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Family transitions: from divorce to remarriage in the Brazilian context/ As transicoes familiares do divorcio ao recasamento no contexto brasileiro.

O divorcio no Brasil foi regulamentado apenas em 1977, sendo que, ate entao, nao era juridicamente possivel postular um novo casamento (1). De fato, o divorcio e o recasamento ja ocorriam, antes mesmo da regulamentacao pela via de lei. Porem, nao eram reconhecidos ou aceitos socialmente, constituindo temas velados ou evitados nas redes sociais e familiares.

A modificacao na lei evidenciou os diversos modelos e padroes de familia, tais como aqueles padroes socialmente esperados da familia nuclear, ou ainda, os "novos" modelos familiares, decorrentes de reorganizacoes conjugais, separacoes, novas formas de uniao e recasamento.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica ([IBGE], 2007) mostram que os numeros de divorcio e separacoes ocorridos no Brasil, entre os anos de 1993 e 2003, cresceram 44% e 17,8%, respectivamente2. Ja no periodo entre 2004 e 2005, as separacoes judiciais aumentaram 7,4%, mantendo um crescimento gradativo. Destaca-se que os numeros do IBGE nao incluem as unioes e as dissolucoes consensuais, mas, a partir deles, e possivel pressupor que, se fossem considerados os dados extra-oficiais, as estatisticas seriam ainda maiores. Tendo em conta esses dados e o contexto socio-historico atual do segundo milenio, o divorcio tornou-se evidente, razao pela qual surge a necessidade de mais pesquisas nacionais sobre o tema para subsidiar uma reflexao contextualizada a realidade brasileira.

Peck e Manocherian (1980/2001) destacam que, apesar da prevalencia do divorcio, os membros da familia, em geral, nao estao preparados para o impacto emocional, social e economico que o mesmo acarreta. Nesse sentido, tais autores argumentam que a transicao da separacao conjugal afeta a familia em varias geracoes, aumentando a complexidade das tarefas desenvolvimentais vivenciadas.

Associado a isso, e tendo em conta as contribuicoes da psicologia do desenvolvimento e de teoricos da familia (Carter & McGoldrick, 1980/1995; Cerveny, 2002), constatase que tanto o individuo quanto a familia apresentam um ciclo vital de desenvolvimento, com estagios diferenciados no que diz respeito as aquisicoes de tarefas especificas dos mesmos. Assim, a familia e o individuo se desenvolvem segundo uma sequencia de eventos -- na qual alguns episodios sao considerados esperados, e outros, imprevisiveis (ditos "nao normativos"). Essas acoes imprevisiveis, por sua vez, impoem novos desafios e novas reorganizacoes tanto para a familia quanto para o individuo, de modo que se afetam recursivamente. O conhecimento que se postula proporciona a identificacao de pontos de transicao de um estagio para o outro no desenvolvimento da familia (Hetherington, 1991).

Nesses ciclos de desenvolvimento, quando o assunto e divorcio, verifica-se que nao existe um consenso sobre se se trata de um evento normativo ou nao normativo. Autores como Carter e McGoldrick (2003), observando o desenvolvimento da familia em termos historicos, afirmam que o numero de divorcios na ultima decada, na sociedade americana, permite dizer que o mesmo pode ser compreendido como um evento normativo, dada sua alta incidencia.

Em uma analise da literatura brasileira (nos seguintes bancos de dados: Index-Psi, Scielo, BSV-PSi e Pepsic, utilizandose os descritores, divorcio, recasamento e transicoes familiares) foram encontrados apenas 36 artigos, distribuidos ao longo de 23 anos (1984 a 2007). Concluise, pois, que ha uma escassez de estudos nessa area no Brasil, no dominio da psicologia. Esses artigos tratam de questoes diversas sobre o divorcio e o recasamento, que serao abordadas ao longo deste texto. Serao utilizados, tambem, trabalhos internacionais classicos e outros mais recentes, para contextualizar a tematica.

Assim sendo, o presente artigo tem como objetivo elucidar questoes teorico-metodologicas sobre divorcio e recasamento, ainda que de forma introdutoria, percorrendo, desse modo, topicos como: o divorcio no Brasil, um panorama social; os fatores relacionados a esse processo; o seu impacto nas familias; e como se configuram as familias pos-divorcio e familias recasadas. Com base na literatura, portanto, este artigo busca promover uma discussao a partir de pesquisas e dados brasileiros, a fim de compreender o estado da arte desse tema, bem como identificar lacunas a serem pesquisadas e diferentes possibilidades metodologicas. Pretende-se, pois, dar respaldo teorico e cientifico para as intervencoes, tanto dos psicologos, quanto dos outros profissionais que trabalham com familias.

Divorcio

Um Panorama no Brasil

A palavra "divorcio" vem do latim divortium, que quer dizer "separacao", que por sua vez e derivada de divertere, que significa "tomar caminhos opostos, afastar-se". Nesse contexto de significacoes, entende-se o divorcio como um processo que ocorre no ciclo vital da familia, desafiando sua estrutura e sua dinamica relacional. Conforme Cerveny (2002), a separacao do casal nao acaba com a familia, porem a transforma. Em outras palavras, a estrutura se altera com a dissolucao da conjugalidade, embora a familia, enquanto organizacao, se mantenha.

Juridicamente, a separacao judicial poe termo aos deveres de coabitacao, fidelidade reciproca e ao regime matrimonial de bens, como se o casamento fosse dissolvido (conforme art. 3[degrees] da Lei 6.515, 1977). Entretanto, convem salientar que a separacao nao extingue o casamento; ela estabelece um tempo, de, no minimo, um ano, para que os conjuges decidam o que realmente almejam. Por sua vez, o divorcio marca a dissolucao do casamento, ou seja, a separacao do marido e da mulher, conferindo as partes o direito de novo casamento civil.

