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Extravasation work-family: when working conditions contribute to maternal abusive practices?/Extravasamento trabalho-familia: quando e que as condicoes de trabalho contribuem para praticas maternas abusivas?/Extravasacion trabajo-familia: Cuando las condiciones de trabajo contribuyen a practicas maternas abusivas?

Introducao

As tendencias sociais e ideologicas actuais sugerem que os assuntos trabalo-familia se estao a tornar cada vez mais importantes neste novo milenio (Grzywacz & Marks, 2000). O aumento de praticas igualitarias em termos de genero e das familias em que ambos os pais trabalham trouxe novas responsabilidades e desafios aos pais no equilibrio entre estas duas areas da sua vida, com consequencias na educacao das criancas (Bronfenbrenner & Crouter, 1982). O emprego das maes e um veiculo para obter recursos materiais e estatuto para a familia, e contribui tambem para o seu bem-estar, para a autoestima e insercao social (Coley, Lohman, Votruba-Drzal, & Pittman, 2007), atraves do estimulo, auto-realizacao, aquisicao de novas competencias e relacoes sociais, fuga das actividades rotineiras, e compensacao dos papeis familiares (Greenhaus & Powell, 2006). Por outro lado, o duplo papel de mae e profissional, pelo investimento de tempo, energia e atencao ao trabalho, pode limitar o envolvimento na educacao e actividades com as criancas (Matthwes, Bulger, & Barnes-Ferrel, 2010). Neste trabalho pretendese analisar os impactos da situacao laboral das maes nas suas praticas parentais, e em particular nas praticas abusivas (mau trato e negligencia).

Neste dominio, duas perspectivas gerais tem sido propostas para a analise da relacao do trabalho com a familia. Tradicionalmente, a investigacao nesta area foi dominada pela perspectiva da tensao de papeis provocada pela interface trabalho-familia (i.e., conflito trabalho-familia; Barnett, 1996), postulando que as responsabilidades destes dois dominios competem pelo tempo, energia e recursos psicologicos limitados (Oomens, Geurts, & Scheepers, 2007), resultando numa variedade de consequencias negativas em ambos os espacos (Parasuraman, Purohit, Godshalk, & Beutell, 1996). O pressuposto de que o stress nos papeis profissionais esta relacionado com experiencias de conflito trabalho-familia (Matthews, Bulger, & Barnes-Ferrel, 2010) baseia-se na relacao tensao-deformacao prevalente em inumeros modelos de stress, como o de Lazarus e Folkman (1984). Por outro lado, a partir da hipotese de extravasamento (spillover), um corpo paralelo de investigacao sugere que a participacao em multiplos papeis providencia oportunidades e recursos (e.g., suporte social, autoestima) que podem ser usados para promover um melhor funcionamento noutros dominios de vida (Greenhaus & Powell, 2006; Wayne, Musisca, & Fleeson, 2004). Aplicada a relacao trabalho-familia, esta hipotese sugere que os estados psicologicos (positivos ou negativos) experienciados no trabalho afectam os estados psicologicos na familia (Lambert, 1990; Matias & Fontaine, 2012).

Nos estudos sobre a relacao trabalho-familia tem sido extensivamente analisado o impacto do estatuto profissional das maes e do numero de horas de trabalho na qualidade e na quantidade das interaccoes pais-filhos (e.g., Zubrick, Silbum, & Vimpani, 2000). Fokkema (2002) verificou que as maes que trabalham parecem estar menos angustiadas do que as maes que apenas tomam conta das criancas, sendo a forma como estas organizam o seu tempo de trabalho que determina a disponibilidade de tempo que tem para as criancas e nao o facto de trabalharem ou nao (Dockery, Li & Kendall, 2009). De facto, as maes que trabalham tendem a compensar a sua ausencia na interaccao directa e na quantidade de tempo que passam com as criancas, no tempo que tem disponivel, dedicando menos tempo ao lazer e a outras actividades nao relacionadas com a crianca (Coley et al., 2007).

Nao obstante, estas estrategias de conciliacao de papeis, as horas que as maes dedicam ao trabalho estao significativamente e inversamente relacionadas com o tempo que passam com os filhos. Embora estudos recentes tenham sugerido que as maes que trabalham, especialmente as que trabalham mais horas, tem maior probabilidade de envolver os filhos entre os 6 e os 11 anos em actividades extracurriculares, compensando assim os efeitos negativos associados as longas horas de trabalho materno (Han, 2006), quando o numero de horas excede o trabalho a tempo inteiro, outros efeitos negativos na familia tem sido observados. Por exemplo, as maes de bebes que trabalham mais de 40 horas por semana sao mais ansiosas e insatisfeitas, e tem interaccoes menos positivas com os filhos (Owen & Cox, 1988).

Na maioria dos estudos psicologicos efectuados neste dominio, existe o pressuposto de que o stress nos papeis profissionais esta relacionado com experiencias de conflito trabalho-familia (Matthews et al., 2010), no entanto, cada vez mais se considera que o impacto das situacoes de trabalho esta dependente da atribuicao de significado, sendo os padroes e estrategias de actuacao consequencia destas avaliacoes. Esta atribuicao de significado baseia-se na avaliacao dos recursos disponiveis e das exigencias que lhe sao feitas (Voydanoff, 2004). Uma particular atencao tem sido dada a estes processos cognitivos, e mais recentemente ao efeito que estas avaliacoes possam ter sobre a parentalidade (Greenberger & O'Neil, 1993; Matias & Fontaine, 2012; Repetti, 1994).

Porem, pouco se sabe ainda sobre como e que as diferentes caracteristicas e recursos dos dois contextos modelam a experiencia trabalho-familia (Barnett, 1996) em maes com poucos recursos, sabendo-se ainda muito menos no que diz respeito a familias maltratantes. Particularmente, ha poucos estudos sobre a influencia das variaveis do trabalho em maes cuja maternidade e abusiva.

