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Evaluation of the Brazilian version of the CRAFFT/CESARE scale for screening drug use by adolescentes/Avaliacao da versao brasileira da escala CRAFFT/CESARE para uso de drogas por adolescentes.

Introducao

A adolescencia e um periodo marcado por transformacoes biologicas, emocionais e sociais (1), tais caracteristicas podem contribuir para uma maior ou menor vulnerabilidade ao uso de substancias psicoativas (SPA) (2). Esse uso geralmente tem inicio nessa fase do desenvolvimento, tornando esta etapa relevante para estrategias de prevencao e deteccao precoce de uso de risco (2,3).

Levantamento nacional recente apontou que o alcool e o tabaco sao as substancias mais consumidas pelos adolescentes e aproximadamente 5% iniciou a experimentacao antes de 10 anos (4). Outro estudo brasileiro com adolescentes aponta que 4% ja usaram maconha e 3% cocaina ao menos uma vez na vida (5).

O consumo de SPA por adolescentes esta associado a acidentes de transito (6), problemas judiciais, comportamento sexual de risco (7), gestacao nao planejada (8), ferimentos nao intencionais, homicidio e suicidio (8,9). Embora para a maioria dos jovens, o uso de SPA nao produza danos relevantes, para uma parte consideravel o consumo podera ter como consequencia a evolucao para o uso problematico interferindo no processo normal da adolescencia (10).

Associacoes internacionais recomendam que todos os adolescentes sejam avaliados para o uso de alcool e outras drogas como parte de uma rotina da assistencia de saude (11). No entanto, existe uma baixa triagem dos adolescentes em relacao ao uso de SPA, principalmente por falta de capacitacao adequada para o rastreamento (12).

Embora nao normatize o modo de identificacao dos adolescentes em uso de SPA, o Ministerio da Saude do Brasil sugere que os profissionais devem estar aptos a identificar aqueles com problemas associados ao uso de SPA, verificar sua limitacao de manejo e encaminhar adequadamente ao servico de referencia (6,13).

Sendo assim, metodos de triagem de facil manejo poderiam ser incorporados nas rotinas de atendimentos (12). A aplicacao de instrumento validado para a triagem do uso de SPA possibilitaria a identificacao precoce e a escolha de uma conduta pertinente a gravidade da situacao, desde uma orientacao para o adolescente ate o encaminhamento para servico habilitado a lidar com o caso (11).

O instrumento CRAFFT (acronimo de Car; Relax; Alone; Forget; Family/Friends; Trouble) tem sido internacionalmente recomendado para rastreamento de uso de SPA nessa populacao (12). Este instrumento ja foi traduzido para diversos paises (14-19) e tem sido considerado de facil aplicacao e boa capacidade psicometrica.

Em recente revisao sistematica da Cochrane (20) sobre a validacao e a confiabilidade da escala CRAFFT foram encontrados 17 estudos, realizados em adolescentes na populacao geral (21), em alistamento militar (16), ambiente hospitalar (12), na atencao primaria a saude (11,19), servicos de emergencia (20) e clinicas de doencas sexualmente transmissiveis (20). O CRAFFT foi considerado um bom instrumento de triagem de uso, abuso e dependencia de SPA (20).

Em estudos recentes (22,23), o CRAFFT foi apontado como o instrumento de triagem com melhor desempenho para identificar uso de SPA entre gestantes jovens e adolescentes vitimas de trauma.

Estudo de revisao apontou que o CRAFFT apresenta os dados mais consistentes de embasamento para sua utilizacao na atencao primaria a saude (24). A sensibilidade e muito superior ao CAGE, o qual nao e recomendado para uso em adolescentes, e e similar a escalas mais extensas tais como AUDIT e POSIT (25,26). Apesar de ter sido comparado com as escalas citadas (25,26), o CRAFFT ainda nao foi comparado a outros instrumentos ja validados no Brasil, tais como o DUSI (27).

Estudos apontaram que entre os diversos instrumentos utilizados para triagem do uso de SPA licitas e ilicitas entre adolescentes (28-30) o CRAFFT destaca-se como uma boa alternativa para esse fim devido a sua brevidade, boa sensibilidade, ausencia de custo e da necessidade de treinamento previo, assim como pelas diversas possibilidades de aplicacao (computadorizado, aplicacao por profissional da saude e autoaplicacao) (20).

