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Feline gingivitis-stomatitis complex: a review/Complexo gengivite estomatite felina: revisao de literatura/Complejo gingivitis-estomatites felina: revision de la literatura.

INTRODUCAO

Na medicina felina as afeccoes inflamatorias da cavidade oral sao frequentes, sendo a gengivite-estomatite (GE) considerada a segunda causa mais frequente de enfermidade oral em gatos, superada apenas pela doenga periodontal (1). A GE tem-se mostrado cada vez mais frequente na rotina da clinica medica de felinos (2).

O Complexo Gengivite-Estomatite Felina (CGEF) e uma inflamacao oral cronica tambem conhecida por Estomatite Linfoplasmocitica, Gengivite-Estomatite LinfociticaPlasmocitica, Estomatite Ulcerativa Cronica, Gengivite Cronica, Estomatite Plasmocitica, Gengivite-Faringite Plasmocitaria, Estomatite Necrosante, Gengivoestomatite Cronica, Estomatite Felina Intratavel, dependendo da distribuicao das lesoes e de acordo com o aspecto histopatologico. E uma doenga comum caracterizada por inflamacao intensa da gengiva e mucosa oral. (3-8). O uso do termo gengivite-estomatite e recomendado quando se descreve uma inflamacao geral na gengiva e na cavidade oral (9, 10).

A inflamacao severa e cronica da gengiva, mucosa alveolar e regiao glosso-palatina, representa uma reacao exacerbada do organismo frente ao acumulo de placa bacteriana e de calculos dentarios da doenga periodontal (11). Desconhece-se a causa dessa sindrome, mas sugere-se a ocorrencia de uma estimulacao antigenica cronica (11). O calculo dentario, muitas vezes presente na cavidade oral de gatos com gengivite-estomatite, tem seu envolvimento referido na patogenia desta enfermidade (9). Suspeita-se que gatos portadores desta doenga desenvolvam uma resposta imunologica exacerbada a fatores desconhecidos, bacterias ou virus presentes na cavidade oral (2).

De acordo com Lyon (9), nao ha predisposicao racial, sexual ou etaria, contudo, segundo Gaskel e Gruffyd (4), em certas ragas como siames, abissinio, persa, himalaio e birmanes, que apresentam uma forma mais grave da afeccao, sugere-se uma possivel tendencia genetica.

Alteracoes no sistema imunologico do paciente podem modificar sua resposta permitindo que infeccoes oportunistas contribuam para a cronicidade do processo (9). O diagnostico e o tratamento representam um desafio para o clinico veterinario (11-13).

ETIOPATOGENIA

As lesoes inflamatorias cronicas que afetam a gengiva e a mucosa oral dos felinos domesticos iniciam-se, em geral, como gengivite e progridem para outras regioes da cavidade oral, podendo estender-se das margens gengivais para outras areas, atingindo a regiao do arco glossopalatino. Concomitante a estomatite, a doenga periodontal e lesoes de reabsorcao dentaria dos felinos (LRDF) podem estar presentes, contribuindo para a gravidade das lesoes (12).

A gengivite-estomatite cronica felina (GECF) e uma sindrome caracterizada por resposta inflamatoria focal ou difusa, cuja etiologia e muitas vezes desconhecida, porem aspectos multifatoriais tem sido incriminados, como virus, bacterias, reacao auto-imune, genetica, nutricao, ambiente e a domesticacao em geral (9).

O fator desencadeante e o processo fisiopatologico basico ainda nao foram descobertos e podem diferir em cada caso. A intensa proliferacao bacteriana, composta inicialmente por micro-organismos aerobios gram positivos, sem motilidade, e posteriormente por anaerobios gram negativos, com motilidade, levam a producao de hialuronidases e enzimas lisossomais que, em associacao ao grande fluxo de celulas inflamatorias, acabam por irritar os tecidos orais. Isto desencadeia uma reacao inflamatoria, caracterizada por edema, eritema e ulceracoes, dando inicio a gengivite e predispondo a formacao de calculo dentario. O calculo e composto por bacterias e outras substancias organicas, incorporadas a uma matriz inorganica composta principalmente por hidroxiapatita, calcio e fosforo (provenientes da saliva), originando uma placa mineralizada (11, 14).