Feres-Carneiro (2003) aponta que, na sociedade contemporanea, os divorcios aumentaram, porem isso nao significa o desprezo ao casamento, mas, ao contrario, sua valorizacao. A autora parte da hipotese que o casamento ainda e uma instituicao fundamental para a maioria das pessoas, pois quando o matrimonio nao corresponde as expectativas do casal, ocorre o divorcio. Nesses termos, as pessoas se divorciam porque esperam mais de seus casamentos, iniciando, entao, uma busca por novas relacoes e, se possivel, outro casamento. Essa conjetura vai ao encontro da suposicao do IBGE (2007) de que o numero de homens requerentes no processo de divorcio esteja aumentando devido ao interesse no recasamento, haja vista o crescente indice de homens divorciados que casam novamente.

As mulheres, por sua vez, ainda sao as que mais solicitam a separacao, considerando-se tanto a separacao judicial (72%) quanto o divorcio (53,4%). Esse dado pode ser confirmado por pesquisa realizada por Feres-Carneiro (2003), em uma amostra incluindo homens e mulheres das camadas medias da populacao do Rio de Janeiro. Por meio de entrevistas semi-estruturadas, que visavam a investigar como esses sujeitos vivenciaram o processo de dissolucao do casamento e reconstruiram suas identidades apos a separacao, a autora evidenciou que a decisao de separar-se e, na grande maioria dos casos, uma decisao das mulheres, sendo que os homens confirmaram esse resultado em suas percepcoes. Outro aspecto ressaltado e o de que, mesmo que a decisao de separacao seja predominantemente feminina, sao as mulheres que tomam a maior parte das iniciativas de dialogo, buscando alternativas para o relacionamento.

Em face dessa abordagem, ha que se considerar que a tomada de decisao por separar-se e multi-determinada. Ademais, a expectativa com relacao ao casamento, o que esperam da relacao, o que imaginam, e vivenciada de maneira distinta para os conjuges (Feres-Carneiro, 1997). Isso pode ser demonstrado por pesquisas (Feres-Carneiro, 1995, 1997, citada por Feres-Carneiro, 2003; Magalhaes, 1993) que relatam que a concepcao de casamento para os homens esta relacionada com a "constituicao de familia", enquanto que, para as mulheres, o casamento e concebido como "relacao amorosa".

Conforme dados do IBGE (2007), na maioria dos casos de divorcio, os filhos ficam sob a custodia da mae (89,5%). Apesar disso, convem ponderar que, do ponto de vista legal, foi recentemente estabelecida no Brasil a guarda compartilhada (3), que determina "a responsabilizacao conjunta e o exercicio de direitos e deveres do pai e da mae que nao vivam sob o mesmo teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns instituindo responsabilidades" (4). A guarda compartilhada ainda e rara, abrangendo somente 2,9% dos divorcios. Apesar disso, e possivel supor que, cada vez mais, o movimento pela guarda compartilhada aumente, em funcao nao apenas da alteracao legal registrada, mas, especialmente, da maior democratizacao nas relacoes entre homens e mulheres e a crescente reivindicacao dos homens a um papel mais ativo na criacao dos filhos.

Com relacao a guarda dos filhos, Feres-Carneiro (2003) evidencia que existe uma diferenca na percepcao de homens e mulheres em relacao aos filhos apos o divorcio. A autora salienta que as mulheres percebem seus filhos "sem tantos problemas", ate mesmo porque elas convivem mais com os mesmos e se encontram mais presentes no cotidiano deles. Os homens, por sua vez, tendem a perceber os filhos com mais dificuldades e problemas em frente ao processo de separacao, uma vez que, por estarem mais ausentes no dia-a-dia, tendem a projetar nos filhos suas proprias dificuldades e o sofrimento decorrente da ausencia causada pela separacao.

No Brasil (5), a duracao media dos casamentos e de dez anos e meio, sendo que os conjuges, na epoca de dissolucao, tem, em media, mais de trinta anos. No entanto, essa media de tempo apresentada nao deixa claro qual e o desvio padrao entre o menor e o maior tempo de duracao do casamento. Desse modo, a referida amostra tanto pode ser homogenea, como pode apresentar uma dispersao muito grande, ou seja, pode ser composta tanto por casamentos com mais de quinze anos quanto por casamentos curtos, com duracao de dois a tres anos, por exemplo, o que faz grande diferenca ao se pensar o impacto do divorcio gerado nas familias.

A partir desses dados, pode-se inferir o quanto, na atualidade, a familia vem se reconfigurando em decorrencia dessas transicoes e de mudancas sociais que alteram a sua organizacao. Ainda com base em dados do IBGE (2007), denota-se a incidencia do crescimento de familias monoparentais, pois os indices apontam que, em 47% dos domicilios, um dos pais esta ausente da constituicao familiar. Diante dessas consideracoes, ha que se pensar quais sao os outros aspectos que estariam concorrendo para que esses indices se configurem como tal, o que sera discutido a seguir.

Fatores Relacionados ao Processo de Divorcio

Peck e Manocherian (1980/2001) apontam que, entre alguns fatores etiologicos relacionados a incidencia do divorcio, encontram-se: a diferenca de status socioeconomico (quando a mulher ganha mais, instabilidade de renda e do emprego do marido); o menor grau de instrucao do homem (quando comparado com a sua esposa); a idade dos conjuges (quanto mais jovens, mais alta e a incidencia); a ocorrencia de gravidez pre-nupcial; a diferenca racial, e as questoes de genero.

