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Evolution in the use and the expenditures of a healthcare provider/Evolucao na utilizacao e nos gastos de uma operadora de saude.

Introducao

O sistema de saude no Brasil pode ser dividido em duas grandes frentes: o Sistema Unico de Saude (SUS) e o sistema de saude privado (1,2). O SUS trata-se do servico publico oferecido de maneira universal a todo cidadao brasileiro; ja o sistema de saude privado e prestado por meio da contratacao direta de servicos junto a prestadores particulares, entre eles hospitais, clinicas e operadoras de planos de saude, que juntas formam o Sistema de Saude Suplementar (3).

Nos ultimos anos, o sistema de saude suplementar brasileiro vem apresentando crescimento expressivo (4). Segundo dados da Agencia Nacional de planos de Saude Suplementar (ANS) o numero total de beneficiarios de planos medico-hospitalares atingiu 50,8 milhoes em dezembro de 2014, apresentando crescimento significativo nos ultimos anos (5,6). A mesma fonte aponta para um crescimento no numero de beneficiarios de 13,1% entre os anos de 2010 a 2014, sendo que no mesmo periodo as receitas subiram mais de 60%. Estes numeros retratam a importancia crescente do setor de saude suplementar para a economia brasileira (7). Mesmo com o aumento de beneficiarios, vale destacar que a mesma ANS aponta reducao no numero de operadoras no segmento medico-hospitalar com beneficiarios, sendo 1044 em 2010 e 873 em 2014 (5).

Apesar do crescimento de beneficiarios da saude suplementar no Brasil, uma das maiores preocupacoes do setor esta relacionada ao aumento dos custos da saude no pais. Sao varias as justificativas apontadas pelas empresas do setor para o aumento destes custos, entre elas o envelhecimento da populacao (8), o aumento da frequencia de utilizacao dos planos de saude (9) e o aumento de precos de medicamentos, mao de obra e equipamentos (10,11). Este incremento nos custos e verificado pelo aumento do Indice de Precos ao Consumidor do Municipio de Sao Paulo, em 2014. Enquanto o IPC Geral foi de 5,20%, o IPC Saude foi de 7,02%. A diferenca apresentada fica ainda maior quando consideramos o periodo entre 2005 e 2014, quando o IPC Geral acumulado foi de 59,18% e o IPC Saude chegou a 92,45% (12).

Dentro deste contexto e com a intencao de contribuir para um melhor entendimento dos gastos da saude suplementar no Brasil, este estudo tem como objetivo principal avaliar a evolucao dos gastos e da utilizacao dos servicos de saude em uma operadora de autogestao brasileira por genero (masculino e feminino) (13), por tipo de gasto medico e por faixa etaria (mais velhos--acima de 60 anos e mais novos--abaixo de 60 anos) (14).

Para alcancar este objetivo foi analisada, durante o periodo de 2007 a 2013, a evolucao dos gastos de uma operadora de saude do tipo autogestao, com cerca de 90 mil beneficiarios, nas categorias ambulatorial, internacao e domiciliar, sendo a primeira subdividida em consultas, exames, procedimentos clinicos e procedimentos cirurgicos. Ja os gastos com internacoes foram subdivididos em diarias, exames, materiais, medicamentos, terapias, taxas, honorarios e outras despesas.

A escolha da operadora para este estudo se deve a alguns fatores que a tornam unica, tais como: o reduzido numero de beneficiarios ingressantes, uma vez que a entrada destes esta limitada (102 mil em 2008 para 81 mil em 2014); o envelhecimento acelerado dos mesmos (44 anos em 2008 para 47,6 anos em 2012); e a forte concentracao deles na cidade de Sao Paulo e na grande Sao Paulo (aproximadamente 44%). Fatores estes que potencializam a elevacao dos custos, algo presente ou esperado em muitas operadoras de saude brasileiras.

