatione et Corruptione (Sobre a geracao e a corrupcao; GOIS 1607).

Ha tambem uma profunda analogia de visao entre tais tratados e a novela de Gusmao no que diz respeito a concepcao do nexo entre apetites e valores espirituais. Quanto ao apetite intelectivo ou vontade, nos tratados Conimbricenses, sobretudo na Primeira disputa da etica, escrita por Gois em 1593 (1957), afirma-se que o ato de apetecer evidencia a inclinacao de todas as coisas para o bem. Todavia, no caso dos seres humanos, esse bem pode ser por eles identificado com um objeto nao apropriado a reta razao e a lei divina. Assim, quando ao bem natural se opoe um bem maior, o homem deve ser capaz de discernir e optar por ele. Disso decorre que o sujeito que faz o mal, nao quer o mal como tal, mas "enquanto aparece bem", orientado por "alguma imagem imperfeita de bem" (GOIS 1957, p. 83). Gusmao parece aderir a essa posicao ao apresentar o dinamismo de Precito: a causa de seus desvios nao e o exercicio da vontade por si mesma, mas o fato de ela ser mal direcionada, por nao estar submetida a razao. De certo modo, a vontade de Precito regredira ao nivel das paixoes, dos apetites sensitivos. Por isso, para o bem viver, torna-se decisivo o trabalho do cultivo dos apetites e das demais potencias, bem como a identificacao das "enfermidades" da alma, cujo desenvolvimento e descrito em pormenores por Gusmao. Ele retrata o adoecimento animico, em analogia com as doencas do corpo, como uma "infeccao" decorrente do fato de que nas aguas das fontes (potencias) se infiltram as "mas inclinacoes" (MASSIMI 2012).

No que diz respeito a concepcao do nexo entre apetites sensitivos (afetos) e valores espirituais, encontra-se tambem convergencia entre a visao dos Conimbricenses e a novela de Gusmao: os afetos sao inclinacoes do apetite sensitivo que movem a vontade. Todavia, em conformidade com a teoria aristotelica, "o apetite nao move a vontade imperando-lhe" (GOIS 1957, p. 159), mas por "por intermedio da noticia intelectiva" do objeto, ja que, por tratar-se de uma faculdade psiquica inferior, ligada ao orgao corporal, que e material, como tal nao pode obter o dominio sobre uma potencia superior e imaterial. Se, porem, a vontade for arrastada pelo apetite de modo tal que nao tenha poder para lhe resistir (quando esse apetite "for tao veemente que absorva absolutamente o uso da razao"), o afeto tornar-se-a uma inclinacao intensa e desordenada que "perturba [...] e absorve o juizo". Eis aqui explicado pelos filosofos de Coimbra o processo vivenciado por Precito na novela: levado para Samaria por Engano, seu conselheiro, primeiro ele se hospeda na "casa da Vaidade" e, depois, por estimulo dos seus dois filhos Mau desejo e Torta Intencao, resolve seguir o caminho da Vaidade e adentra numa terra regida pelo velho "Vicio", onde dissipa sua vida governado pela "concupiscencia da carne, concupiscencia dos olhos, soberba" (GUSMAO 1685a, p. 247). Da uniao com a esposa Propria Vontade, Precito gera outros dois filhos Desprezo as coisas eternas e Estimacao das coisas temporais. Como consequencia dos rumos escolhidos por Precito, ocorre um desequilibrio interior das potencias psiquicas, "de tal sorte que nao parecia homem de razao" (GUSMAO 1685a, p. 247). Resulta, no fim, a "confusao" que o atormenta "com mil tristezas, desgostos e inquietacoes" e uma "serpente de terrivel aspecto" metafora da "propria Consciencia".

Em suma, Precito e o caso exemplar do desvio da vontade em relacao ao seu alvo, desvio esse que acarreta a desordem dos atos humanos. A desordem da experiencia humana assim configurada e a "doenca" que a formacao jesuitica proposta por Inacio e por seus seguidores busca "remediar" por meio de um trabalho sistematico de ordenacao das dimensoes pessoais. Nao se trata de neutralizar ou desconsiderar a acao das potencias psiquicas, ja que elas sao elementos constitutivos da experiencia humana, mas cabe aprender a lidar com esses fenomenos de modo a torna-los fatores construtivos do desenvolvimento da pessoa para que ela possa atingir "a moderacao e o equilibrio" (GOIS 1957, p. 199).