As bacterias desempenham um papel claro na patogenia da gengivite cronica, uma vez que os animais respondem a tratamentos com antimicrobianos. Entretanto, ainda nao esta definido se este papel e mesmo etiologico ou trata-se de uma infeccao oportunista secundaria a outro processo envolvido (11). A resposta imunologica do organismo frente a placa bacteriana acarreta tanto uma gengivite quanto uma estomatite. Alem disso, diversos fatores supracitados podem estar associados a uma disfuncao da resposta imunologica (11, 12, 14).

Na gengivite os anticorpos produzidos pelos plasmocitos contra as toxinas bacterianas ativam o sistema complemento, atraindo celulas fagociticas que, por sua vez, lesam as membranas das celulas gengivais, resultando em aumento da permeabilidade vascular local e intensa retracao gengival (5, 6, 8, 9).

O aumento no nivel serico de imunoglobulinas, incluindo a [gamma]-globulina, confirma a resposta imunologica exacerbada (15). Estudos demostraram que a resposta inflamatoria e semelhante, independente da etiologia e que a infeccao secundaria por micro-organismos frequentemente conduz a um processo supurativo superficial, dificultando ainda mais a determinacao da causa primaria (12).

Segundo Harley, Gruffydd-Jones e Day (16), gatos com gengivite estomatite cronica tem maiores concentracoes sericas de imunoglobulina IgG, IgM e IgA, maiores concentracoes salivares de IgG e IgM, mas concentracoes significativamente menores de IgA. A importancia da IgA na cavidade oral esta relacionada a capacidade de neutralizacao de patogenos e toxinas, inibindo a aderencia e o crescimento de micro-organismos na mucosa oral ou dentes, contribuindo com o aumento do fator de defesa nao-especifico. Entretanto, nao esta claro se o comportamento das imunoglobulinas descrito acima pode ser considerado uma causa ou consequencia da doenga inflamatoria oral. O conhecimento do mecanismo imunologico envolvido na GE e importante a fim de se avaliar as consequencias da progressao da doenga quando houver qualquer supressao deste sistema. Nas doengas cronicas de origem metabolica ou endocrina o sistema imunologico podera estar suprimido, fazendo com que a progressao da gengivite para a doenga periodontal ocorra rapidamente, afetando tambem os animais jovens (9, 17).

As doengas sistemicas como as infeccoes causadas pelo virus da imunodeficiencia felina (FIV), virus da leucemia felina (FeLV), herpesvirus (FHV) e calicivirus (FCV), doengas imunomediadas e outros fatores tais como a dieta do animal e conformacao oral (ma oclusao ou desalinhamento dentario) podem contribuir para o desenvolvimento do CGEF, embora nao esteja estabelecida a relacao com estas doengas nem se possa afirmar, ate o presente momento, serem o fator desencadeante da estomatite cronica (11, 13).

O FCV e um patogeno comum do trato respiratorio superior dos felinos e esta relacionado com a doenga oral aguda e cronica, principalmente quando ha comprometimento clinico do arco glosso-palatino, embora a participacao deste virus no desenvolvimento da doenga nao esteja esclarecida (12). Pelo exame histologico da cavidade oral de animais infectados com o calicivirus, foi possivel descobrir que este virus se replica preferencialmente nas celulas do epitelio tonsilar superficial e mucosa da regiao adjacente, provavelmente como consequencia da funcao imune das tonsilas no organismo, agindo como uma "barreira" contra possiveis agentes infecciosos (9, 18).