Revisao da literatura

A cadeia de valor da area de saude suplementar no Brasil e descrita segundo o Guia da Saude do Instituto de Estudos de Saude Suplementar (15) como um sistema que envolve os prestadores de servico, como hospitais, clinicas, laboratorios e centros de diagnostico; profissionais da saude, como medicos, fisioterapeutas, psicologos, nutricionistas; a industria farmaceutica e de equipamentos da saude; as operadoras de planos de saude; as farmacias e as distribuidoras de medicamentos e as agencias governamentais reguladoras Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (Anvisa) e ANS. Essa cadeia de valor forma uma trama de relacionamentos complexa de prestacao de servicos a empresas e ao cliente final (Figura 1).

Para a Organizacao Mundial da Saude (16), um sistema de saude e a soma de todas as organizacoes, instituicoes e fundos que tem o proposito primario de melhorar a saude. Sao necessarios equipes, recursos, informacoes, fornecedores, transporte e comunicacoes, alem de diretrizes de gestao integradas.

Para que estes servicos apresentem precos justos, e fundamental que os gastos destas organizacoes sejam bem gerenciados. Neste sentido, alguns estudos mostram grande preocupacao com o aumento dos custos da area de saude no Brasil (7,17,18). Uma das principais questoes usadas para explicar o aumento dos custos da saude de um pais e o envelhecimento da populacao (20). A populacao brasileira apresenta desafios para a cadeia de valor da area de saude, pois, conforme o relatorio dos indicadores do IBGE, as pessoas com mais de 60 anos de idade representavam 13% da populacao em 2013 (21). Alem disso, ha estimativas de que esse contingente possa triplicar ate 2050 (22). Para buscar uma melhor compreensao do impacto desse processo, faz-se necessario abordar algumas caracteristicas dentro desse publico.

O primeiro deles trata da diferenca no padrao de gastos entre os generos. A literatura aponta que as mulheres, em geral, tendem a utilizar mais servicos de saude do que os homens (23). Alem disto, a quantidade de mulheres e superior a de homens em todas as idades na saude suplementar. Isto fica evidente entre os idosos com acesso a planos de saude (23): por exemplo, para cada 100 homens acima dos 60 anos de idade, existem 143 mulheres e para os idosos acima de 80 anos, essa diferenca quase dobra (22). Em outro estudo (24), foram analisados os indicadores de gastos medicos e constatou-se evidencias de que as mulheres tem o gasto 1,29 vezes superior aos homens em consultas e 1,39 vezes em exames, embora os gastos masculinos em internacoes tenham sido 1,12 vezes superiores aos das mulheres. De acordo com os resultados, os gastos com internacao sao 67 vezes superiores aos gastos medios com consultas. Portanto, a relevancia dos gastos com internacoes e inquestionavel para operadoras de saude (24).

O envelhecimento populacional tambem afeta os gastos. Estima-se, por exemplo, que em 2030 o gasto publico com assistencia hospitalar e ambulatorial no SUS podera aumentar 43,9% em relacao a 2010 (22). Dados atualizados do relatorio "Envelhecimento Populacional e os Desafios para o Sistema de Saude Brasileiro" apontam que o gasto relativo ao grupo de idosos aumentara significativamente. Destaca-se a contribuicao dos gastos totais para o grupo com mais de 60 anos: esse grupo representou 28% do gasto total em 2010, e estima-se que esse percentual represente 59% em 2050 (9).

Outro ponto de atencao para as operadoras encontra-se na ineficiencia da gestao dos custos (17), ocasionando aumentos progressivos. Estudo realizado pelo IESS (Instituto de Estudos de Saude Suplementar) no Brasil mostra que ha uma tendencia de gastos crescentes (10). Os gastos com internacao cresceram, entre 2005 e 2010, mais de 54%, sendo que materiais e medicamentos representaram a maior parcela do gasto e do crescimento. Ainda segundo os proprios autores, estes resultados suscitam discussoes relacionadas ao impacto do uso de novas tecnologias, relacionadas a materiais e medicamentos, nos custos assistenciais das operadoras de saude, corroborando com estudos internacionais que apontam o avanco na tecnologia como um dos principais responsaveis pelo aumento dos gastos com saude (25).

Diante de todo este cenario, torna-se essencial o aprimoramento da gestao hospitalar e o pleno controle da sua administracao de custos e eficiencia na prestacao de servicos. Com a aceleracao do aumento de seus gastos, constatou-se que muitas operadoras, em especial as cooperativas, estao partindo para a integracao vertical de suas operacoes. Em pesquisa, foi concluido que ha um grupo significativo de operadoras que esta internalizando suas atividades de prestacao de servicos hospitalares, exames e aquisicao de insumos (26). Esses resultados sugerem esforcos estrategicos das operadoras para direcionar o aumento da utilizacao da rede propria.