O caminho do Predestinado e exemplar desse processo: os remedios a ele propostos ao longo da jornada correspondem aos grandes pilares da pedagogia jesuitica; trata-se do bom uso da razao, orientada em sua busca da verdade e do bem pela moralidade (reta intencao e bom desejo). Esta, por sua vez, sabera ordenar bem vontade e afetos. Ao Predestinado e aconselhado entregarse ao "cuidado da esposa Razao e dos dois filhos Bom desejo e Reta intencao" (GUSMAO 1685a, p. 261). Um alimpara o entendimento, outra "tera cuidado de ordenar bem a vontade" (GUSMAO 1685a, p. 261). Na tradicao jesuitica e, de modo geral, no cristianismo da Idade Moderna, esse exercicio interior e chamado de "desengano".

Na novela, o Desengano e uma personagem que aconselha Predestinado e e caracterizado como aquele que "fixa os olhos em Verdade". Junto aos conselhos de Desengano, o peregrino recebe por um anjo uma tocha, feita de cera muito pura, "fabricada por umas abelhas, que chamam Potencias da alma" com o polen de "flores trasladadas do Paraiso ao jardim da Igreja Catolica" e que metaforizam a Graca divina (GUSMAO 1685a, p. 261). Isso significa que o desengano e proporcionado, por um lado, pelo dinamismo animico (as abelhas, a saber, as potencias da alma, que tem um papel ativo no processo) e, por outro, por algo dado (as "flores" provenientes do Paraiso, ou seja, a Graca). Aqui transparece a posicao teologica dos jesuitas acerca da relacao entre liberdade humana e iniciativa divina, relacao essa questionada pela doutrina do protestantismo que reafirma com forca a predominancia da Graca (BUZZI 2000).

A crenca na funcao decisiva das potencias da alma no percurso do desengano demanda o conhecimento de sua atuacao, e isso justifica a atencao reservada a dimensao psicologica na antropologia jesuitica. A articulacao entre as potencias animicas no exercicio do desengano e ilustrada por Gusmao ao retratar o "Palacio do Desengano". Em primeiro lugar, destaca-se a memoria: todos os acessos ao Palacio correspondem a atividades da memoria aplicada a objetos especificos (eternidade, morte, juizo, interno, paraiso, lembrancas do passado presente e futuro). Outra potencia animica envolvida no processo e o entendimento: o trono do Desengano no Palacio e a esfera do mundo girando por volta de dois polos, a vida e a morte, num movimento constante entre eles; a tomada de consciencia da mutabilidade da condicao humana consiste na apreensao desse movimento constante de alternancia entre dimensoes opostas da realidade. Os atos da memoria e do entendimento sao eficazes desde que sejam acompanhados pelo uso correto dos sentidos, que, por sua vez, depende da decisao da vontade. Esta e exercitada por meio de tres praticas, que sao a Licao, a Oracao e a Meditacao, exercicios expressivos do carisma jesuitico. Gusmao descreve em pormenores cada uma das tres praticas e os recursos a elas inerentes, representando-os sempre por meio de metaforas topologicas e de personagens alegoricas. Destaque especial e dado ao bom uso dos sentidos internos (memoria, imaginacao, senso comum e vis cogitativa), proporcionado pelo metodo inaciano da Compositio Loci, que Gusmao retrata em detalhes (LOYOLA 1982). Tal metodo consiste em representar-se na imaginacao o misterio a ser meditado, colocando-se mentalmente no lugar onde o fato aconteceu. Na novela, o uso desse metodo e descrito quando Predestinado, entrando numa sala do Palacio de Desengano chamada de Composicao de Lugar, recebe um quadro pintado representando uma cena evangelica e oferece-o para tres virgens chamadas Memoria, Inteligencia e Vontade (GUSMAO 1685a, p. 80).

A ordenacao dos afetos (apetites sensitivos) e da vontade (apetite intelectivo) abre o acesso a virtude central para os jesuitas, a obediencia. Conforme a visao inaciana, a obediencia encontra fundamento na filosofia humana (aristotelica) e confirmacao no preceito divino, sendo a virtude fundamental para ordenar a vida espiritual, social e politica. Na novela, Gusmao apresenta, em pormenores, outras praticas da tradicao jesuitica, uteis para a ordenacao da pessoa e especialmente para adquirir a virtude da obediencia: o exame de consciencia e o recurso a direcao espiritual (metaforizada pela figura do medico espiritual).

