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Europeization: Progress and Brazilian education/Europeizacao: progresso e educacao brasileira.

Introducao

Uma analise inicial e relevante sobre qual significado e quais sao as significancias do termo "progresso" nao e suficiente se abranger apenas o alvorecer do seculo XXI; ao contrario, necessita considerar tambem as mais diversas e graves parcelas da historia humana dos seculos XIX e XX. Existiu desde sempre um padrao ou o termo foi se transmutando ao longo dos anseios das diversas sociedades? Existe uma relacao do termo "progresso" com as capacidades e habilidades humanas de compreensao e conhecimento segundo o seu tempo? Existe uma fronteira, mesmo que tenue, entre "progresso humano" e "progresso tecnologico?". Enfim, existe realmente uma historia da ideia de progresso?

Provido de uma aparencia aparentemente inabalavel, o termo "progresso"tomou ao longo dos anos dessemelhantes sentidos conceituais ate seu estancamento classico observado no Positivismo forjado por Saint-Simon e Comte na Europa da metade do seculo XIX e XX. Uma de suas principais idealizacoes encontrava seu espaco de atuacao no campo educacional. A Ciencia da Educacao, para Comte, deveria abarcar os conhecimentos positivos de forma empirista, em que a organizacao do curriculo escolar se daria por faixas etarias e a familia seria fundamental nesse processo--parte sensivel dos itens concebidos por Comte e perceptivel na concepcao que orientou a propria formacao da educacao brasileira.

Os trilhos deixados pelas acoes do Apostolado Positivista no Brasil entre 1870 e 1930 visavam estabelecer a ordem num pais onde, segundo os proprios positivistas, encontrava-se em situacao de transtorno no final do periodo monarquico. Situacao simil acontecia na Europa de Saint-Simon e Comte. Para ambos, o desalinho europeu precisava de solucoes urgentes que trariam a ordem e, consequentemente, o "progresso". A educacao era, entao, o principal alicerce para se alcancar o tao almejado progresso.

De todo modo, as significancias do termo "progresso" foram se alterando ao longo dos seculos e em diferentes areas do conhecimento. Portanto, torna-se necessario delinear os caminhos e descaminhos que o referido termo tomou entre os seculos XVIII, XIX e XX, inclusive sua cristalizacao classica idealizada pelos positivistas tradicionais. Nesse sentido, o presente artigo pretende tracar o caminho da evolucao conceitual que a propria nocao de "progresso" teve ao longo da historia do pensamento ocidental, buscando compreender como ela reverbera na constituicao da instituicao educacional no Pais, em que pese a influencia significativa que exercida pela escola positivista sobre a referida ideia. Na sequencia, a fim de estabelecer uma reflexao conceitual de como a ideia de "progresso"penetra de maneira obliqua no universo do pensamento positivista, utiliza-se da discussao que Adorno (1985, 1992) empreende sobre o tema.

Procedimentos Metodologicos

A metodologia que embasou o desenvolvimento do artigo foi de natureza exploratoria com abordagem qualitativa, organizada a partir de um levantamento bibliografico que visou compreender, em suas linhas gerais, a construcao do conceito de "progresso"ao longo da historia recente do pensamento ocidental e a maneira como o mencionado conceito se refletiu de maneira substantiva na formacao do pensamento positivista--pensamento este que foi extremamente influente na composicao da educacao no Brasil.

Para tanto, em um primeiro momento, ha uma apreciacao das descricoes historicas da evolucao da nocao de "progresso" contida na obra de Robert Nisbe, sociologo americano que desenvolveu uma obra dedicada exatamente a esse tema. Na sequencia, sao apontadas as definicoes de progresso trazidas pelos dicionarios de Ciencia Politica e de Sociologia, com o intuito de cristalizar quais sao as perspectivas canonicas atribuidas ao termo nessas disciplinas. A fim de apontar as contradicoes que podem ser identificadas em tais definicoes, havera uma aproximacao do pensamento de Gilberto Dupas, autor que busca diferenciar as nocoes de progresso tecnico, visto por ele como indissociavel da logica totalizante do aumento da producao e da distribuicao de mercadorias pela logica capitalista e progresso humano.

Em seguida, procede-se a uma analise geral sobre a constituicao da escola de pensamento positivista a partir de uma averiguacao das ideias de seus principais pensadores: Nicolas de Condercet, Claude Henri de Saint-Simon e Augusto Comte. Ha continuidades e rupturas no que se refere ao pensamento dos dois primeiros e do ultimo, autor cuja abordagem e mais relevante para o estudo em questao. Apos o exame das diferentes concepcoes, analisa-se de maneira mais detida o pensamento comteano no tocante a triparticao evolutiva entre o pensamento teologico, metafisico e positivo, e no que diz respeito ao papel essencial que a educacao deveria desempenhar na solidificacao do pensamento positivo ou cientifico.

Com o objetivo de compreender a influencia que a escola de pensamento positivista desempenhou no Brasil, na sequencia discute-se como a queda do regime monarquico permitiu que a sociedade brasileira passasse a ser vista como caotica e desestruturada por uma camada crescente de individuos com acesso ao pensamento que se desenvolvia no velho continente. Inclusive, esse ambiente foi extremamente fertil para a insercao do positivismo no Brasil. Afinal, compreender e combater a desestruturacao social foi um objetivo primordial para a proxima constituicao da Sociologia enquanto ciencia, de forma geral, e para o pensamento positivista, em particular, segundo o qual a educacao seria o caminho mais adequado para tanto. Nesse sentido, busca-se apontar como a ascendencia positivista na educacao Nacional trouxe uma serie de tendencias educacionais que seriam implantadas no momento da popularizacao da escolarizacao no Pais. Essas tendencias tinham acentuado carater tecnicista e produtivista, o que, por sua vez, esta amplamente associado a ideia de progresso segundo a otica positivista.

Finalmente, com o intuito de arrematar a analise teorica acerca da nocao de "progresso" e suas reverberacoes conceituais, procede-se a analise do trabalho de Adorno, filosofo e sociologo alemao, expoente da Escola de Frankfurt na primeira metade do seculo XX, que aborda exatamente esse tema, mas de acordo com uma perspectiva dialetica. Segundo Adorno (1995), e possivel historicizar a diferenciacao entre progresso tecnico e progresso humano e melhor contextualizar as relacoes sociais de poder que se articulam de maneira determinante na propria composicao da ideia de progresso segundo o Positivismo--corrente de pensamento que exerceu influencia muito representativa no pensamento nacional e na propria concretizacao de um projeto de educacao para o Brasil.

A nocao de progresso e suas contradicoes

O ideario da Igreja Positivista trazia consigo um arcabouco de forte influencia europeia, em especial dos positivistas europeus, e encontrou na crise de fins do periodo monarquico o forame para que as propostas da Igreja Positivista no Brasil fossem apreciadas e inseridas em varios setores da sociedade, sobretudo o da educacao. Um traco particularmente representativo de tal ideario e a nocao de "progresso" e a maneira como ela se constituiu como uma perspectiva basilar do proprio Positivismo. Para compreender melhor como essa situacao se materializou de fato, e mister que sejam feitas aproximacoes das definicoes classicas que se atribui ao "progresso" enquanto elemento chave da modernidade e da modernizacao da vida humana, alem das contradicoes que essas definicoes inserem.

