Printer Friendly

Existencia Assistida: Uma etnografia do "ser" no Equador (Traducao).

Introducao

Profissionais da reproducao assistida de quase todas as nacoes das Americas Central e do Sul participaram, em 2003, da conferencia da Rede LatinoAmericana de Reproducao Assistida (REDLARA). Um dos palestrantes foi a doutora Catherine Racowsky, uma reconhecida embriologista, diretora do laboratorio e do programa de FIV do Hospital de Mulheres BRIGHAM em Cambridge, Massachusetts. Racowsky falou em varios paineis ao longo da conferencia, sempre em ingles, com um marcado sotaque britanico. Muitos dos participantes, incluindo alguns dos medicos e biologos de centros de reproducao assistida no Equador, onde eu estava conduzindo minha pesquisa na epoca, precisaram de traducao durante as suas falas. A performance da doutora Racowsky, como uma especialista em reproducao assistida do primeiro mundo, era deslumbrante. Ela era seria, e, ao mesmo tempo, apaixonada e intuitiva. Ao descrever seus protocolos especificos, ela explicou como "sente o que os embrioes querem". Sua enfase na precisao tecnica e qualidade laboratorial foram preeminentes, mas isso nao significa que ela imaginava que todos os laboratorios eram semelhantes.

Durante as discussoes sobre protocolos e tecnicas, ela abordou como certas aproximacoes podem nao funcionar em outros laboratorios por conta de diferencas na qualidade do ar, diferentes temperaturas, incubadoras e meios de cultura. Enquanto Racowsky reconheceu como diferentes condicoes laboratoriais podem emergir com equipamentos diferentes, sua recomendacao como especialista, dirigida para medicos trabalhando na America Latina, nao era capaz de compreender como clinicas podiam ter dificuldades em obter e manter equipamentos.

Os padroes laboratoriais com os quais Racowsky trabalha a permitem entendimento que toma como dado que todo equipamento e infraestrutura envolvidos na producao de resultados sao encontrados em qualquer lugar. No entanto, a partir de minha pesquisa etnografica em clinicas de FIV equatorianas, eu sabia que manter padroes laboratoriais precisos poderia ser extremamente desafiador. Atrasos alfandegarios tornam dificil obter meios de cultura para embrioes entregues sem danos ou medicamentos de infertilidade que nao estejam prestes a expirar. Ciclos foram interrompidos por semanas em Quito, quando houve uma erupcao vulcanica que contaminou a qualidade do ar nos laboratorios devido a falta de filtros. Comprar novos microscopios e incubadoras era uma tarefa extremamente desafiadora no Equador. Eles eram muito caros, dificeis de manter ou consertar. Certa vez, passei o dia inteiro com um biologo em uma clinica de Quito, enquanto tentavamos resolver um problema com o fornecedor de um microscopio de micromanipulacao. Nos nao podiamos contatar ninguem para resolver o problema, e tambem nao era possivel ligar para o numero gratuito da companhia.

Essas dificuldades afetavam as praticas clinicas de varias maneiras. Quando pipetas eram retidas nas alfandegas, os profissionais de saude tinham de interromper as inseminacoes por um mes. Quando cateteres nem sequer chegavam, profissionais improvisavam os procedimentos com seringas comuns. Quando o laboratorio ficava sem certos meios de cultura, eles tinham de transferir os embrioes de volta para os pacientes no segundo, ao inves do terceiro dia, considerado o tempo ideal.

Essas dificuldades na manutencao clinica e laboratorial forneciam aos profissionais equatorianos um lembrete diario de quanta assistencia a reproducao assistida necessitava para funcionar. Esses lembretes nao eram nada alem do cotidiano, dado que no Equador fazer as coisas, e faze-las funcionar, sempre precisava de assistencia. Isso incluia fazer novas pessoas, isto e, criancas, com ou sem reproducao assistida. Racowsky trabalhou e viveu em Cambridge, Massachusetts, onde a assistencia necessaria para coordenar a FIV, ou para criar criancas, e muito mais facil de ignorar. O jeito como as coisas podem se unir com facilidade e parte e parcela de como as coisas sao em geral, como pessoas e instituicoes podem parecer estaveis e autonomas. A relativa (e eu destaco relativa) estabilidade de estruturas, como escolas, saude, estradas e saneamento publico, em muitas partes dos Estados Unidos, pode produzir em pessoas de classe media e altas um senso de autonomia em relacao a muitas de suas metas, incluindo ter filhos. Nesse terreno, a reproducao assistida pode ser sentida como uma imposicao nessa autonomia.

Tive uma ampla experiencia como etnografa da reproducao assistida--FIV, gestoras substitutas, doacao de ovulos e esperma--primeiro, entre classes medias e altas na California dos anos 90, depois entre equatorianos urbanos de diferentes classes no comeco dos anos 2000, durante um periodo neoliberal, previo a tentativa de reformas sociais de Rafael Correa, incluindo a reforma do sistema de saude (ROBERTS, 1998, 2012a). Atraves da observacao etnografica em ambos os lugares, notei que as experiencias de reproducao assistida diferem entre, por um lado, California e, por outro lado, Quito e Guayaquil, as duas cidades onde as nove clinicas estavam situadas no momento da pesquisa. Essas diferencas foram, particularmente, causadas por papeis e variacoes situadas na "assistencia" nessas, muito distintas, realidades materiais.

Nunca pensei muito sobre a "assistencia" na reproducao assistida durante minha pesquisa na California dos anos 90. Assistencia era um problema tao evidente que eu nunca pensei em analisa-lo. Assistencia para superar a ausencia de filhos entre casais heterossexuais assinalava que havia um mau funcionamento biologico em como as criancas devem, naturalmente, vir ao mundo. Equipamentos da FIV como cateteres, hormonios sinteticos e microscopios; a utilizacao de terceiros, como doadores de esperma, ovulos e gestoras substitutas; e esforcos de profissionais, normalmente pareciam artificiais, intervencoes externas em processos de reproducao biogenetica, "naturais", que incluiam o ato sexual heterossexual, e o nascimento de criancas em familias nucleares. Alem de possivelmente alienar esses casais de suas experiencias fisicas naturais, a dependencia da assistencia tecnologica envolvia-os com pessoas e coisas indesejadas, colocando sua autonomia como casal em questao. Por exemplo, enquanto muitos casais que encontrei fizeram uso de doadores de gametas e gestoras substitutas, essas outras pessoas ameacavam, potencialmente, a reivindicacao da parentalidade exclusiva do casal. Embora eu tenha notado suas preocupacoes acerca da autonomia e artificialidade, naquele momento eu compreendia esses fenomenos como marcados de "especificidade" cultural. Nao percebi como a relativa facilidade em coordenar as necessidades de suprimentos, doadores de gametas e dinheiro, nessas clinicas privadas, estava baseada na infraestrutura estatal que faz boas estradas, cadeias de abastecimento bem conectadas, uma abundancia de pacientes educados, e uma relativa estabilidade em relacao as instituicoes e pessoas. Eu nao pensei muito a respeito da infraestrutura material que fez possivel a FIV e tambem um senso idealizado de autonomia.

Nas areas urbanas do Equador, descobri que aquelas ansiedades em relacao a autonomia e artificialidade nao se manifestam, nem de longe, no mesmo grau com que se manifestavam na California. A maioria das pessoas que encontrei nas clinicas de Quito e Guayaquil, muitos dos quais viajaram de pequenas cidades ate la, experienciavam a sua existencia como fundamentalmente assistidas por outras pessoas, por Deus, e por uma serie de outras coisas, todas as quais contribuiam para uma compreensao geral da reproduccion assitida no Equador. A reproducao assistida nao interfere com o sacrossanto ou natureza separada. Infertilidade heterossexual era um problema biologico, mas normalmente o problema maior estava no rompimento das relacoes que a ausencia de filhos poderia trazer na continuidade da familia estendida. Tecnologias de reproducao assistida poderiam trazer uma solucao para esse rompimento atraves da assistencia tecnologica, dinheiro e doadoras de ovulos.

Crucialmente, as aventuras reprodutivas nos centros urbanos do Equador nao somente implicavam o fazer filhos, mas, tambem, fazer e reforcar as relacoes entre adultos, e entre adultos e Deus, em um mundo instavel e materialmente inseguro. Meu trabalho de campo transcorreu em meio a um cronico e catastrofico ciclo economico de inflacao, devido ao crescimento e implosao do mercado petrolifero, bem como da dolarizacao e da ascensao e queda de nove presidentes em nove anos, divida externa, fechamento de bancos, escandalos de corrupcao, levantes indigenas, efeitos nefastos do racismo e constantes greves de servidores publicos, como professores, profissionais de saude e policia (CLARK; BECKER, 2007; GERLACH, 2003). Diante dessa instabilidade, a maioria das pessoas que encontrei no Equador, nao importa quao vasta fosse seu acesso aos recursos materiais, experimentavam a vida como existencialmente precaria e erratica. A existencia e entao destacada nao na autonomia individual, mas na necessidade de interdependencia e conexao. Assistencia e o proprio existir.