Os objetivos deste estudo sao: avaliar uma versao brasileira da escala CRAFFT/CESARE para o Brasil, analisar sua compreensibilidade e as diferencas psicometricas com os diversos pontos de corte atraves da aplicacao em uma amostra ampla de adolescentes estudantes. Embora este instrumento tenha sido utilizado em outros paises da America do Sul (15,26), trata-se do primeiro estudo nacional utilizando-o (31). Existe apenas a descricao do instrumento CRAFFT em um livro nacional (32).

Metodo

Estudo descritivo, quantitativo e transversal, que avaliou uma versao em portugues proposta pelos autores (31) da escala CRAFFT, aqui denominada como CRAFT/CESARE, e aferiu a sua aplicabilidade em adolescentes. A populacao foi definida atraves de amostra de conveniencia. Os criterios de inclusao foram: ter idade entre 14 e 21 anos, ambos os sexos, regularmente matriculados no Ensino Medio de duas escolas publicas tecnicas do interior do Estado de Sao Paulo, no ano de 2011, possuir compreensao da lingua portuguesa, estar presente na sala de aula no momento da aplicacao, ter o consentimento dos pais atraves da assinatura do TCLE e ter lido, concordado e assinado o TCLE. O criterio de exclusao foi a ausencia na sala de aula no momento da aplicacao.

Os instrumentos utilizados foram o questionario CRAFFT (12)/CESARE (32) e o questionario do VI Levantamento Nacional sobre o consumo de drogas psicotropicas entre estudantes do ensino fundamental e medio das redes publica e privada de ensino nas 27 capitais brasileiras-2010 (4).

O questionario CRAFFT e composto de 3 perguntas de filtro sobre uso de bebidas alcoolicas, maconha ou outra droga (Parte A) e seis perguntas adicionais acerca de contexto e consequencias relacionadas ao uso de SPA (Parte B). Cada resposta afirmativa na Parte B equivale a um ponto e o ponto de corte recomendado e a pontuacao igual ou superior a 2 (12).

O numero de respostas positivas estima nao apenas a presenca do uso como tambem a magnitude do risco de problemas associados a esse uso. Trata-se de um instrumento de avalicao do risco do uso de SPA e dos problemas associados, apesar de nao ser uma ferramenta diagnostica, pode nortear os profissionais de saude para o manejo clinico, ja que anexado ao instrumento existe um grafico para auxilio do profissional que relaciona o numero de respostas positivas a probabilidade do uso atual ser considerado abuso ou dependencia (12). A consistencia interna da escala, aferida atraves do alpha de Cronbach, variou de 0.65 a 0,78 a depender da populacao estudada (20).

A versao brasileira foi obtida atraves de um consenso entre o autor do instrumento, que enviou uma escala ja traduzida para o portugues, e os autores deste artigo que adaptaram as perguntas para o contexto brasileiro e utilizaram a versao final para execucao da pesquisa (31).

O questionario do VI Levantamento Nacional sobre o consumo de drogas psicotropicas entre estudantes do ensino fundamental e medio das redes publica e privada de ensino nas 27 capitais brasileiras-2010 (4) e um questionario fechado, de autopreenchimento e sem identificacao pessoal do aluno, adaptado de instrumento proposto pela OMS (Organizacao Mundial da Saude). No Brasil, foi adaptado por Carlini-Cotrim et al. (33) e ja utilizado em seis levantamentos nacionais feitos pelo CEBRID. A escolha como instrumento comparativo foi pautada no fato de ser um instrumento validado nacionalmente, que tambem analisa o uso nos ultimos 12 meses e por ser de autoaplicacao, assim como o CRAFFT/CESARE. Este instrumento foi aplicado em uma subamostra (28%) escolhida aleatoriamente entre os estudantes participantes, logo em seguida a aplicacao do questionario CRAFFT/CESARE.

As etapas para o acesso a escala e adaptacao cultural foram divididos em tres fases:

Fase 1:

Contato com a equipe do autor da escala, que nos enviou uma versao em portugues. Apos o recebimento da versao inicial, houve discussao do conteudo com profissionais experientes no atendimento de adolescentes usuarios de SPA e a partir disto foram solicitadas as seguintes adaptacoes com a intencao de facilitar o entendimento e a autoaplicacao: troca do termo "marijuana" por maconha; inclusao do termo "chapado"; autoaplicacao para avaliacao da compreensao e inclusao de perguntas de fechamento para esta finalidade.

