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Fantastic and psychoanalysis: historicals and discursives relationships/Fantastico e psicanalise: relacoes historicas e discursivas.

Introducao

Referindo-se a Hoffmann, Calvino (2004, p. 49) afirma: "A descoberta do inconsciente ocorre precisamente aqui, na literatura romantica fantastica, quase cem anos antes que lhe seja dada uma definicao teorica".

Embora discordando dessa assertiva, somos positivamente provocados por ela. Se, por um lado, a relacao entre esses dois campos nao pode ser reduzida a uma logica que parta de lugares como precursor e sucessor, uma vez que o percurso freudiano nao e redutivel a uma transposicao imediata da experiencia literaria promovida por Hoffmann para o campo da clinica; por outro lado, faz-se necessario admitir que a literatura fantastica testemunha uma conjuntura social e epistemica que deixou marcas significativas na constituicao da psicanalise.

No ambito da teoria literaria, a apreciacao desse vinculo oscila entre pontos de vista diametralmente opostos. Para Tavares (2007), sao discursos que cultivam entre si uma rica e diversificada rede de trocas; ja com Todorov (2012), essa relacao e de disjuncao e exclusao mutua. De todo modo, alguns conceitos psicanaliticos sao frequentemente evocados no debate sobre o fantastico (Ceserani, 1999; Bellemin-Noel, 2001; Jackson, 2001; Roas, 2014).

Do exposto, este artigo visa situar os pressupostos estilisticos e teoricos de uma proposta de interlocucao entre psicanalise e literatura fantastica. Ele se propoe mapear as relacoes que se estabeleceram entre esses dois campos ao longo dos ultimos 140 anos, periodo que vai da pre-historia da psicanalise ate hoje, pontuando alguns de seus aspectos historicos, epistemicos e esteticos mais significativos. Todavia, para que isso ocorra, faz-se necessario recuar no tempo com o intuito de explicitar o contexto de emergencia da literatura fantastica.

Inicialmente sao elencadas as diferentes definicoes do fantastico. Seus avatares e etapas sao detalhados ao mesmo tempo que se estabelece algumas conexoes com a psicanalise, ressaltando-se os principais elementos comuns aos dois campos. Ao final, alicercado nos subsidios recolhidos, pergunta-se sobre a especificidade de uma inflexao do fantastico a partir do final do seculo XX e o estado atual das suas relacoes com a psicanalise.

Trata-se de uma pesquisa bibliografica, no ambito da psicanalise em extensao (Lacan, 2003), que dialoga com a literatura fantastica e a teoria literaria. Adota-se uma orientacao centrifuga (Siruela, 2013) ao se interrogar a literatura fantastica. O fantastico e entendido como um fenomeno cultural que produz reverberacoes no social, ao mesmo tempo que testemunha e antecipa suas mutacoes.

As fontes utilizadas sao artigos indexados nas plataformas eletronicas--Pepsic, Scielo, Capes-Periodicos e BVS-saude--, alem de livros de escritores literarios e de teoricos do fantastico e da psicanalise (Freud, Lacan e comentadores). Diferentes coletaneas de textos fantasticos como as de Calvino (2004), Costa (2006), Tavares (2007), Siruela (2013) e Borges, Ocampo, e Casares (2013) serviram de referencia para a eleicao dos escritores literarios comentados. Buscou-se tambem uma fundamentacao em textos que se dedicam a relacao entre psicanalise, cultura e clinica como os de Rouanet e Ranciere (2009) e Loureiro (2000).

O fantastico em sentido amplo

Para discutir a relacao entre psicanalise e literatura fantastica, faz-se necessario inicialmente construir um esboco das principais teorias que definem essa ultima. Nessa tarefa, parte-se da advertencia de Carneiro (2006, p. 9), que vaticina uma "[...] absoluta rebeldia do fantastico a uma classificacao categorica". Dito isso, esta exposicao esta organizada em dois blocos, conforme a distincao proposta por Alazraki (2001), que sugere duas tendencias quanto a definicao do fantastico: em sentido lato e estrito. Iniciamos com o primeiro grupo, que qualifica o fantastico como uma narrativa do fantasiar e da imaginacao.

Borges (2009) talvez seja um dos principais expoentes dessa proposta. Ele faz remontar a origem do fantastico as narrativas orais mais arcaicas--os mitos, epicos e cosmogonias--e a atividade de sonhar, situando-o como anterior ao advento da propria escrita. Por isso, ele se opoe a tese de que o realismo na historia da literatura antecede a ficcao imaginativa. Tambem critica a concepcao de que a literatura fantastica deveria ser necessariamente prosaica e abster-se de apologos e silogismos. Por isso, na antologia compilada por Borges et al. (2013), ha textos de tradicoes culturais longinquas--seja no tempo ou no espaco --como tambem contos atuais, alguns da pena dos proprios organizadores. Essa mesma orientacao e seguida por Siruela (2013) e Costa (2006) (1).