Desse modo, este artigo e sobre a importancia da assistencia na Reproducao Assistida em Quito e Guayaquil, com alguma justaposicao com o que eu observei na California, para comparacao. Contudo, e imperativo enfatizar que nao ha nada essencial sobre essas diferencas. A comparacao e fragil devido a nossa tendencia em ver diferencas como atemporais e fixas, e de modo ainda mais problematico, como surgindo separadamente--como se os processos historicos, economicos, colonizadores e ambientais que moldaram a realidade de Quito nao tivessem nenhuma conexao com os processos historicos, economicos e ambientais que moldaram a realidade urbana de Deli, rural de Hunan ou dos suburbios de Los Angeles. Ao fazer a justaposicao da Reproducao Assistida no Equador com a California, nao estou fazendo um modelo tipologico de norte/sul, centro/periferia para ser aplicado em outros locais. A California nao esta no "Oeste" ou "Norte". Por exemplo, no comeco dos anos 1990, as clinicas californianas comecaram a pagar pela doacao de ovulos de doadoras conhecidas, algo incomum no resto dos Estados Unidos. Alem disso, as infraestruturas do bem-estar social que faziam a vida parecer estavel para pacientes de classe media com quem conversei na California eram muito diferentes das infraestruturas do bemestar social disponiveis na Gra-Bretanha, Espanha ou Leste Europeu, e essas nacoes eram diferentes uma das outras. A proibicao da venda de ovulos na Gra-Bretanha produziu um efervescente mercado de ovulos na Espanha, onde essa pratica era legal, preparado especificamente para cidadaos do Reino Unido. Registros etnograficos estao repletos de exemplos sobre como a reproducao assistida e praticada, especificamente dentro e entre nacoes, em relacao as suas particularidades geopoliticas e historias economicas (BECK; KLOTZ; KNECHT, 2012; BHARADWAJ, 2002; M. CLARKE, 2009; FRANKLIN; ROBERTS, 2001; HANDWERKER, 1995; INHORN, 2003; IVRY, 2009; NAHMAN, 2008; PASHIGIAN, 2009; STRATHERN, 2005).

E muito importante enfatizar que as praticas de reproducao assistida no Equador tambem nao sao uniformes. Ha diferencas na reproducao assistida em Quito e Guayaquil, relacionadas as especificidades regionais, economicas e religiosas dessas duas cidades. Em Quito, que esta localizada na sierra, um historico de relacoes de producao agraria, patrao-cliente, produziu um sistema mais corporativo de trabalho e estrutura familiar, que tambem produz relacoes de troca mais materialistas e pessoais com Deus. Em contraste, na cidade portuaria de Guayaquil, relacoes economicas desde o seculo XIX tem sido estruturadas em torno da venda do trabalho individual (CLARK, 2002) e residentes tendem a ter uma relacao doutrinaria mais individual com Deus. Essas diferencas moldam praticas de fertilizacao in vitro, especialmente no que diz respeito a nocoes de pessoa e parentesco. Por exemplo, embrioes e ovulos guayaquilenos sao mais individualizados do que embrioes e ovulos quitenos, mas, em ambas as cidades, a reproducao assistida da nacao implica reconsideracoes da natureza e do parentesco, diferentemente do que ocorreu quando essas tecnicas chegaram a California. Essa diferenca pode ser explicada por uma percepcao de que a natureza e o parentesco na sociedade urbana no Equador nao estao baseados em uma separacao ou relacao de autonomia. Ao inves disso, a reproducao assistida reforca a assistencia necessaria para viver.

Meu argumento atraves deste artigo e materialista no que diz respeito ao que os recursos fazem quando aplicados em questoes ontologicas sobre como pessoas vem a existir. Ovulos de fertilizacao in vitro, embrioes e pacientes sao produzidos diferentemente na California, em Quito e em Guayaquil. No contexto californiano do inicio dos anos 90, fontes de equipamento e materiais eram confiaveis, tornando facil estabelecer rotinas e protocolos regulares. Nesse contexto, o corpo das mulheres e os gametas produzidos, interna e externamente, eram tratados sob um regime relativamente estavel de cuidado e infraestruturas alcancaveis, que nao eram faceis de serem percebidos. A autonomia era mais facilmente estabelecida, e a assistencia era menos importante. Em outras palavras, recursos sao "caixas pretas" que podem fazer a assistencia entre as pessoas e coisas dificil de perceber. Na realidade menos estruturada de Quito e Guayaquil, a existencia autonoma de qualquer coisa, sejam individuos biologicos, ovulos ou embrioes, eram muito dificeis de estabelecer. Pessoas e coisas eram claramente transformadas e alteradas atraves de recursos, e, como descreverei em seguida, tambem eram alteradas caracteristicas, como a raca.

Realidade Maleavel

O modo de assistencia a existencia que encontrei nas areas urbanas do Equador ressoa com o trabalho de teorias feministas, filosoficas, historicas, sociologicas e antropologicas da ciencia, que defendem uma profunda interconectividade material do mundo, propondo termos como "biologias locais" (LOCKE, 1993), "natureza/cultura (HARAWAY, 1991)", e "biossociabilidades" (RABINOW, 1996). Esses academicos insistem que cachorros, humanos, bombas de agua, abelhas, terra, moluscos, computadores, legisladores, tomates, micro-organismos e divindades fazem-se, mutuamente, dentro de relacoes muito materiais (CALLON, 1989; DE LAET; MOL, 2000; HARAWAY, 2008; KOSEK, 2010; LATOUR, 1987; 2010; MOORE; KOSEK; PANDIAN, 2003; RABINOW, 1996). No mesmo caminho, a filosofa da medicina, Annemarie Mol, argumenta que objetos como doencas, corpos e estatisticas existem atraves da repeticao de certas praticas e outros objetos que os mantem no lugar--assim, a doenca e diferente em um laboratorio de patologia com o microscopio em comparacao com um quarto de operacao com um bisturi. O que atua em um objeto o faz, nas palavras de Mol, "ser e estar relacionado" (MOL, 2002, p.54).

O estabelecimento de uma doenca, ou de um fato, ou ainda de uma pessoa, e realizado atraves de uma "co-ordenacao", o processo de juntar a "diversidade de objetos que sao chamados por um nome singular" (MOL, 2002, p.84). O que encontrei no Equador foi que o trabalho central de academicos da medicina, ciencia e tecnologia em lugares estruturados, o trabalho de notar todos os complicados atos de coordenacao necessarios para estabelecer objetos, pessoas ou fatos (CLARKE; FUJIMURA 1992; MOL, 2002), e algo que no Equador as pessoas experienciam diariamente. No Equador, colocar juntos a diversidade de objetos necessaria para fazer pessoas, fatos ou objetos e, normalmente, dificil. Fatos, objetos ou pessoas requerem assistencia para existir, e a existencia e "maleavel e mutuamente interativa", dependente do que esta disponivel (FUENTES, 2010, p.604). Assim, caracteristicas, como raca, que tendem a ser estaveis em individuos nos Estados Unidos podem variar ao longo da vida das pessoas no Equador.

A frase nuestra realidad (nossa realidade), usada no cotidiano do Equador urbano, fala sobre os conjuntos particulares de relacoes contingenciais, conexoes e restricoes que moldam as especificidades da vida no pais, algo que torna dificil aceitar uma realidade universal e singular. Nuestra realidad explicitamente designa a nao universalidade. Algumas vezes ela se refere a falta de infraestrutura no Equador, por exemplo: "aquele projeto nao funciona na nuestra realidad". Tambem escutei a frase ser usada de uma forma mais positiva, para denotar calor humano, apego e flexibilidade das pessoas na nuestra realidad em contraste com a dura individualidade nos Estados Unidos.

Nuestra reailidad se manifesta nas clinicas equatorianas de FIV regularmente. Co-ordenando os elementos de reproducao assistida que se acomodam suavemente na America do Norte e muito mais dificil em nuestra realidad. Medicos de FIV que voltam para casa de treinamentos no exterior, normalmente, encontram dificuldades em se ajustar ao ritmo mais lento e horarios mais frouxos dos procedimentos nas clinicas, caracteristicas da pratica em locais com menos recursos. Enfermeiras que aguentam a ira de medicos cochicham entre si que tal medico nao se ajustou a nuestra realidad. Esses mesmos medicos tem de ser lembrados de como foi dificil e oneroso conseguir suprimentos para essas clinicas. Quando eles demandam suprimentos para administradores desses locais, os administradores reclamam dizendo algo do tipo: "voce pensa que e Natal e pode-se conseguir o que quiser por aqui?".

Nessas clinicas, nuestra realidad, envolvem-se contingentes materiais de relacoes que moldam organismos biologicos. Medicos de FIV moldaram seus regimes de medicamentos especificamente para os corpos de mulheres equatorianas que cresceram, geralmente, malnutridas e enfrentando a dura relacao entre os problemas economicos e burocraticos, como o alto custo de medicamentos importados para infertilidade e a dificuldade de transporta-los atraves das alfandegas. Algumas vezes, os profissionais tem de trocar os protocolos para se adequar ao que possuem ao seu alcance. Quando um micromanipulador de espermatozoides quebrou, o seu substituto levou um mes para chegar. Esse atraso fez com que Dr. Madera (2) tivesse que descontinuar a injecao intracitoplasmatica de esperma (ICSI), que era utilizada em quase todos os ciclos de FIV. Isso mudou como eram estimulados os ovarios das mulheres. Uma serie de circunstancias que moldaram a realidade. Na mesma linha, pacientes experienciam seus corpos, nao universalmente, mas individualmente. Como descreverei em seguida, pacientes mulheres de FIV ouviram que os hormonios da fertilidade causaram mudancas de humor em mulheres de outros paises, mas eles atribuiam seus proprios sentimentos de tumulto emocional a complexidade e bagunca em lidar com suas vidas durante um processo dificil de projeto reprodutivo na nuestra realidad. Os desvios de protocolos internacionais feitos pelos medicos, bem como o senso dos pacientes sobre seus proprios corpos como sendo diferente dos corpos de outras mulheres, eram o resultado de configuracoes biologicas, economicas e institucionais especificas, entrelacadas na nuestra realidad.

