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Festas e ritos, memoria e diversidade cultural.

Introducao: Culturas e festas--conceitos e propostas

A pesquisa historica sobre festas e celebracoes, ate pouco tempo considerada como novidade e certa audacia dos historiadores foi, tambem, classificada como uma especie de tatica para se ter uma obra aceita pelas editoras (Darton 1990, 100). Antes desse sucesso, o tema fora relegado a marginalidade, uma vez que nao se encaixava satisfatoriamente no jogo das explicacoes deterministas de vies politico ou economico.

O interesse pelo topico se fez mais notavel, exatamente, a partir das criticas estabelecidas aos determinismos no ambito da nova historia. Os questionamentos a respeito das explicacoes historicas totalizantes permitiram, como se sabe, a abertura de novas perspectivas, lancando luzes sobre novos objetos. Desencadearam tambem novos problemas e suscitaram novas abordagens (Le Goff 1995). Boa parte dos historiadores optou por abordagens mais abertas em relacao as causas explicativas dos fenomenos historicos o que resultou, por exemplo, na vinculacao das festas aos contextos em que estao inseridas. Afirmava-se, entao, que "as festas nao podem ser entendidas em caso algum, independentemente do contexto social, politico, economico ou cultural em que ocorrem" (Martins 2006, 37). Como se ve, o enunciado expressa que o fenomeno festivo passou a ser elucidado nao mais por uma causa e, sim, por um conjunto de razoes explicativas. Pretendia-se, destarte, explicar as festas em seus contextos; explanar as conjunturas a partir dos folguedos ou mesmo, fazer as duas coisas a um so movimento. Pressupomos nao haver modificacao substancial de perspectiva no fato de empreender a escrita da historia adotando-se uma ou varias causas como opcao explanatoria. Tanto num, como noutro caso, o registro continua explicativo, carreando para o texto todas as mazelas decorrentes de tal procedimento: se a festa mal se encaixa no jogo das explicacoes que recorrem a causa unica, pior se enquadrara nas alternativas das razoes multiplas.

As teses de que, no campo cientifico, se devem buscar as razoes explicativas dos fenomenos resultaram em dois modelos teoricometodologicos principais--esquemas largamente aplicados, por exemplo, em investigacao a respeito das festas realizadas nas chamadas sociedades primitivas. Roger Caillois desenvolveu um modelo analitico baseado no pressuposto de que a festa seria uma experiencia efemera, caracteristica das coletividades sem regras, com a funcao de negar algum momento organizacional do grupo que a promove. Para o autor, a quebra de regras sociais constitui, assim, o aspecto fundamental do fenomeno festivo.

O modelo durkheimniano, contrariamente, fundamentou-se na ideia de que, sendo uma experiencia de rompimento das regras estabelecidas, a festa desempenharia o papel de tornar evidente, para seus participantes, a importancia e a necessidade de normas e leis sem as quais seria impossivel a coexistencia social.

Outros estudiosos do tema estabelecem relacoes dialeticas entre os dois modelos, apostando numa presumivel complementaridade entre esses parametros analiticos. Nesse artigo as festas sao consideradas, apenas, como portas de entrada para a compreensao do fenomeno cultural na perspectiva da historia. Isso quer dizer que nao nos interessara, de modo algum, o aspecto normativo dos eventos. Pressupomos, no entanto, que o enfoque direcionado ao tema das normas e condutas seria mais pertinente a um estudo da festa na perspectiva da historia social.

Os historiadores sociais, geralmente, tem concebido as festas sob a forma de conjunto ritualistico grupal e nao rotineiro motivado por circunstancias momentaneas ou como parte de um ciclo pre-determinado de comemoracao. Devido a esse carater coletivo, vinculam-se as festas as relacoes sociais, evidenciando essas afinidades coletivas. Podemos, no entanto, ir um pouco alem, adentrando no ambito que temos considerado como, propriamente, da cultura. Entao, desenha-se o principal objetivo deste artigo: compreender a diversidade cultural brasileira por meio da memoria das festas realizadas em territorios de encontro de diferentes "etnicidades" (caboclos, indigenas, eslavos). (1) Recorremos a oralidade e a uma nocao ampliada do termo cultura.

O conceito de cultura e empregado de diversas maneiras, havendo, ate mesmo quem o utilize como expressao equivalente a "relacoes sociais." Para nos, cultura sera compreendida como as relacoes que os sujeitos e os grupos humanos estabelecem com a natureza, com o sobrenatural e com o mundo em seu entorno. Sao relacoes que se instituem no ambito da construcao dos sentidos e afinidades que se modificam no tempo e no espaco. O carater mutavel da cultura, no entanto, nao significa que a evolucao seja inerente ao espaco cultural, o que e assumido, as vezes, ate nos exemplos explicativos a respeito desse vocabulo. De acordo com Eagleton (2005, 10), por exemplo, a palavra cultura "mapeia em seu desdobramento semantico a mudanca historica da propria humanidade da existencia rural para a urbana, da criacao de porcos a Picasso, do lavrar o solo a divisao do atomo." A associacao de Pablo Picasso a criacao de porcos nos parece infeliz, e se revelara como preconceituosa neste texto sobre a festa nos faxinais e a imigracao eslava.

Nao se trata de questionar a autoridade de Pablo Picasso, mas tambem, seguramente, nenhum outro povo, exceto os faxinalenses, dominou com tamanha propriedade a criacao de suinos em sistema extensivo nas matas de araucaria, da regiao sul do Brasil. Esses criadores de "porcos a solta" vinculam-se a uma forma de organizacao dos agricultores chamada de faxinais. Chama-se sistema de faxinal ao modo de utilizacao das terras em comum, delimitadas por cercados, para a criacao de animais. Trata-se de um sistema agricola existente na regiao sul do Brasil e que se tem classificado como manifestacao cultural dos povos tradicionais. Assim, o faxinal e dividido em terras de criar, ou area de compascuo, um cercado composto de matas e pastagens em que se localizam as habitacoes dos faxinalenses. Na parte exterior ao cercado encontram-se as areas de plantar, compostas por propriedades privadas.

No interior da area comum, que pode pertencer a um grande proprietario ou a varios moradores, sao criados animais de varias especies tais como bovinos, equinos, suinos, ovinos, caprinos e aves. Soltos no grande cercado, alimentam-se da grama, de outras ervas e dos frutos nativos que caem pelo solo ao amadurecer, tais como a cereja, a guabiroba e o pinhao. Os donos dos animais ainda lhes oferecem suplementacao alimentar nos periodos de maior escassez. As casas sao dispostas na area comum, sendo que boa parte delas e protegida por algum cercado ao entorno dos quais os animais transitam livremente. As entradas e saidas da grande cerca sao protegidas por cancelas e porteiras ou por uma especie de pequena ponte, com pranchas alternadas com vaos, de modo que os animais nao as possam atravessar.