Endossando parcialmente a tese de que o fantastico e uma literatura do fantasiar, mas, ao mesmo tempo, relativizando a radicalidade da definicao de Borges, Casares (2013) busca delimitar algumas de suas qualidades mais marcantes. O fantastico e entao descrito como uma literatura que cultiva uma ambiencia propicia ao medo e que arquiteta como ponto culminante de sua narrativa a irrupcao de um fato inesperado, aparentemente inexplicavel. Apos listar algumas das tematicas mais recorrentes, Casares qualifica tres tipos de fantastico a partir do modo como esse evento central da historia e abordado: se a sua justificacao e logica, sobrenatural ou ambigua. Nesse caso, quando se apresenta uma explicacao logica, mas, simultaneamente, insinua-se a interveniencia de forcas sobrenaturais.

E digno de nota o comentario que Casares faz da obra do escritor ingles H. G. Wells (1866-1946), na qual reconhece uma estrategia de conciliacao entre realismo e fantasia. Segundo ele, Wells produz no leitor um sentimento cotidiano de seguranca e familiaridade para, em um segundo momento, confronta-lo com a aparicao subita de algo inospito e absurdo. Assim, a estrategia mimetica serve de preambulo para acentuar um efeito de contraste desencadeado pela apresentacao de um fenomeno anomalo.

Calvino (2006) adota uma posicao proxima a de Casares. Ele define o fantastico a partir de sua estrutura, que compara a um cristal: no centro se assenta um fato extraordinario de onde partem linhas de ranhuras que compoem o enredo. Dessa forma, todos os caminhos da historia convergem para um ponto, que e abordado de diferentes angulos. Decorre dai a valorizacao do contraditorio e da hesitacao, que incita de forma moderada o afeto de angustia no leitor.

Vale ressaltar a semelhanca da metafora de Calvino com a de Freud (1997l), quando afirma que as vias de formacao do sintoma seguem, como em um cristal, as fissuras da constituicao psiquica de cada pessoa. E possivel propor dai um paralelo entre a irrupcao da surpresa no texto fantastico e a abordagem das producoes do inconsciente pela psicanalise: ha um nucleo estranho, opaco e evasivo na estrutura desse cristal que e visado tanto la como aqui. No entanto, deve-se admitir que, em cada caso, vigoram objetivos e estrategias especificas.

Alguns teoricos como Roas (2014) tendem a interpretar essa enfase na fantasia defendida por Borges como uma subvalorizacao da influencia do realismo. Segundo ele, a principal caracteristica da literatura fantastica esta na producao de uma ameaca a realidade e de suas referencias cotidianas. Conclui dai que e necessario que o real, de alguma forma, seja acalentado no seio da historia, o que, para ele, esta em contradicao com o cultivo de uma autonomia da fantasia.

E pertinente, todavia, ponderar que a desconsideracao a realidade talvez nao seja uma implicacao necessaria dos argumentos de Borges (2009). Ao inves de pregar uma narrativa desprovida de referencias a realidade, o escritor argentino subverte a relacao entre realismo e ficcao, evidenciando a impossibilidade de um realismo puro e de uma ficcao onde a realidade esteja ausente.

A apreciacao dessa questao passa por um longo e intrincado debate em torno do estatuto da realidade e suas possibilidades de representacao (Nandorfy, 2001). Restringimo-nos ao comentario de um argumento trazido por Le Guin (2013) acerca das raizes etimologicas da palavra fantasia. Para a autora, a depender da tradicao que lhe sirva de referencia, esse termo pode designar tanto uma condicao de garantia de acesso ao real como a negacao da realidade ou o afastamento dela pela via da ilusao e do erro. Conclui-se que a oposicao entre realidade e ilusao presente na apreciacao teorica da tematica da fantasia evidencia o que Freud (1997e) denomina origem antitetica das palavras. Isto e, que os dois polos supostamente antagonicos participam da significacao desse termo, compondo, por assim dizer, duas faces da mesma moeda.

Essa ambiguidade da palavra fantasia esta no cerne da explicacao do aparelho psiquico da primeira topica. Nele, o acesso ao mundo nao se da de forma instantanea, sem mediacoes. Para Freud (1997f), o fato de sermos seres desejantes e de linguagem precede e condiciona o modo como apreendemos a realidade. Assim, no funcionamento psiquico, a realidade e visada, mas apenas indiretamente, na medida em que possibilita a satisfacao de um impulso libidinal, pela conjuncao de um traco perceptivo atual com um traco mnemico inconsciente. Como consequencia, a experiencia da realidade se revela, em ultima instancia, a atualizacao de fragmentos de uma experiencia de satisfacao perdida.

Seguindo o rastro dos fenomenos que estao na soleira entre uma realidade objetivada--exterior e compartilhada--e outra, psiquica--subjetiva, portanto--, Freud, assim como diversos escritores fantasticos, dedica-se a investigacao dos sonhos (Freud, 1997b), dos devaneios (Freud, 1997d), da sugestao (Freud, 1997a), da telepatia (Freud, 1999; 1997k) e das paramnesias (Freud, 1997h). Isto e, lembrancas falseadas e impressoes de ja se ter vivido, contado ou visto uma situacao atual. O comentario do romance Gradiva, de W. Jensen (1837-1911), constitui uma aplicacao marcante dessa concepcao do aparelho psiquico na interlocucao com a literatura (Freud, 1997c).