A empresa pesquisada e o metodo de analise

Esta pesquisa se caracteriza por seu carater nao experimental e descritivo (27), uma vez que tem como finalidade observar, registrar e analisar o fenomeno do aumento dos gastos do Sistema de Saude Suplementar Brasileiro.

Para este objetivo usou-se o metodo do estudo de caso extremo (28) com uma operadora de plano de saude que passa por uma forte reducao no numero de beneficiarios, pelo envelhecimento acelerado dos mesmos e que, alem disto, apresenta uma forte concentracao de usuarios na grande Sao Paulo. Todas estas caracteristicas potencializam o fenomeno que se deseja estudar: o aumento dos gastos de uma operadora de saude. A vantagem de utilizacao de casos extremos esta em fornecer uma ideia dos limites dentro dos quais as variaveis de estudo podem oscilar (28).

Sendo assim, a empresa objeto deste estudo e uma operadora de Plano de Saude que atua sob a modalidade de autogestao, criada na decada de 1960 para atender os funcionarios de uma grande empresa publica privatizada no inicio do seculo XXI. Oferece a seus beneficiarios diversos tipos de plano de saude com cobertura a consultas, exames, tratamentos clinicos e cirurgicos, internacoes hospitalares, saude mental e assistencia odontologica. A maior parte de seus beneficiarios, aproximadamente 90%, concentra-se no estado de Sao Paulo, apesar da presenca em outros estados em regime de reciprocidade com outros planos de saude. Atualmente, sua assistencia e extensivel ate o 3 grau de parentesco por consanguinidade ou 2 grau por afinidade, do associado e ex-associado. A empresa conta com uma rede de 12.300 credenciados, entre hospitais, clinicas, medicos, laboratorios de exames e outros.

As analises foram desenvolvidas a partir dos relatorios de gastos da propria empresa. Foram disponibilizadas para analise as informacoes relativas aos anos de 2007 a 2013. Vale ressaltar que o volume de contratos de coparticipacao e minimo, logo, a remuneracao dos hospitais, clinicas e medicos e de total responsabilidade da operadora.

Para a analise dos dados disponibilizados pela empresa foram utilizadas tecnicas de estatistica basica descritiva. Algumas faixas etarias, consideradas outliers, seja pela pequena quantidade de pessoas ou pelos altos custos do periodo, foram retiradas da analise, de forma a conferir a menor distorcao possivel. As analises foram divididas nas seguintes categorias: ambulatorial, internacao e domiciliar. As duas primeiras se mostraram mais relevantes e desta forma foram subdivididas. Os gastos ambulatoriais foram subdivididos em consultas, exames, procedimentos clinicos e procedimentos cirurgicos. Ja os gastos com internacoes foram subdivididos em diarias, exames, materiais, medicamentos, terapias, taxas, honorarios e outras despesas.

Analise dos dados e resultados

Inicia-se esta analise com alguns dados do perfil e evolucao etaria dos beneficiarios da operadora de saude estudada. O numero medio de expostos caiu 17% entre 2007 e 2013. Esta queda, conforme abordado anteriormente, pode ser explicada pelo envelhecimento da populacao do plano e pela quase inexistente entrada de novos beneficiarios. Houve uma queda de 30% no numero de beneficiarios abaixo de 60 anos e um aumento de 26% naqueles acima dessa idade. Como observado no Grafico 1, se em 2007 a quantidade de beneficiarios abaixo de 60 anos representava 76% da populacao, em 2013 este numero caiu para 64%. Outra observacao importante a ser feita e que enquanto o numero de beneficiarios do sexo masculino acima de 60 anos cresceu de 10% para 16%, no sexo feminino, nessa faixa etaria, subiu de 13% para 20% do total. Ou seja, o numero de mulheres mais velhas cresceu mais rapidamente do que o numero de homens mais velhos no periodo, corroborando os estudos realizados por Carneiro et al. (20).

