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Father's Experience of Pregnancy in the Context of Assisted Reproduction/A Experiencia Paterna da Gestacao no Contexto da Reproducao Assistida.

Tornar-se pai (a) e um processo complexo que envolve desejos, sentimentos e motivacoes, alem de ser uma das tarefas desenvolvimentais cruciais do homem e um referencial identificatorio para ele (Calero & Santana, 2006; Farinati, Rigoni, & Muller, 2006; Gannon, Glover, & Abel, 2004; Ribeiro, 2004). E plausivel se supor que esse processo seja ainda mais complexo em contextos de infertilidade, e em tratamentos que envolvem Tecnicas de Reproducao Assistida--TRA.

Freud (1925/1996) destacou que tanto a paternidade quanto o desejo de ter filhos comecam a ser construidos na infancia, especialmente com os desdobramentos do complexo de Edipo e dos processos identificatorios. No caso do menino, a identificacao com o pai e sua escolha como objeto influenciariam a sua constituicao psiquica, bem como os relacionamentos amorosos da vida adulta. Outro aspecto importante em relacao a esse desejo refere-se a possibilidade de gratificacao narcisica e a ilusao de alcancar a imortalidade do ego favorecidas pelo nascimento de um filho (Freud, 1914/1996).

A literatura contemporanea tambem aponta que se tornar pai e/ou mae e um processo complexo que implica niveis conscientes e inconscientes do funcionamento mental (Houzel, 2004). A parentalidade, segundo o autor, estende-se para alem do conceito de genitor, e envolveria o exercicio, a experiencia e a pratica. O exercicio refere-se a questao juridica, aos lacos de parentesco que se estabelecem e aos direitos e deveres que se agregam a eles. Ja a experiencia contempla a subjetividade decorrente do fato de ser pai e/ou mae, tanto no nivel consciente quanto inconsciente. Por fim, a pratica diz respeito as atividades cotidianas e aos cuidados parentais tanto fisicos quanto psiquicos dos genitores com seu bebe.

Estudos com foco na transicao para a paternidade ainda sao recentes, mesmo envolvendo gestacao espontanea e nenhum foi encontrado especificamente no contexto das TRA. Embora se perceba um crescimento de pesquisas na area, os estudos sobre paternidade sao ainda pouco frequentes e pouco investigam a paternidade em diferentes configuracoes (Souza & Benetti, 2009; Vieira et al., 2014). Alguns estudos (Henn & Piccinini, 2010; Silva & Piccinini, 2007), apontam que, embora os pais se envolvam e participem ativamente na vida dos seus filhos, eles gostariam de se envolver ainda mais, sendo que o trabalho aparece como um dificultador ao reduzir o tempo que podem permanecer junto aos filhos. Por outro lado, apesar dessa crescente participacao dos pais na vida do filho, o estudo de Krob, Piccinini e Silva (2009) encontrou sentimentos de exclusao por parte deles, tanto na gestacao como especialmente apos o nascimento dos filhos.

Para alguns pais, o periodo gestacional constitui-se no mais estressante da transicao para a paternidade, com elevacao dos sintomas de ansiedade, depressao e raiva (Condon, Boyce, & Corkindale, 2004). Por exemplo, estudo de Bornholdt, Wagner e Staudt (2007) revelou que, embora os pais demonstrassem envolvimento nos cuidados com a esposa e com a formacao do vinculo com o bebe durante a gestacao, eles encontraram que a questao financeira era a principal preocupacao de alguns pais no que se refere ao exercicio da paternidade. Outro estudo realizado com pais na gestacao (Piccinini, Silva, Goncalves, Lopes, & Tudge, 2004) tambem revelou que muitos estavam envolvidos de diversas maneiras (acompanhando nas ecografias e consultas do pre-natal, dando apoio emocional e material, envolvendose nos preparativos para a chegado do bebe), mostrandose emocionalmente conectados a gestante e ao bebe. No entanto, alguns pais ainda encontravam dificuldades quanto ao envolvimento com seu filho, parecendo nao o perceber como real e apresentando uma baixa ligacao emocional com a gestacao. Embora esses dados apontem para indicios de uma modificacao quanto a paternidade ja no periodo da gestacao, revelam tambem a coexistencia do modelo tradicional de pai, como provedor, coexistindo com o modelo de um "novo pai", conforme destacado por alguns autores (Dessen, 2010; Fleck & Wagner, 2003).

Sendo a paternidade uma construcao pessoal, social e cultural (Calero & Santana, 2006), permeada por desejos, expectativas e crencas, quando o projeto parental e impedido por questoes de infertilidade, podem surgir sentimentos de inferioridade, perda, frustracao, medo, vergonha, culpa, ansiedade, depressao, estigmatizacao, entre outros (Bernauer, 2009; Borlot & Trindade, 2004; Calero & Santana, 2006; Costa, 2008; Farinati et al., 2006; Straube, 2007). Desse modo, frente ao diagnostico de infertilidade, poderao surgir sentimentos de perda e de frustracao pessoal, influenciando nos processos identificatorios do ser homem e ser pai, uma vez que ter um filho representa no universo masculino sentimento de poder, de protecao, de constituicao de uma familia (Calero & Santana, 2006; Ribeiro, 2004). Ser infertil, portanto, diminuiria seu valor como homem, pois o mesmo nao seria capaz de constituir a familia desejada (individual e socialmente). Por exemplo, o estudo de Gannon et al. (2004), revelou que o homem infertil e visto pela midia inglesa como vulneravel e tomado por forcas fora do seu controle, sendo estigmatizado porque falhou em algo fundamental no que diz respeito a sua masculinidade.