Outro virus investigado, o FHV, esta associado a rinotraqueite dos felinos podendo causar ceratite e conjuntivite, faringite, estomatite, dermatite facial, aborto e mortalidade neonatal (7, 19). Em estudo realizado por Hennet (20) a prevalencia de gatos com estomatite caudal infectados pelo FCV e FHV, utilizando-se a tecnologia PCR, foi de 97% e 15%, respectivamente. Segundo este autor, a presenga do FCV foi significativamente correlacionada com a estomatite caudal, enquanto que o FHV nao apresentou correlacao, tanto nos gatos infectados como nos nao infectados pelo FCV (20).

Em outro estudo, 88% dos gatos com a doenga foram positivos tanto para FCV quanto para FHV e nenhum dos animais atendidos foi negativo para ambos. A infeccao concomitante foi mais comum em animais com gengivite estomatite cronica do que em animais que apresentaram somente doenga periodontal. Entretanto, nao foi comprovada nenhuma relacao entre esses virus e o fator desencadeante do processo inflamatorio (12).

Os gatos podem desenvolver diversas doengas se infectados pelo FIV, um retrovirus pertencente a subfamilia dos Lentivirus mundialmente disseminado na populacao felina. Dentre as consequencias mais comuns da infeccao pelo FIV esta a inflamacao gengival cronica. Cerca de 50 a 80% dos gatos infectados pelo FIV apresentam gengivite cronica podendo, ou nao, desenvolver outros sinais da doenga (12, 20).

Segundo Wolf (21), os virus da leucemia (FeLV) e imunodeficiencia felinas (FIV) nao sao significantemente associados com a gengivite-estomatite linfoplasmocitica, podendo-se encontrar animais com gengivite cronica que sejam negativos para a infeccao por FIV (6). O virus da leucemia e da imunodeficiencia felinas causam imunosupressao, favorecendo o aparecimento de infeccoes oportunistas e aumentando a gravidade das lesoes na cavidade oral dos animais com CGEF (2). Apesar das controversias sobre a correlacao da doenga com esses virus, os testes diagnosticos para FIV e FeLV devem ser realizados em qualquer gato com estomatite ou periodontopatia nao responsiva, ou em animais que apresentem alteracao no desenvolvimento com lesao periodontal concomitante (6, 21, 22).

A patogenia do CGEF esta intimamente relacionada a um componente imunomediado (23). A inflamacao gengival e ocasionada pela resposta do hospedeiro a continua exposicao a um antigeno bacteriano e aos efeitos diretos produzido pelas bacterias causadoras da placa dental. A inflamacao periodontal resulta do desequilibrio entre a formacao da placa bacteriana e a resposta imunologica do hospedeiro. Esse desequilibrio ocorre quando ha alteracao da microbiota da cavidade oral ou quando o nivel de imunidade individual e afetado por fatores ambientais. A formacao de placas bacterianas e, portanto, a causa mais frequente da doenga periodontal cronica. Quando o mecanismo de defesa do hospedeiro e ativado, o objetivo e a localizacao e destruicao do antigeno, entretanto, o tecido do proprio hospedeiro pode tambem ser destruido durante o processo inflamatorio (9).

Na mucosa oral higida, sao encontradas predominantemente citocinas oriundas do linfocito T-helper 1, devido a uma menor resposta a invasao bacteriana da microbiota residente na cavidade oral saudavel. Contudo, em gatos com CGEF, cortes histologicos e imunoistoquimica demonstraram a presenga tanto de linfocitos T-helper 1 quanto 2 (23). Nenhum agente etiologico especifico foi comprovado como desencadeador da resposta imune. Uma das hipoteses na etiopatogenia da doenga e a de um defeito imunologico do hospedeiro, que promove uma resposta exacerbada e a autodestruicao dos tecidos orais envolvidos no processo inflamatorio (2). Muitos gatos com GE apresentam diminuicao da inflamacao e melhora sintomatica quando submetidos a um tratamento imunossupressor, reforgando o carater imunomediado da doenga (2).

A identificacao do papel das citocinas na patogenia da afeccao propiciou grandes perspectivas para o desenvolvimento de novas estrategias terapeuticas, incluindo a manipulacao, expressao ou a atividade de citocinas especificas in vivo (16).

