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Estudo comparativo da polinizacao de Mangifera indica L. (Anacardiaceae) em cultivo convencional e organico na regiao do Vale do Submedio do Sao Francisco.

COMPARATIVE STUDY OF POLLINATION OF MANGIFERA INDICA L. (ANACARDIACEAE) IN CONVENTIONAL AND ORGANIC CROPS IN THE REGION OF THE SUBMEDIO SAO FRANCISCO VALLEY

INTRODUCAO

A mangicultura na regiao do Vale do Submedio Sao Francisco destaca-se, em nivel nacional e internacional, nao apenas pela qualidade dos frutos produzidos, mas tambem pelo desenvolvimento de tecnologias especificas no manejo da floracao, associadas as condicoes climaticas, possibilitando assim uma producao escalonada durante todo o ano. O escalonamento da producao e obtido por meio da utilizacao de reguladores vegetais, pratica que permite o atendimento racional da demanda, considerando-se epocas mais favoraveis do ponto de vista comercial. Assim, na cultura da mangueira e possivel acompanhar duas floradas no ano, uma na estacao seca (maio a outubro) e outra na estacao chuvosa (novembro a abril). Apesar da intensa florada, a quantidade de frutos que vingam e amadurecem e pequena.

Estudos relativos a biologia floral e importancia da polinizacao para a producao de frutos na mangueira (Mangifera indica L.) foram desenvolvidos a partir do inicio do seculo XX, porem existem pontos de vista variados entre os autores quanto a estrategia reprodutiva (Young, 1942; Sturrock 1944; Singh et al., 1962; MacGregor, 1976; Singh 1989, 1997). Dag & Gazit (2000), em experimentos realizados em Israel, com a variedade Keitt, em plantas de pequeno porte, obtiveram producao de 1kg/planta, quando as flores nao recebiam visitacao e 61kg/planta em polinizacao aberta. Neste mesmo experimento, foram registradas 46 especies diferentes de insetos, pertencentes as ordens Diptera, Hymenoptera e Coleoptera, sendo considerados pelos autores como polinizadores efetivos, os dipteros e abelhas meliferas (Apis mellifera). Singh (1997) observou que paniculas completamente ensacadas nao desenvolviam frutos e que, quanto maior o tempo de exposicao da panicula a visitacao, maior o numero de frutos produzidos. Por outro lado, Young (1942), em experimentos na Florida com a variedade Haden, nao encontrou diferenca significativa na producao de frutos oriundos da autopolinizacao e da polinizacao cruzada.

As informacoes sobre a acao dos visitantes florais nas inflorescencias da mangueira, principalmente aquelas relacionadas a polinizacao, ainda necessitam de estudos complementares, uma vez que as consequencias desta atividade, alem de estarem diretamente ligadas a morfologia, biologia floral e sistema reprodutivo da planta, encontram-se dependentes tambem do manejo da cultura, das condicoes climaticas e da vegetacao do seu entorno, alem do comportamento de forrageamento dos polinizadores.

O polo de producao de manga no Submedio do Vale do Sao Francisco esta localizado na regiao semi-arida, no ecossistema Caatinga, o qual apresenta fauna e flora diferenciadas, necessitando de conhecimentos que integrem e racionalizem o uso da agricultura regional com o seu entorno. Com o objetivo de estudar esses aspectos, foram desenvolvidos experimentos na cultura da mangueira, variedade Tommy Atkins, em area de cultivo convencional e organico, em Petrolina-PE, nos anos de 2005 e 2006.

MATERIAL E METODOS

Este trabalho foi desenvolvido na Fazenda Frutex, municipio de Petrolina-PE (09[degre]09'S, 40[degre]22'W, com 376m de altitude), durante os anos de 2005 e 2006. O clima da regiao e semi-arido, a precipitacao pluviometrica media anual e de 435mm, com as chuvas concentradas no periodo de novembro a abril (Figura 1).

