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Estudo geografico-cultural da religiao: a ressignificacao do espaco por meio do santuario.

O espaco se revela como o maior direcionamento das analises que o geografo tem empregado em seus embates e desvendamentos teorico-empiricos e pode ser compreendido pela tematica das atividades que lhe imprimem singularidade.

Seguindo o ritmo das transformacoes que a sociedade estabelece em seu meio de vivencia, os geografos estao sendo continuamente chamados a contribuir com o foro social pela analise espacial que sabem realizar. No entanto, essa nao e uma tarefa simples, tendo em vista que o espaco geografico acolhe diversas atividades humanas, muitas de ordem imaginarias e simbolicas e que acumulam expressividade na (re)ordenacao da vida social, transmitindo, assim, significados e valores culturais.

No amplo campo das significacoes espaciais, a religiao vem se mostrando um fenomeno de interesse do geografo, pois muito dos aspectos religiosos dependem diretamente de uma base geografica de sustentacao. Recortes espaciais sao alegados e afirmados por suas constituicoes simbolico-sagradas. Expressas espacialmente, as acoes religiosas desenvolvem arranjos territoriais legitimos, sendo passiveis de compreensao perante uma leitura das significacoes direcionadas.

Acompanhando esse comentario inicial de direcionamentos, o trabalho que segue tem a intencao de contribuir com as pretensoes cientificas da geografia de entender as interfaces espaciais da pratica religiosa, mais precisamente no que toca as novas significacoes que a religiao enceta no espaco, entendido aqui como ressignificacao religiosa do espaco. Inicialmente, realizamos consideracoes teoricas a respeito do temario cultural de interesse geografico "espaco, religiao, simbolismo e sacralidade" e dispensamos compreensoes sobre o que chamamos de ressignificacao, aproximando a "imaginacao geografica" como discurso. Na sequencia, apresentamos o fenomeno geografico expresso pela fundacao e constituicao geossimbolica e cosmogonica do Santuario de Fatima da Serra da Grande, situado na cidade de Sao Benedito-CE. Na tentativa de apresentar um caso de ressignificacao manifesto, analisamos as novas significacoes turistico-regionais que o Santuario tem proporcionado a Regiao da Ibiapaba, Norte do Estado do Ceara. Por fim, sugerimos algumas tendencias investigativas sobre a relacao entre espaco e sagrado.

ESPACO, RELIGIAO, SIMBOLISMO E SACRALIDADE: UM TEMARIO CULTURAL DE INTERESSE GEOGRAFICO

Muito influenciadas pelas ideologias de Mircea Eliade, as investigacoes geograficas sobre a religiao tem se pautado pela dualidade conceituai entre sagrado e profano, com enfase na sacralidade direcionada ao espaco. No entanto, a compreensao de processos, encontros e misturas culturais num mundo cada vez mais heterogeneo nos faz entender que sagrado e profano podem ser analisados em conjunto diante de recortes espaciais especificos, afinal, "nao existe uma fronteira cultural nitida ou firme entre grupos, e sim, pelo contrario, um continuum cultural" (Berker, 2003, p. 14).

Nesse contexto, sabe-se que a religiao, atraves dos anseios de determinados grupos humanos, imprime incisivas marcas culturais nos espacos que a concebem (ROSENDAHL, 2008). A heterogeneidade cultural-religiosa dos lugares e das pessoas requer da geografia uma posicao critica na producao de consideracoes analiticas diante das formas simbolicas religiosas. Eis, portanto, um desafio lancado ao geografo: desvendar as formacoes e significacoes espaciais disseminadas em nome da religiao.

A esse respeito, Rosendahl (1997, p.149), assinala:
   O geografo quando estabelece como objeto central
   de sua analise a religiao, encara-a sob a
   dimensao espacial. E para realizar sua pesquisa
   reconstroi teoricamente o papel do sagrado
   na recriacao do espaco, reconhecendo o sagrado
   nao como simples aspecto da paisagem, mas
   como elemento de producao do espaco.


Designadamente no que se remete ao interesse da geografia pelo estudo da religiao, a assertiva nos parece bastante legitima. A religiao, pelo menos na sua organizacao institucional, possui uma base territorial de existencia, e so este fato ja justifica a analise arrolada. Entretanto, algumas mentes por demais pragmaticas e racionalistas nao conseguem estabelecer relacao entre essas duas areas.

Alastrando formas e simbolismos pelas realidades geograficas de lugares, paisagens e regioes, (re)dimensionando a estruturacao de territorios, a religiao deve ser compreendida como um fenomeno cultural de fortes implicacoes geograficas.

Os fenomenos religiosos, como factos culturais e sociais, apresentam consideraveis implicacoes em termos espaciais, especialmente visiveis quando se trata de grandes sistemas religiosos, em geral profundamente gravados no espaco, desde logo porque propoem aos respectivos crentes uma explicacao da ordem do universo [cosmogonia), muitas vezes presente tambem, em termos simbolicos no modo como modelam os seus espacos, nomeadamente no que se refere as suas formas arquitetonicas. A semelhanca do que, mais genericamente, se pode afirmar para a cultura, a religiao e uma forma de pensar o espaco e, a partir desta relacao, e possivel ate', em certos casos, identificar regioes culturais cuja marca distintiva fundamental e dada pelo elemento religioso (Santos, 2006, p. 110) [3].