As desordens nutricionais tambem contribuem para doenga oral (9). A alergia alimentar e ocasionalmente implicada na etiopatogenia do CGE, sendo nos seres humanos associada ao consumo de alguns aditivos alimentares ou a deficiencias de certos micronutrientes. Ja nos gatos, atribuiu-se a uma resposta antigenica a algumas proteinas da dieta (1).

Pesquisas recentes tem apontado a presenga da Bartonella spp, como um fator associado ou causador do CGEF (21, 24). A Bartonella henselae provoca a estomatite linfoplasmocitica em felinos, e a sua identificacao por um teste sorologico recem introduzido no mercado norte-americano (FeBart[R] Test, National Veterinay, Franklin Lakes, NJ, EUA) sugere que alguns pacientes com estomatite estejam infectados com este agente (6, 21, 25).

Existem evidencias de que as ragas asiaticas sejam mais comumente afetadas pelo CGEF, indicando uma provavel predisposicao genetica. Em humanos, como nos felinos, existe um fator hereditario para o desenvolvimento de estomatite, conhecido por "estomatite aftosa recorrente" (EAR) (26). Independente da raga, a idade media do aparecimento das lesoes e por volta dos oito anos, atingindo tambem animais entre tres e 15 anos (11, 13).

Ha quatro graus de classificacao para a gengivite dos felinos, baseia-se na intensidade e nos tipos de lesoes na cavidade oral. De acordo com Waters et al. (27), os graus podem ser divididos em: zero (0) ausencia de gengivite; (I) gengivite leve, hiperemia gengival discreta; (II) gengivite moderada, hiperemia evidente, ausencia de ulceracao; (III) gengivite grave hiperemia evidente, hiperplasia e/ou ulceracao; (IV) gengivite muito grave, hiperemia bastante evidente, hiperplasia e/ou ulceracao gengival, tecidos gengivais friaveis.

SINAIS CLINICOS

Os sinais clinicos mais frequentes da gengivite-estomatite incluem inapetencia, anorexia, disfagia, halitose, sialorreia com estrias de sangue, dor intensa, perda de peso, pelagem sem brilho e desidratacao (1, 2, 6, 13). Os animais podem ser assintomaticos, sendo a deteccao das lesoes orais e evidencias de linfadenopatia submandibular, encontradas somente durante o exame fisico (22). Outras manifestacoes clinicas sao dificuldade de preensao dos alimentos, mudanga na preferencia alimentar (racao seca para alimentos umidos), e exteriorizacao da lingua, provavelmente pelo crescimento tecidual na regiao das fauces (2, 22). As manifestacoes clinicas estao diretamente relacionadas com o processo de inflamacao difusa ulcero-proliferativa da mucosa alveolar, jugal, lingual e/ou do arco glosso-palatino. A saliva, na maioria dos gatos com estomatite, apresenta-se espessada e em fios (1, 11, 28).

Com frequencia, os gatos acometidos apresentam dor pronunciada e podem tornar-se relutantes e agressivos durante a abertura e exame da cavidade oral (6). No exame fisico, pode-se observar gengivite, estomatite e possivelmente palatite, glossite, faringite, faucite bilateral, ulceracoes linguais e palatinas, alem de linfadenopatia mandibular. A inflamacao oral e frequentemente extensa e os tecidos afetados encontram-se tipicamente ulcerados, proliferativos e hiperemicos (1, 28, 29).

As alteracoes normalmente coexistem com reabsorcao odontoclastica dos felinos (LROF), onde os animais acometidos apresentam lesoes de reabsorcao dental, clinica e radiograficamente, representadas por areas de ausencia de substancia dental. A LROF e resultante da atividade odontoclastica, a qual e estimulada pelas citotocinas liberadas normalmente em areas gengivais inflamadas, as quais sao induzidas pela presenga de elementos que constituem a placa bacteriana (11, 13, 29). Outras causas de inflamacao oral incluem gengivite uremica, complexo granuloma eosinofilico, alergia alimentar, carcinomas de celulas escamosas, reacao a corpos estranhos, e doengas auto-imunes, como o penfigo vulgar e o lupus eritematoso sistemico (9).