Nisbet (1985, p.16) preconiza historicamente o termo ao destacar que "nenhuma ideia por si so, foi mais importante, ou talvez tao importante quanto a ideia de progresso na civilizacao ocidental, durante quase tres mil anos". E evidente que outros conceitos e outras idealizacoes tambem foram basilares no conduto do pensamento das civilizacoes, porem a concepcao de sintese do passado e impulso do presente como profecia do futuro funciona nao apenas como uma contemplacao do transcurso da historia em si, mas como uma tendencia influente que nela se enraiza.

O atual sistema capitalista hegemonico vigente, aliado a um saber cientifico conciliado a tecnica, parece nao ter um fim no horizonte da ciencia e, ao mesmo tempo, parece nao parar de transformar o estilo de vida dos homens. O cientista social Gilberto Dupas (Dupas, 2006, p.11) suspeita de tal desenvolvimento incondicional quando diz que "[...] esse modelo vencedor exibe fissuras e fraturas; percebe-se, cada vez com mais clareza e perplexidade, que suas construcoes sao revogaveis e que seus efeitos podem ser muito perversos".

Se, de um lado, admite-se a sensacao (alimentada pela midia, pelas nacoes e fomentada pelas massas) de que nada mais e impossivel, de que o culto desse otimismo parece algo possivel, de outro Balandier (1999, p.8) aponta "um medo crescente e o claro sentimento de impotencia diante dos impasses, dos riscos, da instabilidade dos sinais que orientam os percursos da vida e da precariedade das conquistas".

Na busca de definicoes e interpretacoes que conceituem o termo "progresso" e imprescindivel relatar o que os dicionarios especializados mais notorios indicam. O "Dicionario de Sociologia"de Boudon et al. (1990, p.25) afirma que: "A nocao de progresso implica que a historia tem um sentido e que esse sentido e linear, continuo, que vai da noite para o dia, da indigencia para a abundancia, da selvajaria para a civilizacao, em suma, vai em direcao ao Verdadeiro e ao Bem confundidos num so objetivo".

O "Dicionario de Politica", segundo Bobbio, Mateucci e Pasquino (1998, p.1009), afirma que:
   A ideia de progresso pode ser definida como ideia de que o curso
   das coisas, especialmente da civilizacao, conta desde o inicio com
   um gradual crescimento do bem-estar ou da felicidade, com uma
   melhora do individuo e da humanidade, constituindo um movimento em
   direcao a um objetivo desejavel. A ideia de um universo em perpetuo
   fluxo nao basta, pois, para formar a ideia de progresso; e
   necessaria tambem uma finalidade, um objetivo ultimo do movimento.
   E na concretizacao deste objetivo na historia que se acha a medida
   do progresso. E por isso que se fala de 'fe no progresso'.


Para ambos, o significado de "progresso" e algo de fluxo interminavel, uma nocao de transicao rumo a algo sempre melhor, mais definido e mais organizado. Porem, o termo parece ambiguo, sem arestas que o amparem ou que deem um real sentido a palavra em sua conjuntura atual ou historica.

Nisbet (1985) percorre o mesmo caminho elucidativo da palavra, mas se preocupa com a associacao do termo a fenomenos de contingencias e eventualidades ao afirmar que "a ideia nao deve ser concebida como sendo relacionada com um mero acidente ou um capricho; ela deve ser concebida como constituindo uma parte do verdadeiro esquema das coisas no universo e na sociedade" (Nisbet, 1985, p.17). Sua concepcao assume um transcorrer linear dos eventos nos quais o "avanco do inferior para o superior deve parecer tao real e certo como qualquer outro aspecto das leis da natureza"(Nisbet, 1985, p.17).

O intermedio entre as duas grandes guerras mundiais do seculo XX pontua uma mudanca radical na cultura contemporanea e no dominio da filosofia. O termo "progresso", entao, enfraquece-se, nao e mais compreendido, de forma geral, como um axioma. O providencialismo, antes encontrado em pensadores do seculo XIX, vai progressivamente dando lugar ao temor diante de um mundo fora do equilibrio e fora de controle. A reflexao benjaminiana considera que a historia em sua dual significancia, aparentemente paradoxal, e, na verdade, paralela: "Benjamin mantem distancia em relacao ao sociologismo de alguns autores marxistas e, de maneira paralela, coloca em questao a teoria socialdemocrata do progresso historico" (Gagnebin, 1993, p.53).

Tal dualismo visa enaltecer a unicidade de cada momento da historia humana e ao mesmo tempo compor uma critica ao historicismo--Filosofia da Historia mais atuante de sua epoca. Dupas (2006) evidencia sua analise tomando como argumento a ideia de progresso como mito restaurado na intencao de uma historia certeira, linear e com um fim glorioso. Para isso, o autor se orienta por elementos historicos, semanticas, interpretacoes e significados para desconstruir o discurso dominante do capital sobre a globalizacao associada a ideia de um progresso fatal.

Ao estabelecer uma ponte entre o ideario acerca de "progresso" e "neoliberalismo", ele "tentou ressuscitar o conceito de progresso associando-o a liberdade dos mercados globais e a um ciclo benevolo da logica do capital" (Dupas, 2006, p.90). A logica capitalista engendra-se como uma entidade sem patrias, mas ao mesmo tempo de todas elas. O progresso nao estende espacos, muito menos relacoes, ele se estreita numa fluidez de movimentos que sao contraditorios em sua essencia.

Exaustivamente propagandeando a nocao de melhorias, a progressao humana rumo a algo ainda nao tangivel ou suscetivel e capitaneada pelas melhorias e avancos do meio tecnico-cientifico, mas permanece incoerente, ditando a incongruencia da nova logica capitalista global, que e desigual e mostra sinais, sobretudo ambientais, de sobrecarga. O pensamento de Dupas estabelece o mito do progresso como um falso arcabouco ideologico disfarcado que oculta interesses meramente hegemonicos.

A ideia confortavel de progresso funciona como um recondito que torna difusa a percepcao das consequencias nefastas de um mundo em crise nas esferas economica, cientifica, medica e ambiental. De um pessimismo latente em sua perspectiva na atualidade e de uma visao nao mais esperancosa para a posteridade, o autor duvida da chegada de um sistema transformador.

A questao central e que lutar contra esse sistema, que bem ou mal mantem a maquina economica em movimento, e atacar os proprios principios do capitalismo em um momento em que nenhum outro sistema--ainda que sob a forma de utopia--aparece no horizonte como alternativa real (Dupas, 2006, p.143).

O destino certo e glorioso da humanidade parece ser fomentado pelo encantamento e consequente omissao das multidoes que pouco percebem--ou nao se fazem perceber--, as acoes e incessantes intromissoes provindas das criticas tecidas pelos setores eruditos. Rodeados pelas belezas tecnologicas e esteticas do mundo moderno, todos presenciam atonitos, atraves das incessantes propagandas, a sensacao de pequenez frente aos meios de comunicacao e transporte e a busca aparentemente inabalavel pelo prolongamento da vida e pelo conforto e praticidade que os modernos aparelhos nascidos da Terceira Revolucao Industrial oferecem.

