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Experimental poisoning by Froelichia humboldtiana in horses/Intoxicacao experimental por Froelichia humboldtiana em equinos.

Froelichia humboldtiana Roem. & Schult., da familia Amaranthaceae (Figura 1A), conhecida popularmente como ervanco, foi descrita como causa de fotossensibilizacao primaria em equideos, ovinos e bovinos (MACEDO et al., 2006; RIET-CORREA et al., 2006; PIMENTEL et al., 2007; SOUZA et al., 2012) na regiao semiarida do Nordeste do Brasil. A doenca ocorre tanto no Agreste quanto no Cariri e no Sertao, afetando preferencialmente equideos, no periodo de chuvas, principalmente no final deste, de marco a maio, em pastagens invadidas por F. humboldtiana. A intoxicacao foi reproduzida experimentalmente em ovinos (PIMENTEL et al., 2007) e bovinos (SOUZA et al., 2012). Em equinos e asininos, tentativas de reproducao experimental da intoxicacao, administrando F. humboldtiana imediatamente apos a coleta ou apos ela ter sido conservada em geladeira, tiveram resultados negativos (PIMENTEL et al., 2007). O objetivo deste trabalho foi reproduzir experimentalmente a enfermidade em equinos e determinar aspectos epidemiologicos da doenca nesta especie.

O experimento foi realizado na regiao do Serido, no municipio de Parelhas, na fazenda Sao Sebastiao. No experimento, foram utilizados tres equinos adultos, femeas, mesticas da raca quarto de milha. Foram utilizados dois equinos experimentais, um de pelagem tordilha (no 1), com uma area do chanfro e os jarretes despigmentados, com tres anos de idade e outro de pelagem alaza (no 2), com chanfro branco e com as quatro patas brancas, com dois anos e oito meses de idade. O terceiro equino (no 3), controle, era tambem alaza, com o chanfro branco, com cinco anos de idade.

O experimento comecou um mes apos o inicio das chuvas, quando F. humboldtiana ja estava com 30cm de altura e predominava na area, com intensa floracao e desenvolvimento de pendao. No dia 21/03/2009, os equinos experimentais foram colocados em um cercado com aproximadamente 5 hectares, com pastagem quase que exclusiva de F. humboldtiana. Cada um dos equinos experimentais era preso a cordas de 10 metros, fixadas ao solo por meio de estacas (Figura 1B). A corda era fixada a cada dia em local diferente. Os equinos eram observados tres vezes ao dia: pela manha; ao meio dia, quando se fornecia agua; e ao fim da tarde, para observar se os equinos continuavam presos a corda. Em nenhum momento, os equinos experimentais sairam da area de pastoreio. O fornecimento de agua foi por meio de cochos fixados em locais que cada animal pudesse beber a vontade em seu respectivo cocho. Em dias alternados, era fornecida uma mistura de concentrado (1,5kg de farelo milho e 1kg de farelo de trigo) para cada animal. Diariamente, eram retiradas das areas a serem pastejadas pelos animais outras plantas que nao fossem F. humboldtiana. O equino controle foi colocado solto em uma area de aproximadamente 4 hectares que nao havia F. humboldtiana e recebia a mesma suplementacao que os equinos experimentais. No inicio do experimento, todos os equinos foram vermifugados e realizado exame clinico.

Foram coletadas amostras de sangue dos equinos em tres periodos distintos: imediatamente antes do inicio do experimento (20/03/09); com oito dias de pastoreio, quando nos animais experimentais ja evidenciavam lesoes nas areas despigmentadas; e com 16 dias de pastoreio. Em cada coleta, foram analisados os niveis sericos de aspartato aminotransferase (AST), gama glutamil transferase (GGT), fosfatase alcalina (FA) e lactato desidrogenase (LDH), utilizando o metodo cinetico com kits comerciais da Bioclin[R].

