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FOURTH COLONY OF ITALIAN IMMIGRATION IN THE CENTRAL REGION IN RIO GRANDE DO SUL: THE HISTORICAL SITES IN THE BUILDING OF THE PATRIMONY AND CULTURAL LANDSCAPE/QUARTA COLONIA DE IMIGRACAO ITALIANA NA REGIAO CENTRAL DO RIO GRANDE DO SUL: OS SITIOS HISTORICOS NA CONSTRUCAO DO PATRIMONIO E DA PAISAGEM CULTURAL.

INTRODUCAO

A retomada de uma perspectiva humanistica na Geografia, especialmente a partir da decada de oitenta, fez com que os conceitos de patrimonio e paisagem cultural fossem "redescobertos" e cada vez mais utilizados pelos geografos contemporaneos. Na Geografia, estes conceitos vem ganhando enorme prestigio tambem dentro de outras areas das ciencias humanas, produzindo um verdadeiro "hibridismo conceituai", que parte de outros olhares e perspectivas epistemologicas. Tal dialogo deve ser profundamente comemorado, na perspectiva em que "transvaloriza o bem comum da Geografia" (VITTE, 2011, p.11), o qual passa a ser (re) produzido a partir de uma pratica colaborativa que reconstroi a leitura da realidade com base em uma teoria de fronteiras fluidas.

Este artigo busca reconhecer a paisagem cultural em sitios historicos rurais de imigracao italiana como detentora de valor patrimonial e identidade. Destaca os conjuntos edificados cuja implantacao, caracteristicas arquitetonicas e tecnicas construtivas singulares no contexto nacional sao testemunhos de habitos, costumes e usos caracteristicos da area de imigracao italiana no estado do Rio Grande do Sul durante o seculo XIX e XX. A fixacao do homem rural foi desenvolvida principalmente no cotidiano. A partir dos modos de vida nos sao apresentados os elementos materiais e imateriais que se encontram presentes na vida das comunidades rurais. As transformacoes produzidas pelos imigrantes no ambiente natural produziram uma nova categoria patrimonial conhecida como paisagem cultural. A paisagem cultural possui uma visao integrada do patrimonio que engloba os bens naturais e os bens culturais e atinge as dimensoes materiais e imaterias.

Na paisagem cultural, o valor patrimonial e explicado pelo constante processo de envolvimento do homem com seu meio natural tornando o conceito ainda mais complexo do que uma paisagem em estagio primitivo. Aliando as duas vertentes do patrimonio cultural, a material e a imaterial, a dimensao imaterial constitui a singularidade da paisagem cultural, sendo esta a que determina ou condiciona a paisagem, constituindo uma unidade singular e infinitamente mais rica, sendo tao digna de registro e protecao quanto a fauna, a flora e o patrimonio edificado (DELPHIM, 2004, p.4-5).

A organizacao espacial, a concentracao de caracteristicas historicas e a evidencia do periodo de seu desenvolvimento distinguem uma paisagem historica rural de seus entornos imediatos. Na maioria das vezes, e isso ocorreu com o imigrante italiano, o ambiente natural influenciou o carater, a composicao da area rural e a maneira como usavam a terra. Por sua vez, os povos com as tradicoes, as tecnologias e as atividades modificaram consciente e inconscientemente o ambiente natural.

O habitat rural nos oferece um universo formal cuja diversidade e mais sincronica do que diacronica e que se constitui em torno de necessidades constantes e primordiais mais do que sob a influencia do fato politico, ideologico ou cultural. (...) Maquina de produzir, imagem ativa dos elementos componentes da natureza local, ai se conjugam em um determinismo que nao excluem os simbolos, as habitacoes rurais sao todas elas de imenso simbolo do acordo e da luta do homem e da natureza (PARENT, 1984, p. 120).

A abordagem a respeito das paisagens rurais apresentada neste estudo resulta de observacoes e analises dos aspectos culturais e do conjunto de praticas, cujo significado ajuda a compreender a verdadeira dimensao do patrimonio rural da imigracao italiana. Examinando as caracteristicas da arquitetura e as praticas rurais criadas pelas populacoes tradicionais ainda e possivel observar fortes residuos da cultura do imigrante nas paisagens. O patrimonio da regiao da Quarta Colonia e predominantemente rural e vem passando por transformacoes que o colocam em risco. Grande parte das propriedades rurais esta ao menos parcialmente desativada em seu potencial agricola ou tende ao abandono da atividade. Esta pesquisa nao objetiva apenas a preservacao da heranca cultural do imigrante, visa, principalmente, reconhecer o valor patrimonial da paisagem cultural da imigracao italiana por meio da protecao e da valorizacao do individuo enquanto agente detentor do conhecimento necessario para a manutencao do patrimonio rural do estado.

No Rio Grande do Sul, o interesse pela preservacao dos conjuntos historicos da imigracao europeia tem crescido constantemente. Criado em 1995, o COMPHIC --Conselho Municipal de Patrimonio Historico e Cultural de Santa Maria promove, alem de outros, diversos estudos sobre o patrimonio dos imigrantes.

Este estudo resulta de visitas as regioes de imigracao, debates, levantamentos arquitetonicos, realizados em projetos de pesquisa e extensao com os municipios envolvidos.

Novas oportunidades tambem se abrem para ampliar os estudos realizados pelo COMPHIC por meio do conceito de paisagem cultural. Mais do que a preservacao do patrimonio edificado, a protecao do legado cultural do imigrante deve contemplar as paisagens rurais e as tradicoes imateriais que, aliado a novas alternativas visam auxiliar a fixacao dos produtores rurais em seus lotes, incentivando a producao colonial de valor cultural.

Tem-se nesta pesquisa a mesma motivacao de Nilson Nicoloso Cechin, em seu trabalho intitulado 'Os sobrados rurais remanescente da 4 (a) colonia de imigracao italiana no Rio Grande do Sul':
   Nas cidades ou vilas poucos exemplares significativos daquele
   momento historico estao sobrevivendo. Na zona rural, a
   predominancia foi e e ainda maior. Diante deste quadro, pouco da
   arquitetura popular rural remanescente, em evidencia, estava a nos
   exigir um esclarecimento mais apurado. Por tratar-se de um trabalho
   sobre registro da cultura material, neste caso a arquitetura
   residencial rural, permite-nos revelar, de certa forma, a razao e a
   emocao, por parte de quem as construiu, a concretude fisica de um
   valor cultural. (...) os habitos, as ideias, a dependencia dos
   materiais e atividades da regiao e o saber fazer construtivo foram
   importantes nas definicoes dos espacos e formas, elementos, cores e
   texturas da arquitetura do imigrante italiano. (p. 208).


Conhecer esses exemplares genuinos da arquitetura rural de colonizacao italiana daria a verdadeira dimensao do valor cultural das propriedades existentes na regiao e revalorizacao das praticas agricolas que vem sendo perdidas ao longo dos anos. Conservar os costumes e tradicoes dos imigrantes da regiao sul do estado torna mais provavel a salvaguarda deste patrimonio natural e construido de importancia historica no contexto nacional. A preservacao do patrimonio cultural da imigracao no Rio Grande do Sul protege estes bens da destruicao e abandono, ao mesmo tempo em que fortalece os valores identitarios das comunidades onde estes se inserem. Desta forma, sua valorizacao advem como consequencia.