A respeito da idade dos conjuges, esse dado e evidenciado por uma pesquisa brasileira (Feres-Carneiro, 2003) em que os entrevistados a apontam como um fator que dificulta o relacionamento conjugal, em funcao de opinarem que se casaram muito cedo (com menos de vinte e tres anos). Inclusive, em alguns discursos, isso fica evidente quando os entrevistados relatam terem se sentido ainda adolescentes e imaturos para assumir as responsabilidades do casamento.

Ao se analisar o fator referente as diferencas de genero, percebe-se que a luta do movimento feminista e toda a questao que envolve a igualdade de possibilidades entre os sexos acaba, de uma maneira ou de outra, influenciando no divorcio. A modificacao do papel da mulher no mundo ocidental e citada como um dos fatores que interferiram no crescimento do numero de divorcios (C. Araujo & Scalon, 2006; Biasoli-Alves, 2004; Goldani, 2002). A entrada no mercado de trabalho, atrelada a possibilidade de que a mulher se auto-sustente e conquiste a sua independencia financeira, possibilitou maior autonomia nas escolhas amorosas femininas. Afinal, se antes as esposas dependiam financeiramente do conjuge varao, muitas vezes se percebendo impossibilitadas de optar pela separacao, atualmente se evidencia que e mais remota a chance de que elas permanecam casadas por questoes financeiras (Goldenberg, 2003). Para corroborar esse fato, alguns autores descrevem o crescente numero de mulheres que sao chefes de familia, proporcionando o sustento financeiro de todos os membros (Fleck & Wagner, 2003; Testoni & Tonelli, 2006).

Essa questao e salientada por Biasoli-Alves (2004), que sustenta que o trabalho das mulheres fora do ambiente domestico acarretou diversas alteracoes na vida familiar, elevando a importancia de valores democraticos e produzindo alteracoes significativas na familia e no casamento. As mulheres, segundo a autora, apresentam-se menos dispostas a terem uma prole numerosa, para serem mais "livres" e ganharem maior autonomia no processo de escolha do companheiro, evidenciando, com isso, um maior grau de liberdade com menos interdicoes e sujeicoes ao conjuge.

Ha que se considerar, tambem, que esse fato diz respeito a apenas uma determinada classe social, pois outro fator que interfere no processo de divorcio e de separacao e o atinente a pertenca socio-economica e cultural dos conjuges. Verifica-se, mais comumente, que, em camadas populares, a separacao imprime configuracoes familiares diferentes daquelas de camadas medias e altas. Em populacoes de baixa renda, muitas vezes devido a questoes financeiras, que impedem o casal de manter duas casas separadas, o divorcio inaugura um modelo familiar baseado em redes de ajuda mutua, em que mais de uma familia residem juntas. Existem tambem situacoes em que se observam familias monoparentais, chefiadas por mulheres com filhos de diferentes relacionamentos (Fonseca, 2004). A alteracao do padrao economico, com o divorcio, e recorrente, como nos resultados da pesquisa de Souza (2000).

Ainda no que tange a questao de genero e de como os papeis dos conjuges foram sendo (re)construidos socialmente no decorrer dos anos (especialmente em face de qual seria o papel esperado da mulher e do homem no casamento), evidencia-se que as pesquisas legitimam as diferencas. Em trabalho citado anteriormente (Feres-Carneiro, 2003), foi verificado que a traicao masculina aparece como causa da maior parte das separacoes e, conforme e colocado (Goldenberg, 2000, citado por Feres-Carneiro, 2003), ha uma diferenca de sentimentos em relacao a infidelidade, haja vista que sao as mulheres as que relatam sentimentos de culpa pela traicao.

Goldenberg (2001) reflete que, apesar das transformacoes nos papeis masculinos e femininos, ate o momento presente se constata a permanencia de estereotipos sobre os sexos, como o do homem "galinha" e da mulher vitima, indefesa e fragil. Nesse sentido, Goldenberg (2001, 2003) pontua que essas transformacoes ocorrem de forma processual, havendo a coexistencia dos papeis tradicionais do masculino e do feminino com "novas" representacoes de genero, em que outros atributos sao considerados, como o do homem sensivel e fragil e da mulher independente e autonoma. Essas transformacoes interferem nas relacoes conjugais, mudam as exigencias da conjugalidade e provocam novos desafios e dificuldades, o que muitas vezes ocasiona o divorcio.

Apesar dos diferentes fatores que corroboram para que ocorra o processo de divorcio, ha que se considerar que, dependendo da cultura, da epoca e dos valores sociais compartilhados, esse processo acaba sendo vivenciado de outras formas. Ademais, ha que se levar em consideracao a fase do ciclo vital em que a familia se encontra quando da ocorrencia do divorcio.

Impacto do Divorcio nas Familias

Pesquisadores na area de familia ressaltam que o divorcio e um processo complexo, pluridimensional e que ocorre de forma diferenciada em cada familia (Feres-Carneiro, 2003; Schabbel, 2005). Sobre o tema, Peck e Manocherian (1980/2001) destacam que o periodo de crise decorrente da separacao do casal afeta todos os membros da familia, porem de forma individualizada. Logo, o divorcio e um processo singular, haja vista que ele tera maior ou menor impacto nas pessoas envolvidas dependendo de alguns fatores (economico, social, cultural, religioso), e, ainda, das redes de apoio que se estabelecem ou nao. Disso decorrem os diferentes graus de complicacoes que envolvem a familia.

Somado a esses fatores, evidencia-se o momento do ciclo vital em que a familia se encontra, o que tambem imprime outras peculiaridades a separacao. Peck e Manocherian (1980/2001) descrevem o impacto que a familia pode sofrer em cada uma das fases: divorcio em recem casados, em familias com filhos pequenos, com filhos adolescentes, com filhos jovens, e em casais no estagio tardio de vida.