Os experimentos foram desenvolvidos com a variedade Tommy Atkins em cultivo convencional e organico, com areas de 200ha e 5ha, respectivamente, e com espacamento de 5m x 10m, localizadas na mesma propriedade e distantes cerca de 3km. As plantas apresentavam a mesma idade (13 anos), porem, no segundo caso, o cultivo vem sendo manejado de forma organica nos ultimos tres anos. O sistema de irrigacao utilizado no campo, nas duas areas, e do tipo microaspersao.

Para os estudos de morfologia floral, foram marcadas aleatoriamente 60 paniculas, em 10 plantas, localizadas em duas linhas centrais da parcela em floracao. Para as observacoes da biologia floral (horario, coloracao, duracao e sequencia da antese), 17 paniculas foram marcadas em oito individuos escolhidos ao acaso e acompanhadas diariamente. Para determinar os diferentes tipos florais com relacao a posicao na inflorescencia e proporcao de flores hermafroditas e masculinas, foram avaliadas cinco paniculas de cada tipo de cultivo, coletadas aleatoriamente, na area experimental. Observacoes complementares foram feitas por meio de registro fotografico, bem como em flores fixadas em alcool a 70%, analisadas sob microscopio estereoscopico, no Laboratorio de Biotecnologia, da Embrapa Semi-Arido.

Para estimar a viabilidade dos graos de polen, anteras, logo apos a deiscencia (n=10), foram utilizadas na preparacao de laminas, seguindo a tecnica de coloracao de Radford et al. (1974). O numero de graos por anteras (n= 10) foi obtido, a partir de botoes em pre-antese, fixados em alcool a 70%. O calculo da razao polen/ovulo foi realizado segundo Cruden (1977). O volume de nectar, coletado em 50 flores, foi obtido a partir de coletas realizadas entre 8h e 16h, utilizando-se da tecnica do ponto, segundo Kearns e Inouye (1993).

Os visitantes florais foram observados durante todo o periodo de floracao, em dias alternados, no periodo matutino (7h as 12h) e vespertino (12h01 as 18h), sendo anotadas a frequencia, a duracao e o horario das visitas, o comportamento dos visitantes mais frequentes, bem como o recurso floral forrageado. Para cada intervalo de observacao (por ex: 6h-7h), foram feitas, no minimo, cinco repeticoes. As visitas observadas foram somadas e, posteriormente, divididas pelo numero de repeticoes, para calcular o numero medio de visitas de cada intervalo. O esforco amostral das observacoes foi de 272 horas.

De acordo com o comportamento apresentado, os visitantes foram considerados como polinizadores (Dafni, 1992) ou pilhadores (Inouye, 1980). Quanto a frequencia, os visitantes foram classificados em: Abundantes (A), quando apresentavam frequencia de visitas >30%; Frequentes (F), quando apresentavam frequencia de visitas de 10% a 30%, e Raros (R), quando apresentavam frequencias <10%. Alguns visitantes foram capturados, fixados e mantidos a seco, para posterior identificacao e exame dos locais de deposicao de polen. Para analise mais detalhada do comportamento, foram tomadas fotografias e filmagens. Os visitantes coletados foram depositados no Laboratorio de Ecologia da Embrapa Semi-Arido.

Para avaliar a interferencia dos produtos quimicos no comportamento dos visitantes florais, foram feitas observacoes nas areas de cultivo convencional e organico, antes e apos a pulverizacao. Estudos comparativos tambem foram feitos ao longo da floracao com o objetivo de verificar a sazonalidade na visitacao.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Na mangueira da variedade Tommy Atkins, as flores sao simples, rasas, de cores claras, com guias de nectar, exalam odor adocicado e estao reunidas em inflorescencias terminais do tipo panicula, ramificada, de forma piramidal, com a raque comumente ereta, apresentando coloracao avermelhada, que auxilia no processo de atracao visual dos insetos.