As proximas secoes deste estudo sao necessarias ao embasamento do mesmo, ou seja, uma breve reflexao historica e conceitual do patrimonio e da paisagem cultural como uma nova categoria nos estudos geograficos. O processo de colonizacao e formacao da Quarta Colonia de Imigracao Italiana tambem sao discutidos com grande propriedade. Analisam ainda alguns exemplares do patrimonio edificado e reconhecido como paisagem cultural. Por fim, analisam alguns exemplares do patrimonio edificado e reconhecido como paisagem cultural dentro do processo de ocupacao do territorio rio-grandense. Essas paisagens representam o legado patrimonial deixado pelos imigrantes italianos no Sul do estado do Rio Grande do Sul, na regiao da Quarta Colonia. Sao imagens que expressam e se constituem historicamente os espacos e as vivencias como marco das pequenas cidades.

Enfim, trata-se de uma leitura do passado elaborada a partir da otica do presente. O passado--interpretado, apropriado--ressemantiza-se, e o que importa dele e o que se torna significativamente viavel no presente.

PATRIMONIO CULTURAL E IDENTIDADE

No decorrer do seculo XX o acelerado processo de urbanizacao fez com que as cidades e os seus arredores passassem a ser apreendidos como um tecido vivo, composto por construcoes e por pessoas, incorporando ambientes do passado que podem ser mantidos e, ao mesmo tempo, agregados a dinamica espacial (PIMENTA, 2012, p.18). Tais dinamicas tornaram-se um nivel especifico da pratica social na qual se veem paisagens, arquiteturas, pracas, ruas, formas de sociabilidade; um lugar nao homogeneo e articulado, mas antes um mosaico muitas vezes sobreposto, que expressa tempos e modos diferenciados de viver. Essa compreensao implicou a valorizacao dos aspectos nos quais se plasma a cultura de um povo: as linguas, os instrumentos de comunicacao, as relacoes sociais, os ritos, as cerimonias, os comportamentos coletivos, os sistemas de valores e crencas que passaram a ser vistos como referencias culturais dos grupos humanos, signos que definem as culturas e que necessitavam salvaguarda. (ZANIRATO e RIBEIRO, 2006, p.44).

Esses novos entendimentos levaram a constatacao de que os signos das identidades de um povo nao podem ser definidos tendo como referencia apenas as culturas ocidentais, assim como a cultura campesina, nao pode ser vista como menor diante das atividades industriais.

Cultura e o conjunto de atividades, modos de agir e costumes de um povo. E um processo em constante evolucao, desenvolvido por um grupo social, uma nacao, uma comunidade e e fruto do esforco coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais. A importancia da cultura no fortalecimento da identidade de um povo e definida pelo Instituto Estadual do Patrimonio Historico e Artistico de Minas Gerais (IEPHA/ MG, 2000, p.31):
   A cultura e a memoria de um povo sao os principais fatores de sua
   coesao e identidade, os responsaveis pelos liames que unem as
   pessoas em torno de uma nocao comum de compartilhamento e
   identidade, nocao basica para o senso de cidadania.


O patrimonio historico e artistico materializa e torna visivel esse sentimento evocado pela cultura e pela memoria e, assim, permite a construcao das identidades coletivas, fortalecendo os elos das origens comuns, passo decisivo para a continuidade e a sobrevivencia de uma comunidade. Alem desse aspecto de construcao de identidade, a nocao de patrimonio cultural diz respeito a heranca coletiva que deve ser transmitida as futuras geracoes, de forma a relacionar o passado e o presente, permitindo a visao do futuro. (Diretrizes para Protecao do Patrimonio Cultural, 2006, p. 18).

Patrimonio cultural e, pois o conjunto de todos os bens que, pelo seu valor proprio, devem ser considerados de interesse relevante para a permanencia e a identidade da cultura de um povo. Pode ser classificado em dois grupos: bens materiais e bens imateriais (PELEGRINI, p.9). Os bens materiais estao divididos em bens moveis e imoveis, enquanto os bens moveis compreendem a producao pictorica, escultorica, mobiliario e objetos (IPHAN, 2008). Os bens imoveis nao se restringem ao edificio isolado, mas tambem abrange o seu entorno--o que garante a visibilidade e ambiencia da edificacao. Estao incluidos neste grupo os nucleos historicos e os conjuntos urbanos e paisagisticos (IPHAN, 2008). Por bens imateriais UNESCO (2010), os define como praticas, representacoes, expressoes, conhecimentos e tecnicas que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os individuos reconhecem como parte integrante de seu patrimonio cultural. Sao transmitidos de geracao em geracao e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em funcao de seu ambiente, de sua interacao com a natureza e de sua historia, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito a diversidade cultural e a criatividade humana

A preservacao do patrimonio cultural visa a continuidade das manifestacoes culturais, promove a melhoria da qualidade de vida das comunidades, implica na manutencao de seu bem estar material e espiritual e garante o exercicio da cidadania. Devem ser preservados aqueles exemplares caracterizados por sua representatividade, bem como aqueles que contribuam para a manutencao dos conjuntos e ambiencias. O conceito de patrimonio estende-se, portanto, aos conjuntos urbanos e as diversas manifestacoes de grupos e epocas em:

(...) oposicao a uma seletividade que privilegiava os bens culturais produzidos pelas classes hegemonicas--piramides, palacios, objetos ligados a nobreza e a aristocracia--reconhece-se que o patrimonio de uma nacao tambem se compoe dos produtos da cultura popular: musica indigena, textos de camponeses e operarios, sistemas de autoconstrucao e preservacao dos bens materiais e simbolicos elaborados por todos os grupos sociais. (GARCIA CANCLINI, 1994, p. 96).

E importante a valorizacao da diversidade, das identidades e das manifestacoes culturais de epocas, de civilizacoes e de riquezas diversas. Esse pensamento tambem e compartilhado por Toledo (1984: p.39):
   A busca da preservacao de nossa identidade cultural e o objetivo
   primeiro de toda politica de preservacao dos bens culturais. Essa
   politica nasce de um comprometimento com a vida social. O acervo a
   ser preservado, recebido de geracoes anteriores ou produto do nosso
   tempo, sera referido como historico por sua significancia, por sua
   maior representatividade social. Esse ordenamento tem, pois, como
   pressuposto o respeito a qualidade do meio ambiente e aos valores
   historicos, culturais e esteticos que dao a cada comunidade sua
   individualidade. Tais valores estao desvinculados do conceito de
   vulto, monumentalidade ou excepcionalidade.


Leniaud (1992, p. 01), ademais define patrimonio como "um conjunto de coisas do passado que sao transmitidas as geracoes futuras em razao de seu interesse historico e estetico". Varine-Bohan (1974, p.04), sugere que o Patrimonio Cultural pode ser dividido em tres grupos distintos e que estes tres grupos juntos formam de maneira indissoluvel o que seria o Patrimonio Cultural, compondo o que ele chama de ecossistema do homem. O primeiro destes grupos engloba os elementos pertencentes a natureza: os rios, o clima, a vegetacao, o solo, enfim, todos os recursos naturais que formam o ambiente natural e que tornam o sitio habitavel (p.05).

O segundo grupo refere-se ao conhecimento, as tecnicas e aos saberes adquiridos, tudo aquilo que nao pode ser medido nem quantificado, e a capacidade do homem de se adaptar ao meio-ambiente sao os elementos nao tangiveis do Patrimonio Cultural (p.06). Por fim, o terceiro grupo e aquele que, por habito, se chama de Patrimonio, ou seja, tudo aquilo que o homem ao interagir com o meio em que vive e usando os conhecimentos adquiridos fabricou ou construiu ao longo de sua existencia (VARINE-BOHAN, 1974, p. 06).