No total, a proporcao do numero de mulheres e homens nao foi alterada de forma significativa durante o periodo de 2007 a 2013, sendo aproximadamente 55% de beneficiarios do sexo feminino e 45% do masculino.

Apos apresentacao do perfil e da evolucao etaria dos beneficiarios da operadora de saude, sera apresentada a evolucao da utilizacao e dos gastos dos beneficiarios mais velhos (acima de 60 anos) comparativamente com os mais novos (abaixo de 60 anos) para ambos os sexos.

Analise da Evolucao da Utilizacao dos Servicos de Saude

A seguinte analise antecipa um passo importante das tendencias nos gastos da operadora em questao. As evolucoes na utilizacao dos servicos de saude impactam diretamente, assim como o genero e a idade--como ja apontados em nossa revisao de literatura anterior--no custo da operadora. Portanto, serao analisados o perfil de uso da operadora por seus beneficiarios e a relacao deste com a taxa de utilizacao dos servicos medicos.

Observou-se, no periodo referente, que a taxa media de utilizacao da operadora aumentou de 41% para 49% (Tabela 1). O crescimento na taxa de utilizacao esta relacionado positivamente ao aumento da frequencia media de utilizacao de exames ambulatoriais por beneficiario, passando de 14,7 em 2007 para 27,02 exames/beneficiario em 2013. A mesma relacao foi encontrada com o aumento de consultas por beneficiario, que saltaram de 5,12 em 2007 para 6,25 consultas/beneficiario em 2013. Ambos relevantes na sequencia de custos incorridos ao plano de saude.

Tal evolucao na utilizacao--e consequente impacto nos custos--tambem foi constatado por faixa etaria. Tanto os beneficiarios mais novos quanto os mais velhos aumentaram a utilizacao do plano, sendo encontrado neste ultimo um ritmo ainda mais acelerado que o primeiro, saltando de 49% em 2007 para 61% em 2013 (Tabela 2). Na avaliacao por genero, ambos aumentaram a utilizacao do plano de saude, sendo as mulheres, em media, as maiores utilizadoras, em ambas faixas etarias. Primeiramente, deve-se destacar a diferenca na utilizacao do plano entre os mais jovens, sendo mantida a diferenca de aproximadamente 11 pontos percentuais dos anos demonstrados (vide taxa de utilizacao na Tabela 3, na qual 46% das mulheres utilizaram o plano frente aos 35% dos homens no ano de 2013). Observou-se, entretanto, que os homens acima de 60 anos tambem aumentaram significativamente a taxa de utilizacao no periodo analisado (de 48% para 62%) e praticamente igualaram o nivel de utilizacao das mulheres na faixa acima de 60 anos (Tabela 3).

O desdobramento das analises por idade, genero e tipo de gasto apresentados na Tabela 3 apontam para a tendencia de aumento na utilizacao do plano nas idades mais avancadas. Em 2013, por exemplo, a taxa de exames por beneficiario para a populacao mais velha foi de 37,3 exames por individuos, enquanto que para a populacao mais nova foi de 21,3. O mesmo fenomeno tambem e verificado no numero de consultas por beneficiarios: em 2013 a operadora tinha 7,5 consultas por individuo acima de 60 anos, contra 5,5 abaixo dessa idade.

Ainda na Tabela 3, pode-se observar a diferenca de comportamento entre os sexos--relevante para as extrapolacoes do comportamento dos gastos da operadora de saude em questao sendo as mulheres, em media, as maiores utilizadoras de exames e consultas. Enquanto as mulheres mais velhas fizeram, em 2013, uma media de 39,93 exames por beneficiaria, os homens da mesma faixa etaria fizeram 34,03. No caso das consultas, as mulheres mais velhas fizeram na media 8,20 e os homens 6,66.

Com relacao a taxa media de internacao, outro fator de ponderacao em futuras tendencias de gastos com saude, observou-se (Tabela 2) que apesar de ser bem maior para os maiores de 60 anos (35% para os mais velhos e 12%, para os mais novos em 2013) nao apresentou evolucao significativa para o periodo analisado (na media subiu de 20% para 22%). Ja a Tabela 3 mostrou que enquanto as mulheres tiveram taxas de internacao diminuindo ao longo do tempo, os homens apresentaram movimento inverso. No caso masculino, a taxa de internacao para os mais novos subiu de 9% para 14%, enquanto que para os mais velhos aumentou quase 10 pontos percentuais, de 35% para 44%.