Conforme Peck e Manocherian (1980/2001), o divorcio em recem casados e visto como o de melhor resolucao, uma vez que envolve menos tempo de convivio e poucos lacos familiares. Salientam que comecar a vida de novo e menos dificil, uma vez que ambos tem experiencias recentes de como e ser solteiro. Outro aspecto importante e que, muitas vezes, o casamento pode ter sido uma tentativa de independencia, de um ou ambos os conjuges, uma forma de 'sair de casa', ou, ainda, de se diferenciar da familia de origem. Assim, de fato, as questoes pendentes e nao resolvidas, em sua maioria, referem-se a familia de origem, e nao a familia recem constituida. Ressalta-se que esses autores se referem aos casais jovens com pouco tempo de casados, e nao aos casamentos longos e sem filhos, cujo impacto nos conjuges seria diferenciado dos primeiros.

As familias com filhos pequenos tem dificuldade na comunicacao sobre a decisao de separacao do casal, o que pode gerar confusao para os filhos sobre o que esta acontecendo. Frequentemente, a falta de comunicacao intrafamiliar ocorre pela ideia de que falar pode prejudicar a crianca, de modo que os filhos mantem o silencio, que e compreendido pelos pais como ausencia de dificuldades (Souza, 2000).

Souza (2000) entrevistou quinze adolescentes que vivenciaram a separacao dos pais durante a infancia. Em relacao ao periodo em que o evento ocorreu, dez participantes relataram que identificaram o conflito conjugal, e cinco, que nao o fizeram. O marco da separacao para as criancas foi a saida do pai de casa. Os sentimentos recorrentes entre eles foram de tristeza, angustia, raiva e medo do que poderia acontecer. No entanto, reconheceram que a separacao foi uma solucao para as dificuldades da familia.

Em pesquisa realizada para compreender como criancas e pre-adolescentes concebem as modificacoes, no ciclo de vida familiar, decorrentes da separacao e de novas unioes parentais, Ramires (2004) salienta que quanto menores sao as criancas, mais elas apresentam desejos e fantasias de terem a familia novamente reunida, ao passo que as criancas com idade escolar, geralmente as mais vulneraveis, apresentam queixas escolares, profundo sentimento de perda, dor e pesar.

Conforme Ramires (2004), a qualidade dos vinculos constituidos se torna um elemento importante no fator de resiliencia (6) em frente as transicoes familiares. Do mesmo modo, quanto maior o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social, melhor a capacidade de enfrentamento das criancas e adolescentes, favorecendo, dessa forma, os mais velhos.

Pesquisas (Nock, 1981; Peck & Manocherian, 1980/2001; Wendt, 2006) mostram uma maior ocorrencia de separacoes e divorcios em familias no periodo da transicao para a parentalidade, ou seja, no periodo que se desenrola desde o nascimento do primeiro filho ate os dezoito meses deste. Essa deve ser considerada uma transicao normativa, universalmente aceita e que precisa ser estudada principalmente a partir do modo como o nascimento da crianca afeta os padroes de interacao do casal e a evolucao dos mesmos na familia (Nock, 1981). Os autores pontuam que isso ocorre em funcao de problemas conjugais anteriores ao nascimento dos filhos, que se intensificam com as novas tarefas desenvolvimentais da familia (Peck & Manocherian, 1980/2001; Wendt, 2006).

Os filhos pre-adolescentes, amiude, assumem o papel de cuidadores em relacao as figuras parentais, adotando atitudes de cuidado e protecao (Ramires, 2004). Ja os filhos adolescentes que vivenciam a separacao conjugal dos genitores necessitam lidar com uma carga adicional, pois, alem das dificuldades inerentes a transicao da adolescencia, vivenciam a crise familiar ocasionada pelo divorcio. Nesse periodo, geralmente, as dificuldades familiares se acentuam entre pais e filhos, porque ambos os polos estao passando por questoes semelhantes, que dizem respeito a independencia, sexualidade e novos relacionamentos.

Os casais com filhos jovens que sairam de casa cedo passam a priorizar a conjugalidade e tem maior liberdade para optar pela separacao. A ocorrencia de uma separacao nessa fase do ciclo vital faz com que os filhos, que, na sua maioria, ja estabeleceram relacionamentos estaveis, passem tambem a se preocupar com suas relacoes amorosas, uma vez que o modelo familiar de conjugalidade foi desfeito.

Quando as separacoes ocorrem no estagio tardio de vida, costumam ser um choque para a familia, por causa da ruptura de um vinculo que todos esperavam que fosse "para sempre". Isso causa surpresa e espanto e, em regra, envolve mais de duas geracoes, redefinindo, consequentemente, os valores morais de todos os seus membros (Peck & Manocherian, 1980/2001).

Entretanto, alem da fase do ciclo vital em que a familia se encontra, ha que se considerar, conforme Travis (2003), as expectativas do casal. Mesmo que as mudancas sejam desejadas, no caso do divorcio, elas envolvem perdas e sofrimentos, pois muitas coisas que foram importantes para os envolvidos no processo sao deixadas pra tras. Autores como Ahrons (1980) e Hetherington (1991) propoem um periodo de dois a tres anos ate que ocorra um processo de ajustamento pos-divorcio, no qual se possa considerar que ocorreu certa homeostase familiar.

Souza e Ramires (2006) salientam que o divorcio e um processo de crise e ruptura no qual a familia busca novas respostas e que isso nao pode ser confundido com problemas de ajustamento ou de saude mental. As autoras confirmam que o periodo envolve tensao e sofrimento, porem, em longo prazo, os efeitos negativos nao sao tao frequentes como supunham.