Para os estudiosos da area do patrimonio essa terceira categoria e tambem subdividida em: bens mobiliarios e imobiliarios ou bens moveis e imoveis. Mas Varine-Bohan (1974, p. 07) refuta essa divisao alegando que para ele nao existem diferencas de valor entre bens moveis e imoveis, pois tudo faz parte do Patrimonio Cultural, sendo as diferencas apenas fisicas, mas nao de valor. Existe uma evolucao continua no conceito do que e Patrimonio Cultural. A propria Constituicao Federal (1988) em vigor adota uma otica mais abrangente reconhecendo o Patrimonio Cultural como a memoria e o modo de vida da sociedade brasileira, juntando assim elementos materiais e imateriais. Desse modo, constituem patrimonio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referencia a identidade, a acao, a memoria dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I--as formas de expressao; II--os modos de criar, fazer e viver; III--as criacoes cientificas, artisticas e tecnologicas; IV--as obras, objetos, documentos, edificacoes e demais espacos destinados as manifestacoes artistico-culturais; V--os conjuntos urbanos e sitios de valor historico, paisagistico, artistico, arqueologico, paleontologico, ecologico e cientifico. (BRASIL, 2008, p. 132).

Assim, outra definicao de Patrimonio Cultural e possivel, considerando-se como tudo aquilo que o homem criou e que por questoes culturais inerentes ao meio em que se insere, muniu-se de valor para uma determinada sociedade. Cada bem cultural tem o seu proprio valor local e alguns adquirem tambem um valor mundial tornando-se dessa maneira Patrimonio Cultural da Humanidade.

Para Choay (2001, p. 19) o Patrimonio Historico e uma parte do Patrimonio Cultural. A expressao designa um bem destinado ao uso-fruto de uma comunidade que se ampliou a dimensoes planetarias, constituido pela acumulacao continua de uma diversidade de objetos que se agregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos.

Na 12a Conferencia Geral da Unesco, realizada em Paris, foi lancada a Recomendacao Relativa a Salvaguarda e Beleza e do Carater das Paisagens e Sitios (1962). A Recomendacao 26 entende por salvaguarda da beleza e do carater das paisagens e sitios a preservacao da natureza ou da obra do homem, que apresentem um interesse cultural ou estetico, ou que constituam meios naturais caracteristicos (CURY, 2004). O mesmo autor adverte ainda que a salvaguarda nao deva ser limitada apenas aos sitios naturais, mas abranger algumas paisagens e determinados sitios, tais como paisagens e sitios urbanos, que sao, geralmente, os mais ameacados, especialmente pelas obras de construcao e pela especulacao imobiliaria e dever-se-ia proteger especialmente as proximidades dos monumentos.

Assim como afirmou a Carta de Veneza, a conservacao de um monumento implica a preservacao de uma ambiencia em sua escala, sendo que toda a construcao nova, toda destruicao ou modificacao que possam alterar as relacoes de volumetria e de cor sera proibida (CURY, 2004). Tais definicoes foram sendo repetidas e reforcadas em sucessivos documentos, sendo que a partir da Declaracao de Amsterda (1975), e proposta a adocao da Conservacao integrada, por meio da relacao entre o Planejamento do uso do solo e Planejamento Urbano e Regional. A Declaracao relata que o patrimonio arquitetonico compreende nao somente as construcoes isoladas de um valor excepcional e seu entorno, mas tambem os conjuntos, bairros de cidades e aldeias que apresentem um interesse historico e cultural (CURY, 2004). Alega tambem que o patrimonio arquitetonico e parte essencial da memoria dos homens de hoje em dia e se nao for possivel transmiti-la as geracoes futuras na sua riqueza autentica e em sua diversidade, a humanidade seria amputada de uma parte da consciencia de sua propria continuidade.

A PAISAGEM CULTURAL ENQUANTO CATEGORIA DE BEM PATRIMONIAL

Entre outras, a geografia foi a ciencia humana a interessar-se pelo estudo da paisagem, e dela surgiram duas correntes teoricas: a Geografia Cultural Tradicional que analisa a paisagem atraves de sua morfologia e a Nova Geografia Cultural que interpreta a paisagem com base em sua simbologia (VASCONCELOS, 2012). Apesar de serem correntes opostas, ambas defendem que a paisagem e fruto da interacao do homem com a natureza. A Geografia Cultural Tradicional teve como precursores os geografos alemaes Otto Schluter e Passarge que analisaram as transformacoes da paisagem oriundas da acao do homem, introduzindo, na geografia, o conceito de paisagem cultural, em oposicao a paisagem natural (SCHLUTER, 1971) Seus estudos detinham-se apenas aos aspectos morfologicos da paisagem.

O geografo americano Carl Ortwin Sauer consolidou a nocao de paisagem como conceito cientifico, de modo que ele pode ser considerado o fundador da geografia cultural norte-americana Em 1925, Sauer comecou a investigar a paisagem considerando-a como resultado da cultura humana (CORREA e HOSENDAHL ,1998). Sua publicacao, A Morfologia da Paisagem, apresenta uma analise da paisagem em suas formas materiais, alem de relacionar as formas naturais com os fatos culturais. (RIBEIRO, 2007, p. 115). Esse mesmo autor usava como base os conceitos desenvolvidos por Schluter e Passarge e incorporou na analise da paisagem o fator tempo, afirmando que ela esta em constante processo de transformacao.

No final da decada de 1960, surgiu uma nova corrente que valorizou a subjetividade na pesquisa geografica e foi caracterizada como Nova Geografia Cultural (RIBEIRO, 2007, p.48). O movimento de renovacao da geografia cultural teve o papel de incluir, na agenda de pesquisa, os aspectos intangiveis e subjetivos da paisagem, entre os seus principais defensores, podem ser citados Augustin Berque (1998) e Denis Cosgrove (1998). Berque(1998) afirma que a importancia do estudo da paisagem esta no fato de que ela permite perceber o sentido do mundo no qual esta inserida.

(...) a paisagem como marca e como matriz, marca porque expressa uma civilizacao, mas tambem e matriz porque participa dos esquemas de percepcao, de concepcao e de acao, ou seja, da cultura, os quais canalizam a relacao de uma sociedade com o espaco e com a natureza. (BERQUE, 1998, p. 75).

Para Cosgrove (1998), a paisagem e a percepcao do mundo que tem a sua propria historia, mas ela so pode ser entendida como parte de uma historia mais ampla da economia e da sociedade. Em uma perspectiva simbolica, o autor afirma que "a paisagem e um conceito valioso para uma geografia efetivamente humana, pois ao contrario do conceito de lugar, relembra sobre a posicao no esquema da natureza" (COSGROVE, 1998). Esta abordagem realizada a respeito dos conceitos da Geografia Cultural e fundamental, pois tais reflexoes estao presentes nos estudos ligados a preservacao do patrimonio cultural e da paisagem.

A ideia de Paisagem Cultural, buscando uma visao integrada entre o ser humano e a natureza, iniciou na decada de 1980,

Em 1980 especialistas se reuniram na Franca, a convite do ICOMOS Conselho Internacional de Monumentos e Sitios e do Comite do Patrimonio Mundial da Unesco para pensar a forma como a ideia de paisagem cultural poderia ser incluida na lista do Patrimonio Mundial, visando a valorizacao da relacao entre o ser humano e o meio ambiente, entre o cultural e o natural. Com isso, a Unesco passou a adotar tres categorias diferentes de paisagem para serem inscritas como patrimonio: a) Paisagem claramente definida: sao classificados os parques e jardins. Pois sao as paisagens desenhadas e criadas intencionalmente. b) Paisagem evoluida organicamente: paisagens que resultam de um imperativo inicial social, economico, administrativo e/ou religioso e desenvolveu sua forma atual atraves da associacao com o seu meio natural e em resposta ao mesmo. c) Paisagem cultural associativa: tem seu valor dado em funcao das associacoes que sao feitas acerca delas, mesmo que nao haja manifestacoes materiais da vida humana (RIBEIRO, 2007, p. 27).