Embora a taxa de internacao geral tenha se mantido praticamente estavel, observou-se que a permanencia por internacao subiu consideravelmente. A media geral subiu de 4,91 para 6,51 dias por internacao. Para os beneficiarios abaixo de 60 anos esta taxa foi de 3,63 dias para 4,54 dias e para os beneficiarios acima de 60 anos o aumento foi ainda maior: de 6,41 dias para 8,01 dias.

Analise da Evolucao dos Gastos da Operadora de Saude

Para o periodo de 2007 a 2013 o IPC Geral Acumulado foi de 40,33% e o IPC Saude foi ainda maior, 54,26%. E importante ter estes numeros em mente para que se possa comparar com os numeros encontrados na operadora estudada.

No mesmo periodo os gastos medicos gerais da operadora de saude, em funcao do envelhecimento de seus beneficiarios, tiveram um aumento de 119%, bem acima da inflacao no periodo. O aumento foi de 161% para o grupo de beneficiarios acima de 60 anos. Este crescimento ocorreu basicamente em funcao do aumento na quantidade de pessoas desta faixa etaria.

No entanto, quando e analisada a taxa de crescimento dos gastos per capita (por beneficiario), observa-se que enquanto o aumento de gastos foi de 107% para a populacao mais velha, para a mais nova foi de 147%. Ainda assim os gastos por beneficiario mais velho sao 3,2 vezes maiores quando comparados aos mais novos.

Dentre as categorias de gastos, os domiciliares foram os que mais cresceram (206%), seguidos por aqueles com internacao (137%) e pelos ambulatoriais (91%). Todos cresceram bem acima da inflacao, mas chama atencao o aumento dos gastos com internacao, que ja eram os mais altos.

O Grafico 2 mostra que os gastos com internacao representavam 49,6% do total em 2007 e em 2013 passaram a representar 53,5%. Os gastos ambulatoriais, ao contrario, tiveram sua participacao no total reduzida de 45,7%, em 2007, para 39,9%, em 2013.

Dentro das categorias de gastos ambulatoriais, o mais significativo em 2013 foi com exames, representando 61%, seguido por consultas (26%), procedimentos clinicos (8%) e procedimentos cirurgicos (5%).

Focando na analise dos gastos com internacoes, observou-se no periodo avaliado um aumento medio de 141% por internacao, porem quando sao analisados os gastos diarios de internacao este crescimento e inferior, de 81%, ainda assim bem acima da inflacao do periodo (IPC Saude: 54,26%). A explicacao para isto esta no aumento da permanencia media das internacoes ja apontadas na secao anterior. Vale notar que, embora os gastos por internacao para os beneficiarios mais velhos sejam na media o dobro daqueles por internacao para os mais novos, quando se observa estes custos por diaria de internacao esta diferenca praticamente desaparece. Ou seja, o beneficiario mais velho nao paga a mais por diaria de internacao, na verdade ele fica mais tempo internado e, por isto, os seus gastos com internacao sao maiores. Deve-se destacar ainda que, no periodo analisado, nao houve diferenca significativa na inflacao dos gastos com internacao entre a populacao mais velha (acima de 60) e a mais nova (abaixo de 60).

Conforme se observa no Grafico 3, o gasto com materiais foi o que mais cresceu em relacao aos demais custos da internacao, pois em 2007 representava 30% e em 2013 passou para 41%. A inflacao do gasto com materiais, no periodo pesquisado, tambem foi a mais alta (Tabela 3), enquanto que em relacao a diaria de internacao subiu 146%. O segundo maior gasto, que foi o de medicamentos, subiu 67% por diaria de internacao.

Este dado corrobora a pesquisa de Leite (29), a qual afirma que o aumento dos custos relacionados a materiais tem sido um desafio para o setor de saude, tanto publica quanto suplementar. Ainda segundo a autora, um dos motivos para esse aumento, alem da introducao de novas tecnologias, e a assimetria de informacao, tanto de produtos quanto de precos, principalmente em relacao aos materiais especiais (29).