Discursos e amostras parecem ilimitados e dao a nocao de algo linear, rumo a algo sempre melhor, mas para Dupas (2006, p.290) "a tentativa de compatibilizacao dos vetores tecnologicos decorrentes das opcoes do capital--visando o seu maximo retorno--, com as efetivas necessidades da civilizacao e um processo de avancos e retrocessos, de ganhos e perdas"

Como se observa, nao existe, entao, um consenso geral acerca do conceito do termo "progresso". A meta do progresso ou avanco como empreendimento da humanidade em sua essencia, se apartada da natureza do conhecimento, toma caminhos diferentes no curso da historia e do pensamento acerca da ideia de progresso. Esses caminhos formulados parecem ter uma relacao inversa entre si, ou seja, a conquista da perfeicao moral e da bem-aventuranca espiritual exige, como sua condicao, obter ou acrescer conhecimento. Porem, os dois percursos sao trilhados por distancias diferentes em velocidades diferentes. Salvo excecoes pontuais, o progresso tecnologico caminha regularmente no curso da historia como elemento propulsor de uma melhoria cientifica do bem-estar humano. O progresso humano traca rotas alternativas nessa trajetoria historica e seu fluxo nao e continuo; por vezes e circular e mais lento que seu progresso tecnologico.

O positivismo, o progresso e a educacao

O pensamento que permeou o seculo XIX nao foi guiado exclusivamente por transformacoes sociais e economicas. Nesse contexto, a Ciencia e a Filosofia devem ser encaradas como fontes esclarecedoras para a compreensao da conjuntura historica. Dentre os varios e diferentes segmentos filosoficos que a obra de Immanuel Kant deixou a interpretacao, o Positivismo desenvolve importantes reflexoes sobre as possibilidades e limites da razao. Admitindo apenas o que e factual, concreto, inquestionavel, que se fundamenta na experiencia, o positivismo influenciou de maneira significativa a sociedade nos seculos XIX e XX.

Conforme Rossi (2000) observa, a ideia moderna de progresso tomou a sua formatacao classica nos textos de Condorcet e de Turgot e, depois, nos de Saint-Simon e de Comte. A referida nocao consolidou-se na segunda metade do seculo XIX e se deparou com sua primeira crise entre as Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

O Positivismo herdou do Iluminismo o culto a ciencia, ao empirismo e a Razao, mas renunciou ao seu prisma negativista para que assim fomentasse o intuito de organizar a sociedade e dar fim as desigualdades e problemas sociais despontados a partir do cenario economico e industrial. O ideario positivista se atenta a historia como uma sobreposicao linear de eventos regidos por ideias. Nesse processo de supervalorizacao da ciencia--a ponto de transforma-la em algo proximo de um escopo de fe--, o Positivismo transfigurou o saber cientifico numa ideologia que poderia solucionar todos os problemas.

No bojo dos pensadores de tal segmento filosofico, o frances Augusto Comte e o mais notorio como precursor de tal corrente positivista. Mesmo nao sendo o fundador, nem do termo, nem das ideias positivistas (Nicolas de Condorcet (1666-1790) e Claude Henri de Saint-Simon (1760-1852) sao cronologicamente anteriores ao pensamento de Comte e tambem influencias do pensamento comteano), Comte esta intimamente ligado ao positivismo e desenvolveu contribuicoes para a reflexao social e politica ainda no seculo XIX, no seu curso de "Filosofia Positiva".

Mas foi Claude Henri de Saint-Simon (1760-1852) o precursor na utilizacao da etimologia positiva, determinando o positivismo tambem logico. Para ele, o raciocinio carece de uma base nos fatos observados e discutidos e, apesar da notabilidade de Augusto Comte em relacao a genese da Sociologia, a crenca no progresso e na ciencia e de suas atribuicoes em relacao a etimologia do Positivismo, foi Saint-Simon e nao Comte o pioneiro e responsavel por uma visao panoramica da historia e do progresso cientifico.

Nisbet (1985, p.257), orientando-se pelo pensamento de Saint-Simon, afirma que "cada nova ciencia deriva da anterior, sendo capaz de se tornar uma ciencia em sentido completo somente quando a anterior se tiver tornado definida e exata". Um entusiasta pela razao e ao mesmo tempo contrario as ideias de liberdade individual, igualdade e soberania popular, Saint-Simon acreditava que estes eram conflitantes com a reorganizacao cientifica da sociedade--fenomeno defendido posteriormente por pensadores positivistas no seculo XX. Algo de paradoxal reside no entusiasmo do filosofo e economista pela transformacao e sua admiracao pelo futuro secular ou pelo progresso, visto que existe uma forte parametrizacao conservadora em sua obra, a qual e reconhecida pelo proprio autor.

Havia na Franca contemporanea a Saint-Simon a pratica, entre os intelectuais, de dar um sentido, explicar, justificar ou ate mesmo extirpar a sensacao de desordem, alienacao e mal-estar que pensavam existir em toda a Europa do seculo XVI. Era necessario substituir a anarquia que estava em sua volta atraves da crenca num progresso cientifico outorgado as industrias e escolas cientificas que tinham a sacralizacao da ciencia como fundamento da ordem e uniao dos cidadaos. Nao haveria espaco para "liberdade de pensamento"numa sociedade que fosse conduzida por cientistas, industriais e todos que tivessem seu trabalho orientado para e a partir do conhecimento verdadeiro.

O Novo Cristianismo formulado por Saint-Simon pretendia a criacao de um parlamento constituido de tres casas: a "casa de invencao", constituida de cientistas, inventores, escultores, poetas, pintores e arquitetos, com a capacidade e autoridade para propor leis, tendo a disposicao de projetos referentes ao bem-estar do povo e devendo tomar as demais determinacoes vitais; a casa de "exame", constituida por fisicos, matematicos e pensadores em geral com predisposicao critica, que formariam esse segmento do parlamento com a intencao de averiguar a efetividade das leis e dos projetos da primeira casa; e a casa onde estariam os homens de negocio, banqueiros e responsaveis pelo setor industrial. Em tal segmento, a ocupacao principal seria executar as leis e projetos propostos na "casa de invencao".

Nessa elaborada e minuciosa teoria do desenvolvimento e progresso, Saint-Simon foi considerado utopico e fantasioso por marxistas e outras correntes. Foi na qualidade de revolucionario social ou de teorico do progresso necessario, desde o passado ate o presente, que Saint-Simon desenvolveu sua tese na crenca profetica de um progresso inexoravel--tao desenvolvida por teoricos posteriormente dentro da corrente positivista.

O progresso e fruto do paradigma positivista, que segundo Marcondes (1994), sob uma perspectiva platonica, concebe um paradigma como um padrao, uma referencia que toma um carater normativo em determinado periodo. Mas seu advento nao se da dentro dessa corrente filosofica que surgiu na Franca no comeco do seculo XIX.

Nisbet (1985) afirma que, no mundo classico grego e romano, a nocao de que a humanidade tem avancado vagarosa, gradual e continuamente no campo das artes, ciencias e de sua propria situacao na terra ja era percebida. E importante, no entanto, conceber o positivismo como o paradigma que se utiliza da nocao de progresso como essencia de sua perspectiva.

No seculo XIX, Comte padroniza o ideario positivista, nao apenas defendendo uma orientacao epistemologica, mas sobretudo apresentando um vies do pensamento e realizacao efetiva das transformacoes sociais. Rompendo precocemente com Saint-Simon, do qual foi colaborador, amigo e recebera profunda influencia, Comte traz consigo uma mudanca brusca em defesa do liberalismo politico e economico. Mas para Comte, o pensamento deveria ser apenas positivo: nao ha sentido em se pensar em nenhuma dimensao revolucionaria do positivismo.