Os autores enviaram uma versao para autoaplicacao do CRAFFT/CESARE. A versao final da escala contemplou as sugestoes e alteracoes propostas.

Fase 2:

Contato com as escolas apresentando o projeto, informando os objetivos da pesquisa e solicitando a aplicacao em seus alunos.

A autoaplicacao das escalas foi realizada individualmente em outubro de 2011 em ambos os colegios no periodo matutino, vespertino e noturno, em sala de aula apos explicacao dos objetivos do trabalho e preenchimento do TCLE.

Fase 3:

Foram selecionadas as questoes do CEBRID que mais se aproximavam daquelas do questionario CRAFFT/CESARE. No entanto, para a pergunta B3 (Sua familia ou AMIGOS ja lhe disseram que voce devia parar de beber ou usar menos droga?) nao houve qualquer possibilidade de aproximacao com alguma questao do questionario CEBRID.

O CEBRID foi considerado positivo caso houvesse uma resposta afirmativa na primeira parte e duas ou mais respostas afirmativas selecionadas para esse fim na segunda parte.

Os dados obtidos a partir dos questionarios foram inseridos no programa SPSS 11.5 para Windows. A analise dos dados forneceu uma descricao sobre a compreensibilidade da versao do instrumento nesta populacao e a sua correlacao com o instrumento comparativo. Foram avaliadas as taxas de respostas positivas que indicam a probabilidade de uso de risco de SPA. Para avaliar a relacao entre as variaveis categoricas foi utilizado o teste Qui-quadrado, e o coeficiente Kappa foi aplicado como medida de concordancia entre os questionarios. Para avaliar as diferencas psicometricas com diferentes pontos de corte foi utilizada a curva ROC.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da FCM-UNICAMP.

Resultados

A versao final da escala CRAFFT/CESARE utilizada encontra-se na Figura 1.

A escala CRAFFT/CESARE foi aplicada em 2005 alunos. Destes, 1882 (93,9%) estavam dentro da faixa etaria de inclusao (14 a 21 anos). A idade media foi 16,7 anos; 57,2% dos alunos eram do sexo masculino; 47% estudavam no periodo matutino e 41% no periodo noturno.

Alguns alunos (2,7%, n = 54) se recusarem a participar da pesquisa. A maioria destes alunos (n = 34) nao justificou a razao da recusa; 20 alunos informaram porque nao quiseram participar (Quadro 1).

[FIGURE 1 OMITTED]

Apenas 2,2% dos estudantes informaram ter tido alguma dificuldade na compreensao do questionario. Uma pequena parcela de entrevistados (35 alunos) fizeram comentarios e sugestoes.

A Tabela 1 aponta os comentarios e sugestoes feitas pelos alunos.

Utilizando o ponto de corte estabelecido para a escala (ao menos uma resposta positiva na Parte A e 2 ou mais respostas positivas na Parte B) o CRAFFT/CESARE foi positivo em 682 alunos, ou seja, 36,2% dos alunos apresentaram risco de ter problema relacionado ao uso de SPA.

O instrumento comparativo (questionario do CEBRID) foi aplicado em 543 alunos (28,8%) da mesma faixa etaria.

O instrumento comparativo foi positivo em 21,4% dos 543 alunos.

A especificidade da escala CRAFFT/CESARE foi de 73,3% e a sensibilidade 87,1% (Tabela 2). A analise de concordancia da escala CRAFFT/ CESARE com as perguntas escolhidas do Questionario do CEBRID apontou bom grau de concordancia (Kappa 0,461).

Ao utilizar os demais pontos de corte (1, 3 e 4), foi observado respectivamente, especificidade de 92% e sensibilidade de 48,3% (Kappa 0,439); especificidade de 52,9% e sensibilidade de 91,4% (Kappa 0,277); especificidade de 2,8% e sensibilidade de 99,1% (0,008).

Ao utilizar diferentes pontos de corte na Parte B, foi observado que com aquele igual a 3, 30,5% dos estudantes apresentaram maior risco de ter qualquer problema relacionado ao uso, abuso e dependencia de SPA; para o correspondente a 4 (ao menos uma resposta positiva na Parte A e quatro respostas afirmativas na Parte B), 20,2% foram positivos. O ponto de corte 5 contou com 10,3% dos alunos e o correspondente a 6 apontou para 5,3% de alunos com grande risco de dependencia quimica.

