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Feminine spacialities in the Baha'i faith grouping "Gralha Azul": one case study of symbolic representations/Espacialidades femininas do agrupamento Baha'i "Gralha Azul": um estudo das representacoes simbolicas.

A PERSPECTIVA SIMBOLICA APLICADA A GEOGRAFIA DA RELIGIAO

A Geografia da Religiao, em sua abrangencia, nos permite perscrutar as espacialidades femininas na expressao dinamica de uma religiao conhecida como Fe Baha'i (2), que mesmo tendo origem historica e geografica no Ira remeteu-se para alem do seu ponto territorial inicial, estendendo suas espacialidades em justaposicoes complexas.

Conforme Pereira (1999), a ideia de espaco social possibilita a existencia de uma espacialidade compartilhada que se separa de sua materialidade fisica. A espacialidade vincula-se, portanto, aos espacos geograficos, no que se refere aos arranjos derivados das complexas relacoes sociais vividas.

Na observacao das espacialidades sociais, que se organizam em determinado espaco e tempo, nos deparamos com as representacoes, com as intimidades e as exterioridades humanas desenvolvendo limites e preenchimentos espaciais por meio de suas interacoes sociais.

Se o espaco, de modo geral, e algo que pode ser preenchido e que ao mesmo tempo preenche por meio de seus simbolos, entao a vida da sociedade e dos individuos e condicao basica para a experiencia do existir que se vincula essencialmente ao reconhecimento destas espacialidades.

O surgimento e estabelecimento das espacialidades sao mediados pelas representacoes. "Os homens nao agem em funcao do real, mas em razao da imagem que fazem dele" (CLAVAL, 2006, p.94). Neste ponto, Claval e Cassirer (1994) convergem, pois para o geografo e para o filosofo, a imagem do mundo vincula-se tambem a imaginacao. "A realidade fisica parece recuar em proporcao ao avanco da atividade simbolica do homem" (CASSIRER, 1994, p.48).

A inexistencia, a morte, pode significar para os vivos, tambem em termos simbolicos, a perda dos espacos, a inexistencia de possibilidade de preenchimentos. So no contexto das religioes este paradigma e superado, por meio da crenca em outras possibilidades de vida para alem da morte. Esta crenca lanca aos seres humanos novas dimensoes de preenchimentos, novas possibilidades do ser e de sua ocupacao dos espacos.

Uma vez reconhecido o espaco como suporte para o desenvolvimento de complexas espacialidades podemos considerar que observar e descrever os ajustamentos e dissintonias, na especificidade dos contextos dos generos, exige o estudo das formas simbolicas, a fim de favorecer uma teorizacao formulada a partir de determinado prisma.

Na teoria apresentada por Cassirer (1994), sobre as formas simbolicas, o mesmo define que as formas simbolicas sao aportes para diferentes simbolos, sao uma especie de estrutura que fornece logica propria. O autor propoe como formas simbolicas, a ciencia, a arte, o mito e a religiao.

El supuesto previo indispensable de este proceso nos lo oferecen las distintas "formas simbolicas": el mito, el lenguaje, el arte, el conocimiento. Son estos los medios peculiares que el hombre crea para separarse del mundo con ayuda de ellos, uniendose mas firmemente al mundo precisamente por medio de esta separacion (CASSIRER, 2005, p.38).

A Forma Simbolica Religiao, em relacao as espacialidades femininas, abarca imagens arquetipicas que mobilizam determinadas atitudes e compreensoes vinculadas ao espaco e tempo, tendo como base a pertenca de genero.

Toma-se o cuidado de salientar que as formas simbolicas se constituem em modos de funcionamento, portam uma logica propria, na qual os simbolos expressam conteudos de forma flexivel, abrangente e unificadora. "la funcion de lo simbolico consiste precisamente em ser el supuesto previo para todo lo que sea captar 'objetos' o realidades" (CASSIRER, 2005, p.46).

As espacialidades configuram-se tambem pelo estabelecimento de relacoes mediadas por simbolos que se comunicam por meio de imagens ativas, ou dito de outro modo, que se expressam por meio da funcao imaginativa. A imaginacao coloca as imagens em posicao relacional o que resulta em novos significados que sao manifestados pela linguagem.

Conforme Gil Filho e Junqueira (2007), o espaco mitico religioso que define sua pertenca vinculada ao universo das religioes e visto como singular, ocupando uma posicao entre o espaco concreto material e o abstrato.

O Espaco Sagrado, como categoria de analise, conforme Gil Filho (2008), configurado por meio do sistema interpretativo de Cassirer, abarca: espacialidade de expressoes religiosas, o que inclui as praticas religiosas, as formas simbolicas e os mitos.

Deste modo, o pensamento religioso forma o conhecimento que se articula a realidade social. A partir do conhecimento que se desdobra em diferentes expressoes as espacialidades se entrecruzam e estruturam. Gil Filho (2008) afirma que o espaco sagrado atua como estrutura estruturante da esfera religiosa.

Tomando o conceito de estrutura estruturante de Bourdieu (1980), podese compreender que ha uma interacao de forcas que estabelecem reciprocidades nas relacoes. O termo "estruturas" refere-se a disposicoes interiorizadas e duraveis e o termo "estruturantes" refere-se aquilo que gera praticas e representacoes. Os individuos e comunidades estao inseridos em uma estrutura com forca estruturante, e isto define os campos, neste particular, as espacialidades.

Em Cassirer, descortina-se um mundo criado por simbolos: e Bourdieu fornece a possibilidade de pensar que este mundo gerado pelo espirito simbolico portador de significacoes e, tambem por ele inspirado, e ate certo ponto conformado--enquanto simultaneamente tambem o conforma. De qualquer modo, por ambas as vias, o conhecimento e gerado, confrontado, modificado e assimilado.

ESPACIALIDADES ARQUETIPICAS

Tendo por base o conhecimento como mobilizador das espacialidades, investigamos as espacialidades femininas no contexto da Fe Baha'i, religiao que surgiu em meados do seculo XIX, na antiga Persia, e que apontou para o surgimento de um novo paradigma ao adicionar a participacao dos generos de modo equitativo no ambito religioso, educativo e social.

O recorte da pesquisa se desenvolveu por meio de observacoes e entrevistas realizadas no interior do Agrupamento Baha'i denominado "Gralha Azul", que abrange as seguintes cidades do Parana: Curitiba, Sao Jose dos Pinhais, Campo Largo, Piraquara, Pinhais e Colombo.