O sistema de faxinal pode ser facilmente vinculado a antigas tecnicas de criacao extensiva de suinos e de outros pequenos animais, utilizadas desde a chegada dos nao indigenas as regioes de matas de araucarias. Esta, tambem, associado ao modelo extrativo da ervamate, praticado, nesta regiao, desde o seculo XVIII. Os coletores da erva, quando viam o produto escassear numa dada regiao, adentravam a mata, transportando, consigo, pequenos animais, utilizados para a sua alimentacao. Nas paragens, construiam cercados em torno das tendas para que os animais nao fugissem ou se dispersassem nas selvas. Encontramos a descricao de um posto desses, existente na divisa entre o Estado do Parana e o de Santa Catarina, no ano de 1848 (Ave-Lallemant 1995). Diz o autor que aquelas pessoas, na maioria, mesticos de indigenas e brancos, tinham tudo em condominio. (2) Alguns desses lugares tornaram-se pequenos povoados rurais; outros se transformaram em nucleos urbanos ou bairros pertencentes a tais cidades. Mas ha, tambem, localidades povoadas por imigrantes que receberam lotes individuais e optaram por assumir a organizacao do sistema faxinal. E o caso do faxinal do Itapara, povoado por imigrantes eslavos cujas manifestacoes festivas serao aqui estudadas.

Metodologicamente, recorreremos a historia oral, visto que "fazer historia oral significa ... produzir conhecimentos historicos, cientificos, e nao simplesmente fazer um relato da vida e da experiencia dos outros" (Francois 1996, 17). A metodologia aqui utilizada consiste numa tentativa de se produzir conhecimento historico e dar visibilidade a cultura faxinalense para a melhor compreensao historica da multiplicidade cultural brasileira. Trata-se de contarmos essa historia a partir da historia contada pelos sujeitos que a vivem e/ou viveram.

Para isso, recorreremos tambem a nocao de capsula narrativa, e por este vies, nossos entrevistados serao considerados como nossos colaboradores e nao como passivos objetos de pesquisa. A ideia e que seja respeitada sua vontade e sua experiencia de vida. Dessa forma, "uma Capsula Narrativa e instavel, sem limite verdadeiro, sem um interior, em deslocamento constante, modificando suas mediacoes a todo instante: a capsula narrativa nao e uma projecao ou uma expressao do real do sujeito, mas texto vivo" (Caldas 1999, 53-59).

Entao, o que se espera e se busca nas entrevistas e que o colaborador, fale de sua vida, de seus anseios, de seus medos, de seus sonhos, de suas angustias, de seus limites, enfim, ao inves de fazer-lhe perguntas previamente preparadas em forma de questionario deixa-se que ele fale sobre aquilo que deseja falar.

Sua medida e a do respeito pelo outro em sua dimensao, em sua fala, em seu ordenamento proprio, em sua plenitude possivel, em sua vontade e nao no tema do pesquisador, na sua curiosidade ou nos 'vazios bibliograficos que e preciso completar'. O foco se desloca do projeto para o outro, do tema e da problematica para aquela vida sendo aberta em palavras, da metodologia para a experiencia, da tecnica para a temporalidade narrativa do outro, para a sua vontade narrativa, para sua consciencia vital (aquela que sera o eixo narrativo), para sua maneira de plasmar-se em narrativa (Caldas 2006).

As entrevistas realizadas com os moradores do faxinal do Itapara, assim, se tornam abertas e livres com intervencoes casuais. Os colaboradores sao faxinalenses com idade entre setenta e oitenta anos.

Narrativas dos faxinais--memorias de imigrantes

Em Itapara, atualmente distrito de Irati, habitam, aproximadamente 60 familias. O distrito foi criado atraves da lei n[degrees] 1919, de 23 de fevereiro de 1920. Conforme escritos de memorialistas locais, a colonizacao teve inicio em 1908, com a chegada dos imigrantes ucranianos e poloneses que formavam a vila, entrando por Prudentopolis. Nao havia sequer picada para chegar a sede do municipio de Irati. As terras, 7016 hectares foram divididos em 300 lotes. Afirma-se tambem que, lideraram a ocupacao da area o Coronel Joao Lech e o Coronel Jose Durski, assistidos pelo padre Marciano Chirpan e pelo professor Paulo Schulhan (Orreda 1978).

Esses imigrantes, apesar de terem seus lotes divididos como propriedades particulares de vinte e tres hectares em media, em algum momento, resolveram construir um grande cercado abrangendo terras pertencentes a um e outro para a criacao de animais em regime de compascuo. Eles descartaram o modelo geral, apontado como o padrao de ocupacao territorial adotado pelos imigrantes europeus em outras regioes do Brasil. O modelo desprezado pelos eslavos da regiao centro-sul do Parana consistia em que os assentados habitassem e a explorassem lotes individuais. Varios estudos apontam esse prototipo geral do assentamento de imigrantes europeus nos tres Estados sulinos brasileiros (Zarth 1997; Seyferth 2002; Kreutz 2003; Renk 1997; Mocelin 1993; Muller 1994).

Gregory, por exemplo, afirma que:
 A colonizacao europeia no sul do Brasil ... Significa entao o
 estabelecimento de europeus, os colonos, em pequenos lotes de
 terra, que foram sendo cultivados e explorados normalmente, sem o
 auxilio de qualquer mao-de-obra estranha ... Desta forma, a
 colonizacao foi a instalacao de pequenas propriedades rurais de
 tipo europeu em solo brasileiro, a instalacao da pequena
 propriedade de terra sob o dominio do latifundiario em areas
 permitidas para este. (2002, 5)


A investigacao realizada diz respeito, mais especificamente, a colonizacao ocorrida a partir do segundo quartel do seculo XIX e a regiao Oeste do Parana; mas o modelo geral adotado pelos agentes colonizadores tais como a presenca das empresas privadas e de funcionarios publicos dedicados ao empreendimento colonizador na regiao Sul do Brasil (Gregory 2002). De fato, o caso do Itapara, enquadra-se nesta "dinamica" geral das pequenas propriedades individuais, exceto que o desdobramento da implantacao dessa colonia, como ja foi mencionado, indica a adocao de um padrao diverso. Modificaram aquele que seria considerado, por alguns estudiosos do assunto, como modelo europeu de propriedade, ou melhor, o padrao de uso da pequena propriedade juridicamente hegemonico no Ocidente. (3)

Sobre o Itapara, Orreda diz que:

Logo apos a chegada dos imigrantes, alojados em um grande barracao e casas de taquara, efetuadas as primeiras plantacoes, floresceram os bambuais e a proliferacao de ratos destruiu tudo o que havia sido plantado. Em 1909, os colonos trabalharam abrindo, em troca de alimentacao, a estrada rumo a vila de Irati. Mais tarde o governo auxiliou novamente com sementes e ferramentas. Apenas em 1917 comecou-se a utilizar o arado na regiao. Plantava-se no toco, como ainda hoje se faz em diversas areas do distrito, em terrenos quase a pique. No inicio eram utilizados cargueiros como principal meio de transporte, unica maneira de vencer as serras e caminhos quase intransponiveis. Trazia-se principalmente feijao para vender em Irati. Mais tarde os cargueiros foram substituidos por carrocas eslavas, com toldo e puxadas por seis ou oito cavalos. Sem qualquer especie de assistencia, decaindo a producao agricola, a producao isolando-se foi sendo vencida num empobrecimento progressivo e pelas doencas endemicas. (Orreda 1978, 21-22)

Podemos pressupor que as dificuldades iniciais levaram os imigrantes a construir e/ou adotar formas de cooperacao; entre elas, talvez, o proprio sistema de compascuo. Nesse pequeno vilarejo de nome Itapara existem, atualmente, duas igrejas catolicas: uma de rito ucraniano e outra do rito latino.