Quanto ao numero de flores por panicula, verificou-se que as inflorescencias apresentam numeros variados, sendo encontrados, em media, 968,7 botoes por inflorescencia e 471,8 flores abertas por dia. A analise morfologica das inflorescencias mostrou que as paniculas no cultivo convencional apresentam maior numero de flores e botoes do que no cultivo organico (Tabela 1), o que pode estar relacionado com o metodo de inducao floral do cultivo, que, no primeiro caso, e feito com a aplicacao de paclobutrazol (PBZ) e, no segundo, com urina de vaca. A media registrada concorda com os dados de literatura, sendo de 500 a 10.000 flores por panicula, cuja variacao tambem esta relacionada com a variedade da mangueira (Raghava Kurup, 1967).

Em relacao aos tipos florais, as inflorescencias da mangueira apresentam flores masculinas e hermafroditas, sendo que as primeiras apresentam gineceu rudimentar, quatro a cinco estaminodios, um estame com anteras monotecas, e o nectario apresenta-se na forma de um disco, no centro da flor. Ja as flores hermafroditas apresentam ovario supero, uniovulado, estilete e estigma simples. O androceu apresenta composicao semelhante ao descrito para as flores masculinas. O nectario apresenta- se na forma de um disco hipogino.

As analises das paniculas quanto ao tipo floral revelaram em ambos os cultivos que cerca de 70% sao de flores masculinas, o que equivale a proporcao de 2:1, concordando com a variacao apresentada por Ochse et al. (1961) e por Fraser (1927). Quanto a distribuicao dos tipos florais, na inflorescencia, observou-se predominancia de flores masculinas na base e no meio das inflorescencias nos dois sistemas de cultivo (Tabela 1).

Os graos de polen de botoes florais em pre-antese apresentaram 93% de viabilidade. Os estames apresentaram 920 graos por antera em media, apresentando forma esferica e o tamanho variando de 16,04 a 28,5im. Dentre os estaminoides analisados nos dois tipos florais, somente em uma flor hermafrodita foi registrada producao de pequena quantidade de graos, cerca de 1% do encontrado para os estames. Assim, com base nos dados obtidos, a razao polen/ovulo foi de 920, indicando que o sistema reprodutivo dessa especie pode ser considerado como facultativamente xenogamico, de acordo com Cruden (1977).

A antese das flores e diurna, porem assincronica, sendo registradas flores abrindo ao longo de todo o dia. As flores recemabertas apresentam corola de cor creme, anteras de cor violeta (Figura 2a) e o estigma encontra-se receptivo. Nesta fase, um odor forte e adocicado e exalado pelas flores, funcionando como atrativo a longa distancia.

A corola permanece sem modificacoes por, aproximadamente, 24 horas, quando entao se verifica o inicio da mudanca de coloracao das petalas, com o aparecimento de tons rosados nas extremidades distais (Figura 2b). As anteras passam a apresentar coloracao preta e, nesta fase, ocorre a deiscencia, com o inicio da desidratacao das tecas e exposicao dos graos de polen, de coloracao esbranquicada. Apos 48 horas do inicio da antese, as petalas adquirem tons avermelhados, com guias de nectar de coloracao marrom. Nesta fase, verificou-se alteracao de cor dos filetes dos estames e dos estaminoides, que passam a ter coloracao vinacea, o que caracteriza o inicio da senescencia floral. Assim, embora as flores sejam hermafroditas, nas primeiras 24 horas, somente o estigma esta receptivo, sendo as mesmas funcionalmente femininas. Essa hercogamia favorece a polinizacao cruzada.

Quanto ao nectario, observou-se que sua producao e constante, porem com secrecao de pequenas quantidades (em media 0,045 iL/flor). No campo, era visivel o acumulo de nectar ao redor do ovario, deixando-o com aspecto viscoso e brilhante. Comparando-se o volume de nectar registrado em diferentes horarios ao longo do dia, verificou-se que, no inicio da manha, ocorreu acumulo ligeiramente menor do que nos demais horarios.

A abertura das flores em diferentes horarios, associada a producao constante de nectar em pequenas quantidades, e vantajosa para a especie, que assim mantem a oferta deste recurso de forma continua, garantindo a visitacao dos insetos ao longo do dia, bem como possibilitando que os mesmos visitem maior numero de flores, garantindo, assim, a transferencia de polen entre flores e entre plantas. Alem disso, essa disponibilidade de grande numero de flores nas paniculas confere, concomitantemente, atratividade visual e olfativa facilmente detectada a distancia pelos visitantes florais que sao fortemente atraidos para a cultura.