A inspecao visual da curva ROC (Figura 2) revelou que o melhor ponto de corte foi maior ou igual a 2, tendo como produto a melhor relacao entre sensibilidade e especificidade.

Discussao

O questionario CRAFFT/CESARE tem sido utilizado em diversas culturas e paises como, por exemplo, EUA (12,21), Canada, Franca (18), Suica (19), Alemanha (17), Singapura (16), Noruega (14) e Colombia (15). O presente estudo corrobora a utilizacao do CRAFFT/CESARE como uma possibilidade de instrumento de triagem de uso de SPA por adolescentes em funcao de sua agilidade na aplicacao, boa compreensibilidade e capacidade psicometrica.

O questionario e breve, de simples pontuacao, pode ser autoaplicavel ou aplicado por profissional na atencao basica de saude. Nao e necessario qualquer tipo de treinamento para utiliza-la (15). Diferentemente de outros instrumentos de triagem de uso de SPA por adolescentes, o CRAFFT/CESARE aborda questoes referentes ao uso de substancias licitas e ilicitas (12), alem de incluir uma questao sobre transito e embriaguez (12).

A autoaplicacao do questionario possibilitou uma avaliacao da compreensibilidade do instrumento, havendo uma taxa muito pequena (2,2%) de estudantes que apontou dificuldades com o instrumento.

A maior parte dos comentarios feitos refere-se a aspectos amplos sobre o tema, como, por exemplo, "perguntas constrangedoras" e "melhor definicao do que e droga". Alguns estudantes fizeram sugestoes tais como nao englobar alcool e demais SPA nas mesmas questoes (Parte B), propor que todos respondessem sobre usar sozinho e definir melhor a quantidade de alcool.

A critica sobre englobamento de todas as SPA na mesma questao pode refletir uma percepcao dos adolescentes de que o alcool nao e uma substancia potencialmente nociva a saude, sendo ate mesmo nao classificado como droga por adolescentes em estudo recente (34). Outro estudo nacional apontou que a percepcao que o adolescente tem sobre as consequencias nocivas do uso de alcool nao acompanha a hierarquia dos prejuizos considerados mais graves (35).

Cabe ressaltar que embora interessantes, as sugestoes dos estudantes foram em numero muito pequeno e em alguns casos fugindo ao escopo de um instrumento de triagem, portanto, consideramos nao haver justificava para alterar a escala proposta pelo autor, ja consagrada em diversos estudos (12,14-17,20). Uma possivel alteracao da versao original modificaria, provavelmente a sua capacidade psicometrica, sugerimos que outros estudos possam avaliar a relevancia de testar a separacao das perguntas.

Embora o uso de tabaco seja epidemiologica e clinicamente relevante entre adolescentes (3,4), e importante destacar que neste uso nao foi avaliado posto que o instrumento utilizado nao possui questoes especificas para esse fim. Apesar disso, vale salientar que o tabagismo deve ser valorizado nos atendimentos envolvendo essa populacao (13).

Em relacao a confiabilidade, os estudos sinalizaram que a consistencia interna (alfa de Cronbach) do instrumento foi moderada a alta. A confiabilidade encontrada neste estudo foi considerada boa, embora levemente inferior a encontrada por Levy et al. (7) (Kappa: 0.66-1.0), provavelmente em decorrencia do instrumento comparativo utilizado nesta pesquisa.

No presente estudo, a porcentagem de alunos com CRAFFT/CESARE positivo foi de 36,2%. Isto indica que mais de um terco dos participantes nao so utilizaram alcool e/ou demais SPA no ultimo ano, como tambem vivenciaram algum tipo de consequencia em decorrencia de tal uso, como dirigir ou andar de carro com alguem sob efeito do alcool e/ou esquecimento e/ou percepcao familiar/amigos de uso exagerado e/ou uso para relaxar e/ou encrencas. Outros estudos de validacao e adaptacao cultural da escala CRAFFT que utilizaram o ponto de corte de duas ou mais respostas afirmativas, apontaram diversos indices de triagem positiva na populacao de adolescentes. Na Noruega o questionario foi positivo em 21,2% da amostra de adolescentes (14), na Colombia foi positivo em 49,6% dos adolescentes (15), na Argentina foi positivo em 29% dos adolescentes (26), na Alemanha foi positivo em 63,6% dos adolescentes (17), nos EUA 25% (12), 14,8%, 29,5%, 24,2% (11) e 33% (20) dos participantes pontuaram positivamente dependendo da populacao estudada (adolescentes internados, estudantes, ambiente rural).

