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Everyday life interstices: contextual situation in Rochelle Costi's work/Intersticios no cotidiano: situacoes contextuais na obra de Rochelle Costi.

Introducao

O desenvolvimento de trabalhos a partir da experiencia vivida no contexto onde se esta inserido e uma das caracteristicas mais marcantes nas praticas de arte contemporanea. Desde o inicio de sua trajetoria, Rochelle Costi, artista brasileira que ja participou das bienais de Sao Paulo e de Havana, vem trabalhando com fotografia, video e instalacao em situacoes circunstanciais, ativando o que esta em potencial nos espacos onde habita e circula. Em Dinamica Comum (2005), Negocios aparte (2017) e Tombo: Centro Novo (2017), a artista trata de regioes da capital paulista, cidade onde reside desde 1988, a partir da aproximacao com situacoes que encontra em seus percursos de trabalho.

1. Banalidade significativa

A exposicao Dinamica Comum (2005), composta por um video, uma instalacao e uma serie fotografica, foi resultado de sua convivencia com o Largo da Batata, regiao de comercio em Sao Paulo, na epoca em vias de extincao. Foi ao lado deste centro popular do bairro Pinheiros, em um predio de arquitetura imponente onde esta localizado o Instituto Tomie Ohtake, que a artista montou um atelie provisorio, numa sala desocupada do 24 [degrees] andar da torre de escritorios, com cerca de 700 [m.sup.2] e uma vista de 360 [degrees] da cidade, trabalhando simultaneamente as duas situacoes: a serie fotografica Escolha trazia o interior das pequenas lojas do Largo da Batata, ja o video Convite ao Infinito mostrava diversas pessoas correndo sobre um simbolo de infinito desenhado no chao da sala ocupada. Com tres cameras posicionadas em direcao as janelas de vidro circulares ao fundo, a imagem percorria diferentes incidencias de luz ao longo do dia e a maneira como ela ia se modificando ate o crepusculo, quando a sala escurecia por completo (Figura 1).

Em sua operacao poetica, Costi evidencia os paradoxos que somente a experiencia vivida em uma dada circunstancia poderia revelar: o excesso de objetos e comerciantes amontoados em alguns quarteiroes de um bairro nobre como Pinheiros e o vazio da imensidao do horizonte desde as janelas nas quais a unica presenca e das linhas de sombra que se revelam a partir do movimento do sol. Ha o interesse pelo contexto social, pelas particularidades apresentadas por uma metropole como Sao Paulo, os camelos que algum tempo depois foram afastados dali com vistas a uma renovacao do comercio e uma revitalizacao urbana, mas aliadas as questoes que a artista encontra em sua relacao com a cidade, experimentando para isso um certo tempo de convivencia com as pessoas, os lugares e as coisas.

Ao adotar em seus procedimentos a reconstituicao de lugares a partir da dimensao existencial da experiencia, Costi nos indaga pelo habitual que nao costumamos interrogar, o potencial do banal em tornar-se significativo. Lembremos aqui da origem da palavra banal, trazida pelo sociologo frances Michel Maffesoli (2008) no ensaio para a exposicao Promenade en Marges (Galerie Chantal Crousel, Paris, 2002): na Franca medieval, o chamado dia banal de cozimento era aquele em que o pao nao pertencia ao senhor feudal. Tratava-se de um dia de pao comum, de usufrui-lo em comunidade e liberdade.

Para Agnaldo Farias, curador e professor da Universidade de Sao Paulo, os trabalhos de Costi revelam um cotidiano que nao despertaria interesse. "Um dia a dia comum, com sua dinamica rotineira e previsivel, mas cujos intersticios, como insiste em fazer notar a artista, sao carregados de surpresas" (Farias, 2005). Estes intersticios ja trazia Henri Lefebvre (1961) em sua critica direcionada a um cotidiano que nao se integra com a vida. Para o autor, o mundo nao poderia ser definido apenas pelas questoes historicas, sociais ou culturais, mas pela vida cotidiana que ja traz dentro de si a possibilidade de sua propria existencia e de sua transformacao ontologica, se situando em um nivel intermediario e mediador. A banalidade teria um lado benigno e outro maligno, localizada em um tempo e um lugar onde o ser humano sente-se preenchido ou fracassado, e o papel da critica seria o de procurar dar a luz aquilo que ja existe em estado embrionario. A hipotese de Lefebvre (2002) e que as criacoes genuinas sao alcancadas no coracao do cotidiano, as quais produzimos como parte do processo de nos tornarmos humanos. E na trivialidade, no tedio e na aparente pobreza da rotina que se encontra o potencial para a energia criativa, capturada no dia a dia de nossas acoes mecanicas despojadas de intencionalidade.