E licito afirmar dai que tanto para a psicanalise como para a literatura fantastica vigora um descompasso entre aquilo que e percebido e seu referente concreto. Dai a necessidade continua de um esforco de julgamento e retificacao da realidade tal como ela se apresenta num dado instante. Conclui-se entao que as formacoes do inconsciente e o efeito estetico do fantastico na literatura sao, por assim dizer, residuos desse processo psiquico de depuracao da realidade objetiva. Isso nos permite refutar interpretacoes que imputam a psicanalise e a literatura fantastica uma atitude de desconsideracao a materialidade dos fatos. Logo, o problema inerente a abordagem da fantasia deve ser colocado em outros termos, a partir do reconhecimento no processo de apreensao da realidade de um nucleo opaco, radical e irredutivel.

O fantastico em sentido estrito

Ha uma diversidade de explicacoes que sao gestadas pelos autores que se alinham em torno de uma definicao historica, mais circunscrita, do fantastico. E possivel reconhecer aqui algumas zonas de consenso, mas tambem muitas discordancias. As teses de consenso sao mais faceis de resumir. Todorov (2012), Ceserani (1999) e Roas (2014) concordam em situar o nascimento do fantastico a partir do romance gotico ingles, no final do seculo XVIII. Da mesma forma, reconhecem que o fantastico sofreu fortes influencias do discurso cientifico, sem o qual nao teria existido, e do romantismo, que lhe enriqueceu e o complexificou. Eles tambem concordam em reconhecer o apogeu do fantastico na segunda metade do seculo XIX.

As divergencias, por sua vez, exigem uma exposicao mais longa. Todorov (2011; 2012), na sua tese mais polemica, defende que o fantastico desapareceu na primeira metade do seculo XX. Segundo ele, a psicanalise contribuiu de forma decisiva para esse fim prematuro, uma vez que, para o autor, ela atua como uma modalidade discursiva concorrente, que anula o efeito estetico almejado pelo fantastico.

Ceserani (1999), Roas (2014) e Tavares (2007), em oposicao a Todorov, defendem a sobrevivencia do fantastico nos dias atuais. Para eles, apos o seculo XX o fantastico sofreu uma serie de transformacoes, tanto de seus expedientes retoricos como de suas tematicas, o que dificultou o seu reconhecimento a partir das categorias tradicionalmente aceitas. Advertem que um fator que pode erroneamente corroborar a hipotese do desaparecimento do fantastico e a sua diluicao em outros generos literarios e produtos culturais (Tavares, 2007; Roas, 2014).

Nessa discussao, o nome de Todorov desponta como uma referencia de destaque na definicao do fantastico em sentido estrito. Deve-se assinalar, contudo, que ele nao e um pioneiro nessa seara. As primeiras definicoes do fantastico datam do comeco do sec. XIX, na Franca, com Marmotel, Nodier e Gautier (Batalha, 2003), mas e apenas no pos-guerra, no final da primeira metade do seculo XX, que ocorre um esforco mais sistematico e difundido para conceitua-lo. Assim, o livro de Todorov sobre o fantastico, cuja primeira edicao data do final da decada de 1960, agrega e enriquece o legado de autores que o antecederam tais como Castex, Vax e Caillois (Ceserani, 1999; Machado, 2013; Roas, 2014; Manna, 2014b). De todo modo, e notorio o valor de sua obra para a consolidacao do fantastico como campo de estudo. Por isso, apresentase a seguir os pontos centrais de sua tese.

Para Todorov (2011; 2012) o cerne do fantastico deve ser localizado em um efeito de hesitacao agenciado no nivel do leitor implicito. Trata-se de um conceito proposto por W. Iser (1996) que identifica no interior do proprio texto a delimitacao de uma intencao ou perspectiva de leitura. Essa proposta diferencia-se da ideia de leitor real, pois nela a interpretacao nao e totalmente dependente do horizonte subjetivo do leitor. Assim, segundo Todorov (2011; 2012), ha uma posicao especifica a ser ocupada pelo leitor ao interagir com o texto, o que torna possivel qualificar a literatura fantastica como um genero literario. Por isso, sua perspectiva metodologica e considerada formal e estruturalista (Gama-Khalil, 2013; Roas, 2014).

Todorov (2012) explicita dai o que considera as principais caracteristicas da literatura fantastica: 1) a producao no leitor de uma vacilacao de julgamento entre dois modos de explicacoes disjuntos, um sobrenatural e outro racional; 2) a duplicacao do lugar ou funcao da narrativa; 3) o uso do imperfeito e do modal; 4) a presenca de sobredeterminacoes, ambiguidades e lacunas e 5) a tendencia para constituir hibridos com outros generos limitrofes.