Ao tratar das espacialidades femininas no "Agrupamento Gralha Azul", antes e necessario compreender que as espacialidades femininas do mundo islamico. Naquele sistema territorial, onde surgiu a Fe Baha'i, destinavam-se as mulheres os espacos de silencio situados por tras dos biombos das mesquitas e por tras das portas e cortinas das casas, durante as reunioes masculinas. Enquanto os homens tratavam de assuntos "serios", como negocios, religiao e revolucao, as mulheres cabiam os assuntos vinculados a prole, alimentacao e cuidados com a casa.

A Fe Baha'i causa uma ruptura neste padrao, principalmente no modo dos diferentes generos conhecerem e de viverem a religiao. O fato de uma discipula do Bab (3), segundo fontes como Nabil (1974), ter retirado publicamente o veu e falado perante homens com a face descoberta, refletia uma situacao simbolica altamente significativa inaugurada a partir da ruptura de um comportamento padronizado, abrindo espacialidades nas quais uma nova posicao social e religiosa poderiam ser vividas por homens e mulheres. Anunciava conhecimentos que gerariam novas espacialidades, principalmente para as mulheres.

Ha diferentes aspectos no conhecimento veiculado pelo fundador da Fe Baha'i, Baha'u'llah (4), que motivou o surgimento de espacialidades diversas que atravessaram fronteiras territoriais e se espalharam pelo mundo.

A Fe Baha'i ganha visibilidade mundial na medida em que executa seu plano de expansao. Devido a pratica efetiva deste plano chegou tambem ao Brasil e organizou-se em comunidades, como e o caso do "Agrupamento Gralha Azul".

A Fe Baha'i categoriza-se como religiao, assim os baha'is definem sua fe, bem como outros autores. O historiador Arnold J. Toynbee (1889-1975), afirma que a Fe Baha'i e, sem duvida alguma, uma religiao. Este historiador define a Fe Baha'i como religiao independente, tendo a mesma importancia de outras religioes mundiais (HATCHER; MARTIN, 2006, p.xi).

Carl Gustav Jung (1987-1961) pesquisou profundamente a tematica religiosa e desenvolveu conceitos como: consciente, inconsciente pessoal e coletivo, arquetipo, animus, anima, tipos psicologicos, e a funcao e entendimento da dimensao onirica aplicada ao contexto religioso.

Jung (2000) explica que utilizou o termo arquetipo relacionando-os aos padroes de imagens que surgem na psique humana, inspirado em Santo Agostinho, relacionando o termo a "Typos", marcas ou impressoes que traduzem motivos mitologicos.

Imagens arquetipicas como a do Grande Sabio, da Mae, do Pai, do Rei, do Bobo, do Louco, da Donzela, do Heroi, da Heroina, entre tantas outras, expressam uma forma de sentir, compreender e de atuar no mundo. Constelam pensamentos, sentimentos e se transformam em espacialidades, por meio da acao decorrente deste complexo de energia posto em movimento.

O inconsciente, conforme Jung (1990b), nao traduz apenas os vestigios de antigas experiencias pessoais, mas tambem se relaciona a uma psique viva. Esta percepcao conduziu o autor ao reconhecimento da manifestacao das imagens arquetipicas, originadas no inconsciente.

As imagens arquetipicas sao compartilhadas pela psique humana e traduzem emocoes e conceitos que assumem formas diversas. Neste caso, as imagens escondem ao mesmo tempo em que traduzem o sentir humano.

Deste modo, a fantasia e mais do que um desfile de imagens destituidas de maior significado, e a expressao de sentimentos formadores da experiencia humana.

Os conceitos de anima e animus, conforme Jung (1976), referem-se a arquetipos polarizados. Ou seja, a psique feminina apresenta a manifestacao dos impulsos arquetipicos do animus, resultando em caracteristicas masculinas da interioridade feminina, enquanto a anima diz respeito as caracteristicas psiquicas femininas que emergem da interioridade masculina.

Tambem por meio das afirmativas deste autor verificamos que o conhecimento surge como gerador de espacialidades, este conhecimento e especialmente integrativo e desenvolvido pelos diversos modos de relacionamento.

Da atuacao de diferentes funcoes psiquicas (5), se estabelecem as formas de relacionamento das pessoas com os sujeitos e objetos do mundo, e deste modo as espacialidades sao engendradas unindo a exterioridade a interioridade, de maneira indissociavel.

No capitulo intitulado "O problema dos tipos de atitude", do livro "Fundamentos de Psicologia Analitica", Jung (1989) afirma que as pessoas atuam de modos diferentes face ao mundo. O autor, a principio, divide os seres humanos em dois tipos basicos: os extrovertidos e os introvertidos. Tambem afirma que "o que se diz da humanidade em geral tambem se aplica a cada individuo em particular, pois a humanidade e formada por um conjunto de individuos" (JUNG, 1989, p.42).

Compreende-se que a preocupacao de Jung ao classificar as formas de comportamento dos seres humanos face aos objetos e sujeitos do mundo, engloba o particular e o geral. Nele "a psicologia da humanidade corresponde a psicologia individual" (JUNG, 1990, p.42). Assim, o modo como os seres humanos agem em sociedade, e as espacialidades vividas a partir destes comportamentos, seguem uma tipologia, uma forma, que poderia ser definida como uma tendencia, e nao como uma determinacao.

Para Jung (1989) estas funcoes psicologicas (tipologias) sao muitas vezes subservientes a vontade, mas nao totalmente, pois tambem agem com frequencia de modo autonomo. E fato que "nao se pode anular um pensamento, sentimento ou sensacao" (JUNG, 1989, p.12).

As funcoes (6) se distinguem em quatro: Pensamento, Sentimento, Sensacao e Intuicao. Nas pessoas certas funcoes preponderaram sobre outras. O funcionamento psiquico apenas demonstra as tendencias de cada um, que se refletem em seu modo de agir e interagir nos espacos, com os outros sujeitos e com os objetos do mundo.

As pessoas com facilidade de raciocinio utilizam a Funcao Pensamento preferencialmente: tais pessoas se adaptam ao mundo pelo uso do pensamento, fazem uso da logica para a compreensao de seu universo e ha o predominio desta logica em sua acao social.

Outros, cuja Funcao Sentimento e preponderante, vinculam-se facilmente aos valores, a arte, e suas atitudes estao embasadas em seus sentimentos. Ha nos sentimentos uma carga valorativa, nao sao involuntarios como a emocao, mas fruto de uma atitude racional que realiza julgamentos de valores.