Segundo os depoimentos concedidos por moradores locais, esses templos tornaram-se lugares de oracao e de realizacao das chamadas festas comunitarias. Os estudiosos da "imigracao eslava" para o Brasil apontam a religiosidade desses povos como elemento decisivo para a compreensao de sua cultura. Newton Sponholz, por exemplo, referese aos ucranianos como grupo, na maioria, catolico do rito oriental ou ortodoxo. Escreveu que os poloneses, contrariando a tendencia geral de outros povos eslavos, teriam adotado o catolicismo romano. Conforme a descricao do autor, os poloneses seriam mais apegados a associacoes religiosas do que a qualquer outro tipo de organizacao social. A paroquia seria, na Europa, o centro da vida social desses imigrantes e continuou, segundo ele, sendo aqui (1971).

A capela era, conforme nossos colaboradores, um dos espacos privilegiados para a realizacao das festas no faxinal do Itapara. Podese supor a origem europeia dessas comemoracoes realizadas pelos imigrantes eslavos e, portanto, cabe algum comentario sobre antigos festejos em territorio europeu.

Sobre isso Jaime de Almeida escreveu que:
 Para o rastreamento do fenomeno 'festa' nas remotas origens das
 sociedades europeias, merece atencao a raiz mei, que no
 entendimento de Benveniste pode embasar toda uma fenomenologia
 indo-europeia da troca. Dela deriva a nocao indo ariana de mitra
 que designa simultaneamente o contrato e o Deus do contrato, ou,
 melhor ainda, o principio da reciprocidade total que funda, em
 direitos e obrigacoes, a sociedade humana. Esta representacao
 profunda e complexa encontra no latim, com a palavra munus, uma
 acepcao bem especifica: significa 'funcao', 'oficio', 'obrigacao',
 'tarefa', 'favor', ou ainda representacao publica, jogo de
 gladiadores. Quem aceita um munus em Roma assume publicamente a
 obrigacao de distribuir favores, privilegios, espetaculos e jogos.
 A palavra enfeixa o duplo sentido de cargo, conferido como uma
 distincao e de prestacoes obrigatorias, como retorno. Aqui estaria
 o fundamento da comunidade. Communis designa literalmente quem
 participa dos munia ou munera: cada membro do grupo social e
 coagido a dar, na propria medida do que recebe. (1994, 159-160)


As festas no Itapara, como em outros faxinais, ainda atualmente, podem ser compreendidas a partir do carater da obrigatoriedade, da troca de favores, da entre ajuda, por exemplo, que e comum em momentos tais como o da organizacao e o da promocao do evento. O trabalho e organizado com base nesses antigos fundamentos para a organizacao das procissoes, a recepcao dos visitantes, o preparo dos alimentos, a limpeza do espaco e em varias outras tarefas requeridas para o acontecimento. Tais circunstancias sao propicias, tambem, para a troca de ideias e a resolucao de eventuais problemas, como por exemplo, a possibilidade de haver "tempo ruim" no dia do festejo. Assim, o periodo das vesperas emerge como espaco de diversificadas funcoes, servindo, tambem, para a descontracao, a realizacao de brincadeiras para as criancas, o desenrolar do namoro dos jovens e organizacao das conversas entre os participantes dos preparativos.

Pode-se dizer, entao, que esse momento constitui certa suspensao da rotina regrada e cansativa; mas, ao mesmo tempo, trata-se de um lugar para o relaxamento e o excesso. O clima da festa e de alegria; um emaranhado de acontecimentos, rico em detalhes e variado em significados. Trata-se de um fenomeno que pode ser exaustivamente estudado, pois o ato festivo sempre comporta acontecimentos previstos e uma variedade de surpresas. Dessa forma, a festa e uma destas regioes da experiencia humana--tais como o sonho, o prazer, o jogo--que se encaixam mal nesses conjuntos coerentes das ciencias sociais onde tudo tem forcosamente o seu lugar em uma estrutura ou preenche uma funcao (Almeida 1995, 160).

Devemos levar em consideracao que estas festas realizadas no espaco religioso do faxinal de Itapara apresentam caracteristicas proprias relacionadas ao motivo da celebracao. Nesse caso, envolve a fe, a oracao, o culto, as procissoes e outras praticas tais como as novenas preparatorias. Envolvem, tambem, o entretenimento, a realizacao de jogos, a comilanca e a beberagem.

As festas religiosas do Itapara fazem parte de um ciclo anual, o calendario liturgico e, por isso, sao acontecimentos esperados e desejados, porque, alem de tudo, a rotina sera suspensa por alguns dias. Conforme Basilio Gaiocha, morador do Itapara, antigamente a vida era muito dificil. Ele, por exemplo, tropeava
 Porco a 'pezito' daqui, ate Guarapuava. Tudo de pancada, atras de
 mim, levando um cobertorzinho nas costas, duas espigas de milho,
 uma merenda. Dormia onde quer, em cima da tabua; e, no outro dia,
 'pezito', vinha; e era animado. (4)


Basilio enfatiza a relacao do sistema de faxinal com a criacao de suinos e o transporte destes animais, em tropas, ate os centros urbanos onde eram comercializados. Seu depoimento nos remete ao que poderiamos chamar de cultura tropeira, fenomeno relativamente bem estudado em termos da historiografia regional se consideradas as tropeadas de bovinos, equinos e muares. Desde o seculo XVIII, tal forma de transporte de animais era praticada entre os estados do Rio Grande do Sul e a feira de Sorocaba, em Sao Paulo. As tropeadas de suinos mereceriam estudo a parte.

O suino e um animal marcante na memoria e na cultura dos faxinais porque, ao contrario do que aconteceu em relacao a ocupacao de areas de campo aberto, onde predominou a instalacao de fazendas dedicadas a exploracao do gado bovino, equino e muar, nas regioes de araucarias, o porco foi o animal que melhor adaptou-se. Nestas areas, os animais onivoros encontraram maior variedade de alimentacao. Alem disso, as sombras das matas ofereciam a protecao necessaria a essa especie pouco tolerante aos raios do sol.

A mata de araucaria proporciona ambiente favoravel para a proliferacao de animais silvestres onivoros. Evidencias desse fenomeno foram constatadas por viajantes estrangeiros que percorrera a regiao sul do Brasil, mesmo antes da introducao de suinos do tipo europeu. Tanto Cabeza de Vacca, no seculo XVI, com o Padre Aires de Casal, inicio do XIX, deixaram relatos sobre a grande quantidade de porcos selvagens que, na regiao dos pinheirais, andavam, em varas de mais de cem animais, alimentando-se dos pinhoes. Eram cacados em abundancia pelos indigenas. Tambem, Saint-Hilaire (1864), destacou que os habitantes dos Campos Gerais--estreita faixa de terras que atravessa a regiao do segundo planalto paranaense no sentido norte-sul--utilizavam o pinhao para a engorda de porcos, no inicio do seculo XIX.