As flores da mangueira, em cultivo convencional e organico, foram visitadas por 21 especies de insetos pertencentes as ordens: Diptera, Hymenoptera, Lepidoptera e Odonata. O nectar foi o recurso floral forrageado por todos os visitantes, com excecao de A. mellifera, que visitou as flores para coleta de nectar e polen (Tabela 2). No cultivo organico, verificou-se que o numero de especies de himenopteros foi superior ao de cultivo convencional, sendo o inverso registrado em relacao aos dipteros. Entre os visitantes, Apis mellifera (Hymenoptera, Apidae) foi a mais frequente, sendo responsavel por 68,3% do total de visitas em cultivo organico e 45,6% em cultivo convencional. Belvosia bicincta (Diptera, Tachinidae) foi a mais frequente em cultivo convencional (17,7%), enquanto a Musca domestica (Diptera, Muscidae) (10,27%) foi a mais frequente em cultivo organico. As visitas das demais especies foram registradas com frequencias abaixo de 10%, sendo, assim, consideradas raras.

Dados semelhantes, relativos as ordens de insetos, foram citados por Singh (1989) e Jiron & Hedstrom (1985), destacando maior frequencia de visitacao para os dipteros. Em relacao a A. mellifera, os autores comentam que suas visitas foram raras ou nao foram observadas, discordando das observacoes feitas neste estudo. Porem, em estudo realizado no municipio de Juazeiro-BA, foram registradas frequencias de 67,5% para os dipteros e 17,5% para os himenopteros (Viana et al., 2006). Essas diferencas podem ser relacionadas com a fauna disponivel no entorno da cultura, sazonalidade dos visitantes e o proprio manejo da cultura. Neste estudo, a vegetacao nativa no entorno do plantio, bem como a presenca de manchas de vegetacao proximas aos cultivos, servindo de abrigo natural para os insetos, principalmente para as colonias de Apis mellifera, pode ter sido um dos fatores responsaveis pela abundancia desses insetos na area. Assim, vale salientar que o design da cultura e um fator importante para a manutencao dos polinizadores nas areas cultivadas.

Entre os himenopteros, A. mellifer apresentou dois tipos de comportamentos de visita, um para coleta de nectar e outro para coleta de polen, sendo o visitante mais frequente nos dois tipos de cultivo. Para a coleta de nectar, a abelha pousava diretamente sobre a flor, introduzia a glossa na regiao central da corola, tateando o nectario, em busca do nectar. Ao realizar este comportamento, a abelha tocava com a cabeca, pernas e parte ventral do corpo as estruturas reprodutivas, ficando o polen ai depositado, o que caracteriza a polinizacao esternotribica. Apos coletar o nectar de uma flor, a abelha caminhava sobre a inflorescencia, visitando outras flores abertas. As paniculas localizadas na parte superior da copa e expostas ao sol mostraram maior preferencia por parte dos visitantes.

Comportamento semelhante ao de coleta de nectar foi registrado para os demais himenopteros, porem nao foi observado que os mesmos contatavam as estruturas reprodutivas durante as visitas por apresentarem porte inadequado ao tamanho da flor, podendo entao ser considerados como pilhadores deste recurso floral.

Para a coleta de polen, A. mellifera aproximavam-se das flores, pousavam sobre a corola e, com o auxilio das pecas bucais e pernas, retiravam o polen das anteras. Posteriormente, a abelha transferia o recurso coletado para as corbiculas. Alem disso, foi observado durante a visita comportamento de limpeza do corpo, pernas e asas, armazenando o polen nas corbiculas. Ao final da coleta, as corbiculas apresentavam-se repletas de polen, com formato de esferas de cor acinzentada. Esse comportamento foi registrado somente no inicio da manha. A analise do polen retirado das corbiculas (n=10) mostrou que os mesmos estavam impregnados com resina, apresentando consistencia pegajosa, e a avaliacao quantitativa indicou que 100% dos graos eram de M. indica.

Quanto ao comportamento de visita, os dipteros alimentaram-se de nectar. Durante suas visitas, B. bicincta e P. vinetorum (Diptera, Syrphidae) pousavam sobre a flor, inseriam a proboscide na regiao central da flor, de onde coletavam o nectar. Ao realizar esse comportamento, os dipteros tocavam com a regiao ventral do corpo as estruturas reprodutivas, ficando o polen ai depositado, caracterizando, assim, a polinizacao esternotribica. Apos a visita a uma flor, o inseto, geralmente, abandonava a panicula, visitando outras flores proximas ou, entao, abandonava o local. Comportamento semelhante foi registrado para os demais dipteros; porem, em virtude do pequeno porte, esses insetos durante a visita nao contatavam as estruturas reprodutivas das flores, sendo entao considerados como pilhadores de nectar. Viana et al. (2006), levando em consideracao a compatibilidade do tamanho do visitante com a morfologia floral, tambem consideraram os visitantes de pequeno porte menos eficientes como polinizadores da mangueira.

Durante as observacoes, registrou-se, ainda, comportamento agonistico dessas abelhas em relacao aos demais insetos, principalmente quanto a Palpada vinetorum (Diptera, Syrphidae). Nesta situacao, as operarias de A. mellifera impediam que os insetos se aproximassem das flores ou, uma vez pousadas na flor, as abelhas interferiam na visitacao, afastando-as das paniculas. Esse tipo de comportamento pode ter sido uma das causas da diferenca de composicao registrada entre os dois tipos de cultivos (Tabela 2).

Com relacao ao tempo de permanencia na inflorescencia, houve diferenca entre os dipteros mais frequentes e A. mellifera. De modo geral, independentemente do tipo de cultivo, os dipteros passavam mais tempo na inflorescencia do que as abelhas (Figura 3).

Ao se deslocar ativamente pela panicula, A. mellifera tem a possibilidade de contatar os dois tipos florais, favorecendo assim a polinizacao entre flores da inflorescencia, entre paniculas distintas e entre plantas, garantindo o fluxo de polen na populacao. Ao longo das observacoes, foi frequente a presenca de varios individuos visitando uma mesma inflorescencia, sendo observadas ate 10 abelhas por panicula. Os dipteros, por demorarem mais tempo nas inflorescencias e por apresentarem pouca atividade de deslocamento, visitam um numero menor de flores e, como o numero de flores masculinas sao superiores ao de hermafroditas, estes visitantes teriam menores possibilidades de contatar as flores femininas e, portanto, seriam menos eficientes no processo de polinizacao da mangueira.

Quanto a utilizacao de abelhas meliferas em cultivos de mangueiras, alguns autores constataram a eficiencia e a facilidade de manejo das colmeias em experimentos controlados como tambem em cultivos produtivos (Dag & Gazit, 2000; Dag et al., 2001; Kiill & Siqueira, 2006). Esses insetos vem sendo utilizados, com sucesso, nos servicos de polinizacao de outras culturas de interesse economico (D'Avila & Marchine, 2005).

Lembrando que a floracao da mangueira, na regiao do Vale do Submedio do Sao Francisco, ocorre de forma induzida e concentrada em periodos definidos do ano, o uso racional de polinizadores da ordem Diptera nao seria recomendado no momento, pois ainda ha pouca informacao quanto ao seu ciclo biologico, reproducao e ecologia desses insetos. Alem disso, as caracteristicas descritas quanto ao comportamento indicam que, mesmo que haja disponibilidade de insetos na area, estes poderiam nao oferecer uma polinizacao adequada. Por outro lado, para manter esses insetos na area, seria necessario ofertar substratos para nidificacao, sendo que estes, na maioria dos casos, nao estao de acordo com as recomendacoes da Producao Integrada de Frutas, o que inviabiliza a utilizacao dessa pratica.