DIAGNOSTICO

Uma anamnese detalhada e fundamental para o diagnostico definitivo e deve incluir informacoes sobre a idade, tipo de alimentacao recebida, modo de vida do animal, evolucao do processo, duracao dos sintomas, medicacao utilizada e tratamentos previamente realizados assim como os resultados obtidos. O exame fisico da cavidade oral, na maioria das vezes, e suficiente para fechar o diagnostico. Entretanto, biopsia e exame histopatologico das lesoes inflamatorias devem ser realizados, alem de exames laboratoriais de triagem como hemograma, perfis renal e hepatico (7).

Frequentemente, os exames histopatologicos exibem hiperplasia do epitelio oral com ulceracoes profundas e, abaixo um infiltrado plasmo-linfocitico, infiltracao de macrofagos e neutrofilos polimorfonucleares na submucosa e celulas inflamatorias presentes na mucosa (11, 20).

Os testes sorologicos (ELISA--Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay) ou moleculares (PCR--Polymerase Chain Reaction) para FIV e FeLV, FCV e FHV sao indicados, a fim de se obter o prognostico da doenga quanto a possiveis recidivas e o grau de severidade das lesoes (9, 20).

O diagnostico diferencial inclui: imunossupressao associada ao FeLV, apresentacoes atipicas do granuloma eosinofilico, diabetes melitus, doenga periodontal secundaria ao hipotireoidismo, penfigo vulgar, hiperplasia gengival primaria grave, neoplasias como carcinoma de celulas escamosas e outras doengas de carater auto-imune (1, 2).

As neoplasias muitas vezes sao acompanhadas de inflamacao, mas nao constituem, por si so, doenga inflamatoria, todavia, o carcinoma, o fibrossarcoma e o melanoma podem apresentar lesoes do tipo proliferativas, ulcerativas ou ulcero-proliferativas, mimetizando as lesoes causadas por agentes infecciosos ou vice-versa. Embora a localizacao da maioria das neoplasias orais seja unilateral, diferente do que acontece no caso de CGEF, a realizacao de biopsia e exame histopatologico deve fazer parte da rotina cirurgica (7).

TRATAMENTO

O tratamento dessa afeccao e complexo, sendo empregadas varias medidas terapeuticas (2). Nao existe ate o momento nenhum tratamento eficaz para CGEF. Varios protocolos terapeuticos sao descritos na literatura, como abordagem medica, cirurgica ou a combinacao de ambas (1, 11). Uma das caracteristicas da estomatite felina e que, mesmo tida como nao responsiva ao tratamento e, em consequencia, frustrante, a afeccao permanece limitada a cavidade oral (exceto nos gatos FIV e FeLV positivos) (6).

O envolvimento e disposicao do proprietario sao imprescindiveis para o sucesso terapeutico, devendo-se informar ao mesmo sobre o carater cronico desta afeccao e das diversas medidas terapeuticas, esclarecendo-o da possibilidade de refratariedade ao tratamento (1).

Todos os gatos com doenga periodontal devem ser frequentemente submetidos a profilaxia dentaria incluindo extracao dos dentes com retracao gengival (13, 22, 30), mobilidade, bolsa periodontal e exposicao de furca (13), pois a doenga periodontal pode causar CGEF ou contribuir para sua ocorrencia. O exame radiografico intra-oral deve ser realizado sempre que possivel, para diagnosticar areas de reabsorcao ossea alveolar, presenga de fragmentos de raiz ou lesoes de reabsorcao dentaria. Nestas condicoes, estes dentes deverao ser extraidos por contribuirem com a cronicidade da afeccao, ja que a doenga periodontal promove uma maior inflamacao devido ao processo infeccioso (1, 7, 9).