Estudos brasileiros ressaltam que os homens apresentam maior dificuldade em aceitar o diagnostico de infertilidade do que as mulheres, o que pode estar relacionado a sentimentos de impotencia e ao que caracterizaria a masculinidade (Borlot & Trindade, 2004; Calixto, 2000; Tamanini, 2003) e tendem a responsabilizar as mulheres, mesmo quando a causa da infertilidade e masculina (Costa, 2008). Alem disso, segundo Hammarberg, Baker e Fisher (2010), os homens parecem ter dificuldade em falar sobre infertilidade com seus amigos ou pessoas proximas, ou de procurar um atendimento especializado. Entretanto, essas dificuldades psiquicas nao se restringem aos homens, como aponta Ribeiro (2004) ao destacar a infertilidade como uma ferida narcisica (Freud, 1914/1996), tanto para homens quanto para mulheres.

Frente a situacao de infertilidade, diversos casais recorrem as Tecnicas de Reproducao Assistida (TRA) como uma possibilidade de realizar o projeto parental. Durante o tratamento, periodos de esperanca e desesperanca se alternam e desencadeiam sofrimento emocional, que interfere na autoestima, nos planos, na vida financeira, por serem tratamentos muito caros, e no relacionamento do casal. Segundo Covington e Burns (2006), mesmo quando ha sucesso no tratamento e a gravidez e alcancada, o desgaste emocional e os efeitos colaterais causados pelo tratamento se mantem presentes por bastante tempo. As autoras referem que a gestacao nesse contexto difere da gestacao espontanea, envolvendo um gama de desafios que demandam ajustes psicologicos e fisicos. E considerada por alguns como um premio, sem preco, representando investimento emocional, de tempo e financeiro do casal.

Como ja destacado acima, nao foram encontrados estudos investigando a paternidade no contexto da reproducao assistida. Os estudos encontrados tendem a comparar homens e mulheres abordando os temas da infertilidade ou sucesso do tratamento (Braverman, Boxer, Corson, Coutifaris, & Hendrix, 1998; Gameiro et al., 2011). Alem disto, tendem a ser quantitativos e se detem em determinado aspecto da infertilidade ou da paternidade, mas de modo mais fragmentado, investigando algumas poucas variaveis. Percebe-se tambem uma escassez de estudos longitudinais e, dentre os encontrados, destaca-se o de Repokari et al. (2005), comparando casais ferteis e inferteis.

Investigando o apego pre-natal, o estudo de Hjelmstedt, Widstrom e Collins (2007) encontrou aspectos comuns em relacao aos padroes de apego pre-natal, tanto em concepcao espontanea quanto por reproducao assistida. Os autores identificaram aumento no apego tanto nos casais cuja gestante se submeteu as TRA, como naqueles com gravidez espontanea, e nao houve diferencas nos padroes de apego dos dois grupos estudados. Este estudo destaca-se por investigar o apego paterno, dificilmente abordado nas pesquisas, em especial na situacao de reproducao assistida.

Os casais com dificuldades para engravidar tem tido cada vez mais possibilidades de ter um filho, mas, segundo Alkolombre (2008), tem tambem um trabalho psiquico adicional na transicao para a parentalidade, que e o de serem pais de outra maneira, que nao pela gestacao espontanea. Com as TRA, as representacoes de procriacao e de familia comecam a se modificar, o que faz com que os marcos identificatorios tambem se modifiquem e, consequentemente, o tornar-se pai e a experiencia da paternidade. A autora apontou, ainda, que esse modo de concepcao implica uma revolucao da parentalidade (Alkolombre, 2011, novembro). Nesse sentido, Parke (2004) destacou que as novas tecnologias estao expandindo cada vez mais os modos como as pessoas podem se tornar pai e mae e que, no caso especifico da paternidade, ha ainda muitas questoes a serem investigadas.

Desse modo, considerando a relevancia da realizacao do desejo de se tornar pai e da importancia da paternidade no desenvolvimento emocional da crianca, bem como as especificidades da gestacao decorrente de TRA e a escassez de estudos sobre a parentalidade nessas situacoes, o presente estudo teve por objetivo investigar a experiencia paterna da gestacao nesse contexto.

Metodo

Participantes

Participaram deste estudo 13 pais residentes na regiao metropolitana de Porto Alegre, com idades entre 32 e 46 anos. Todos eram casados ou coabitavam com suas companheiras que estavam no terceiro trimestre gestacional e aguardavam seu primeiro filho, concebido por meio de tecnicas de reproducao assistida. Em relacao a escolaridade, os participantes tinham entre ensino fundamental completo (dois), medio completo (quatro), superior incompleto (um) e superior completo (seis). Quanto ao diagnostico de infertilidade, nove casos eram de infertilidade feminina, tres de infertilidade masculina e um de infertilidade mista. A tecnica utilizada pela maioria dos participantes foi fertilizacao in vitro (nove), e a inseminacao artificial (dois) e a doacao de gametas (dois) foram menos frequentes. Quanto ao numero de tentativas para engravidar, sete casais obtiveram sucesso na primeira tentativa, cinco, na segunda, e um na quinta tentativa. Com relacao a gestacao, 10 foram singulares e tres, multiplas.

Todos os participantes integram o projeto intitulado Transicao para a parentalidade e a relacao conjugal no contexto da reproducao assistida: da gestacao ao primeiro ano de vida do bebe ([REPASSI] Lopes, Piccinini, Dornelles, Silva, & Passos, 2007), que tem por objetivo investigar diversas questoes sobre a maternidade, paternidade e relacionamento conjugal no contexto da reproducao assistida. Esse projeto acompanhou 35 casais que conceberam por diferentes TRA. Foram realizadas diversas entrevistas em tres momentos distintos: na gestacao, 3 e 12 meses de vida do bebe. Todos os casais foram contatados por meio do Servico de Ginecologia e Obstetricia de um hospital publico de Porto Alegre, o qual possui um Setor de Reproducao Assistida. O REPASSi foi aprovado pelo CEP do referido hospital (no. 07/153).