De acordo com a Tabela 4, quando se compara o aumento dos gastos entre os beneficiarios mais velhos e os mais novos, observa-se que com materiais foi ligeiramente maior para os primeiros (148% versus 143%), assim como para medicamentos (66% versus 52%). A populacao mais velha ainda sofreu mais com o aumento dos gastos com terapias (33% versus 9%). Na comparacao entre sexos, observam-se aumentos superiores nos custos do sexo masculino em todas as categorias, com destaque tambem para o aumento nos gastos com materiais (179% versus 120%) e medicamentos (77% versus 60%), os maiores dispendios de internacao.

Consideracoes finais e conclusao

Tendo em vista a relevancia da discussao sobre o aumento dos custos das operadoras de saude no Brasil, em funcao do envelhecimento da sua populacao, este trabalho teve como objetivo contribuir com a exposicao de como se deu a evolucao da utilizacao e dos gastos, no periodo recente de 2007 a 2013, de uma operadora, cujo rapido envelhecimento dos beneficiarios a torna unica. Com 36% dos beneficiarios acima dos 60 anos de idade em 2013, a operadora de saude objeto deste estudo apresenta um perfil populacional proximo ao esperado somente para o ano de 2050 (23) nos planos de saude do pais.

As principais conclusoes com relacao ao grau de utilizacao mostram que a taxa de uso do plano aumentou consideravelmente, em especial para a populacao mais velha que vem empregando mais o plano em 2013 do que em 2007. Os homens mais velhos estao mais preocupados com a saude e passaram a utilizar os servicos da operadora no mesmo nivel das mulheres de mesma faixa etaria. Isto mostra uma mudanca no comportamento masculino em relacao a sua saude, fato que merece atencao das operadoras. Aproveitar o maior grau de utilizacao por parte dos homens pode ser uma oportunidade para trabalhos de carater preventivo, portanto, entender melhor este fenomeno podera trazer beneficios para a reducao dos gastos das operadoras de saude com a populacao mais velha.

Por sua vez, e interessante perceber que enquanto a taxa de internacao das mulheres acima de 60 anos teve uma reducao de 8 pontos percentuais, para os homens da mesma faixa etaria houve um aumento de quase 10 pontos percentuais, representando mais um fator inflacionario para as operadoras de saude. Ainda com relacao as internacoes, o estudo detectou que o tempo medio de permanencia nos hospitais subiu para ambas as faixas etarias estudadas. Isto leva a pensar que houve um agravamento nos casos de internacao, porem, novas pesquisas poderiam investigar o aumento no tempo de internacao dos pacientes.

Os gastos com internacao sao preocupantes, pois continuam sendo os mais expressivos e apresentando forte tendencia de subida para os proximos anos. Os gastos por diaria de internacao tiveram um aumento medio muito acima da inflacao do periodo, em todas as faixas etarias, corroborando a literatura da area (10,25). Dentro das varias categorias de custos com internacao, merecem destaque os gastos com materiais e medicamentos.

Isto mostra que existem alguns direcionadores de custos que gestores publicos e privados deveriam olhar com maior atencao para tentar frear os gastos da saude. O crescimento dos gastos de uma operadora de saude nao pode ser explicado somente pelo envelhecimento de seus beneficiarios. Embora represente um vetor importante, pode-se verificar que os gastos estao acima da inflacao em todas as categorias e nas mais diversas faixas etarias.

Outros estudos poderiam ser realizados para entender, de maneira mais profunda, o aumento expressivo dos gastos com materiais e medicamentos. Pesquisas sobre assimetria de informacao e adocao de novas tecnologias poderiam ajudar a explicar estes gastos.

Durante a realizacao da pesquisa pode-se perceber a dificuldade que as operadoras tem em obter informacoes precisas e completas de seus beneficiarios e de suas enfermidades, bem como dos prestadores de servicos e de toda a cadeia de valor da saude (16). Certamente um trabalho de integracao e compartilhamento de informacao em toda a cadeia podera trazer beneficios enormes para todos os players da saude, sejam publicos ou privados.