A primeira das caracteristicas elencadas e o traco principal e necessario. Segundo Todorov, um texto fantastico deve ser capaz de transformar, ainda que provisoriamente, o sentimento de apreensao da realidade, possibilitando que fenomenos ate entao percebidos como absurdos ou irracionais sejam tratados como experiencias portadoras de uma verdade. Para isso, faz-se necessario pressupor um leitor fortemente arraigado no discurso cientifico moderno que se depara com situacoes pungentes, aparentemente sobrenaturais, que nao podem ser desconsideradas e que poem a prova a sua capacidade de explicar racionalmente os fatos.

Uma vez findada essa hesitacao, o fantastico deriva para os generos com os quais mantem relacoes fronteiricas: o estranho e o magico. No primeiro caso, quando, com o desenrolar da narrativa, o evento supostamente sobrenatural e reduzido a uma explicacao racional/cientifica. No ultimo, quando o leitor e levado a suspender o questionamento sobre a adequacao a realidade daquilo que lhe e contado. Consequentemente, a existencia do fantastico depende da manutencao de um tenue e fugaz estado de duvida e indeterminacao. Todorov tambem exclui do campo do fantastico textos alegoricos e poeticos sob o argumento de que esses recursos valorizam a retorica em si mesma, relegando para segundo plano a intencao de produzir uma tensao entre representacao e realidade.

A curta vida do fantastico (um seculo aproximadamente) e o seu fugaz apogeu sao evidencias para Todorov (2012) da fragilidade das condicoes que lhe franquearam a existencia, uma vez que, de acordo com sua concepcao, o fantastico so perdura enquanto vigora a oscilacao do leitor entre uma interpretacao magica (sobrenatural) e uma estranha (excentrica, mas racional e empirica).

A tese de que o fantastico como genero literario desapareceu na primeira metade do seculo XX e justificada em funcao da influencia da psicanalise na cultura. Segundo Todorov, com o advento da psicanalise, a oscilacao de julgamento proporcionada pelo fantastico, ao inves de ser vivenciada como uma tensao entre fantasia e realidade, transforma-se em um conflito internalizado, significado no campo da realidade psiquica do inconsciente.

Esse argumento retorna com Calvino (2004) decadas depois. Embora acredite na perpetuacao da literatura fantastica para alem do limite estipulado por Todorov, Calvino propoe que ha no leitor da atualidade uma especie de embotamento em relacao aos efeitos perturbadores dos textos fantasticos. Para ele, a referencia ao inconsciente e fundamental para o agenciamento de um modo de leitura que produz um excesso de sentido onde antes prevalecia o enigma e a indeterminacao. Com isso, Calvino insinua a prevalencia de uma forma diferenciada de leitura dos textos fantasticos na atualidade.

Essa tese de Todorov tambem e objeto do comentario de Kon (2006, p. 130). Para ela, a ideia de que houve uma substituicao do fantastico pela psicanalise foi primeiro apresentada por Caillois, para quem a psicanalise e responsavel pelo surgimento de uma "[...] ficcao submetida aos poderes da ciencia", que opera um efeito de desencantamento do mundo. Mesmo discordando desta tese, vale destacar um argumento que Kon resgata de Todorov. Segundo ela, tanto a psicanalise como a literatura fantastica sao expressoes de uma ma consciencia do discurso cientifico moderno (Todorov, 2011).

Do exposto, e possivel reconhecer um ponto de convergencia nas criticas dirigidas a Todorov. Roas (2014), Ceserani (1999) e Manna (2014a), por exemplo, apontam uma rigidez da definicao todoroviana que dificulta o reconhecimento das diferentes roupagens que a literatura fantastica e capaz de assumir. Tal insuficiencia se intensificou nas ultimas decadas em funcao das rapidas atualizacoes que o fantastico sofreu.

Ceserani (1999), seguindo o projeto de flexibilizacao dos criterios todorovianos, propoe que o fantastico pode ser entendido com mais precisao como um modo de fazer literatura ao inves de um genero literario. Nessa mesma direcao, Gama-Khalil (2013) define o fantastico como um territorio heterogeneo, interdisciplinar e plural. Batalha (2012), por sua vez, propoe que o fantastico constitui um macrogenero literario que abriga diferentes tendencias.

Roas (2014), apesar de defender a ideia do fantastico como genero literario, assume parte dos argumentos de Ceserani e Gama-Khalil, uma vez que ele tambem considera o fantastico um territorio heterogeneo e plural. Por isso, propoe uma abordagem metodologica que denomina caleidoscopica, valendo-se de diferentes olhares e teorias para interrogar a literatura fantastica. Para ele, o carater distintivo do fantastico e a transgressao da realidade, que, em ultima instancia, remete a uma pragmatica do texto na sua relacao com a cultura, a linguagem e a ciencia. Alem disso, designa a producao do medo como uma caracteristica necessaria--mas nao exclusiva--do fantastico.