Na literatura sobre mau trato e referido que niveis elevados de desemprego paterno estao associados a ocorrencia de maus tratos as criancas (Sidebotham & Heron, 2006). Contudo, os dados em relacao as maes tem sido menos claros (Gillham et al., 1998) apesar de, mais recentemente, Sidebotham e Heron (2006) terem verificado que o emprego materno exercia um ligeiro efeito protector em relacao a probabilidade de situacoes de maus tratos. No entanto, Coley et al. (2007) realcaram que a passagem de maes com baixos rendimentos e que sao dependentes de apoios financeiros da seguranca social para um sistema de emprego estavel afecta o seu bem-estar e o ambiente familiar que proporcionam as criancas. De facto, advogavam que essas maes, perante a perda dos apoios, e com poucas competencias ou oportunidades para adquirir e manter um emprego estavel, iriam perder estabilidade financeira e experienciar mais stress, prejudicando-se assim o ambiente familiar e a parentalidade. Neste sentido, e objectivo deste estudo testar a hipotese de extravasamento na relacao entre o trabalho e a maternidade em maes abusivas e conhecer quais as caracteristicas e recursos do contexto de trabalho que modelam a experiencia trabalho-familia.

Satisfacao, recursos e atribuicoes causais na situacao de trabalho

A investigacao nesta area tem-se movido do estudo sobre a mera ocupacao para a natureza das experiencias das pessoas nos seus papeis sociais (Greenberger & O'Neil, 1993). Desta forma, para alem das variaveis de estatuto profissional e tempo dedicado aos papeis (trabalho e parentalidade), dois aspectos da qualidade do papel ganharam relevancia: a satisfacao com o mesmo e os recursos disponiveis. A suportar esta ideia, a revisao de literatura realizada por Hoffman (1989) mostrou que a satisfacao das maes com o emprego esta positivamente relacionada com a qualidade da interaccao mae-filho, e com os varios indices de ajustamento e capacidades da crianca. Mostrou tambem que os recursos do trabalho sao as variaveis com correlacoes mais fortes das consequencias positivas do trabalho para a familia. Sao tambem interessantes os resultados obtidos por Greenberger e Goldberg (1989) e por Silverberg e Steinberg (1990), que apontam para correlacoes baixas entre o envolvimento no papel profissional e o investimento no papel parental. Um estudo recente mostra que os individuos mais satisfeitos no trabalho relatam tambem maior facilitacao trabalho-familia (Boyar & Mosley, 2007). Tomados em conjunto, estes resultados sugerem que o nivel de satisfacao com o trabalho fora de casa e um moderador crucial dos efeitos do trabalho na parentalidade e que, em geral, as hipoteses sobre o aumento de recursos, em vez da sua escassez, em maes empregadas, tem vindo a aumentar ao longo do tempo (Greenberger & O'Neil, 1993).

O significado positivo da situacao de trabalho parece proporcionar proteccao em relacao ao conflito trabalho-familia (Byron, 2005) tambem atraves da percepcao de controlo que os individuos tem sobre a situacao. Boyar e Mosley (2007) constataram que o !ocus de controlo apresenta relacoes significativas quer com o conflito, quer com a facilitacao trabalho-familia. Outros trabalhos salientam que quanto mais baixa e a pressao e maior o controlo no trabalho, menor e o extravasamento negativo do trabalho para a familia (e.g., Grzywacz & Marks, 2000; Oomens et al., 2007). Os individuos com um !ocus de controlo interno (i.e., que creem poder influenciar os seus resultados) tendem a trabalhar mais e melhor a fim de utilizarem melhor os recursos de cada um dos dominios. Pelo contrario, baixos niveis de decisao e de controlo estao associados a menos consequencias positivas do trabalho para a familia.

O enquadramento descrito anteriormente sobre os processos de trabalho e stress, embora sugira diferentes caminhos de influencia, converge em predicoes similares. Os resultados de autores que analisam o estatuto de trabalho por si (e.g., Goldberg & Easterbrooks, 1988; Greenberger & Goldberg, 1989) sugerem que o trabalho materno tem efeitos positivos na familia e na parentalidade, sobretudo se as maes avaliarem estar satisfeitas, sentirem que tem controlo sobre a situacao (Boyar & Mosley, 2007) e dispuserem de recursos para enfrentarem os problemas de relacao trabalho-familia (e.g., Grzywacz & Marks, 2000; Silverberg & Steinberg, 1990).

Modelo a testar

O modelo que se pretende testar neste estudo orienta-se na perspectiva psicologica do stress e iremos analisar os factores cognitivos ao nivel da avaliacao de significado (satisfacao, recursos, atribuicoes) e a importancia que possam ter como mecanismos explicativos das relacoes entre a situacao profissional (estatuto e horas de trabalho) e a parentalidade abusiva, atraves da hipotese de extravasamento.

O estudo centra-se sobre as maes, uma vez que a investigacao tem mostrado que apresentam niveis mais elevados de stress familiar e de carga de trabalho em casa (e.g., Fontaine et al., 2009). A maioria dos estudos que ligam o trabalho materno aos efeitos na crianca tratam a variavel trabalho em termos muito simples (i.e., empregados-desempregados, e trabalho em tempo parcial ou tempo inteiro) (e.g., Hoffman, 1989). Tais categorizacoes nao diferenciam o significado psicologico que o trabalho pode ter, nem as suas diferentes implicacoes na parentalidade foram avaliadas. Assim, e na tentativa de contribuir para colmatar estas limitacoes na investigacao, o presente estudo visa abordar os mecanismos subjacentes aos diferentes estatutos de emprego (desemprego, domesticas ou empregadas) e a participacao das maes no trabalho e na familia (tempo dedicado ao trabalho) controlando variaveis socioeconomicas e educacionais da mae. Assim, o nivel socioeconomico da familia e escolaridade da mae foram introduzidos na primeira etapa de cada equacao como covariaveis.

O modelo apresentado na Figura 1 orienta este estudo, que analisa os efeitos da avaliacao cognitiva, mais concretamente da avaliacao primaria face a situacao do trabalho, das atribuicoes e dos recursos das maes sobre a situacao profissional, enquanto factores moderadores dos efeitos do contexto profissional (situacao perante o trabalho--estatuto de empregada, domestica e desempregada--e horas de trabalho) sobre a parentalidade abusiva.