De uma maneira geral, o pensamento comteano manifesta, como preocupacao basilar, uma filosofia da historia que seja alicercada no positivismo e nas tres fases da evolucao do pensamento, sendo eles o teologico, o metafisico e o positivo. Com a intencao de desobstruir o caminho da teoria social que encontra em sua frente a teologia e a metafisica, Comte forja o termo "espirito autentico" dentro do positivismo.

Existe em Comte, bem como em Saint-Simon, uma preocupacao com a "anarquia" visualizada por eles no panorama politico e social da Europa e do mundo entre os seculos XVIII e XIX. Sua fe messianica no progresso foi se alargando ao longo de sua vida. Nisbet (1985, p.260) concebe dois segmentos que convergem dentro no pensamento comteano: "o ponto comum dos dois Comtes e a fe no progresso--passado, presente e futuro".

O pensador aponta uma serie de acontecimentos no Ocidente como causa do que ele proprio chamou de "anarquia espiritual": a Reforma, o Iluminismo e, por ultimo, a Revolucao. Em sua obra "PhilosophiePositive", deixa claro que ja estava formulado o principio vital comteano--messianico e ate escatologico. Seu objetivo e, assim como o de Saint-Simon, demonstrar cronologicamente o inexoravel progresso que a mente humana tracou desde tempos mais remotos.

A diferenca entre os dois pensadores reside nas argumentacoes cientificas que Comte encontrou nos seus tres estagios: o teologico, o metafisico e, finalmente, o positivo ou cientifico. No plano teologico, todas as interpretacoes e explicacoes sao concluidas, organizadas ou articuladas tendo como padrao formulacoes divinas. No plano metafisico, as entidades espirituais ou sem fundamentacoes empiricas sao recursos as explicacoes formuladas. E, finalmente, no plano positivo ou cientifico--evolucao natural da mente humana--, as explicacoes tornam-se genuinamente cientificas, sao orientadas pelo estudo da natureza e pela descoberta de suas leis.

Dessa forma, a dinamica estabelecida por Comte funcionaria no intuito de fornecer a verdadeira teoria do "progresso" para uma pratica politica, enquanto a estatica "torna-se, para o positivismo, uma simples aplicacao do principio fundamental que por toda parte subordina o homem ao mundo"(Comte, 1978, p.206). Dentro da segunda esfera de estudos da Sociologia, aparece entao uma nocao chave: a da dinamica. Provindo da ordem, o "progresso" aperfeicoa os elementos perenes de qualquer sociedade: religiao, familia, posses, relacoes etc.

Comte disseminou a ideia de que nao existia uma nocao de progresso nos mundos classico e medieval. Seus apontamentos cronologicos dao credito a Turgot, Condorcet e alguns filosofos do Iluminismo por seus trabalhos que antecedem o que chama de dinamica social. Comte aponta a unificacao dos principios da ordem e do progresso em uma lei mestra como sendo seu mais importante esforco para a contribuicao do mundo do conhecimento e reorganizacao do Ocidente.

No conjunto de ideias relativas ao curso linear da historia e do homem,"progresso, desenvolvimento e evolucao tem os mesmos atributos para Comte. O melhoramento e inevitavel porque ele deriva do processo de desenvolvimento" (Nisbet, 1985, p.262). A teoria do movimento e, entao, subordinada a da existencia e constitui as transformacoes que regem a constante evolucao, configurando todo o "progresso" como o desenvolvimento da ordem. Anuncia-o "como destino necessario de toda nossa existencia, [...] sobretudo, de nossa natureza, enquanto comportar, em todas as esferas, o conjunto das leis reais exteriores ou interiores" (Comte, 1978, p.69).

Apresentando a mesma visao de continuidade essencial e plenitude que o pensamento europeu desde os gregos, a despeito de nao ter consciencia desse fato, Comte forneceu um numero consideravel de determinacoes e, posteriormente, apreciacoes sobre a teoria "positiva" da sociedade e de cada um de seus elementos--sempre com a perspectiva de um eterno melhoramento da sociedade. Nisbet (1985, p.263) analisa a obra de Comte como sendo utopica: "sao poucas as utopias descritas com tantos detalhes como a de Comte. Tudo e descrito, desde os ritos e cerimonias da Religiao da Humanidade [...] ate as vestimentas de cientistas e leigos".

Quando Comte apontou o "progresso" como linha motriz de todo o sistema positivista, ele esperava uma gradativa substituicao do universo catolico e messianico de sua epoca, "reconstruindo os esquemas de superioridade e de submissao, proporcionando assim ao individuo, um lar espiritual novo e sistematico, que venha a ocupar o lugar da santidade religiosa" (Nisbet, 1985, p.264).

Esse processo preciso e impreterivel do "progresso" humano compos toda a base filosofica do Positivismo comteano nao apenas em seu ideario, mas em praticas que foram estabelecidas para a reconfiguracao da Europa, que, aos olhos de Comte, atravessaria naturalmente esse processo.

Dentro dos criterios positivistas, a educacao foi tomada como atividade de interesse geral e urgente, tendo em vista a propagacao e estabelecimento da filosofia positiva. Comte ja admitia a educacao como um dos elementos chave que desprenderiam a Europa de um passado e presente "anarquico" e a aplicacao das ideias positivistas na mesma regeneraria nao so a educacao, mas, por consequencia, toda a sociedade europeia.

O designio maior era o de anular a influencia da Igreja Catolica nos estabelecimentos de educacao, lutar para o fomento do ensino leigo das ciencias e conduzi-lo de uma forma fragmentada. Iskandar e Leal (2002, p.3) apontam que caracteristicas concebidas na Europa dos seculos XIX e XX persistem ate os dias atuais, ao afirmar que "o curriculo multidisciplinar--fragmentado--, e fruto da influencia positivista [...]"

A classificacao das ciencias proposta por Comte tem reflexos na educacao em funcao da fragmentacao do conhecimento e da especializacao. Admitindo somente o que e real e inquestionavel, aquilo que se fundamenta na experiencia, a escola deveria dar valor maior ao que e clarividente, de utilidade atestada e de praticidade assegurada. Nesse sentido, ascendem, entao, as ciencias exatas e suas praticas pedagogicas. Essas praticas tinham como base a selecao, a observacao, a hierarquizacao, a verificacao e a previsao, tudo sob a aplicacao do metodo cientifico.

Comte (1978) acreditava que o estabelecimento de uma ordem cientifica e industrial norteada por uma educacao laica baseada no empirismo traria, por consequencia, o progresso da sociedade. Seu bordao elementar era o ja citado "a ordem por base, o amor por principio, o progresso por fim. O positivismo tende poderosamente [...] a consolidar a ordem publica, atraves do desenvolvimento de uma sabia resignacao" (Moraes Filho, 1983, p.31).

Preocupado com toda a estrutura e funcionamento tambem da familia positivista, Comte legitima a importancia desse grupo no contexto da educacao; a composicao familiar teria um papel estrategico nesse contexto, de forma que o autor valoriza "a educacao espontanea que se realiza no seio da familia" (Comte, 1978). Sob a tutela educacional da mae, a crianca receberia o que Comte chama de "Educacao Universal". O periodo de instrucao dirigido pela mae ocorrera ate o momento em que a crianca tiver recebido todo o "ensinamento universal" necessario. "Ate entao, deve ter-se vedado cuidadosamente a crianca todo estudo propriamente dito, ainda mesmo de leitura ou de escrita, salvo as aquisicoes verdadeiramente espontaneas" (Comte, 1978, p.510).