A ocupacao cabocla da regiao dos pinheirais, que podemos dizer iniciou no seculo XVII, sustentou-se, em boa medida, na extracao da erva-mate que tambem, em certa medida, cedeu lugar a criacao extensiva de suinos. Estes animais, geralmente, eram soltos nas matas--o chamado porco "alcado"--e percorrendo as terras pertencentes a diferentes posseiros e, mesmo, as fazendas, na busca de alimentos. Com o surgimento dos centros comerciais, os suinos eram manejados ate ficarem prontos para a comercializacao (Chang 1988). Reunidos em tropas, eram tocados pelos caminhos que conduziam a esses postos de venda.

Podemos considerar que o suino fez e faz parte do cotidiano e da cultura dos faxinalenses. Como aponta Basilio, era parte da rotina, como veremos adiante, mesmice quebrada pelas festas. Conforme os depoimentos, logicamente, era carne indispensavel para o consumo nos dias festivos, ocasioes em que se reuniam muitas pessoas. Os longos caminhos, anteriormente a chegada dos imigrantes talvez percorridos pelas varas de porcos, eram refeitos por folioes que se deslocavam, agora a pe ou a cavalo, de outras localidades e de outros faxinais, para os atos festivos.

O lenco, o toldo e o telhado--partilha, moral e abundancia

As festas das igrejas do Itapara comecavam, conforme os depoimentos de alguns folioes, pela manha, com a participacao da populacao local e dos visitantes na missa. Casemira Holanih narrou que:
 A igreja? Nossa! Eu lembro muito bem como era; ne? Tinha um abono
 para o padre pregar a celebracao do Evangelho; nos diziamos a
 pratica. Agora e sermao que dizem; ne? A comunhao, tambem ... De
 manga curta ninguem podia ir ... So manga comprida; e era coberta a
 cabeca das jovens com veu branco e das casadas com o veu preto. E,
 dai, ali tinha um tal de balhaske, em polones, se chamava; e, em
 portugues nao sei como se chama aquilo; ne? Era uma mesa assim.
 Jogavam uma toalha branca em cima daquela mesa, para receber a
 santa comunhao ... Faziam o sinal da cruz e podiam se retirar. Nao
 era comunhao de pe. Nao iam receber de pe. Era muito respeito a
 santa comunhao. (5)


Casimira relembra que, em outras epocas, no Itapara, as mulheres deveriam vestir-se recatadamente, usando sobre a cabeca, o veu, tambem chamado de filo. Recorda, igualmente, do ritual realizado no inicio das celebracoes: as pessoas enfileiradas dentro do templo, uma a uma, ajoelhavam-se sobre o balhaske, (6) faziam o sinal da cruz e voltavam aos seus lugares.

A faxinalense afirma que, nos dias de festa, a celebracao religiosa terminava ao meio dia e, entao, iniciava o almoco e o tempo do entretenimento. A comida consistia, basicamente, em churrasco e bebidas, sendo que "muitas vezes, a carne era preparada e temperada na cozinha da igreja." (7)

No comeco, conforme o depoimento, os alimentos consumidos nos festejos religiosos de rito ucraniano eram trazidos pelos participantes. Cada familia de foliao ou festeiro trazia certa quantia de alimentos nao processados que eram, entao, preparados na casa das freiras. Posteriormente, decada de 1970, toda a alimentacao passou a ser comprada, sendo a preparacao realizada na cozinha da propria igreja, a sede da festa. O depoimento apresenta certas modificacoes e permanencias ocorridas em relacao aos festejos, o que e corroborado por outros depoentes.

Anastasia Svitniski, tambem moradora do faxinal, enfatiza que em meados do seculo XX
 a festa era diferente. Para a festa, o que levava? Pao de casa
 porque, na festa, tinha so churrasco e bebida; nada mais. Se
 quisesse comer uma broa, voce tinha que levar de casa . a broa e
 uma especie de pao feito de centeio e assado no forno em brasa. (8)


A depoente enfatiza o aspecto comunitario da festa por oposicao ao consumo e a fruicao. Afirma que, naquelas festas de outrora, nem sempre havia danca, pois nem todas as igrejas tinham um local apropriado para tal diversao. A igreja latina de Itapara dispunha ja de um local; tratava-se de um salao, situado nas proximidades, que permitia a juncao da festa religiosa com a chamada matine. Ali, diz ela, rapazes e mocas dancavam e se divertiam ao som da gaita e do violao. Outro ponto de fruicao era o leilao. Esse, no dizer da depoente, era indispensavel. Animava e despertava a atencao de todos, ocupando boa parte do tempo reservado ao entretenimento. O leiloeiro era uma especie de profissional, uma pessoa escolhida dentre os faxinalenses pela desenvoltura, pelo tom da voz e por habilitar-se a prestar tal servico.

Vera Gaiocha assinala a importancia dessa escolha. A depender da forma como o homem selecionado "gritava ... dai davam bastante prendas." (9)

O leilao organizava-se como uma especie de feira em que se aproveitavam as sobras da festa e se vendiam os objetos provenientes das doacoes. A finalidade era angariar fundos, muitas vezes, apenas para a execucao da proxima festa. Vera relata que:
 O que sobrava ... pao alguma coisa, dai, colocavam no leilao.
 Churrasco que sobrava era colocado no leilao ... quadros de santos,
 galinha, foice, enxadas ... O povo arrematava, pois enxada,
 precisava; foice, precisava; ne? Arrematavam tudo. Antigamente era
 assim. Nao havia briga. Era diferente; tudo diferente. Nao tinha
 coisa doce para comer. Bolo voce tinha ... Vendiam; mas para ter
 bolacha, alguma coisa assim nao tinha que nem agora ... O que
 sobrava faziam prenda. (10)


Os lucros obtidos com o leilao eram, conforme os depoimentos, totalmente repassados a igreja que sediava a festa. Doar ou arrecadar uma oferta significava, assim, um gesto de muito valor. Os animais leiloados vivos, na verdade, trocavam de proprietario em publico, porque, apos a festa, eram soltos na area comum.

Caso houvesse danca, no domingo a tarde, o leilao ocorria paralelamente. Assim, o festejo dividia-se em, pelo menos, dois espacos distintos: no primeiro, realizava-se a troca simbolica, por assim dizer, das prendas e a oportunidade de realizacao de pequenos negocios; no segundo, homens e mulheres, rapazes e mocas divertiam-se, iniciavam, fortaleciam ou, ate, rompiam as relacoes conjugais. Mas os depoentes afirmam que havia uma rigidez moral em relacao ao corpo e a sexualidade.