Certas pessoas possuem agudo senso de observacao e se pautam em suas sensacoes para se relacionarem com os espacos e os entes que habitam nestes espacos. Estas pessoas apresentam a Funcao Sensacao bastante desenvolvida. A sensacao refere-se a um enfoque na experiencia direta, na percepcao de detalhes, de fatos concretos, enfim refere-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar, saborear e ouvir.

Tambem ha individuos nos quais a Funcao Intuicao e altamente desenvolvida, estes tendem a captar o todo e nao se prendem aos detalhes. Esta funcao, bem como a funcao anterior, sao funcoes cuja orientacao e menos racional e mais inconsciente. A intuicao e uma funcao nao racional, perceptiva, subordinada ao fenomeno involuntario de percepcao de um todo.

"A sensacao (percepcao sensorial) nos diz que alguma existe; o pensamento mostra-nos o que e esta coisa; o sentimento revela se ela e agradavel ou nao e a intuicao dir-nos-a de onde ela vem e para onde vai" (JUNG, 1991a, p.61).

Jung criou o diagrama, mostrado a seguir, o qual chamou de "Cruz das Funcoes". Neste diagrama coloca o ego como ponto central e a partir dele as funcoes superiores (mais desenvolvidas), e as funcoes inferiores (menos desenvolvidas). "Quando o pensamento e a funcao superior, o sentimento so podera ser a inferior. A mesma regra se aplica as outras funcoes"(JUNG, 1989, p.12-13).

A funcao superior refere-se a tendencia dominante, gerando o que ele chamou de funcao inferior que seria a funcao oculta. Podemos considerar a ideia de figura e fundo: quando uma funcao e principal e esta na posicao da figura e o seu correspondente oposicional estara em posicao de fundo.

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O ego representa a forca de vontade, e as funcoes pensamento, sentimento, intuicao e sensacao, sao modos de privilegiar determinada forma de atuar sobre o mundo. Sao formas de compreender o mundo e gerar conhecimento sobre ele por meio de acoes e de linguagens simbolicas.

Cruzando este tipo de entendimento com a formulacao de Cassirer sobre as formas simbolicas, relacionamos a Funcao Pensamento com a Forma Simbolica Ciencia, a Funcao Sentimento com a Forma Simbolica Arte, a Funcao Sensacao com a forma Simbolica Mito e a Funcao Intuicao com a Forma Simbolica Religiao.

Nao raro, pessoas apresentam atracoes especiais por uma e/ou outra forma simbolica: atraves da qual vivenciam coletivamente as representacoes simbolicas contidas nas diversas espacialidades por meio de atitudes. Nos referimos a acao que gera conhecimentos, que se exprime em linguagens e que define espacialidades.

Quando Jung define os tipos psicologicos e sua interacao com o mundo, situa o que chamou de atitude simbolica da consciencia: "depende da atitude da consciencia, que observa se alguma coisa e simbolo ou nao; desde que considere o fato dado nao apenas como tal, mas como expressao de algo desconhecido" (JUNG, 1991a, p.445).

Neste modelo de compreensao as espacialidades sao geradas pela acao das pessoas a partir de uma atitude simbolica. Jung (1991a) ao considerar o inconsciente (7) como anterior a consciencia, pontua em sua marcacao tipologica formas pelas quais a atitude simbolica se expressa objetivamente no mundo: o que define formas de relacionamento com os outros.

Cassirer (2005) esclarece que ha uma logica funcionando em cada forma simbolica, ha uma maneira peculiar de ordenar as imagens e traduzi-las em simbolos, em linguagem. Cada forma simbolica gera seu proprio conhecimento, porem este conhecimento se desenvolve na dimensao da especificidade logica da forma simbolica a qual pertence. Tambem o ser humano visto particularmente ou em agrupamentos, Jung (1991a) apresenta atitudes potencializadas a partir de um sistema de funcionamento especifico.

A epistemologia que aponta para as formas simbolicas e para as funcoes psiquicas, tendo como objetivo a compreensao das espacialidades vividas na especificidade do genero, na interioridade da religiao por meio da expressao de seus simbolos, leva em consideracao o intercambio entre o consciente e o inconsciente e a manifestacao de imagens arquetipicas.

Isto significa observar a logica das formas simbolicas, os mundos criados a partir da linguagem em sua especificidade, levando em consideracao as Funcoes Psiquicas, que relacionam-se efetivamente com as inclinacoes individuais e coletivas na construcao compartilhada socialmente, por meio da linguagem, do conhecimento. O que resulta em uma observacao atenta a complexidade das interacoes que exercem forca suficiente para delinear espacialidades.

As Funcoes Psiquicas fazem parte do sistema consciente, enquanto as imagens arquetipicas originam-se do fluxo psiquico inconsciente. Mas, como tratase de instancias intercambiaveis, pode-se considerar que as tipologias e seus funcionamentos especificos relacionam-se mais ou menos com determinadas formas arquetipicas.

Jung e Cassirer tratam de compreender a forma de funcionamento da acao humana e o conhecimento gerado a partir disto. Assim, por meio de suas amplas pesquisas acerca da forma e funcao da producao do conhecimento, permitem uma compreensao de espacialidades visando o surgimento e a perpetuacao destas, sem perder de vista o carater da acao que as delineia.

Ricoeur (2008b), na obra "O Conflito das Interpretacoes: ensaios de hermeneutica" consonante com a proposicao junguiana define o simbolo como multifacetado, isto e, passivel de diversas interpretacoes. "Uma palavra ou uma imagem e simbolica quando implica alguma coisa alem do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente, mais amplo, que nunca e precisamente definido ou de todo explicado" (JUNG, 1977, p.21).

Na concepcao junguiana um simbolo nunca e totalmente interpretado, e se o fosse deixaria de ser simbolo, estaria morto enquanto tal e tornar-se-ia apenas um sinal. Epstein (2002), ao afirmar que o simbolo e sempre uma metafora expandida por sua interpretacao, afirma que ao tornar explicitos os significados de um simbolo ocorre o processo de descaracterizacao deste. O pensamento simbolico, ao contrario do pensamento cientifico, nao e analitico, mas condensa em um significante um punhado de significados. "O paradoxo do simbolo consiste em que para interpretarmos o sentido do simbolo precisamos expandi-lo, e isto e feito em termos de sentencas literais. Ai perdemos o sentido do simbolo enquanto simbolo" (EPSTEIN, 2002, p.70-71).