No cultivo convencional, ocorreu concentracao das visitas no periodo da manha, com reducao progressiva a tarde. O pico de visitacao foi registrado entre 8h30 e 11h30. Ja no cultivo organico, foram registrados dois picos de visitacao, um logo no inicio da manha (7h30 as 8h30) e outro no inicio da tarde (14h30 as 15h30), observando-se um equilibrio quantitativo em relacao aos outros horarios (Figura 4). Comparando-se os dados, notase que houve maior numero de visitas no cultivo organico, sendo que essa diferenca pode ser atribuida a ausencia de aplicacao de agroquimicos na area organica.

Quanto a frequencia de visita, A. mellifera esteve presente em praticamente todos os horarios, com excecao do periodo de 9h30 as 11h30, no cultivo organico, e no ultimo intervalo da tarde, no cultivo convencional (Figuras 5a e 5b). Nesses periodos, houve aumento do numero de especies e da frequencia dos demais visitantes nos dois tipos de cultivo. No cultivo organico, essas abelhas apresentaram o dobro da media de visitas em relacao ao cultivo convencional. Considerando esses dados e o comportamento descrito para as abelhas, pode-se inferir que ha competicao entre os visitantes e que o comportamento agonistico apresentado por A. mellifera estaria interferindo no padrao de visitacao dos demais insetos.

No que diz respeito a visitacao em cultivo convencional, durante a estacao seca e a chuvosa (Figura 6), observou-se que A. mellifera esteve presente nas duas estacoes e em todos os intervalos de observacoes, tendo maior pico de visitacao na estacao chuvosa, no intervalo das 14h as 15h. A presenca de A. mellifera, ao longo do ano, revela que esta especie esta bem adaptada as condicoes climaticas da regiao, sendo encontrada com frequencia em areas nativas no entorno da cultura. Por outro lado, Palpada vinetorum esteve presente apenas na estacao chuvosa, com pico de visitacao das 11h as 12h, indicando que esses insetos necessitam de condicoes climaticas mais favoraveis.

No Brasil, informacoes sobre sirfideos como polinizadores foram registradas somente em areas remanescentes de floresta em Pernambuco, no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, e em area de mata, em Sao Paulo, indicando a preferencia desses insetos por ambientes mais umidos (Arruda & Sazima, 1996; Machado & Loiola, 2000; Morales & Kohler, 2006).

Quanto a influencia da aplicacao de agroquimicos na diversidade de visitantes, a avaliacao mostrou que houve reducao de 50% e de 20% na abundancia de especies de abelhas e moscas, respectivamente, apos a pulverizacao de fungicidas e inseticidas (Figura 7). Comparando a visitacao no periodo da manha e da tarde apos a aplicacao, verificou-se que a maior reducao foi registrada no periodo vespertino, com taxas superiores a 70% (Figura 8). Essa reducao expressiva registrada nesse periodo pode ser atribuida ao manejo da cultura, uma vez que as pulverizacoes sao feitas, geralmente, apos as 15h. Assim, a aplicacao de agroquimicos interferiu nao so na diversidade de visitantes, como tambem na frequencia da visitacao. Esses dados concordam com os de Singh (1989) e Jyothi (1994), indicando que a aplicacao de agroquimicos afeta a atividade dos polinizadores de mangueiras e, consequentemente, a producao de frutos. Assim, no manejo da cultura, deve ser evitada a aplicacao de defensivos no pico da floracao e, se necessario, que os mesmos sejam aplicados no final da tarde, quando ha menor frequencia de visitacao, ou a noite.

[FIGURA 1 OMITIR]

[FIGURA 2 OMITIR]

[FIGURA 3 OMITIR]

[FIGURA 4 OMITIR]

[FIGURA 5 OMITIR]

[FIGURA 6 OMITIR]

[FIGURA 7 OMITIR]

[FIGURA 8 OMITIR]

CONCLUSOES

1-A diversidade de visitantes e o numero de visitas foram maiores em cultivo organico.