Anastacia diz que:
 naquela epoca, as roupas que as mulheres usavam deviam cobrir o
 corpo todo. As mocas, daquele tempo, andavam de vestido de manga
 comprida ate aqui; fechado. E nao podia ser pra cima do joelho.
 Tinha que ser pra baixo; para cobrir a barriga da perna. (11)

 Vera assegura que a roupa precisava

 cobrir a barriga da perna. 'Deus me livre. Nos so com manga
 comprida . Se pai visse com manga assim curta, ja batia na gente.'
 Ele dizia: 'Do joelho pra baixo todo mundo pode ver; do joelho pra
 cima so quem merecer.' Era assim ... (12)


As roupas utilizadas nos dias de festa, conforme o dicionario da giria cabocla, portanto dos faxinais, era chamada, ainda na decada de 1960, de domingueira (Silva s/d). No faxinal do Itapara, organizado por imigrantes eslavos, a vestimenta das mulheres ganhava um adereco obrigatorio: o lenco. Logo que se casava, diz Vera, as mocas "ja amarravam lenco. Do que tirou o veu, ja colocavam lenco na cabeca. Voce nao e mais moca. E mulher."13 Alem disso, a mulher, quando casada, jamais deveria tirar o lenco da cabeca em publico. Caso acontecesse de remove-lo, o marido poderia ficar enciumado e enfurecido. Anastacia narra que isso aconteceu a ela, em uma festa de casamento.
 Alguem me derrubou o lenco na lama. Entao eu disse 'E agora? Pra
 casa eu nao vou sem lenco, senao o Demetrio me mata. Eu, agora, nao
 vou na missa sem lenco.' Eu tive que emprestar da Nena para ir
 embora ... caiu no barro sujo e nao podia vir sem lenco. (14)


O uso de tal distintivo para o estado civil das mulheres suscita, tambem, uma investigacao por fazer. Trata-se das relacoes de genero nos territorios faxinalenses, e nesse caso, entre os imigrantes eslavos. Ao que tudo indica, os papeis eram bem definidos em relacao a sexu alidade. Vera afirma que, quando era moca--decada de 1950--nos bailes, as mulheres eram obrigadas a permanecer de um lado do salao e os homens, de outro. Comunicavam-se, apenas, durante a danca. Conforme seu depoimento "as mocas paravam de um lado e os rapazes, de outro lado. Conversavam dancando . senao cantando . ajudando a cantar."15 Os encontros dancantes nao eram considerados, portanto, como ocasioes propicias ao namoro. Vera afirma que:
 no baile nao. Nao tinha. As mocas saiam, pegavam no irmao, irma e
 iam embora. So na casa. So na hora que estava dancando, estava
 conversando. Parou a danca ... O rapaz para um lado, a moca para o
 outro. Na casa ... sabado ou domingo a noite. Nao e que nem agora:
 de dia, dia inteiro, ficam namorando; ne? (16)


O depoimento de Anastasia confirma os ditos anteriores.
 isso nem tinha namoro. Pai nao deixava namorar. Agora nao. E namoro
 ... e folia. Voce esta dizendo que namorava na casa ... Como
 namorava? Rapaz la e eu aqui. Conhecia? Sabe por que? Vizinho
 casava com vizinho. (17)


As festas publicas religiosas sao mantidas, na memoria dos depoentes, como espacos altamente regrados no ambito do relacionamento entre os sexos. Regras que se estendiam para o dominio das casas de familia. Vera assegura que, na sua casa, nem conversava com o namorado.
 O pai conversava. Pai, mae. Depois, a mae ia dormir e o pai ficava
 ate o rapaz dizer boa noite e ir embora. Despacho ... A gente ia
 dormir. Nao deixava conversar. Era triste ... E, se voce ficasse na
 estrada conversando com o rapaz, nao chegava dentro. Eu nunca
 namorei fora. Nao deixavam. Mandavam meu irmao mais novo atras para
 cuidar. (18)


Os depoimentos indicam que o espaco do namoro era interditado, mas com base nessas mesmas declaracoes depreende-se que o encontro entre os namorados poderia iniciar e reforcar-se numa festa, o que conduziria a outra: a festa do casamento.

Vera declarou que os casamentos, em geral, eram tratados como grandes acontecimentos no ambito do faxinal. No dia de seu matrimonio, por exemplo, foram para a Igreja numa carroca coberta com um toldo.
 So para casamento ia-se de carroca toldada. O nosso era com chuva,
 tolda e lona ... Tem arco feito. Nao sei do que e ... como de
 taquara. Mas nao e porque e tudo cepilhada, bonito, coberto com
 lona branca. Lona que nao passava chuva e dai iam casar de carroca.
 Nos fomos de carroca. Seu Dido levou. As fitas amarradas nos
 cavalos, mas a chuva lavou tudo; enchente veio. Dia dois, casei.
 Dai, o cunhado me levou e meu irmao Estefano. Foram os dois ...
 (19)


Ate os detalhes que poderemos considerar como triviais tais quais os cavalos e a carroca que transportava os noivos deveriam marcar a memoria da festividade do momento. A festa de nupcias podia durar varios dias. Vera lembra que na semana de vespera,
 Cozinhava a mesma coisa: pastel, sopa azeda e carne. Tinha de tudo.
 Faziam de tudo. Joana e minha irma Olga casaram num dia so. Eram
 dois casamentos. Corovai? Dois corovai. Tinha quatro corovai no
 casamento de minhas irmas. Comeram tudo. (20)


O corovai, do qual falaremos mais adiante, e uma especie de pao ritual adornado e consumido, ainda atualmente, em festas eslavas de casamento. A abundancia dele na festa descrita por Vera representa a grandeza e a galhardia com que a depoente reveste o acontecimento nupcial. Afinal, nao se prepara, nem se consome o pao cerimonial sem motivo suficiente. Alem disso, os preparativos dos alimentos e da bebida representam, em si, um evento festivo. Como diz a irma de Olga, as pessoas envolvidas,
 Levantavam cedo e continuavam trabalhando e fazendo festa. So
 aprontar para depois comer, a noite inteira, nao? Dai, o rebequeiro
 ia embora com a rebeca e, no outro dia, aparecia de novo, bem cedo.
 Sarava do porre, porque bebia muito. Era bonito isso. Divertido.
 Matavam galinha e leitao para carne e assava no forno. (21)


A itaparaenese refere-se ao excesso de bebidas, mas assegura que a cerveja caseira era o principal produto consumido nessas ocasioes. Conforme os depoimentos colhidos poucas eram as mulheres que sabiam preparar a cerveja caseira com qualidade. O convite para realizar tal tarefa significava uma indicacao de apreco, sendo considerado como motivo de honra, ao que podemos depreender da declaracao prestada por Anastasia. A senhora Svitniski contou que,
 no casamento da Natalia do Stacho eu fiz a cerveja no quinto, um
 tipo vasilha. (22) Eu fiquei quase dois dias la, no Stacho. E dai
 tinha aquele quinto. Colocamos seis latas num quinto so. Depois,
 colocamos essa torneira. Entao, essas mulheres do Cadeado disseram
 que nunca tomaram cerveja, assim de casa, porque de certo ninguem
 sabia fazer. Dai, no casamento da Natalia do Dete, eu fui convidada
 para fazer a cerveja e ele convidou, tambem, a mulher do Joao
 Cohan, a Vitcha. Vitcha veio e comecou a mandar. Eu disse: comadre
 nao e assim ... Vamos desmanchar numa cacarola ... o lupulo. E ela
 me respondeu 'Nao.' Ele desmancha ... Ele desmancha ... Mas o
 lupulo nao desmanchou e a cerveja nao valeu nada. Eu, depois, tirei
 o corpo fora. Fui fazer pasteis. Ela fez sozinha. Resultado: sobrou
 tudo ... Ninguem quis. (23)