Cabe ainda registar a grande limitacao deste estudo. O fato de ter-se utilizado uma unica operadora de plano de saude pode trazer certo vies na generalizacao das conclusoes de pesquisa, mas por outro lado permitiu um mergulho mais profundo no entendimento dos direcionadores de custo e na utilizacao da operadora por parte de seus beneficiarios.

Por fim, este artigo buscou contribuir para o entendimento da evolucao dos custos de uma operadora de saude que sofre com o envelhecimento de seus beneficiarios. Espera-se que este estudo possa ajudar outras operadoras tanto na comparacao de seus dados, como uma fonte de benchmarking, quanto no processo de tomada de decisao sobre como gerenciar os seus principais gastos de forma inteligente e sustentavel.

Colaboradores

ALCM Duarte trabalhou na analise e conclusao dos dados; FM Oliveira na analise dos dados; AA Santos na contextualizacao e referencial bibliografico; BFC Santos na analise e conclusao dos dados.

DOI: 10.1590/1413-81232017228.00912016

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(23.) Andrade MV, Maia AC. Demanda por planos de saude no Brasil. 2006;2:1-21. [Internet]. [cited 2015 Jan 11]. Available from: http://www.anpec.org.br/encontro2006/artigos/A06A106.pdf

(24.) Andrade MV, Maiab AC, Rodrigues CG. Indicadores de gastos com servicos medicos no setor de saude suplementar no Brasil: o caso Sabesprev. In: Belo Horizonte; 2010 [cited 2014 May 30]. p. 1-22. Available from: http://150.164.82.140/pesquisas/td/TD 403.pdf

(25.) Newhouse JP. Medical Care Costs: How Much Welfare Loss? JEcon Perspect 1992; 6(3):3-21.

(26.) Ferreira DQG. Os determinantes da integracao vertical na saude suplementar segundo a teoria dos custos de transacao [tese]. Rio de Janeiro: UFRJ; 2013.

(27.) Sampieri RH, Collado CF, Lucio MPB. Metodologia de pesquisa. 5a ed. Porto Alegre: AMGH; 2013.

(28.) Carlos GA. Como elaborar projetos de pesquisa. Sao Paulo: Atlas; 2002.

(29.) Leite F. Por que os custos com internacao dos planos de saude sao os que mais crescem? IESS 2013;1-9. [cited 2014 Apr 23]. Available from: http://www.iess.org.br/ html/TDIESS0048pqcustoscrescem.pdf

(30.) Andrade MV, Maia AC, Rodrigues CG. Indicadores de gastos com servicos medicos no setor de saude suplementar no Brasil. Rev Bras Estud Popul [Internet]. Rio de Janeiro; 2013. [cited 2014 Apr 23];30:103-118.Available from: http://www.rebep.org.br/index.php/revista/ article/view/386

Artigo apresentado em 13/10/2015

Aprovado em 21/03/2016

Versao final apresentada em 23/03/2016

Andre Luis de Castro Moura Duarte [1]

Felippe de Medeiros Oliveira [1]

Anderson de Andrade Santos [1]

Bento Fortunato Cardoso dos Santos [1]

[1] Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. Rua Quata 300, Vila Olimpia. 04546042 Sao Paulo SP Brasil. andrelcmd@insper.edu.br

Caption: Figura 1. Representacao do Sistema de Saude Privado (19).
Tabela 1. Evolucao das taxas de utilizacao geral, exames por
expostos e consultas por beneficiarios.

        Taxa de     Exames por    Consultas
Ano    utilizacao    exposto     Beneficiario

2007      41%          14,7          5,12
2008      46%          20,6          6,16
2009      46%          20,1          5,67
2010      47%          21,1          5,51
2011      48%          23,5          5,85
2012      48%          25,2          5,93
2013      49%          27,0          6,25

Tabela 2. Evolucao das taxas de internacao e utilizacao
para beneficiarios acima e abaixo dos 60 anos.