Ricoeur (2008a), parte deste mesmo principio. Para o autor o simbolo apresenta a possibilidade de muitas interpretacoes e "cada interpretacao, por definicao, reduz esta riqueza" (RICOEUR, 2008a, p.19).

Deste modo, nos deparamos com a tarefa de ao interpretar os simbolos, cuidar de nao lhes escassear as possibilidades. Deixando sempre em aberto a possibilidade de novos olhares, e novas constatacoes. Os simbolos que remetem ao feminino, vinculados a experiencia religiosa, parecem que foram, durante muito tempo, deixados a margem.

ESPACIALIDADES ARQUETIPICAS FEMININAS NO "AGRUPAMENTO GRALHA AZUL"

As mulheres, na perspectiva de uma Geografia da Religiao, sao ainda pouco visiveis em trabalhos academicos, os assuntos religiosos e geograficos ainda sao, na maioria das vezes, considerados sob o prisma das espacialidades masculinas. No artigo escrito por pesquisadores(as) do Grupo de Estudos Territoriais, da Universidade de Ponta Grossa: Silva, Junior, Filho e Rossi (2009), questiona-se o motivo de se pesquisar tao pouco sobre genero na geografia brasileira. Os(as) autores(as) alegam que os elementos fundantes da impermeabilidade da perspectiva de genero na Geografia sao as suas bases eurocentricas, a permanencia dos sujeitos universais e o apego a expressao material do espaco: desconsiderando, de certa forma, que as mulheres possuem existencia espacial concreta e real.

A Fe Baha'i, como religiao, tambem ainda e vista por alguns com certa desconfianca. Trata-se de uma religiao de surgimento recente, seculo XIX, e que apresenta em sua historia a experiencia de inumeras perseguicoes, martirizacoes e segregacoes--por conta do descredito, por parte da ortodoxia shi'i iraniana, que tentou aniquilar esta expressao religiosa--forcando que seus seguidores renunciassem a sua crenca.

Como nos relatou um entrevistado de origem iraniana, participe do Agrupamento Gralha Azul, ao se referir ao seu avo paterno que deixara o Islamismo para se converter a Fe Baha'i, e que no Ira era dono de uma loja de ferragens: "todos os outros muculmanos jogavam cachorro morto sobre ele, e gato morto, ninguem queria comprar nada dele por ser baha'i, situacao dificil no comercio dele e dentro de casa".

A revista GEOUSP, em 2008, publicou um artigo intitulado "Arquetipos, Fantasmas e Espelhos", elaborado por Mauricio Waldman, neste artigo o autor afirma que na organizacao do espaco geografico encontram-se tambem os arquetipos, como modeladores das acoes dos sujeitos.

Expressao de um determinado modo de relacao com a natureza, o arquetipo induz direcionamentos dos fluxos presentes no inconsciente, ele mesmo parte da natureza que habita o corpo do homem, emanacao sem a qual nao seria possivel pensar a dimensao do humano. (WALDMAN, 2008, p.45).

O autor, ao compreender as relacoes humanas no espaco e no tempo, verifica a importancia das imagens arquetipicas, que fazem-se presentes por meio das expressoes simbolicas originadas do imaginario humano.

Os arquetipos, quando manifestos pelo vies da sombra (8), ganham dimensao de forca nas projecoes, e acabam por gerar simbolos de forca opressora, muitas vezes violenta, envolvendo o predominio de alguns sobre outros: ou ainda, como afirma Waldman (2008), a domesticacao da sensibilidade que passa pela domesticacao do corpo e que coloca para negros, mulheres, criancas e religioes--em patamares de subordinacao aos que se querem dominantes--a negacao do direito a existencia compartilhada em termos de igualdade.

Neste sentido, e como exemplo, o eurocentrismo forma o arquetipo do dominador: do "heroi" (9), no qual o centro e ocupado pelos paises europeus, cabendo a eles, o controle das periferias. O centro adquire poder e forca de submeter os diferentes a uma categoria inferior. Do mesmo modo, o cristianismo, que se ocidentaliza, certas vezes ocupa o centro do poder religioso e nega o direito a existencia de outras formas de religiao.

O Islamismo Shi'i, no contexto Persa, por conta do surgimento do Movimento Babi e da Fe Baha'i, ocupava o centro mandalico (10) daquele cenario geografico, configurando espacialidades religiosas a partir de elementos simbolicos tidos como principais e genuinos, enquanto o diferente, o periferico, recebia a carga da projecao simbolica do mal.

Os estereotipos etnicos e raciais em sua relacao com o espaco, no qual velhos mitos sao muitas vezes revividos, produzem um mosaico de medidas que Waldman (2008) chamou de arquetipo espacial.

O mito da eterna luta entre o bem e o mal, muitas vezes ganhou forca significativa no combate entre governancas. Na justificativa de ataques territoriais, bem como na subordinacao de determinados sujeitos considerados como participes do "lado mau", aos "bons" e que restaria o controle e as benesses de uma vida protegida.

Waldman (2008) defende que vivemos um novo arquetipo espacial, diferente do arquetipo vivido em outros momentos historicos. Ao analisar a espacialidade arquetipica do periodo medieval europeu, afirma que:

Assim sendo, e perceptivel um imaginario topologico nitidamente diferenciado de seu precedente feudal. Na idade media, o arquetipo espacial estava eivado de conotacoes hoje entendidas como arcaicas ou ingenuas. Explicitariam este imaginario medieval: a explicacao ptolomaica do universo, com uma Terra plana ocupando seu centro; Jerusalem como o omphalos do mundo habitado e em decorrencia disto, do universo; o registro, nos mapas medievais de toda sorte de bestas e animais fantasticos, procedentes de uma biologia maravilhosa; o dominio de concepcoes magicas relativas aos ventos, as mares, aos vulcoes, aos terremotos e tufoes; crenca de que o espaco habitado coexistiria com o Jardim do Edem e com os reinos imaginarios como o de Prestes Joao e assim por diante. (WALDMAN, 2008, p.50).

Conforme o autor, um novo arquetipo substitutivo do anterior, formula-se a partir do repudio as forcas da natureza. As cartografias elaboradas no ocidente, afirmam o eurocentrismo e banem elementos mitologicos. "A cartografia faz uso, consciente ou nao, de um aparato simbolico cujas significacoes decorrem das expectativas espaciais pertinentes a um determinado padrao civilizatorio e sendo assim, seu papel extrapola a mera apreensao ou afericao objetiva do espaco" (WALDMAN, 2008, p.50).