[FIGURE 1 OMITTED]

Com base na literatura, espera-se que os efeitos de extravasamento do contexto profissional (situacao perante o trabalho e horas de trabalho) sejam maiores ao nivel do mau trato e negligencia quando as maes se avaliam mais insatisfeitas com o trabalho, com menos recursos e com menos controlo sobre a situacao de trabalho.

Metodo

Participantes

Participaram neste estudo 102 maes de criancas que frequentam escolas publicas, de Lisboa. Os criterios que presidiram a seleccao das participantes incluiram o tipo de praticas abusivas e um conjunto de variaveis sociodemograficas.

O primeiro criterio tomado em consideracao foi o tipo de mau trato e negligencia perpetrado pela mae. Embora a totalidade da amostra constitua um grupo unico no tratamento dos dados, para a seleccao das participantes tivemos em consideracao quatro grupos a partir das duas dimensoes (mau trato e negligencia) do Questionario de Avaliacao do Mau Trato e da Negligencia Parental (Calheiros, 2006), como adiante se explicitara. Porque pretendemos ter uma amostra heterogenea no tipo e gravidade de mau trato e negligencia (mau trato--mau trato alto e negligencia baixa; negligencia--negligencia alta e mau trato baixo; controlo--mau trato baixo e negligencia baixa) e na sua co-ocorrencia (mau trato alto e negligencia alta), os participantes foram incluidos nos grupos de mau trato e negligencia a partir dos resultados obtidos nestas duas dimensoes, tendo em consideracao o primeiro e ultimo quartil (Tabela 1). A presente investigacao inclui assim, 79 maes de criancas maltratadas e negligenciadas, sinalizadas as Comissoes de Proteccao de Criancas e Jovens em Risco (CPCJ's), e 23 maes nao sinalizadas, que compoem o grupo sem mau trato e negligencia (grupo controlo). O grupo de familias sem abuso foi seleccionado aleatoriamente nas mesmas escolas e turmas das criancas dos grupos de mau trato e negligencia. Para tal, foi previamente elaborada uma lista de criancas controlando o nivel socioeconomico das familias e confirmando-se que nao estavam sinalizadas, com base nos processos escolares. Apos esta seleccao, a professora respondia ao "Questionario de Avaliacao do Mau Trato e Negligencia" (Calheiros, 2006).

Como pretendemos ter uma amostra homogenea do ponto de vista das variaveis sociodemograficas, emparelhamos as participantes nos diferentes grupos, tendo em consideracao a idade da crianca, a duracao da situacao (cronicidade do mau trato e negligencia), a situacao profissional e escolaridade da mae e o tempo de residencia.

Os resultados da Tabela 1 evidenciam a similaridade das variaveis nos diferentes grupos, a excepcao da variavel escolaridade da mae que apresenta diferencas significativas entre o grupo de mau trato e o grupo sem mau trato e negligencia e os dois restantes, sendo os niveis mais baixos nos ultimos. O teste para analisar se os grupos se diferenciavam em funcao da situacao profissional das maes (trabalharem ou nao) (%2 = 2.15, p= .54) nao indica diferencas nos grupos. Os agregados maternos sao constituidos por familias monoparentais (N= 19, 18.6%), nucleares (N=61, 59.8%) e reconstituidas (N= 22, 21.6%). As criancas, de sexo masculino (N=59, 57.8%) e feminino (N=43; 42.2%), tem idades entre os 6 e 12 anos, sendo 30 de seis e sete anos (29.4%), 23 de oito e nove anos (22.5%) e 49 de dez, onze e doze anos (48%).

O estatuto de trabalho foi avaliado em funcao da situacao das participantes perante o trabalho. Assim, as maes que constituiam a amostra foram distribuidas por tres grupos: empregadas (n=53, 52.0%) desempregadas (n=24, 23.5%) e domesticas (n=25, 24.5%). Foi ainda avaliado o "numero de horas de trabalho semanal" da mae: nao trabalha (n=48, 47.1%); trabalha 8 a 35h (n=18, 17.6%); trabalha 36 a 40h (n=20, 19.6%); trabalha mais de 42h (n=16, 15.7%).

Procedimento

As maes foram convocadas pelas instituicoes (Instituto de Reinsercao Social e CPCJ's) no caso das participantes com sinalizacao, e pelas escolas no grupo nao sinalizado) para participacao num estudo sobre educacao na grande zona de Lisboa.

Para evitar enviesamentos devidos ao questionamento de um unico informante, este estudo utilizou multiplas fontes para a recolha dos dados (maes, professores e tecnicos). Os dados de avaliacao do mau trato e negligencia e da violencia domestica foram recolhidos pelos tecnicos das instituicoes referidas e professores atraves do preenchimento do "Questionario de Avaliacao do Mau Trato e Negligencia" a partir dos processos individuais da crianca. A recolha dos dados com as maes e as criancas foi realizada presencialmente, atraves da aplicacao de questionarios aplicados pela investigadora principal.

Os instrumentos para avaliacao com as maes foram construidos em duas versoes: para maes com escolaridade e sem escolaridade. A parte que corresponde aos questionarios com respostas fechadas, no caso das maes sem escolaridade, era apresentada pela investigadora com o auxilio de material de apoio com as respectivas escalas de resposta.

Instrumentos

Mau trato e negligencia. O Questionario de Avaliacao do Mau Trato e Negligencia (Calheiros, 2006) e um instrumento construido para ser preenchido por tecnicos ou educadores, e inclui 18 itens, cada um com quatro descritores de gravidade diferente numa escala de 0 a 4. Os itens que sao assinalados como nunca tendo ocorrido, como "desconhecidos" ou suspeitos, mas nao confirmados, sao cotados com zero (0). Os itens cujos descritores estejam presentes sao cotados pelo nivel de gravidade superior apresentado. Assim, cada item pode ser cotado numa escala de 4 pontos (0 na situacao de todos os indicadores ausentes, 1 na situacao do primeiro nivel de gravidade, 2, 3, 4, consoante a gravidade dos indicadores).