Nuestra realidad traz paralelos compreensivos com teoricos dos Estudos da Ciencia e Tecnologia (STS) que, cuidadosamente, levam em conta as especificidades dos locais e da historia, demonstrando que as tecnologias que sao elaboradas para funcionar em todos os lugares, muitas vezes, nao funcionam devido as diferentes circunstancias materiais (DASTON, 1992; LATOUR, 1987). Por exemplo, farmacos que necessitam de refrigeracao nao funcionam bem em locais com eletricidade intermitente ou sem ela (CRANDON-MALAMUD, 1991). Objetos produzidos em laboratorios nao sao os mesmos em todos os lugares. Um embriao congelado em Delhi nao e o mesmo que outro em Londres ou Quito. Eles sao constituidos em relacoes materiais que os fazem diferentes. O que nuestra realidad nos permite e uma reflexao sobre as especificidades de como as coisas e pessoas vem a ser e, por outro lado, como essas particularidades podem criar tipos de pessoas especificas. No Equador, a co-ordenacao de coisas e pessoas, explicitamente, tem racializado-as.

Como em outras nacoes andinas, durante o seculo XIX e XX, as elites politicas e reformadoras sociais equatorianas estavam preocupadas com o que acreditavam ser um crescente "tribalismo" dos indigenas, algo que impedia o progresso e a coesao do Equador. Uma solucao seria fazer nacao mais clara/branca, cheia de cidadaos educados, atraves do processo de mestizaje (mesticagem), por meio do encorajamento de filhos ilegitimos entre mulheres mais escuras e homens mais claros (HARRIS, 2008), e tambem tornando os indios mais claros atraves da educacao, medicina e bem-estar social (CLARCK, 1998; DE LA CADENA, 2000). Enquanto o "vigor hibrido" da mitica raca mestica tem sido celebrado em seus proprios termos, o projeto das elites tem sempre sido o de blanqueamiento (branqueamento) da nacao atraves da mistura. Essa percepcao de que ha um problema racial e que e preciso um projeto para resolve-lo ainda persiste. Em 1972, uma declaracao afirmando que a mudanca racial entre adultos era possivel fez o presidente equatoriano, general Rodriguez Lara, proclamar: "o problema dos indios nao existe mais. Nos todos nos tornamos brancos quando aceitamos os objetivos da cultura nacional" (STUTZMAN, 1981, p. 45).

Proponentes de programas racistas de mestizaje (mesticagem) foram e sao "otimistas raciais" ao inves de "pessimistas raciais", uma categoria mais comum no Oeste Europeu e na America do Norte. Esses ultimos acreditavam possivel impedir a reproducao de grupos indesejaveis (DE LA CADENA, 2000). Otimistas raciais nao se esforcam para remover grupos por inteiro, optando por circunscreve-los em uma "melhor" raca. Eles assumiram e ainda assumem uma caracteristica maleavel ao inves da intratabilidade da raca e da maleabilidade do efeito de melhoramento racial dentro de uma geracao, ate mesmo com individuos ja existentes. Maleabilidade e uma premissa da raca como realidade material e da plasticidade dessa realidade que vem das contingencias da vida cotidiana. A raca e cultivada e transformada atraves de circunstancias materiais, como o vestir, a linguagem, a educacao, a dieta e a ocupacao. O processo historico, economico e politico construido nesses atributos marca e faz o corpo das pessoas e suas realidades raciais (CLARK, 1998; DE LA CADENA, 2000; LEINAWEAVER, 2008; ORLOVE, 1998; PITT-RIVERS, 1973; SMITH, 1996; SWANSON, 2010; WADE, 1993; WEISMANTEL, 2001). Eu encontrei similares maleabilidades raciais em trabalho atraves da assistencia--contribuicoes de tempo, dinheiro, e atencao corporal--envolvidos no tratamento medico das clinicas privadas de FIV no Equador. O tratamento medico e um dos meios de fazer pessoas racializadas, algo que esta em relacao direta com o projeto equatoriano de embranquecimento.

Indigenas, especialmente as mulheres indigenas supostamente superferteis, foram objeto dessas intervencoes embranquecedoras do final do seculo XIX e comeco do seculo XX por uma medicina financiada pelo Estado (CLARK, 1998; EWIG, 2000). Um seculo de negligencia do Estado, produzindo uma infraestrutura de saude em ruinas, mal suprida, com instituicoes de saude publicas desenvolvidas para embranquecer sujeitos pobres e indigenas e incorpora-los em uma cidadania nacional, acaba por torna-los mais indigenas. Em outras palavras, pessoas que nao tem recursos para pagar por servicos privados. O projeto de branqueamento nacional e facilitado pela negligencia da medicina publica, que leva ate mesmo pessoas com poucos recursos ao sistema privado. De fato, uma das grandes surpresas encontradas durante minha pesquisa foi o elevado numero de pacientes da FIV com poucos recursos.

No comeco dos anos 2000, os servicos estatais de saude eram geralmente desvalorizados, buscados somente por pobres, indigenas ou afroequatorianos. Pessoas de varias classes e racas se endividavam para pagar servicos medicos privados, visando nao ser tratados "como indios". Esta historia racial e racista e essencial para entender como pacientes foram embranquecendo atraves da reproducao assistida em clinicas privadas no Equador.

Brancura e uma caracteristica daqueles que utilizam clinicas privadas e podem evitar os cuidados abaixo da media da saude publica na nuestra realidad. Tambem e uma caracteristica de mulheres que sofrem especificamente de infertilidade. A partir do fim do seculo XIX, mulheres brancas das classes medias e altas em paises emergentes da America Latina se tornaram responsaveis por melhorar o estoque racial de tais nacoes (ZULAWSKI, 2007). Esses programas reforcavam as distincoes raciais entre, por um lado, mulheres indigenas extremamente ferteis, que eram "conhecidas" por terem uma constituicao fisica mais forte e, por isso, poderiam ter mais filhos sem assistencia nos proprios campos onde trabalhavam, e por outro lado, mulheres brancas, que devido as suas capacidades reprodutivas delicadas requeriam maior assistencia e protecao (DE LA CADENA, 2000; ICAZA, 1968).

Ao longo do seculo XX, a suposta superfecundidade de mulheres mais escuras e pobres as tornou objeto de um maior controle estatal, atraves de programas reprodutivos especificos (MORGAN; ROBERTS, 2012), enquanto a fecundidade de mulheres brancas foi gradativamente sendo vista como em risco. No Equador, encontrei uma predominante "infertilidade antecipatoria" entre mulheres de classes medias e trabalhadoras. Entre as mulheres jovens, sem criancas e da classe media, quase todas tinham passado por alguma especie de cirurgia (como a laparoscopia diagnostica ou remocao de miomas) ou por um tratamento hormonal intensivo para corrigir uma funcao reprodutiva que deu errado. Essas mulheres estavam, com frequencia, certas de que nao poderiam ter filhos devido a algum estranho ou problematico sintoma menstrual. Considerando a construcao historica de mulheres brancas como sendo fertilmente frageis, comecei a ver a disfuncao reprodutiva como um meio para embranquecer, atraves de assistencia privada e de recursos reservados aos mais desejados reprodutores equatorianos.

As mulheres e homens participando da reproducao assistida na nuestra relidad compartilhavam a percepcao de que o mundo material e biologico era maleavel, modificado atraves da configuracao de pessoas e coisas, incluindo dinheiro e o cuidado que podem comprar. A frase "dinheiro embranquece" (el dinero blanquea) nao e figurativa (LAU, 1998). Em relacao a reproducao assistida, o dinheiro permite a participacao na FIV, uma pratica privada que serve ao projeto em andamento de branqueamento nacional atraves do embranquecimento de pacientes e criancas da FIV. Pacientes demonstram grande prazer em relatar quanto custou para produzir seus filhos atraves da reproducao assistida. O seu prazer e derivado da maneira pela qual, dentro das pesadas relacoes de hierarquia, desigualdade e instabilidade material, seus gastos os tornaram recipientes favoraveis da assistencia de patronos poderosos: medicos privados da FIV e Deus. Pacientes nao estavam necessariamente melhor apos seus tratamentos, muitos estavam com dividas enormes, mas eles tinham se tornado mais assistidos e brancos durante seus ciclos de FIV.

Assistencia Reprodutiva

Escrevendo no inicio dos anos 1990, Marilyn Strathern afirmou que o parentesco euro-americano era baseado em um discreto sistema de individuos autonomos--no qual familia, vida social e sociedade eram todos extrinsecos a pessoa, e a interdependencia da pessoa a outros "parece ser negociavel" (STRATHERN, 1992, p.25, enfase da autora). Assim, a reproducao assistida, como toda reproducao, produz individuos. O que e problematico, no entanto, e que essas tecnologias introduzem um "novo contraste entre processos naturais e artificiais--a reproducao assistida transforma pais biologicos como uma categoria a parte ... o que e novo e a assistencia dada para dominios sociais e naturais." (STRATHERN, 1992, p.20). Esses contrastes nao impediram que pessoas fizessem o uso dessas tecnologias, mas ansiedades sobre a artificialidade da ajuda da natureza foram consideradas ao tornar seu uso aceitavel. Essas preocupacoes podem ser, de alguma forma, difundidas no trabalho de Charis Thompson, que escreve sobre clinicas de infertilidade nos Estados Unidos, a partir do termo "coreografia ontologica", que aponta "a agilidade de balancear a aproximacao de coisas que geralmente sao consideradas partes de diferentes ordens ontologicas (parte da natureza, parte do self, parte da sociedade)" (THOMPSON, 2005, p.8).