Percebe-se que, segundo o mesmo autor, a Europa passa a ocupar a parte superior dos mapas, lugar que anteriormente era ocupado pela Asia."Jerusalem, que era costumeiramente destacada no centro do mundo, perde esta localizacao, com a descoberta da rotundidade da terra" (WALDMAN, 2008, p.50).

A ideia da Terra Redonda mobiliza tambem uma nova compreensao de mundo. Onde esta o centro do mundo? Basta girar a esfera e o centro se desloca. A propria ideia contemporanea da relativizacao da verdade configura uma nova espacializacao arquetipica, na qual elementos diversos ocupam ora o lugar da centralidade, ou de periferia, conforme o angulo sob o qual cada fenomeno e percebido.

O mapa contemporaneo e matematizado, conteudos originados das diferentes mitologias sao banidos das cartografias, mas o destaque dado a Europa e a ideia de posicao que sugere a existencia dos "paises de cima" e dos "paises de baixo", denota uma clara topografia do poder.

Simbolicamente o bem e o belo estao colocados acima, enquanto o mal relaciona-se aos mundos de baixo. Um dos criadores da bioenergetica (11), Lowen (1982) afirma que algumas ideias primitivas associaram-se ao Cristianismo antigo o que favoreceu a simbolizacao da barriga como a morada dos espiritos da escuridao, era ali que residiam os habitantes da "regiao de baixo", "ai tambem na morada do diabo, e onde queima o fogo da sexualidade" (LOWEN, 1982, p.83).

O corpo da terra e o corpo do ser humano sao simbolizados e tornam-se imagem agregadora de sentidos e significados. A cabeca humana, lugar onde a coroa e posta, simboliza a valorizacao da mente racional. Jung (1976) afirma que Agostinho relacionava a imagem divina a alma rationalis, entao, "onde esta o intelecto, onde esta a mente, onde esta a razao, a qual compete investigar a verdade, ai Deus tem a sua imagem" (JUNG, 1976, p.36).

O termo civilizacao, conforme Elias (1994), foi uma apropriacao de um termo nativo em voga na Franca e na Inglaterra a partir do seculo XVI, e implicava em considerar a civilizacao como algo em processo, o que incluia a ideia de evolucao.

No decorrer da historia civilizacoes consideraram como barbaras, ou primitivas, outras culturas que se diferenciavam. O "evoluido" era o "civilizado", e o civilizado era o que se outorgava o direito de conquistar, e imprimir sua marca em outras culturas que, portanto, eram desvalorizadas e desterritorializadas.

O Arquetipo Espacial do Ocidente, ao valorizar o geometrico e o matematico, o retilineo e o uniforme, guarda intimas relacoes com a discriminacao racial. Em desajustes com os dinamismos corporais, organicos, naturais e cosmicos que sempre foram valorizados pelas culturas antigas, este arquetipo molda esteriotipias e tracos pejorativos para com o outro, que sempre e algo que nao e. (WALDMAN, 2008, p.55).

Deste modo, o autor acima conclui que o primado da racionalidade tido como um principio geral e organizador acaba sendo excludente e discriminatorio. Causa a exclusao do nao racional. Assim, os sentimentos reprimidos atuam de modo a gerar comportamentos motivados por odios, angustias, profanacao e terror, o que Waldman (2008)) chamou de "reserva pulsante do irracional" (p.55).

Este territorio, pleno de sentimentos reprimidos, de fluxos pervertidos do inconsciente social, esta circunscrito a um mapa, a uma Cartografia, cujos significados topologicos decorrem daquela dessacralizacao dos valores e das crencas que durante a maior parte da historia humana constituiram seu espolio mais valioso. (WALDMAN, 2008, p.55).

Waldmman (2008) em seu artigo busca resgatar o suprimido, aquele que torna-se socialmente oprimido: para isto analisa a forca arquetipica atuante na espacializacao geografica do mundo levando em consideracao a "sombra" e sua projecao destinada ao "Outro". Nesta perspectiva, a dimensao de sombra projetada na contemporaneidade, nao engloba mais os monstros marinhos que devoravam homens e todos aqueles seres temidos que caracterizavam o dominio do mal sobre a terra, mas destinam-se aos corpos daqueles que sao considerados como diferentes, os "Outros", e ai estao os imigrantes, as mulheres, os negros, os explorados pelo trabalho, ao que incluimos a lista, as religioes perseguidas e sobre as quais se projetam nossas proprias sombras.

Pode-se transportar esta reflexao para outros modelos, que nao ocidentais, a fim de compreender como as classes dominantes projetam suas sombras em outras classes, em outras religioes, em outras pessoas.

Neste espaco de ser "Outro", as religioes que submetidas ao ataque vigoroso do poder religioso vigente, sao submetidas aos poroes, as perseguicoes e martirizacoes, acabam sendo demonizadas e perseguidas, na maioria das vezes, de modo brutal. O espaco geografico, fisico, de liberdade, lhes e negado, na mesma medida em que ao seu espaco simbolico sao projetadas imagens do mal e do medo.

Um exemplo disto e o que a Fe Baha'i apresenta em sua narrativa historica. Conforme Gouvion e Jouvion (1996), no Ira a perseguicao feita aos baha'is e incessante, tendo passado por diferentes formas desde Bab ate os dias atuais. Em 1907, o Shah Muhammad Ali, aprovou uma lei eleitoral para a exclusao das pessoas baha'is. Entre 1921 e 1922 o Shah Reza fez votar uma lei na qual varios baha'is seriam privados da aposentadoria. Em 1925, qualquer candidato a cargo publico obrigatoriamente deveria declarar sua religiao, sendo que era proibida a contratacao de baha'is, como tambem somente os casamentos muculmanos, cristaos, judeus e zoroastristas passavam a ser declarados oficiais, os casais baha'is eram considerados adulteros e seus filhos ilegitimos. Entre 1930 e 1932 os baha'is que eram sub-oficiais foram rebaixados de postos, e os que eram oficiais, expulsos. O Ministro da Educacao proibe a impressao de literatura baha'i. Em 1934, escolas baha'is sao fechadas e em 1941, com o Sha'h Muhammad Reza no poder, nove membros de uma Assembleia Espiritual sao feitos prisioneiros. Em 1951, discipulos de Baha'u'llah sao acusados de conluio com os comunistas e, em 1955, quando o exercito ocupa edificios nos quais acontecia a Convencao da Comunidade Nacional Iraniana, o Ministro do Interior da ordens para a erradicacao total do que ele chamou de seita baha'i. Em 1978, muitos baha'is foram assassinados, queimados, torturados por todo territorio do Ira. "Em algumas localidades, os homens sao arrastados ate as mesquitas e ameacados de ver suas mulheres e filhos degolados diante de seus olhos se nao renegarem sua fe" (JOUVION; GOUVION, 1996, p.168). Tambem a Constituicaoe de 1979 e destrutiva para os baha'is ao decretar o afastamento total dos membros baha'is na vida iraniana. Os autores tambem declaram que em 1981, foram feitas 30 execucoes, e na maioria das vezes os baha'is eram tambem torturados.