Procedimentos e Instrumentos

A partir de um levantamento realizado pela equipe do hospital, todos os casais que haviam obtido sucesso no tratamento foram convidados para participar do Projeto REPASSI durante o 3 trimestre gestacional, sendo que o contato inicial foi realizado com as mulheres. Aquelas que aceitaram participar do estudo, foi solicitado que convidassem o companheiro para participar da pesquisa, sendo entao agendado um encontro, no qual assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nessa ocasiao foram realizadas entrevistas simultaneas com a mae e o pai, por duas pesquisadoras em locais diferentes. Para fins do presente estudo, foram consideradas somente as entrevistas realizadas com o pai, durante a gestacao de sua companheira. Seguindo os procedimentos do Projeto REPASSI, nessa fase os pais responderam a (1) Entrevista de Dados Demograficos do Casal (NUDIF, 1998a), composta por questoes sobre o estado civil, pessoas que vivem na mesma residencia, ocupacao, escolaridade, religiao e etnia, alem de informacoes para contato e, (2) Entrevista sobre a Gestacao e as Expectativas do Futuro Pai (NUDIF, 1998b), uma entrevista semiestruturada que investiga como o pai vivencia a gestacao da companheira, contemplando os sentimentos despertados nessa fase de transicao para a paternidade, a vivencia do dia a dia, sua percepcao sobre o(a) filho(a) e sobre as repercussoes das TRA na gestacao. Essa entrevista, com duracao aproximada de 1h30min, foi gravada na integra e, posteriormente, transcrita.

Resultados e Discussao

As respostas dos pais a Entrevista sobre a Gestacao e as Expectativas do Futuro Pai (NUDIF, 1998b) foram examinadas por meio da analise de conteudo qualitativa (Laville & Dione, 1999) buscando compreender a experiencia paterna da gestacao no contexto das TRA. Considerando-se o conteudo das entrevistas, dois dos autores do presente estudo analisaram e classificaram independentemente os relatos dos pais, agrupando-os em categorias tematicas: (a) Experiencia subjetiva do pai na gestacao; (b) Repercussoes do tratamento na experiencia da gestacao. Alem disso, subcategorias foram criadas dentro de cada categoria, conforme sera descrito abaixo. A seguir, serao apresentadas e discutidas as categorias e subcategorias emergentes, exemplificadas com verbalizacoes dos pais. Para facilitar a exposicao dos achados foi utilizada a seguinte descricao quanto ao numero de participantes que fizeram relatos classificados em cada categoria: apenas um/so dois/poucos pais (um a tres pais); varios pais (quatro a seis pais); maioria dos pais (sete a nove pais); e grande maioria/quase todos/todos (10 a 13). Ja a autoria das vinhetas sera identificada pela letra "P" seguida do numero do caso.

A discussao dos achados foi realizada levando-se em consideracao a literatura referente a construcao da paternidade na gestacao espontanea. Embora seria importante considerar a especificidade da paternidade no contexto da reproducao assistida, nao foram encontrados estudos sobre essa tematica, na gestacao (tanto na literatura nacional e internacional). Assim, o uso da literatura mais generica sobre paternidade, como o estudo de Piccinini et al. (2004), que investigou o envolvimento paterno na gestacao espontanea, teve por finalidade obter um parametro que norteasse as discussoes e, a partir dai, contribuir para a compreensao das especificidades presentes no contexto das TRA.

Experiencia Subjetiva do Pai na Gestacao

Esta categoria refere-se ao modo como os pais se envolveram emocionalmente com a gravidez, desde a confirmacao da mesma ate as questoes praticas do dia a dia. Para fins de analise, esta categoria foi desmembrada nas seguintes subcategorias: sentimentos despertados em relacao a noticia da gravidez; percepcao da gestacao; envolvimento no dia a dia; interacao do pai com o bebe.

Dentre os sentimentos despertados em relacao a noticia da gestacao, o sentimento de alegria foi relatado pela maioria dos participantes (oito), os quais referiram esse momento como "Foi a melhor coisa do mundo, e a melhor coisa do mundo!" (P1); "Quando a gente soube o resultado foi uma felicidade so" (P8). Entretanto, varios pais (seis) tambem associaram a alegria pela gestacao ao fracasso de tentativas anteriores, trazendo a tona lembrancas do desgaste emocional sofrido nesse periodo: "A alegria foi mutua. Apesar de na primeira tentativa nao ter dado, na Segunda ... foi muito bom" (P4); "Depois da quinta tentativa foi uma alegria pros dois. No mesmo tempo, perdemos o chao e alcancamos o ceu" (P13).

Sentimento de responsabilidade em relacao ao futuro filho tambem foi expresso por um dos participantes, como pode ser verificado no relato a seguir:

O sentimento maior que eu senti e de responsabilidade, a hora que vai nascer, vou colocar um filho no mundo, [...] claro que tem o sentimento de amor, varios sentimentos, mas o que eu mais senti talvez seja a responsabilidade de colocar uma pessoa no mundo e dar condicoes de subsistencia para essa pessoa. (P2)

Quanto a percepcao da gestacao, a maioria dos participantes (sete) a consideraram "Muito mais valorizada, investida, por toda a dificuldade" (P1); "A gente ve um resultado de um trabalho. De um investimento. Nao deixa de ser um investimento, ne?" (P5); "Por ter sido uma coisa que a gente teve que ir atras, eu acho que tem um sabor especial, ter que ser muito batalhado ... teve um processo bem diferenciado'". (P7). Entre esses pais, dois atribuiram esse grande investimento e valorizacao da gestacao ao tratamento para engravidar: "Mas e que teve um sacrificio a mais, teve um cuidado a mais ... isso so veio a fazer com que a gente curta mais e valorize mais a gestacao" (P3).