No estudo de desenvolvimento e validacao do questionario foi encontrada uma estrutura factorial de segunda ordem organizada em duas dimensoes de parentalidade abusiva--Negligencia e Mau Trato. A dimensao denominada "Negligencia" e definida por omissoes parentais como a falta de provisao em relacao as necessidades basicas da crianca, falta de supervisao nos cuidados de seguranca fisica, acompanhamento e estimulacao e negligencia educacional em relacao as areas de acompanhamento escolar e em relacao as necessidades de desenvolvimento ([alpha] = .67). A dimensao de "Mau Trato", reune todas as accoes de violencia fisica e mau trato psicologico em relacao a crianca. Os indicadores finais utilizados sao a media dos itens que constituem cada uma das escalas.

Nivel socioeconomico da familia--Utilizaram-se cinco itens (escolaridade, profissao, rendimento, habitacao e bairro de residencia) para a construcao de um indicador de nivel socioeconomico (alfa de Cronbach=.81). Niveis elevados nesta variavel correspondem a um estatuto socioeconomico alto.

Contexto profissional--O contexto profissional foi avaliado atraves da situacao de trabalho (exerce uma profissao, esta desempregada ou e domestica) e do numero de horas de trabalho semanal.

Satisfacao com o estatuto de trabalho. Esta dimensao foi avaliada atraves da media de 3 itens: "satisfacao geral com o estatuto de trabalho", "satisfacao geral com os efeitos do estatuto do trabalho na sua funcao das maes" e "satisfacao geral com os recursos que disponibilizavam para enfrentar as situacoes que nao corriam bem", avaliadas cada uma atraves de uma escala de 1 (Muito insatisfeita) a 5 (Muito satisfeita) .

Recursos. A avaliacao da percepcao das maes acerca dos recursos disponiveis para lidarem com a sua situacao profissional foi feita atraves da questao: "Ate que ponto considera que tem meios para enfrentar as situacoes que nao correm bem no seu emprego/na sua situacao de desemprego/no seu trabalho domestico?", formulada numa escala de 1 (nenhuns) a 5 (muitissimos).

Atribuicoes causais sobre a situacao profissional. Apos caracterizacao da situacao das maes em relacao ao trabalho (trabalho, desemprego e domestica), foi formulado um conjunto de 10 questoes (avaliadas numa escala de 1=nada a 5= muitissimo) sobre as causas da insatisfacao com a situacao actual. Todas as questoes, independentemente do tipo de situacoes a que se referiam, foram elaboradas com base nas dimensoes de "locus" e "controlo" adaptadas a situacao avaliada. A analise factorial em componentes principais resultou em dois factores com uma variancia total explicada de 51.7%. O primeiro factor, cujo alpha de Cronbach (a= .75) explica 30% da variancia, agrega itens que descrevem "causas internas", como a falta de interesse, esforco e experiencia . O segundo factor, com uma consistencia interna (a= .71), refere-se a dimensao de "causas externas" (maneira de ser dos outros, dificuldades da tarefa, condicoes gerais de emprego, etc.) e explica 21.6% da variancia. Os indicadores finais correspondem a media dos itens de cada factor.

Resultados

Relacoes entre as variaveis

A Tabela 2 apresenta as correlacoes das variaveis de trabalho e praticas maternas com as variaveis moderadoras, as medias e os desvio-padroes das variaveis de avaliacao cognitiva, atribuicoes e estrategias comportamentais.

As medias obtidas mostram que as maes apresentam um nivel medio de satisfacao com a sua situacao profissional (M=3.25), que avaliam como baixos os seus recursos disponiveis (M=2.88) e que fazem poucas atribuicoes tanto internas como externas a sua situacao de trabalho.

O estatuto social destas maes esta fortemente ligado as variaveis consideradas. Assim, podemos ver que as praticas maternas de negligencia (mas nao as de mau-trato) estao associadas ao nivel socio economico da amostra: sao as maes menos escolarizadas e de estatuto socio economico mais baixo que mais apresentam praticas negligentes . Por outro lado, o estatuto social esta claramente associado ao significado atribuido aos factores do trabalho. De facto, os resultados indicam que quanto maior e o nivel socioeconomico e educacional, maior e a satisfacao com a situacao profissional e os recursos percebidos. Por sua vez, o significado atribuido a situacao profissional tambem tem associacoes importantes com esta avaliacao: a atribuicao interna das dificuldades na situacao do trabalho esta associada a menor satisfacao e avaliacao de recursos (r=-.25 e -.26 respectivamente), enquanto que as atribuicoes externas estao associadas a uma melhor avaliacao destes recursos (r=.51 e .44). E ainda importante salientar que, nesta amostra, as horas de trabalho estao positivamente associadas a satisfacao laboral (r=.55) e aos recursos (r=.41).

Relativamente as questoes do extravasamento trabalho-familia, os dados do nosso estudo nao suportam a ideia de uma associacao directa entre as variaveis do contexto de trabalho e as praticas maternas. Os resultados indicam que as praticas maternas abusivas nao estao associadas as variaveis de trabalho--"estatuto" (F(2,101)= .62, p=.53; F(2,101)= 3.08, p=.06, mau trato e negligencia, respectivamente) e "horas de trabalho" (respectivamente, r=.11 e .19, n.s.). No entanto, o nivel de satisfacao com o estatuto laboral e a avaliacao dos recursos apresentam um padrao de relacoes mais consistente com o mau trato e a negligencia. De uma forma geral, os resultados parecem indicar nao so que as maes desempregadas (M=1.79) e domesticas (M=3.24) avaliam a sua situacao como mais negativa (F(2,101)= 41.92, p=.000) do que as maes empregadas (M=3.93), e com menos recursos e controlo (F(2,101)= 11.97, p=.000; [M.sub.empregadas] = 3.26, [M.sub.desempregadas] = 2.08), como parecem ser estas avaliacoes que sao determinantes das praticas maternas abusivas. De facto as correlacoes da tabela 2 mostram que o mau-trato e a negligencia tem associacoes positivas com a satisfacao laboral e a avaliacao de recursos e principalmente com as atribuicoes internas aos insucessos profissionais.