O arquetipo de sombra projetada sobre os baha'is custou a vida e a liberdade de muitos. Segundo WALDMAN (2008), a exlusao dos desejos, dos afetos, das fantasias, e a absoluta exclusao do outro de si mesmo, leva ao nao reconhecimento das caracteristicas comuns, que conduz os seres humanos a solidarizarem-se uns com os outros.

A sombra negada em si e projetada nos outros, priva estes outros das epacialidades comuns e compartilhadas, priva-os em ultima instancia de qualquer tipo de espacialidades concretizada sobre a Terra. Aniquilar aquele no qual se projeta a dimensao do negado, da sombra, torna-se comportamento comum aplicado a diferentes etnias, o que inclui as religioes.

A interdicao e o controle espacial, com ancoragem no imaginario, vinculando o arquetipo do dominador sobre o dominado, causam uma clara distribuicao de papeis e de funcoes que definem as espacialidades vivenciadas por cada grupo.

Neste movimento tambem estao os arquetipos do feminino e do masculino, que recebem significacoes e interdicoes em decorrencia das interpretacoes que se estabelecem e que de certo modo, oficializam-se, nas diferentes culturas.

Conforme Alves (2010), as sociabilidades masculinas e as femininas foram diferenciadas culturalmente. As espacialidades masculinas de socializacao foram marcadas por jogos e diversao enquanto as femininas giravam em torno do espaco domestico. Aos homens destinava-se o espaco publico da aventura e as mulheres o espaco reservado do recato e do cuidado para com os filhos. O autor afirma que esta dicotomia relacional definiu papeis e espacialidades o que enrijeceu e naturalizou algumas identidades de genero.

Alves (2010) analisa que a construcao de espacos baseados nas diferencas entre os sexos, ancorou-se em determinantes biologicos que acabaram gerando significados culturais construidos.

Foi nesta perspectiva de dicotomias que as espacialidades femininas da Persia, no surgimento do Movimento Babi e Fe Baha'i, eram vivenciadas. Uma parcela pequena dos espacos era permitida as mulheres, inclusive o espaco religioso que estava sob os ditames masculinos.

A Fe Baha'i propoe algumas mudancas, estimulando as mulheres a vivenciarem novas espacialidades. A enfase inicial foi ampliar a participacao feminina no ambito educacional, proporcionando as mulheres o contato com o conhecimento cientifico e a possibilidade de tornarem-se profissionais.

Janet e Peter Khan (2003) afirmam que desde o comeco, as comunidades baha'is da Terra Santa se envolveram com o desenvolvimento da educacao de meninas e meninos. Com enfase constante no processo educativo, 'Abdu'l-Baha estabeleceu planos para a criacao de uma escola para meninas em Haifa (Israel) e por conta da forte oposicao este plano nao chegou a concretizar-se: mas criaram-se outras formas de facilitar a educacao de meninas. Inclusive algumas netas de 'Abdu'l-Baha receberam seu suporte a fim de conseguirem estudar em colegios em Beirute e no Cairo, e mais tarde na Inglaterra, ja nos primeiros anos do seculo vinte.

Por meio da educacao feminina novos arquetipos sao mobilizados, entre eles a possibilidade de surgirem heroinas baha'is que possuiam conhecimentos e eram tao letradas quanto os homens: inclusive com conhecimentos profundos sobre conceitos religiosos do proprio islamismo, como e o caso de Tahihrih--importante figura feminina da Fe Baha'i.

A inclusao da escolarizacao feminina, objetivada pelos baha'is, favoreceu a entrada das mulheres em novos dominios, o que possibilitou a emergencia da anima em um contexto geografico no qual o animus ocupava o centro da consciencia e a anima restavam espacialidades derivadas da projecao de sua sombra.

Conforme Jung (1976), o termo animus relaciona-se ao espirito e a razao, enquanto o termo anima relaciona-se ao Eros Materno. Assim, o arquetipo nominado animus representa a forca do Logos Paterno em oposicao a anima que representa o Eros Materno.

Possibilitar as meninas a vivencia de espacialidades voltadas a educacao significa permitir as mulheres a experiencia de totalidade no desenvolvimento de sua forca intelectual, representada pelo Logus: e permitir aos meninos a vivencia de relacionamentos, vinculos e percepcao de sensibilidades significa favorecerlhes a experiencia de totalidade no desenvolvimento de sua capacidade afetiva, integrando em si a forca do Eros Materno.

Do mesmo modo que a anima, assim tambem o animus tem um aspecto positivo. Sob a forma do pai expressam-se nao somente opinioes tradicionais como tambem aquilo que se chama "espirito" e de modo particular certas concepcoes filosoficas e religiosas universais, ou seja, aquela atitude que resulta de tais conviccoes. Assim o animus e tambem um "psicopompos", isto e, um intermediario entre a consciencia e o inconsciente, e uma personificacao do inconsciente. Da mesma forma que a anima se transforma em um Eros da consciencia, mediante a integracao, assim tambem o animus se transforma em um Logos; da mesma forma que a anima imprime uma relacao e uma polaridade na consciencia do homem, assim tambem o animus confere um carater meditativo, uma capacidade de reflexao e conhecimento a consciencia feminina. (JUNG, 1976, p.14).

As espacialidades para homens e mulheres se diversificam a partir do relacionamento positivo com os arquetipos anima e animus. A partir do que se estabelece nesta relacao, novas formas de acao no espaco sao possiveis, e tambem de simbolos arquetipicos originados desta matriz.

Arquetipos, como modelos antigos e compartilhados, sao tambem encontrados em figuras reais e a eles identificados, o que pode criar um entorno emocional que envolve aquela figura e a preenche com significados originados da figura primordial. Por exemplo: a mulher como heroina, pode muitas vezes ser encontrada em uma irma, mae, avo, amiga. Alem da pessoa real que ela e ou foi, sua propria historia assume tonalidades de coragem, enfrentamento, e de conquistas que acabam por fundir a imagem da pessoa de carne e osso com uma imagem arquetipica, o que resulta em grande carga emocional amalgamada a sua imagem real.