Esta foi a tonica de Negocios aparte (2017), quando Costi realizou uma pesquisa de cerca de oito meses percorrendo a Avenida Paulista diversas vezes, registrando a invisibilidade das personagens apartadas do perfil corporativista da regiao e pequenos acontecimentos fortuitos e efemeros. Renato Firmino, pintor, catador e morador de rua, participou como colaborador do trabalho e da exposicao, seu carrinho passou a ser espaco para a projecao do video. Alem de procurar tornar visivel o dia a dia das pessoas comuns, atraves de seus objetos ou de seus habitos, em Negocios a parte (2017) Costi trouxe para dentro do Museu de Arte de Sao Paulo (MASP) o proprio carrinho de Renato Firmino, colocando, inclusive, suas pinturas a venda na loja do museu, que apesar de estar localizado na Avenida Paulista nao tem qualquer relacao com a cultura popular que circunda a regiao (Figura 2).

Este trabalho evidencia que algo foi experenciado, descolado daquilo que e homogeneo e repetitivo da vida cotidiana, tipo de situacao em que se produz uma suspensao, um intersticio. Trata-se da ocorrencia do infraordinario (Perec, 2017), ruido de fundo que compoe o cotidiano, mas ao qual nao prestamos atencao, o habitual que nao interrogamos, o potencial do banal em tornar-se marcante, significativo. Aquilo que em geral nao se nota, o que nao tem importancia: "o que acontece quando nada acontece, a nao ser o tempo, as pessoas, os carros e as nuvens" (Perec, 2017: 11).

Para o curador Sergio Mah (2009), os trabalhos de arte em torno da poetica do cotidiano procuram revisitar e construir historias que se distanciam das narrativas extraordinarias, heroicas e espetaculares. E e neste potencial que estaria localizada a sua dimensao politica. "Levar a atencao ao ambito do cotidiano nos permite compreender, imaginar e pensar, em um nivel basico, as consequencias e os efeitos que as estruturas sociais e a acao dos sistemas de poder tem na vida das pessoas" (Mah, 2009: 05).

Os trabalhos de Costi colocam em questao a falta de importancia delegada a pessoas, lugares e suas circunstancias cotidianas, evidenciando a invisibilidade de certas situacoes em uma sociedade que funciona de forma mecanica e sistematizadora. Uma vez que suas obras refletem o que ocorre em nosso entorno, elas funcionam como brechas que nos colocam em estado de indagacao, nos questionando por coisas que ja estao naturalizadas.

2. Lugares que criam trabalhos

Se o olhar investigativo de Costi sobre o entorno exerce um papel fundamental para a experiencia de um cotidiano que tera relacao direta em sua criacao, a maneira como a artista ira pensar as formas de apresentacao do trabalho, levando em conta suas implicacoes, tambem fazem parte deste processo. Em Negocios aparte (2017), embora o carrinho saia das ruas para entrar no museu, ele e colocado proximo das janelas de onde se avista a Avenida Paulista e os mesmos personagens retratados no trabalho.

Em Tombo: Centro Novo (2017), por ocasiao da exposicao Sao Paulo nao e uma cidade, que inaugurou o SESC 24 de Maio, a artista fez uma pesquisa para reunir imagens de arquivo do predio de 1941 onde funcionava uma antiga loja de departamentos Mesbla, fechada em 1999, alem de outros registros de imagens cotidianas das galerias e ruas localizadas no entorno. Para a exposicao, ela inseriu dispositivos oticos em gavetas de arquivos de aco que, ao girarem, faziam um passeio por cada uma das fotografias, de uma ponta a outra. Na instalacao proposta por Costi, o publico podia ter acesso ao interior destas gavetas atraves de uma especie de olho magico--desta forma, apesar dos dispositivos nos remeterem para dentro dos arquivos, levavam nosso olhar para fora, para o centro de Sao Paulo. Apos a exposicao, a obra permaneceu na biblioteca do SESC onde esta ate hoje (Figura 3).