O efeito moderador da satisfacao na ligacao entre o contexto de trabalho e as praticas maternas abusivas

Os resultados das analises que testam o efeito de moderacao da avaliacao primaria sao apresentados na Tabela 3. Estes resultados ilustram o impacto ja referido do estatuto socioeconomico nas praticas negligentes.

Os dados revelam dois efeitos de interaccao nas praticas de mau trato (1). A analise de cada termo de interaccao mostra que a satisfacao interage com o estatuto de trabalho (F incremento (1,96) = 8.33, p= .001) e com as horas de trabalho, (F incremento (1,96) = 6.62, p= .01), e acrescentam 7% e 6%, respectivamente, da variancia das praticas maternas de mau trato. As analises realizadas posteriormente com o grupo das maes insatisfeitas com a sua situacao profissional mostram que sao as maes empregadas as que mais maltratam os filhos ((F(2,24) =2.28, p=.13 (2)), e que o mau-trato aumenta a medida que o numero de horas despendido no papel profissional aumenta (r(25)= .39, p=.05). No entanto, nas maes satisfeitas, nao parece haver diferencas na gravidade e frequencia do mau trato em funcao do estatuto (F(2,44)=.37, p=.68), e tempo dedicado ao trabalho (r(45)= -.10, p=.46).

As mesmas analises foram conduzidas para a predicao das praticas de negligencia, mas os termos de interaccao nao foram significativos em nenhuma das equacoes.

Deste modo, os resultados parecem indicar que e so quando as maes estao insatisfeitas com a sua situacao profissional que as variaveis do contexto de trabalho se associam a praticas de maus tratos.

O efeito moderador da avaliacao de recursos na ligacao entre o contexto de trabalho e as praticas maternas abusivas

Quando se toma a variavel "avaliacao de recursos" como moderadora do estatuto e horas de trabalho, observa-se unicamente um efeito de interaccao nas praticas de mau trato. Os resultados apresentados na Tabela 4 mostram que a avaliacao dos recursos interage com o estatuto de trabalho (F incremento (1,96)= 4.47, p= .02), e prediz 4% da variancia das praticas maternas de mau trato.

A analise de variancia realizada posteriormente a este teste indica que as maes domesticas sem recursos (F(2,33)= 2.71, p=.08), sao aquelas que tendencialmente recorrem mais a este tipo de praticas (media das maes donas de casa = 2.33; media das maes empregadas = 1.96). Nas maes com recursos nao existem diferencas na gravidade e frequencia do mau trato em funcao do estatuto de trabalho (F(2,28)= .09, p=.91). Uma vez mais, as praticas de negligencia nao se encontram associadas a nenhum efeito de interacao significativo.

Deste modo, os resultados parecem indicar que e so quando as maes acham que tem poucos recursos para responder as exigencias laborais que se verifica extravasamento das variaveis do contexto de trabalho as praticas de maus tratos.

O efeito moderador das atribuicoes sobre o trabalho na ligacao entre o contexto de trabalho e as praticas maternas abusivas

Os resultados das analises que envolvem as atribuicoes das maes relativamente a sua situacao de trabalho revelam efeitos principais das causas internas, que explicam 13% da variancia do mau trato, quando entram na equacao com o estatuto e horas de trabalho, e 8% da variancia da negligencia quando entram na equacao com o estatuto de trabalho (Tabela 5).

A atribuicao de causas internas (falta de esforco, interesse e experiencia na area profissional) as dificuldades laborais, aparece, tal como vimos na tabela 2, associado quer ao mau-trato como a negligencia. Quer isto dizer que quanto menos investimento existe na area do trabalho, mais problemas relacionais da mae com a crianca.

Nao se observa qualquer efeito de interaccao destas variaveis no factor de mau trato. Pelo contrario, observam-se tres efeitos de interaccao na negligencia. O efeito (estatuto de trabalho x causas externas) (F incremento (1,96)= 4.91, p= .029) prediz 3% da variancia das praticas maternas de negligencia, indicando que as maes que nao atribuem externamente a sua situacao profissional (F(2,25)= 2.84, p= .09) nao apresentam diferencas na gravidade da negligencia no teste post-hoc, contrastando com as maes com elevadas atribuicoes externas (F(2,20)= 11.56, p= .001) em que sao as maes desempregadas (M=2.24) e domesticas (M=2.18) que mais negligenciam os filhos, quando comparadas com as empregadas (M=.61). Assim, o estatuto profissional extravasa para praticas negligentes apenas quando ha atribuicoes externas das dificuldades laborais.

O efeito de interaccao (horas de trabalho x causas externas) (3) (F incremento (1,96)= 3.19, p= .07) prediz 2% da variancia das praticas maternas de negligencia, e indica que a negligencia as criancas diminui nas familias em que as maes estao empregadas a medida que as horas de trabalho aumentam, mas apenas quando as maes atribuem causas externas a sua situacao profissional (r(21) = -.58, p= 006); quando isso nao acontece, a relacao entre horas de trabalho e negligencia nao assume qualquer significado (r(26) = .32, p= .10). O ultimo efeito de interaccao entre horas de trabalho e causas internas, explica 2% da negligencia (F incremento (1,96)= 3.15, p= .07), indicando que as maes mais envolvidas no trabalho, uma vez que atribuem a sua situacao profissional a experiencia, capacidade e esforco (atribuicoes internas baixas), a medida que o numero de horas despendido no papel profissional aumenta, tornam-se mais negligentes (r(19)= .45, p= .05). Nas maes menos envolvidas na carreira profissional (atribuicoes internas elevadas de falta de esforco e experiencia elevadas) nao apresentam diferencas na negligencia em funcao do tempo gasto no trabalho (r(19)= -.14, p=.56). Deste modo, os resultados indicam que o menor tempo de trabalho das maes empregadas se associa a praticas maternas negligentes, apenas quando o envolvimento com o trabalho e baixo e as maes veem a sua situacao determinada por factores externos.