Os usuarios da FIV na California que observei tambem tendem a coreografar o processo de tornar a assistencia menos influente e encaixala num quadro de aceitabilidade de "fatos da vida", no qual reproducao e primariamente um processo biologico partilhado entre um homem e uma mulher, desconectado de tecnologia, dinheiro e relacoes com a familia extensa, com o proposito de um filho proprio. Uma reclamacao comum que ouvi de muitas mulheres casadas passando pela reproducao assistida era de que elas, e especialmente seus maridos, encontraram uma pressao exasperada e intromissao impertinente para com seu estado de ausencia involuntaria de filhos vinda de seus pais, irmaos, tios e tias. Essas reclamacoes enfatizam como um casal, idealmente, deveria fazer um filho. Atraves de praticas de gestacao de substituicao, outras praticas semelhantes eram acionadas. A tenacidade do corpo de uma gestora de substituicao e as intervencoes tecnologicas utilizadas para produzir uma gravidez desse tipo eram uma constante lembranca da "artificialidade" da assistencia de que o casal necessitava para ter um filho. Em resposta, gestoras de substituicao e casais iriam muitas vezes negar que a gestacao era tecnologica e a naturalizavam atraves de explicacoes, tais como que essas praticas eram comuns em culturas "primitivas", percebendo-as como mais proximas da natureza. Algumas vezes, as pessoas descreviam praticas tecnologicas especificas como ultrassons, sincronia hormonal e parto induzido como conectores entre casais e gestoras de substituicao. Esses momentos de conexao, no entanto, nao diluiam maiores problemas da interferencia tecnologica e da adicao de terceiros ao projeto reprodutivo do casal.

Ao mesmo tempo, preocupacoes com a individualidade eram tao centrais para a construcao do entendimento do que sao pessoas que os participantes, algumas vezes, utilizavam a estrutura potencialmente alienavel da reproducao assistida para enfatizar a individualidade de seus filhos ainda nao nascidos. Uma mae de classe media que contratou uma gestora substituta me disse:

"Desde que Tara nasceu eu sabia que ela nao era parte de mim geneticamente. Eu a via como um individuo. E eu tentei respeitar que se ela nao gosta de cenouras, quem se importa? Se ela realmente tivesse vindo de mim, eu pensaria mais 'nos fazemos isso desse jeito e voce e uma de nos'. Mas ao inves disso eu preciso me lembrar todo o tempo que Tara pode nao ser como nos. Eu acredito que o resultado disso e que ela e uma crianca mais determinada. E eu notei que outras criancas filhas de gestoras de substituicao tambem sao".

A mae de Tara poderia ter feito da crianca "parte dela", ou "parte de nos", se focasse no cuidado que ela e outros membros da familia deram para Tara apos seu nascimento. Isso e o que muitas pessoas que encontrei no Equador fizeram em situacoes similares de adocao, gestacao de substituicao e doacao de gametas. Eles usaram "sangue, genes e cuidado" para fazer e reforcar a conexao entre criancas e adultos (ROBERTS, 2012a, p.163). Ao inves disso, a mae de Tara enfatizou como geneticamente, e por ser um bebe nascido atraves da gestacao de substituicao, Tara veio a existir mais autonomamente do que criancas nascidas atraves do ato sexual heterossexual.

Em contraste, a conexao, nao a individualidade, inseriu a reproducao assistida no Equador urbano. Quando comecei minha pesquisa em Quito e Guayaquil, descobri que as intervencoes tecnologicas da reproducao assistida nao precisavam ser escondidas e que as conexoes parentais para a crianca eram frequentemente feitas em conjunto com outros. Especialmente em Quito, terceiros, como doadoras de ovulos, nao eram necessariamente ameacadores ou adicoes dolorosas para o processo, enquanto esses fossem membros da familia. Em uma realidade improvavel, em que era muito dificil imaginar que duas pessoas poderiam ter e criar uma crianca sozinhos, era uma questao inevitavel que uma multiplicidade de relacoes entre pessoas, objetos e processos tivesse que ser cultivada e co-ordenada para produzir filhos. Nao tomamos essas relacoes como simples. Nas palavras de uma jovem mulher passando pela FIV, em meio a ministracoes e cuidados sufocantes de suas relacoes: "Como sangre duele" (Como o sangue fere). Essas nao eram relacoes inofensivas. Mas reproducao, em geral, e a FIV, em particular, tomam lugar dentro da familia, e nao atraves da moderna e transcendente "agencia livre do peso de outras pessoas" (KEANE, 2006, p.310).

Profissionais e pacientes estavam de fato preocupados com o envolvimento das familias na reproducao assistida. Havia uma dor quase paralisadora para lidar com a infertilidade, especialmente para mulheres, em sua existencia centrada supostamente em criar criancas. Tambem havia grande investimento financeiro envolvido. Essas preocupacoes eram similares aquelas encontradas na California. Contudo, em uma realidade menos previsivel como a do Equador, especialmente a de Quito, pacientes tendiam a ser muito mais ansiosos quanto a seus ovulos, esperma e embrioes serem trocados ou misturados com os de outros pacientes. Uma preocupacao mais rara na California. Gametas eram parentes, partes da familia extensa, as unicas entidades potencialmente confiaveis. Perder gametas para estranhos constituia um abandono familiar, terrivel para a existencia assistida (ROBERTS, 2011). Usuarios da FIV lutavam com o fato de serem catolicos diante da condenacao por parte da Igreja de todas as formas de reproducao assistida. Contudo, as suas preocupacoes nao eram tao fortes como eu havia antecipado. Para os pacientes, a doutrina da Igreja era muito menos importante do que a negociacao com Deus para Sua assistencia no fazer criancas.

Neste terreno, em que as pessoas nao se imaginavam sozinhas, a reproducao assistida enfatizava como criancas deveriam, idealmente, nascer antes de as tecnicas terem mesmo chegado--com uma assistencia abundante que reforcava as relacoes em meio a familia extensa e, mais importante, com Deus. Usuarios de FIV tomavam as conexoes que a tecnologia propiciava com outros como muito vantajosa. Algumas vezes, parecia que, para pacientes, os bebes nascidos atraves da assistencia de medicos, hormonios, cirurgias, doadores de gametas, e provetas existiam de uma forma "muito melhor" do que os bebes nascidos sem a ajuda dessas pessoas e coisas. Como demonstro na proxima sessao, as relacoes acionam e co-ordenam hormonios, repouso e doadores de gametas providos pela contribuicao divina para a assistencia e embranquecimento da existencia.

Assistencia Divina

Meu tempo de pesquisa entre usuarios de FIV e gestacao de substituicao na regiao costeira da California foi, em sua maior parte, ausente de Deus. Esse nao seria o caso se eu estivesse trabalhando em outra parte do pais, ate mesmo no Vale Central da California. Nos Estados Unidos, Deus esta presente em grande parte da discussao nacional acerca do uso de reproducao assistida, especialmente a que envolve embrioes. Desse modo, muitos pesquisadores da area da biotecnologia nos Estados Unidos perceberam que a religiosidade permeia a experiencia das biotecnologias para muitos pacientes e suas familias (LYERLY et al., 2008; RAPP, 1999; SHARP, 2006). No entanto, nas costas norte e sul da California, para todos os profissionais de saude e vasta maioria de pacientes que encontrei, processos biologicos como a reproducao estavam separados da influencia de Deus. Mesmo quando Deus era parte da vida desses sujeitos em outras esferas, e ate mesmo quando eles experimentavam a reproducao assistida como "um milagre", Deus, como um ser espiritual, estava desconectado desse intenso processo biotecnico. As tecnologias de reproducao assistida nao eram um dominio de Deus.

Quando iniciei minha pesquisa de campo no Equador urbano, nao tomei o lugar de Deus seriamente, pensando que as imagens de referencia catolicas de Deus e da Virgem Maria penduradas nas clinicas de Quito serviam para "mostrar" ou acalmar os pacientes. Com o passar do tempo, acabei me dando conta de que Deus era parte integral do processo de FIV, tanto para os pacientes como para os profissionais de saude. Para os medicos, embriologista e quase todos os pacientes e familias de usuarios de FIV que encontrei no Equador, as relacoes com Deus eram hierarquicas e paternalistas, diferentes das relacoes de obrigacoes mutuas estabelecidas entre parentes, amigos, criancas, medicos e enfermeiros. Deus estava sempre presente para ser chamado, nunca distante, impessoal ou burocratico. Enquanto a religiosidade era expressa de modo singular em cada cidade, a partir das realidades materiais das clinicas de reproducao assistida na America Latina, a maioria dos profissionais equatorianos da FIV que eu conheci insistia na sua dependencia de Deus. Eles proclamavam que seus laboratorios eram de Deus e repetidamente lembravam-se e aos demais que eles necessitavam dessa assistencia divina.