No presente estudo, varios pais (cinco) relataram diversas preocupacoes quanto a gestacao: "Tudo e tensao, preocupacao de qualquer coisa que aconteca com ela. Cuidando dela toda hora" (P4); "Eu digo tambem pra ela ter bastante cuidado [...] desde o inicio a gente tava com aquela preocupacao" (P12). Especialmente em relacao a percepcao sobre a gestacao gemelar: "Nao vou comparar tambem com uma gravidez normal, obviamente, natural, ne?" (P5); "[A gestacao] ficou uma coisa mais acompanhada, uma coisa mais tecnica, menos natural" (P6). Contudo, entre os participantes do estudo, dois pais relataram que o periodo gestacional estava sendo percebido como tranquilo, sem nenhum tipo de estresse ou dificuldade: "Ta sendo muito tranquilo, a gente nao ta tendo estresse nenhum. Ta sendo ate bom, parece que nao tem, parece que nao ta gravida, a real e essa" (P13).

Com relacao ao envolvimento no dia a dia da gestante, a grande maioria dos pais (12) relatou que participava e acompanhava a companheira as consultas e exames, tambem como uma forma de lhe dar apoio emocional nesse momento: "Acho que eu tenho ido quase em todas [as consultas]"; "Acho que todo [apoio a companheira], a gente esta sempre junto (P3); "Eu agora vejo que eu realmente to dando apoio pra ela, tudo" (P5). Entretanto, um dos pais referiu nao participar das consultas devido ao trabalho: "Nao, so nas eco [ecografias] eu vou, porque o meu trabalho exige muito la e eu nao tenho como ta toda hora saindo'" (P13). Ainda nesse sentido, outro pai acrescentou o suporte financeiro oferecido por ele, demonstrando, assim, a presenca de uma postura mais tradicional de pai provedor: "A parte de suporte financeiro e bem tranquilo, e suporte, vamos dizer, logistico da coisa" (P6).

Para outros, o envolvimento estendia-se a participacao em cursos: "Nosfizemos um curso de primeiros cuidados com o bebe, desde o banho, nutricao, esses cursos convencionais para casais" (P2); "Teve um curso de pre-natal tambem. E eu acompanhei tudo, desde o comeco" (P8). E tambem ainda a questionamentos acerca da gestacao: "A gente comeca a conversar com outras pessoas, que as esposas estao gravidas, enfim, e que ja passaram por isso, entao eu acho que esta sendo muito bom" (P3).

Contudo, varios pais (quatro) referiram tambem dificuldade em interagir com a companheira e corresponder as suas expectativas. Isolar-se foi a maneira encontrada por um dos participantes: "Talvez eu tenha um pouco de carencia em dar atencao. Eu tento acompanhar, mas talvez eu deixe a desejar um pouquinho. Me isolo no futebol. Eu fico mais quieto e isolado" (P1). O receio de se tornar um intruso entre a companheira e o bebe neste momento, foi destacado por um pai, como "momento dela", uma vez que "Ela nao me pede nada, entendeu, pelo menos no momento eu nao to enxergando dificuldade nenhuma nela [...] deixa, e o momento dela, nao vou ser eu que vou atrapalhar" (P13). Outro pai mencionou ter se acostumado com a gestacao, antes considerada novidade, sendo o tempo gestacional responsavel por esse sentimento: "A gente acostuma, esse prazo ai de nove meses que tem, porque a gente descobriu muito cedo" (P9).

Dois pais destacaram que, ja desde a gravidez, foram percebidas mudancas na vida do casal: "Ja comecou a mudar, e a hora que nascer em diante, e mais um membro na familia, tudo e diferente". (P9); "Cada dia tem uma novidade, a gente nunca consegue imaginar como vai ser, entao cada dia tem uma situacao diferente" (P3).

Cabe ressaltar tambem o carater transformador da experiencia subjetiva da paternidade, referida por varios pais no que diz respeito a se sentir pai: "Quando eu era mais novo eu nem pensava em ser pai, em ter filhos, coisa assim, mas depois que tu te acostuma com a ideia, tu ve que e uma coisa boa, a gente sente" (P7). Contudo, tres pais destacaram que "Parece que nao caiu a ficha ainda, sabe" (P12); "Eu ate nao estou, como e que eu vou te dizer? No auge do meu sentimento porque eu quero ver agora quando nascer mesmo" (P2), sugerindo que para eles e preciso ver o bebe para se sentir pai.

Destaca-se, ainda, que varios pais (quatro) perceberam-se ansiosos, especialmente frente a proximidade do nascimento do bebe: "Mas parece que agora esses dois meses a gente ja tem uma ansiedade maior. Parece que esses dois meses vao ser mais demorados do que esse tempo que ja passou" (P9); "Eu tenho canalizado a minha ansiedade um pouco em organizar a casa, organizar as coisas que tem que ser organizadas, mas mesmo assim a gente ta ansioso" (P6).

Sentimento de alegria presente no cotidiano da gestacao foi mencionado por varios participantes (cinco): "Sentimento de alegria por estar dando tudo certo ate agora, [...] esta sendo um momento magnifico para nos" (P2); "Pra mim ta sendo otimo, o nosso primeiro filho". (P12). Esse momento tambem e referido como emocionante, superando as expectativas dos pais: "E bem legal, nao tinha ideia, nao tinha nocao de como e que era, esta sendo bem emocionante mesmo"; "Eles se mexem, esta sendo muita coisa, e dificil de explicar, uma emocao muito, nem sabia" (P11).