Na pratica clinica de terapeutas de familia, a separacao conjugal aparece como uma das transformacoes mais frequentes, e e de consenso considerar esse processo e suas consequencias como um evento familiar mais facilmente assimilado hoje do que alguns anos atras (Travis, 2003). Conforme dados levantados pela autora, atualmente os filhos de pais separados sao mais aceitos e socialmente amparados por colegas e pela escola do que em anos idos, quando havia maior preconceito.

Com o passar do tempo, o divorcio pode ser benefico para os membros da familia, que percebem uma melhora na qualidade de vida, tanto dos ex-conjuges como dos filhos. Assim como, passada a crise inicial, os ex-conjuges tendem a valorizar a sua liberdade, os sentimentos de autovalorizacao e autonomia (Wagner & Feres-Carneiro, 2000). Desse modo, percebe-se que o processo acaba contribuindo para a resiliencia dos membros da familia, muitas vezes favorecendo o amadurecimento emocional dos pais, o que acarreta consequencias positivas para os filhos.

Portanto, se o processo de separacao e vivenciado de modo a possibilitar

esse amadurecimento emocional, em que a propria situacao e os conflitos possam ser resolvidos sem isencao de sofrimento e pesar, pode-se dizer que os conjuges estarao mais preparados para novos relacionamentos, isso e, mais 'livres', no sentido de terem menos pendencias com suas relacoes passadas.

Familias Pos-Divorcio e Recasamentos

Nos ultimos anos, houve um consideravel numero de alteracoes nos padroes do ciclo de vida familiar, entre as quais se citam o menor indice de natalidade, as mudancas no papel da mulher, o aumento da expectativa de vida e, como ja foi afirmado, o aumento no indice de divorcios e recasamentos, imprimindo outras configuracoes e desafios para o sistema familiar em termos de tarefas a serem enfrentadas (Ahrons, 2007; Carter & McGoldrick, 1980/1995; Fonseca, 2004). Desse modo, pode-se considerar que o divorcio e o recasamento, de fato, sao elementos que alteram diretamente a estrutura e a dinamica familiar, modificando padroes sociais e proporcionando outras configuracoes familiares a sociedade.

Com relacao ao processo de divorcio, Brown (1980/2001) o divide em tres fases: a primeira compreende o primeiro ano apos a separacao, conformando um periodo de caos, confusao e crise; a segunda, o realinhamento, caracterizase por ser uma fase de transicao, em que as questoes economicas, sociais e extrafamiliares vao sendo reorganizadas entre o segundo e terceiro ano apos a separacao; e, por fim, a fase da estabilizacao, na qual se poderia dizer que, com efeito, ha uma reorganizacao do sistema familiar.

O processo pos-divorcio engloba inumeros ajustamentos, envolvendo desde a familia de origem ate a familia extensa, incluindo amigos e comunidade/sociedade. Visher e Visher (1988) oferecem uma importante contribuicao ao destacar que a familia recasada e uma familia que se constituiu de perdas, de modo que e muito importante que as mesmas sejam reconhecidas e tambem elaboradas. Salientam, com isso, a importancia do processo terapeutico de modo a auxiliar os casos em que esta resolucao nao e vivida de forma satisfatoria. Nazareth (2004), citada por Cerveny (2002), ressalta que toda separacao tem consequencias para os envolvidos, e mesmo as separacoes desejadas, decorrentes de anos de insatisfacao e sofrimento, acarretam sentimentos de perda, solidao, vazio e tristeza, caracteristicas que permeiam o periodo pos-divorcio.

Quando esse processo nao e satisfatoriamente resolvido, tende a ocasionar conflitos de diversas ordens, e tambem 'guerras' judiciais. E premente, portanto, a necessidade de auxilio profissional, seja de terapeutas familiares ou, fenomeno recente, de mediadores. A mediacao visa a melhorar a capacidade de dialogo para alcancar uma solucao mais afavel para os conflitos (Schabbel, 2005).

O periodo imediatamente apos a separacao implica em varias mudancas para os membros da familia. Os adolescentes entrevistados por Souza (2000) referiram-se as mudancas na vida, isto e, mudancas de moradia, de cidade, de escola, de transporte escolar, enfim, mudancas na rotina diaria, e, ainda, mudancas nos relacionamentos - com os pais e com os irmaos. Relataram, ademais, aproximacao e/ ou afastamento da familia materna e paterna, afastamento de amigos do pai e/ou da mae, e perda de amigos. A autora ressalta que a situacao do divorcio dos pais envolve inumeras perdas, o que gera alteracoes na rotina diaria, tanto das criancas, quanto dos adultos.

O apoio oferecido pela familia extensa, pelos amigos e pela escola e fundamental nesse processo apos o divorcio, sendo considerada toda a rede de apoio social da familia. M. R. G. L. Araujo e Dias (2002) investigaram o apoio oferecido pelos avos aos netos apos a situacao de separacao dos pais. Essas autoras dividiram o tipo de suporte oferecido em: (a) emocional, que incluia acoes de acarinhar, aconselhar, visitar, passear e dar informacoes; e (b) instrumental, isto e, que compreendia a ajuda financeira, o preparo de refeicoes, e a ajuda para se alimentar e elaborar tarefas escolares. Os resultados dessa pesquisa indicaram uma preferencia dos avos pelas atividades emocionais, notando um aumento da mesma apos o periodo de separacao. Nesses achados, destaca-se a importancia da familia extensa no periodo de transicao pos-divorcio.