Em momentos-chave do processo de FIV, esses profissionais tocavam crucifixos nos incubadores de gametas e pediam a ajuda de Deus para com seus pacientes. Na clinica de Dr. Padilha em Quito, Linda, a biologa responsavel pelo laboratorio, costumava beijar e acariciar a incubadora pedindo a Deus para fertilizar os ovulos. Ela frequentemente fazia uma curta oracao, dirigindo-se muito amistosamente a Deus: "Que Diosito quiera que los ovulitos fertilicen" (Que Deusinho queira que os ovulozinhos sejam fertilizados). Em outro laboratorio de Quito, Dra. Escobar costumava fazer o sinal da cruz antes de armazenar a placa de Petri com o ovulo e os espermatozoides na incubadora. Com os gametas seguros dentro da incubadora, ele os tocava gentilmente dizendo "Vayan con Dios" (Vao com Deus). Do outro lado da cidade, quando Dra. Leon terminava de combinar o ovulo e o esperma, ela tocava a imagem da Virgem Maria que estava pendurada acima do microscopio, fazendo o sinal da cruz. Quando ela fechava a porta da incubadora, apos ter guardado a Placa de Petri, ela tocava o crucifixo que estava pendurado dentro de um saco plastico esterilizado e fazia mais uma vez o sinal da cruz. Pedir por intervencao divina dissolve a condenacao do Vaticano a reproducao assistida. Rezas para a Virgem e trocas com Deus constituem a existencia atraves da disciplina e rituais de autossacrificio, deixando claro para todos os presentes--profissionais e pacientes--que todo o poder sobre a vida esta nas maos de Deus. As repetidas invocacoes que presenciei envolviam a renovacao da consciencia sobre a presenca de Deus atraves da pratica (ver KIRSCH, 2004; ROBERTS, 2010). Durante os mais frageis momentos do ciclo da FIV, quando a possibilidade de criacao de um novo membro da familia era duvidosa, profissionais e pacientes praticavam um tipo de servico espiritual, lembrando a si mesmos e aos outros que eles nao eram os responsaveis pela criacao da vida. As repetidas checagem de temperatura na incubadora, onde os gametas eram armazenados, e as repetidas invocacoes a Deus acariciando um crucifixo junto a incubadora eram conclamacoes a uma direta assistencia divina em busca do crescimento dos embrioes.

Pacientes da FIV no Equador urbano tambem eram claros sobre a assistencia que eles recebiam tanto da tecnologia quanto de Deus na sua busca por criancas. Os bebes da FIV eram, sem duvida, tecnologicos e milagrosos. Como Hilda, uma paciente de Quito, me explicou: "Deus nos ajudou nisto ...Toda a ciencia e gracas a ele. Se [pacientes] nao tem filhos, nao e porque eles nao merecem, ou porque eles sao mas pessoas. E porque eles tem um destino que Deus quer. Sem a vontade de Deus nada existe". Quando perguntei a outro paciente sobre quantos embrioes o medico tinha implantado, ela me corrigiu dizendo: "Nao, voce quer dizer transferiu, somente Deus decide sobre implantar". Uma mulher que tinha recebido ovulos de sua irma explicou: "Deus e ciencia sao os mesmos". Como se para ilustrar esse ponto, sua irma, a doadora, recontou vividamente o sonho que teve na noite previa a doacao: ela visualizou os embrioes (clinicamente produzidos) nadando dentro do utero de sua irma, com Deus guiando-os na implantacao. Para a maioria dos profissionais e pacientes equatorianos da FIV, Deus manipula o mundo material em nome da continuidade familiar. Suas acoes nao rompem as leis da ciencia, porque "toda ciencia e [existe] gracas a Ele". Intervencoes divinas nos processos biologicos sao reais, nao sao anormais ou sobrenaturais, e sao consistentes com o modo como as pessoas e coisas precisam se juntar para moldar a reproducao assistida.

Branqueamento Assistido

Em uma nacao na qual a disfuncao reprodutiva feminina e uma marca de mulheres brancas, ter meios e metodos de trata-la atraves da reproducao assistida tambem funciona para assistir ao branqueamento, a forma mais valiosa de ser no Equador. A FIV envolve uma vasta quantidade de intervencoes privadas, sejam tecnologicas ou medicas, como cirurgias reprodutivas exploratorias, o paternalismo autoritario dos medicos, as quase inevitaveis cesarianas e doacao de gametas, todas as quais enfatizam o privilegiado status de uma mulher que pode arcar com esse tipo de cuidado medico. Minhas conversas com essas mulheres eram cheias de historias sobre seus medos com hospitais publicos, onde elas seriam deixadas "sozinhas" e tratadas "como indias ou mulheres negras", que eram tidas como reprodutoras naturais, sem a necessidade de muita assistencia (ROBERTS, 2012b). Duas outras praticas--tratamentos hormonais e repouso--reforcavam a natureza cara e privada da assistencia na FIV, as quais as pacientes recebiam para se tornar reprodutivas.

Durante os ciclos da FIV, hormonios, como o Lupron, eram administrados para regular e estimular a producao de foliculos e aumentar a receptividade uterina. As pacientes californianas que entrevistei nos anos 90 descreviam seus regimes hormonais como algo que as fazia se sentir em uma montanha russa de emocoes, ou como se elas fossem loucas. Isso era algo similar ao que outros cientistas sociais encontraram em relacao aos hormonios de infertilidade nos Estados Unidos. Como uma mulher explicou para Gay Becker no seu estudo sobre a FIV:

"Lupron e como se tornar louca. Quando estou usando Lupron eu fico nesta depressao agitada, realmente severa. Nunca me senti tao suicida na minha vida ... Voce sabe em algum nivel que sao so os quimicos. Eu nao estava esperando por isso, especialmente, com a agitacao alem de tudo...Entao, de tantas maneiras, o Lupron e somente esta injecao em sua coxa, parece tao benigno. Mas nao e. A depressao aparece como uma resposta comum ao Lupron". (BECKER, 2000, p.88).

Essa mulher atribuia a instabilidade aos hormonios, como discretos, externos e nao naturais agentes quimicos que entram no corpo do individuo produzindo efeitos especificos, incluindo mudancas de humor (TEMKIN, 1977).

Talvez porque os efeitos desses hormonios eram tao centrais nas experiencias das mulheres californianas, fiquei muito surpresa que a maioria das pacientes da FIV equatorianas nao focavam suas falas neles, somente para dizer o quao caros eles eram. Elas normalmente atribuiam seus proprios sentimentos emocionais tumultuosos a complexidade e confusao que era lidar com suas proprias vidas durante o dificil projeto reprodutivo. Apesar de muitas pacientes descreverem sua irritabilidade, nervos e estresse durante os tratamentos da FIV, quando lhes perguntava se esses sentimentos eram devido aos hormonios, a resposta mais comum era um olhar vazio ou algo como a resposta de Roxana, que fazia o tratamento da FIV uma segunda vez:

"Nada me afetava. Porque o medico me disse que isso poderia me deixar de mau humor. Mas pra mim nao era isso. Eu tinha esse sentimento de que eu ia ficar gravida, que nada importava. Eu sofria um pouco com as injecoes. Isso doia, sim, mas humores, nao ... Com todas as coisas juntas--faculdade, casa, marido sempre existem problemas".

Para a maioria dos pacientes de FIV no Equador, os tumultos emocionais que acompanham o processo eram atribuidos nao a efeitos bioquimicos de uma discreta, externa ou de um agente artificial no corpo do individuo, mas as cambiantes dinamicas familiares que se passavam em meio as demandas financeiras, fisicas e existenciais da reproducao assistida.

Contudo, quando as mulheres experienciam efeitos de hormonios da fertilidade, elas normalmente os experimentam positivamente como uma ajuda ampliando sua fertilidade. Quando Sandra passou pela FIV (sem sucesso), ela se sentiu maravilhosa, "calma e linda gracas aos hormonios". Sua pele estava macia, seus seios cheios. Algumas mulheres, inclusive, viam seus humores melhorando com os hormonios, uma paciente me falou: "eu me sentia como outra pessoa, melhor. Mais ativa e positiva", e outra paciente me explicou: "Meu carater era mais docil e calma, mais amavel e cuidadoso". Para essas mulheres, hormonios eram uma (custosa) forma de assistencia medica que contribuia para fazer seus corpos e comportamento reprodutivamente mais femininos.

Esse cuidado era um dos muitos componentes do processo da FIV que produzia e aprimorava a existencia. No contexto do aprimoramento racial nos cuidados de infertilidade privados, a necessidade de hormonios custosos marcava os pacientes da FIV como mais brancos pela sua necessidade e pela sua habilidade de garantir essa assistencia economicamente.

Apos a transferencia embrionaria, pacientes da FIV e suas familias precisavam esperar por duas semanas para realizar um teste de gravidez. O modo como uma paciente era acompanhada durante esse periodo de espera era visto como crucial para o sucesso das tecnicas. Eu reconheci a importancia desse cuidado quando Wilson, um jovem medico, retornou a trabalhar em uma clinica de Quito apos um ano de treinamento em um centro de medicina avancada na Espanha. Antes disso, pacientes repousavam algumas horas deitados apos a transferencia de embrioes, seguido de ate duas semanas de repouso em casa ate realizarem o teste de gravidez. Essa abordagem segue estudos recentes da America do Norte e Europa que mostram que o repouso em nada aumentava as taxas de gravidez. Wilson decide que as mulheres devem repousar por 15 minutos apos a transferencia e, em seguida, deixar a clinica. Eu o observei em varias ocasioes praticamente tirando seus pacientes das camas, recomendando que retornassem a suas vidas normais. Quase todos os pacientes se recusavam a escutar Wilson e se mantinham no que ele via como um comportamento desnecessario. A determinacao "estrangeira" de Wilson em fazer os pacientes se levantar e sair aborrecia a percepcao das mulheres em como deveriam agir e serem cuidadas nessas circunstancias. "Ele achava que isso era um hospital publico?". Enquanto esperavam em uma sala de recuperacao, as mulheres enfatizavam seu estado fragil, pedindo para seus maridos ou parentes ajuda-las a ir ao banheiro. As enfermeiras, transtornadas com o novo protocolo de Wilson, sorrateiramente ofereciam comadres para as pacientes, enquanto se desculpavam pela sua aspereza.