Fowler (2003, p. 31) explica que o conceito de paisagem cultural pode servir para o reconhecimento de estruturas ligadas a sociedades tradicionais, historicamente marginalizadas na atribuicao de valor como patrimonio mundial.

No Projeto da Convencao Europeia de Paisagem, consta a seguinte definicao: "paisagem designa uma parte do territorio tal qual percebido pelas populacoes, cujo carater resulta da acao de fatores naturais e/ou humanos e de suas inter-relacoes" (CONVENCAO EUROPEIA DA PAISAGEM, 2008).

No Brasil, o Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional--IPHAN, atraves da Portaria no. 127, de 30 de abril de 2009, estabeleceu a chancela da Paisagem Cultural Brasileira como uma porcao peculiar do territorio nacional, representativa do processo de interacao do ser humano com o meio natural, em que a vida e a ciencia humana imprimiram marcas ou atribuiram valores (BRASIL, 2009).

A chancela tem por finalidade atender o interesse publico e contribuir para a preservacao do patrimonio cultural, interagindo com os instrumentos de protecao ja existentes. Atraves da portaria, e possivel conhecer os procedimentos especificos e necessarios para declarar um bem como paisagem cultural brasileira (IPHAN, 2009)

De acordo com Delphim (2004), o valor de uma paisagem cultural resulta da sua funcao e de sua capacidade para reter marcas e registros antropicos, o que compreende as suas atividades passadas. O ser humano e um elemento significativo da paisagem, muitas vezes o principal. Desde a perspectiva cultural, a leitura e a compreensao da paisagem nao se limitam ao espaco, sendo tambem temporal. Os limites entre a paisagem natural e a paisagem resultante da acao humana tornam-se cada dia menos evidentes. Paisagens tidas como produto da natureza, apos acurados estudos, revelam-se consequencias de razoes antropicas (DELPHIM, 2004).

Diante das diversas definicoes de paisagem, para efeito deste trabalho, considera-se paisagem como o territorio definido por suas caracteristicas naturais e intervencoes antropicas, onde o ser humano habita e relaciona-se com o meio ambiente, e que, alem de valores ecologicos e descricoes geograficas, tem significados sociais e culturais, e podendo ser vista sob os seus aspectos esteticos ou cenicos.

QUARTA COLONIA DE IMIGRACAO ITALIANA: UM OLHAR GEOGRAFICO

Importante destacar que nesta discussao nao se pretendeu fazer uma diferenciacao entre espaco urbano e rural da regiao em estudo, mas sim uma abordagem que unisse os seus papeis. Para tanto, o espaco rural e visto como espaco de modos de vida e producao agricola, aliados as pequenas cidades que, nesse caso, estao localizadas ainda em area de economia agricola, desempenhando papeis urbanos bastante restritos.

Milton Santos (2005) propoe que a ja classica divisao rural e urbano no Brasil, seja substituida pela divisao em dois grandes subtipos: "os espacos agricolas e os espacos urbanos, as regioes agricolas e nao rurais contem cidades; as regioes urbanas contem atividades rurais, assim teriamos areas agricolas contendo cidades adaptadas as suas demandas e areas rurais adaptadas as demandas urbanas.

Esta e uma das caracteristicas que definem a pequena cidade de modo mais contundente, apesar de que, no caso da Quarta Colonia de Imigracao Italiana, ela possui caracteristicas fortemente rurais de modos de vida. Claro que, pelas necessidades de comunicacao e informacao, foram incorporados novos elementos da modernidade urbana que podem ser ilustrados pela presenca de internet, celulares, TV a cabo, entre outros indicadores globalizantes. A urbanidade, ali, tem um papel de luta e manifestacoes politicas, atualmente vivenciadas no processo de planejamento e de politicas publicas (PLANO DIRETOR AMBIENTAL 2010).

Assim, cada ponto do espaco e um lugar em potencial conforme as seletividades do processo produtivo. Para essa regiao, isso reflete-se, na medida em que sao produzidas as politicas de desenvolvimento dotadas de suas vocacoes locais. Dessa forma, os esforcos ao desenvolvimento dessa regiao requerem a representacao de sua identidade local/regional. (SANTOS, 1994, p. 42). Tais politicas visam a contemplar as potencialidades de cada municipio, como a diversidade cultural, o patrimonio historico e a paisagem cultural aliados ao turismo local. A religiosidade do povo, as festividades que obedecem fielmente ao calendario de suas comunidades. Ainda sobre o aspecto cultural, a regiao possui diversas festividades e eventos religiosos, de culinaria, lazer e diversao, atrelados ao rico patrimonio historico e arquitetonico a ser explorado, inclusive, pelo setor turistico.

Assim, posto a questao cultural e um dos importantes pilares do desenvolvimento socioeconomico regional. E um dos projetos mais incisivos na relacao com o desenvolvimento, possui politicas publicas, presenciando um "novo rural", via integracao das formas de vida e de trabalho urbanas.

COLONIZACAO E FORMACAO DA QUARTA COLONIA DE IMIGRACAO ITALIANA

Antes de prosseguir, e importante ressaltar que o foco de analise da discussao esta direcionado a arquitetura dos sitios historicos, paisagem e valoracao cultural, da Quarta Colonia de Imigracao Italiana no Rio Grande do Sul, assim sendo os municipios de formacao nao-italiana nao serao analisados.

A colonizacao italiana no Rio Grande do Sul teve, por razoes, a ocupacao das terras sulinas que eram alvos frequentes de disputas com os espanhois, alem de fomentar a economia interna, atraves da producao agricola (MANFIO, 2012). A partir de 1870, o governo brasileiro promoveu a vinda de imigrantes italianos ao estado do Rio Grande do Sul, e segundo Saquet (2003, p. 39):
   [...] houve dois processos principais que provocaram
   interconectados a colonizacao italiana no Rio Grande do Sul e
   simultaneamente a constituicao da Colonia Silveira Martins: a (geo)
   politica e a expansao do capitalismo mercantil ou o movimento de
   formacao de mercado interno brasileiro acompanhado pela producao da
   forca do trabalho e do mercado de trabalho livre.


Os primeiros italianos que desembarcaram no territorio rio-grandense receberam lotes de terras na encosta da Serra Geral, fundando, assim, a primeira colonia italiana no estado gaucho, denominada de Conde d' Eu, atual municipio de Garibaldi; a segunda colonia foi fundada proxima a primeira com o nome de Dona Isabel, atual municipio de Bento Goncalves (SAQUET, 2003).

As colonias Conde d' Eu e Dona Isabel foram fundadas em 1870, ambas cultivavam milho, fumo, batata, mandioca, trigo e centeio (SAQUET, 2003). O mesmo autor ressalta ainda que a vinicultura tambem marcou a economia destas colonias, o colono italiano apos as refeicoes tinha como costume beber vinho, de forma que a producao e a fabricacao do vinho para consumo proprio logo achou mercado consumidor no Brasil, representando uma fonte de renda ao colono italiano. Atualmente, a referida regiao e muito conhecida pelas vinicolas e pela exportacao de vinho e pelo turismo (SAQUET,2003).