A antibioticoterapia deve sempre ser associada a extracao dentaria devido ao provavel envolvimento bacteriano na etiologia da gengivite estomatite (6). Os antibioticos mais eficazes sao a clindamicina, a associacao de metronidazol com espiramicina, amoxicilina com acido clavulanico, a doxiciclina ou a enrofloxacina (1, 9). Estas medidas terapeuticas estao indicadas em casos moderados, mas os resultados, embora satisfatorios, sao frequentemente transitorios. A associacao de antibioticos como a enrofloxacina (5,0 mg/kg por via oral, a cada 12 horas) e metronidazol (15,0 mg/kg por via oral, a cada 12 horas) apresenta sinergismo e tem mostrado resultados positivos em longo prazo (9).

Nos casos de recorrencia de infeccao dentro de 30 dias apos a suspensao do tratamento antimicrobiano, a pulsoterapia pode ser efetiva. A meta e a prevencao da colonizacao bacteriana, primeiro passo da infeccao. O antimicrobiano de escolha e administrado em dosagem normal durante tres a quatro dias, seguidos por uma a duas semanas de intervalo e novo tratamento na semana seguinte. E crucial que a infeccao ativa nao esteja presente e que nao exista outro fator envolvido na recorrencia da infeccao, para evitar a resistencia ao antibiotico e uma nova infeccao. Cremes antimicrobianos orais contendo gluconato de clorexidina tambem sao beneficos. A melhora clinica e relatada pela diminuicao da resistencia das bacterias orais e a possibilidade de uniao da raiz nervosa ao epitelio (9).

Em gatos com exodontia parcial e recomendavel o tratamento diario topico com clorexidina 0,12% a fim de prevenir a formacao de uma nova placa bacteriana (31). Apesar da profilaxia realizada pela escovacao diaria ser importante para o sucesso da terapia, sabe-se que diferente dos caes com periodontite, e dificil sua implementacao devido ao comportamento pouco cooperativo dos gatos, ainda mais exacerbado nos casos de estomatite (2). A abordagem cirurgica consiste essencialmente na extracao de todos os dentes molares e pre-molares, existindo o risco de perpetuacao do processo inflamatorio caso haja retencao de algum fragmento da raiz no osso alveolar (1).

Apesar da extracao completa ser um tratamento inespecifico, tem demonstrado sucesso em 80% dos casos por cerca de dois anos (1). Avaliando-se a resposta a extracao, cerca de 60% dos gatos tiveram completa remissao da doenga clinica e 20% tiveram remissao suave nao requerendo tratamento. Dos 20% restantes, 13% ainda necessitaram de tratamento medicamentoso e 7% nao foram responsivos a cirurgia ou a administracao de qualquer medicamento (9). Estes casos podem permanecer em estado controlavel, assintomatico, embora as lesoes estejam clinicamente presentes (1, 2, 13, 29).

Os antiinflamatorios esteroides sao beneficos em 70% a 80 % dos casos (22), mas sua utilizacao no tratamento do CGEF e controversa. Como diversos virus podem estar envolvidos na etiologia, a administracao favoreceria a progressao da infeccao. Por outro lado, devido a presenga de um componente imunomediado, a diminuicao da resposta do hospedeiro diante do estimulo antigenico seria benefica, portanto, a utilizacao de corticosteroide deve ser cautelosa (1). No tratamento com corticosteroide utiliza-se prednisolona por via oral ou esteroides de deposito (metil-prednisolona), por via subcutanea (6, 13, 22). Se houver algum sucesso inicial e depois recorrencia, pode-se repetir o tratamento antiinflamatorio (6). Frequentemente ha necessidade de tratamento por periodo indefinido (22). Caso haja a necessidade de utilizacao continua ou de esteroides de deposito apos quatro a seis meses, deve-se considerar a necessidade de extracao dentaria em toda a boca, visto que o uso cronico de acetato de metil-presnisolona pode resultar em diabetes melitus (6).