A elite cientifica comandaria essencialmente todo o conhecimento que seria transmitido a sociedade. Articulada pela familia, num primeiro momento, e posteriormente pelas instituicoes, a educacao passaria, entao, por verificacoes e avaliacoes, tanto dos metodos de ensino como do desempenho do aluno. Tambem iria se fundamentar na observacao dos fenomenos sociais por meio da experiencia e do empirismo.

Diante de um periodo da historia francesa e tambem europeia em que se alternavam regimes despoticos e revolucoes (sublevacao que levou nao so a um descontentamento geral com a politica como a uma crise dos valores tradicionais), Comte acreditava estoicamente na educacao como um dos pilares para o corpo teorico e pratico do positivismo. Isso colocaria a sociedade novamente no caminho do progresso (que provem da ordem) e realcaria os elementos perenes de qualquer estrutura social: familia, religiao, linguagem, propriedade, acordo entre poder espiritual e temporal etc.

Uma vez apresentadas as diferentes concepcoes que o termo "progresso" tomou ao longo da historia humana, a partir de seu conteudo sociologico e filosofico, mostrou-se que, de uma forma geral, o progresso serviu como peca fundamental na crenca de um porvir que supera o passado e o presente dos acontecimentos e acoes humanas. Nesse sentido, o pensamento positivista desempenha um papel extremamente representativo, e traz a ideia de que caberia a educacao alicercar a concatenacao do "progresso", elemento que seria fundamentado na propria nocao de ordem positiva que embasa essa escola de pensamento.

Os movimentos das reflexoes acerca do termo acompanham necessariamente os momentos historicos e politicos de uma nacao. E assim que surgem as ideologias no eterno jogo de formulacao de discursos que se colocam como universais, mas que ocultam as contradicoes e assumem o posto de outros discursos e ideologias. Sera visto, na sequencia, como isso tomou forma na insercao do pensamento positivista no Brasil e em suas influencias na educacao das pessoas.

O positivismo e a educacao no Brasil

No Brasil, a queda do Imperio se deu em meio as modificacoes intempestivas na economia e na sociedade que ocorreram em meados do seculo XIX. A oposicao de varios setores da sociedade a monarquia tornou possivel o brando golpe politico que estabeleceu a republica no Brasil. Os senhores de escravos ainda nao haviam se resignado frente a abolicao da escravidao, com nenhuma indenizacao do governo. O sentimento geral era de abandono pela monarquia, o que os levou entao a apoiar a causa republicana.

O Exercito Brasileiro comecou a adquirir mais importancia na sociedade nos tempos que antecedem a queda do Imperio, que continuava indiferente a instituicao militar. Somou-se a isso a punicao de importantes oficiais por atitudes de denuncia e manifestacoes contra corrupcao e escravatura, o que transformou o Exercito em mais um antagonista do regime monarquico.

A Igreja Catolica, por sua vez, foi perdendo progressivamente sua afinidade e sua identidade com o Imperio, principalmente por ser, no Brasil, uma instituicao submetida ao Estado, e nao ao Papa, pelo regime do padroado. A estrutura politica e administrativa tornou-se alvo de inumeras criticas, que passaram a florescer no decorrer do Segundo Reinado. Todas essas criticas apontavam a estrutura politica e administrativa do Imperio como grande culpada pela desorganizada e tumultuada situacao do Pais no momento.

Concomitante a isso, um novo ideario surge no afloramento do Brasil Republica: o positivismo de Augusto Comte, fundado sobre um embasamento de "progresso", democracia e pensamento liberal para a instalacao de um novo mundo: "so a filosofia positiva pode ser considerada a unica base solida da reorganizacao social, que deve terminar o estado de crise no qual se encontram, ha tanto tempo, as nacoes mais civilizadas" (Comte, 1978, p.39).

Esse posicionamento reacionario colocava a necessidade de reorganizar o Pais sob uma primazia politica e social que deveria combater essa desordem moral e mental dominante no fim do Brasil Imperio. Segundo os proprios pensadores que defendiam a causa, essa desordem so teria fim mediante uma doutrina religiosa universal, isto e, o positivismo, que deveria sobrelevar-se de forma unanime: "O progresso estava associado a ideia de ordem" (Lima, 2017, p.39).

Werneck Sodre (1966, p.271) descreve tal momento do Brasil no qual "[...] o regime deixava de atender as necessidades de parcelas importantes da sociedade, parcelas que tinham condicoes para expressar seu descontentamento". E nesse contexto--ortodoxos e heterodoxos buscando espacos de acao--que surge, em 1879 e, a partir da formacao da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro (SPRJ), a Igreja Positivista no Brasil. Entre os positivistas que se sobressairam no campo intelectual estao Teixeira Mendes, Miguel Lemos, Benjamin Constant e Pereira Barreto (Silva, 2016, p.59).

A Republica brasileira, que teve seus primordios no final do seculo XIX, marcou a insercao, disseminacao e desenvolvimento do positivismo como doutrina de forte prestigio nas questoes acerca desse novo Pais que surgia. Colocando-se na posicao de reformadores, os positivistas no Brasil idealizaram uma nova faceta politica, economica e cultural a ser fomentada e alicercada no otimismo da ordem e do "progresso" material contra a doutrina confessional catolica, que ate o momento era a reflexao intelectual existente.

As aspiracoes de modernizacao e progresso tinham nas experiencias dos paises ocidentais da Europa e dos Estados Unidos da America seus principais modelos. Nesses lugares, buscava-se uma aproximacao das concepcoes de progresso tecnico, cientifico e social vigentes--percebidos como modelos mundiais na "esteira da expansao capitalista" (Lima, 2017, p.37).

A propria bandeira nacional que surgiria alguns anos depois do pensamento positivista ter chegado ao Brasil ja revelava de forma abreviada o que Comte organizou como firmamentos: Ordem e Progresso.

O principal ponto que fundamenta o pensamento de Comte e a fe no "progresso"--passado, presente e futuro. Ele mesmo acreditava ser o unico pioneiro na chamada "lei do progresso" e a define como sua mais importante contribuicao para o mundo do conhecimento, alem de defender a unificacao dos conceitos da ordem e do "progresso" numa lei mestra (Nisbet, 1985). Com visao de plenitude, historia humana linear e continuidade organica sobre o progresso similar a do pensamento europeu desde os gregos (incluindo-se a Idade Media), porem sem consciencia do fato, Comte alicercava seus principios aos conceitos de ordem e de "progresso", indicando que estes sao indissociaveis na dinamica social. Segundo ele, nao se poderia primeiramente desconhecer a aptidao espontanea dessa filosofia a constituir diretamente a conciliacao fundamental, ainda procurada de tao vas maneiras, entre as exigencias simultaneas da ordem e do "progresso" (Comte, 1978).

O bordao politico "Ordem e Progresso"teve sua genese instituida sobre o lema religioso e expressa o significado de "conservar melhorando", isto e, manter e aperfeicoar aquilo que existe de bom (Ordem) atraves da correcao e supressao daquilo que e ruim (Progresso). No intuito de preconizar a realizacao dos ideais republicanos, a doutrina religiosa positivista busca a manutencao de condicoes basilares dentro do ambito social (respeito aos seres humanos, salarios dignos etc.) e o crescimento do pais (em termos materiais, intelectuais e, principalmente, morais).