O ultimo topico importante no que diz respeito a visao antropologica e psicologica presente na novela de Gusmao e o do coracao: ao retratar a longa jornada de Predestinado e de Precito, Gusmao disserta sobre o coracao humano e sua identificacao com o coracao divino. Segundo o autor, essa uniao ocorre numa das etapas finais da caminhada, como resultado do processo de aperfeicoamento do ser humano em vista de seu Destino e em coincidencia com a representacao da via dolorosa transitada por Cristo a caminho do Monte Calvario. Essa via, marcada por sete passos, e percorrida por Predestinado em companhia de figuras alegoricas representando as virtudes, e, a cada passo, seu coracao sofre uma transformacao decorrente da contemplacao da representacao do Cristo sofredor. Ao termo do percurso, tais figuras, "estendendo o coracao do Peregrino fortemente na propria Cruz do Senhor, o pregaram nela com os proprios cravos com que o mesmo Cristo estava crucificado" (GUSMAO 1685a, p. 237). O topos da impressao, a estampa no coracao, remete a outro mais antigo, o da escritura no coracao (BOLZONI 2010). O tema do retrato da pessoa amada pintado ou esculpido no coracao e presente na tradicao lirica ocidental desde a Idade Media. Segundo Bolzoni, nao se constitui apenas uma metafora linguistica, mas adquire tambem consistencia material; nao se trata de simples analogia, mas de um transito entre o espirito e a carne, entre a palavra e o corpo. O coracao, lugar da interioridade, possui tambem evidencia exterior: pode-se dizer que e o lugar de transito entre interioridade e exterioridade (BOLZONI 2010). Ainda segundo essa autora, tal concepcao deve ser entendida a partir de uma tradicao muito antiga que atribui dimensao espacial as potencias animicas como, por exemplo, a memoria. O coracao torna-se o repositorio das imagens da memoria, de modo que se diz que a imagem do objeto amado se imprime no coracao (BOLZONI 2010; CARRUTHERS 2006).

Em suma, podemos identificar os topoi principais da novela, suas matrizes conceituais e o conjunto de saberes psicologicos que ela elabora e transmite.

Recursos retoricos e efeitos psicologicos na construcao da novela

Os saberes psicologicos sao propostos na novela mediante recursos literarios como alegoria e metafora. Sabe-se que a utilizacao de imagens do mundo da natureza para metaforizar situacoes morais, interiores, ou referentes ao sagrado e comum no periodo da Idade Moderna e na tradicao jesuitica (MASSIMI 2007; 2008). O amplo uso de tais recursos pode ser explicado em funcao das finalidades pedagogicas da novela. Em sua composicao, Gusmao inspira-se em generos literarios analogos e utiliza-se de conhecimentos de retorica e especialmente de retorica jesuitica (como, por exemplo, a composicao de lugar, o uso de metaforas e alegorias). Na perspectiva da historia dos saberes psicologicos, buscamos compreender, pela analise da novela, o efeito da narrativa alegorica no dinamismo psiquico dos destinatarios, efeito visado pelo autor mediante o uso de recursos proprios do genero literario.

A palavra retoricamente ordenada, a construcao da metafora base (a partir da qual se desenvolve o enredo da novela) e a disposicao das alegorias sao todos elementos que agem com eficacia no dinamismo psiquico dos destinatarios, realizando os objetivos pretendidos, a saber: deleitar, mover, ensinar. Tais efeitos sao obtidos pela mobilizacao das potencias animicas: os sentidos (externos e internos) evocam afetos e provocam as operacoes do entendimento e da vontade (MASSIMI 2005; 2008b; 2009a). Focamos o funcionamento desses aspectos na novela de Gusmao.

Em primeiro lugar, a palavra pode ser disposta segundo os ditames da arte retorica na transmissao oral (pregacao) e na transmissao escrita (novela). Em ambos os casos, a dinamica de acao da palavra retoricamente ordenada assemelha-se. Alem do mais, possivelmente, a novela foi construida para ser nao apenas lida como tambem ouvida, tendo por destinatarios nao apenas leitores como tambem ouvintes; devendo, portanto, suscitar efeitos similares aos proporcionados por um sermao devido a composicao ordenada de palavras e imagens segundo os ditames da arte retorica. A eficacia de sua acao junto aos destinatarios e determinada pela mobilizacao articulada das potencias do dinamismo psiquico, que, por sua vez, permite o processo de conhecimento visando a transmissao de determinados valores.