Os dados apresentados no presente estudo (36,2% dos alunos utilizaram SPA no ultimo e vivenciaram consequencias associadas a esse uso) sao compativeis com os dados nacionais para estudantes nesta faixa etaria. Resultados do VI Levantamento Nacional entre estudantes apontam que o uso no ano de alcool foi referido por 42,4% dos adolescentes e 10,6% utilizaram outra SPA, excetuando-se o alcool e o tabaco (4). Em relacao aos estudantes de escola publica o uso no ano de qualquer SPA, excluindo o alcool e tabaco, foi de 9,9% e o uso no ano de alcool foi de 41,1%. Pesquisa realizada em estudantes brasileiros de 14 a 19 anos sinalizou que 51,2% dos participantes usaram alcool nos ultimos 12 meses, 11,3% preencheram criterio para abuso ou dependencia e 5,4% beberam em padrao de binge ao menos uma vez na semana. Em relacao as SPA ilicitas, 3% relataram o uso no ano (36). Outro estudo nacional observou que 35% dos adolescentes brasileiros consomem alcool ao menos uma vez por ano (1).

Em estudo realizado em 2009, foi observado que com ponto de corte maior ou igual a 3, a sensibilidade foi de 82% e a especificidade de 78% (20). Em Singapura foi utilizado o ponto de corte maior ou igual a 1 com sensibilidade de 78% e especificidade de 76% (16). Em geral, os pontos de corte estudados variam de 1 a 4 a depender da populacao avaliada (20). Muito embora, a recomendacao permaneca sendo o ponto de corte igual ou maior a 2. Na America do Sul, foi observada uma sensibilidade que variou de 95% a 59% e especificidade de 83% a 88% para o ponto de corte maior ou igual a 2 na Colombia (15) e Argentina (26), respectivamente. Nesse sentido, estudo realizado na Noruega concluiu que uma pontuacao igual a uma reposta positiva e suficiente para uma investigacao mais aprofundada, ja para fins de pesquisa o ponto de corte igual ou superior a 2 e preferivel (14).

Em nosso estudo confirmou-se que a pontuacao igual ou maior a 2 e o ponto de corte com melhor razao entre sensibilidade e especificidade

Algumas limitacoes merecem ser mencionadas. Os estudantes participantes da pesquisa eram alunos em colegio tecnico publico em que existe uma selecao atraves de prova para os ingressantes, o que pode limitar a extrapolacao dos dados para a populacao geral de adolescentes. O simples vies de o adolescente estar frequentando uma escola pode afetar a representatividade da populacao estudada, problema tambem enfrentado por estudos de adaptacao da escala CRAFFT em outros paises (14). Entretanto, nao ha razao para acreditar que a validade e funcionalidade da escala seja alterada de acordo com o grupo estudado, ja que o questionario foi especificamente desenhado para identificar os adolescentes de risco nos servicos de atencao primaria e cumpriu seu papel adequadamente nesse contexto (20).

A correlacao entre as questoes do CRAFFT/ CESARE e do instrumento utilizado no Levantamento do CEBRID, particularmente na Parte B, permitiu apenas uma aproximacao, visto que poucas questoes tiveram correspondencia suficiente e uma delas nao teve qualquer possibilidade de aproximacao, fato que pode ter influenciado, negativamente, no grau de concordancia entre as escalas.

A despeito das limitacoes apontadas, o presente estudo indica que a versao brasileira do questionario CRAFFT/CESARE foi bem compreendida pela populacao estudada, possui propriedades psicometricas adequadas e caracteristicas que viabilizam sua utilizacao dentro do contexto sociocultural brasileiro. Sua rapida aplicacao (em torno de 2 minutos) e a possibilidade de emprego em diferentes formatos (autoaplicacao, entrevista, computadorizada) (14,15), tornam-na uma ferramenta util na avaliacao do uso de substancias psicoativas em adolescentes.

DOI: 10.1590/1413-81232015211.05192015

Colaboradores

BAAX Pereira contribuiu para a concepcao e planejamento do artigo. Realizou a coleta de dados e criacao de banco de dados. Participou ativamente na interpretacao dos dados, na elaboracao do artigo e na analise do conteudo. PCF Schram contribuiu no processo de traducao e retrotraducao da escala CRAFFT/CESARE e participou ativamente na analise critica do conteudo do artigo. RCS Azevedo contribuiu para a concepcao e planejamento do artigo. Desempenhou importante papel na interface com as escolas, viabilizou a coleta de dados e a criacao de banco de dados. Participou ativamente na interpretacao dos dados, na elaboracao do artigo e na analise do conteudo.