Com relacao a interacao do pai com o bebe, essa foi manifestada de diversas formas. Varios pais (cinco) demonstraram interagir com seus bebes por meio do toque na barriga da companheira: "Dao muito chute, e muito emocionante. Eu boto a mao, de repente eles tao sentindo, claro. E a presenca do pai deles tambem ali" (P5); "Gosto quando chega de noite, dai eu falo com ele, ai parece que ele sente, conhece, que e o pai" (P10) Contudo, um dos pais apresentou dificuldade em interagir com o bebe: "Eu toco na barriga, eu tento sentir ela quando ela chuta, nao sou muito de conversar, nem com a barriga, o meu forte nao e aquela coisa de chegar perto, eu toco, eu seguro na barriga, converso, dou boa noite, mas nao como a gente ouve falar assim" (P1).

No que diz respeito a ecografia, destaca-se tanto a emocao vivenciada pela maioria dos pais (oito) durante esse exame, quanto a atribuicao de caracteristicas ao bebe: "Ah, e uma sensacao boa, que a gente fica tentando ver atraves da eco o detalhezinho 'e meu, e teu' [ri], na eco nao da pra ver, mas a gente ja imagina aquilo ali tudo, a gente ja olha e 'ah a testa e parecida com nao sei quem, o narizinho'" (P13).

A partir dos relatos acima, pode-se pensar que a experiencia desses pais em relacao a gestacao da companheira apresenta semelhancas e particularidades com a vivencia de pais cuja companheira engravidou de forma espontanea. Assim como no estudo desenvolvido por Piccinini et al. (2004) sobre o envolvimento paterno na gestacao espontanea, os participantes do presente estudo apresentaram sentimentos ambivalentes de alegria e preocupacao com a criacao de um filho, seu bem-estar e a possibilidade de lhe garantir subsistencia e protecao. Segundo Piccinini et al. (2004) e Cook, Jones, Dick e Singh (2005), apesar do crescente envolvimento demonstrado pelos pais no cuidado com os filhos, sobressai-se ainda, o papel de um pai provedor e menos um pai que expressa suas emocoes ou discute os sentimentos frente a paternidade.

Outra semelhanca entre os relatos dos pais do presente estudo e dos encontrados na literatura sobre pais de gestacao espontanea (Piccinini et al., 2004) e a preocupacao com a companheira e a necessidade de lhe dar apoio. Entretanto, verificou-se no presente estudo comportamentos de hipervigilancia, o que se assemelha aos resultados encontrados por Dornelles (2009), no qual, apos um periodo de infertilidade, os casais vivenciaram a gestacao com ansiedade e medo de perder o bebe, mesmo encontrando-se no terceiro trimestre de gestacao. Dessa forma, parece que nas gestacoes com auxilio das TRA, essas preocupacoes mostraram-se exacerbadas, talvez em decorrencia da necessidade da companheira e/ou deles proprios de se submeter a procedimentos dolorosos, caros e sem garantia de sucesso. Porem, nos tres casos de gemelaridade deste estudo (P5, P6 e P11), as preocupacoes paternas sao particularmente corroboradas pela realidade, uma vez que e sabido que esse tipo de gestacao traz riscos a mae e ao feto.

A literatura tem destacado a ansiedade associada a gestacao, especialmente para a mulher no terceiro trimestre (Brazelton & Cramer, 1992). Assim, e razoavel encontrar que essa ansiedade tambem esteja exacerbada nos relatos dos pais do presente estudo submetidos a TRA e, pode-se inclusive supor que ela ja estava mais alta nos semestres anteriores de gestacao, em funcao do desgastante processo de diagnostico e tratamento ate alcancar a gestacao.

Diferentemente de estudos com pais na gestacao espontanea (Piccinini et al., 2004) e mesmo com casais que conceberam por TRA (Braverman et al., 1998), no presente estudo, somente um numero restrito de pais relatou a gestacao como tranquila. Considerando as dificuldades para engravidar e as exigencias fisicas e emocionais de um tratamento via TRA, a aparente tranquilidade tambem pode estar refletindo uma defesa frente as questoes decorrentes da infertilidade e de todo o tratamento ate a confirmacao da gravidez. A esse respeito, Baddo (2012) buscou identificar os mecanismos de defesa utilizados por mulheres que engravidaram via TRA e destacou a utilizacao de diversos mecanismos de defesa na tentativa de minimizar a ansiedade desencadeada pelo processo.

Pode-se perceber nos relatos dos pais do presente estudo, o seu envolvimento no cotidiano como uma forma de preparar-se para assumir a paternidade, o que ja tem sido relatado em estudos com gestacao espontanea (Piccinini et al., 2004). Esse envolvimento pode ser um reflexo nao so do contexto especifico envolvendo a gestacao por meio de TRA, que requer planejamento intenso e envolvimento do casal, como pode estar refletindo o "novo pai", que participa ativamente da vida privada e do cuidado com os filhos (Fleck & Wagner, 2003), tanto no contexto de gestacao espontanea e, talvez mais ainda, envolvendo as TRA. Identifica-se aqui, portanto, o modelo de pai cada vez mais presente nas sociedades ocidentais mais desenvolvidas, que e corroborado pelos estudos relatados na literatura com gestacao espontanea (Bornholdt et al., 2007; Henn & Piccinini, 2010; Krob et al., 2009; Piccinini et al. 2004). Tais achados revelam o envolvimento dos pais tanto em questoes emocionais, procurando dar suporte a esposa, compreendendo seus medos e angustias, quanto no compartilhamento das tarefas domesticas e atendimento as suas necessidades. Embora esses achados reflitam contextos em que nao houve o desgaste e os medos presentes nas gestacoes envolvendo TRA, tambem neste contexto os pais mostraram-se emocionalmente disponiveis na gestacao. Assim, e plausivel se pensar que a gestacao da companheira possibilitou que os pais do presente estudo realizassem o desejo de se tornar pais e obtivessem, assim, a gratificacao narcisica da paternidade destacada por Freud (1914/1996), bem como colocassem em movimento os processos identificatorios com seus proprios pais (Freud, 1921/1996).