Conforme Goncalo Torgal, a cerveja e considerada como uma das mais antigas bebidas fermentadas do mundo. Deve ter surgido, primeiramente, na regiao da Mesopotamia, sendo obtida por meio da maceracao de pao de cevada em agua e fermentada no sumo de tamaras. Tratava-se, pois de uma bebida bastante diversa da que hoje conhecemos (Torgal 1999). Vera e outras habitantes do faxinal dominam a tecnica de fabricar a cerveja com o lupulo. Afirma que para a bebida assim preparada "ter gosto agradavel e necessario que seja bem doce. Senao ninguem toma, porque amarga. Nao vai; e, se coloca demais lupulo, tambem, nao fica bom. Tem que ser o lupulo certo." (24)

A quantia de lupulo deveria ser posta na medida exata para que a cerveja ficasse com sabor agradavel. Assim, varios litros de cerveja eram feitos e logo se esgotavam. Conforme o depoimento de Anastasia, o preparo da bebida, visto como tarefa das mulheres, representava uma fonte de prestigio e de status. Quanto mais rapidamente fosse consumida e quanto maior o numero de elogios, melhor seria considerada a festa. Mais satisfeitos os anfitrioes, mais regozijo e maior a fama da cervejeira.

As mulheres tambem eram encarregadas da preparacao do corovai. Conforme os depoentes, esse pao grande, de formato redondo, enfeitado com pequenos passaros e rosas feitas de massa de farinha de trigo era considerado como adereco indispensavel nos casamentos. Em cima, depositava-se uma coroa de flores vivas. Ao centro, um pequeno ramo de pinheiro araucaria. Anastacia, sempre se referindo a um tempo passado, diz que, antes de cortar o pao, o sobre noivo25 devia ornar seu pescoco com uma coroa de flores e dancar com o ramo de pinheiro. Depois disso, deveria encaixar o ramo numa fresta da parede e jogar as flores sobre o telhado da casa.

Entao, diz a narradora, iniciava o toque da rebeca e as mulheres cantavam as colomeicas--musicas na lingua ucraniana e polonesa cantadas principalmente por mulheres, nas festas de casamento. Depois, distribuiam os pedacos do corovai, que o sobre noivo cortava, entregando-os aos participantes, acompanhado de cerveja caseira. O noivo dispunha um lenco sobre um prato e os folioes, um a um, aproximavam-se dele. A rebeca parava de ser tocada. Entao, o participe depositava certa quantia em dinheiro, no prato, e beijava os noivos. O rebequeiro recomecava a musica, enquanto outro convidado repetia o movimento.

O corovai pode ser interpretado como elemento de um rito de partilha. Trata-se de uma alegoria em que varios elementos da natureza se juntam num momento ritual. Os passaros, as flores e o pinheiro sao componentes centrais. Anastacia fala dos sentidos de alguns desses elementos. A coroa de flores significa, para ela, a vida do casamento. Jogada pelo sobre noivo no telhado da casa, se nao voltar ao chao, significa que esse sobre noivo, casara em breve. O pao representa a pureza, a fertilidade, a vida longa, a saude e a abundancia. A natureza mescla-se ao canto, a musica e a danca no rito de matrimonio que representa a partilha.

Narrativas de matrimonios e mutiroes

Klass Woortmann estudou as regras de casamento no universo campones eslavo dos Balcas. Segundo o texto, esse agrupamento humano estudado por Hammel na decada de 1960 e por Denich, na de 1970, era composto, majoritariamente, por cristaos ortodoxos (1990). Ate esse periodo, organizavam-se em unidades corporativas menores de partilhagens exogamicas em que a propriedade das terras era coletiva. Essas povoacoes, que apresentam algumas semelhancas com os faxinais, eram chamadas de zadrugas, cujo numero de componentes variava de quinze a oitenta pessoas.

Nos Balcas, conforme o autor, habitualmente, os homens comiam juntos e eram servidos pelo conjunto de mulheres que sentavam a mesa apos os homens terem se alimentado. Os casamentos eram arranjados de maneira a manter a integridade da zadruga. Klass Woortmann afirma que apesar da influencia crista, esses camponeses continuaram adotando antigas praticas em relacao a sexualidade, tais como, herdar esposas de geracoes anteriores, rejeitar o celibato pos marital, o jus prima nocis, o costume do casamento entre dois irmaos e duas irmas e a troca de irmas (1990, 39).

Na politica de casamentos da zadruga, segundo o autor, as mulheres exerciam forte influencia, trazendo para o interior do grupo, mulheres do seu grupo de origem, na perspectiva de que se tornem suas aliadas. No entanto, a subordinacao das mulheres era, ali, ritualizada de diversas formas. Faziam os trabalhos mais pesados, sentavam nos lugares menos nobres das mesas e passavam a ser chamadas pela forma possessiva do pre-nome do marido, apos o casamento. Sendo o casamento uma especie de alianca entre os homens, a virgindade das mulheres era vista como um valor fundamental e "qualquer deslize com relacao a virtude, era culpa do grupo de parentes do marido, que devia zelar por ela" (Woortmann 1990, 39). A infidelidade ao casamento poderia ser punida com a morte. No seu conjunto, as sancoes sobre a conduta sexual das mulheres eram exercidas mais pelo grupo do que pelos proprios maridos individualmente.

Podemos, assim, compreender melhor o sentido grandiloquente das festas de casamento no faxinal do Itapara e dos rituais que o envolvem nos depoimentos recolhidos. A partilha do corovai pode estar associada ao ato de compartilhar os bens comuns, sem que ocorra o esfacelamento do grupo. Os servicos e os dotes dos sujeitos mais habilidosos nas tarefas necessarias a realizacao da boa festa sao acionados em favor da celebracao da alianca. Semelhantemente ao que ocorria nas zadruga, as mulheres parecem exercer um papel preponderante nesses momentos festivos e rituais.

Assim como as cervejeiras, as cozinheiras e as mulheres que dominavam a tecnica de fazer o corovai, o rebequeiro, as cantoras e as dancarinas representavam papeis destacados no faxinal. Anastacia relembra que, em quase todos os casamentos, Paulo Dhumma era tocador de rebeca. Anastacia Harmatiuk e Frantiustka sao lembradas como dancarinas das colomeicas. Vera e Anastacia, como eximias fabricantes de cerveja caseira. A fabricacao da bebida poderia causar conflitos tais como a pendenga travada entre Anastacia e Vitcha, no casamento de Natalia do Dete. Foi uma festa com um conflito latente.