Fulgurado na bandeira brasileira, porem engendrado dentro do pensamento positivista, o termo "progresso" em sua concepcao comtiana passaria a fazer parte substancial do vocabulario politico e economico brasileiro, alem de outros campos, como da Filosofia, Sociologia etc. Isso ja era de amplo afeito na Europa, onde era notorio o impulso do capitalismo e, por consequencia, a valorizacao da propriedade, o livre mercado e a producao de riqueza para a acumulacao desigual de renda.

Era necessaria a propagacao de novos modelos culturais e um novo pais parecia estar surgindo sobre os escombros da Monarquia. Foi necessario o estabelecimento de novos valores, novas escolas de ideias, padroes de conduta e movimentos que fizessem com que o ideario do positivismo nao ficasse apenas inserido nos grupos de pensadores defensores da doutrina. A intencao era de promover profundas reformas na sociedade brasileira em suas mais diversas esferas--inclusive no designio de alcancar outros paises da America do Sul--, num intenso processo de contestacao e debate.

Silva (2016, p.25) caracteriza o espaco de tempo que se estendeu de 1881 ate 1927 como o "periodo heroico do Positivismo, [...] marcado por sua propaganda e acao politica". Em ambos os aspectos de acao, o proposito era estabelecer a comunicacao entre os filiados e simpatizantes, desenvolver alegacoes contra as atitudes do Imperio em relacao as politicas centralizadoras de Estado (especialmente no campo da educacao) e forjar projecoes com o estabelecimento da Republica. O que estava em jogo era uma nova concepcao de pais: padroes culturais, regulamentacoes politicas, valores de conduta, correntes de ideias e arquetipos de pensamento frente a um Brasil catartico em tempos de incertezas e paradoxos.

E nesse sentido que a educacao aparece como o elemento decisivo que estaria apto a reconstruir os escombros da sociedade brasileira pos-monarquica e fazer com que os ponteiros fossem acertados com uma nova realidade fundada na ordem e no "progresso" Como se deu, entao, diretamente a influencia do legado positivista na formacao da instituicao educacional no Pais?

O Apostolado Positivista no Brasil formulou e tornou publicas as propostas educacionais para o Brasil entre 1870 e 1930. Para Silva (2016), seus realizadores buscavam desenvolver um projeto pedagogico proprio e, a partir dele, formar um novo homem face as novas exigencias da ordem advinda da burguesia.

Convergindo com a perspectiva de Comte em sua percepcao da Europa do seculo XIX, a Igreja Positivista no Brasil em fins do seculo XIX tinha a visao de que a sociedade estava em crise. Era de extrema necessidade um conjunto de providencias para a "reabilitacao moral"da sociedade em questao. As concepcoes de educacao em Comte, a maioria delas espraiada no agregado de sua obra, foram, entao, a influencia maxima do Apostolado Positivista no Brasil, no intuito de reorganizar a sociedade brasileira. Frente a um cenario de mazelas e descreditos de um Imperio visto como um regime elitista, corrupto e incapaz de fazer do Brasil uma verdadeira nacao (Silva, 2016), era improtelavel a necessidade de se repensar a formacao dos individuos.

Periodos de crise anseiam por novas respostas: intelectuais, industriais e os proprios trabalhadores de categorias de base viam a conjuntura do periodo como um ciclo em fins de funcionamento. O positivismo representava a doutrina que consolidaria a ordem publica, desenvolvendo nas pessoas uma "sabia resignacao" a sua condicao para Gadotti (2003).

O Apostolado Positivista entendia que o uso da violencia ou da coercao nao poderia ser tomado no reestabelecimento da ordem social e moral. Tendo como um de seus sustentaculos a fraternidade, o esclarecimento da sociedade como um todo se daria pela sua fundacao, ou seja, pela educacao/formacao dos individuos. Caberia entao a educacao a organizacao e o fomento da compreensao da sociedade, tendo como parametros as tendencias do regime industrial e as leis que regem os fenomenos, isto e, o positivismo em si.

Nao se tratava realmente de uma libertacao das camadas de base ou da classe operaria, mas sobretudo de um controle com o escopo de esmorecer ideais revolucionarios que trariam a desordem. Qualquer tipo de manifestacao violenta ou conflituosa era considerado metodo de embate politico incongruente.

O metodo de prostracao de um corpo social conturbado e que aspira mudancas se daria pela esfera moral: "ser culto, moderno, significa, para o brasileiro do seculo XIX e comeco do XX, estar em dia com as ideias liberais, acentuando o dominio da ordem natural, perturbada sempre que o Estado intervem na atividade particular" (Faoro, 1976, p.51).

Silva (2006, p.12) enxerga o seculo XIX como um periodo imerso a "algumas tendencias educacionais como organizacao de um sistema de ensino, maior participacao do Estado no ensino, formacao para o trabalho industrial, organizacao de uma educacao nacional, universal, gratuita, obrigatoria, publica e laica". Era necessario instaurar uma nova filosofia de educacao, com bases fundamentadas na formacao cientifica, divergente do que era estabelecido ate entao pela filosofia catolica. Num periodo marcado por convulsoes das relacoes sociais, "reformar" foi a expressao constantemente utilizada para se evocar uma nova definicao da sociedade. Dentro do ambito educacional, era impreterivel uma reorganizacao do saber baseada na insercao nos principios filosoficos e cientificos.

Ponderando o positivismo alem de um metodo cientifico, tal sistema estava envolto de uma filosofia da historia, ou seja, de um projeto politico, de uma doutrina religiosa e tambem de um projeto de educacao que tiveram seu periodo aureo entre os anos de 1870 a 1920 no Brasil. A defesa essencial amparada pelos positivistas focalizava os ideais de liberdades: ideias, religioes, trabalho e circulacao de capital estrangeiro entre os paises. Tal posicionamento se intensificou no inicio do seculo XX, tendo se caracterizado pelo debate de nocoes liberais sobre o processo de escolarizacao, que era considerado como o grande instrumento de participacao politica.

O papel indispensavel da escola e do sistema pedagogico era exercer a reforma na educacao atraves de, primeiramente, uma transformacao das instituicoes. A questao do ensino publico preencheu um lugar importante nessa investida de modernizacao brasileira que, para Silva (2006), era fundamentada no ideario de soberania economica como suporte para a ordenacao de um poder nacional de apologia aos ideais marcados pelo "progresso", mas sem renunciar as liberdades.

"Progresso e liberdade" eram, entao, expressoes entoadas nao so pela igreja positivista, mas por diferentes grupos que convergiram no intuito de evidenciar a condicao incoerente e a desorganizada situacao do ensino brasileiro em seus diferentes niveis. A igreja catolica fora acusada de se opor as ideias de um progresso que, segundo os proprios positivistas, encontrava-se em franca expansao em todo o resto do mundo. "A ideia de progresso, no Brasil, consistia em emancipar a populacao e a sociedade em geral do jugo eclesiastico e das antigas tradicoes e crencas, cujos valores religiosos ainda estavam arraigados nas diferentes classes sociais" (Silva, 2016, p.100).

A educacao, nesse contexto, consistia num processo que abrangeria duas modalidades: instruir e educar. Porem, isso ocorreria nao somente de um modo formal, no que diz respeito as instituicoes, mas em diferentes ambientes e circunstancias. Assim, a preconizacao da ciencia e do saber em detrimento de outros setores, o otimismo e a esperanca no futuro atraves de um "progresso"instaurado paulatinamente na sociedade marcam o ideario positivista nao so nas instituicoes de ensino, mas em todo e qualquer local em que o conceito de educacao (ampliado pelos positivistas) esteja introduzido.