Como exemplo citamos a experiencia de um entrevistado, que chamaremos de Atom (12), e que nos conta a historia de sua avo, na qual podemos identificar os elementos arquetipicos da heroina e tambem da "Grande Mae". "A mulher nao so tras a vida ao ser humano, mas e a primeira educadora. O futuro ser e moldado pela mae, o que fizer tera diferenca enorme". Atom assim define a mulher no momento em que nos contava sobre sua avo, armena, figura esta que foi um grande referencial feminino religioso em sua vida.

Ao discorrer sobre a historia da avo e sobre a fe religiosa que via nela, se emociona visivelmente, deixando algumas lagrimas surgirem. Percebe-se que na imagem da avo surge a representacao arquetipica do feminino maternal e heroico.

Ele tambem conta que veio para o Brasil com tres anos "vim com meus avos, meus pais vieram um ano antes para ver sustento e moradia (...) Havia um pouco de cultura armena e baha'i em minha casa". Sua avo participou ativamente de sua criacao, ele estabeleceu vinculos afetivos muito profundos com ela.

Ela sofreu muito, conforme nos contou, foi para a Armenia quando o pais se desligava da Uniao Sovietica, passou por necessidades, e sentia muitas saudades de sua familia que ficara no Brasil. Atom ainda afirma que "ela estava com o coracao dilacerado de saudades da familia, mas uma pioneira de Baha'u'llah nao poderia abandonar seu posto. E gracas a ela, os armenios estavam comecando a aceitar a Fe".

Fica claro no discurso de Atom que sua avo representa muito mais do que uma pessoa afetivamente importante, pela proximidade familiar, mais do que isto, ela se torna o simbolo de uma mulher baha'i que enfrenta dificuldades por determinacao e completa entrega as suas crencas religiosas. Ela e representada, em seu discurso, envolta pela energia arquetipica da heroina. A heroina ou o heroi sao aqueles que conquistam vitorias, mas nao sem passar por dificuldades, aventuras, eles precisam superarem-se a si mesmos a fim de cumprir com um objetivo que os transcende.

Conforme Chevalier e Gheerbrant (2005, p. 488), o heroi "simboliza a uniao das forcas terrestres e celestes". Ao descrever a avo, Atom conta que mesmo com fortes dores na coluna ela tentava junto a embaixada da Armenia o visto para sua viagem: e nao conseguindo, entao orava: "Oh, Baha'u'llah quero tanto fazer isto e nao consigo". Neste ponto, novamente o entrevisto se emociona e diz "ela acabou conseguindo!". Evidencia-se neste caso a crenca em forcas divinas atuando a fim de que a heroina pudesse cumprir sua missao.

O entrevistado fala sobre diversas pessoas de sua familia, mas a energia afetiva mais condensada surge quando ele descreve a experiencia de sua avo. Ele a descreve como uma mulher religiosa e muito corajosa. Atom compara as atitudes de seu avo as atitudes de sua avo, quando chegaram ao Brasil: "Meu vo estava triste, aqui no Brasil, pois com a dificuldade da lingua nao poderia ensinar a fe, minha avo era mais arrojada, mesmo falando errado ela ensinava. Ele morreu e ela avancou na Fe, ela viveu ate uns oitenta anos".

Ele tambem comenta que ela, mesmo tendo pouco estudo, foi membro da Primeira Assembleia Nacional da Fe Baha'i no Ira, foi a unica em sua familia que participou de uma Assembleia deste porte. Encontramos neste relato mais um de seus feitos heroicos.

Desde cedo a menina, antes de tornar-se sua avo, ja declarava esta inclinacao extrovertida para a realizacao de seus objetivos. "Minha avo ficou orfa cedo e ficou em casa de um tio, eles eram pobres e disseram que ela trabalharia como empregada, pois eles nao tinham condicoes. Ela disse para eles '--eu vou estudar', eles responderam que nao tinham dinheiro e ela disse que limparia a escola para poder estudar. Assim aconteceu, ela foi faxineira da escola para pagar seus estudos".

Sem duvida, a admiracao deste homem por ela e as significacoes simbolicas oriundas desta admiracao lhe trazem a possibilidade de vivenciar as espacialidades femininas e de reconhecer sua importancia no contexto de sua vivencia intima e religiosa. Ele diz que "eu acho que a mulher foi dotada de grandes bencaos e a historia e cheia de legados que mulheres maravilhosas nos deram".

Aparece na fala de Atom uma prescricao da Fe Baha'i, que e o de apresentar a mulher como primeira educadora da humanidade. Encontramos esta afirmativa tambem em outras entrevistas. Como disse Yma, outra entrevistada, "a maternidade tras diferencas para as mulheres, elas tem mais preocupacao com a educacao espiritual das criancas".

Ao ser entrevistada Numa afirma, sobre a mulher, que "Ela tem mais contato e se responsabiliza pelo desenvolvimento de virtudes, desde quando a crianca esta em seu ventre e ela quem lanca as sementes de amor a Deus, desde quando a crianca esta em seu ventre ela transmite a veracidade, as virtudes, as bondades".

Assim as espacialidades femininas vao sendo desenhadas tendo como tonica o seu papel de educadora, e de mae. Ainda segundo Numa, a responsabilidade da mulher em relacao a educacao e maior porque ela ja foi mae. "Ela ja viu os estagios de maturidade do ser e ve na Fe Baha'i ferramentas e instrumentos que vao se adequar a estas necessidades".

Saadi, quando entrevistado, tambem relaciona algumas caracteristicas ditas femininas ao seu potencial de maternidade:

As mulheres obedecem a lei com perfeicao completa, mulheres sao mais cuidadosas, sao mais amorosas, elas tem coracao puro, mas algumas quando traidas por homens ficam revoltadas. Elas sao mais carinhosas, amorosas, sofisticadas em tudo que fazem. Se os homens ficassem gravidos, nao nasceria mais ninguem, eles nao iam querer passar pelo sofrimento. Eu e meu irmao ficamos religiosos por causa de minha mae. (SAADI, 2011).

Vemos que Saadi projeta a figura arquetipica feminina e a traduz na visao que tem das mulheres de modo geral. Sua vinculacao positiva com a mae pode favorecer sua vinculacao positiva com as mulheres: e com sua propria anima.

A figura arquetipica da Mae liga-se as experiencias de dedicacao e tambem de sacrificio, o que vincula dois arquetipos o da Heroina e da Mae: assim pode-se afirmar que a Mae e tambem uma Heroina, isto se tomarmos os aspectos luminosos desta imagem. Campbell (1990) demonstra a estreita relacao entre estes dois arquetipos, afirmando que a mae no momento do parto percorre o caminho da heroina, com a significacao oculta do entregar a sua propria vida em funcao de outra. Ela doa sua propria vida a fim de levar outra ao nascimento.

Entao, a heroina, a mae e a mulher sao representantes simbolicos entrelacados para a formacao de espacialidades femininas, e podem representar tambem a acao mais empatica, solidaria e de proximidade. Como disse a entrevistada Lucia de Fatima: "a mulher e maternal".

CONSIDERACOES FINAIS

As vivencias ligadas ao feminino relacionando-o a maternidade, estao no discurso da maioria dos entrevistados. O que resulta em uma compreensao de proximidade afetiva das mulheres com os outro: pois a proximidade desta com o filho que gera e total, e muitas vezes constitui-se num relacionamento tao intimo e intenso que encontra-se fora dos limites das experiencias masculinas.

Jung (1991b) tambem afirma que houve uma transformacao historica que se polarizou em uma consciencia masculina. Em certas religioes pre-cristas ja ocorre uma diferenciacao do masculino sob a forma especifica do pai-filho, transformacao que atinge seu significado maximo no Cristianismo. Se o inconsciente fosse apenas complementar teria acompanhado essa transformacao da consciencia, ressaltando as figuras de mae-filha, e o material necessario para isto ja se encontrava no mito de Demeter e Persefone. (JUNG, 1991b, p.35).

Deste modo, o autor mostra a funcao compensatoria do inconsciente, que nao significa complementaridade . Sabendo que a mae precede o mundo do pai e gera o filho, emergem os movimentos culturais que conduzem ao distanciamento para com ela. Os simbolos do sagrado feminino, deste modo, tornam-se velados.

Jung (1991b) relacionou, simbolicamente, o inconsciente ao feminino e o consciente ao masculino. O inconsciente e "o grande mar" do qual emerge a atividade consciente que tenta individualizar-se, certas vezes buscando compreender-se como livre das influencias daquele. A resistencia do consciente contra o inconsciente, bem como a depreciacao deste ultimo, e uma necessidade historica do desenvolvimento da consciencia, pois de outro modo ela nunca se teria diferenciado do inconsciente (JUNG, 1991b, p.60).

Entende-se o processo de diferenciacao do filho em relacao a mae, a fim de tornar-se um ser autonomo. Do mesmo modo, a consciencia cuja funcao e discriminar e separar distancia-se da realidade inconsciente a fim de adquirir autonomia. Jung (1991b, p.60) porem, afirma que "a consciencia do homem moderno distanciou-se demasiadamente da realidade do inconsciente".

Ao apresentar os arquetipos anima e animus, Jung (1990b) formula a possibilidade do self a partir da integracao entre a dinamica consciente e inconsciente, feminina e masculina.

Na dinamica da Fe Baha'i os arquetipos mobilizados e difundidos: de Mae, Heroina e Educadora, entre outros, possibilitam a formacao de espacialidades que resgatam a funcao feminina psiquica da anima na vivencia das pessoas e conforma espacialidades arquetipicas femininas no "Agrupamento Gralha Azul".

A mulher como Primeira Educadora, Grande Mae, Heroina tem tanto espaco na historia baha'i como o homem na vivencia dos arquetipos de Guia, Heroi e Pai. A possibilidade de resgate das imagens arquetipicas femininas ao lado das imagens arquetipicas masculinas propicia o surgimento de espacialidades de espiritualizacao de carater feminino e masculino. Mesmo que o objetivo seja a integracao entre os generos, a especificidade deles e resgatada na dinamica de afirmacao destas energias arquetipicas.

Recebido em 27/04/2012. Aceito em 26/11/2012.

REFERENCIAS

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Emerli Schlogl (1)

(1) Doutora pelo Programa de Pos-Graduacao em Geografia da Universidade Federal do Parana--UFPR e Mestre pelo Programa de Pos Graduacao em Educacao da Pontificia Universidade Catolica do Parana--PUC-PR, Curitiba, Parana, Brasil. emerlischlogl@hotmail.com

(2) Religiao de carater monoteista que surgiu no Ira, antiga Persia. A palavra Baha'i refere-se a religiao e tambem aos seus seguidores, termo de origem arabe que significa gloria ou esplendor.

(3) Bab, o precursor da Fe Baha'i que institui o movimento babi. A discipula em questao e Tahihi, tambem conhecida pelo nome de Qurratu'l-Ayn, iraniana, seguidora da Fe Baha'i e uma das mulheres mais famosas desta religiao.

(4) Titulo em arabe que significa "A Gloria de Deus". E a pessoa mais importante da Fe Baha'i, considerado como um profeta de Deus.

(5) Jung em 1921 escreveu a obra intitulada "Tipos Psiquicos", nela ele demonstra quatro funcoes psiquicas, a sensorial ligada as percepcoes pelas vias dos sentidos, a ligada ao conhecimento intelectual que diz respeito ao pensamento, aquela que avalia subjetivamente os fatos e a via inconsciente de percepcao que e a intuicao.

(6) No caso as funcoes se referem a estas tendencias psicologicas, aos tipos descritos por Jung.

(7) Jung (1990a) coloca que a palavra inconsciente nao foi uma invencao freudiana, este termo ja era conhecido anteriormente na filosofia alema. Kant e Leibniz tinham definicoes proprias para este termo. Jung afirma que para a filosofia alema o inconsciente e visto sob a perspectiva do movimento dinamico da psique, e apresentam aspectos desconhecidos para a instancia consciente da psique.

(8) Refere-se aos aspectos obscuros da personalidade, que na maioria das vezes sao relacionados a maldade.

(9) Heroi, tambem no que corresponde aos aspectos sombrios deste arquetipo.

(10) A mandala, conforme Jung (1990a) e um simbolo que traduz a unidade e a totalidade, e que coloca valores em uma escala articulada a partir daquele que ocupa a posicao central.

(11) A bioenergetica e uma das escolas de pensamento e pratica da psicologia somatica.

(12) Todos os entrevistados receberam nomes ficticios.
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Author:Schlogl, Emerli
Publication:Ra'e Ga
Date:Jan 1, 2013
Words:8205
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