A reorganizacao da vida familiar demora alguns anos. Na pesquisa de Souza (2000), por exemplo, os adolescentes referiram o periodo entre dois e quatro anos para essa reorganizacao ocorrer. Nesse estudo, os participantes consideraram positiva a reducao dos conflitos e o estabelecimento de uma relacao positiva entre os pais, a compreensao das consequencias da separacao em suas vidas, e as novas relacoes conjugais dos pais. Mas, por outro lado, destacaram a perpetuacao do conflito no sistema de guarda, pensao e visitas, a superprotecao materna ou da familia extensa, e, do mesmo modo, as novas relacoes conjugais dos pais. A autora reflete que os novos parceiros parentais podem tanto ser considerados sob o aspecto positivo, como negativo.

Quando se fala de familia, por mais que se relativizem os conceitos e os termos utilizados, geralmente a ideia ainda esta muito associada a imagem de pai, mae e filhos. Travis (2003) enfatiza que na literatura sobre recasamento ha uma posicao e um status diferenciado para a familia nuclear, enquanto que as familias reconstituidas caberia uma posicao de menor destaque. Entretanto, nos dias de hoje, ja nao e tao incomum ouvir descricoes de outros padroes e diferentes organizacoes familiares.

Conforme trazem Souza e Ramires (2006), as criancas e os adolescentes atualmente podem, em funcao dessas modificacoes familiares, responder de uma maneira muito inusitada a uma pergunta simples. Por exemplo, a questao "Voce tem irmaos?", ao inves dos esperados "sim" ou "nao", a resposta pode ser "depende". As autoras argumentam que, em funcao de recasamentos e novas unioes, os filhos passam hoje a conceber a familia de outras formas, algumas vezes incluindo meios-irmaos, outras vezes considerando apenas a familia nuclear, segundo uma vasta possibilidade de rearranjos.

As novas configuracoes familiares tambem foram observadas na pesquisa realizada por Wagner e Feres-Carneiro (2000). As autoras pesquisaram adolescentes provenientes de familias originais (FO) ou intactas, isso e, compostas por pai, mae e filhos biologicos, e familias reconstituidas (FR), ou seja, aquelas em que os pais eram separados do primeiro conjuge e mantinham uma relacao estavel com um novo companheiro ha, no minimo, seis meses, coabitando com os filhos do primeiro casamento. Nessa pesquisa, os participantes realizaram a representacao grafica da familia. Do total, 45,7% dos adolescentes de FR desenharam os membros que coabitavam no momento atual, considerando os novos membros da familia. As autoras concluiram que as variaveis coabitacao, consanguinidade e tempo de recasamento foram as mais importantes na definicao dos nucleos recasados.

Travis (2003), em pesquisa realizada com terapeutas de familia e que tinha como objetivo verificar as percepcoes destes acerca do recasamento, evidenciou que eles tem dificuldades em definir a familia, devido a variedade de modelos existentes e socialmente aceitos na atualidade. Assim, refletir sobre o recasamento envolve considerar diferentes padroes familiares.

A palavra recasamento esta longe de ser a melhor expressao para designar esta nova uniao, haja vista que o uso do prefixo "re" traz a ideia de repeticao, de reformulacao e de recriacao, o que, por sua vez, nos remete a pensar em remendo e reconstituicao, trazendo uma conotacao negativa, como se antes existisse uma uniao mais original ou verdadeira. Desse modo, a familia nuclear e ainda vivenciada como mais valorizada e legitima, como se o que fugisse a esse padrao fosse de menor valor (Brun, 1999, citado por Travis, 2003).

Ao considerar-se os dados brasileiros, com base no IBGE, verifica-se que, somente no ano de 1994, foram registrados 29.690 casamentos entre divorciados e solteiras, 11.528 entre divorciadas e solteiros, e 5.867 entre divorciadas e divorciados (IBGE, 1994). A proporcao de casamentos entre individuos divorciados com conjuges solteiros e crescente, principalmente entre homens divorciados que se casam com mulheres solteiras. O indice que, em 1995, era de 4,1%, foi para 6,3% no ano de 2005 (IBGE, 2007).

Analisando-se os dados e tendo como base que eles fazem referencia a situacao dos brasileiros ha mais de dez anos, e, ainda, que muitos recasamentos acabam ocorrendo de modo consensual, ou seja, sem qualquer registro ou procedimento legal, pode-se constatar que o numero de divorciados que se casam novamente e muito elevado. Acrescido a isso, tem-se o aumento do indice de divorcios, de modo que se pode inferir que, atualmente, os recasamentos devam ocorrer em numeros mais elevados do que demonstram os dados estatisticos disponiveis.

Ao se analisar os fatores que influenciaram as mudancas dos padroes do ciclo vital, verifica-se que o aumento da expectativa de vida contribuiu para o incremento do numero de recasamentos. Afinal, se antes as pessoas resignavamse a situacoes infelizes, por se considerarem "muito velhas" para mudar de vida, agora elas optam pelo divorcio, buscando relacionamentos mais felizes.

Desse modo, retoma-se a hipotese de Feres-Carneiro (2003), que considera que os casais buscam o divorcio por acreditarem que o casamento possa ser algo mais do que aquilo que suas relacoes oferecem. Isso pode ser tambem compreendido com a afirmacao de Carter e McGoldrick (1980/1995) de que, no recasamento, as pessoas buscam encontrar a satisfacao de expectativas anteriores ao primeiro casamento.

Entretanto, diferentemente da primeira uniao, a familia recasada encontra outros desafios que envolvem os sistemas familiares. Apresentam-se questoes relacionadas a associacao dos membros, ou seja, a ponderacao sobre quem faz ou nao parte dessa familia. Ademais, ha variacoes nos aspectos de autoridade dos pais em frente aos filhos, isto e, sobre qual e o espaco de cada um na familia. Por fim, podese inferir uma alteracao na percepcao da administracao do tempo, quer dizer, na decisao sobre a quem dedica-lo, se aos filhos ou ao novo conjuge, e, ainda, sobre como fazer as re-unioes entre as familias extensas.