Nesse ponto se evidencia de modo mais pungente os agenciamentos reciprocos entre psicanalise e a literatura fantastica. Se o texto de Hoffmann e crucial para que Freud (1997i) avance no refinamento de sua teoria da angustia e do narcisismo, em um segundo momento a tese freudiana sobre o estranho/inquietante vai comparecer como referencia recorrente entre os teoricos do fantastico (Ceserani, 1999; Bellemin-Noel, 2001; Jackson, 2001; Tavares, 2007). Por isso, diferentemente da opiniao de Todorov e Caillois acima explicitada, ha autores, como Tavares (2007), que sustentam que entre psicanalise e literatura fantastica vigora relacoes que nao sao de oposicao ou exclusao, mas de intensa interlocucao: "Fantastico e Inconsciente sao vasos comunicantes" (Tavares, 2007, p. 16).

Uma vez aceita a sobrevivencia do fantastico na atualidade, a sua definicao em sentido estrito, seja como (macro)genero literario ou modo de fazer literatura, remete entao a possibilidade de diferenciacao de etapas ou tendencias a partir da influencia de determinadas matrizes esteticas e epistemicas. Cabe perguntar dai como se coloca a relacao entre psicanalise e literatura fantastica nesses diferentes momentos historicos e estilisticos.

Fases da literatura fantastica

Como ja mencionado, uma condicao necessaria para o surgimento do fantastico em sentido estrito esta no Iluminismo, que suplanta uma visao de mundo dominante no ocidente durante a Idade Media. Ate entao prevalecia uma concepcao teologica, platonica/aristotelica do universo, entendido como fechado, concentrico e habitado por forcas transcendentes. A partir do seculo XVII ocorre paulatinamente a passagem para um modelo fisicalista e matematizado da natureza (Ceserani, 1999; Koyre, 2006), que impacta na percepcao que o homem tem de si e dos outros.

Apesar dessa mudanca de paradigma, as entidades transcendentais que dominavam as narrativas preteridas nao desaparecem. Ainda que tenham perdido a prerrogativa de referencia privilegiada, elas continuam a existir a margem da retorica oficial, relegadas ao plano da literatura, da ficcao, das supersticoes, da loucura e do pensamento infantil (Ceserani, 1999). E possivel reconhecer nessa lista os fenomenos localizados na franja da razao pelos quais Freud se interessa no curso de sua investigacao clinica (Loureiro, 2000; Mezan, 2014) e que constituem temas privilegiados da literatura fantastica.

Nesse contexto, no fim do seculo XVIII, na Inglaterra, H. Walpole (1717-97) escreve O Castelo de Otranto (Walpole, 1996). Segundo a maioria dos teoricos, esse livro constitui a primeira semente do fantastico em sentido estrito (Ceserani, 1999; Machado, 2013; Roas, 2014; Manna, 2014b). Trata-se da obra fundadora e mais representativa do chamado romance gotico. Apesar de ingles, Walpole--na contramao do projeto iluminista que apregoa o esclarecimento pela razao--escolhe como cenario para sua estoria o ambiente lugubre e escuro de um castelo medieval italiano. Seu livro, assinado por um pseudonimo, adota a narrativa em primeira pessoa e assume o relato de uma vivencia factual. Esse expediente contribui para dar acolhida as entidades sobrenaturais da Idade Media, sem, contudo, abandonar uma atitude racional tipicamente moderna.

Segundo Batalha (2012), dois textos sao representativos do desenvolvimento do fantastico a partir do romance gotico ingles: O diabo Apaixonado, do frances J. Cazzote (1719-1792), e O Manuscrito Encontrado em Saragoza, do polones J. Potocki (1761-1815). Neles, estao presentes recursos narrativos semelhantes ao de Walpole. O diferencial deles e que prescindem do cenario dos castelos goticos para produzir uma ambiencia soturna, valendo-se para tanto de outros expedientes.

Um passo importante que leva a conformacao do fantastico esta na influencia da literatura romantica. Segundo Loureiro (2000), o Romantismo e fruto da modernidade e, ao mesmo tempo, uma reacao a ela. Trata-se de uma tentativa de restituicao de um ideal de totalidade e transcendencia que na Idade Media era agenciado pela referencia a Deus. Apos o advento do iluminismo, a realizacao de um ideal de vida se desloca da fe e da devocao religiosa para a busca das paixoes e dos prazeres terrenos.

E necessario, contudo, marcar uma inflexao na apropriacao da influencia romantica pelo fantastico. Se no Romantismo a enfase recai na esperanca de um encontro amoroso totalizante, ainda que sempre adiado (Loureiro, 2000; 2002); na literatura fantastica o destaque esta nos sentimentos associados a separacao, a perda, a duvida e ao estranhamento. Nesta prepondera o interesse pelas distorcoes e perversoes de eros; naquele, na sua dimensao sublimada (Ceserani, 1999). A partir dai, temas mais cotidianos e concretos sao introduzidos na literatura fantastica, fato que tornou menos frequente as referencias diretas ao sobrenatural e as figuras demoniacas.

Segundo Batalha (2003; 2012), o alemao E. T. A. Hoffmann (1776-1822) e o principal artifice dessa transicao. Sua obra, escrita no inicio do seculo XIX, repercute amplamente no ambiente literario frances, consolidando a marca do romantismo na literatura fantastica desse pais e, num segundo momento, do mundo. Por isso, a maioria dos criticos tende a situar na segunda metade do seculo XIX a epoca aurea da literatura fantastica (Calvino, 2004; Costa, 2006), quando se destacam autores como Baudelaire (1821-1867), Merimme (1803-1870), Gautier (1811-1872) e Mauppasant (1850-1893).