Na maioria das outras clinicas de FIV nas quais realizei pesquisas, o protocolo pos-transferencia embrionario enfatizava a assistencia. No pequeno hospital ginecologico privado da Dra. Padilha, pacientes da FIV ficavam deitadas nas salas de transferencia por ate tres horas apos a transferencia embrionaria, e apos isso permaneciam uma ou duas noites na clinica. A embriologista e a equipe da clinica as encorajavam a permanecer em suas camas em casa, deixando de trabalhar, se necessario. "Sem esforco fisico. Nada alem de repouso! Repouso! Repouso! Repouso! Repouso!".

As pacientes que podiam permanecer em suas camas eram muito receptivas ao discurso de Linda. Suas instrucoes de repouso reconheciam a crucialidade do processo, dos esforcos exercidos e do investimento financeiro que a familia tinha despendido ao tentar fazer a crianca. Com excecao de Wilson, os pacientes e profissionais em ambas as clinicas privadas trabalhavam para enfatizar todas as formas de assistencia direcionadas as pacientes enquanto elas passavam pelo complicado processo de fertilizacao in vitro. Enquanto muitas das ferramentas e objetos necessarios para realizar a FIV eram dificeis de conseguir, com o repouso aproveitava-se o que era de fato disponivel no Equador: a reproducao assistida na forma de cuidados domesticos e o projeto familiar em uma coalizao encorajando uma mulher acamada a engravidar.

Assistencia de doadoras

No oeste Europeu e na America do Norte, relacoes economicas capitalistas e parentesco tem sido baseadas em uma divisao da intimidade em que mulheres, trabalho domestico nao remunerado e cuidado sao separados do mercado masculino (SIMMEL, 1990 [1907]; WILSON, 2004). Essas divisoes atualmente alimentam a maior parte das ansiedades acerca das tecnologias reprodutivas (AHUJA; SIMONS; EDWARDS, 1999; ROBERTSON, 2006). A possibilidade de que a mulher possa empregar sua intimidade reprodutiva potencial no mercado da venda de ovulos, por exemplo, faz ruir a separacao entre parentesco e economia (GIMENEZ, 1991; RAGONE, 1994; STRATHERN, 1985). Nao e surpreendente, entao, que as doacoes pagas de ovulos tenham sido banidas em muitos paises e o assunto debatido em muitos outros (STEINBROOK, 2006). Contudo, a venda de ovulos e permitida nos Estados Unidos (diferentemente do Reino Unido e de outras nacoes da Europa Ocidental), as transacoes sao tratadas como doacoes de modo a coreografar o processo evitando a aparencia de troca economica. A maioria das doacoes de ovulos e gestoras de substituicao que observei na California sao enquadradas como presentes, mesmo quando o dinheiro troca de maos--reformando o sentido de que "se a relacao e intima, ela nao pode e nao deve envolver trabalho, especialmente trabalho pago" (ZELIZER, 2010: 269; ver tambem ALMELING, 2011). Especialmente na California, o modelo do presentear e facilitado atraves da pratica de que os pais de intencao conhecerao as doadoras, a quem eles podem presentear como tambem pagar.

A maior parte das pessoas que eu encontrei envolvidas na doacao de gametas na California estavam ansiosas sobre a doacao de gametas por uma serie de razoes. Quais eram as implicacoes geneticas de usar um ovulo ou esperma de estranhos? O que significava o dinheiro trocar de maos? Se eles estivessem usando um membro da familia "para saber" quem era o doador ou para evitar transacoes financeiras, como eles estabeleceriam a parentalidade primaria do casal? No Equador, usar doadoras de gametas tambem poderia causar ansiedades, mas de uma forma diferente. A mistura racial era uma preocupacao mais explicita e crucial, usar parentes femininos como doadoras era uma forma de assistencia que muito raramente envolveria transacoes financeiras. Especialmente em Quito, a doacao de ovulos nao trazia uma nova ou inconfortavel relacao economica e de parentesco. Ao inves disso, a pratica era usada para reforcar uma assistencia economica mutua entre parentes.

Profissionais da reproducao assistida co-ordenavam ao mesmo tempo doacoes anonimas e nao anonimas. Na tentativa de delimitar os limites da familia nuclear heterossexual, esses profissionais em ambas as cidades em que pesquisei advogavam a favor da utilizacao de doacoes anonimas ao inves daquelas que utilizavam material genetico de membros da familia. Alem disso, a doacao anonima de ovulos ajudava a embranquecer a nacao. Geralmente, medicos tentavam aproximar as doadoras de ovulo e esperma dos pacientes, o mais proximo possivel. Esse processo envolvia uma variedade de fatores, incluindo, mas nao se restringindo, a cor da pele. No entanto, frequentemente, era dificil encontrar uma doadora compativel, e entao os profissionais da saude escolhiam uma doadora mais clara que a receptora. Um biologo explicou que eles procuravam doadores de uma "melhor classe social". Quando eu perguntei o que isso significava, ele me disse que o diretor da clinica nao queria ter doadores indigenas. Ele queria mejorar la raza (melhorar a raca). As doadoras de ovulo que encontrei tambem foram explicitas acerca da sua contribuicao para uma melhor raca, prevenindo familias de receber uma crianca mais escura atraves da adocao.

A doacao anonima de ovulos parece ter maior apelo em Guayaquil, com sua historia e trabalho individual monetizado. Em Quito, no entanto, pacientes tendem a nao partilhar as duvidas de seus medicos sobre a doacao familiar. Eles querem evitar trocas com estranhos para alem dos limites familiares, um sentimento claramente saturado com ansiedade racial. Varios pacientes em Quito me disseram que eles nao gostariam de ter um doador anonimo por medo de receber ovulos "indigenas ou pretos". Alem de prevenir uma indesejavel mistura racial, a doacao de ovulos entre mulheres aparentadas era experimentada como um modo de reforcar conexoes familiares existentes atraves da troca de recursos materiais. Nos casos de doacao familiar, a decisao de quem pedir para ser doadora envolve regras de parentalidade remanescentes da literatura antropologica sobre casamentos (BARTH, 1954; GOODY, 1959; LEACH, 1951). Ao inves de determinar com quem alguem pode casar para produzir um filho legitimo e criar aliancas entre as familias, as questoes eram: quem pode doar ovulos? Quem melhor pode partilhar a experiencia de ter filhos? E com quem eu gostaria de estreitar relacoes?

A doacao entre irmas, sobrinhas e tias, e entre maes e filhas servem nao somente para trazer criancas ao mundo, mas tambem propiciam ocasioes para refletir sobre a manutencao de herancas e transferencias de propriedades. Parte da antipatia dos pacientes em relacao a pagar por uma doacao anonima nao estava no fato de o dinheiro trocar de maos, mas no fato de o anonimato nao permitir a continuidade da alianca material entre membros da familia. Enquanto essas transacoes nao eram oficialmente pagas, para as mulheres da familia, elas quase nunca envolviam calculos economicos que incorriam em debito ou creditos. Varias das mulheres engajadas nessas transacoes estavam juntas no mercado, conjuntamente operando aventuras comerciais e descrevendo como a doacao de ovulos de uma mulher jovem para uma mais velha pagava pelos debitos de ajuda nos negocios.

No Equador, pagamento, e nao presente, era um idioma da doacao de ovulos ate mesmo entre membros da familia. Quando eu perguntei a Lucia se ela planejava dar dinheiro para sua irma Ingrid para compensa-la pelo tempo que ela perdeu no trabalho quando ela estava doando ovulos, Ingrid interrompeu dizendo:

"Nao. Eu mesma vou recuperar. Alem disso, se Deus nos abencoar, voce nao tem que fazer nada. Seu bebe vai ser o melhor pagamento para todos nos. Para toda a familia, quer dizer, para todos nos com todas essas incertezas nos queremos um pagamento. E esse pagamento vai ser isso [o bebe]. Nos poderemos entao descansar, todos, complacentes e tranquilos".

Para muitos usuarios de FIV de Quito, os ovulos de Ingrid nao foram dados somente para Lucia, mas serviram como pagamento para toda a familia. Quando mulheres aparentadas e suas familias mais amplas estao envolvidas, esclarecer a parentalidade era visto como uma tarefa administravel e nao uma impossibilidade. De fato, as doadoras eram entendidas muito frequentemente como tendo estreitado relacoes com qualquer crianca nascida atraves da sua doacao, uma relacao que nao ameacava a parentalidade da receptora dos ovulos, que assumia que a assistencia familiar traria criancas a existencia.