As festas nao eram constituidas apenas por rituais programados e regrados. Nelas tambem havia o espaco para o excesso e os conflitos. Anastasia contou que certa vez um dos convidados de um casamento embebedou-se e dormiu. Ela e uma colega passaram carvao no rosto do homem. Desenharam sobre o rosto do sujeito uma figura de apenas dois dentes, com a aparencia de um demonio. Tais brincadeiras eram comuns e poderiam gerar violencias e agressoes.

No casamento de Augusto Mikuska e Veronica houve uma luta corporal entre dois convidados. Afirma Vera que:
 deu briga ... Laudelino Ginko e Joao Paulena brigando. Nenhuma
 balancinha tinha na carroca ... Jogaram tudo. Os cachorros comendo
 carne, comendo pao, tudo ... A briga era na estrada, na capoeira.
 Escapavam. As mulheres escapavam porque senao pegavam balancinha
 para a cabeca. (26)


Outros encontros dancantes eram promovidos pelas familias. Conforme o depoimento de Anastacia, um dos rapazes da casa passava, a cavalo, em cada residencia, convidando as mocas para o evento. A jovem deveria pedir permissao ao pai. A autorizacao era concedida mais facilmente caso ela tivesse irmaos para acompanha-la. Estes encontros caseiros duravam a noite toda, iniciando no comeco da noite. A depoente diz que
 dancavam e cantavam, cantavam em brasileiro. Quando era madrugada,
 cantavam 'companheirada ta na hora da partida, e o fim do baile e o
 galo ja cantou,' tradicional musica da dupla sertaneja Tonico e
 Tinoco. As mocas iam embora de dia para nao acontecer nada. De
 noite nenhuma ia. E para moca sair para fora, nao ... Parou a moda?
 Moca sentava. Nao tinha isso de sentar com o namorado. (27)


Basilio tambem lembra que dancavam a "noite inteira. Nos ... as vezes, dia claro ... e nos dancando."28 Ele afirma que os bailes eram iluminados apenas por lampioes. Dancava-se, principalmente, a valsa, o xote, o vaneirao e o tango ao som da rebeca, do bumbo e das vozes dos musicos e dancarinos. Em muitos casos, o baile era promovido em retribuicao a um servico prestado.

Tratava-se de uma festa de origem indigena, o potyro, termo traduzido por Montoya, da lingua guarani como "todas as maos." Na cultura cabocla, os termos empregados para estes encontros de trabalho e festa sao mutirao, puxirao, pixurum, materao e outras variacoes. Trata-se de uma pratica estranha a tradicao europeia porque, segundo Maria Cristina Bohn Martins, no ocidente,
 Especialmente desde a modernidade, o tempo da festa e o tempo do
 trabalho sao, quase sempre, pares opostos e ate irreconciliaveis.
 Entre os guaranis essa oposicao nao se faz presente, esses dois
 tempos se articulam na forma de trabalho coletivo e festivo, que se
 conhece pelo nome de potyro. Ainda hoje presente em certos
 ambientes rurais na forma de ajuda mutua e gratuita o que se
 prestam os trabalhadores, o mutirao envolve uma reuniao para
 executar-se uma tarefa em proveito de um deles. O favorecido
 fornece a bebida e providencia, logo apos o termino dos trabalhos,
 a festa em seu terreiro. (2006, 76)


Nos faxinais essa pratica persistiu por anos, sendo possivel ainda presenciar alguns destes eventos. Na construcao das cercas que envolvem o criatorio comum, ou na reparacao dos cercados, na epoca da colheita ou da limpeza das rocas, em dias de realizacao de trabalhos que exigem muita mao de obra, a familia que tem o servico a ser feito busca auxilio entre os moradores proximos. Os vizinhos e amigos sao convidados a ajudar. A noticia se espalha rapidamente.

Um grande numero de pessoas, exercendo uma mesma tarefa, faz o servico render. Os trabalhadores se esforcam em meio a risos e cancoes animadas. Assim, o trabalho logo findava.

Vera, lembrando os mutiroes de antigamente, relata que o almoco era oferecido gratuitamente e que as mulheres
 reuniam-se e faziam, carne, feijao, arroz, macarrao, repolho; ate
 sopa, faziam. Salada de tomate, pimentao, de tudo a gente tinha.
 Plantava e tinha de tudo. Faziam pierogue. Enchia de mulherada que
 convidavam as filhas. (29)


Os depoimentos indicam que as mulheres participavam ajudando a preparar a alimentacao. Assim, nao precisariam pagar a entrada do baile que viria a noite, nem elas nem os homens que participavam do trabalho da lavoura. No galpao, ou sala da casa transformada em salao: musica, licor, cachaca, cerveja e cafe para todos. No faxinal, o mutirao unia e une o extraordinario da festa e o cotidiano.

Consideracoes finais

Essas festas de faxinal podem ser consideradas, para irmos concluindo, como portas de acesso a compreensao do fenomeno cultural, na perspectiva da historia. Assim sera, pressupondo-se que sejam validas, como pressupomos, certas criticas aos determinismos, estabelecidas no ambito da nova historia. Tais questionamentos nos conduziram a conclusao de que nao ha modificacao substancial de perspectiva no fato de se empreender a escrita da historia, adotando-se uma ou varias causas como opcao explicativa dos fenomenos. As alternativas de pensar os festejos como eventos em que sao quebradas as regras ou, contrariamente, como episodios de conscientizacao a respeito da importancia social das normas, revelaram-se como pouco satisfatorias, sendo mais apropriadas ao campo da historia social. Desse modo, devido ao carater coletivo do fenomeno, tem-se vinculado, com algum sucesso, as festas as relacoes sociais, evidenciando as afinidades coletivas. Pensamos, no entanto, ter ido um pouco alem, adentrando ao dominio considerado, propriamente, da cultura: como relacoes que se instituem no ambito da construcao dos sentidos e afinidades que se modificam no tempo e no espaco. Esse carater mutavel da cultura evidencia, entao, as mudancas e permanencias historicas da propria humanidade. As festas sao lugares, entre outros, de emergencia dessas continuidades e rupturas. As narrativas sobre festas evidenciam-nas como memorias.

Assim, por meio da memoria das festas, principalmente do mutirao e dos matrimonios, podemos dizer que o faxinal de Itapara reune aspectos de variadas culturas, entre elas a polonesa, a ucraniana, a cabocla e a guarani. Os termos utilizados pelos depoentes--mutirao, balhaske, corovai, colomeicas, a pezito, evidenciam a variedade linguistica e a multiplicidade etnica da regiao em estudo. Permitem visualizar, tambem, a historia da ocupacao do solo nesse mesmo lugar, ocorrida em dois movimentos distintos: as formas de ocupacao espontaneas utilizadas por indigenas e caboclos e a ocupacao planejada em modo de colonizacao. O Itapara parece um desses "eventos condensados" no tempo, uma vez que, o modelo de uso da terra em sistema de faxinal deve situar-se temporalmente na passagem entre a cultura indigena (nomade ou semi) e as culturas sedentarias da Europa. Os imigrantes, mesmo instados a adotarem o sistema de propriedade particular, preferiram o uso coletivo de parte de suas propriedades. O sistema adotado no Itapara, apesar das evidencias de desgaste, perdura desde 1908.

