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FRANCISCO RODRIGUEZ ADRADOS, El cuento erotico griego, latino e indio.

FRANCISCO RODRIGUEZ ADRADOS, El cuento erotico griego, latino e indio. Ilustracoes de Antonio Mingote, Barcelona, Ariel, 2013. 348 pp. ISBN 978-84344-1452-5

Nesta antologia, Francisco Rodriguez Adrados reune e traduz uma variedade de textos eroticos antigos, pontualmente ilustrados com desenhos de Antonio Mingote. As traducoes partem dos originais em grego, latim, sanscrito e castelhano medieval, tendo sido, na sua maioria, elaboradas de proposito para este volume. Depois de uma breve introducao, encontramos no livro tres seccoes que reunem sucessivamente textos gregos, latinos e indianos, ordenados de forma cronologica; seguem-se tres estudos em que Adrados apresenta reflexoes sobre o conto erotico antigo; como apendice, surge a traducao do hino homerico a Afrodite. Uma vez que aborda um genero literario e uma tematica frequentemente ausentes nos programas curriculares, a saber, o conto e o erotismo, o livro sera de grande utilidade para docentes e discentes das mais diversas licenciaturas e para o publico em geral. Muitos dos textos sao praticamente desconhecidos entre os classicistas.

Na introducao, Adrados explica que decidiu incluir aqui apenas as historias que, tendo tido a sua origem na Grecia antiga, exerceram influencia na literatura latina e indiana, no seio das quais sofreram as mais diversas alteracoes. Que todas estas historias tiveram uma origem comum, helenica, e uma conclusao a que chega ao fim de um longo trabalho de recolha e analise de textos (pp. 18-19). Certamente, refere, historias de amor e sexo sao universais, mas nos textos aqui analisados predomina a satira, pelo que devem ter tido origem no contexto de algumas celebracoes religiosas gregas e de ditos populares gregos, em que a satira era um denominador comum (p. 17).

Na antologia grega, que inclui trinta e oito textos, encontramos, por exemplo, a historia do marido que se apaixona pelo amante da mulher (p. 63) e a do homem que consegue entrar na alcova de uma mulher casada, depois de ter descoberto o sinal que esta havia combinado com o seu amante (pp. 56-57). Um dos excertos revela aspectos pornograficos da relacao de Esopo com a sua ama e a inocencia do marido ingenuo desta (pp. 73-74). Da mesma forma, na seccao latina, que inclui quarenta e um textos, podemos 1er a historia da alcoviteira que persuadiu uma mulher casta a cometer adulterio (pp. 132-134) e a da adultera que conseguiu convencer o marido ingenuo de que o amante com quem ela efectivamente estava a passear era, afinal, fruto da imaginacao dele (pp. 127-128).

A seccao indiana inclui trinta e tres textos. Encontramos aqui a historia de um jovem timido que so sabia dizer uma frase, mas que consegue seduzir as mais belas mulheres do reino (pp. 199-204) e a da mulher que consegue salvar a fortuna do marido, com a ajuda de quatro potenciais amantes a quem ela promete mas nao concede favores sexuais (pp. 226-030). Temos tambem o famoso prologo das Mil e Uma Noites, que narra o auto-exilio de dois principes desiludidos com o amor (pp. 231-237).

Depois desta antologia, temos o primeiro estudo incluido no volume, que aborda as origens e a disseminacao do conto erotico. Indagando as origens, Adrados remete para as celebracoes em honra de Demeter e Dioniso, que podiam as vezes incluir momentos em que homens e mulheres se confrontavam ritualmente, insultando-se mutuamente (como em Argos e Egina, por exemplo). Desse tipo de praticas tera surgido um leque de topicos eroticos e anti-femininos que depois encontramos na literatura dos periodos arcaico e classico (pp. 262-263). Esses topicos serao de uma grande relevancia para a formacao do conto erotico grego, que se caracteriza por ter a mulher como protagonista, na medida em que e ela quem se enamora, seduz e engana. A satira das mulheres e um aspecto essencial deste genero literario (p. 266).

Adrados refere tambem que o protagonismo da mulher nao e novidade do conto erotico grego, ocorrendo ja na tradicao mesopotamica. Mas existem algumas particularidades helenicas: o tema do amor serodio, o motivo da homossexualidade e, ainda que excepcionalmente (como em Arquiloco), o protagonismo do homem (pp. 266-269).

A disseminacao do conto erotico grego da-se por tres vias distintas. Em primeiro lugar, foi no processo de disseminacao das antologias de contos que o conto erotico se foi, tambem ele, difundindo. Por volta de 300 a.C., Demetrio de Faleros compoe uma primeira antologia de contos, em que inclui toda a sorte de historias, algumas de natureza erotica. A pratica de criar esse tipo de coleccoes foi largamente favorecida pelos cinicos, que usaram as historias como recursos literarios para satirizar convencoes sociais (p. 259). Em segundo lugar, os contos eroticos foram sendo disseminados no ambito da literatura biografica, onde eles surgiam com frequencia (veja-se, por exemplo, a Vida de Esopo e o Satiricon de Petronio). Em terceiro lugar, as historias eroticas foram sendo difundidas no processo de divulgacao de textos mais diversos onde elas surgem pontualmente das mais variadas formas (pp. 259-260).

No segundo estudo aqui incluido, Adrados descreve as fontes a partir das quais compoe a sua antologia. Destaca-se a importancia da Coleccao Augustana, que deve remontar pelo menos ao seculo I a.C., mas que integra conteudos mais antigos e chega ate nos numa versao dos seculos IV-V da nossa era. Contem poucas historias eroticas, mas o cunho cinico fica bem patente nas consideracoes moralistas nelas incluidas (pp. 277-279). Dependente desta coleccao parece ser a Coleccao Accursiana, do seculo IX, que foi a principal via de difusao de fabulas gregas na Europa a partir do seculo XV (pp. 279-280). De um modo geral, os contos de Fedro tambem derivam da Coleccao Augustana, nomeadamente, de uma versao desta que se encontrava em circulacao na epoca (pp. 289-291). Destaca-se a antologia de Babrio (c. 100 d.C.), porque o autor, apesar de se basear em coleccoes antigas, procurou despojar o conto dos juizos moralizantes que eram parte integrante deste genero literario (p. 282).

Na India, o conto erotico nao ocorre de forma autonoma, apenas surgindo em antologias de contos, que por sua vez datam de uma epoca posterior a da expedicao de Alexandre. Dai se pressupor que o conto erotico aqui tenha tido origens gregas, ainda que nele coexistam elementos autoctones e de proveniencia mesopotamica (pp. 296-297). Dito isto, analisando os conteudos, observa-se que apenas um conto indiano deriva claramente de um conto grego (p. 300), noutros casos a influencia helenica sera sempre uma conjectura (pp. 296-300). A coleccao indiana mais antiga, a Tantrakhyayika, data do seculo II a.C. Ligeiramente posterior e a Panchatantra, mas o seu processo de compilacao prolonga-se ate a Idade Media (pp. 303-306).

A novidade das coleccoes indianas e que nelas os varios contos surgem interligados numa narrativa unificadora, na medida em que constituem historias, de caracter moralizante, que um conselheiro conta ao seu rei. Esse caracter moralizante e reminiscente da fabula greco-latina, mas a satira as mulheres e homossexuais, tao cara ao conto erotico greco-latino, esta ausente no erotismo indiano (pp. 297-298). Em termos estilisticos, o conto indiano e relativamente longo, florido e intercala a poesia com a prosa, ja o conto greco-latino e curto, de narrativa simples e geralmente em prosa (p. 300).

O terceiro e ultimo estudo incluido no volume e sobre o papel decisivo do cinismo na difusao de contos eroticos. Por um lado, os cinicos, que, tal como os seguidores de outras correntes filosoficas da epoca, conceberam o amor como paixao a evitar, usaram preferencialmente os contos eroticos para ilustrar os desvarios a que esse sentimento podia levar (pp. 311-312). Estes contos integravam elementos satiricos que facilmente podiam ser usados para cumprir o objectivo, visado pela filosofia cinica, de ridicularizar e denegrir o amor. Por outro lado, como se viu acima, os cinicos foram eximios a coleccionar historias eroticas e deixaram nelas a marca de uma condenacao moralista do amor. Por influencia cinica, essa condenacao surge como o traco distintivo do conto erotico greco-latino. Nas historias indianas, o amor adquire um caracter positivo, quase salvifico (p. 320).

Deixamos, de seguida, algumas criticas a este livro, que, no entanto, de forma alguma poderao afectar o seu grande merito. Num volume que reune excertos tao variados, em poesia e prosa, retirados de textos liricos, dramaticos e epicos, Adrados nao chega a esclarecer a sua definicao de conto enquanto genero literario, usando mesmo o termo como sinonimo de fabula. Perry, no seu aclamado estudo dedicado a Esopo (Aesopica. A series of texts relating to Aesop or ascribed to him or closely connected with the literary tradition that bears his name. I: Greek and Latin Texts, 1952), havia definido a fabula em termos bastante rigorosos (como incorporando um numero fixo de caracteristicas que ocorrem de forma sistematica em todos os exemplares do genero). Adrados, no seu volume de 1979 (Historia de la fabula greco-latina. I. introduction y de los origenes a la Edad Helenistica, pp. 17-150) fornecia uma definicao mais abrangente (segundo a qual a fabula antiga incorporava um numero de caracteristicas que nao ocorriam todas em todos os exemplares do genero). Neste seu volume dedicado ao conto erotico, Adrados segue claramente essa directriz mais abrangente. Mas seria expectavel que resumisse aqui brevemente esse debate critico e que esclarecesse a posicao teorica em que se situa, para que o leitor pudesse compreender melhor como a variedade de textos aqui apresentados pertencem, quica, a um mesmo principio estruturante. Nem seria descabido informar o leitor sobre a posicao do conto antigo face a teoria literaria contemporanea (por exemplo, H. Bonheim, The narrative modes. Techniques of the short story, Cambridge, 1982).

A definicao de erotismo tambem nao e sempre muito evidente neste livro de Adrados, se tivermos em conta que integra textos em que apenas se satiriza a personalidade das mulheres (pp. 53-54) ou em que se discute as diferencas entre a amizade e o amor (pp. 169-176).

A organizacao dos conteudos no livro e clara. Mas a ordenacao dos tres estudos incluidos no final do volume pode ser problematica porque nao e linear, na medida em que se parte das consideracoes sobre as origens e disseminacao do conto erotico (primeiro estudo) para a descricao das fontes (segundo estudo), para depois se regressar a discussao sobre a difusao do conto erotico na antiguidade atraves do movimento cinico (terceiro estudo). Talvez tivesse sido mais pedagogico comecar com a descricao das fontes e partir-se depois para as consideracoes sobre as suas origens e difusao. E tambem lamentavel, como o proprio autor reconhece, que motivos prosaicos, editoriais, tenham levado a colocacao do hino homerico a Afrodite no final do volume, como se de um apendice se tratasse; a sua inclusao na antologia grega dar-nos-ia uma visao panoramica muito mais completa e justa.

Os desenhos de Antonio Mingote revestem-se de um caracter ludico certamente muito salutar, mas por vezes remetem para um imaginario indigena da America pre-colombiana, ao inves de remeterem claramente para o ideario, bem diferente, da cultura indiana (veja-se, por exemplo, a representacao de Vishnu e Garuda na p. 190). As ilustracoes (principalmente a da capa) parecem tambem apelar a um publico juvenil, o que e erroneo, pois a materia aqui versada claramente requer um publico mais informado, como se depreende a partir dos estudos, muito minuciosos, incluidos no volume.

No entanto, muitos sao os meritos que o livro encerra, mesmo por detras de uma capa modesta. A antologia de Adrados e um convite para se perspectivar a literatura classica a partir de um leque de textos pouco estudados e de tematicas tao relevantes hoje como o erotismo e a sexualidade. O facto de se incluirem aqui textos da tradicao indiana tem a grande vantagem de efectivamente colocar em dialogo as literaturas antigas do Ocidente e do Oriente. Para alem da questao classica das influencias culturais reciprocas entre os dois mundos, Adrados chega a abordar, ainda que ao de leve, hipoteses muito interessantes, como a de uma koine literaria greco-indo-persa (p. 315). O conteudo principal do livro, os contos, encontram-se traduzidos em linguagem elegante e acessivel ao publico em geral, frequentemente recheada de humor, sem falsos pudores quando se tratava de evidenciar detalhes pornograficos. A parcimonia em relacao ao recurso as notas de rodape, para eventuais esclarecimentos de termos originais, certamente confere uma maior fluencia ao processo de leitura.

HITESHKUMAR PARMAR

Centro de Estudos Classicos da

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Author:Parmar, Hiteshkumar
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:2036
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