Resumo dos resultados

Sumariando as analises de moderacao que predizem mudancas nas praticas maternas em funcao da sua situacao de trabalho, um conjunto de resultados aparece como relevante. De uma forma geral, as variaveis relativas ao trabalho da mae--estatuto e horas de trabalho--nao parecem ser preditores directos das praticas maternas de mau trato e negligencia. Contudo, os resultados relativos as variaveis de satisfacao e de recursos, que predizem uma proporcao de variancia razoavel das praticas abusivas, salientam a importancia que estas tem na parentalidade, quer atraves dos efeitos de moderacao, quer atraves dos efeitos directos.

Relativamente as praticas maternas de mau trato foram encontrados tres efeitos de moderacao: dois da satisfacao com o estatuto e horas de trabalho, e um dos recursos com o estatuto, e ainda efeitos directos das atribuicoes internas. Estes resultados sugerem que as maes que trabalham fora de casa e dedicam mais tempo ao trabalho, quando insatisfeitas com a situacao, sao mais vulneraveis as praticas de mau trato. Por outro lado, sao tambem as maes domesticas com fracos recursos, e as que investem pouco na area do trabalho que parecem ser tambem mais vulneraveis a este tipo de praticas.

O padrao de relacoes entre o trabalho das maes e as praticas negligentes e bem diferente do anterior. Nao so a situacao socioeconomica baixa da familia parece ser um factor determinante da negligencia, como apos o controlo desta variavel, os efeitos observados revelam que nao e a satisfacao das maes que explicam a relacao com os filhos, mas sim as atribuicoes de controlo na resposta aos problemas. As atribuicoes relacionadas com um elevado interesse, esforco e experiencia na area do trabalho contribuem para que, com o aumento de horas de trabalho, as maes se tornem mais negligentes. Pelo contrario, as maes que nao investem na sua situacao profissional, negligenciam menos os filhos a medida que o tempo dedicado ao trabalho aumenta. Por outro lado, quando se considera o estatuto de trabalho das maes que pensam que as causas da sua situacao profissional estao fora do seu controlo, sao as maes que nao trabalham que sao mais negligentes com os filhos.

Discussao

A questao que motivou as analises que acabam de se relatar foi a de saber se seria possivel explicar as praticas maternas abusivas atraves dos contextos de trabalho da mae, a partir de uma hipotese geral--a de extravasamento--em que as circunstancias do sub-sistema de trabalho se transferem para o sub-sistema de relacao pais-filhos. A literatura mostra que o estatuto economico e profissional e as horas de trabalho das maes sao factores que interferem nos processos de parentalidade (e.g., Hoffman, 1989), pelo que importa explorar em que situacoes e vivencias de trabalho as funcoes maternas se tornam mais ou menos vulneraveis. Para isso analisou-se a avaliacao da satisfacao e dos recursos maternos (pessoais, sociais e comunitarios) disponiveis para enfrentar as questoes relacionadas com o estatuto de trabalho (e.g., Greenberger & O'Neil, 1993).

De uma forma geral pode dizer-se que, se para algumas variaveis o padrao de resultados obtidos e bastante semelhante, a especificidade da parentalidade abusiva torna mais dificil enquadrar na literatura recenseada algumas das conclusoes a que se chegou. Em primeiro lugar, e contrariamente as referencias classicas da literatura que descrevem os efeitos directos do estatuto de trabalho e do tempo dedicado ao trabalho nas interaccoes pais-filhos, os resultados indicam um processo mais complexo de relacoes destas variaveis com a parentalidade. Consonantes com o modelo proposto, os resultados indicam que as variaveis de trabalho materno interferem na parentalidade abusiva, mas somente em determinadas condicoes que variam em funcao da avaliacao da satisfacao, dos recursos e das atribuicoes causais maternas sobre a situacao de trabalho. Quer isto dizer que as praticas abusivas estao associadas ao desemprego materno e ao numero excessivo de horas de trabalho, mas nao de forma directa, como sugerido pela maior parte da literatura referida (Hoffman, 1989). Por outro lado, os resultados estao largamente de acordo com as propostas mais recentes de um conjunto de autores (e.g., Barnett, 1996; Greenberger & O'Neil, 1993; Grzywacz & Marks, 2000), que tem vindo a mostrar, com populacoes sem risco, que os efeitos do trabalho na parentalidade estao relacionados com a satisfacao, percepcao de recursos e de controlo sobre a situacao.

Em suma, os resultados mostram, entao, que o mau trato, a par das explicacoes maternas de falta de capacidade, investimento e experiencia, parece estar mais relacionado com o desemprego materno e o numero excessivo de horas de trabalho da mae quando estas avaliam, no primeiro caso, nao ter recursos suficientes para enfrentarem os problemas, e no segundo caso, quando avaliam estar insatisfeitas com a situacao profissional. A negligencia aparece tambem relacionada com o desemprego materno e o numero excessivo de horas de trabalho da mae, mas, no primeiro caso, associado a falta de controlo sobre a situacao para enfrentar os problemas e, no segundo caso, quando avalia como causas principais da situacao o investimento e a experiencia profissional para manter o estatuto de trabalho. Por outro lado, o tempo dedicado ao trabalho parece aumentar o investimento parental, mas apenas nas situacoes em que as maes nao atribuem a si proprias os problemas de trabalho com que se deparam.

Enquadrados na literatura, estes resultados parecem confirmar o papel da falta de recursos e da insatisfacao com o trabalho como particularmente disruptivo nas relacoes mae-filhos como defende Hoffman (1989), embora, o baixo nivel de controlo apareca associado a resultados na negligencia que parecem mais dificeis de enquadrar na literatura recenseada. Pois, enquanto Grzywacz e Marks (2000) refere que o baixo nivel de controlo esta associado a mais consequencias negativas do trabalho na familia, os resultados aqui obtidos nao confirmam este extravasamento negativo nas maes que trabalham, mas sim nas domesticas e desempregadas. De forma consistente com a mesma revisao de literatura, o autor salienta que, quanto mais baixa e a pressao e maior o controlo no trabalho, menor e o extravasamento negativo do trabalho para a familia (e.g., Grzywacz & Marks, 2000).