A propagacao do positivismo no campo educacional deu-se nos documentos oficiais, por decorrencia das reformas educacionais que buscavam, influenciadas por Comte, elementos para a formulacao do projeto republicano. Segundo os partidarios da republica e outros contemporaneos de principios convergentes, parte do caos intelectual em que se encontrava a sociedade da epoca se devia a hegemonia pedagogica de base crista enraizada no periodo imperial.

Silva (2016) salienta algumas tendencias educacionais que se tornariam base para sua implantacao no seculo XIX, como: organizacao de uma estrutura de ensino; maior participacao do Estado; formacao para o trabalho industrial; arranjo em torno de uma educacao nacional, gratuita, obrigatoria, publica e laica de instrucao publica; e escolarizacao em massa. De forte teor tecnicista e produtivista, o positivismo introduzido na educacao do Brasil tinha, na industria e nas ciencias e tecnologia, a crenca de que nesses alicerces o desenvolvimento da sociedade seria gradual e natural.

Essa perspectiva estava amplamente condizente com a instalacao do regime republicano. De acordo com a apostila positivista comtiana, cabia a educacao apregoar, na formacao dos novos discipulos republicanos, o respeito pelas instituicoes da economia burguesa e da vida citadina e fabril. Com a intencao de aumentar a eficiencia e a producao, o positivismo infiltra-se no ambito educacional com bases no cientificismo, na precisao e na previsibilidade. Os indicadores quantitativos passam a ser um dos pilares de um ensino voltado a formacao do futuro operario. Silva (2016, p.130) mostra que o prisma industriario positivista no processo educacional:
   [...] apresentava uma perspectiva otimista em relacao ao futuro,
   cultivando a esperanca de edificar uma nova realidade, por conta do
   desenvolvimento da industria na Europa. O Apostolado achava-se
   envolvido na luta teorica e pratica pela instauracao de uma nova
   proposta pedagogica, ou seja, de um novo conteudo nas escolas, para
   formar um novo homem. O surto da industrializacao, do nacionalismo
   e do patriotismo conquistavam cada vez mais uma importante parcela
   dos intelectuais.


O agregado de ideias no movimento de instauracao da Republica brasileira acompanhou como um todo o processo de modernizacao nacional. Nao se pode esquecer que o momento historico vivenciado por Comte refletia os conflitos sociais, ou seja, o desarranjo da sociedade moderna. A proposta de solucao para a desorganizacao seria a reorganizacao dos costumes, da ciencia e do pensamento cientifico e do enaltecimento da sociedade industrial. Nesse contexto, a educacao e vista como instrumento substancial no processo de reforma social. Com o designio de reedificar a ordem, a educacao tensionada pelo projeto positivista no Brasil e contextualizada num momento de mudancas, porem revela a intencao de controle politico-ideologico da sociedade e da difusao do mundo industrial, valorizando o trabalho e com vistas ao processo de aceleracao do que eles concebiam como o movimento historico do "progresso" no pais.

Seja como for, a conclusao a que se chega e a de que a propria constituicao e maturacao da educacao nacional enquanto algo que deveria atingir, se nao todos os individuos, uma camada macica de cidadaos em formacao, esta indissociavelmente ligada a um processo de acomodacao dos valores europeus, burgueses, capitalistas e industriais a realidade nacional. Para tanto, foi decisiva a influencia do pensamento positivista, sobretudo o de Augusto Comte, ja que a realidade desestruturada que teve sua genese com o desmantelamento e derrocada do Imperio estabeleceu uma configuracao extremamente fecunda para sua introducao.

A nocao de progresso em Adorno e o pensamento positivista

Mas uma questao importante deve ser colocada a fim de que se complemente a reflexao teorica associada a discussao aqui realizada: de que forma uma ideia "progressista" por natureza, a de "progresso" pode se coadunar com uma escola de pensamento que em seus principios mais elementares e fundamentais e assumidamente conservadora, como o positivismo? Para responder de maneira apropriada a essa questao, um caminho bastante elucidativo envolve a apreciacao do texto de Adorno (1992), que estabelece uma profunda arqueologia do tema, intitulando-o como "O Progresso".

Nessa obra, o texto principia trazendo a tona a dificuldade para se conceituar apropriadamente o termo "progresso"para alem dos seus usos mais hodiernos ou empiricos. O que inviabiliza a sua definicao, para o autor, e o fato de que a nocao de progresso nao pode ser tomada como algo estanque, dissociada de sua existencia no mundo real e galgada apenas em uma abstracao conceitual atemporal. Nesse sentido, entende-se o apontamento das questoes que ele elenca ainda no inicio de sua abordagem: "progresso do que? Para que? Em relacao a que?" (Adorno, 1992, p.217). Na sequencia, ele apresenta uma reflexao que e iluminadora para a compreensao de sua linha de argumentacao:

Somente sao verdadeiras aquelas reflexoes sobre o progresso que mergulham nele, mantendo, contudo, distancia, e que evitam os fatos paralisadores e os significados especializados. Hoje, tais reflexoes culminam nas consideracoes sobre se a humanidade sera capaz de evitar a catastrofe (Adorno, 1992, p.218).

A realizacao do progresso se fundamentaria, entao, na possibilidade de se afastar a catastrofe: nisso deveriam repousar todas as questoes relativas a ideia de progresso. Como uma dessas catastrofes, Adorno aponta significativamente a penuria material. Levando-se em conta o avanco conseguido pelas forcas produtivas tecnicas, nenhum individuo na face da Terra deveria padecer de fome; ou seja, a evolucao material que a humanidade alcara ja a sua epoca seria suficiente para que a penuria de outrora fosse totalmente superada. Nesse ponto da argumentacao, o autor explicita uma perspectiva central: para ele, uma vez superadas as barreiras tecnicas que levavam a penuria e a fome, o expurgo de ambas dependeria "exclusivamente [...] da organizacao racional da sociedade total, como humanidade" (Adorno, 1992, p.217).

A importancia decisiva de tal passagem e que ela abre caminho para que seja estabelecida uma diferenciacao dualista entre duas nocoes de "progresso": uma associada a evolucao tecnica das formas produtivas que permitiria ao homem, em tese, livrar-se de suas angustias materiais--ou um progresso tecnico; e outra, ancorada a ideia de que a humanidade racionalmente se organizaria (ou deveria se organizar) para que essa evolucao tecnica de fato levasse a libertacao da escassez para todos os individuos--, entao um "progresso" humano.

Para que essa analise avance, e essencial compreender o que Adorno (1992) reitera seguidamente durante sua argumentacao: a essencia da nocao de progresso esta baseada na concepcao de temporalidade crista, com o tempo linear fluindo inexoravelmente--e teleologicamente--, em direcao a um fim pre-estabelecido. Mas, se assim fosse de fato, como poderia ser concebida a dissociacao entre o que foi chamado acima de "progresso" tecnico e "progresso" humano?