Em segundo lugar, deve ser destacada a funcao da metafora base do texto, a da peregrinacao. Na peregrinacao dos protagonistas da novela, o itinerario, os lugares e as imagens encontradas pelos transeuntes adquirem um significado alegorico. Santos (2004) frisa a importancia da metafora da peregrinacao no horizonte da tradicao ibero-lusitana, comentando que nas primeiras decadas do seculo XVII, em Portugal, na literatura do movimento da Arcadia, o tema da peregrinacao era recorrente: "a viagem, [...] contribuia para a organizacao deste modelo narrativo" (SANTOS 2004, p. 588). O mesmo ocorre "com o uso da alegoria ou de processos alegoricos, nas variadissimas tipologias discursivas que, prolongando filoes que a Idade Media tinha desenvolvido, atravessaram os seculos XVI e XVII". Segundo a mesma autora, a essa tradicao se remeteria inclusive Inacio de Loyola: "a provavel matriz alegorica dos Exercicios Espirituais teria "como marca impressiva" a "leitura de El Pelegrino de la vida humana (Toulouse, 1490) por Inacio de Loyola" (SANTOS 2004, p. 588).

Em terceiro lugar, vejamos os demais dispositivos retoricos utilizados pelo autor: as imagens linguisticas em forma de emblemas, empresas e alegorias. Na Idade Moderna, as imagens (pinturas, estatuas, emblemas, empresas, metaforas e alegorias ...), alem de serem empregadas nas praticas culturais e religiosas tendo em vista sua eficacia em comunicar conceitos, agem como dispositivos retoricos que provocam nos destinatarios diversos modos de elaboracao. A eficacia dessa elaboracao, por sua vez, depende da ativacao das potencias psiquicas, especialmente da atividade sensitivo-imaginativa (sentidos internos), ordenada para alcancar o fim ultimo. A retorica da Idade Moderna sugere o uso dos emblemas e das empresas, dois generos alegoricos que contem ora a imagem ora o texto escrito. Gusmao (1685, p. 135) faz uma referencia explicita no texto da novela a arte da emblematica de Alciati e, sobretudo, conforme ressaltado por Santos (2004, p. 592), utiliza-se na construcao da obra do "conjunto de saberes tributarios da emblematica". Desse modo, "o fundamental carater alegorico" da obra "lhe advem do persistente recurso a explicacao pormenorizada de pequenos quadros, formados, sobretudo, por 'figuras'" com base nos "conhecimentos em areas dependentes do complexo e afortunado filao constituido por emblemas, hieroglifos e empresas". E, como ainda evidencia Santos, "tal opcao nao se reveste de qualquer singularidade, se enquadrada no apreco que a Companhia votou a Emblematica e no peso e importancia que os jesuitas concederam aos 'libri figurati'" (SANTOS 2004, p. 592).

A imagem e utilizada como emblema e empresa quando representa objetos ilustrativos de um conceito, sendo acompanhada por uma escrita explicativa. No caso do emblema, a escrita chama-se "lema"; no caso da empresa, o escrito chama-se "termo". Por emblema entende-se um simbolo, composto por figura e palavras, a ser usado como decoracao de salas, de aparatos, ou nos livros de imagens e explicacoes destinados ao ensino. A empresa originariamente era uma figura simbolica que ornava as vestes ou as armas dos cavaleiros, acompanhada por uma frase alegorica; a partir do seculo XVI, configura-se como representacao simbolica de um proposito ou de uma linha de conduta por meio de uma palavra e de uma figura que se interpretam uma a outra. Por fim, o epigrama apresenta um conceito (referente ao lema ou termo) que ilustra os objetos representados. A suma dessas imagens alegoricas encontra-se numa obra muito especial, a obra acima citada de Andrea Alciati (1492-1550), Emblemata (1531)--prototipo absoluto dessas producoes.

Na tradicao cultural dos jesuitas, o uso de emblemas e empresas e decorrente de duas caracteristicas espirituais e pedagogicas do carisma inaciano. Em primeiro lugar, a imagem veicula a mensagem sagrada, como o proprio Inacio frisa nos Exercicios. Em segundo lugar, Inacio considera a imagem como eficaz do ponto de vista de sua acao na subjetividade da pessoa, especialmente na memoria e na imaginacao, de modo a facilitar a meditacao e, como vimos, nessa perspectiva define o metodo da compositio loci. Seguindo tal orientacao, no final do seculo XVI, o jesuita Jeronimo Nadal realiza o projeto de construcao de um metodo otico e intuitivo de oracao com a publicacao do livro Adnotationes et meditationes in Evangelia quae in sacrosancto missae sacrificio toto anno leguntur cum eurundem Evangeliorum Concordantia (Antuerpia, Moretum, 1593) (INSOLERA 2004).