Contudo, os nossos resultados indicam que as maes, mesmo com controlo, face a pressao elevada (horas de trabalho) aumentam a frequencia e gravidade da negligencia. Por sua vez, a hipotese de que os pais com baixo envolvimento no papel profissional estao mais investidos no papel parental, nao confirmada no estudo de Silverberg e Steinberg (1990), tambem nao e confirmada no nosso modelo com maes negligentes, uma vez que estas, apesar das horas de trabalho, desde que nao se considerem cognitivamente envolvidas (fazem atribuicoes externas) parecem aumentar o investimento na parentalidade. Tomados em conjunto, estes dois ultimos resultados sugerem que o nivel de orientacao das maes negligentes para o trabalho fora de casa pode ser um moderador crucial dos efeitos do trabalho na parentalidade, embora seja necessario distinguir os aspectos funcionais (horas de trabalho) dos aspectos motivacionais. As maes com elevado envolvimento funcional e motivacional parecem negligenciar mais os filhos do que as maes com um envolvimento funcional elevado, mas que nao estao emocionalmente envolvidas no trabalho.

Os resultados foram obtidos num contexto cultural particular (o Portugues), embora haja sinais de que e um topico de crescente interesse tambem no Brasil (e.g., Faria & Rachid, 2007). A investigacao neste dominio tem mostrado que o stress familiar e um importante preditor do extravasamento trabalho familia tanto em Portugal como no Brasil, mas que pode revestir contornos diferentes nas duas culturas (Fontaine et al., 2009), pelo que as diferencas culturais deverao ser analisadas.

O padrao de resultados que emergiu tambem da suporte a perspectiva ecologica da interface trabalho-familia. Consistente com os modelos ecologicos e de stress, os resultados obtidos confirmam que factores pessoais, da situacao de trabalho e da familia influenciam o extravasamento da area profissional para a parentalidade.

Implicacoes

Tomados em conjunto, os resultados deste estudo, embora definam processos mais complexos do que os observados na investigacao desenvolvida com amostras de maes sem risco, sugerem que o nivel de orientacao, recursos e satisfacao com a situacao profissional sao moderadores cruciais dos efeitos do trabalho na parentalidade e que, em geral, as hipoteses sobre os efeitos positivos do aumento de recursos, em vez da sua escassez, sao uma area importante na intervencao comunitaria com familias abusivas.

O foco nas percepcoes das maes sobre os diferentes contextos socioecologicos, profissionais e familiares deve ser particularmente importante nas politicas de intervencao com a pobreza, a familia e a educacao, no sentido de mover as familias do desemprego e rendimento minimo, da dependencia e dos contextos da violencia, para o trabalho, a autonomia e bem-estar. Tendo como objectivo diminuir o extravasamento negativo do trabalho (desemprego/pressao do trabalho) para a familia e vice-versa, e destes para a parentalidade, deverao ser pensados programas comunitarios que promovam a insercao profissional, associados a implementacao de relacoes sociais de suporte (em comunidades com infantarios, por exemplo), com horarios flexiveis, focalizados na reducao da pressao, construindo meios profissionais, familiares e comunitarios que possam beneficiar as maes nas diferentes esferas de vida. A disponibilidade de servicos sociais, de saude e educativos na comunidade, assim como o suporte social informal, sao cruciais quando as experiencias de vida negativas passadas e presentes sao tao caracteristicas nestas familias.

Referencias

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Recebido em julho de 2012

Aceito em novembro de 2012

Maria Manuela Calheiros--Centro de Investigacao e Intervencao Social (CIS), ISCTE--Instituto Universitario de Lisboa.

Maria Luisa Lima--Centro de Investigacao e Intervencao Social (CIS), ISCTE--Instituto Universitario de Lisboa.

Carla Silva--Centro de Investigacao e Intervencao Social (CIS), ISCTE--Instituto Universitario de Lisboa.

Endereco para contato: maria.calheiros@iscte.pt

(1) Uma vez a correlacao elevada entre a variavel estatuto e horas de trabalho (r= .78) e encontrados os efeitos de interaccao de cada uma destas variaveis com a satisfacao, confirmamos se os resultados destas interaccoes (apresentados na Tabela 3) se mantinham apos controlo de cada uma das interaccoes. Os resultados obtidos indicam que somente a interaccao estatuto de trabalho e satisfacao se mantem apos este controlo (F(1,97)=10.38, p=.002).

(2) Embora a analise de variancia apenas mostre diferencas tendenciais entre os grupos de estatuto profissional diferente, a correlacao encontrada entre estatuto profissional e mau trato nas situacoes de insatisfacao, (r (25)=.41, p=.04) e indicadora de que sao as maes empregadas que mais maltratam os filhos.

(3) Este efeito de interaccao mantem-se tendencialmente significativo F (1,97)= 3.08, p= .08, mesmo controlando o efeito de interaccao anterior.
Tabela 1--Comparacao das medias do mau trato e negligencia e das
variaveis controladas nos grupos.

                  Controlo   Mau Trato   Negligencia   Mau Trato &
                   (N=23)     (N=21)       (N=27)      Negligencia
                                                         (N=27)

Mau Trato ***       .30        2.78          .71          2.78
Negligencia ***     .00         .82         2.31          2.42
Idade               8.74       9.14         9.15          9.41
Cronicidade         .00        2.05         2.44          2.74
Esc. mae **         2.52       2.50         2.12          2.04
T. residencia       2.76       2.72         2.43          2.52

*** p=.000; ** p=.02

Tabela 2--Correlacoes, medias e desvio-padroes das principais variaveis
em estudo.