Reconhecendo o espaco como foco central da analise geografica, e possivel negar a relacao entre religiao e geografia? Ao contrario, so e possivel enxergar uma intima relacao. A religiao tem grande relevancia espacial e nao pode ficar imemore dos trabalhos geograficos. A geografia nao pode negligenciar as atitudes e comportamentos gerados em virtude da religiao, tendo em vista suas implicacoes nos padroes geograficos da atividade humana (Park apud Santos, 2006).

Nas ultimas decadas, e crescente o numero de estudos geogrdfico-religiosos, muitos dos quais partem da analise de templos e/ou santuarios, ou seja, de espacos qualificadamente consagrados. Manifestando-se sob a forma de hierofanias (ELIADE, 2008), o sagrado qualifica o espaco. Trata-se de uma qualificacao constante no imaginario humano uma vez que transmite sentido de vida do ponto de vista prospective Por isso, o homem religioso, concebendo velhos e novos rituais de afirmacao, continua confiando e frequentando espacos sagrados. Acessados por meios simbolicos de uma dada religiosidade, esses espacos conferem forcas que brotam do "sobrenatural" e ajudam a enfrentar o mundano.

O que leva as pessoas a aceitarem certas porcoes do espaco como sagradas? Quem de fato realiza o ritual de sacralizacao do espaco? Quais forcas concorrem para a manifestacao do sagrado em nivel espacial? Como essa sacralidade pode ser adequada aos interesses politicos das forcas hegemonicas? Estas sao questoes geograficas e devem deixar o geografo da religiao inquieto no esforco de responde-las (OLIVEIRA e SOUZA, 2010). Um arduo compromisso teorico se inscreve como imprescindivel.

Comungando com o pensamento de Zeny Rosendahl (2008), acreditamos tambem que a geografia conseguira crescer mais ainda nas reflexoes em tela a medida que intensificar suas pesquisas empiricas. Pesquisas que, diante da complexidade dos fatos religiosos, precisam variar metodologias e misturar teorias (HISSA, 2002) de modo que as abordagens considerem as manifestacoes materiais e imateriais do sagrado. Na realizacao de uma pesquisa bem elaborada, os geografos que estudam a religiao devem penetrar na vida religiosa, estuda-la do interior. Carecem perceber como o futuro e a ideia de "outro mundo" sao vivenciados pelos fieis (CLAVAL, 2008).

Dentre os metodos de pesquisa empregados no campo de atuacao estudante dos fenomenos religiosos por um olhar geografico, a indagacao fenomenologica [4] tem grande relevancia. Surgido um novo contexto para a Geografia Cultural [5], apos seu processo de renovacao, as representacoes imaginarias do individuo religioso passaram a ter forte expressao nesses estudos. Assim, quando o estudo geografico da religiao aposta em uma analise fenomenologica compreende que "cada ser humano possui um mundo somente seu, em contraponto ao mundo unico objetivo das ciencias positivistas" (Nogueira, 2004, p.229) e que "a religiao faz parte das idealizacoes, ou seja, das representacoes que os seres humanos fazem de seu mundo e de si mesmos" (Houtart, 1994, p. 25).

Segundo a concepcao fenomenologica destacada, o lugar so ganha feicoes sagradas pela relacao mitologica e simbolica criada na e pela imaginacao do individuo crente. No entanto, sabese que a instituicao de poder religioso que idealiza e planeja o espaco sagrado e em grande medida responsavel pelas consideracoes imaginarias de sua demanda. Torna-se, portanto, indispensavel um estudo arraigado das realidades culturais para se entender a logica profunda das ideologias religiosas (CLAVAL, 1999), simbolicas por excelencia.

A composicao representativa contida nas formas simbolicas que se fazem materia de alcance do geografo se justifica quando essas sao constituidas de fixos e fluxos (CORREA, 2007). Trata-se de edificacoes espaciais que desempenham alguma funcao cultural onde estao estabelecidas, influenciando de algum modo as imaginacoes das pessoas, comprometendo suas acoes e vivencias em escala tambem temporal. Destarte, os multiplos significados dos espacos simbolicos aguardam decodificacao geografica (COSGROVE, 2004).

E preciso que a geografia mergulhe na tentativa de compreender a relacao existente entre "simbolismo-espaco-imaginacao", visto que

As formas simbolicas espaciais estao dispersas pela superficie terrestre, sugerindo a forca das representacoes cjue os homens constroem a respeito de diversas facetas da vida, envolvendo o passado, o presente e o futuro, as diferencas e a igualdade e o poder, a celebracao e a contestacao e a memoralizacao. (Correa, 2007, p.is).

Colaborando para a analise em voga, Bonnemaison (2002) propoe o estudo das formas simbolicas espaciais atraves do termo conceituai geossimbolo. Em nosso entendimento, e a partir das expressoes geograficas das formas simbolicas, na tentativa de facilitar parcial e didaticamente a compreensao do processo de como um simbolo pode ser analisado pela "geografia", que este geografo nos apresenta esta exequivel contribuicao. Sobre isso, o autor destaca:

Conduzido a um aprofundamento dos conceitos de cultura, etnia e territorio, a abordagem cultural nos leva a definir um espaco novo-, o espaco dos geossimbolos. Um geossimbolo pode ser definido como um lugar, um itinerario, uma extensao cjue, por razoes religiosas, politicas ou culturais, aos olhos de certas pessoas e grupos etnicos assume uma dimensao simbolica que os fortalece em sua identidade. (Bonnemaison, op. Cit., p. 109).

Por tal assertiva, reconhecemos que, quando o espaco e visto por seus elementos e valor simbolico, existira sempre um entendimento geossimbolico incutido nesta compreensao e que o geossimbolo realiza-se ao marcar ou reforcar a identidade de pessoas e grupos culturais frente a um territorio especificado. O santuario, por exemplo, diante de suas evidencias e simbologias sagradas, e uma forma que se basta enquanto disposicao geossimbolica objeto ulterior de nossas analises.

Com efeito, ao entendermos que o campo cultural, numa complexidade crescente, possui simultaneas geografias como locus de representacao e vivencia, dotamos as formas simbolicas de um status perceptivo peculiar. Dessa maneira, somos levados a apreender que as formas simbolicas tendem a ressignificar espacos especificos e conecta-los a projetos de sentido mais amplo. Vejamos, portanto, como pode ocorrer este processo.

A RESSIGNIFICACAO PELO DISCURSO GEOGRAFICO DA IMAGINACAO--

A imaginacao proporciona ao homem a experimentacao do mundo. Hissa (2002, p. 1 16), quando chama a atencao para a importancia do contato entre os campos do conhecimento, vai dizer que "a imaginacao pode ser compreendida como a capacidade de representacao de imagens que o espirito desenvolve". Representacao que nao e unidisciplinar e, em geral, mostra-se por uma diversificada carga simbolica.

Correlacionada ao meio espacial, a imaginacao e um grande cerne de analise dos chamados "geografos das representacoes". De fato, a imaginacao e um campo de onde brotam as significacoes humanas, pelas quais se atribuem valores aos objetos, seres, lugares etc. "Significado", inclusive, e apontado como palavra de orientacao aos estudos de Geografia Cultural, como indicam Correa e Rosendahl (2007).

Visto como parte da geografia do lugar, o homem e um criador de imagens, sua psique consiste de imagens, logo sua existencia e imaginaria (AVENS, 1993). Em termos metodologicos, e preciso flexibilidade, dinamismo, ao se usar da imaginacao alheia nos estudos geograficos.

Alguns dos caminhos direcionados pelo filosofo Gaston Bachelard, ao longo de toda a sua obra, podem ser uteis aos estudos geograficos que partem da imaginacao. Bachelard, quando discorre sobre imaginacao, faz referencia ao que chama de imaginacao criadora, em que o proprio simbolo percebido parece possuir uma "autonomia imaginaria". Melhor explicando, por esta visao, os simbolos (imagens-jormas) tambem tendem a deixar suas marcas no sujeito, contribuindo para a formacao de seu (in) consciente, ocorrendo, na verdade, uma troca de estimulos.

Ao realizarem uma interpretacao dos ensinamentos de Bachelard, Barbosa e Bulcao (2004) chegam a conclusao de que, para esse filosofo, somente o contato com o outro, ou com o objeto, nao e capaz de dar conta da formacao imaginaria do individuo, so se tornando esta integral quando "o homem vive o instante de solidao que o impulsiona num voo ascensional e fecundo, fazendoo vivenciar a imaginacao criadora, assegurando, assim, o verdadeiro crescimento espiritual" (op. Cit., p.71). Logo, entende-se que e atraves das suas reflexoes que o homem poe em ordem suas ideias e "verdades", tao relevantes na atribuicao de significados aos objetos e acoes.

Ainda face a imaginacao, Avens (1993, p.36) acrescenta:
   Quando se diz com frequencia que a imaginacao
   e criativa, isto deveria significar que ela
   estabelece uma especie peculiar de relacao entre
   a materia e o espirito--uma relacao na cfual nem
   a materia nem o espirito sao obliterados, mas
   sim unidos, fundidos em um novo todo que produz,
   eternamente, novos todos, novas configuracoes
   de imagens na arte, poesia, religiao e
   ciencia. Com o tempo devemos chegar a conclusao
   inescapavel de que a imaginacao deve estar
   atuando, tambem, na assim chamada natureza
   fisica.


Ao destacar que a relacao entre materia e espirito e uma fundicao necessaria para uma nova configuracao de imagens, religiosas ou de outra natureza, Avens nos deixa pistas para o entendimento do que seria o ato da ressignificacao, espacializando o fenomeno quando admite que a imaginacao age sobre a natureza fisica.

Quanto ao fato de o homem significar valores distintos aos mesmos objetos e realidades, entendemos que isso acontece em funcao das diferentes experiencias vivenciadas. Por sua vez, ao longo do tempo, esses objetos e realidades podem ganhar outros, novos, e expressivos conteudos, para, portanto, ensejar ritmos diferenciados de usos, ja que sao complementados em suas composicoes. Reconhece-se esse processo como ressignificacao.

Os psicologos norte-americanos Bandler e Grinder (1986), mesmo tratando de um estudo neurolinguistico, contribuem para as nossas compreensoes ao afirmarem que: O significado de todo acontecimento depende do "molde (frame) pelo qual o vemos. Quando mudamos de molde, mudamos o significado [...] A isso chama-se "ressignificar" (reframe).modificar o molde pelo qual uma pessoa percebe os acontecimentos, afim de alterar o significado. Quando o significado se modifica, as respostas e comportamentos da pessoa tambem se modificam (op. Cit., p.9).

Enquanto acoes humanas, a percepcao, a vivencia, a experiencia e a imaginacao formam um conjunto que vem a ditar o grau de significados que o homem lanca ao seu espaco (TUAN, 1980 e 1983). Espaco geografico que pode ser ressignificado atraves da insercao de um novo teor ou contexto, gerado fora ou dentro de suas limitacoes. Assim, a ressignificacao passa a existir como propulsora de novos movimentos de uma dada realidade, acomodando, certamente, a existencia de outros fenomenos e atividades.

Na tentativa de compor um esquema diagramado para o processo de ressignificacao espacial, criamos a representacao a seguir (Figura 1):

[FIGURE 1 OMITTED]

Em suma, do ponto de vista geografico, expresso perceptiva e imaginariamente, o processo de ressignificacao pode ser compreendido pela insercao e presenca de novos elementos simbolicos no espaco, abrangendo formas dos mais variados grupos culturais.

SANTUARIO DE FATIMA DA SERRA GRANDE [6]: EXPLICACOES MITOLOGICAS DE CONSTITUICAO GEOSSIMBOLICA E COSMOGONICA--

Significativo e atuante no lugar onde esta instalado, o santuario tem que ser analisado para alem de sua monumentalidade arquitetonica. Estudado em muito pelo poder de atracao que exerce, embora reconhecido o seu papel de difusao simbolica, o santuario e uma importante impressao cultural da religiao catolica fixado na paisagem e, por isso, deve ser considerado objeto de estudo da geografia (ROSENDAHL, 1997).

Todo santuario reconhecido pela Igreja Catolica [7] reclama por um orgao maior que responda por sua organizacao e administracao. Nao raro, esse orgao pode ser tambem o responsavel pela ideia de sua criacao, cuja tentativa de entender a constituicao mitologica e territorial desta obra requer que passemos pela relacao hierarquica do poder eclesial. A analise do geografo nesse sentido se faz no principio de desvendar os tramites que levaram a fundacao desse centro religioso, que por natureza gera fluxo e, na maioria dos casos, outros fixos.

Via de regra, os santuarios instituidos pela Igreja Catolica recaem sobre a normatizacao de uma diocese, orgao comandado por um bispo diocesano. Por este entender, "a autoridade espiritual do bispo tem, assim, uma componente claramente espacial" (Santos, 2006, p.330). A diocese representa um recorte regional no espaco que usa como maior designio de existencia a alegacao de eficazmente atender a demanda de sua populacao envolvente.

[FIGURE 2 OMITTED]

Por ora, analisaremos como pode ser constituido um espaco sagrado em dominio geografico a partir do caso do Santuario de Fatima da Serra Grande, situado na cidade de Sao Benedito, Regiao da Ibiapaba, Norte do Estado do Ceara (Figura 2).

Ressalta-se que so conseguiremos entender a formacao espacial e mitologica do Santuario de Fatima da Serra Grande (Figura 3) se o relacionarmos com as acoes desenvolvidas pela Diocese de Tiangua, responsavel eclesial por suas atividades, com quem mantem vinculacoes significativas, quando essa tem em vista uma politica de avanco na evangelizacao de seu povo, ao passo que marca e se afirma no territorio. A Diocese de Tiangua abrange o territorio de treze municipios e ocupa uma area de 9.670,7 [Km.sup.2], com uma populacao estimada em 500 mil habitantes. E composta de uma realidade fisico-espacial que mescla areas de litoral, sertao e serra. Esta ultima representada pela Regiao da Ibiapaba, muito referenciada pelo seu potencial turistico.

[FIGURE 3 OMITTED]

Para nos auxiliar na reconstrucao historicoespacial, optamos por entrevistar dois personagens ativos da realidade em estudo. A ideia foi buscar montar, por meio da historia oral, um quadro explicativo para a conformacao supracitada, se transformando na realidade que e hoje o Santuario. Indagamos Dom Francisco Javier Hernandez Arnedo, Bispo da Diocese de Tiangua, e Pe. Antonio Martins Irineu, Vigario Geral da Diocese de Tiangua, Paroco da cidade de Sao Benedito, responsavel maior pelo Santuario. Nesta somatoria, cumpre registrar que algumas colocacoes estao baseadas no trabalho empirico que fizemos no tempo de tres anos de pesquisas (2007 a 2009).

Com efeito, para a nossa ambicao de explicar a constituicao do espaco religioso em pauta, precisamos fazer superar a visao cartesiana de que o "mito" nao pode e/ou nao deve ser objeto de interesse cientifico. A figura mitologica de Maria, encravada nas mentes de uma significativa parcela da populacao, e que impulsiona a atracao que exercem os santuarios marianos espalhados por todo o mundo. So colocando em relevo esse mito e que encontraremos explicacao para tanto.

Supostos acontecimentos miraculosos--Maria aparecendo aos tres pastorzinhos na cidade de Fatima em Portugal, Padre Cicero, em Juazeiro do Norte--CE, tendo transformado uma hostia em sangue quando desenvolvia sua funcao eclesial--servem-nos de exemplos que permitem o exercicio da tentativa de compreender como um mito se torna cosmogonico e consequentemente projetase como agente geografico de primeira linha na transformacao fenomenal de um lugar. Entretanto, nao e do feitio do geografo o papel de questionar a veracidade desses fatos.

Nao identificando um caso tao extremado como os citados, aproximamos como alegacao mitologica maior de justificacao da Diocese de Tiangua para a implantacao do Santuario de Fatima da Serra Grande a admiracao e a devocao popular a Nossa Senhora na Regiao da Ibiapaba. Eis o maior mito argumentativo para tamanha obra. E por essa imagem que se levantou e vem se sustentando o Santuario. Provavelmente, a consistencia e a atratividade que apresenta nao seriam tao grandes se fizesse alusao a outra figura santa, pois assim, dificilmente, a realidade vivida encontrar-se-ia tao adiantada.

Remontando a historia com base nas informacoes que adquirimos em campo, identificamos que a ideia de construcao do Santuario de Fatima da Serra Grande tem sua origem logo depois da chegada de Dom Frei Francisco Javier Hernandez a Diocese de Tiangua, no ano de 1991, nomeado pelo Papa Joao Paulo II para ser o novo e segundo Bispo dessa Diocese, apos o falecimento do seu antecessor. Ao chegar, logo no reconhecimento da area territorial de atuacao da Diocese que estaria agora perante a sua supervisao religiosa, Dom Javier diz ter sentido a necessidade da construcao de uma grande obra que viesse a fortalecer a identidade religiosa de seu povo.

Reconhecendo a falta de um grande nucleo evangelizador que cumprisse a funcao de recepcionar romeiros e peregrinos em seu territorio, a Diocese de Tiangua, atraves das suas liderancas, resolveu investir intensamente na constituicao e no afloramento do mito devocional a Nossa Senhora de Fatima na Regiao. Segundo Dom Javier, uma leitura representativa da formacao do Santuario de Fatima da Serra Grande deve ter inicio com a ida de Padre Antonio Martins Irineu a cidade de Sao Benedito, em 1992, para desempenhar ali a funcao de Paroco, para qual acabara de ser nomeado.

Nessa empreitada, ao longo dos anos, Padre Antonio teria reconhecido nesse seu novo espaco de atuacao uma relativa devocao a Nossa Senhora de Fatima, adotando assim a instituicao de missas nos dias 13 de cada mes, data referencial as aparicoes de Maria na cidade de Fatima em Portugal. Em nosso entender, a firmacao dessas missas nesses preceitos so veio a corroborar para o acrescimo da referida devocao e mais um passo estava sendo dado para a consolidacao do mito. A simbologia de Nossa Senhora de Fatima neste momento concorreria em muito para a escolha desta representacao mariana para fazer alusao nominativa ao Santuario ainda planejado imaginariamente. A escolha por Maria tambem pode ser justificada enquanto estrategia para fugir das "concorrencias santas" de Padre Cicero e Sao Francisco, marcantes em territorio cearense pelas cidades de Juazeiro do Norte e Caninde, ja consagradas pelas visitacoes.

Segundo Padre Antonio, a visualizacao das possibilidades da construcao do Santuario ser constituida so foi ascendendo na medida em que as pessoas foram avivando continuamente a pratica de devocao a Fatima. Embora o processo tenha se dado por sequencia temporal continua desde as primeiras cogitacoes de uma construcao religiosa neste perfil, o Padre demarca 1998 como o ano de referencia cabal aos primeiros passos na articulacao local da Igreja com o povo. A partir desse momento se incitava mais intensamente nas mentes alheias o potencial que se encontrava adormecido. Estamos tratando do imaginario do homem religioso, que e entao reconhecido como a base originaria e mitologica do alavancar dessa realidade.

Numa estrategia de incentivo a devocao a Nossa Senhora de Fatima, a Igreja local promoveu, com a ajuda de um portugues que morava na Ibiapaba, a vinda de uma imagem de Nossa Senhora da cidade de Fatima (Portugal), no ano de 2006. Essa imagem foi abencoada e conduzida ate a cidade de Sao Benedito, sendo recebida com uma grande festa catolica,- fato que, segundo Santos (2008b), demonstra a difusao extraterritorial do Santuario de Fatima de Portugal, tornando o Santuario de Fatima da Serra Grande um local de culto secundario.

Assim, torna-se correto afirmar que o maior "milagre" que aconteceu e vem se dando no e pelo Santuario de Fatima da Serra Grande reside no fato da expressao canalizada da fe do povo ali vivenle. Este e o mito na sua expressao existencial. E esta forca que configura o espaco religioso em pauta. A ideia da Diocese de encravar na sua area de trabalho este Centro so se torna possivel atraves de um trabalho evangelizador direcionado, ao passo que apresenta e provoca o potencial sagrado residente no amago de cada ser. Diga-se de passagem, um trabalho imaginativo, cultural, e refundador do processo de sacralizacao do lugar.

Por sua vez, uma concepcao fenomenologica afirmaria que nao existem "formas em si", e sim, vivencias e relacoes entre o simbolo e o sujeito da representacao--aquele que assimila, da significado e simboliza a forma pela sua imaginacao. Contudo, e possivel aceitar o juizo da existencia de formas mais relevantes que outras, mais carregadas de sentimentos e significados, mais pedagogicas em seu devir coletivo por motivos sociais, ambientais ou incisivamente religiosos. Desse modo, classificamos o Santuario de Fatima da Serra Grande como um geossimbolo.

A aflicao mundana de viver faz com que as pessoas criem seus espacos de redencao. Tentar entender o poder atrativo do Santuario requer que busquemos perceber que forcas seduzem as pessoas que para ali se direcionam. Nesse sentido, Mircea Eliade (2008) vai nos falar sobre a incessante procura do homem religioso por um "Centro do Mundo"[8]: uma especie de arquetipo celeste que o individuo imagina reproduzir a fim de intermediar a sua comunicacao com os deuses, ao mesmo tempo em que vem a sacralizar o mundo profano. E seguindo a conspiracao da busca por este Centro que a cultura religiosa do ser admite a fundacao e as posteriores visitas ao espaco sagrado.

A acomodacao do Santuario de Fatima da Serra Grande acontece quando a Igreja toma posse de um terreno tido ate tao como profano e realiza ali um ato de sacralizacao, tornando-o bendito (ano 2005). Acontecimento historico que dava inicio as obras de construcao e que contou com a presenca de muitos religiosos. Desse modo, enxergamos que esse Santuario e uma aceitacao, reflexo da imaginacao criadora de seres religiosos, "um constructo intelectual, [...] uma resposta do sentimento e da imaginacao as necessidades humanas fundamentais" (Tuan, 1983, p. 1 12). Porem, nao se deve acreditar que esse seja um trabalho puramente humano (ELIADE, 2008).

O Santuario esta fixado em um lugar de destaque na paisagem. Antes da decisao final do local que receberia esta obra sagrada, cogitou-se a possibilidade de outros terrenos, o que nao vingou. Dessa maneira, o Santuario esta posto sobre um morro a mil metros acima do nivel do mar, com uma vista panoramica da paisagem circundante. Vale destacar que, em algumas culturas, as montanhas ja equivalem a um Centro do Mundo, fazendo-o qualitativamente diferenciado.

Efetivamente, podemos afirmar que, antes mesmo da finalizacao de toda a obra, o Santuario de Fatima da Serra Grande ja consegue, embora em maior parte de cunho regional, atrair uma significativa gama de visitantes-religiosos, efetivando-se precocemente como uma realidade ativa. Trata-se de pessoas que desenvolvem as suas experiencias religiosas acreditando piamente na sacralidade desse espaco. Dai, somos levados a reconhecer que o cenario visual que se tem por conta da atratividade deste Santuario constitui uma paisagem "na qual a mensagem que nela se escreve em termos geossimbolicos reflete o peso do sonho, das crencas dos homens e de sua busca de significacao" (Rosendahl, 2007, p. 215).

De fato, por existir uma frequencia que objetiva alcancar desejos espirituais, materiais, de saude, dentre outros, o Santuario torna-se um equipamento simbolico de forte apelo cosmogonico, que se mostra gerando novas significacoes ao seu espaco.

O SANTUARIO DE FATIMA DA SERRA GRANDE E A RESSIGNIFICACAO RELIGIOSA DO ESPACO [TURISTICO REGIONAL]--

Sobre o processo de ressignificacao religiosa desenvolvido pelo Santuario de Fatima da Serra Grande ao espaco e quadro turistico da Regiao da Ibiapaba, constituida de nove municipios serranos, baseamos nossas constatacoes nas percepcoes expressas por visitantes, moradores locais e lideres religiosos, realizando assim um diagnostico interpretativo frente aos principais direcionamentos imaginativos apontados. Quanto aos dados e comprovacoes quantitativas da pesquisa, ver trabalho completo [{].

Embalado pelos avancos tecnicos e (re)descobertas culturais, o homem faz um uso cada vez mais plural do espaco geografico, seja o de sua habitacao, seja aquele que visita. Nesse sentido, a religiao e um dos fenomenos que mais vem provocando a disseminacao de objetos e movimentos responsaveis por novas formas de vivencias no espaco geografico, fazendo render o alavancar de outros fenomenos. Entendemos assim que os movimentos turisticos de um lugar ou regiao podem ser readequados pela ordem de movimentos religiosos. Em outras palavras, acreditamos que o turismo pode ser ressignijicado pela componente religiosa, fato verificado em varias escalas e cidades.

Portanto, a Regiao da Ibiapaba ganha nova significacao com a implantacao do Santuario, gerando simbolismos que acabam por vingar nos seus potenciais turisticos.

Cumpre salientar que as regioes de serra do Estado do Ceara, embora reconhecidas pelas suas potencialidades, ainda padecem de um eficaz planejamento turistico, ao passo que o litoral e em muito valorizado. Na Ibiapaba, mesmo com os esforcos internos, observa-se tambem certa desorganizacao turistica. O desenvolvimento de seu projeto turistico nao tem relegado os discursos individuais de cada municipio.

Proporcionando uma nova configuracao ao quadro de atratividades da Regiao da Ibiapaba, encontra-se aberto a visitacoes o Santuario de Fatima da Serra Grande. Destarte, a ressignificacao da qual falamos ja vem ocorrendo desde quando o terreno que abriga hoje o Santuario recebeu a bencao e passou a ser visitado, fato que foi aumentando em proporcao com as construcoes e a realizacao de festas religiosas.

Mesmo com pouco tempo de atividades, o Santuario em tela, projetado para ser um Centro religioso de grande porte, ja se configura como um dos principais pontos de visitas da Ibiapaba. Contudo, os promotores turisticos regionais ainda relutam em nao enxergar esta realidade, ao contrario da Igreja Catolica que bem visualiza este cenario. Numa atitude ousada, esta nos planos da Igreja, nomeadamente se tratando da Diocese de Tiangua, fazer deste Santuario um complexo de acolhimento religioso com intensos indices de procura.

Sabe-se que os santuarios marianos, em geral, forjam fluxos de interacao inter-regional, vivenciando nos dias de hoje uma especie de "boom" em seus movimentos de peregrinacao. Tudo isso faz com que nao duvidemos do crescimento que o Santuario de Fatima da Serra Grande almeja, respondendo a um processo que e de nivel internacional, a comecar pela instancia primaria do Santuario de Fatima de Portugal.

Nao asseguramos que hoje o Santuario ja desenvolve um trabalho de recepcao para turistas religiosos. Se ocorrer casos assim, este movimento acontece de maneira muito pontual. Pouco se visualiza a presenca destes turistas na paisagem estudada. Confirmamos, sim, um Santuario ainda assentado num pilar de frequencia regional. Alem disso, piauienses representam uma presenca forte, geralmente quando estao de passagem para visitar o Santuario de Sao Francisco das Chagas de Caninde. A parada ocorre para a realizacao de preces junto a Mae de Deus. Talvez fique mais adequado dizer que o excursionismo religioso acontece com maior precisao.

Por outro lado, podemos afirmar que o Santuario de Fatima da Serra Grande ja e reconhecidamente um equipamento de lorte apelo turistico, com demarcadas perspectivas para o futuro, como nos aparece nas representacoes imaginarias inquiridas. Por estes termos, esclarecemos que o "espaco do futuro" ao qual nos referimos so e possivel de ser alcancado pela imaginacao criativa do homem, quando o mesmo realiza as suas reflexoes tendo por base o "espaco concreto". Muitos dos agentes que indagamos fizeram comparacao deste Santuario com outras realidades religioso-geograficas de seus conhecimentos, acreditando na possibilidade de um crescimento atrativo semelhante. So este apontamento ja nos deixa margens para falarmos sobre uma suposta ressignificacao religiosa do turismo regional.

Instala-se junto com o Santuario um novo imaginario regional. A composicao atrativa muda de molde com o acrescimo de mais um ponto significativo. O Santuario, dessa maneira, e mais um agregado(r) aos fluxos turisticos da Regiao, pois, como bem aponta Santos (2006, p. 639), "certo e que os santuarios e os edificios e lugares religiosos, em geral, contem em si elementos de atratividade turistica que nao podem relegar-se para segundo plano, no contexto dos recursos turisticos, podendo falar-se, com propriedade, em recursos turisticos religiosos".

Sem perder suas caracteristicas religiosas, afinal de contas e este sinal que transmite a mensagem de atracao, o Santuario pode ser absorvido para um momento de repensar o turismo na Regiao da Ibiapaba, no sentido de atenuar as dificuldades e harmonizar os interesses. Compreendemos que, num jogo ciclico, tanto o Santuario pode contribuir para desenvolver o turismo na Ibiapaba, como os demais pontos turisticos da Ibiapaba podem contribuir para uma maior atracao do Santuario. Sob este ideario, o Santuario podera logo mais ser inserido nos roteiros turisticos da Serra da Ibiapaba, contribuindo para a circulacao regional dos visitantes.

Demonstrando um poder de fascinio surpreendente dado seu tempo de existencia, a administracao deste Santuario sabe que precisa manter um magnetismo que venha a reafirma-lo continuamente como um geossimbolo cosmogonico, centro real e potencial de atracao. Segundo os proprios religioso-visitantes, o simbolismo peculiar deste Santuario precisa fazer frente a outras realidades geograficas, sugerindo outras escalas de reconhecimento, aumentando assim o seu poder de pedagogico.

Para este efeito, algumas iniciativas devem ser tomadas no sentido de dotar o Santuario de uma infraestrutura adequada. Dentro destes termos, a cidade de Sao Benedito precisa "acordar" para a realidade que e o Santuario. A medida que o Santuario ascenda em suas pretensoes, a cidade devera sentir necessidade de uma requalificacao urbana para bem suportar as demandas territoriais criadas. Nem no reconhecimento que realiza dos seus principais pontos turisticos, como esta posto no seu site oficial, o poder publico municipal faz mencao ao Santuario, denotando a capacidade da Igreja de acelerar e efetivar alguns projetos sem depender de outros orgaos.

Baseando-nos na imponencia deste Santuario, aliado ao seu grau de sofisticacao, acreditamos que a promocao do turismo religioso, antes nao cogitada na Regiao, pode configurar-se como mais uma modalidade turistica possivel nessa Serra. A partir dessa perspectiva, nao se pode pensar o turismo religioso separado de outras modalidades turisticas. A contento das investigacoes empiricas e teoricas que desenvolvemos, podemos dizer com propriedade que, como aconteceu em outros espacos que tiveram seus horizontes e meios atrativos acrescidos, a dinamizacao turistica da Regiao da Ibiapaba tende a nao ser mais a mesma.

Sem a pretensao de apresentar as representacoes dos inquiridos como absolutas verdades e atendendo a uma leitura fenomenologica, ressaltase que as mesmas expressam as marcas e transformacoes imaginarias que o Santuario de Fatima da Serra Grande vem incidindo, ressignificando o espaco vivido da Regiao da Ibiapaba.

CONSIDERACOES FINAIS E TENDENCIAS INVESTIGADVAS

No que tange ao estudo do Santuario de Fatima da Serra Grande, resumimos nossas consideracoes assim: respeitando os sinais das divindades, a fundacao e a sustentacao desse espaco sagrado de primeira linha so se tornam possiveis pela imaginacao dos seres que o idealizaram e, principalmente, por aqueles que o frequentam. Sao pessoas que desenvolvem suas experiencias religiosas acreditando na sacralidade desse espaco de devocao, denotando um itinerario geograficoreligioso eficaz, capaz de gerar novas significacoes ao quadro turistico regional.

Quanto ao estudo da religiao pela geografia, acreditamos ser evidente o conteudo geografico que se traduz na relacao entre o espaco e o sagrado, configurando-se, portanto, como um campo de estudos fertil e amplo. O geografo da religiao, por sua vez, precisa reunir esforcos em suas analises teoricas e empiricas no sentido de crescer no conhecimento desta complexa faceta cultural, trabalhando, quando necessario, com imaginacoes alheias. Seguindo o pensamento de Eliade, ele deve entender que a manifestacao do sagrado funda simbolica e ontologicamente o mundo para o homem religioso, sendo sempre necessario considerar essa orientacao sempre durante suas pesquisas.

Com efeito, entendemos ser possivel desdobrar a investigacao sobre a relacao entre espaco e sagrado em algumas tendencias geograficas de problematizacao intradisciplinar. Propomos, desse modo, tres destas tendencias sem a pretensao de esgotar as interlocucoes com os contextos territoriais, fortemente demarcados pelos campos economico, ambiental e politico.

A primeira tendencia esta na visualizacao do espaco sagrado fundado com a funcionalidade dos investimentos urbanos, expandindo o setor imobiliario, comercial e de servicos (com destaque para o lazer e o turismo). Por essa via, nao ha como ignorar que o "sagrado" qualifica a circulacao de capitais alem de amparar a cidade e a regiao e fomentar outras funcoes traduzindo-se em elemento de crescimento. Poderiamos, assim, chamar essa fundacao de espaco com valor sagrado.

Por outro lado, uma segunda tendencia atualiza fundamentalmente os intercambios entre a critica religiosa ao materialismo urbano e a aclamacao a vida rural, mais comunitaria e mais harmonica com a natureza. Assim, toda sensibilidade e postura ecologica de nossa epoca--mesmo nas contradicoes dos impactos ambientais dos santuarios--encontra forte receptividade no discurso e na pratica religiosa mais conservadora.

Tratar-se-ia de compreender o espaco com sustentabilidade sagrada.

Em uma ultima tendencia, ha que se relembrar que o sagrado catolico cristao nunca perdeu de vista sua motivacao politica universal. As escalas locais e regionais, na disposicao politica de expansao, forjam veiculos de intercomunicacao com outras realidades e, assim, procuram se firmar na constituicao de um espaco fortemente ressaltado pelo acesso que diz possibilitar o "Reino de Deus". Neste sentido, um reinado sagrado que se basta nao tem grande sentido. Dai outro privilegio mitologico exercido pela devocao a Santa Maria. Ao contrario dos outros santos, Nossa Senhora pode demonstrar-se politica e simbolicamente como a Igreja impera (romaniza) o mundo. O espaco como poder sagrado.

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JOSE ARILSON XAVIER DE SOUZA [2]

NOTAS

(1.) Este trabalho e uma sintese da Dissertacao de Mestrado intitulada A Ressignificacao Religiosa !lo Turismo Regional: um Esludo Geografico Cultural do Santuario de Fatima da Serra Grande, orientada pelo Professor Christian Dennys Monteiro de Oliveira, defendida em 2009 na UFC (Universidade Federal do Ceara). Ver: http:// www.posgeografia.ufc.br/images/storics/arquivos/ dissertariIsonxavier.pdf

(2.) Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Ceara. Professor Substituto do Curso de Geografia da UFT (Campus de Porto Nacional--TO). E-mail: arilsonxavieri5Vahoo.com.br

(3.) Nesta obra, a autora portuguesa, especificamente no capitulo tres "A Abordagem Geografica do Fenomeno Religioso: A Geografia da Religiao" produz um apanhado teorico consistente que vem validar cientificamente a religiao enquanto fenomeno de interesse da geografia. Nao por acaso, fazemos por diversas vezes referencia a esta producao.

(4.) O filosofo Gaston Bachelard, quando fala de "Fenomenologia do Redondo" em seu livro "A Poetica do Espaco", nos deixa a seguinte reflexao 1 as imagens da redondeza plena ajudam a nos congregarmos em nos mesmos, a darmos a nos mesmos uma primeira constituicao, a afirmar o nosso ser intimamente, pelo interior" (Bachelard, 1988, p. 237) Em titulo de curiosidade e complemento: Claval (1999) lembra que Yi-Fu Tuan, no que se trata de tenomenologia, preferia usar o termo abordagem humanista, acreditando que as preocupacoes humanisticas, em suas abrangencias, dao conta de encerrar a questao de possibilitar "voz ao ser". Em Topofilia (1980), Tuan traz um apanhado de casos que demonstram como diversas culturas exprimem significados multiplos aos mais variados atributos simbolicos do espaco.

(5.) Para se aprofundar nos estudos de Geografia Cultural, em nivel de Brasil, um dos caminhos pode ser acessar os textos desenvolvidos e tratados pelo NEPEC (Nucleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaco e Cultura), coordenado pela Professora Dr3 Zeny Rosendahl, que funciona na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). O Nucleo organiza a colecao de livros Geografia Cultural e o periodico Espaco e Cultura. Ver: www.nepec.com.br

(6.) Ver: http://www.santuariodefatima.org.br/

(7.) A saber, o movimento catolico, segundo seu direito canonico, adota a terminologia Santuario para qualificar as igrejas e templos que concorrem para a atracao expressiva de fieis e assim conseguem justificar uma representacao vistosa, consistindo em validacoes do bispo diocesano de sua area envolvente (SANTOS, 2008a). Vale destacar ainda que o santuario tanto pode ser um espaco religioso que com o passar do tempo veio a ganhar esta denominacao, como tambem ja surgir enquanto tal.

(8.) No catolicismo a ideia de "Centro do Mundo" tem raizes judaicas, em efetiva mencao a Arca da Alianca, que representava um veiculo de comunicacao entre Deus e o povo escolhido Representava o proprio Deus na terra. O que a Biblia chama de tabernaculo diz respeito ao local de habitacao da Arca--templo de encontro e reverencias. Nasce dai o ato da criacao de novos e outros templos na terra, de novos santuarios. Dessa maneira, para Igreja Catolica o santuario e sinal da presenca divina, local onde se renova o pacto com Deus.
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Author:Xavier De Souza, Jose Arilson
Publication:Espaco e Curtura
Date:Dec 1, 2010
Words:6967
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