No ensino dos Colegios da Companhia, utilizam-se tambem esses recursos numa otica mais propriamente cultural e menos espiritual, na perspectiva do saber humanista, literario, filosofico: a composicao dos emblemas torna-se assim um dos exercicios didaticos propostos aos estudantes. Na edicao de 1591 da Ratio Studiorum, as regras para os professores de retorica e de humanidades sugerem que os alunos sejam ensinados a fazer desenhos para ilustrar os emblemas. Alem do uso das imagens voltado para a direcao espiritual, varios jesuitas professores de retorica e de humanidades nos colegios publicam textos de emblemas, seguindo a tradicao classica, mas com matriz crista, operando assim uma sorte de cristianizacao da tradicao da emblematica classica (INSOLERA 2004).

Na perspectiva dos jesuitas, a funcao pedagogica dos emblemas era a de materializar o sobrenatural de modo a torna-lo compreensivel para todos (INSOLERA 2004, p. 52). Em conformidade com essa tradicao de pertenca, Alexandre de Gusmao parece ter construido a novela visando, pela mobilizacao articulada das potencias do dinamismo psiquico, promover um processo de conhecimento voltado a transmissao dos valores e conteudos que acima assinalamos. De modo especial, o uso da emblematica e de saberes afins envolve a mobilizacao da potencia animica da memoria com objetivo pedagogico e persuasivo: trata-se do uso de "estrategias propiciadoras da 'memoria', como formas privilegiadas da persuasao". De fato, "as entidades alegoricas cumprem a sua funcao de 'auxiliares' da memoria, preenchendo uma relevante dimensao pedagogica" (SANTOS 2004, p. 595).

Em suma, o objetivo pedagogico a ser alcancado na composicao da "peregrinacao" narrativa de Gusmao realiza-se por meio de recursos da retorica que promovem a articulacao da memoria com a imaginacao, a sensibilidade, o afeto, o pensamento e a decisao. Para o entendimento da construcao do arcabouco do texto, arcabouco ao mesmo tempo conceitual e retorico, revelou-se essencial o uso de uma abordagem que combinasse a historia dos saberes psicologicos com a historia dos generos retoricos e da literatura.

Conclusao

A analise do texto de Gusmao foi possivel pela interseccao das perspectivas literaria, historica e psicologica. Por meio do emprego do metodo de analise sugerido por Pecora, pudemos identificar os topoi presentes na novela e as articulacoes pelas quais o autor construiu o texto. Ao buscar entender os efeitos comunicativos pretendidos pela novela, detivemo-nos na construcao do arcabouco retorico da obra, especialmente no emprego dos recursos da arte retorica como alegorias, metaforas e emblemas e em certo uso da palavra retoricamente ordenada visando o efeito de transmitir conhecimentos e de promover, pela persuasao, mudancas de conduta. A fonte e expressiva, portanto, de um universo multifacetado que, por sua natureza, exige abordagem multidisciplinar por se situar num tempo historico em que nao ha solucao de continuidade entre o ambito teologico, filosofico, retorico e psicologico. Desse modo, foi possivel apreender aquela "conexao viva da experiencia" a que se referia Dilthey, na qual as diversas dimensoes (historica, psicologica, antropologica, cultural, etc.) se apresentam de forma unitaria. O exemplo proposto evidenciou que a literatura como "forma cultural" (empregando a expressao de Huizinga acima citada) pode ser utilizada para descrever as modalidades de vida e de pensamento proprias de um dado tempo historico.

doi: 10.15848/hh.v0i17.763

Recebido em: 24/4/2014

Aprovado em: 16/6/2014

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Marina Massimi

mmassimi3@yahoo.com

Professora titular

Universidade de Sao Paulo--campus de Ribeirao Preto

Rua Americo Brasiliense, 1340/111

14015-050--Ribeirao Preto--SP

Brasil

(1) No original: "la forma dello spirito (della cultura) con cui una civilizzazione assume il suo passato".

(2) No original: "genere letterario irrepreensibile".

(3) No original: "Attinge il suo materiale alla storia, da um quadro di um determinato passato storico, ma come puro esercizio di belle lettere, senza pretendere che lo si consideri uma verita rigorosa".

(4) No original: "ignorano quanto sia di buon gusto rinunziare a dire cose che non si conoscono".

(5) No original: "Lo storico deve resistere alla tentazione di abbellire leterariamente la storia".
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Massimi, Marina
Publication:Historia da Historiografia
Date:Apr 1, 2015
Words:9741
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