Implicacoes da Assistencia

No Equador urbano do comeco dos anos 2000, o tratamento de infertilidade privado envolvia cuidados enredados em formas de estratificacao material e dominacao, que existiam e se estendiam desde a era colonial ate os anos neoliberais. Pacientes eram amplamente engajados em projetos normativos, como a formacao de familias heterossexuais em um terreno racista e hierarquico. Instituicoes estatais instaveis, servicos de bem-estar social erraticos e mesmo degradantes, e uma inseguranca economica cronica tornavam dificil co-ordenar pessoas e coisas. Medicos, biologos, familias e Deus eram mobilizados para fazer ferteis o corpo de pacientes, juntando escassos recursos materiais com dinheiro, maquinas e hormonios. Assistencia e nao autonomia era a propria base da existencia. Atraves da minha pesquisa etnografica nessas clinicas privadas, comecei a entender dois desejados e interconectados aspectos da existencia no Equador: interdependencia e branqueamento. A cultivacao desses dois elementos nos ajuda a explicar por que, apesar da chegada relativamente recente da FIV e da condenacao dos procedimentos pela Igreja Catolica, eles tem sido tomados com menos ansiedade no Equador em relacao aos Estados Unidos. Praticas de reproducao assistida coincidem com os meios com que criancas e relacoes ja sao idealmente feitas em uma realidade material precaria e hierarquica.

Adicionalmente, essas observacoes remodelaram meu entendimento de por que praticas experienciadas como auxiliares para individuos em locais com muitos recursos, como a California, poderiam causar tanta tensao existencial, notando como toda a assistencia que e necessaria em coordenar estabilizar pessoas e objetos pode ser dificil em locais com bastante recursos. Foi somente ao trabalhar no Equador que eu comecei a fazer um relato mais completo da assistencia necessaria para fazer medicina, ciencia e tecnologia funcionar de uma forma geral e que diferentes formacoes ontologicas criam diferentes tipos de pessoas na California e no Equador. Minhas descobertas ressoam com o trabalho de academicos da STS, que mostram como a realidade e feita nao atraves de intrinsecas propriedades de pessoas e coisas, mas atraves de suas cambiantes inter-relacoes. Em outras palavras, a ontologia nao e fixa, essa compreensao tem sido usada para fazer ruir essencialismos nocivos de raca, sexo e natureza (FAUSTOSTERLING 2000; HARAWAY 1991).

Meu estudo da reproducao assistida no Equador traz uma contribuicao especifica para os estudos da ciencia e tecnologia ao demonstrar em um primeiro plano a politica economica da realidade, demonstrando, (1) que a vida em locais com menos recursos pode ter muito a ensinar em como a realidade e feita e, (2) que experenciar a realidade como algo sendo feito relacionalmente nao e, necessariamente, liberador. Em relacao ao primeiro ponto, em locais onde fazer pessoas e coisas e mais dificil de co-ordenar, uma descoberta academica nao e, necessariamente, notar a assistencia necessaria para a existencia. A realidade e de fato experenciada como maleavel porque a contingencia envolvida no que une pessoas e coisas e palpavel. Entao, enquanto estudiosos do Norte global tendem a associar a maleabilidade corporal com elites, hibridos, e sujeitos neoliberais que podem se permitir participar das ofertas tecnologicas de ponta pra melhorar e modificar seus corpos (CHEN & MOGLEN 2007; ROBERTS and SCHEPER-HUGHES 2011; TICKTIN 2011), eu percebi que no Equador, a maleabilidade corporal e parte da existencia relational diaria atraves de classe e raca. A realidade maleavel diaria no Equador nos da outros meios empiricos para entender que a estabilizacao da realidade nao e igualmente distribuida. Uma sociedade altamente estratificada como os Estados Unidos que defende a igualdade, a vida e a individualidade, pode ser tomada como estavel para uns e nao para outros.

Em segundo lugar, minha analise da biotecnologia, em um contexto de maleabilidade racial e corporal como o do Equador, produz realizacoes preventivas para academicos da STS que procuram problematizar divisoes deterministicas de natureza/cultura visando desfazer estratificacoes de raca e sexo. Existencia assistida no Equador ilumina, derrubando determinismos de natureza/cultura que nao, necessariamente, desmontam hierarquias, fazendo a economia politica essencial para o estudo de processos biocientificos do corpo. Em outras palavras, raca fluida e maleavel pode ser tao perigosa como a regra da "uma gota" (3). Focando nas relacoes de recursos para ser, tanto em relacao a reproducao assistida, e mais geralmente em como as pessoas vem a existir, pode trazer questoes comparativas, como: em diferentes lugares, quais objetos sao estaveis e como eles se tornaram assim? Qual tipo de assistencia e quais tipos de autonomia sao desejados? Por quem e como? Quais configuracoes materiais produzem quais tipos de pessoas?

Focar especificamente na assistencia assistida me permitiu investigar as condicoes especificas que fazem pessoas produzidas pela FIV virem a existir, e os tios de assistencia que essas pessoas receberam quando nascerem. Na California, como no Equador, bebes de gestoras substitutas e FIV foram feitos na esfera privada e com grande custo. Possivelmente ainda mais do que no Equador, bebes nascidos atraves da reproducao assistida na California, geralmente nasceriam em uma relativa abundancia material, os distinguindo de outras criancas que os pais nao poderiam pagar por esse tipo de assistencia. Alem disso, assistencia tecnologica privada em conjuncao com uma abundancia de recursos providos pelo Estado fazem a vida dos bebes parecerem mais autonomas e menos dependentes de assistencia. Se esse e o caso, pode ser que esta tecnologia e esses recursos tambem contribuam para fazer bebes e pais mais brancos na California, como no Equador? Mesmo se a reproducao assistida contribua para fazer raca na California, diferencas entre a existencia nessas duas nacoes e enorme. Tanto no Equador, quanto na California, as infraestruturas do estado que beneficiam as elites eram ocultas, mas a politica e historia economica dessas nacoes eram feitas para diferentes pessoas. Na California, era desejavel assegurar autonomia, diferente do Equador, aonde receber assistencia nunca era demais.

Notas

Matthew Engelke, Matt Hull, Erik Mueggler, Aaron Seaman, Harris Solomon, Janelle Taylor, Ara Wilson, Kate Zaloom e tres avaliadores anonimos da JRAI me ofereceram comentarios incisivos e criticaram esse manuscrito deixando claro que minha vida intelectual sempre existe atraves de outros.

Texto traduzido por Debora Allebrandt e Felipe Benedet Maureira.

DOI: 10.12957/irei.2018.35867

Referencias

AHUJA, K.K., E.G. SIMONS & R.G. EDWARDS.

(1999). Money, morals and medical risks: conflicting notions underlying the recruitment of egg donors. Human Reproduction 14, 279-84.

ALMELING, R.

(2011). Sex cells: the medical market for eggs and sperm. Berkeley, University of California Press.

BARTH, F.

(1954). Father's Brother's Daughter marriage in Kurdistan. Southwestern Journal of Anthropology 10, 164-71.

BECK, S., M. KLOTZ & M. KNECHT.

(2012). Reproductive technologies as global form: ethnographies of knowledge, practices, and transnational encounters. Frankfurt, Campus.

BECKER, G.

(2000). The elusive embryo: how women and men approach new reproductive technologies. Berkeley, University of California Press.

BHARADWAJ, A.

(2002). Conception politics: medical egos, media spotlights, and the contest over testtubefirsts in India. In: M. Inhorn & F.V. Balen (Eds.); Infertility around the globe. Berkeley, University of California Press.

CALLON, M.

(1989). Some elements of a sociology of translation: domestication of the scallops and the fishermen of St Brieuc Bay. In: J. Law (Ed.); Power, action and belief. London, Routledge.

CHEN, N.N. & H. MOGLEN.

(2007). Bodies in the making: transgressions and transformations. Santa Cruz, Calif / New Pacific Press.

CLARK, K.A.

(2002). The language of intention in liberal Ecuador. In: W. Lem & B. Leach (Eds); Culture, economy, power: anthropology as critique, anthropology as praxis. Albany, State University of New York Press.

(1998). Race, 'culture', and mestizaje: the statistical construction of the Ecuadorian nation, 1930-1950. Journal of Historical Sociology, 11, p. 185-211.

CLARK, K.A.; BECKER, M.

(2007). Highland Indians and the state in modern Ecuador. Pittsburgh, University Press.

CLARKE, A.; J.H. FUJIMURA.

(1992). The right tools for the job: at work in twentieth-century life sciences. Princeton, University Press.

CLARKE, M.

(2009). Islam and new kinship: reproductive technology and the shariah in Lebanon. New York, Berghahn.

CRANDON-MALAMUD, L.

(1991). From the fat of our souls: social change, political process, and medical pluralism in Bolivia. Berkeley, University of California Press.

DASTON, L.

(1992). Objectivity and the escape from perspective. In: M. Biagioli (ed.); The science studies reader. New York, Routledge.

DE LA CADENA, M.

(2000). Indigenous mestizos: the politics of race and culture in Cuzco, Peru, 1919-1991. Durham, N.C., Duke University Press.

DE LAET, M.; A. MOL.

(2000). The Zimbabwe bush pump: mechanics of a fluid technology. Social Studies of Science 30, p.225-63.

EWIG, C.

(2010). Second-wave neoliberalism: gender, race, and health sector reform in Peru. University Park, Pennsylvania State University Press.

FAUSTO-STERLING, A.

(2000). Sexing the body: gender politics and the construction of sexuality. New York, Basic Books.

FRANKLIN, S. & C. ROBERTS.

(2001). The social life of the embryo. Paper presented at Ethnographies of the Centre, Lancaster University, in 10 September. Available on-line: http://www.lancs.ac.uk/ fass/sociology/research/publications/ papers/roberts-franklin-social-life-ofembryo.pdf. Last access: May 20th 2013.