Os equinos experimentais apresentaram prurido e queda de pelo, mais acentuados nas areas despigmentadas, a partir do 4o dia de experimento. Nesse dia, observou-se que o chanfro do Equino 1, e o focinho do Equino 2 estavam mais rosados. No sexto dia, observou-se queda de pelo da regiao do boleto e quartela esquerdos do Equino 1 (Figura 1C) e no focinho dos dois equinos, sendo mais acentuada no Equino 2. No setimo dia, nos dois equinos, as lesoes na area do focinho eram mais marcadas, havia aumento de queda de pelo das areas despigmentadas e avermelhamento e alopecia na regiao do chanfro e do boleto e quartela esquerdos. Essas lesoes foram aumentando e, na ultima observacao, realizada dia 12 de abril de 2009, os equinos apresentavam exsudato e formacao de crostas, nas tres areas citadas. No 16[degrees] dia, os equinos foram retirados da area e colocados na sombra, observando-se recuperacao total das lesoes apos 7 a 14 dias. Nao foram observadas alteracoes clinicas no Equino 3 (controle). As atividades sericas de AST, GGT, FA e LDH de todos os animais estavam dentro dos valores normais, tanto antes do experimento quanto no final dele, com 16 dias de ingestao da planta (Tabela 1).

A presenca de lesoes nas areas despigmentadas, nos equinos que pastejavam em area invadida por F. humboldtiana, e a ausencia destas no equino controle, que pastejou por periodo integral em area sem a planta, comprovam que a doenca e causada por F. humboldtiana. Similares resultados foram obtidos por PIMENTEL et al. (2007) em ovinos e por SOUZA et al. (2012) em bovinos. Experimentos com a planta arrancada, conservada em geladeira e posteriormente administrada a vontade a asininos, equinos e ovinos, por 30 dias, nao reproduziram lesoes de fotossensibilizacao (PIMENTEL et al., 2007). E possivel que a planta perca a toxicidade apos ser coletada e armazenada, semelhante ao que ocorre com Hipericum perforatum, cujo principio ativo (hipericina) e uma substancia derivada da naftodiantrona, a qual, apos a fenacao, perde 80% da toxicidade (MUNRO, 2006).

Os valores sericos de AST, FA, GGT e LDH, dentro da normalidade, nos equinos que pastaram durante 16 dias em area invadida por F. humboldtiana e apresentaram sinais de fotossensibilizacao, comprovam que a planta causa fotossensibilizacao primaria, sem comprometimento hepatico.

Foi evidenciado neste experimento que F. humboldtiana e altamente palatavel para equinos, o que faz com que estes animais a ingiram avidamente. Este fato e a ocorrencia de areas onde a planta e a especie dominante sao fatores aparentemente determinantes para a ocorrencia da intoxicacao. Neste experimento, a ingestao de F. humboldtiana como unico alimento volumoso causou fotossensibilizacao, quatro dias apos o inicio do consumo, enquanto que, em ovinos em condicoes semelhantes as primeiras lesoes, foram observadas 4-11 dias apos o inicio da ingestao e, em bovinos, apos 3 dias de consumo, o que evidencia susceptibilidade semelhante entre as 3 especies. No entanto, a doenca e bem mais frequente em equinos do que em ovinos ou bovinos (MACEDO et al., 2006; RIET-CORREA et al., 2006), o que poderia ser devido a grande palatabilidade da planta para os equinos, que a ingerem com avidez.

A localizacao das lesoes no chanfro e parte distal dos membros sugere a possibilidade de que F. humboldtiana cause fotossensibilizacao tambem em consequencia do contato com a pele. Porem o fato de que animais afetados espontaneamente apresentam lesoes no dorso, area de dificil possibilidade de contato com a planta, e as grandes quantidades de planta ingerida evidenciam que a via oral e a mais importante para a ocorrencia da doenca.