Os relatos dos pais do presente estudo revelaram que eles eram responsivos aos movimentos fetais, apesar de aparecer tambem algumas dificuldades nessa interacao, a semelhanca de pais de gestacoes espontanea (Piccinini et al., 2004). Essa interacao com o bebe e importante, pois por meio dela os pais podem personificar o filho, atribuindo-lhes caracteristicas, o que facilita a aproximacao entre pai e bebe (Brazelton & Cramer, 1992; Piccinini et al., 2004). Contribui para isso a ecografia, que possibilita a aproximacao entre pai e bebe, como ocorre tambem com a mae, uma vez que o mesmo e "visto", o que permite que se atribuam caracteristicas fisicas ao bebe, alem de permitir a confirmacao de que seu bebe e real (Draper, 2002).

Tambem apareceram no presente estudo, relatos de exclusao, o que sugere pensar que o periodo gestacional ainda e percebido como um assunto de mulheres, corroborando estudos que revelam que alguns pais nao se envolvem muito com a gestacao, especialmente com questoes de ordem afetiva (Piccinini et al., 2004). Isso pode ser tanto decorrente da cultura, como tambem de uma forma de defesa contra as angustias despertadas nesse periodo. Bornholdt et al. (2007) identificaram sentimentos de exclusao no relato de alguns pais na gestacao, o que foi justificado pelos participantes como decorrente das questoes de genero. No contexto da TRA, esses sentimentos de exclusao podem ser exacerbados pelo proprio contexto do tratamento. A maioria dos procedimentos durante o tratamento por TRA ocorre no corpo da mulher (ex. aplicacao de injecoes diarias de hormonio, ecografias frequentes, exames laboratoriais, dentre outros), que exigem a sua presenca e participacao ativa, mas raramente a do homem. Nesse cenario ja ocorre certa exclusao, inevitavel, dele. Ademais, a literatura aponta que, mesmo na gestacao espontanea, e a partir da informacao da companheira sobre os movimentos do bebe, bem como da visualizacao da ecografia e ate mesmo do seu nascimento, que o pai se aproxima mais do bebe (Draper, 2002). Por fim, cabe destacar que esses sentimentos de exclusao podem nao ser apenas expressao de uma dificuldade de interagir com a companheira, mas estao associados ao uso de mecanismos de defesa para lidar com a situacao, para se proteger (Baddo, 2012).

Chama a atencao que alguns aspectos presentes em outros estudos sobre paternidade na gestacao (Piccinini et al., 2004) nao foram identificados nos relatos dos participantes deste estudo, entre eles o desejo de assistir o parto, a preocupacao com a inexperiencia nos futuros cuidados com o bebe e a intensa preocupacao financeira. Pode-se pensar que devido as dificuldades para conceber e assim realizar o projeto parental, algumas dessas questoes tornam-se secundarias, perdendo assim sua importancia, pois o que mais interessa no momento e garantir o bem-estar da companheira e do bebe, expresso pelo comportamento hipervigilante relatado por pais do presente estudo.

Dessa forma, pode-se recorrer a Covington e Burns (2009) que afirmam que casais com historico de infertilidade nao somente concebem de forma diferente do que casais que tiveram gestacao espontanea, mas tambem experienciam a gestacao diferentemente. Para esse grupo, a gestacao com o auxilio das TRA necessita ser planejada, deliberada e traz desafios especificos ao casal, os quais requerem ajustes psicologicos e fisicos importantes. Portanto, diferente do que ocorre com a paternidade decorrente da gestacao espontanea, a paternidade nesse contexto coloca em foco outros elementos basicos, que se referem a necessidade de garantir que o bebe ira nascer, pois o nascimento do proprio pai depende do nascimento desse bebe. Na gestacao espontanea, o ponto de partida e outro. O casal descobre-se gravido ou planeja engravidar e obtem sucesso. Ao contrario, na gestacao por TRA o ponto de partida tem por cenario o fracasso, a frustracao.

Repercussoes do Tratamento na Experiencia da Gestacao

Nesta categoria destacam-se as especificidades da experiencia do tratamento via TRA e suas possiveis repercussoes na experiencia paterna da gestacao. As subcategorias que se destacaram foram: dificuldades enfrentadas pelo casal; influencia do tratamento no relacionamento conjugal; aspectos positivos e negativos do tratamento; apagamento da experiencia.

Varios pais (quatro) apontaram as dificuldades enfrentadas pelo casal durante o tratamento, bem como o sofrimento vivenciado por eles nesse processo: "Ate o momento que ela disse 'to gravida, deu tudo certo', foi muito angustiante. Foi dificil" (P1); Eu acho que a experiencia foi muito traumatizante, foi uma coisa assim, foi bem, bem dificil" (P6); "Entao o que foi meio sofrido foi toda essa parte da cirurgia, mas ela que sofreu e eu fui sofrendo junto" (P11).

Um ponto destacado por alguns pais (tres) e sobre a influencia do tratamento no relacionamento conjugal, especialmente ao aproximar o casal: "Eu acho que ate fortaleceu mais por todo o processo que a gente passou. Foi uns processos dolorosos, outros processos constrangedores e coisa e tal" (P3); "A gente ta mais unido, em torno da crianca, entao acho que melhorou [sobre a experiencia da reproducao assistida]" (P4).