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Artigo apresentado em 21/09/2014

Aprovado em 16/06/2015

Versao final apresentada em 18/06/2015

Bruna Antunes de Aguiar Ximenes Pereira [1]

Patricia Franco Cintra Schram [2]

Renata Cruz Soares de Azevedo [1]

[1] Departamento de Psicologia Medica e Psiquiatria, Faculdade de Ciencias Medicas, Universidade Estadual de Campinas. Cidade Universitaria Zeferino Vaz, Cidade Universitaria. 13081-970 Campinas SP Brasil. bruna.aax.p@gmail.com

[2] Division of Developmental Medicine, Boston Children's Hospital, Escola de Medicina de Harvard.
Tabela 1. Comentarios e sugestoes feitas pelos alunos (N = 35).

Tipo                                                   N      %

Questoes pouco especificas                            10   27,5
Critica sobre a mesma questao do CRAFFT/              10   27,5
  CESARE abordar alcool e outras SPA
Perguntar o que influenciou o uso de SPA               2    6,0
Perguntas "constrangedoras"                            1    3,0
Questoes pouco elaboradas                              1    3,0
Generalizacao da questao B1                            1    3,0
Reformulacao da questao B3 para que todos              1    3,0
  respondessem
Questao B6 muito subjetiva                             1    3,0
Questoes pouco claras                                  1    3,0
Melhor definicao do que e considerado droga            1    3,0
Perguntas obvias e que nao consideram o                1    3,0
  aspecto social da pessoa
Perguntar sobre quantidade no caso de uso de alcool    1    3,0
Perguntar com periodo maior que 12 meses               1    3,0
Perguntar sobre frequencia do uso de SPA               1    3,0
Perguntar Parte B apenas se a pessoa fez uso de SPA    1    3,0
Colocar as observacoes da Parte A embaixo              1    3,0
Total                                                 35   100%

Tabela 2. CRAFFT/CESARE positivo e CEBRID.

                            CEBRID positivo

                           Nao     Sim   Total

CRAFFT/CESARE positivo
  Nao
    Soma                   313      15     328
    %CRAFFT positivo     95,4%    4,6%    100%
    %CEBRID positivo     73,3%   12,9%   60,4%
    %Total               57,6%    2,8%   60,4%
  Sim
    Soma                   114     101     215
    %CRAFFT positivo     53,0%   47,0%    100%
    %CEBRID positivo     26,7%   87,1%   39,6%
    %Total               21,0%   18,6%   39,6%
  Total
    Soma                   427     116     543
    %CRAFFT positivo     78,6%   21,4%    100%
    %CEBRID positivo      100%    100%    100%
    %Total               78,6%   21,4%    100%

Quadro 1. Justificativas de recusa de participacao pelos alunos.

"Falta de interesse sobre o tema" (n = 4)

"Porque nao estava afim" (n = 3)

"Nao acho necessario fazer" (n = 3)

"Nao quero fazer" (n = 2)

"Quero manter minha privacidade" (n = 3)

"Nao senti vontade em fazer, pois daria zero de qualquer maneira"
(n = 1)

"Eu nao respondi porque sei que nao vou fumar/beber" (n = 1)

"Nao acredito no resultado desses tipos de testes" (n = 1)

"Nao percebi utilidade do questionario" (n = 1)

"Acho que a pesquisa nao levantara dados muito relevantes, ja que,
na minha opiniao, a maioria das pessoas (principalmente os menores
de idade) que ja tiveram ou tem contato com essas substancias irao
mentir" (n = 1)

Figura 2. Curva ROC para o CRAFFT/CESARE.

Area sob a curva ROC =0,802

Resultado   Sensibilidade   Especificidade

1,5             0.93             0.49
2,5 *           0.77             0.69
3,5             0.51             0.85
4,5             0.27             0.96
5,5             0.06             0.99
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Title Annotation:texto en portugues; CRAFFT; Car; Relax; Alone; Forget; Family/Friends; Trouble
Author:Pereira, Bruna Antunes de Aguiar Ximenes; Schram, Patricia Franco Cintra; de Azevedo, Renata Cruz So
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Jan 1, 2016
Words:5037
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