Diferente da perspectiva univoca da tradicao crista, estabelece-se uma compreensao dialetica dos processos de longa duracao que acompanham os devires historicos da humanidade. Dessa maneira, nao e numa perspectiva atemporal e a-historica que se deve buscar a resposta para a indagacao acima: e na historia; mais precisamente, no momento em que o "progresso"tecnico passou a assumir um carater extremamente representativo na organizacao social:

Enquanto a classe burguesa permaneceu oprimida, pelo menos no plano das formas politicas, opos-se com a palavra de ordem do progresso a situacao estacionaria vigente; seu patos era eco desta. Somente depois de esta classe ja ter conquistado as posicoes de poder decisivas, o conceito de progresso 'degenerou' em 'ideologia', que logo foi imputado pela vacua profundidade ideologica, ao seculo XVIII. O XIX chegou aos limites da sociedade burguesa; esta nao podia realizar sua razao, seus ideais de liberdade, justica e espontaneidade, a nao ser superando seu proprio ordenamento (Adorno, 1992, p.229, grifo nosso).

Para o autor, a burguesia enquanto classe revolucionaria ascendente, ao destituir o regime feudal e a velha ordem social articulada em torno dos privilegios, introduziu algo de essencialmente progressista--ele lembra que nao se deve esquecer que o proprio Marx, no seu famoso manifesto, atribuiu aquela classe esse papel no movimento dialetico no qual surgiu como a resposta, a sintese, para as contradicoes inerentes ao modo de producao feudal, patriarcal e estacionario. Segundo essa linha de raciocinio, pode-se dizer que nesse seu momento heroico, a burguesia era a anunciadora e a edificadora de um "progresso" que era tecnico e humano a um so tempo. De que forma se operou, entao, a fratura entre os dois "progressos"?

No momento em que essa classe toma o poder, seja atraves de uma revolucao burguesa, seja por uma reacomodacao das classes diretivas, o conceito de "progresso" se transforma em ideologia, segundo o filosofo frankfurtiano. Naturalmente, a ideologia precisa ser compreendida aqui a partir de seu sentido marxista tradicional de algo que funciona como uma falsa consciencia, como um elemento alienante--que impede os individuos de compreender as relacoes de dominacao a que estao submetidos. E essencial evidenciar a dinamica dialetica por tras de tal concepcao: no momento em que a sintese se concretiza, ela volta naturalmente ao processo dialetico que abrira.

E possivel inclusive estabelecer um paralelo entre essa reflexao adorniana e aquela desenvolvida em sua obra mais conhecida, "A Dialetica do Esclarecimento" (Adorno, 1985). Nesta ultima, buscou-se evidenciar de que forma a racionalidade (cientifica) iluminista funcionou primeiramente como uma forca progressista que tencionava varrer do globo terrestre as interpretacoes mitologicas do mundo que traziam narrativas que eram inverdades puras e simples para, num segundo momento constituir-se, ela mesma, como uma narrativa mitologica e totalizadora, que se blindava de contradicoes em sua univocidade. Ao se materializar como classe dominante, a burguesia engendra uma ruptura entre os dois "progressos" que representava: isso fica claro na passagem acima, quando Adorno (1992) afirma que no seculo XIX a burguesia nao podia mais realizar seus ideais de liberdade e justica. No entanto, seus ideais de "progresso" tecnico continuavam a todo vapor e nao tinham motivo para serem questionados: afinal, quem colocaria em xeque as benfeitorias associadas a evolucao da tecnica e da ciencia?

E exatamente nesse movimento que a ideia de "progresso" se consolida como uma ideologia, como algo que da sustentacao ao discurso dominante. Nao por acaso, na segunda metade do seculo XIX, essa nocao positiva (e positivista) de "progresso" chega ao auge e se torna universalmente aceita. A crenca na razao e no poder dos homens se faz canonica, e a ciencia e a tecnologia parecem sustentar a promessa de avancos ilimitados para a humanidade.

A partir da discussao empreendida por Adorno (1992), pode-se dizer que ha um ponto de inflexao para historicizar e compreender mais a fundo as bases do pensamento positivista que influenciaram a educacao no Brasil--bases essas sedimentadas na ideia de que a evolucao tecnica seria o grande balsamo para as questoes de ordem social e moral. O "progresso" buscado pelo Apostolado Positivista no Brasil, segundo essa interpretacao, nada mais era do que uma ideologia de classe aclimatada aos tropicos. Por esse vies, e possivel compreender porque a tecnica, a ciencia e a valorizacao da sociedade industrial que lhes corresponde era a bandeira da educacao positivista no Brasil.

Consideracoes Finais

Buscou-se discutir o tema do "progresso"e as influencias que ele estabeleceu na area da educacao, mais especificamente no caso do Brasil e da relacao que o pensamento positivista desempenhou com o ensino no Pais no momento em que a escolarizacao passava a se difundir para uma camada mais significativa da populacao.

Para tanto, principiou-se com uma discussao mais geral acerca da nocao de "progresso"a partir de autores que se ocuparam da definicao e da apreciacao historica da mesma. Na sequencia, foi abordada de maneira mais detida a escola do pensamento positivista e seus principais expoentes, sobretudo Comte, ja que a referida escola esta visceralmente associada a valorizacao da ideia do "progresso" no seculo XIX. Como um dos precursores da Sociologia, esse autor deteve-se na busca da compreensao das causas da intensa desestruturacao social que ele vivenciou, e buscou estabelecer alternativas viaveis para a superacao dessa situacao.

Nao por acaso, seu pensamento foi introduzido no Pais num momento em que, com a derrocada do Imperio, a situacao era vista como caotica e carente de elementos aglutinadores. Segundo a perspectiva comteana, como foi abordado na sequencia, a educacao seria precisamente o vetor que mais teria condicoes de amalgamar as contradicoes e fazer pairar a ordem. Nesse contexto, ganhou forca o Apostolado Positivista no Brasil, que buscou conceber um modelo educacional cientificista e enciclopedico que fosse capaz de se alinhar com o "progresso" europeu.

Apos a descricao de como o positivismo foi o esteio intelectual para o processo de escolarizacao no Pais, foram abordadas as discussoes filosoficas e conceituais de Adorno sobre o "progresso". Assim, foi possivel relativizar a ideia de progresso como algo inexoravel e posiciona-la como um elemento ideologico na maturacao do sistema social capitalista e na proeminencia da classe social que a representa, a burguesia.

Colaboradores

H. FERREIRA contribuiu na elaboracao e adequacao do artigo. S.A. SIQUEIRA promoveu reflexoes e discussoes para a adequacao do artigo.

http://dx.doi.org/10.24220/2318-0870v24n3a4397

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Recebido em 25/10/2018, reapresentado em 11/3/2019 e aprovado em 21/3/2019.

Hevisley Ferreira (2) [ID] 0000-0002-4553-5725

Sonia Aparecida Siquelli (2) [ID] 0000-0002-8992-1898

(1) Artigo elaborado a partir da dissertacao de H. FERREIRA, intitulada "Semblantes do progresso na educacao brasileira". Universidade do Vale do Sapucai, 2018.

(2) Centro Universitario da Fundacao Octavio Bastos, Curso de Pedagogia, Programa de Iniciacao Cientifica. Av. Dr. Otavio da Silva Bastos, 2439, Jardim Nova Sao Joao, 13874-149, Sao Joao da Boa Vista, SP, Brasil. Correspondencia para/Correspondence to: S.A SIQUELLI. E-mail: <soniapsiquelli@gmail.com>.
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Author:Ferreira, Hevisley; Siquelli, Sonia Aparecida
Publication:Revista de Educacao PUC - Campinas
Date:Sep 1, 2019
Words:9491
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