Ao fazerem uma avaliacao da experiencia da reproducao assistida, dois pais apontaram os aspectos positivos desta: "Positivo e que deu certo. Tivesse passado pelas tentativas e nao tivesse dado, tivesse dado errado, sei la, a gente ia ficar com o pe atras" (P9); "Positivo que deu tudo certo ne, negativo nao. Eu nao penso coisa negativa, o que passou, passou, penso so positivo" (P12). Ja quanto aos aspectos negativos dessa vivencia, um dos pais relatou: "Ah depende, negativo, negativo, nao e que e negativo, ne. Eu digo assim, pra quem mora longe, tipo aqui foi trabalhoso. A [companheira], varias vezes ela foi a Porto Alegre, ia tres vezes por semana, fazer aquele acompanhamento la e sentia bastante, bastante dificuldade porque ela largava o servico aqui e justificava as aulas" (P9).

Dentre as especificidades da experiencia com as TRA, outro ponto que chama a atencao na fala de varios pais (seis) refere-se a um certo apagamento da experiencia: "A gente nem fala nisso, nem pensa nisso [em ter feito uma FIV]" (P3); "As vezes eu nem lembro que teve isso ai [reproducao assistida], as vezes e uma coisa que passa meio desapercebida, entao nao me afetou em nada"; "Talvezpor esse fato de ser na primeira tentativa, imagino, por esse fato de ter sido tranquilo, na boa, e rapidamente ja fez o exame e deu positivo, entao as vezes eu nem lembro, eu acho que foi bem tranquilo" (P11); "Uma coisa que eu nunca me importei e da maneira como foi gerada a [filha]"; "A minha preocupacao de como foi feito, se foi feito artificialmente, se foi feito normal nunca me afetou" (P13).

Os achados acima apresentados permitem destacar que a gestacao no contexto das TRA apresenta algumas peculiaridades em relacao a gestacao espontanea. Uma dessas peculiaridades refere-se a todo o processo de diagnostico e posterior tratamento para conseguir engravidar. Os pais do presente estudo destacaram, em suas falas, o sofrimento vivenciado pelo casal nesse processo. O estudo de Straube (2007), realizado com casais inferteis cinco anos apos o nascimento do bebe, apontou que eles ainda se sentiam estigmatizados, mesmo apos tanto tempo decorrido do tratamento. Assim, e possivel pensar que o sofrimento fisico e psiquico envolvendo os procedimentos de TRA deixem marcas psiquicas que se estendem para muito alem dos procedimentos em si.

Alem disso, a influencia do tratamento no relacionamento conjugal, conforme relatado pelos participantes, esta de acordo com os achados de Borlot e Trindade (2004) de que a experiencia da infertilidade e do tratamento fortalece o vinculo do casal, mesmo entre casais inferteis que nao conseguiram engravidar apos a realizacao do tratamento. De qualquer modo, pode-se pensar que esse fortalecimento ou nao do vinculo depende tambem de como estava a relacao do casal antes da descoberta da infertilidade e da realizacao do tratamento.

Outro aspecto que parece caracterizar a experiencia da paternidade neste contexto refere-se a certo "esquecimento" ou apagamento do sofrimento enfrentado para que o casal pudesse ter seu filho, ja durante a gestacao. Isso pode ser percebido no fato de os pais atribuirem mais aspectos positivos do que negativos as TRA, ja que conseguiram ter o filho desejado. Destaca-se nas falas desses pais o uso da negacao, tanto ao relatarem que nem lembram mais de todo o processo que enfrentaram, quanto ao dizerem que nao falam mais sobre isso ou que nao se importam com o modo como o filho foi gerado. Tais relatos dos pais parecem sugerir a presenca do mecanismo de defesa de negacao, tanto frente a ferida narcisica da infertilidade quanto a angustia vivenciada ao longo de todo o processo (Baddo, 2012; Freud, 1925/1996).

Consideracoes Finais

Os resultados do presente estudo revelam que a experiencia dos pais cujas companheiras engravidaram via TRA apresentam algumas caracteristicas semelhantes aos pais com gestacao espontanea retratados na literatura, tais como satisfacao e envolvimento com a gestacao, mas tambem dificuldades e sentimentos de exclusao. Contudo, para alem dessas semelhancas, existem tambem algumas especificidades da experiencia de paternidade, que parecem ser proprias do contexto da reproducao assistida, como a hipervigilancia e a preocupacao intensa com o estado de saude da companheira.

Entre as especificidades da paternidade na gestacao, apos um periodo de infertilidade, pode-se destacar a intensa experiencia emocional vivida pelo pai (e obviamente pela mae) na busca da realizacao do projeto parental. Faz parte desse momento o abalo sofrido frente a impossibilidade de conceber um filho de forma espontanea e ter que se submeter a procedimentos tecnicos, gerando sentimentos de impotencia, frustracao, medo, entre outros. Independente de quem contribui para a infertilidade, essa afeta a masculinidade e a feminilidade dos envolvidos e, consequentemente, a paternidade e maternidade.

De qualquer modo, os achados do presente estudo sobre a experiencia do pai na gestacao permitem pensar que a noticia da gravidez e a forma como esse periodo foi percebido apresentam varias caracteristicas semelhantes as encontradas em pais cuja concepcao do bebe foi espontanea. Entretanto, destacam-se no relato de alguns pais as marcas tanto da infertilidade como aquelas deixadas pela vivencia do tratamento, com suas incertezas e fracassos. Isto pode explicar os comportamentos de hipervigilancia e preocupacao com a companheira, o constante estado de alerta de alguns pais para garantir a saude e o bem-estar da companheira e do bebe. Alem disso, sugere a percepcao dos pais de uma gestacao fragil, reflexo tambem das dificuldades e demandas emocionais e fisicas presentes na luta para engravidar.