FUENTES, A.

(2010). Natural cultural encounters in Bali: monkeys, temples, tourists, and ethnoprimatology. Cultural Anthropology, 25, p.600-24.

GERLACH, A.

(2003). Indians, oil, and politics: a recent history of Ecuador. Wilmington, De., Scholarly Resources.

GIMENEZ, M.E.

(1991). The mode of reproduction in transition: a Marxist-feminist analysis of the effects of reproductive technologies. Gender and Society, 5, p.334-50.

GOODY, J.

(1959). The Mother's Brother and the Sister's Son in West Africa. Journal of the Royal AnthropolgicalInstitute, 89, p.61-88.

HANDWERKER, L.

(1995). The hen that can't lay an egg: conceptions of female infertility in modern China. In: J. Terry & J. Urla (Eds.); Deviant bodies. Bloomington, University of Indiana Press.

HARAWAY, D.J.

(2008). When species meet. Minneapolis, University of Minnesota Press.

(1991). Simians, cyborgs and women: the reinvention of nature. London, Free Association Books.

HARRIS, O.

(2008). Alterities: kinship and gender. In: D. Poole (Ed.); A companion to Latin American anthropology. p.276-302. Oxford, Blackwell.

ICAZA, J.

(1968). Huasipungo: novela. Buenos Aires, Losada.

INHORN, M.C.

(2003). Local babies, global science: gender, religion, and in vitro fertilization in Egypt. New York, Routledge.

IVRY, T.

(2009). The ultrasonic picture show and the politics of threatened life.Medical Anthropology Quarterly, 23, p.189-211.

KEANE, W.

(2006). Anxious transcendence. In: F. Cannell ( Ed.); The anthropology of Christianity. Durham, N.C., Duke University Press.

KIRSCH, T.

(2004). Restaging the will to believe: religious pluralism, anti-syncretism, and the problem of belief. American Anthropologist 106, p.699709.

KOSEK, J.

(2010). Ecologies of empire: on the new uses of the honeybee. Cultural Anthropology 25, p.650-78.

LATOUR, B.

(2010). On the modern cult of the factish gods. Durham, N.C.: Duke University Press.

(1987). Science in action: how to follow scientists and engineers through society. Cambridge, Mass., Harvard University Press.

LAU, E.T.

(1998). Can money whiten? Exploring race practice in colonial Venezuela and its implications for contemporary race discourse. Michigan Journal of Race and Law 3, p.417-73.

LEACH, E.

(1951). The structural implications of matrilateral cross-cousin marriage. Journal of the Royal Anthropological Institute, 81, p.23-53.

LEINAWEAVER, J.B.

(2008). The circulation of children: kinship, adoption, and morality in Andean Peru. Durham, N.C., Duke University Press.

LOCK, M.M.

(1993). Encounters with aging: mythologies of menopause in Japan and North America. Berkeley, University of California Press.

LYERLY, A.D.; STEINHAUSER, K.; VOILS, C.; NAMEY, E.; ALEXANDER, C.; BANKOWSKI, B.; et al.

(2008). Fertility patients' views about frozen embryo disposition: results of a multiinstitutional U.S. survey. Fertility and Sterility, 93, p.499-509.

MOL, A.

(2002). The body multiple: ontology in medical practice. Durham, N.C., Duke University Press.

MOORE, D.S.; KOSEK, J.; PANDIAN, A.

(2003). Race, nature, and the politics of difference. Durham, N.C., Duke University Press.

MORGAN, L.; ROBERTS, E.F.S.

(2012). Reproductive governance in Latin America. Anthropology and Medicine, 19, p.241-54.

NAHMAN, M.

(2008). Synecdochic ricochets: biosocialities in a Jerusalem IVF clinic. In: S. Gibbon & C. Novas (Eds); Biosocialities, genetics and the social sciences: making biologies and identities. p.117-35. London, Routledge.

ORLOVE, B.

(1998). Down to earth: race and substance in the Andes. Bulletin of Latin American Research 17, p.207-22.

PASHIGIAN, M.

(2009). Inappropriate relations: the ban on surrogacy with in vitro fertilization and the limits of state renovation in contemporary Vietnam. In: D. Birenbaum-Carmeli & M.C. Inhorn (Eds.); Assisting reproduction, testing genes: global encounters with new biotechnologies. New York, Berghahn. p.16488

PITT-RIVERS, J.

(1973). Race in Latin America: the concept of raza. Archives Europeennes de Sociologie XIV, p.3-31.

RABINOW, P.

(1996). Artificiality and enlightenment: from sociobiology to biosociality. In: P. Rabinow (Ed.); Essays on the anthropology of reason. Princeton, University Press. p.91-111.

RAGONE, H.

(1994). Surrogate motherhood: conception in the heart. Boulder, Colo., Westview.

RAPP, R.

(1999). Testing women, testing the fetus: the social impact of amniocentesis in America. New York, Routledge.

ROBERTS, E.F.S.

(2012b). Scars of nation: surgical penetration and the Ecuadorian state. Journal of Latin American and Carribean Anthropology, 17, p.215-37.

(2012a). God's laboratory: assisted reproduction in the Andes. Berkeley, University of California Press.

(2011). Abandonment and accumulation: embryonic futures in the United States and Ecuador. Medical Anthropology Quarterly 25, p.232-53.

(2010). Ritual humility in modern laboratories: or, why Ecuadorian IVF practitioners pray. In: W.S. Sax, J. Quack & J. Weinhold (Eds.); The problem of ritual efficacy. Oxford; University Press.

(1998). 'Native' narratives of connectedness: surrogate motherhood and technology. In: J. Dumit & R. Davis-Floyd (Eds.); Cyborg babies: from techno-sex to techno-tots. New York, Routledge.

ROBERTS, E.F.S.; N. SCHEPER-HUGHES.

(2011). Medical migrations. Body and Society, 17, 2-3, p.1-30.

ROBERTSON, J.A.

(2006). Compensation and egg donation for research. Fertility and Sterility, 86, p.1573-5.

SHARP, L.A.

(2006). Strange harvest: organ transplants, denatured bodies, and the transformed self. Berkeley, University of California Press.

SIMMEL, G.

(1990 [1907]). The philosophy of money (trans. D. Frisby). New York, Routledge.

SMITH, C.A.

(1996). Myths, intellectuals, and race/class/ gender distinctions in the formation of Latin Americannations. Journal of Latin American Anthropology, 2, p.148-69.

STEINBROOK, R.

(2006). Egg donation and human embryonic stem cell research. New England Journal of Medicine 354, p.324-6.

STRATHERN, M.

(2005). Kinship, law and the unexpected: relatives are always a surprise. Cambridge, University Press.

(1992). Reproducing the future: essays on anthropology, kinship, and the new reproductive technologies. New York, Routledge.

(1985). Kinship and economy: constitutive orders of a provisional kind. Ethnologist 12, p.191-209.

STUTZMAN, R.

(1981). El mestizaje: an all-inclusive ideology. In: N. Whitten (Ed.); Cultural transformations and ethnicity in modern Ecuador. Urbana, University of Illinois Press.

SWANSON, K.

(2010). Begging as a path to progress: indigenous women and children and the struggle for Ecuador's urban spaces. Athens, University of Georgia Press.

TEMKIN, O.

(1977). The double face of Janus and other essays in the history of medicine. Baltimore, Md, Johns Hopkins University Press.

THOMPSON, C.

(2005). Making parents: the ontological choreography of reproductive technologies. Cambridge, Mass., MIT Press.

TICKTIN, M.

(2011). How biology travels: a humanitarian trip. Body and Society, 17, 139-58.

WADE, P.

(1993). Race, nature and culture. Man (N.S.), 28, 17-34.

WEISMANTEL, M.J.

(2001). Cholas and pishtacos: stories of race and sex in the Andes. Chicago, University Press.

WILSON, A.

(2004). The intimate economies of Bangkok: tomboys, tycoons, and Avon ladies in the global city. Berkeley, University of California Press.

ZELIZER, V.

(2010). Caring everywhere. In: E.Boris & R.S. Parrenas (Eds.); Intimate labors: cultures, technologies, and the politics of care. Stanford, University Press.

ZULAWSKI, A.

(2007). Unequal cures: public health and political change in Bolivia, 1900-1950. Durham, N.C., Duke University Press.

Elizabeth F. S. Roberts, Professora Associada do Departamento de Antropologia da Universidade de Michigan. E-mail: lfsrob@umich.edu.

(1) Artigo originalmente publicado no Journal of the Royal Anthropological Institute (2013) 19, 562580, sob o titulo "Assisted existence: an ethnography of being in Ecuador". Todos os direitos sao reservados ao Royal Anthropological Institute e foram cedidos para traducao e publicacao na Revista Intersecoes. Agradecemos a Paulette Goldweber (Wiley Global) e Jessica Turner (RAI Publications) pela oportunidade.

(2) Todos os nomes utilizados neste artigo sao pseudonimos.

(3) A regra "uma gota" e um termo utilizado nos Estados Unidos para fazer referencia a uma lei do seculo XX em alguns estados do Sul que classificava qualquer pessoa com "uma gota de sangue negro" como preta.
COPYRIGHT 2018 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Roberts, Elizabeth F.S.
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:11122
Previous Article:Rastros e restos que interessam: Na pista de uma humanidade encarnada.
Next Article:A Marcha das Vadias e seu feminismo: Praticas, experiencias e conflitos de uma geracao de jovens feministas.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters