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Etnografando alteridades na literatura brasileira: acessos a vida social em Joao Gilberto Noll.

"A ficcao das coisas me enredava a ponto de nao poder dela me desvencilhar" (NOLL, 2008, p. 54).

Introducao

Para refletir sobre os lacos das socialidades atuais busco a literatura contemporanea brasileira, por meio de textos de Joao Gilberto Noll. Tenho como hipotese que em suas narrativas literarias podem ser encontrados rastros das transformacoes ou transfiguracoes sociais, bem como as marcas das socialidades estao presentes nas formas e configuracoes dessas narrativas. O objetivo que se esboca e compreender as relacoes que marcam a sociedade atual, a partir de textos literarios e a partir do dialogo entre as ciencias sociais e a literatura.

As socialidades sao as cargas de conflitos, paradoxos e contradicoes da sociedade contemporanea, suas figuracoes subterraneas que perpassam o cotidiano e o social considerado oficial e legitimado pela razao, pelas acoes governamentais e morais. Acompanhar seus rastros na literatura e seguir seus percursos diante da arbitrariedade dos signos sociais, e caminhar pelos passos de rasura da linguagem literaria diante das linguagens que instauram o cenario social. Incorporar a terminologia socialidades e uma maneira de criticar o conceito de sociedade. Com base nas leituras de Strathern (1996) ou mesmo de Maffesoli (2001), guardadas as devidas proporcoes, o que se faz presente e uma critica ao conceito de sociedade e suas limitacoes ao tentar unificar ou totalizar o que se configura na experiencia social. Strathern (1996), utilizando tambem a concepcao de socialidade, critica o uso da palavra "sociedade" como uma totalidade, como uma coisa. Esse conceito e considerado teoricamente obsoleto por perder de vista as relacoes sociais, ou melhor, seu abstracionismo tem "interferido muito em nossa

apreensao da socialidade (sociality)" (STRATHERN, 1996, p. 66). Nao so o termo sociedade como a expressao cultura sao suspensos, indagados por seus excessos e gigantismos. Questiona Strathern (1999, s/d): "para que servem esses termos? Eles nao existem, nao podemos nos sentar a volta de uma mesa e legislar sobre o que e natureza ou cultura, ou ate que ponto uma se dissolve na outra". A palavra socialidade (sociality) e apontada pondo em discussao a construcao abstrata de um "Social" e afirma: "uma das razoes por que eu gosto da palavra 'socialidade' e precisamente o fato de ela nao ser a palavra 'sociabilidade'. 'Sociabilidade', em ingles, significa uma experiencia de comunidade, de empatia". [...] nao suporto a sentimentalizacao da nocao de relacionalidade. [...] Nao aguento isso, a reducao da socialidade a sociabilidade" (STRATHERN, 1999, s/d). A partir disso, a socialidade traria, entao, os embates presentes na realidade, pois a seu ver, "fazer a guerra e algo tao relacional quanto fazer a paz" Portanto, fica impensavel ver e entender as relacoes, o exercicio da alteridade, sem integra-los aos conflitos que os tornam tambem possiveis: a pretensa ordem social e atravessada por movimentos "anomicos" que a contestam e que a constituem.

Para Maffesoli (1987), neste termo esta tambem contido uma critica ao modo como as formas da vida social se sobrepoem aos conceitos, ou como o fato social se sobrepoe ao fato sociologico. O termo socialite busca observar a realidade, as experiencias, e nao partir somente dos fatos ou pressupostos teoricos. A partir da ideia de uma arte da luta, -- uma agonistica, herdeira do pensamento de Michel Foucault, e que o sociologo pontua que as sociabilidades (funcoes sociais ou o social instituido), seriam contornadas pelas "socialidades", que sao os nomadismos, as liberdades dos sujeitos, suas resistencias, microliberdades. Certamente nao precisamos do conceito de sociedade, como tambem nao precisamos do conceito de individuo, mas "produzir teorias adequadas da realidade social, e o primeiro passo e apreender pessoas como, simultaneamente, contendo o potencial para relacoes [...] em uma matriz de relacoes com outros (sociality)" (KOFES, 2004, p. 7).

E possivel pensar que dentro das muitas narrativas sobre a construcao da realidade -- das leituras possiveis, sejam cientificas, midiaticas, politicas, artisticas etc -- que podem ser feitas sobre as socialidades contemporaneas, a escolha de analise elaborada nesse texto e pela literatura. Abordo a escrita de Joao Gilberto Noll (1946 -- Porto Alegre), sustentando a ideia de que em seus textos estao presentes as marcas da experiencia social atual, em seus conflitos e tragicidades.

Noll tem os seguintes trabalhos publicados: O Cego e a Dancarina (1980): A Furia do Corpo (1981); Bandoleiros (1985), re-editado em 1989; Rastros do Verao (1986); Hotel Atlantico (1989); O Quieto Animal da Esquina (1991); Harmada (1993); A Ceu Aberto (1996); Contos e Romances Reunidos (1997); Canoas e Marolas (1999); Berkeley em Bellagio (2002); Minimos Multiplos Comuns (2003); e o romance Lorde (2004), os contos Maquina de Ser (2006) e o romance Acenos e Afagos (2008). Abordo alguns desses livros.

Na trajetoria de Noll, como em suas obras, estao tracos de reapropriacoes da realidade, iniciacoes e nomadismos diante de um ser social. Transparecem em seus textos individuos em seus tormentos e uma "sociedade em agonia". Em conversa com Noll, ele pensa a literatura nao como uma escritura que documenta, antes "transfigura", "somatiza" os embates dos personagens, o que eles querem dizer, ainda "ele nao gostaria de ser amigo de seus personagens". E uma autoficcao, nesse sentido, um falar a partir da sua experiencia individual. "E aquela coisa, mundo, mundo vasto mundo, mais vasto e o meu coracao. O mundo, mundo vasto mundo esta ai, agora eu vou mostrar o embate entre mim e o mundo, e esse embate e terrivel" (1).

Na escritura a percepcao biografica, as experiencias e as trajetorias entram como temas transversais sem os quais as narrativas perdem em contexto e entendimento. Pensar nas marcas biograficas das narrativas literarias, nao significa perdermo-nos na ilusao de que quem escreve esta tal qual em seus escritos e que reciprocamente como num espelho seus escritos reflitam seu rosto. Entretanto, o que pensar das "alterbiografias" ou dos narradores multiplos presentes nas narrativas abordadas? Pensar em alterbiografias e considerar a possibilidade da escrita da vida de outrem- (alter = outro) e biografia (escrita da vida) -- so que de um "outro" ficcionalizado, na narrativa literaria, num entrecruzamento entre narrador-protagonista, em muitos enredos vistos, ouvidos ou simplesmente inventados. Nessas escritas e acionado um "outro", seja um "ele" ou um "nos", apontando para as ruinas e fragilidades de um "eu". Sao polifonias que se abrigam na malha do texto, entrecruzando historias, intercalando memorias, esquecimentos, invencoes. No ficcional, a experiencia nao pertence mais ao dominio do eu, nem de qualquer representacao, suas vozes nao falam em nome de uma "interioridade subjetiva", mas de algo que vem de "fora" como se o que nos e exposto fosse algo totalmente diferente de nos (LEVY, 2003).

Nas narrativas literarias analisadas se delineiam as alteridades encenadas na vida social; as contradicoes vividas se espelham em estilhacos, trilhas que ressaltam relacoes entre as ficcoes e as experiencias sociais dos sujeitos por meio de narrativas em fluxo, exprimindo descontinuidades.

Etnografia Acciona] ou ficcoes da vida social

"Descreve certos eventos criticos, ocorridos numa determinada sociedade segregada do mundo e por ele imaginada" (DA MATTA, 1973, p. 98).

Nas inscricoes de uma "experiencia ficticia" e possivel perceber o jogo no texto entre o imaginario e o real. A escrita na literatura aparece como um acontecimento, causa reacoes sobre o mundo, pelo cenario que constitui, num "como se" da realidade (ISER, 1996, p. 29). Em Iser, o texto ficcional tem elementos do real, ainda que nao o esgote na sua descricao, sendo assim, o ficticio e um ato de fingir, e e "enquanto fingido, a preparacao de um imaginario". Este ato de fingir traz a dinamica relacao entre o real, a realidade e a ficcao, na medida em que o texto ficcional repete a realidade nas suas linhas, atribuindo nessa repeticao uma realizacao do imaginario. Contudo, repetindo a realidade, num "como se fosse", aparecem finalidades que nao pertencem a realidade repetida, e nestas frestas o real e evocado.

Nesse sentido, o ato de fingir como a "irrealizacao do real e a realizacao do imaginario" poe em evidencia a possibilidade de pensar nas transgressoes dos limites, ou seja, provoca a condicao para reformular o mundo, a compreensao desse mundo formulado e permite que tal acontecimento seja experimentado (ISER, 1996, p. 13-16). O ficcional encena a "plasticidade dos seres humanos", como a "multiplicidade dos padroes culturais", estando sensivel ao carater ilimitado e continuo do ser humano (ISER, 1996, p. 357). Nas encenacoes presentes na escrita literaria, configura-se a "incorporacao de alteridade" no "espelho das possibilidades" (ISER, 1996, p. 363).

O personagem dentro da escritura literaria e quem "faz a acao narrativa", define Paul Ricoeur. Os efeitos de sua acao e que interessam, pois sao eles os simulacros do real e da realidade. Neles se apresentam a corrente que liga narrativa e a intriga que a torna possivel. Em suma, "A questao e entao saber o que a categoria narrativa do personagem traz para a discussao da identidade pessoal" (RICOEUR, 1991, p. 170-171).

Os escritos de Joao Gilberto Noll sao sensiveis ao que tece a vida social, sendo uma literatura do fragmento, do instante e da diversidade humana. Seu trajeto literario se constroi como escritura, conforme define Barthes (2002), na medida em que poe o leitor em contato com uma pane na linguagem, por meio de fragmentos no enredo. Personagens e narradores oscilam ou perdem seus lugares, mudando os lugares da narrativa. Como uma escritura, trata-se de um texto de fruicao que coloca o leitor em estado de perda e desconforto e ate enfado, "faz vacilar as bases historicas, culturais, psicologicas do leitor, a consistencia de seus gostos, de seus valores e de suas lembrancas, faz entrar em crise sua relacao com a linguagem" (BARTHES, 2002, p. 20-21). Autor e texto nao estao unificados, pois a escritura e antes de tudo "a destruicao de toda voz, de toda origem. [...] E esse neutro, esse composto, esse obliquo aonde foge o nosso sujeito, o branco-e-preto onde vem se perder toda identidade, a comecar pela do corpo que escreve" (BARTHES, 1984, p. 63).

Os nomadismos se fazem presentes em seus textos no desejo de evasao, de "pulsao migratoria" seja dos lugares, dos habitos, de tudo o que se estabelece ou institucionaliza-se. Essa pulsao aparece nos passos de personagens andarilhos e bandoleiros. Os seres que povoam os seus livros sao "sempre andantes, a procura quem sabe de emprego, de amizade, de sexo, de casa, pois que geralmente sao personagens sem teto, a procura de uma qualificacao qualquer, embora muitos ja estejam acovardados" (2). Numa conversa por e-mail com o escritor ele declarou: "os meus personagens sao o avesso do mundo".

Grafias da alteridade

O projeto literario de Noll, desde O Cego e a Dancarina (1980), lida com um mal-estar, narradores e personagens se olham e se permutam durante o enredo das narrativas; ambos vagam oniscientes e ao mesmo tempo inconscientes em suas andancas. No conto Alguma coisa urgentemente presente no livro, narra a relacao entre um pai e um filho. A trajetoria do menino-narrador e esbocada em seu abandono pelo pai, envolvido em atividades politicas. No final de 1969, o pai do menino foi preso no interior do Parana, por passar armas a um grupo nao se sabendo de que especie. O menino cresce num colegio interno, onde como os colegas aprende a jogar futebol, a se masturbar e a roubar comida dos padres. Anos depois, o pai retorna, e ambos passam a viver dentro de um apartamento no Rio, Avenida Atlantica, repleto de vazios. O pai doente, atormentado, o filho se prostituindo nas ruas, sua vida se configura, assim, no vazio, na perda e na pusilanime presenca do pai, o que aponta os tracos de uma narrativa que condensa no conto: a falta. Uma ausencia de referencias, restando apenas a mao fragil de um pulso paterno se extinguindo da vida. Esta sera uma nota marcante em Noll, a busca e o desamparo diante da figura paterna. Uma origem perdida e sem possibilidade de resgate e o que se pontua em suas narrativas, a falta de uma identidade definida na qual se agarrar. Nas palavras do proprio escritor:

Nao estou procurando a figura paterna familiar. Parto da indigencia afetiva relacoes masculinas. E nesta questao, e fundamental, primal, relacao pai e filho. Esta e uma relacao sempre em debito na nossa sociedade. O que importa e o desempenho do poder pelos homens. Nao ha ou nao havia, muito lugar para a emocao verdadeira, a entrega. A disputa tem privilegios no mundo do homem. (NOLL apud MAGALHAES, 1993, p. 16).

A Furia do Corpo (1981) e um romance que narra um relacionamento amoroso nas ruas da cidade do Rio de Janeiro entre o narrador "anonimo" e a misteriosa Afrodite. O livro foi escrito dando forca ao sexo e a errancia dos personagens, numa linguagem pornografica, proxima as obscenidades escritas em banheiros publicos, ainda que envolto no poetico. Mas, dando enfase ao lado da abjecao. Em suas palavras:
   Eu tenho e que dar conta desse personagem que vive em mim que e a
   linguagem. Ja nao consigo fazer uma coisa que o Nelson Rodrigues
   fez genialmente que e a cronica da familia. Eu ja pego os caras que
   sairam, estao desfamiliarizados, que estao realmente fugindo do
   domestico, fugindo do familiar. Dai esse protagonista ser um
   sujeito que vive em transito que vive em procura de algo que ele
   nao sabe o que seja fugindo por outro lado de coisas que ele tambem
   nao identifica mais e esse personagem ta sentindo cada vez mais a
   ameaca da amnesia. Porque a memoria ta um pouco combalida mesmo
   [...] e nao so no Brasil, toda a questao da historia como ela e
   redefinida. E entao, eu acho que e muito dramatico se escrever
   ficcao e narracao onde a historia esta depauperada (3).


Nesse livro, a personagem e o narradorprotagonista constroem os sentidos de suas existencias retomando o roteiro do corpo. O personagem anonimo segue pelas ruas do Rio vendendo seu corpo e tateando o mundo por meio do corpo de Afrodite. No corpo, os nomadismos e a furia explodem.

Cada encontro nos lembrava que o unico roteiro e o corpo. O corpo. Ela explode na furia de uma vida inteira e diz que esse nosso enredo itinerante vai virar errante se nao cuidarmos do trato com as palavras, pois sao elas e so elas que estao armadas de entendimento (NOLL, 1989a, p. 24).

Desde o inicio do romance, o narrador se nega a dizer seu nome, ainda que o diga:

O meu nome nao. Vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome e fornecer suspeita. A quem nao me queira ingenuo: nome de ninguem nao. Me chame como quiser, fui consagrado Joao Evangelista, nao sei de quando nasci, nada, mas se quiser o meu nome busque na lembranca o que de mais instavel lhe ocorrer. O meu nome de hoje podera nao me reconhecer amanha. Nao soldo portanto a minha cara um nome preciso (NOLL, 1989a, p. 9-10).

O narrador comeca dizendo que nao revelara o seu nome, mas por outro lado, diz ter sido consagrado Joao Evangelista. Essa negacao e ao mesmo tempo essa referencia nao deixam de ser significativas, pois revelam a oscilacao do narrador sobre a definicao de si, a construcao de uma identidade e a negacao disto. Noll parece em sua narrativa em furia colocar uma situacao tensa e de pane diante dessa condicao primeira de atribuicao de identidade e identificacao, que e dada por meio da linguagem. A negacao do nome evidencia que qualquer que seja sua relacao com uma identidade, sera uma escolha arbitraria e provisoria na definicao do ser. Talvez, por isso, eleja o corpo como espaco de possivel inscricao de si e de embates com a alteridade. Afirma o narrador:

Joao Evangelista diz que as naves do Fim transportarao nao identidades mas o unico corpo impregnado do Um. Nao me pergunte pois idade, estado civil, local de nascimento, filiacao, pegadas do Sexo, o meu sexo sim: o meu sexo esta livre de qualquer ofensa, e e com ele-so-ele que abrirei caminho entre eu e tu aqui. Mas se quiser um nome pode me chamar de Arbusto, Carne Tatuada, Vento (NOLL, 1989a, p. 9).

A percepcao dos abismos que existem entre o nomear, entre uma possivel definicao de identidade e referenciais aplicados a existencia humana, para conferir-lhe sentidos, fazem o narrador questionar esse processo de definicao, de ser representado. O que nao deixa de ser uma maneira de escapar de pretensas certezas, garantias e negacao do fato de que sendo nomeado, o sujeito esta protegido pelos signos da linguagem de seu destino, do tragico. O narrador-personagem inicia sua caminhada errante pelas ruas do Rio de Janeiro, deparando-se e forjando os seus nomadismos, abrindo mao ou nao dessa protecao nomeadora. A sua experiencia parece demonstrarlhe o quanto sao contingentes e frageis as referencias coletivas que o rodeiam. O narrador segue repetindo signos sociais, repetindo-os ate a exaustao, talvez para mostrar exatamente os rastros de abismos que existem entre o real e a realidade. Os passos entre o verdadeiro, o real e o ficticio pisam em falso, sao oscilantes. Nas palavras do escritor Joao Gilberto Noll: "A Furia do corpo esta repleto desses cantos como se fosse um poema. E um romance sobre a possibilidade do impossivel. Nesse sentido e um livro utopico. E um exercicio desejante embora tudo seja mentira porque e carnaval" (4).

Seu questionamento diante da realidade e afirmacao de uma errancia se faz presente, pontuando o nomadismo como trilha de furia diante da domesticacao, das repeticoes que adestram as vontades e obscurecem o desejo:

Nao, nao queremos ir para nenhum albergue, mesmo em estado de mendigos recusamos a esmola de uma corda que sera cortada as cinco da manha para que os corpos esbugalhados sejam despertados com abrupta queda, o apoio da cabeca violado repentinamente porque nao ha tempo para despertar um a um e ha outros a espera, entao nao queremos nossos cranios jogados contra a laje fria do albergue, nao queremos acordar tendo de conduzir a humilhacao do dia pelo dia adentro [...] (NOLL, 1989a, p.17).

O protagonista percebe que um dia quando viu o cais de uma pequena cidade, olhou para as embarcacoes e descobriu que o homem nascera para partir e checar novas geografias (NOLL, 1989a). De certo modo, para ultrapassar as fronteiras e cartografias demarcadas, desvelando assim o desejo da errancia. Afrodite e como a propria cidade, as ruas de Copacabana, com seu rosto de mar, desperta e em furia, mas ao mesmo tempo terna, beijando com afago e protegendo com o sal de seus labios. A mulher e a cidade se confundem, como se nelas estivesse o Eden intransferivel do narradorpersonagem, ambas explodem na furia de seus excessos.

A cidade do Rio de Janeiro esta em destaque em A furia do corpo. As ruas de Copacabana, o bairro da Saude, o Centro sao alguns dos espacos visitados. Mas, longe de ser musa, a cidade tem, para seu narrador, "cenarios confusos", fazendo-o esbarrar em inumeros "absurdos". Palco da acao contundente e covarde dos militares (o romance foi publicado em 1980), a cidade e apresentada como um espaco onde o homem se sente, o tempo todo, ameacado e desabrigado [...]. Nessa "cidade sitiada" nao ha lugar seguro e seus contornos sao como disfarces que camuflam armadilhas. Ao circular por ela, a cada passo, o narrador se depara com lugares e situacoes inusitadas: a enfermaria de um hospital publico, onde a morte parece ser a unica saida; os morros cheios de leprosos, armas e drogas; apartamentos conjugados, abrigos de desassossego; boates infernais; calcadas e prostituicao. Onde quer que esteja, ele se ve cercado por acontecimentos que o atropelam, deixando seu corpo em furia. (SILVA, 2008).

O narrador, no seu vagar pelas ruas de Copacabana, segue e mesmo o sol de verao, parece alheio a sua errancia: "Preciso andar, continuar andando e nao tenho documentos, dinheiro, sou apenas esses passos agora apressados pela Copacabana em direcao nenhuma, nao me perguntem, nada me diz respeito, sou fulano, sicrano, beltrano, ninguem. Eu vou" (NOLL, 1989a, p. 77-78). Sentem-se em seus trajetos ilhados na cidade, sem lugar.

Estamos ilhados na cidade, nem horta nem pomares, nenhum cais onde aportar o nosso idilio, Afrodite se confessa com uma docura tao imensa que nao tenho como ficar atonito nem por um segundo, abraco sim Afrodite com as maos nos seus cabelos ja com alguns fios brancos, nao nos privo de nenhum afago, abraco Afrodite como se abracasse o mundo com todas as suas hortas e pomares e silvos, pobres, maos vazias, continuamos a caminhar com inusitados alento [...] atravessamos a rua, no lago artificial varios mendigos tomam seu banho, Afrodite se adianta e entra suavemente no lago suavemente no lago, [...] corre, salta, joga-se nas aguas do lago, os mendigos pasmam com a exuberancia de Afrodite, entro na festa endiabrado, todos fazemos batalhas dagua, maos retesadas raspando a superficie, estamos todos ensopados, puro regalo em cada olho, gotas peroladas, vou caminhando em cada olho, gostas peroladas, vou caminhando em direcao a mulher que eu amo no meio das aguas [...] Admiro Afrodite e me achego como se da primeira vez [...] (NOLL, 1989a, p. 275-276).

A propria cidade nao esta ausente, ela e fluida, efemera, pela qual o narrador e Afrodite seguem vagando, pelas ruas do Rio de Janeiro, num percurso impreciso e provisorio, indagam-se:

Estamos na cidade nao estamos? Ha muito nao sabemos o que fazer das nossas vidas, paraqui-prali, sem termos ao menos a ideia se o pouso desta noite vira pior que o de ontem. Paraonde ir? Respondo que por enquanto a gente ainda nao sabe (NOLL, 1989a, p. 24).

Configura-se na narrativa a presenca de uma "geografia rarefeita" (NOLL, 1990, p. 22) das cidades. As cidades nao estao ausentes e nem necessariamente impregnam uma conotacao negativa, seja pelas ideias de crise urbana ou precariedade, elas se fazem presentes nas provisoriedades que suas ruas permitem, nos percursos que exilam ou que sao formas de percursos em busca de uma identidade ou identificacao entre estilhacos, entre passos e vazios. O corpo em furia e narrado neste livro, um corpo que expele a explosao de sentidos na propria epiderme, rasurando a nomeacao, a constituicao de identidade e o controle corporal e a regulacao da sexualidade. Fazendo com que este seja um corpo a imagem e semelhanca das socialidades, dos conflitos e confusoes diante do narrado pelo social, mas que se inscreve de diferentes formas.

A Furia do Corpo trata de uma cruel historia de amor entre um homem e uma mulher sem eira e nem beira, vivendo pelos cantos do Rio de Janeiro, sem casa, sem comida. Mas o romance nao pretende ser, meramente, um documento da marginalidade. E antes um estudo do amor em meio a adversidade nao so material, mas humana. E o retrato do Brasil de hoje, atacado em todos os flancos, mas com uma novidade: a perspectiva da exaltacao, de celebracao erotica. O sexo aqui, no entanto, nao e a unica chave da abordagem, uma vez que o romance se propoe a tomar o erotico como mediacao para a comunhao cosmica dos personagens. Mesmo assim, nao ha sublimacao literaria, pois os quadros amorosos buscam as palavras que estamos acostumados a ver nos muros e nas portas de banheiro. (NOLL apud MAGALHAES, 1993, p. 318).

O corpo em Noll explode numa "epopeia libidinal", numa evasao da carne que procura outra conformacao corporal. Como se no explorar o corpo do outro, pelo toque e do afago, do sexo propriamente dito, fosse possivel dar outras formas a corporalidade. Uma rarefacao da realidade corroi o lado de dentro dos personagens, mas e no corpo que certa demencia, um alheamento do tempo e do espaco, rasuras dos esquecimentos se tatuam. No corpo, a errancia encontra espaco para sua explosao de excessos, ultrapassando as fronteiras da sexualidade, como se nele se instalasse os indicios para uma nova iniciacao ou uma nova insercao social. Na literatura de Noll, o esquecimento da memoria social rasura as leis impostas ao corpo, talvez para nele se inscreverem outras grafias.

Afrodite parece encher o narrador de um frescor da vida, e de alguma maneira um abrigo diante das vicissitudes de sua vida. Diante de sua beleza, que o narrador contempla devotamente, esta uma esperanca de encontrar um pouso, mesmo quando o repouso nao e possivel. Ambos seguem pelas ruas do Rio, sem dinheiro, prostituindo-se, desfrutando de relacoes sexuais com desconhecidos pelas ruas. Diante de seu estado de penuria, o narrador chega a dizer que dormia no mais subterraneo dos poroes, a ponto de se evadir do proprio sonho e apagar em si o vestigio de sua presenca. O sol permanecia alheio a tudo isso, "apenas aquecendo a errancia humana, fruta de fogo sempre madura acima da errancia" (NOLL, 1989a, p. 58-59).

As maos se tocam asperas, pois as coisas parecem ruindo, so restando palavras e vozes encardidas soando ao longe. "Reina nos ceus o miseravel deus dos homens" (NOLL, 1989a, p. 93). Afrodite comecava para ele a enlouquecer devagarinho, arrumava clientes cada dia mais abjetos. Um queria feri-la com cravos como os de Cristo, como se ela tivesse vivido todo o pecado e pudesse assim redimir o mundo para a ressurreicao. Era como se ela viesse ditar "palavras sem semantica, um amontoado de palavras que nao queriam dizer absolutamente nada" (NOLL, 1989a, p. 87).

Harmada (1993) se constroi a partir da historia de um ex-ator que mora em um asilo de mendigos.

Passei dias sem muita vontade de me afastar do dormitorio. Me sentia um cao escorracado, e ficava ali, deitado naquele dormitorio masculino, sem praticamente dormir, flagrando a noite alguns velhos se enrabarem, uns saiam furtivamente de suas camas e passavam para a de um colega, e era bastante desagradavel entrever aquelas esfregacoes sofregas e ofegantes, os corpos como se digladiando, avancando com fundo esforco, palmo a palmo, ate que, nao se sabe se pela consumacao de um gozo ou por furo cansaco, fosse se acalmando [...] e o sono sobrevinha a tudo, e a vigilia agora nao era mais do que aguas passadas, e a carcaca enfim, entregue nao parecia nada alem do que a vespera da vida, um embriao do que ja fora vivido pelos velhos naqueles anos todos (NOLL, 2003b, p. 45).

Nesse lugar, ele descobria suas fraquezas, entregava-se a elas, mas aqueles velhos tambem eram seu apoio, pois ouvia seus relatos, e fazia dramatizacoes que os mantinham coesos, por meio das historias que contava. Uma maneira de lhes retirar das rondas das ruas, como solitarios, avulsos e mendigos. No albergue, ele conhece uma adolescente, chamada Cris, filha de Amanda, uma mulher que ele conheceu no passado. Alias, ele reencontra a menina que conheceu com uns quatro, cinco meses, que nao sabe nada sobre o pai e foi abandonada pela mae. Com ela, o protagonista sai vagando sem rumo para a capital de um pais imaginario da America Latina, denominada Harmada. Essa cidade imaginaria e descrita como sendo na enseada do Sul, cercada de mar escuro, com horizonte rasgado e despida de ilhas. Nela, os encontros do ex-ator com pessoas, paisagens ou amantes nao constituem propriamente vinculos, sao antes fortuitos e sem continuidades, como o proprio enredo, que e atravessado pela precariedade de seu personagem principal, por suas andancas a esmo, sem fixar-se a nada. Se ha encontros, estes nao sao necessariamente acompanhados de continuidades e despedidas. Atravessado por sentimentos de estranheza o protagonista afirma:

Olha, vou te confessar um troco, e a primeira vez, depois de muitos anos, que confesso isto: eu fui artista de teatro, conhece teatro?, pois e, eu fui artista, um ator de teatro. E de la para ca, desde que abandonei ou fui abandonado pela profissao, nao sei, dede entao ja nao consigo mais fazer qualquer outra coisas, nao e que nao tenha tentado, tentei, mas ja nao tento mais, vou te explica porque: tudo aquilo que eu faco e como se tivesse representando, entende? (NOLL, 2003b, p. 24).

Vendo as coisas por seus contornos, em suas aventuras se consola com a ideia de criar uma peca teatral, em todo o percurso da narrativa. Tenta encontrar forcas para se re-erguer por meio da jovem que poderia ser sua filha, tentando montar um espetaculo que possa lhe redimir de seus fracassos. Cris, quando vivia pelas ruas, tambem tentava representar, tentando talvez seguir a carreira da mae como atriz. Harmada, como praticamente todos os livros de Noll, constroi as marcas do delirio no humano, apropriando-se do proprio recurso literario de mostra-lo nao como algo confinado a realidade de uma hospitalizacao psiquiatrica, mas como algo que tambem pode estar fora, latente nos sujeitos.

No "romance-teatro" de Harmada, Cris, ao viver nas ruas, antes de ir morar no asilo, lembra que:

Quando eu andava pelas ruas depois da morte da minha mae, quando andava por ai sem eira ou vontade de prosseguir, as vezes eu fazia que estava representando [...] eu entao procurava um lugar mais elevado, fosse uma caixa vazia deixada pela feira, fosse um banco de praca, uma escadaria, e eu entao construia gestos muito disfarcados, olhos, boca, apenas esbocava uma expressao para o rosto, inventava falas que nao chegavam propriamente aos labios, tudo para que ninguem me notasse ali representando, pois se notassem, meu Deus, me poriam num hospicio e eu nao queria, ate pensava que se fosse um asilo como este daqui, onde era so comer, dormir, sem camisa-de-forca, eletrochoques, coisas assim, se fosse um asilo ate que dava para eu compreender, embora nao quisesse asilo tambem, preferia permanecer pelas ruas, fazendo um fogo as vezes com restos que eu encontrava para ficar olhando o movimento das chamas. (NOLL, 2003b, p. 50).

Tanto ela como o ex-autor perambulam em busca talvez do que sao, entretendo-se talvez com os fragmentos dessa busca. A cidade imaginaria de Harmada e uma forma de tracarem a encenacao de si mesmos para reinterpretar as cenas da vida e o fio da meada do que os constitui. O ex-ator de Harmada, em suas perambulacoes, descreve um pouco de como sao as ruas de suas andancas:

Continuei descendo a rua e tentei um esforco para me imaginar sendo observado la detras a descer a rua [...] as ruas pareciam ainda mais sujas do que de costume. As vezes eu precisava contornar sacos de plastico com lixo, dilacerados no meio da calcada. Em varios deles, cachorros e mendigos faziam a festa (NOLL, 2003b, p. 94).

Harmada seria um "romance-teatro", uma maneira de ressaltar o instante, o presente. No entanto, sobre o fato de em Harmada e A Ceu Aberto ter abandonado o nome das cidades, algo presente em seus livros, Noll aponta:

Acho que faz parte, nao de uma evolucao no sentido de aprimoramento, mas de um trajeto. Deixei de lado um certo hiperrealismo, no sentido de citar nomes de rua, das geografias. Me despojei disso. Queria um teatro dentro do romance, em termos de instantaneidade, presentificacao. Acho que estou ganhando em capacidade alegorica e que houve ate uma radicalizacao entre "Harmada" e o novo livro. Isso reflete tambem uma homogeneizacao pictorica do nosso tempo, o que pode ter de bom ou ruim (NOLL, 1990) (5).

As narrativas de Joao Gilberto Noll estao impregnadas das experiencias de mundo de seus personagens, de suas andancas, de suas questoes insoluveis que os fazem moverem-se infinitamente sem destino definido. Seus personagens estao em hoteis, estradas, rodoviarias, restaurantes, esquinas, trocando de casa ou perambulando, carregando um mal-estar insoluvel. Nesses lugares se configuram suas socialidades, seus embates e conflitos de alteridades.

Nos romances de Noll, pelas cidades, os narradores percorrem, fora das ruas, outros espacos onde, [...] as imagens da pobreza, da miseria, da revolta sao insistentemente visitadas. Hospitais, enfermarias, clinicas de repouso ou de drogados, sanatorios, asilos, abrigos de mendigos, prisoes, delegacias oferecem as imagens citadas (SILVA, 2008).

Os cenarios domesticos sao deixados de lado, os personagens nao conseguem estar em volta da mesa da cozinha, mas nas ruas, em movimento, tanto quanto o mal-estar que carregam. Nao contem em si uma identidade, mas faces que se configuram com o percorrer dos passos e de seus embates com o mundo. Trazem um corpo em furia diante de toda e qualquer domesticacao, e o "corpo e o lugar de onde o sujeito ensaia um grito contra tudo o que a sociedade constroi [...] no espaco do corpo, os espacos geograficos se diluem, assim como o tempo" (CARREIRA, 2005). As formas que as acoes desses seres ficcionais tomam sao a de uma "furia" diante de seus corpos, diante dos sentidos dados a eles. Ha certa vigilia "a ceu aberto" diante do sentido da vida, ou seja, seus personagens nao cabem no espaco domestico, perambulam pelas ruas, seguem numa contestacao silenciosa, mas em furia diante da sexualidade, expostos ao seu lado violento.

O "transito indelevel" da narrativa do autor projeta fluxos do vivido e da memoria, de chamados e silencios, riscos e desencontros, uma dura escritura da existencia marcando um corpo tatuado de lembrancas e esquecimentos. O proprio lugar onde se da a escritura e onde os personagens habitam e marcado pela rasura da linguagem, a ausencia de memoria se dando como um rasgo na escrita, permeando a escritura de um vazio que se inscreve no movimento da construcao narrativa e da leitura, sobretudo, porque esta latente no vivido. A memoria e o esquecimento se alinham num percurso de transito, nomadismo e "sentimento de desterro."

A Ceu Aberto (1996) carrega no proprio titulo as marcas do inconsciente em aberto, destampado de todo e qualquer impedimento em trajetos sem nome, sem lugar e sem destino. Nao ha a descricao de uma cidade, em seu lugar se configura um campo de batalha. Os personagens sao acometidos de vertigens, surtos amnesicos e pelas falhas na memoria guardam poucos registros de suas historias. O protagonista de A Ceu Aberto, no seu oficio, como vigia noturno de um paiol abandonado, percebe os intervalos intransponiveis de sua existencia. Como se desse passos em direcao ao abismo, cantarola alguma coisa perdida, costumeiramente perdida na memoria e parece que aos sopros de seu inconsciente, desvelado no decorrer da escrita, ele percebe seu lugar:

A ceu aberto tudo me abrigava melhor do que numa casa, ali nao tinha natureza social a cumprir, aquele meu trabalho de vigia noturno nem tinha muita razao de ser, nenhuma finalidade exposta, nao sabia muito bem o que estava a guardar noites a fio, grande quantidade nao era, ja falei, algumas cargas de trigo, o resto aranha, traca, rato, gamba, gatos, cobras, melros, jabutis, sapos e um cheio as vezes de merda de tanto que entravam os bicho numa de cagar no paiol, outras o cheiro de sexo mesmo, tonteava ate quando o cio dos animais atingia ali dentro um alto grau de concentracao e atividade numa noite levei uma fulana para foder no feno mixuruca do paiol, uma noite em que o cheiro de cio anda mais ativo que nunca, pois essa fulana tonteou mesmo e desmaiou nos meus bracos, eu a depositei sobre o feno, me desabotoei, deitei sobre ela, puxei a saia para cima [...] foi como um choque eletrico [...] perdemo-nos completamente na luxuria entre nos dois [...] (NOLL, 1996, p. 102).

Aos sopros do inconsciente, sem muita natureza social a cumprir e que este personagem se sente de fato proximo de seu lado animal, envolto nao em obrigacoes ou "urgencias do mundo" (NOLL, 1996, p. 44). Ha uma evasao, um desejo de alheamento do mundo, um chamado de "fora", que confunde, dispersa e atordoa:

Sofro um serio estado de evasao e custo a perceber um outro eventual encargo de atencao. Tudo me confunde ja: custo a unir o que veio antes ao que aconteceu depois, e quando canto comeco de uma cancao e termino estando em outra. De mim e tudo tao incerto que chega um ponto do dia como agora em que resolvo me sentar, crispar as maos nos bracos da poltrona e dar um gemido que ninguem ouve. E uma pequena liturgia, nao dura mais de tres minutos, ma ali, naquele diafano gemido com os meus dedos sentido com solidez o liso pano da poltrona, eu me recomponho um pouco, saio quase outro, como nesse exato instante, partindo para trabalhar porque a noite cai -- e la vou eu me sentar ao lado da entrada do paiol, um vigia que guarda quase nada de um abastecimento de trigo [...] (NOLL, 1996, p. 81).

Ha o desejo do encontro do pouso, do abrigo, ainda que nem sempre este seja possivel nos percursos narrativos, mesmo quando acontecem sao provisorios. O personagem de Rastros do Verao, como outros protagonistas de Noll, revela um desprendimento em relacao ao mundo. Sua errancia e a revelacao de seu descompromisso com o mundo ou a falta de vinculos com ele:

Eu nao queria morrer, queria um espaco imenso por onde eu pudesse andar, onde o tempo ocorresse pela acao dos meus pes, o meu corpo existindo para percorrer, onde eu parasse tambem e na manha radiosa prosseguisse, onde a vida fosse sempre um novo lugar (NOLL, 1990, p. 24-25).

Relacoes de transitoriedade se esbocam, revelando uma "pane da utopia" (NOLL, 2004c), nao ha um consolo garantido. Em Rastros do Verao (1990) mesmo que a narrativa se passe durante o carnaval, ele nao se realiza de fato, o verao e opressivo, seco. Em postais, Porto Alegre e vista de maneira fria, sem muita emotividade, sem excessos. O protagonista de Rastros ve o seu passado em Porto Alegre apenas como uma abstracao. A temporalidade e descontinua, fragmentada, apenas o presente se afirma e o passado e afastado da memoria. A cidade e descrita por seu tempo seco no verao ou por seus crepusculos sob as aguas escuras. "Porto Alegre era famosa pelos seus crepusculos (NOLL, 1990, p. 29). E, porem, lembrada pelo frio: "vapores do frio saiam da minha boca" (NOLL, 2003a, p. 367). Nas descricoes das cidades presentes nas narrativas de Noll, e possivel ver que:

O narrador de Rastros de Verao deambula pelas ruas de Porto Alegre, procurando algo que nem ele mesmo sabe o que e e o de Hotel Atlantico chega ao Rio de Janeiro para, imediatamente, partir em direcao a Porto Alegre, passando pelo Parana e por Santa Catarina. Em O quieto animal da esquina, Rio de Janeiro e Parana estao novamente em foco. [...] Finalmente, em Harmada e em A ceu aberto ha mudancas de cenografia. No primeiro, trata-se de uma cidade fundada no momento mesmo da criacao do texto. No segundo, alargam-se as fronteiras e desfazem-se as linhas territoriais (ainda que textualmente criadas). E a narrativa se inscreve a ceu aberto. Em Harmada, uma ficticia cidade cenografica e criada e, em A ceu aberto, a cidade desaparece para dar lugar ao campo de batalha (CARREIRA, 2005).

Lorde (2004) tendo como cenario a cidade de Londres, esboca sua paisagem desde o momento que o escritor-protagonista chega ao aeroporto como cercada de "sombras expectantes." Assim sao espectadores que contemplam pelos corredores do aeroporto os viajantes que circulam enquanto eles parecem aguardar sedentariamente esses que cruzam os ares em seus nomadismos. A cidade esta "em pleno inverno" (NOLL, 2004a, p. 10). Mas, um inverno ainda nao sentido pelo narrador, pois estava ali, naquela temperatura isolante do mundo naquele aeroporto. Como se aquele lugar distinguisse os habitantes da cidade como uma fronteira daqueles que seguem nomades para alem de sua geografia. Ele apenas sente que ali, teria apenas de trocar sua solidao de Porto Alegre pela de Londres. Assim, a solidao e mais um dos componentes dessa cidade fria, com muito vento, neve no auge de seu inverno.

Em Lorde, na solidao pelas ruas de Londres o personagem- escritor sente-se como numa floresta "imprecisa, misto de arvores e sons de animais noturnos. As vezes me acocorava e pegava ninhadas de folhas secas do solo umido. Elas aderiam tanto ao solo que se fixavam em mim com a meleca da terra, sem resistencia, no rosto e pescoco" (NOLL, 2004a, p. 94). Lorde sai a vagar por Oxford Street, Piccadilly circus, Trafalgar Square, atravessando bairros e encontra o predio da National Gallery, Westminster "a procura de uma identidade que teima em escapar" (NOLL, 2004a, p. 29). Sente-se como se tivesse varios seres dentro de si, e pensa em entrar numa loja de cosmeticos para comprar um po compacto da cor da sua pele para talvez remocar, estava tao velho e desmemoriado, sem nada para dar, nem mesmo um sorriso diplomatico. Segue a esmo, como se nao tivesse nem lingua e nem memoria.

Parecia identico a tantos homens que andavam pelas ruas de Londres, poderia passar por tantos deles, que nessa minha indefinicao ja era maior do que eu, embora tivesse me perdido e comecasse a desconfiar de que nem o meu patrao ingles poderia enfim fazer alguma coisa para me devolver a mim (NOLL, 2004a, p. 32).

O escritor se imagina vivendo ali como se conseguisse ser esse homem que pulsava nele, publicaria ate em ingles sua transformacao num alienigena. Moraria em Boomsbury e seria um autor imigrante, "sem nacionalidade precisa, sem bandeira para desfraldar a cada palestra, conferencia" (NOLL, 2004a, p. 33). Ou talvez, virasse um homeless (semcasa, sem-teto) na Inglaterra se nao o levassem escoltado de volta para o Brasil. Todas essas imagens se fundem em sua cabeca tal qual a tintura e a maquiagem que escorriam pelo seu rosto patetico no espelho. Seu rosto passa a se compor desses versos descontinuos que colhia em meio a multidao, esse acumulo de vozes e linguas que soam como um mantra aos seus ouvidos. Tenta com isso compor outro rosto para si e uma nova memoria. Sabia apenas que nao era mais "inquilino de si mesmo", cego de si, um "misero escrevinhador de horas necrosadas", desfazendo em si as marcas das experiencias que nao consegue justificar (NOLL, 2004a, p. 71; 48). Diante do espelho ele diz:

Ah, o espelho, sempre resta o espelho que nao me deixa mentir: tenho a cara de uma fera, o que me resta de cabelos, desgrenhado, o cenho carregado, um Beethoven irado sem surdez nem musica. O que sinto por dentro nao corresponde a face transtornada. Flutuo na tontura, enquanto a expressao queima de suor e poe sangue pelas ventas. Alguma coisa me diz que nao vou sobreviver ao vento la fora (NOLL, 2004a, p. 39).

A "narrativa, se nao espelha a experiencia a configura, e finalmente, suscita a experiencia" (KOFES, 2001, p. 125). A experiencia dos personagens de Noll se realiza em movimentos nomades, desestabilizando os lugares da memoria por meio do esquecimento e rasurando o corpo em suas limitacoes e carceres. Noll esboca um espaco social rarefeito de suas formas, num tempo de oscilacoes entre o lembrar e o esquecer, por meio de trajetos difusos, atormentados, sem um destino definido. Talvez para lembrar as palavras de Foucault, "e possivel, como diz Homero, que os deuses tenham enviado os infortunios aos mortais para que eles pudessem conta-los" (FOUCAULT, 2001, p. 47).

Nesses trajetos criados narrativamente, Noll nao busca necessariamente a montagem de um enredo ou o delineamento de peripecias de seus protagonistas, antes deixa transparecer em suas vozes observacoes poeticas. Noll percebeu que todos os seus protagonistas sao na verdade o mesmo homem, em seus dilemas e contradicoes. Em suas palavras:
   Nao tenho duvidas hoje de que todos os meus
   protagonistas sao o mesmo homem. Sempre gostei
   de personagens fortes, pois o forte dos meus livros
   esta na voz do cara e nao no enredo ou em outros
   detalhes. O que me interessa mesmo sao observacoes
   poeticas e nao as peripecias. (6)


Consideracoes finais

A face de todos os personagens e afinal a do ser humano. Assim, sendo estes personagens a encenacao de um mesmo ser, suas trajetorias nas narrativas de Noll de alguma maneira montam o quadro movel e cambiante de suas alterbiografias. Algumas constantes sao percebidas em seus percursos: estao sempre nas ruas, vagueiam sem um rumo definido, nao se mostram muito preocupados com uma demarcacao temporal nitida. Os espacos das cidades, mesmo os de Porto Alegre, terra natal do escritor, sao vistos com profundo estranhamento, as cidades nao sao necessariamente dadas diante de seus olhos, elas parecem ter os seus solos em tao intenso movimento quanto as caminhadas de seus pes.

Em Noll, o tempo rasteja moroso no espaco. Certa inercia atravessa os passos de seus protagonistas como se pela amnesia que muitos deles apresentam, e por nao sentirem seus destinos atrelados a qualquer origem ou raizes, seus pes tambem ficassem lentos, sem pressa para o que quer que seja, a nao ser vagar nomades com certo sentimento de desterro e desterritorializacao. Um aspecto marcante de uma sensibilidade tragica que imobiliza o tempo. O tempo e suspenso em imagens, como se pudesse tambem petrificar os espacos e nos instantes de extase, seja pelo sexo ou pela simples divagacao, eles pudessem se eternizar. Para Noll, o tempo de suas narrativas e o presente, a plenitude do instante e o gozo ou a aflicao de sua passagem. Em suas palavras: "O presente para mim e o que mais me inspira. O presente imediato, o espaco onde eu estou. Eu nao sou um escritor voltado para o passado, para a reconstituicao historica de fatos ou epocas" (NOLL, 2004d) (7).

Em sua escritura estao presentes elementos norteadores do que entendo por socialidades: um desgaste da "harmonia social", o esgarcamento dos conflitos entre a existencia social e coletiva, uma "geografia rarefeita" das cidades e uma furia e exacerbacao do corpo e das sexualidades (NOLL, 1990, p. 22). Inscreve-se tambem um esquecimento ou rasuras na memoria social. Ha uma exposicao do inconsciente "a ceu aberto", revelando os impasses de seus personagens e o seu debater-se diante da alteridade. Sao marcas de seus textos os constantes nomadismos borrando os limites rigidos de tempo e de espaco e provocando reapropriacoes da realidade, iniciacoes e errancias.

Retomando a ideia de cronotopo de Bakhtin para pensar os trajetos dos personagens, seus lugares e acoes, e possivel pensar junto com ele que o cronotopo, o espaco-tempo, determina a unidade artistica de uma obra literaria no que ela diz respeito a realidade efetiva (BAKHTIN, 1988, p. 211). Para Noll, o cenario de seus protagonistas "sao as ruas" (8), ou seja, o que esta fora do espaco domestico, familiar. O que lembra um pouco o cronotopo do encontro e da estrada apontados por Bakhtin. A estrada e o lugar do acaso, onde pessoas distintas, separadas pela hierarquia social e suas distancias podem se chocar ou entrelacar seus destinos. O "tempo se derrama pelo espaco e flui por ele (formando os caminhos)". Como exemplos, Bakhtin aponta que: "no limiar dos seculos XVI e XVII, e Dom Quixote que vai para a estrada para encontrar nela toda a Espanha, desde o forcado que anda nas gales, ate o duque" (BAKHTIN, 1988, p. 349-350). Em outros personagens como os de Balzac, Flaubert, os lugares serao respectivamente a sala de visitas ou a cidadezinha provinciana, nelas se configuram as suas acoes.

Quem sao os personagens de Noll, que dilemas trazem, de que lugares eles falam e onde habitam? Seus personagens sao escritores desejando viver fora das paginas de suas obras, atores em crise, diretores de teatro, mendigos, andarilhos, passeantes, retirantes, seres anonimos que seguem entre "instantes ficcionais" compondo sua existencia diante de fracassos, da solidao e da sensacao dos limites do corpo e de sua deterioracao. Vivem "rudimentos de ilusoes" (NOLL, 1989b, p. 30) em territorios desconhecidos seja do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianopolis, interior de Mato Grosso, ou Londres, como em Lorde, California e Italia, como em Berkeley em Bellagio.

As cidades se montam com imagens que captam vivencias entrecortadas por movimentos descontinuos e com falhas na memoria dos protagonistas que por elas circulam. As cidades como os corpos estao fadados a exaustao. As narrativas de Noll esbocam encontros com homens, mulheres, garotos, seres anonimos, muitas vezes, mas que passam pela narrativa e pouco se fica sabendo sobre suas vidas. Ha somente imprecisoes de seres avulsos que caminham como que em labirintite a "ceu aberto" na inscricao de suas experiencias humanas. Sao nas palavras de Noll "utopias ambulantes" lutando contra as mortificacoes da vida. Carregando "frangalhos do passaporte no bolso, sem ter pais para ir, endereco para dar" (NOLL, 2003a, p. 120). Seus personagens tem consciencia da vida e suas agruras: "Os personagens sem dados biograficos, meus protagonistas, sao seres caminhando nesse sentido. Sabem que viver e prazeroso, mas dificil" (NOLL, 2005) (9).

Os narradores-personagens sao andarilhos, caminham atabalhoados, a esmo, "sem documentos nem lingua nem memoria", um "amontoado de carne sem nome, destino ou moradia" (NOLL, 2004a, p. 33). Mesmo assim, Noll afirma: "nao me sinto condoido com a miseria dos meus personagens. Me sinto mais cumplice deles, tomado por eles" (NOLL apud MAGALHAES, 1993, p. 280). Noll como narrador revela alterbiografias de extravios ou incorpora o organismo humano como ja geneticamente extraviado em si.

Em seus escritos, o trajeto humano e pautado pelo esforco por encontrar acenos que transcendam a realidade existente e afagos, nos quais possam encontrar repouso diante das impossibilidades do que lhes e negado. As trajetorias se esbocam diante do intransitavel da vida, pois sao seres que nao se vinculam a nada, pois suas maos tateiam sombras e sobras do que sao e seus pes nelas se perdem em perambulacoes apaticas em trilhas e perspectivas.

Received on September 24, 2009.

Accepted on April 14, 2010.

Referencias

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DOI: 10.4025/actascihumansoc.v32i2.8325

Cristina Maria da Silva

Universidade Estadual de Campinas, Distrito de Barao Geraldo, 13081-970, Campinas, Sao Paulo, Brasil. E-mail: crimasbr@yahoo.com.br

(1) Conversa com Joao Gilberto Noll dia 25 de julho de 2007 em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul.

(2) Joao Gilberto Noll, Entrevista Rede Minas. Programa Livro Aberto. Belo Horizonte, 2006. (Entrevista feita por Daniel Antonio. Transcricao copia em DVD. Mensagem recebida por crimasbr@yahoo.com.br em 6/7/2007).

(3) Joao Gilberto Noll, Entrevista Rede Minas. Programa Livro Aberto. Belo Horizonte, 2006. (Entrevista feita por Daniel Antonio. Transcricao copia em DVD. Mensagem recebida por crimasbr@yahoo.com.br em 6/7/2007).

(4) Entrevista para Copo de Mar (NOLL, 2004c).

(5) Entrevista com Regina Zilbermann, Carlos Urbim e Tabajara Ruas (NOLL, 2004b).

(6) Joao Gilberto Noll. Publicacao on-line. Mensagem pessoal recebida por e-mail: crimasbr@yahoo.com.br em 16. fev. 2009.

(7) Entrevista: A literatura e muito perigosa.

(8) Entrevista com Joao Gilberto Noll para Entrelivros em 2006.

(9) Lorde', a plastica espiritual de Noll.
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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:da Silva, Cristina Maria
Publication:Acta Scientiarum Human and Social Sciences (UEM)
Date:Apr 1, 2010
Words:9865
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