Cabe ressaltar, tambem, que a grande maioria desses pais envolveu-se emocionalmente no dia a dia da gestacao, o que foi expresso por meio do acompanhamento nas consultas, do carinho e da atencao referidos e pela busca de informacoes que minimizassem suas angustias. Sentimentos de exclusao e isolamento tambem foram manifestados por pais do presente estudo, o que pode indicar resquicios de uma tradicao que confere a mulher, e nao ao homem, o direito de expressao de seus sentimentos de alegria e preocupacoes em relacao a gestacao.

Os pais demonstraram tambem alegria frente a interacao com o bebe. Diferentemente da mulher, que carrega o bebe em seu ventre e sente a sua presenca constante, o homem necessita da intermediacao da mulher para percebe-lo. O toque na barriga e, mais tarde, a visualizacao da imagem do bebe pela ecografia possibilitam confirmar a sua existencia e, assim, dar sentido ao que antes era vivido de forma mais particular pela mulher. Neste estudo, esse movimento transformador de aproximacao, aceitacao e confirmacao do papel de pai, a partir do que ocorre com a mulher, permeou o dia a dia desses participantes, de modo semelhante ao que a literatura destaca no caso de pais com gestacao espontanea.

No que diz respeito as repercussoes do tratamento via TRA na experiencia da gestacao, as lembrancas de um periodo traumatico e desgastante se fizeram presentes no relato dos pais, reforcando a ideia de que o tratamento deixa cicatrizes que nao se apagam com a concepcao e a gestacao, mas que ali permanecem tanto na forma de hipervigilancia com relacao a companheira, como nas preocupacoes que os acompanham. Entretanto, outros pais ressaltaram a conquista da gestacao, em detrimento das lembrancas dolorosas da experiencia psiquica vivida, buscando negar ou minimizar o sofrimento desse periodo.

Na verdade, a experiencia paterna da gestacao da companheira e afetada tambem pela experiencia da propria infertilidade, antes da realizacao das TRA. Essa historia de infertilidade pode aproximar o casal, que percebe sua relacao fortalecida por enfrentaremjuntos momentos dificeis, bem como supervalorizar a conquista da concepcao e dos temores frente as possiveis fragilidades desse processo. Cabe ressaltar que fatores importantes, como caracteristicas de personalidade e experiencias de vida dos pais, que conferem a esse momento um significado individual e singular, nao foram considerados no presente estudo, mas sao sem duvida importantes para serem investigados em futuros estudos.

Devido a ausencia de literatura especifica sobre paternidade e reproducao assistida, neste estudo optou-se por buscar subsidios teoricos e empiricos referentes a paternidade com gestacao espontanea como um ponto de partida, para assim compreender as especificidades da paternidade no contexto das TRA. Embora o objetivo deste estudo nao tenha sido comparar as experiencias da gestacao em pais cujas companheiras engravidaram espontaneamente ou via TRA, nas verbalizacoes dos participantes do presente estudo perceberam-se semelhancas ao referido na literatura sobre paternidade em geral. Outra limitacao do presente estudo foi em relacao aos poucos casos disponiveis, o que levou a incluir gestacao gemelar, que obviamente apresenta especificidades adicionais na vivencia desse momento, mas que nao foram foco neste estudo. Alem disso, devido ao numero de casos, nao fizemos distincao de quem era o portador da infertilidade, se o homem ou a mulher, assumindo que a infertilidade e do casal. Apesar de este estudo ter contemplado apenas o terceiro trimestre gestacional, considera-se importante a realizacao de estudos de carater longitudinal, estendendo-se desde a descoberta da infertilidade, passando pelo tratamento e nascimento, ate os primeiros anos da crianca. Isso permitira que se tenha uma visao mais extensa e profunda sobre as implicacoes da infertilidade, nao so para a paternidade, maternidade e conjugalidade, mas tambem para a propria relacao com o filho.

Por fim, sugere-se que, frente a complexidade do contexto da infertilidade e uso de TRA, tanto as maes como aos pais seja disponibilizado acompanhamento por profissionais da area da saude mental. O espaco que o presente estudo concedeu para escutar os pais, mostrou o quanto isto foi valorizado por eles, comumente assumidos como homens que precisam ser fortes e que nao precisam receber apoio para enfrentar suas dificuldades. Ressalta-se que este espaco de escuta poderia ser sistematicamente oferecido a todos os pais e maes envolvidos com as TRA. Obviamente e preciso ser sensivel, para respeitar os processos singulares de tornar-se pai, especialmente neste contexto envolvendo infertilidade. Experiencias subjetivas, modelos de pai e mae e questoes culturais, dentre outros, constituem a tessitura emocional que serve de involucro para a transicao para a paternidade, em qualquer contexto e, talvez, mais ainda em contextos como o das TRA.

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e324218

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(a) Diferente do termo gestante, que se refere a mae na gestacao, nao existe, em portugues, termo para designar o pai na gestacao. Assim, no presente estudo, sera usado o termo pai para se referir ao homem durante a gestacao da companheira. Alem disto, o termo pais sera usado para se referir apenas aos homens, enquanto o termo pai e mae para se referir a ambos.

Recebido em 03.01.2014

Primeira decisao editorial em 29.04.2015

Versao final em 08.06.2015

Aceito em 04.08.2015

Joice Cadore Sonego (1)

Centro Universitario da Serra Gaucha

Lia Mara Netto Dornelles

Universidade de Caxias do Sul

Rita de Cassia Sobreira Lopes

Cesar Augusto Piccinini

Eduardo Pandolfi Passos

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

(1) Endereco para correspondencia: Rua Os Dezoito do Forte, 2551/72, Centro, Caxias do Sul, RS, Brasil. CEP 95020-472. E-mail: joicesonego@yahoo.com.br
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Sonego, Joice Cadore; Dornelles, Lia Mara Netto; Lopes, Rita de Cassia Sobreira; Piccinini, Cesar Au
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2016
Words:8152
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