O unico tratamento consistentemente bem sucedido de estomatite e a extracao extensa de todos os dentes pre-molares e molares, localizados na regiao circunscrita as lesoes, ou de todos os dentes da cavidade oral, sendo que as lesoes podem levar meses para desaparecer (6, 9). A grande vantagem da extracao extensa e que nao se exige tratamento medico adicional na maioria dos casos e nao ha, tampouco, necessidade de higiene oral diaria. Os gatos domesticos convivem bem sem os dentes, sendo que alguns ainda preferem ingerir racao seca apos a extracao dentaria total (6).

A forma recombinante do interferon-alfa humano foi inicialmente utilizada em seres humanos e tem sido usado com sucesso na medicina veterinaria no tratamento de infeccoes virais como FIV, FeLV, Calicivirus, Herpervirus e Peritonite infecciosa felina, revelando-se bastante promissora no tratamento do CGEF, nao so devido a sua acao anti-viral, mas tambem imunomoduladora (1, 24). O medicamento nao e um agente viricida, mas pode ser utilizado na estimulacao do sistema imune do gato, resultando em melhora clinica e melhor qualidade de vida (32). O uso do inteferon-alfa diariamente e por longo periodo vem demonstrando bons resultados (13), com relatos ineditos de melhora. A dose de 30 UI por via oral e utilizada diariamente (22) ou a cada semana alternada (32). O tratamento deve ser feito durante toda a vida do animal, com avaliacoes trimestrais ou semestrais (1, 33).

A crisoterapia (sais de ouro) e utilizada em medicina para tratamento de certos tipos de tumores. Estudos indicam que a eficacia da terapeutica com sais de ouro nao e superior a utilizacao de corticosteroides, antibioticos e higiene oral. Administra-se aurotioglicose ou tiomalato sodico de ouro uma vez por semana durante 16 a 20 semanas, ate que se observe uma resposta, entao a dose e reduzida para intervalos de 14 dias durante dois meses e depois mensalmente durante oito meses (22). Esta terapia deve ser utilizada com cautela, pois existem alguns efeitos colaterais como insuficiencia renal, trombocitopenia e pancitopenia. Assim, durante o tratamento em animais, deve-se realizar exames de rotina como hemograma completo e exames bioquimicos (22).

A ciclosporina e um farmaco imunossupressor que tem sido amplamente utilizado em gatos submetidos a transplante renal. Tem uma acao reversivel sobre os linfocitos T imunocompetentes e fator de crescimento dos linfocitos. Os riscos de toxicidade aumentam com sua utilizacao prolongada e com o aumento dos niveis sanguineos da ciclosporina (34). Os efeitos adversos verificados em gatos ocorrem sobretudo quando a administracao diaria ultrapassa 15mg/kg, e incluem o aparecimento de diarreia e outros sintomas gastrointestinais, alteracoes linfo e mieloproliferativas, infeccoes secundarias devidas a imunossupressao e ainda alteracoes hepatica e renal (1).

Sugere-se a utilizacao local de ciclosporina sob a forma de pomada a 0,5%, aplicada na gengiva ou nos labios, ou como comprimidos (3mg/kg duas vezes ao dia), por no maximo tres meses, ou ate a resolucao das lesoes (6). Em gatos a dose recomendada varia de 0,5-10 mg/kg a cada 12 horas, por via oral. O tratamento deve ser iniciado com uma dose de 0,5 a 2,5 mg/kg, duas vezes ao dia, de forma a se obter niveis sericos de 250 a 500 ng/mL, devendo ser monitorizados 48 horas apos o inicio do tratamento e depois a intervalos regulares (1).

A azatioprina tambem pode ser utilizada e quando em associacao com prednisona ou prednisolona, auxilia na reducao da dosagem destas. Como e um potente farmaco supressor de medula ossea, a contagem eritrocitaria deve ser periodicamente monitorada (9).