Carter e McGoldrick (1980/1995) salientam que o processo de recasamento envolve maior complexidade, uma vez que mais sistemas familiares estao envolvidos, de modo que a bagagem emocional e as tarefas desenvolvimentais do ciclo vital se tornam um desafio a mais para o casal que recasa. Quando ha o recasamento, alem dos ajustes decorrentes da uniao entre as familias envolvidas, ha outros elementos que se colocam em face deste novo relacionamento, tais como a familia de origem, o primeiro casamento, o processo de separacao/divorcio, e tambem o periodo entre os casamentos.

Diante do exposto, ha que se considerar que sao diversas as questoes que devem ser consideradas ante a familia recasada, pois, alem do que foi dito, pode ocorrer que um dos conjuges desse novo casamento ainda nao tenha sido casado, de modo que, ao estabelecer um recasamento, este se depare com a vivencia de outras fases do ciclo vital pelas quais ainda nao tenha passado. Desse modo, nao e incomum encontrar casais em que a esposa nunca foi mae ou nem passou por um ajustamento conjugal, mas ja esteja desempenhando o 'papel' de madrasta, tendo que dar conta de obrigacoes que envolvem desde a administracao do lar ate o cuidado com os filhos do conjuge. Essas peculiaridades que envolvem o recasamento devem ser levadas em conta, tanto para se pensar em termos de pratica clinica como para o desenvolvimento de novas pesquisas, uma vez que se tratam de fatores que permeiam a configuracao de novos padroes e modelos de familia - modelos estes cada vez mais presentes na sociedade brasileira atual.

Pesquisas e Possibilidades Metodologicas

As pesquisas brasileiras evidenciam que o divorcio ja foi estudado a partir de diferentes perspectivas, tais como: na visao dos filhos (Brito, 2007; Souza, 2000; Souza & Ramires, 2006), no papel dos avos (M. R. G. L. Araujo & Dias, 2002), nas contribuicoes da mediacao (Schabbel, 2005), nas crencas e valores dos adolescentes (Wagner, Falcke, & Meza, 1997), e na vivencia dos conjuges (Feres-Carneiro, 1998, 2003). Historicamente, Souza e Ramires (2006) referem que os primeiros estudos, feitos ainda quando o divorcio nao era regulamentado, traziam muito presente a ideia da patologia, devido as alteracoes emocionais que causava. Em outros termos, era tido como algo nao normativo, que fugia a regra. Essa ideia foi (e ainda e) corroborada pela religiao (7), que traz a nocao de imoralidade e de transgressao -- como se o divorcio fosse algo ligado ao pecado, devendo ser banido do meio social.

Desse modo, as pesquisas levadas a efeito enfocavam os problemas decorrentes do divorcio, afirmando, por exemplo, que os filhos de pais divorciados apresentavam mais dificuldades que os filhos de casais nao divorciados. No entanto, Schabbel (2005) refere que o tema do divorcio foi, durante muito tempo, estudado de forma fragmentada, evidenciando problemas metodologicos que podem incorrer em resultados descontextualizados da realidade das familias.

Os estudos longitudinais sao referidos como ricos na construcao de novas metodologias de pesquisa nesta area. Souza e Ramires (2006) descrevem a pesquisa de Virginia Longitudinal Study, iniciada por Hetherington, na decada de 60, como uma referencia em estudos longitudinais com familias. Esse estudo analisou, durante duas decadas, quase 1.400 familias, o que possibilitou comparar familias casadas com familias divorciadas, e identificar os problemas associados a separacao e aqueles que eram comuns em determinados momentos do ciclo vital no contexto da sociedade americana.

A possibilidade de comparar as familias casadas com as familias divorciadas evidenciou que a literatura anterior exagerava nas consequencias negativas da separacao, a longo prazo, e ignorava os aspectos positivos da mesma (Souza & Ramires, 2006). As reacoes negativas iniciais, vivenciadas pelos membros da familia no periodo de divorcio, expressam a crise atual, e nao necessariamente representam um comprometimento de longa duracao (Souza, 2000).

O numero de divorcios modificou-se ao longo dos anos e as pesquisas nessa area ampliaram o foco de estudo. Na literatura nacional e internacional pesquisada, encontramse investigacoes referentes aos diferentes momentos do ciclo vital da familia. Alguns autores enfocam o divorcio em familias com criancas pequenas e pre-adolescentes (Ahrons, 2007; Kier, Lewis, & Hay, 2000; Mitcham-Smith & Henry, 2007; Ramires, 2004; Souza & Ramires, 2006), outros focalizam as familias com filhos adolescentes (Souza, 2000; Storksen, Roysamb, Holmen, & Tambs, 2006), outros, ainda, abordam a rede de apoio das familias divorciadas (M. R. G. L. Araujo & Dias, 2002), as familias recasadas ou com novas configuracoes familiares (Wagner et al., 1997; Wagner & Feres-Carneiro, 2000), e o uso da mediacao nas separacoes conjugais (Schabbel, 2005).

Os temas divorcio e recasamento constituem um vasto campo de pesquisas e intervencao. As possibilidades metodologicas sao evidentes, seja em estudos transversais (Kier et al., 2000; Ramires, 2004; Souza, 2000; Souza & Ramires, 2006; Wagner et al., 1997; Wagner & Feres-Carneiro, 2000), seja nos longitudinais (Hetherington, 1991).

Os participantes das pesquisas podem ser desde familias, criancas, adolescentes, adultos e redes de apoio ate profissionais da area (advogados, assistentes sociais, medicos, professores, psicologos). E os instrumentos utilizados podem incluir o uso de entrevistas (abertas, semi-estruturadas), escalas, inventarios, frases incompletas, figuras projetivas, uso de desenho e historias.