1                      2          3            4            5

1. Mau trato           36 (***)   -.17         -.09         -.11
2. Negligencia                    -.66 (***)   -.42 (***)   -.19
3. Socioeconomico                              .65 (***)    .34 (***)
4. Escolaridade mae                                         .23 (*)
5. Horas de trabalho
6. Satisfacao
7. Recursos
8. Causas internas
9. Causas externas

M                                 2.71         2.36         21.17
DP                                .76          .95          23.69

1                      6           7            8            9

1. Mau trato           -.26 (**)   -.23 *       .40 (***)    -.12
2. Negligencia         -.17        -.31 (***)   .59 (***)    -.05
3. Socioeconomico      .23 (*)     .37 (***)    -.55 (***)   .11
4. Escolaridade mae    -.01        .20 (*)      -.36 (***)   -.03
5. Horas de trabalho   .51 (***)   .41 (***)    -.29 (**)    .40 (***)
6. Satisfacao                      .73 (***)    -.25 (*)     .51 (***)
7. Recursos                                     -.26 (**)    44 (***)
8. Causas internas                                           .13
9. Causas externas

M                      3.25        2.88         2.36         2.62
DP                     1.27        1.08         .90          .88

(***) p<= 0.001; (**) p <= 0.01; (*) p<= 0.05

Tabela 3--Resultados das regressoes das variaveis preditoras
(estatuto e horas de trabalho) e da variavel de moderacao
(satisfacao com a situacao profissional) na predicao das praticas
maternas abusivas.

                              Mau Trato

Variaveis                      [beta]       Total     [DELTA]F
                                          [R.sup.2]

Etapa 1(covariaveis)
Classe social                 -.19
Escolaridade mae              .04         .01         1.53
Etapa 2
Estatuto trabalho             .27 (*)
Satisfacao                    -.42 (**)   .08         5.12 (**)
Etapa 3
Est. trabalho. x satisfacao   -.39 (**)   .15         8.33 (**)

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho             .06
Satisfacao                    -.27 (*)    .05         2.81 (*)
Etapa 3
Horas trabalho x satisfacao   -.27 (*)    .10         6.62 (**)

                              Negligencia

Variaveis                       [beta]      Total       [DELTA]F
                                           [R.sup.2]

Etapa 1(covariaveis)
Classe social                 -.67 (***)
Escolaridade mae              .02          .42         37.90 (***)
Etapa 2
Estatuto trabalho             -.09
Satisfacao                    .08          .42         .45
Etapa 3
Est. trabalho. x satisfacao   -.18         .41         .55

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho             .14
Satisfacao                    -.10         .42         1.09
Etapa 3
Horas trabalho x satisfacao   .002         .42         1.00

(*) p< 0.05; (**) p<0.01; (***) p < 0.001

Tabela 4--Resultados das regressoes das variaveis preditoras
(estatuto e horas de trabalho) e da variavel de moderacao (avaliacao
de recursos) na predicao das praticas maternas abusivas.

                            Mau Trato

Variaveis                    [beta]     Total      [DELTA]F
                                       [R.sup.2]

Etapa l(covariaveis)
Socioeconomico              -.19
Escolaridade mae            .04        .01         1.53
Etapa 2
Estatuto trabalho           .10
Avaliacao recursos          -.23       .03         1.99
Etapa 3
Est. trabalho. x recursos   -.31 (*)   .06         4.47 (*)

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho           -.02
Avaliacao recursos          -.18       .02         1.59
Etapa 3
Horas de trabalho x         -.15       .03         2.04
  recursos

                            Negligencia

Variaveis                    [beta]      Total       [DELTA]F
                                        [R.sup.2]

Etapa l(covariaveis)
Socioeconomico              -67 (***)
Escolaridade mae            .02         .42         37.90 (***)
Etapa 2
Estatuto trabalho           .08
Avaliacao recursos          -.11        .42         .88
Etapa 3
Est. trabalho. x recursos   -.24        .42         1.03

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho           .13
Avaliacao recursos          -.12        .43         1.53
Etapa 3
Horas de trabalho x         -.02        .42         .05
  recursos

(*) p< 0.05; (***) p < 0.001

Tabela 5--Resultados das regressoes das variaveis preditoras
(estatuto e horas de trabalho) e da variavel de moderacao
(atribuicoes sobre a situacao profissional) na predicao das praticas
maternas abusivas.

                               Mau Trato

Variaveis                      [beta]      Total       [DELTA]F
                                           [R.sup.2]

Etapa 1(covariaveis)
Classe social                  -.19
Escolaridade mae               .04         .01         1.53
Etapa 2
Estatuto trabalho              .12
Causas internas                43 (***)    .13         7.58 (***)
Etapa 3
Est. trab. x Causas Internas   .21         .13         1.43

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Estatuto trabalho              .08
Causas externas                -.13        .004        .69
Etapa 3
Est. trab. x Causas Externas   -.29        .02         2.17

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho              -.02
Causas internas                .43 (***)   .13         7.59 (***)
Etapa 3
Horas trabalho x Causas
  Internas                     .10         .13         .88

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho              -.06
Causas Externas                -.09        .002        .58
Etapa 3
Horas trabalho x Causas
  Externas                     -.03        -.008       .05

                               Negligencia

Variaveis                      [beta]       Total       [DELTA]F
                                            [R.sup.2]

Etapa 1(covariaveis)
Classe social                  -.67 (***)
Escolaridade mae               .02          .42         37.90 (***)
Etapa 2
Estatuto trabalho              .04
Causas internas                .33 (***)    .49         7.87 (***)
Etapa 3
Est. trab. x Causas Internas   -.16         .48         1.89

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Estatuto trabalho              .04
Causas externas                .004         .44         .13
Etapa 3
Est. trab. x Causas Externas   -.51 (*)     .46         4.91 (*)

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho              .14
Causas internas                .36 (***)    .51         9.77 (***)
Etapa 3
Horas trabalho x Causas
  Internas                     -.14 (+)     .52         3.15 (+)

Etapa 1 (covariaveis)
Etapa 2
Horas de trabalho              .09
Causas Externas                -.009        .42         .57
Etapa 3
Horas trabalho x Causas
  Externas                     -.15 (+)     .43         3.19 (+)

(*) p < 0.05; (**) p<0.01; (***) p < 0.001; (+) p [greater than or
equal to] .07 [less than or equal to] .09
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Author:Calheiros, Maria Manuela; Lima, Maria Luisa; Silva, Carla
Publication:Revista Aletheia
Article Type:Report
Date:Jan 1, 2012
Words:7932
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