A medida que novos imigrantes dirigiam-se para o estado, novas colonias eram fundadas, como e o caso da formacao da terceira colonia italiana denominada Nova Palmira ou Colonia Caxias, atual Caxias do Sul. Ficou dependente, primeiramente, em relacao a comercializacao agricola e industrial que se desenvolvia na colonia ao municipio de Sao Sebastiao do Cai, tambem encontrando precariedades de infra-estruturas (DE BONI, 1984)

Desenvolveu-se economicamente baseada na industria e comercio, assim sendo, Caxias do Sul, e um polo industrial bastante dinamico, heranca cultural italiana. Posteriormente em 1877, foi fundada a Quarta Colonia Italiana, que recebeu o nome de Colonia Silveira Martins (SAQUET, 2003). Entretanto, esta foi fundada na regiao central do estado gaucho, distante dos outros tres primeiros nucleos coloniais e dos centros financeiros e economicos do estado rio-grandense, dificultando, assim, o desenvolvimento economico da colonia que tinha como ponto de comercio mais proximo o municipio de Santa Maria alem de Cachoeira do Sul (SAQUET, 2003).

Os imigrantes enviados para a Colonia Silveira Martins eram abrigados inicialmente em barracoes com poucas condicoes de higiene e alimentacao ate que esperassem a demarcacao, por parte do governo Imperial, dos lotes e das terras cedidas aos pequenos colonos imigrantes (MANFIO, 2012).

Porem apenas, os primeiros italianos que chegaram a Quarta Colonia ficaram instalados em Silveira Martins, constituindo desse modo, a sede da colonia, os demais foram sendo distribuidos em areas proximas, de mata virgem e terras devolutas, efetivando a ocupacao da regiao central do Rio Grande do Sul (MANFIO, 2012).

Conforme (GIRON, L. S.; HEREDIA, V. 2007), os primeiros imigrantes italianos, totalizando 70 familias, chegaram a Colonia Silveira Martins em 1877. Os autores confirmam que no ano seguinte, foram instaladas mais 170 familias no sope da Serra Geral, colonizando esta regiao e areas proximas.

A chegada constante de imigrantes a colonia, em sua maioria venetos, gerou a necessidade de novos lotes de terras resultando na formacao de novos nucleos interioranos proximos da sede da colonia Silveira Martins. Foram denominados de nucleo norte: Soturno, Arroio Grande, Nova Treviso, Vale Veneto, que deram origem a Regiao da Quarta Colonia de Imigracao Italiana. Dessa forma a regiao de Quarta Colonia passou a ser composta pelos municipios de colonizacao italiana, sao eles: Silveira Martins, Ivora.Sao Joao do Polesine, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma e Pinhal Grande. Por questoes politicas os municipios de Restinga Seca, (colonizacao portuguesa) e Agudo (colonizacao alema), passaram a integrar a Regiao da Quarta Colonia de Imigracao Integrada, mais recentemente (PICCIN, 2009).

Restinga Seca nao foi um nucleo de destinacao para italianos, mas dadas as suas condicoes de clima e solo, muitos descendentes destes imigrantes vieram se estabelecer em Restinga Seca, formando varios nucleos: Colonia Borges, Sao Rafael, Santa Lucia, Sao Jose, Santuario e Sao Miguel. (OLIVEIRA, 2001). Esses nucleos sao muito proximos dos outros municipios da Quarta Colonia de Imigracao Italiana, o que facilitou a instalacao dos descendentes, ou seja, nao foram imigrantes, mas os descendentes que ja nasceram no Brasil.

Segundo Oliveira (2001):
   ... os italianos, gracas ao seu espirito empreendedor, sua indole,
   sua vontade e capacidade de trabalho, muito colaboraram para o
   desenvolvimento do municipio de tal maneira que em 1994, Restinga
   Seca, por iniciativa do entao prefeito, Vilmar Joao Foleto, foi
   incluida na Regiao da Quarta Colonia de Imigracao Italiana (p.14)


Nesse contexto, percebe-se que a colonizacao italiana propiciou o desenvolvimento dos municipios pertencentes a Regiao da Quarta Colonia de Imigracao a formacao etnica cultural da regiao, alem de contribuir com o sucesso do territorio rio-grandense. Hoje, esta regiao originaria da antiga Colonia de Silveira Martins se destaca com seu crescente desenvolvimento local/ regional (OLIVEIRA, 2001). Enfim, todos estes municipios, devido a varios fatores, ainda apresentam as mesmas caracteristicas do final do seculo XIX e inicio do seculo XX, podendo ser considerada um Patrimonio Cultural, com suas caracteristicas proprias, costumes, arquitetura, alimentacao, propiciando um turismo ecologico e cultural (Figura 01).

PAISAGENS URBANAS E RURAIS SINGULARES

A formacao de zonas de imigracao conformou paisagens particulares, tanto rurais quanto urbanas, diferentes daquelas encontradas em regioes brasileiras com outro tipo de formacao historica.

Nessas regioes de imigracao a paisagem rural e marcada pela presenca generalizada das pequenas propriedades rurais trabalhadas pela familia, distribuidas em estreitas faixas de terra perpendiculares aos caminhos, muitos deles em fundos de vales. As moradias dispostas na frente dos lotes sao complementadas por outras edificacoes rurais caracteristicas. Nao raras vezes, encontram-se propriedades com edificacoes historicas de grande valor como testemunhos arquitetonicos. A densidade populacional do campo chama atencao nestas areas, em contraste com as vazias regioes brasileiras de latifundios. Ao contrario da imensa maioria de seus congeneres dos paises de origem, e mesmo das regioes de onde provieram, os imigrantes nao habitaram vilarejos rurais e sim suas propriedades. Todavia, a necessidade de igreja, escolas, vendas e pequeno artesanato fizeram surgir os vilarejos que pontuam as linhas coloniais de tempos em tempos. Em grande quantidade, cumprem certas funcoes urbanas e tem forma caracteristica com igreja e cemiterio e formato retilineo com casas dispostas nas ruas. A compor estas paisagens, este conjunto de elementos, conforma e estrutura estas regioes rurais tipicas da imigracao italiana (PIMENTA e PIMENTA, 2010).

Nas cidades encontra-se a especificidade dos tracados urbanos, com a sua rua comercial, com as localizacoes tipicas das igrejas em elevacoes ligeiramente apartadas dos eixos principais, com seus bairros originados pela absorcao das antigas linhas coloniais rurais e das pequenas propriedades entao desmembradas. A arquitetura das edificacoes marcou a historia destas cidades com os tracos do italianismo presentes na identidade cultural das populacoes. Desde a primitiva arquitetura colonial italiana, ate as tendencias ecleticas implantadas do final do seculo XIX (pedra e madeira), ate o seu correr tardio no seculo XX, passando pelas estruturas tipicamente compacta e simetrica, um rico patrimonio marcou inumeras cidades gauchas, ate a avassaladora onda de renovacao especulativa a partir dos anos 1970. Todavia, os exemplares arquitetonicos que sobreviveram, acrescidos dos discutiveis produtos arquitetonicos resultantes dos incentivos a reutilizacao das caracteristicas regionais italianas, tem criado um cenario que distingue diversas cidades de outras cidades de origens luso e teuto-brasileiras.

As dificuldades e o isolamento a que os imigrantes foram submetidos nas primeiras decadas de colonizacao, tanto por forca da falta de meios e incentivos, como pelos regulamentos e contratos de muitos processos de colonizacao levaram a um forte espirito de solidariedade etnica. Este espirito lancou as bases de uma manutencao das especificidades culturais como nao se observa em outras regioes onde foi outra a forma de integracao dos imigrantes a vida nacional. Atraves das escolas, clubes, sociedades culturais e artisticas manteve-se uma forte identidade e criou-se uma cultura urbana propria, com interferencias na estruturacao da vida quotidiana. Sobretudo atraves das escolas, manteve-se a lingua, de tal forma que o portugues fosse tao somente a lingua utilizada para fora e para os negocios.