Trata-se tambem, e importante frisar, do periodo onde se situa a pre-historia da psicanalise. Para melhor situar essa conexao entre o advento da psicanalise e o espirito literario de seu tempo, justifica-se a realizacao de uma pequena digressao. O seculo XIX e apontado por Ranciere (2009) como o periodo no qual se processa uma silenciosa revolucao cultural, que engendra um novo regime de compreensao das artes. Tal regime, por sua vez, apoia-se em um modo diferenciado de situar o homem e seu cogito. Doravante, e posto em evidencia o problema de um pensamento intimamente relacionado a um modo de sentir, que se mostra refratario a transposicao em palavras e a apreensao pela consciencia. Dai, para o autor, a proximidade entre o Inconsciente e o campo das artes, haja vista que ambos colocam em questao a relacao entre logos e pathos, entre o pensamento representativo e o sensivel. Com isso, Ranciere situa Maupassant--ao lado Zola, Ibsen e Strindberg--como figuras emblematicas desse contramovimento cultural no qual "[...] o nascimento da psicanalise se inscreve historicamente" (Ranciere, 2009, p. 33).

Essa tese de Ranciere acompanha Foucault (2000), que, no mesmo periodo citado, localiza uma mudanca de regime representacional, que demarca a passagem da episteme classica para a moderna. A partir dai, as palavras conquistam uma autonomia em relacao as coisas que nao possuiam ate entao, desencadeando significativas transformacoes no campo da literatura, da arte e da ciencia. Tal fato produz as condicoes de possibilidade para o surgimento tanto das ciencias humanas, por um lado, como da psicanalise, de outro.

A partir dessa rapida contextualizacao, e relevante sublinhar a influencia que a psicanalise recebe da literatura fantastica de lingua francesa e alema. Se o comentario do Sandmann, de Hoffmann (2007), constitui a linha mestra do trabalho de Freud (1997i) sobre o estranho; a influencia do fantastico frances, por sua vez, e menos explicita.

Quinet (2005) e Kon (2003) exploram no campo da ficcao a relacao entre Maupassant e a formacao intelectual de Freud no final do seculo XIX, imaginando o encontro entre os dois, fato que provavelmente nunca aconteceu, apesar de terem sido contemporaneos e habitado Paris na mesma epoca. Nos dois casos, os autores reconstroem o ambiente cultural e historico que conecta a pre-historia da psicanalise a literatura fantastica em seu apice na Franca. Nesse contexto, vale destacar que os temas da hipnose, da sugestao e do mesmerismo--frequentes nos textos de Freud (1997a), principalmente nas decadas de 1880 e 1890-comparecem inicialmente na literatura fantastica--como em Poe (2013) e Maupassant (2015).

Dostoievski (1821-1891) e outro autor citado por Freud (1997j) que realiza uma significativa incursao pela literatura fantastica. Apesar de seus escritos fantasticos nao constarem entre suas obras mais celebres, e digno de nota a apreciacao que o escritor russo faz desse filao literario (Dostoievski, 2015). Ele tece elogios a uma narrativa em primeira pessoa, situada no limiar entre realidade e ficcao, que oscila entre diferentes modos de enderecamento, favorecendo a expressao de uma verdade psicologica. E ainda digno de nota a problematizacao que realiza da tematica do duplo (Dostoievski, 2013), que, em Freud (1997i), compoe parte importante de sua descricao do fenomeno do estranho/inquietante.

Alem dos ja citados Hoffmann, Maupassant e Dostoievski, outro autor que se dedicou a escrita de textos fantasticos e que influenciou intensamente Freud, sendo inclusive mencionado em uma correspondencia enderecada a Fliess em 12 de outubro de 1892 (Masson, 1986), e o anglo-indiano R. Kiepling (1865-1936). Ele e apontado por Rouanet (2003) como uma importante inspiracao, ao lado de Hoffmann, para a formulacao do conceito de estranho/inquietante.

Esse pico de refinamento e popularidade da literatura fantastica no final do seculo XIX tambem constitui um ponto de virada: transformacao para alguns; decadencia para outros. Calvino (2004) propoe a distincao de dois momentos do fantastico: o visionario e o cotidiano. O primeiro, mais caracteristico do seculo XVIII e de boa parte do XIX, possui como marca principal o uso explicito de fantasmagorias imageticas: monstros, espectros e figuras do alem. Ja no final do seculo XIX e comeco do XX, os escritores mostram-se mais comedidos quanto ao uso desses expedientes. Doravante, o inusitado e apenas sugerido a partir de situacoes do dia a dia, deixando ao leitor a tarefa de intui-lo.