As historias de vida dos depoentes sao marcadas por elementos culturais que se modificam e outros que permanecem no tempo. O uso comum dos recursos naturais parece traduzir-se em festanca de todos. A criacao de animais em compascuo se manifesta em doacoes, em leiloes, em carne a ser comida e a ser degustada. O centeio e o trigo tornam-se paes rituais, agora, modificado, porque enfeitado com ramos de araucaria. (30)

Alem disso, nesse como em outros faxinais, ainda atualmente, podem ser compreendidas lugares em que se evidenciam elementos culturais tais como a obrigatoriedade, a troca de favores, a entre ajuda, por exemplo, que e comum nos momentos da organizacao e o da promocao desses eventos festivos. O trabalho e organizado com base nesses antigos fundamentos para a organizacao das procissoes, a recepcao dos visitantes, o preparo dos alimentos, a limpeza do espaco e em varias outras tarefas. Tais circunstancias sao propicias, tambem, para a troca de ideias e a resolucao de eventuais problemas, como por exemplo, a possibilidade de haver "tempo ruim" no dia do festejo. Assim, o periodo das vesperas emerge como espaco de diversificadas funcoes, de prestacao de servicos, de reconhecimento e de teste de habilidades.

Pode-se dizer, entao, que esses momentos constituem-se como certa suspensao da rotina regrada e cansativa; mas tratam-se, ao mesmo tempo, de lugares para o relaxamento e o excesso. O clima da festa e de alegria; um emaranhado de acontecimentos, rico em detalhes e variado em significados. Podem ser ocasioes para o namoro, para o flerte, para a fruicao e para o conflito, a uniao e a desavenca, o entretenimento e a desesperanca.

As festas de igreja, os festejos de casamento, o ritual do corovai, os bailes caseiros e os mutiroes nos permitem visualizar parte da cultura deste povo que adotam, no sul do Brasil, a pratica do criadouro comum. As festas no faxinal e a memoria das festas sao partes dessa cultura.

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JOSE ADILCON CAMPIGOTO

ANCELMO SCHORNER

JOCELI NOVAK

Universidade Estadual Centro-Oeste do Parana/UNICENTRO, Campus de Irati

Notas

(1) Consideraremos como eslavos, grosso modo, os imigrantes vindos da regiao da atual Polonia, Ucrania e Russia, para a regiao sul do Brasil, depois de meados do seculo XIX.

(2) A origem do sistema de faxinal e vinculada a organizacao das reducoes guaraniticas (Nerone 2000). A tese, no entanto, e contestada por Cecilian L. Lowen Sahr (2003) que admite haver influencias do sistema organizado pelos jesuitas entre os indigenas, mas argumenta que o sistema emergiu da forma de organizacao social desenvolvido pelos caboclos quando da ocupacao do territorio. Outros estudiosos do sistema de faxinais como Man Yu Chang (1895) salientam que o fator fundante dos faxinais teria sido a criacao de porcos a solta, considerado como costume difundido por toda a regiao de abrangencia dos faxinais. Podemos dizer que a origem do faxinal, assim como, de resto toda discussao sobre geneses de sistemas, e uma questao controversa. A dificuldade encontra-se exatamente na definicao dos fatores determinantes e complica-se ainda mais quanto menor for o numero das causas destacadas. A origem do faxinal, seguramente esta vinculada a todos os fatores apontados pelos autores acima elencados e outros mais. A pergunta pela genese frequentemente conduz ao determinismo, preparando o solo para as descricoes evolucionistas.

(3) Podemos assim falar porque na Europa mesmo se percebe, ainda, alguma variedade no uso e na posse da terra. Retrocedendo no tempo, a variedade e maior, havendo algumas semelhancas, inclusive, com o chamado sistema faxinal. Os estudos de Max Weber (1984), por exemplo, sobre a historia agraria de Roma, apontam para as formas de uso comum das terras. Trata-se de sistemas de compascuo tais como o ager publicus e o ager compascuu. O ager publicus era a designacao que se aplicava a area de compascuo de dominio publico. O ager compascuu, por sua vez, era o designativo para terras que, por vezes, pertencendo a um proprietario era utilizada pelos confinantes. No que tange aos povos germanicos, Weber aponta a organizacao das antigas aldeias em relacao ao uso das terras. Recorre a figura de circulos concentricos, iniciando-se pela area dos lotes individuais, localizados no centro. Em seguida, as terras cercadas para plantar, as terras de lavoura, circundadas de pastagens; e, por fim, os bosques. O ager compascuu, embora desaparecido da Europa, ha muitos anos, tem alguma semelhanca com o sistema de faxinal, o que nao indica, automaticamente, relacao de origem desse sistema adotado pelos imigrantes poloneses e ucranianos.

(4) Entrevista concedida por Basilio Gaiocha a Joceli Novak em novembro de 2007.

(5) Entrevista concedida por Casemira Holanih a Joceli Novak em novembro de 2007.

(6) O balhaske era uma especie de oratorio. A palavra, da lingua polonesa, em portugues quer dizer lugar para se velar a comunhao.

(7) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(8) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(9) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(10) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(11) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(12) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(13) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(14) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(15) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(16) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(17) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(18) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(19) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(20) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(21) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(22) O quinto era um recipiente em que se costumava acondicionar os ingredientes para a fermentacao da cerveja - seis latas de cerveja representam, mais ou menos, 60 litros da bebida. A cerveja com o lupulo e uma variacao das antigas tecnicas de preparo da bebida.

(23) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(24) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(25) Sobre noivo e a pessoa escolhida para levar a noiva ate a igreja, e soltar fogos no dia do casamento. E sobre noiva, e a pessoa escolhida para levar o noivo ate a igreja.

(26) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007. A "balancinha" e uma peca da carroca na qual se atrela os arreios dos animais. Trata-se de um pedaco de madeira que pode ser destacado e utilizado como arma, ao modo de porrete ou clava. Dizer que nao sobrou nenhum desses componentes nas carrocas significa expressar que o conflito era de grandes proporcoes.

(27) Entrevista concedida por Anastasia Svitniski a Joceli Novak em outubro de 2007.

(28) Entrevista concedida por Basilio Gaiocha a Joceli Novak em novembro de 2007.

(29) Entrevista concedida por Vera Gaiocha a Joceli Novak em outubro de 2007.

(30) A Araucaria angustifolia e a especie arborea dominante da floresta ombrofila mista, ocorrendo majoritariamente na regiao Sul do Brasil, bem como no leste e sul do estado de Sao Paulo, extremo sul do estado de Minas Gerais, e em pequenos trechos da Argentina e do Paraguai.
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Author:Campigoto, Jose Adilcon; Schorner, Ancelmo; Novak, Joceli
Publication:Canadian Journal of Latin American and Caribbean Studies
Date:Jan 1, 2012
Words:9240
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