A pentoxifilina tem sido descrita no tratamento da gengivite estomatite em caes pela capacidade de reducao dos efeitos endotoxicos negativos dos mediadores de citocinas. A irritacao gastrointestinal e um efeito colateral frequente (9). Em felinos, a dosagem e de 100 mg por via oral, a cada 12 horas (21).

A alteracao dietetica associada a outros protocolos pode contribuir para a melhora do paciente. Dietas caseiras e comerciais que minimizem a formacao de calculos dentarios e que sejam simultaneamente hipoalergenicas podem ser escolhidas. A suplementacao da dieta com antioxidantes, como vitamina A, C, e E, e minerais como Zinco, apresenta um efeito benefico sobre a integridade da mucosa oral e pode contribuir para uma evolucao mais favoravel da GEEF (1).

A termoablacao a laser e outra opcao para a citoreducao da proliferacao da mucosa oral, formando crostas no tecido (1, 9, 34). Porem, nao existem resultados bem documentados para demonstrar que esta terapia e melhor do que a extracao de tartaro e o tratamento medico (6). A remocao do tecido proliferativo com laser reduz antigenos teciduais e a area disponivel para adesao e multiplicacao bacteriana, podendo ajudar no controle da doenga (2).

CONSIDERALES FINAIS

O atendimento a felinos no Brasil vem crescendo consideravelmente nos ultimos anos. Sendo assim, o medico veterinario deve estar atento as afeccoes mais frequentes que acometem essa especie. Assim como outras doengas especificas dos felinos, o complexo gengivite-estomatite e uma doenga extremamente complexa, sem etiologia definida, e sem tratamento eficaz e definitivo. Portanto, se torna uma enfermidade frustrante tanto para o clinico, quanto para o proprietario do animal. A determinacao da causa e a cura do CGEF ainda sao um desafio

O proprietario deve ser conscientizado do seu papel na prevencao e no tratamento do CGEF, das dificuldades do tratamento e da ocorrencia de recidivas.

De modo geral, o tratamento que exibe melhor resultado e a exodontia, acompanhada de tratamento periodontal dos dentes remanescentes. Nos casos refratarios, pode-se obter o controle dos sinais clinicos pelo uso de medicamentos imune-estimulantes ou supressores e a realizacao da exodontia radical. A identificacao precoce da enfermidade ainda e a melhor forma de se se estabelecer a melhora da qualidade de vida do paciente.

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Kelly Sanches Matilde [1] Maria Lucia Gomes Lourengo [2] Fabiola Soares Zahn [3] Luiz Henrique de Araujo Machado [4]

[1] Residente do Depto. de Clinica Veterinaria--FMVZ-UNESP-Botucatu, Distrito de Rubiao Jr. S/N. Botucatu--SP--Brasil, CEP 18618-000, Tel: (14) 38116336, E-mail: ksm_vet@hotmail.com

[2] Prof. Ass. Dr. do Depto. de Clinica Veterinaria--FMVZ--UNESP--Botucatu, Distrito de Rubiao Jr. S/N. Botucatu--SP Brasil, CEP 18618-000, (14) 38802044, mege@uol.com.br.

[3] Prof. Substituta do Depto. de Reproducao Animal e Radiologia Veterinaria--FMVZ--UNESP--Botucatu, Distrito de Rubiao Jr. S/N. Botucatu--SP--Brasil, CEP 18618-000, (14) 38802237, fabiola@fmvz.unesp.br

[4] Prof. Ass. Dr._do Depto. de Clinica Veterinaria--FMVZ--UNESP--Botucatu, Distrito de Rubiao Jr. S/N. Botucatu--SP Brasil, CEP 18618-000, (14) 38802043, henrique@fmvz.unesp.br

Recebido em: 18/11/10

Aceito em: 22/05/12
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Author:Matilde, Kelly Sanches; Lourengo, Maria Lucia Gomes; Zahn, Fabiola Soares; de Araujo Machado, Luiz H
Publication:Veterinaria e Zootecnia
Date:Jun 1, 2013
Words:5131
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