Roas (2014) segue a mesma linha de raciocinio ao propor como caracteristica distintiva do fantastico ate o seculo XIX a predominancia de uma ruptura da realidade no plano da percepcao. A partir do seculo XX, a transgressao passa ao plano da linguagem, por meio de uma indeterminacao sintatica, de "[...] uma irresoluvel falta de nexo entre os diferentes elementos do real" (Roas, 2014, p. 150). Doravante torna-se mais recorrente o uso de alegorias, metaforas, ambiguidades e outros expedientes retoricos. Para esse autor, ate o seculo XIX o fantastico apoiava-se em um sentimento de consistencia da realidade, que sofria um abalo pela emergencia de um evento sobrenatural. Ja a partir do seculo XX, essa inconsistencia e vivida no interior da propria realidade, que ja se apresenta como fragmentada de antemao.

O fantastico no seculo XX tambem e atravessado pela influencia dos movimentos de vanguarda, como o surrealismo e o modernismo (Tavares, 2007). Plon e Roudinesco (1998) destacam como esses movimentos beberam da fonte da psicanalise, por meio da valorizacao das expressoes do inconsciente e da escrita automatica. Em sentido inverso, Roudinesco (1994) ressalta a apropriacao de elementos do surrealismo pela psicanalise, especialmente na Franca, com Lacan.

Ha aqui mais uma vez uma serie de transformacoes na estetica e na tematica do fantastico. Esse e tambem o momento de descentramento geografico do fantastico com o surgimento de uma leva de autores latino-americanos tais como Borges, Gabriel Garcia Marquez e Cortazar. Um desdobramento importante do fantastico e o realismo fantastico, tambem denominado realismo magico ou maravilhoso. Sua inspiracao remonta as artes plasticas, ao movimento pos-expressionista alemao da decada de 1920, cujo principal articulador e Franz Roh (Schollhammer, 2004). A obra de Roh e, decadas depois de publicada pela primeira vez, traduzida e reinterpretada pelo escritor caribenho Carpentier, sendo transposta para o ambiente literario latino-americano. Nesse momento, assume a forma de um projeto estetico e politico que propunha o resgate das tradicoes e mitos populares relegados ao segundo plano em decorrencia de uma politica colonialista que pregava a assimilacao dos padroes culturais europeus. Carpentier esforca-se entao em promover uma ampliacao da realidade por meio da apropriacao da linguagem do dia-a-dia e das crencas locais. Tal fato exigiu, por sua vez, a superacao do realismo historico tradicional, sem, contudo, abdicar de algumas de suas caracteristicas. Surge dai uma narrativa sincretica e hibrida, que reequaciona a relacao entre fantasia e realismo, forcando-a dessa vez em direcao ao polo do magico/maravilho (Fernandez, 2001).

Na segunda metade do seculo XX, Alazraki (2001), valendo-se do comentario de textos de Kafka (1883-1924) e Cortazar (1914-1994), propoe a distincao de um genero literario que denomina neofantastico. Alazraki reconhece como traco distintivo desse genero, em contraposicao ao fantastico tradicional, a ausencia de medo e uma atitude de desassombro no confronto com o extraordinario. Roas (2014), por sua vez, discorda dessa leitura, argumentando que a ideia de que em Kafka o efeito do fantastico prescinde do medo e falsa. Para ele, a analise de Alazakri exclui as reacoes afetivas do leitor, limitando-se ao que se passa no ambito das personagens. Apesar da critica, Roas aceita o argumento de Alazraki que indica uma inflexao do fantastico na segunda metade do seculo XX. No entanto, ele a localiza em um periodo mais tardio, justificando-a em funcao da interveniencia de outros fatores. Sua tese e a de que a fisica quantica e a teoria da relatividade sao as molas propulsoras dessa mudanca. Tal fato, no entanto, segundo Roas, nao e suficiente para se falar em um novo genero literario.

Consideracoes finais

A literatura fantastica e a psicanalise possuem muitas afinidades. Entre elas proliferam relacoes de mao dupla, capilarizadas e difusas. Desenhou-se tres tempos diferenciados dessa relacao: em um primeiro momento, a literatura fantastica testemunha um contexto cultural que propicia as condicoes para a emergencia da psicanalise. Em um segundo tempo, a partir do final do seculo XIX, durante o seu apice de popularidade, a literatura fantastica comparece direta e indiretamente no percurso freudiano. Logo depois, nas primeiras decadas do seculo XX, Freud redige textos que sao posteriormente incorporados a definicao do fantastico pela critica literaria. Ha entao um terceiro momento, quando as relacoes entre os dois campos se ramificam e se complexificam.

Destacou-se que a definicao do fantastico como uma literatura da fantasia esta em consonancia com a descricao psicanalitica do aparelho psiquico, na qual o acesso a realidade aparece como uma aquisicao secundaria e sempre incompleta no curso do desenvolvimento (Freud, 1997f). A fantasia representa uma zona limitrofe e heterogenea do funcionamento psiquico que agrega ao mesmo tempo elementos da sintaxe do processo primario--sinonimo do principio do prazer/desprazer--e do processo secundario, que se orienta pelo principio da realidade. Em funcao disso, a ficcao torna-se parte constitutiva da realidade psiquica. Trata-se da unica forma de acesso a verdade subjetiva (Lacan, 2008), cujo nucleo traumatico testemunha uma carencia de significacao radical do psiquismo. Lacan considera a fantasia como uma operacao logica de escrita do real, que equaciona desejo e realidade. O que quer dizer que a fantasia constitui a realidade, sustentando uma montagem do simbolico e do imaginario. Dai que, para Lacan, a fantasia vela e revela o real.