Ha a necessidade de estudos sobre os diferentes padroes familiares para subsidiar a pratica clinica e os modelos de atendimento. Os resultados dos estudos aqui citados mostram a necessidade da criacao de programas de prevencao e promocao a saude das familias. Conforme evidenciou Travis (2003) em sua pesquisa, a maioria dos terapeutas de familia pesquisados nao considera relevante lancar mao de conhecimentos especificos no atendimento de familias recasadas, constatando tambem que estes, em sua maioria, nao tem proximidade com leituras sobre o tema. Desse modo, e diante do que foi exposto no decorrer deste artigo, ressaltam-se principalmente as peculiaridades envolvidas no recasamento, e frisa-se a importancia de outros estudos brasileiros que melhor contextualizem essa realidade.

Consideracoes Finais

Os processos de divorcio e separacao, assim como os de recasamento, mostram-se atuais e importantes no cotidiano das pessoas. Dessa forma, a construcao de metodologias de intervencao condizentes com as peculiaridades e as particularidades das pessoas que vivenciam essas situacoes (familias recasadas, familias divorciadas, monoparentais) torna-se imprescindivel. Contudo, para que isso se efetive de forma plausivel, sao necessarias pesquisas que embasem melhor as acoes dos profissionais que atuam nessa area. Schabbel (2005) salienta a necessidade de pesquisas interdisciplinares, trazendo a tona a urgencia do trabalho conjunto de pesquisadores de diferentes areas do conhecimento, que possam, assim, contemplar a complexidade e as peculiaridades dos processos de divorcios e recasamentos que as familias vivenciam.

Ao pesquisar a literatura sobre o tema, observaram-se lacunas no campo de intervencao e de pesquisa. O divorcio e o recasamento podem ocorrer em todos os momentos do ciclo vital da familia, mas os estudos encontrados enfocam principalmente as familias com filhos pequenos e adolescentes. Portanto, estudar tais transicoes nos demais momentos do ciclo vital se torna relevante para compreender o impacto gerado nos membros envolvidos, e as diferentes reorganizacoes no processo de separacao e recasamento.

Acredita-se que novos estudos sejam imprescindiveis para subsidiar a pratica de forma coerente com a realidade das familias brasileiras, e que estes possam tratar, por exemplo, da fratria dos filhos com pais em processo de separacao conjugal, da rede de apoio do homem e da mulher, da separacao em casais homossexuais, bem como das questoes que envolvem a guarda dos filhos, das alteracoes do papel do homem e da mulher no casamento, decorrentes das mudancas sociais, e, por fim, os desdobramentos do divorcio ao longo do tempo.

Ao final desta analise, destaca-se que as modificacoes nas familias, nos ultimos anos, decorrentes do divorcio e recasamento, acarretam tambem modificacoes nas concepcoes dos relacionamentos, em que se observa a convivencia de padroes familiares "tradicionais" e "modernos". Entretanto, conforme Goldenberg (2003), apesar de o divorcio e o recasamento estarem cada vez mais presentes na atualidade, muitas pessoas que vivenciam estes relacionamentos ainda se sentem como "desviantes". Desse modo, as tematicas desenvolvidas merecem ser estudadas a luz de seus contextos e realidades, em decorrencia de que, no momento atual, se descortinam diferentes valores relacionados a familia, abrindo espaco para esta reflexao.

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(1) Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1977, que "Regula os casos de dissolucao da sociedade conjugal e do casamento, seus efeitos e respectivos processos, e da outras providencias". Esta lei entrou em vigor na data da publicacao, ou seja, em 27 de dezembro de 1977.

(2) No que tange as necessarias diferenciacoes conceituais entre "divorcio" e "separacao", consultar o topico sobre divorcio -- Um panorama no Brasil.

(3) Lei no 11.698, de 13 de junho de 2008, que "Altera os arts. 1.583 e 1.584 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 -- Codigo Civil, para instituir e disciplinar a guarda compartilhada".

(4) Nos termos do [section] 10, do art. 1.583, do Codigo Civil, alterado pela Lei 11.698, de 13 de junho de 2008.

(5) Dados do IBGE (2007).

(6) Trata-se da capacidade de competencia e adaptacao da pessoa e do sistema familiar, de lidar com sucesso frente as situacoes de estresse, crise e adversidade. Assim, em uma situacao de risco e vulnerabilidade, ha uma mudanca da pessoa no sentido adaptativo, de transformacao e flexibilidade em frente as crises, sendo que essa resposta depende das situacoes, de fatores pessoais e de protecao, do individuo e sua familia (Ruther, 1987).

(7) A religiao e entendida, aqui, no sentido tradicional, nao fazendo alusao especial a nenhum credo especifico, e, sim, aos preceitos da moral e dos bons costumes, que colocavam o casamento acima de tudo, de modo que este deveria ser mantido a todo custo.

Debora Staub Cano *, Leticia Macedo Gabarra, Carmen Ocampo More & Maria Aparecida Crepaldi

Universidade Federal de Santa Catarina

* Endereco para correspondencia: Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Psicologia, Laboratorio de Psicologia da Saude, Familia e Comunidade, Campus Universitario Trindade, Florianopolis, SC, Brasil, CEP 880409000. Email: deborascano@hotmail.com

Recebido: 30/02/2007

1a revisao: 18/12/007

2a revisao: 22/07/2008

3a revisao: 21/08/2008

4a revisao: 26/09/2008

Aceite final: 02/10/2008
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Author:Cano, Debora Staub; Gabarra, Leticia Macedo; More, Carmen Ocampo; Crepaldi, Maria Aparecida
Publication:Psicologia: Reflexao & Critica
Article Type:Report
Date:Jun 1, 2009
Words:7957
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