Podemos refletir aqui sobre o conceito de lugar, trazido pelo antropologo Marc Auge (1994), que pode ser definido a partir de suas tres caracteristicas fundamentais: identitario, relacional e historico. Se o lugar de nascimento e por excelencia constitutivo da identidade individual, tambem podemos pensar em outras caracteristicas que nos remetem a essa ideia de pertenca, como situacoes nas quais nos identificamos em dadas circunstancias de nossa vida e nos estimulam a criar. No lugar relacional, ha uma coexistencia de elementos distintos e singulares, relacoes que vao se estabelecendo na ocupacao de um espaco comum, na convivencia com outras pessoas e situacoes. Por fim, o lugar historico reservaria diferentes camadas e descobertas por conta daquilo que se evoca das narrativas e de seus antepassados. Tais caracteristicas que criam um social organico, segundo Auge, apontam para a ideia de um lugar como espaco existencial, que se daria como experiencia de relacao com o mundo, com o meio onde estamos inseridos.

Nas situacoes circunstanciais que Costi vem trabalhando, ha algo do ambito individual a impulsionar o trabalho, mas que passa a ser relacional na medida em que e pautado pelas situacoes de encontro, de conversa e de descoberta de outros cotidianos que se misturam com o seu. Em ocasioes como Dinamica Comum (2005) e Tombo: Centro Novo (2017) ha um resgate de elementos historicos do Largo da Batata e do centro da cidade, respectivamente. No caso do Largo da Batata, uma vez que hoje ja nao existe mais o tipo de comercio e ocupacao registrados por Costi, o proprio trabalho passa a se constituir como possibilidade de reconstituicao de narrativas.

Conclusao

Se o cotidiano oferece uma diversidade de assuntos e situacoes que frequentemente vem sendo abordados pela arte contemporanea, nas obras de Rochelle Costi sao as historias a margem das grandes narrativas de uma metropole como Sao Paulo que se colocam entre parenteses urbanos, criando especies de intersticios existenciais. Ha uma relacao contextual a partir de sua propria experiencia, uma operacao poetica que nao parte apenas de lugares relacionais como tambem os problematizam, os trazem para o centro de suas questoes. Se por um lado estes trabalhos nascem no cotidiano, eles tambem retornam para seu contexto original, produzindo neste percurso uma certa circularidade. Num primeiro momento, ha uma permeabilidade entre o exercicio criativo e o entorno; na apresentacao final, as instalacoes voltam a colocar o sujeito em relacao com o cotidiano experimentado pela artista.

Referencias

Auge, Marc. (1994). Nao-lugares: Introducao a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus.

Lefebvre, Henri. (1961). A vida cotidiana no mundo moderno. Sao Paulo: Atica.

Lefebvre, Henri. (2002). Critique of everyday life vol II: Foundations for a sociology of the everyday. London/ New York: Verso.

Maffesoli, Michel. (2008).Walking in the Margins. In: JOHNSTONE, Stephen (org). The everyday--documents of contemporary art. Londres e Cambridge: Whitechapel Gallery e The Mit Press.

Mah, Sergio. (2009). Sentidos de lo cotidiano. [S.l.: s.n.]. [Consult. 2018-12-19] Disponivel em URL: <http://www.phedigital.com/anteriores/ html/phe_dinamica/archivos/descarga.php?nombre=presentacion.pdf>.

Perec, Georges. (2017). Lo infraordinario. Editora digital: Titivillus.

Perec, Georges. (2016). Tentativa de esgotamento de um local parisiense. Sao Paulo: Gustavo Gil.

VIVIANE GUELLER *

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Doutoramento em artes visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Instituto de Artes; Programa de Pos-Graduacao em Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos, 248, Porto Alegre--RS, 90020-180, Brasil. E-mail: vigueller@gmail.com

Caption: Figura 1 * Rochele Costi. Dinamica comum. 2005. Instalacao. Instituto Tomie Ohtake. Sao Paulo. Brasil.

Caption: Figura 2 * Rochelle Costi. Negocios a parte. 2017. Videoinstalacao. Museu de Arte de Sao Paulo. Sao Paulo. Brasil.

Caption: Figura 3 * Rochelle Costi. Tombo: Centro Novo. 2017. Instalacao. SESC 24 de Maio. Sao Paulo. Brasil.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Gueller, Viviane
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:1976
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