Como uma literatura que visa tocar algo do real, o fantastico produz modulacoes do afeto de angustia para engendrar uma fruicao estetica. Ele nao visa restaurar uma totalidade identitaria. Antes, incita o leitor a vivenciar um estado de indeterminacao simbolica produtiva (Dunker, 2011), abrindo caminho para possibilidades diferentes de criacao. Talvez esse seja o sentido da aproximacao entre inconsciente e fantastico sustentada por Tavares (2007). Ambos interrogam os limites de uma racionalidade cartesiana e, como consequencia, permanecem refratarios a conceituacoes definitivas (Lacan, 1998a; Carneiro, 2006).

Outro ponto de aproximacao esta na relacao que fantastico e psicanalise mantem com o discurso cientifico. Apesar de Freud sustentar a inclusao da psicanalise no rol das ciencias e de assumir a sua visao de mundo (Freud, 1997m), sustenta-se com Lacan (1998b) que ha uma tensao entre a psicanalise e o projeto cientifico moderno no que tange a pretensao de produzir um conhecimento universal e neutro. Dai ser possivel estender a psicanalise, como Kon propoe, a condicao de ma consciencia da modernidade que Todorov imputa a literatura fantastica. Propoe-se entao interpretar essa ma consciencia como a percepcao--ainda que difusa--do retorno no real de uma dimensao desejante do sujeito foracluida pela ciencia.

O fato de ambas serem herdeiras do Romantismo e de colocarem os impasses e paradoxos de Eros no cerne das experiencias discursivas que engendram constitui outro elo importante. Cabe perguntar entao como tal vinculo se apresenta hoje, levando-se em consideracao as mudancas culturais e sociais impulsionadas pela tecnologia, a ciencia e o capitalismo (Roas, 2014).

E necessario, contudo, estabelecer algumas diferencas entre a literatura fantastica e a psicanalise. Ainda que a praxis psicanalitica nao exclua uma preocupacao estetica, entendida como um questionamento dos modos do sentir e do pensar (Ranciere, 2009), seu objetivo principal e propiciar a perlaboracao (durcharbeiten) e a superacao das resistencias pela atualizacao das manifestacoes do inconsciente (Freud, 1997g). Por outro lado, e possivel que contingencialmente e pontualmente tais efeitos sejam desencadeados pela leitura de um texto literario, mas deve-se admitir que esse nao e o seu objetivo principal.

Para concluir, defende-se que as dificuldades apontadas pela critica literaria em se definir o fantastico corrobora o fato de que esse genero/modo literario esta intensamente engajado em mobilizar determinados efeitos de sujeito com os quais a psicanalista se ocupa na sua clinica. Dai se considerar do interesse da psicanalise--e nao apenas dos estudos literarios--a investigacao das mutacoes das sintaxes do fantastico e das estrategias por meio das quais a literatura conjura o sentimento do estranho. Logo, a analise dos modos de estruturacao da literatura fantastica constitui uma valiosa via de acesso a subjetividade de nossa epoca. Considera-se ainda necessario indagar como a psicanalise contribui para a formacao de uma atitude diferenciada de leitura dos textos fantasticos, como sugere Calvino (2004). Dito de outro modo, como o trabalho conceitual que o analista efetua a partir de seu oficio repercute na cultura, impactando em outros campos como a literatura e a estetica.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.43128

Received on June 2, 2018.

Accepted on October 8, 2018

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Fabiano Chagas Rabelo [1] *, Karla Patricia Holanda Martins [2] e Leonardo Jose Barreira Danziato [3]

[1] Departamento de Psicologia, Universidade Federal do Piaui, Avenida Sao Sebastiao, 2819, 64202-020, Parnaiba, Ceara, Brasil. [2] Programa de Pos-Graduacao em Psicologia, Departamento de Psicologia, Universidade Federal do Ceara, Fortaleza, Ceara, Brasil. [3] Programa de Pos-Graduacao em Psicologia, Universidade de Fortaleza, Fortaleza, Ceara, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: fabrabelo@edu.ufpi.br

(1) Consta nessas coletaneas trechos do Apocalipse biblico e do livro sagrado do hinduismo, Panchatranta, alem de textos dos filosofos chineses Chuang Tzu e Lieh Tse, dos seculos IV e III a.c.; do poeta chines Niu Jiao, do seculo IX; do escritor romano Caio Petronio Arbitro, do seculo I, e do escritor espanhol Dom Juan Manuel, do seculo XIV, alem de historias das Mil e uma noites.
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Title Annotation:LITERATURE/LITERATURA
Author:Rabelo, Fabiano Chagas; Martins, Karla Patricia Holanda; Danziato, Leonardo Jose Barreira
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:7254
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