          Taxa de Internacao     Taxa de Utilizacao

Ano    < 60 anos   > 60 anos   < 60 anos   > 60 anos

2007      10%         35%         35%         49%
2008      12%         47%         41%         53%
2009      9%          42%         39%         55%
2010      10%         41%         39%         58%
2011      10%         39%         40%         59%
2012      10%         41%         40%         60%
2013      12%         35%         41%         61%

Tabela 3. Evolucao das taxas de internacao e utilizacao para
beneficiarios acima e abaixo dos 60 anos dos sexos masculino e
feminino.

                    Faixa       Taxa de      Taxa de
Ano    Sexo         Etaria     Internacao   Utilizacao

2007   Feminino    < 60 anos      11%          41%
                   > 60 anos      35%          50%
       Masculino   < 60 anos       9%          29%
                   > 60 anos      35%          48%
       Ambos       < 60 anos      10%          35%
                   > 60 anos      35%          49%
2013   Feminino    < 60 anos      10%          46%
                   > 60 anos      28%          60%
       Masculino   < 60 anos      14%          35%
                   > 60 anos      44%          62%
       Ambos       < 60 anos      12%          41%
                   > 60 anos      35%          61%

                   Exames/    Consulta/
Ano    Sexo        Expostos   Expostos

2007   Feminino     14,53       5,51
                    25,27       7,33
       Masculino     8,72       3,56
                    21,76       5,72
       Ambos        11,86       4,61
                    23,76       6,64
2013   Feminino     25,82       6,57
                    39,93       8,20
       Masculino    15,49       4,25
                    34,03       6,66
       Ambos        21,30       5,55
                    37,35       7,52

Tabela 4. Aumento dos gastos de internacao de 2007 a 2013 na
Operadora de Saude.

Gastos com
Internacao
(por diaria de              < de 60   > de 60
internacao)         Geral    anos      anos     Feminino   Masculino

Diaria Hospitalar    52%      48%       48%       48%         56%
Exames               63%      77%       51%       49%         81%
Medicamentos         67%      52%       66%       60%         77%
Materiais           146%     143%      148%       120%       179%
Taxas                52%      68%       45%       48%         57%
Terapias             24%      9%        33%       19%         34%
Honorarios e         45%      44%       54%       28%         67%
  Outros

Grafico 1. Evolucao do perfil (sexo e faixa etaria) dos beneficiarios
da Operadora de Saude no periodo de 2007 a 2013.

         Femino      Femino    Masculino   Masculino
       < 60 anos   > 60 anos   < 60 anos   > 60 anos

2007      41%          13%        35%         10%
2008      41%          14%        34%         11%
2009      40%          15%        33%         12%
2010      39%          16%        32%         12%
2011      39%          17%        31%         13%
2012      38%          19%        29%         14%
2013      36%         1420        28%         16%

Note: Table made from bar graph.

Grafico 2. Evolucao da representatividade dos gastos medicos
totais com internacao, ambulatorial e domiciliar.

       Internacao   Ambulatorial   Domiciliar

2007      49,6%        45,7%         4,7%
2008      47,2%        47,7%         5,1%
2009      51,5%        42,2%         6,3%
2010      50,8%        42,2%         7,0%
2011      52,4%        40,9%         6,6%
2012      53,1%        40,6%         6,3%
2013      53,5%        39,9%         6,6%

Note: Table made from bar graph.

Grafico 3. Evolucao da representatividade dos gastos com internacao.

         Diarias       Exames    Medicamentos  Materiais
       internacao   internacao    internacao   internacao

2007       16%           5%           20%         30%
2008       15%           4%           20%         32%
2009       15%           4%           19%         34%
2010       13%           4%           19%         35%
2011       14%           4%           20%         36%
2012       14%           4%           19%         38%
2013       13%           4%           19%         41%

          Taxas      Terapias     Honorarios
       internacao   internacao    e outras
                                 despesas de
                                  internacao

2007      14%           2%           13%
2008      15%           2%           13%
2009      15%           2%           12%
2010      14%           2%           12%
2011      13%           2%           11%
2012      12%           2%           10%
2013      12%           2%           10%

Note: Table made from bar graph.
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Title Annotation:FREE THEMES/TEMAS LIVRES
Author:Duarte, Andre Luis de Castro Moura; Oliveira, Felippe de Medeiros; Santos, Anderson de Andrade; dos
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Article Type:Ensayo
Date:Aug 1, 2017
Words:5708
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