AS EDIFICACOES HISTORICAS

Um patrimonio historico edificado e a concretizacao mais perfeita dessa objetivacao, pois ele e concreto, visivel ou tangivel, constituindo-se, por assim dizer, numa metafora mais evidenciada.

Numa outra perspectiva, Zarankin (2002, p. 39) expressa o seguinte:
   Os predios sao objetos sociais e como tais estao carregados de
   valores e sentidos proprios de cada sociedade. No entanto, nao sao
   uns simples reflexo passivo desta, pelo contrario, sao participes
   ativos na formacao das pessoas. Dito de outra forma, a arquitetura
   denota uma ideologia, e possui a particularidade de transforma-la
   em 'real' (material), para desta forma, transmitir seus valores e
   significados por meio de um discurso material. Assim, se
   considerarmos que os predios sao formas de comunicacao naoverbal,
   entao estes podem ser lidos.


O predio, segundo esta otica, nao e simplesmente algo passivo, nao serve somente para refletir uma sociedade, mas e um objeto social carregado de valor e sentido. Ele e um elemento ativo na formacao das pessoas, pois representa o pensamento humano numa forma mais palpavel.

Para o autor, portanto, um edificio expressa uma comunicacao nao-verbal, dotada de varios valores e significados, que sao transmitidos mediante um discurso material, concretizado na realizacao mesma da edificacao. Destarte, este discurso pode ser lido como um texto qualquer. Neste sentido, para ficar mais clara a dinamica da inter-relacao entre as pessoas e os objetos na cultura material, como, o patrimonio historico edificado, cita-se a seguinte passagem:

Je parlerai d'incorporation, non pas de l'objet, puisque l'objet reste exterieur au corps du sujet, mais de sa dynamique que, elle, est interiorisee par la prise que le sujet exerce sur l'objet. Cette prise se realise par tous les points de contact et de perception entre la chose et le sujet: doigts, mains, pieds, siege, dos, toucher, ouie, vue, perception gravitationnelle par l'oreille interne, proprioception neuro-musculaire. Ainsi les pilotes d'avion parlent- ils de 'piloter aux fesses'. L'incorporation de la dynamique de l'objet s'effectue par la mise au point de conduites motrices memorisees par le corps et qui se manifestent par des stereotypes moteurs. Ce sont des gestes ou des series de gestes que, a force de repetition, peuvent etre effectues sans effort ni attention particuliere, avec efficacite, dans la plus grande economie de moyens. Ces gestes qui sont ceux du sportif, de l'artiste, de l'artisan, du pilote ou de la menagere, font l'objet d'une 'praxeologie' ou 'science de l'action motrice' que s'est developpee depuis les travaux de Head, Janet et Schilder dans les annees 1920 et 1930, dont on trouvera une synthese critique dans le Lexique commente de P. Parlebas. (WARNIER, 1999, p. 11).

De acordo com a citacao, os objetos sao exteriores ao sujeito, pois nao sao algo inerente ao seu corpo. Desse modo, a preocupacao e com a dinamica em que se da a incorporacao do objeto pelo sujeito, por meio de variadas formas. Essas formas, segundo o autor, ocorrem pelo contato e pela percepcao entre o objeto e o sujeito, tendo como mediacao os orgaos ou partes do corpo do sujeito que sao incumbidos de perceber a realidade exterior, como os dedos, as maos, os pes etc.

Entretanto, pode-se ainda mostrar que as mudancas nas funcoes de algum predio nao sao devidas somente ao tempo, mas tambem a relacao das pessoas com esse lugar. Parte da historia da civilizacao humana pode ser vislumbrada por meio de suas construcoes, elaboradas para resolver ou solucionar um dado problema, como tambem atraves da conquista da natureza pelo homem. Assim, percebe-se o mundo por meio de uma serie de fixacoes no espaco que se denominam 'lugares', de acordo com, Bachelard (1975), Parker Pearson e Richards (1994) e Vinao Frago (1998).

Para estes autores, o espaco so e domesticado totalmente quando se transforma em lugar, isto e, quando ele e conhecido, ocupado e utilizado. De modo que a distincao que se pode fazer entre essas duas nocoes e a seguinte: quanto a nocao de espaco, ele e algo nao conhecido, nao ocupado nem tampouco utilizado, que nao sofreu alguma interferencia humana; ao passo que lugar e justamente o contrario:

A ocupacao do espaco, sua utilizacao, o 'salto qualitativo' que leva do espaco ao lugar e, pois, uma construcao. O espaco se projeta ou se imagina, o lugar se constroi [...]. Todo espaco e um lugar percebido (VINAO FRAGO, 1998, p. 61).

Nesta passagem, apreende-se a diferenca fundamental entre as duas nocoes. O salto qualitativo entre espaco e lugar da-se por intermedio de uma construcao. Assim, este salto e exemplificado num edificio qualquer. Nas nocoes apresentadas, o espaco seria a planta do edificio, enquanto o lugar seria construido e reconstruido pelos diferentes esquemas de utilizacao praticados.

Um edificio historico pode ser visto como um artefato porque aquele pode compreender os dois processos que este possui--o de instrumentacao e o de instrumentalizacao, assim como os diversos termos que evidenciam a aproximacao entre aqueles dois conceitos, como, as nocoes de objetivacao, de comunicacao nao verbal, de incorporacao, de espaco ou de lugar.

O PATRIMONIO HISTORICO EDIFICADO NAS CIDADES DA QUARTA COLONIA: HISTORIA E COLETIVIDADE

Alguns exemplares de predios encontrados em cidades que compoem a Quarta Colonia revelam edificacoes dos mais diversos estilos e epocas. Independente dos materiais, das tecnicas construtivas, dos estilos, sao referencias de adaptacao, de criatividade e da vontade de fazer de casa mais que um abrigo. Sao predios dos primeiros anos da ocupacao portuguesa, da colonizacao alema e da italiana. Muitos deles, principalmente casas comerciais e escolas, receberam nos anos 30 e 40 novas fachadas, produto de ascensao social conquistado com muito trabalho. Sao casas rusticas e sobrias das primeiras construcoes que, por mais que o volume e o pe-direito nao ajudassem, receberam como adorno, de estilos classicos, falsas colunas e capiteis. Ate o art-noveau chegou a colonia por volta dos anos 40 e 50, e nos anos 60 e 70, o modernismo fez-se presente nas residencias dos nucleos com as colunas do Palacio da Alvorada. Sao edificacoes que se revelam no tempo e no espaco onde predios simples em madeira, pedra (basalto ou arenito) ou em tijolos, teimosamente, ali integram-se a paisagem e aos cenarios rurais e urbanos. Os silencios de suas paredes despertam sensacoes, vozes, rostos e cheiros da infancia. Seres e objetos estao, alias, ligados, extraindo os objetos de tal conluio uma densidade, um valor afetivo que se convencionou chamar sua "presenca" (BAUDRILLARD,1993). Presenca que nao sao os tijolos, mas o que elas despertam e clamam por olhares sensiveis de atentos cidadaos. Elas sao frageis, principalmente a vergonha ou a inconsciencia de seus herdeiros, reclamam por atencao, gritam por ajuda, adoram a conservacao e a restauracao. Gostam de serem retratadas em desenhos, aquarelas, oleos, fotografias ou videos. Nao importa a tecnologia desde que seja para ressaltar, para por em evidencia a beleza que preservam. Os bens exemplificados nao definem uma escala de valores esteticos, apenas identificam predios com caracteristicas construtivas e arquitetonicas de diferentes periodos da nossa regiao. A partir deles, pode-se pensar que proprietarios e a sociedade, por meio dos governos locais, poderao intervir em politicas publicas de incentivo a protecao e a preservacao do patrimonio edificado da Quarta Colonia.

A PAISAGEM CULTURAL E O PATRIMONIO DO IMIGRANTE ITALIANO NA QUARTA COLONIA

Os imigrantes italianos, assim como alemaes e portugueses, foram estabelecidos em regioes praticamente intocadas, localizadas no interior do estado e fragilmente ligadas aos nucleos luso-brasileiros. Assim, sendo, eles desenvolveram as ilhas culturais que formam contextos culturais pouco inalterados e de grande valor patrimonial, caracterizado, basicamente pela ausencia de monumentalidade, pela diversidade de tecnicas construtivas e tipologias arquitetonicas.

Como ja descrito anteriormente, a regiao central do estado do Rio Grande do Sul, notadamente a Quarta Colonia de Imigracao Italiana, pela quantidade de imigrantes que recebeu, configura-se como uma verdadeira regiao de cultura italobrasileira. Nesta regiao encontram-se tambem fortes manifestacoes da arquitetura italiana, preservada nas antigas construcoes e parte das construcoes novas mantem diversas referencias formais e espaciais tipicamente italianas.

A paisagem cultural e o patrimonio da Quarta Colonia de Imigracao Italiana guardam em si grandes representacoes materiais e imateriais. A partir de pesquisa bibliografica e documental, foi possivel descrever adiante alguns exemplares da edificacao historica italiana dos municipios que integram a regiao da Quarta Colonia. O olhar que descreve essa paisagem estende-se para alem da edificacao historica, valorizando a sua ambiencia.

No municipio de Dona Francisca (Figura 02), encontra-se, entre outros, um conjunto de edificacoes, datado de 1900/1930 (PLANEJAMENTO AMBIENTAL DA QUARTA COLONIA, 2010). Em primeiro plano, a residencia de Iolanda Cassol, com varanda adornada com arcos e parede arredondada e piso hidraulico; em segundo plano, a residencia do Sr. Arquelino Vendrame, detalhe da esquadria lateral e da textura de revestimento da fachada, em terceiro plano, ao fundo, a residencia de Lincoldo Henning, datada de 1900, construida em pedra e arenito (PLANEJAMENTO AMBIENTAL DA QUARTA COLONIA, 2010).

Em Faxinal do Soturno (Figura 03), datados entre 1900/1940 ((PLANEJAMENTO AMBIENTAL DA QUARTA COLONIA, 2010), edificacoes como o casarao verde, de propriedade da familia Pigatto; a direita em casa de pedra regular em arenito com rejunte de argamassa, construida com respiros sob a cobertura; abaixo, o casarao da familia Santini. Percebe-se a preferencia por construcoes assobradadas de volumetria simples.

No nucleo de Ivora (Figura 04), datados de 1913/1950 (PLANEJAMENTO AMBIENTAL DA QUARTA COLONIA, 2010), a esquerda o conjunto catolico com destaque para o salao paroquial, a torre sineira e a Igreja Matriz; abaixo, a residencia de Guerino Binotto, toda construida em pedra gres aparente, com detalhe para as esperas na lateral, prevendo uma futura ampliacao da parede; a direita, aos fundos, residencia em pedras e uma capela com variada gama de cores que a formam, conferindo uma estetica diferenciada de propriedade de Artidor Venturini. O documento destaca ainda o Monasterio dos Monges Cartuxos, um dos tres existentes nas Americas.

Em Nova Palma (Figura 05), encontra-se um conjunto arquitetonico, datado de 1900/1940 (CECCIN,2002), localizado em diferentes pontos da cidade. A esquerda, a residencia de Leonidas Descovi com destaque para esta tipologia de residencia, recorrente na regiao; abaixo, a residencia do padre Afonso Tomasi, possui porao totalmente enterrado, com acesso interno a residencia; a direita, sede da fabrica de sorvetes cremogel. Presentes ainda nesta localidade, edificacoes antigas, de volumetrias conexas, salientando um conjunto homogeneo a ser preservado. O documento relata ainda, a presenca recorrente na cidade da tipologia de casa terrea do periodo colonial italiano, com a sua conformacao de telhado em duas aguas assimetricas. Alem do maior patrimonio do municipio, o balneario municipal que integra a paisagem cultural.

Em Sao Joao do Polesine (Figura 06), da-se para o antigo Hotel Central, pertencente a familia Sonego; logo abaixo, residencia da familia Gentil Piveta, com galpao na propriedade e rodas d'agua em estado precario; a direita, fachada do antigo convento de irmas, onde atualmente, funciona a Escola Estadual de Ensino Fundamental Padre Rafael Iop. O conjunto e datado de 1930/1940 (CECCIN, 2002).

Ja em Pinhal Grande (Figura 07), um municipio de emancipacao recente, nao apresenta forte conformacao urbana. Pode ser destacado, dentre seu patrimonio, a primeira igreja construida em tijolos de barro batido e muito significativa para a comunidade, sao construcoes datadas entre 1930/1940 (CECCIN, 2002); acima, vista do moinho Sao Jose Rubin e Irmaos; abaixo vista da Igreja da Encruzilhada e angulo do campanario com seu revestimento texturizado; a direita, a residencia da familia Otilde Batistela Dalmolin, com destaque para as esquadrias. Com muita frequencia, a presenca de capelas, capiteis e cemiterios.

Silveira Martins (Figura 08), recebeu as primeiras levas de imigrantes italianos, com a instalacao do quarto nucleo no Estado, apos os tres primeiros: Caxias do Sul, Bento Goncalves e Garibaldi (SAQUET, 2003). A arquitetura tipica, baseada em tijolos e pedra, sao caracteristicas da paisagem local. Em primeiro plano vista da Igreja Santo Antonio de Padua, com destaque para o campanario inspirado na torre da Igreja Caorle, na Italia. Ao lado, fachada de casarios na regiao central da cidade. Abaixo, vista do antigo Colegio de Freiras, construido em 1908, e onde funciona um dos campi avancados da Universidade Federal de Santa Maria.

Como esses municipios caracterizam-se por economias basicamente rural, e tambem nesse meio que se encontram as principais edificacoes do periodo colonial. Essas construcoes vao, a cada ano, sendo abandonadas ou, pior ainda, demolidas. Poucas ainda se encontram com uso inicial, o de residencia. Grande parte e utilizada como galpao ou deposito de equipamentos ou insumos agricolas. Por outro lado, pode acontecer ainda, sem impedimentos, haver a mudanca de uso, ou seja, residencias podem se tornarem uma pousada, ou um estabelecimento comercial, e assim por diante. Para tanto, faz-se necessario, acompanhamento e orientacao tecnica de profissionais especializados neste tipo de intervencao, a fim de nao descaracterizar tais edificacoes e evitar que se perca este registro historico.

O acervo das edificacoes historicas de imigracao italiana esta disposto ao longo de um caminho que espelha um processo historico de ocupacao do territorio central do Rio Grande do Sul (BERTUZZI, 1987). Situadas na paisagem, aos pes da Serra de Sao Martinho, estas edificacoes salientam-se por sua volumetria e relacao com o seu entorno. Sao testemunhos de cultura e tradicoes trazidas ao Brasil por imigrantes de diversas regioes europeias (BERTUZZI, 1987). Outra questao que esse mesmo autor destaca e que com a falta de recurso fez com que eles utilizassem o material disponivel na regiao adaptando-os a suas tecnicas construtivas aproximando-os dos autenticos exemplares em madeira, pedra e tijolos.

CONSIDERACOES FINAIS

Este artigo teve como objetivo o reconhecimento da paisagem cultural em sitios historicos rurais de imigracao italiana como detentora de valor patrimonial e identidade. Foi importante entao, estudar alguns conjuntos edificados cuja implantacao, caracteristicas arquitetonicas e tecnicas construtivas sao testemunhos de habitos, costumes e usos caracteristicos da area de imigracao na Regiao Central do Rio Grande do Sul, durante o seculo XIX e XX.

A protecao desses sitios e um desafio atual que merece maior atencao diante das transformacoes pelas quais tem passado. A discussao aqui apresentada busca a preservacao das caracteristicas da arquitetura e da paisagem cultural dos sitios historicos rurais de imigracao italiana, sobretudo por meio da valorizacao do individuo enquanto agente detentor do conhecimento necessario para o enriquecimento da paisagem cultural.

Apesar de a Colonia Silveira Martins ter sido extinta oficialmente em finais do seculo XIX, a denominacao continuou existindo por meio da sede, que se transformou em distrito agregado a Santa Maria e, posteriormente, foi emancipada (em 1987), transformando-se no municipio de Silveira Martins, considerado hoje o berco da colonizacao italiana na regiao central do estado. A colonizacao italiana na regiao que hoje se denomina a "Quarta Colonia" e ainda pouco estudada. As proprias delimitacoes territoriais sao reflexoes, mais simbolicas do que geograficas. Sobre os aspectos historicos da colonizacao local, alguns descendentes tem escrito memorias, genealogias que merecem ser analisadas com novas publicacoes pela rica documentacao que apresentam.

Mesmo com o acelerado processo de transformacao, algumas comunidades insistem em permanecer intocadas. Isto se observa na regiao em estudo, que nos padroes da economia atual encontra-se ainda em desenvolvimento e ausencia politicas publicas mais eficazes. Entretanto, o que se tem e uma linda paisagem cultural e um pedaco da Italia, que ainda vive no Brasil, com seus usos, costumes, gastronomia, dialetos e Arquitetura. E um pedaco da Historia que permanece ate nossos dias e a propria populacao nao tem ciencia de sua beleza e encantamento.

O patrimonio natural e cultural, que pode ser encontrado nos recantos, flora, fauna, riachos e pradarias e na Arquitetura, com seus sobrados, igrejas e capiteis, levam o turista a uma parada na sua vida cotidiana e agitada, proporcionando um descanso prazeroso e culturalmente muito rico.

A pesquisa bibliografica contribuiu, entre outros fatores, com o entendimento de como ocorreu a evolucao do conceito de patrimonio cultural no ambito da Unesco e do IPHAN em relacao ao valor atribuido a paisagem. Como a categoria paisagem cultural engloba o patrimonio natural e patrimonio cultural, este em suas vertentes material e imaterial, a pesquisa bibliografica tambem buscou analisar a evolucao de seus conceitos no Brasil e no mundo.

O estudo sobre o patrimonio cultural no Rio Grande do Sul analisado sob a otica da paisagem natural e construida do imigrante italiano no sul do estado veio ao encontro dos estudos que vem sendo realizados pelos cursos de Geografia, Historia, Arquitetura e Ciencias Sociais da Universidade Federal de Santa Maria.

As visitas exploratorias tem contribuido para a identificacao das propriedades rurais de caracteristicas da imigracao italiana, que tambem utiliza como base as analises advindas de estudos de caso. A selecao das propriedades com tais caracteristicas apontou que as tecnicas construtivas empregadas nos sitios agenciados pelos imigrantes sao mais diversificadas do que as que receberam protecao em nivel estadual. Acredita-se que nao somente os exemplares em pedra devam receber protecao uma vez que mantem um vinculo direto com o pais de origem, mas tambem as tecnicas construtivas que expressam verdadeiramente a adaptacao do imigrante ao novo meio, como os exemplares de mistos de pedra e madeira e tijolos de barro.

Foram identificadas como principais diretrizes para preservacao dos sitios historicos rurais a preservacao e valorizacao do patrimonio imaterial e programas de educacao patrimonial; a preservacao e valorizacao da paisagem e do meio ambiente; a preservacao e valorizacao do patrimonio cultural rural e a promocao do desenvolvimento de condicoes favoraveis a manutencao do emprego.

De forma geral, a perda da producao agricola dos sitios historicos rurais da imigracao, abandono da producao agricola e atividades tradicionais provocaram mudancas na paisagem. A producao agricola e dinamica, o que provoca mudancas constantes na paisagem como, por exemplo, a variacao de cores e texturas conforme as epocas de plantio e colheita como ocorrem com o fumo, entre outros. A variacao de coloracoes e cultivos sao a marca do produtor rural da imigracao italiana, cuja economia era baseada na policultura de subsistencia e trabalho livre.

O processo de transformacao da paisagem e o significado dessa mudanca para a comunidade devem servir de base para a definicao de uma forma apropriada de desenvolvimento futuro. As habilidades tradicionais acabaram ficando na memoria de poucas pessoas. A paisagem deixada pelo imigrante e elemento revelador da producao agricola e do modo de obter a producao, das mudancas ocorridas nas epocas historicas sobre as terras, sobre as culturas, sobre o trabalho, sobre a propriedade e sobre a paisagem natural da nova realidade encontrada no pais.

A categoria paisagem cultural defendida pela Unesco pode ser aplicada em nivel regional e local as que representam 'as obras conjugadas do homem e da natureza' de qualquer grupo humano e nao apenas as paisagens de valor excepcional. A paisagem e dinamica e seus elementos se transformam pela acao das forcas naturais e culturais em sua dimensao material e imaterial, por meio da marca da cultura dos povos sobre o territorio que ocuparam. Desta maneira, o foco de preservacao passa a ser o individuo e nao propriamente a paisagem, uma vez que seu valor nao esta presente apenas a 'beleza cenica'. A permanencia do homem no meio rural garante a manutencao do patrimonio arquitetonico e a paisagem cultural em sitios historicos rurais de imigracao italiana, pois e ele, o homem, um dos principais elementos a atribuir valor a paisagem.

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Lauro Cesar Figueiredo

Professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

Departamento de Geociencias

Santa Maria, RS

e-mail: laurocfigueiredo@hotmail.com

Recebido em: 01/10/2012

Aceito em: 20/02/2014

Caption: Figura 01: Mapa com a Delimitacao da Area de Estudo e os Respectivos Municipios que compoem a Regiao da Quarta Fonte: Prefeitura Municipal de Santa Maria-RS, 2012.

Caption: Figura 02: Conjunto Edificacoes Residenciais no Municipio de Dona Francisca-1900/1930. Fonte: Arquivo do autor, 2010

Caption: Figura 03: Faxinal Soturno--Edificacoes das Familias Pigatto e Santini datadas entre 1900/1940 Fonte: Arquivo do autor, 2010

Caption: Figura 04: Ivora--Conjunto Arquitetonico e Paisagistico em Ivora datados entre 1913/1950 Fonte: Arquivo do autor, 2010

Caption: Figura 05: Nova Palma--Vista de Antigas Edificacoes que Integram a Paisagem Cultural Fonte: Planejamento Ambiental da Quarta Colonia, 2010

Caption: Figura 06: Sao Joao do Polesine--Conjunto Edificacoes datados entre 1930/1940 Fonte: Arquivo do autor, 2010.

Caption: Figura 07: Pinhal Grande--Construcoes datadas entre 1930/1940 Fonte: Arquivo do autor, 2010

Caption: Figura 08: Silveira Martins--Edificacoes com Arquitetura Tipica em Tijolo e Pedra Compoem a Paisagem Cultural Fonte: Arquivo do Autor, 2010
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Author:Figueiredo, Lauro Cesar
Publication:Ra'e Ga
Date:Aug 1, 2014
Words:10629
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