COMITE DE ETICA E BIOSSEGURANCA

Declaracao dos autores:

Nos, autores do artigo intitulado "Intoxicacao experimental por Froelichia humboldtiana em equinos", declaramos, para os devidos fins, que o projeto que deu origem aos dados deste trabalho nao foi submetido para avaliacao ao Comite de Etica da Universidade Federal de Campina Grande, mas estamos cientes do conteudo das resolucoes do Conselho Nacional de Controle de Experimentacao Animal--CONCEA <http://www. mct.gov.br/index.php/content/view/310553.html> caso envolva animais. Dessa forma, os autores assumem total responsabilidade pelos dados apresentados e estao disponiveis para possiveis questionamentos, caso venham a ser requeridos pelos orgaos competentes.

http://dx.doi.org/10.1590/0103-8478cr20131417

Recebido 24.10.13 Aprovado 16.01.14 Devolvido pelo autor 03.09.14 CR-2013-1417.R1

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi financiado pelo Instituto Nacional de Ciencia e Tecnologia (INCT) Para o estudo do Controle das Intoxicacoes por Plantas.

REFERENCIAS

MACEDO, M.C. et al. Fotossensibilizacao em animais de producao na regiao semiarida do Rio Grande do Norte. Arquivos do Instituto Biologico, Sao Paulo, v.73, n.2 p.251-254, 2006. Disponivel em: <http://www.biologico.sp.gov.br/docs/arq/V73_2/ macedo.PDF>. Acesso em: 27 fev. 2012.

MUNRO, D.B. Canadian poisonous plants information system. Notes on poisoning: Hypericum perforatum. 2006. Disponivel em: <http://sis.agr.gc.ca/pls/pp/poison?p_x=px>. Acesso em: 12 ago. 2006.

PIMENTEL, L.A. et al. Fotossensibilizacao primaria em equideos e ruminantes no semiarido causada por Froelichia humboldtiana (Amaranthaceae). Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.27, p.19-24, 2007. Disponivel em: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_pdf&pid=S0100-736X2007000100005&lng=pt& nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 10 jul. 2012. doi: 10.1590/S0100736X2007000100005.

RIET-CORREA, F. et al. Plantas toxicas da Paraiba. Patos: CSTR/UFCG, SEBRAE/PB, 2006. 58p.

SOUZA, P.E.C. et al. Primary photosensitization in cattle caused by Froelichia humboldtiana. Research in Veterinary Science, v.88, p.1337-1340, 2012. Disponivel em: <http://www.sciencedirect. com/science/article/pii/S0034528812001233>. Acesso em: 10 jul. 2013. doi: 10.1016/j.rvsc.2012.04.005.

Rosane Maria Trindade Medeiros (I) * Von Klein Dantas Bezerra (I) Franklin Riet-Correa (I)

(I) Hospital Veterinario, Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), 58700-000, Patos, PB, Brasil. E-mail: rmtmed@uol.com.br.

* Autor para correspondencia.

Tabela 1--Valores (U/L) de aspartato aminotransferase (AST),
gama glutamil transferase (GGT), fosfatase alcalina (FA) e
lactato desidrogenase (LDH) em dois equinos pastando em area
invadida por Froelichia humboldtiana e em um equino controle
que pastoreava em area onde nao havia essa planta.

Equino (No)              Dia 0

              GGT    AST     FA    LDH

1 Tratado      14    256    543    192
2 Tratado      14    274    286    128
3 Controle      8    254    245    176

Equino (No)              8 Dia

              GGT    AST     FA    LDH

1 Tratado      14    312    361    148
2 Tratado      19    359    314    196
3 Controle      8    256    245    176

Equino (No)           16 Dia

              GGT    AST     FA    LDH

1 Tratado      16    289    328    104
2 Tratado      10    328    237    184
3 Controle     10    242    259    136
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Author:Medeiros, Rosane Maria Trindade; Bezerra, Von Klein Dantas; Riet-Correa, Franklin
Publication:Ciencia Rural
Date:Oct 1, 2014
Words:1641
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