2-A aplicacao de agroquimicos reduziu a frequencia e a diversidade dos principais polinizadores e, portanto, deve ser evitada no pico da floracao e em horarios de alta visitacao.

3-Apis mellifera, devido ao seu comportamento de coleta, frequencia e ativo deslocamento nas inflorescencias, foi considerada como o polinizador mais eficiente da cultura da mangueira na regiao do Vale Submedio do Sao Francisco.

4-O design e o entorno da cultura sao um fator importante para garantir a diversidade e a manutencao dos visitantes florais.

AGRADECIMENTOS

Ao PROBIO/MMA/GEF, pelo apoio financeiro durante o desenvolvimento do projeto "Diagnostico de polinizadores no Vale do Sao Francisco"; ao CNPq, pela concessao das bolsas de Apoio Tecnico; a Fazenda Frutex, pela disponibilizacao da area experimental; ao Engo. Agronomo e Apicultor Laercio Alves Puca Junior, pelas informacoes concedidas.

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KATIA MARIA MEDEIROS DE SIQUEIRA (2), LUCIA HELENA PIEDADE KIILL (3), CELSO FEITOSA MARTINS (4), IVANICE BORGES LEMOS (5), SABRINA PITOMBEIRA MONTEIRO (5), EDSANGELA DE ARAUJO FEITOZA (5)

(1) (Trabalho 146-07). Recebido em: 06-06-2007. Aceito para publicacao em; 29-02-2008. Parte da tese da primeira autora no curso de Pos-graduacao em Ciencias Biologicas (Zoologia), CCEN, UFPB, Joao Pessoa-PB e do projeto Diagnostico de polinizadores no Vale do Sao Francisco.

(2) Ms. em Biol. Animal, Universidade do Estado da Bahia, Campus III, Juazeiro-BA, Cefet-Petrolina, katiauneb@bol.com.br.

(3) Dra. em Biol. Vegetal, pesquisadora Embrapa Semi-Arido, kiill@cpatsa.embrapa.br.

(4) Dr. em Zooogia, Departamento de Sistematica e Ecologia, Universidade Federal da Paraiba, cmartins@dse.ufpb.br.

(5) Bolsista Apoio Tecnico--AT/CNPq, Embrapa Semi-Arido.
TABELA 1--Numero de flores masculinas e hermafroditas em relacao
ao posicionamento na panicula, da variedade Tommy Atkins, em
cultivo convencional e organico. Petrolina-PE.

              Masculinas

Posicao       Conv.                 Org.
na panicula   No.        %          No.        %

Base          438        60         241        50
Meio          206        28         201        42
Apice         89         12         36         8
Total         733        100        408        100
%             73                    69

              Hermafroditas

Posicao       Conv.                 Org.
na panicula   No.        %          No.        %

Base          144        52         76         35
Meio          99         36         109        51
Apice         33         12         30         14
Total         276        100        215        100
%             27                    31

              Total

Posicao       Conv.      Org.
na panicula   No.        No.

Base          582        317
Meio          305        310
Apice         122        88
Total         1009       693
%

TABELA 2--Visitantes florais de Mangifera indica L. var. Tommy
Atkins, em cultivo convencional e organico, com seus respectivos
numeros de visitas, porcentagem, classe de frequencia, recurso
floral utilizado e resultado da visita. Classe de Frequencia:
A = Abundante (mais de 30%); F = Frequente (entre 10 e 30%), e
R = Raro (menos de 10%). Petrolina-PE.

                     Cultivo Convencional
Visitantes Florais   No.
                     de visitas   %        Freq.

Diptera
Belvosia bicincta    151          17,66    F
Palpada vinetorum    77           9,01     R
Ornidia obesa        38           4,44     R
Musca domestica      26           3,04     R
Tachinidae sp1       20           2,34     R
Tachinidae sp2       14           1,64     R
Diptero sp1          9            1,05     R
Diptero sp2          14           1,64     R

Hymenoptera
Apis mellifera       389          45,62    A
Trigona spinipes     39           4,56     R
Brachygastra sp      42           4,91     R
Polistes sp.         --           --       --
Camponotus sp.
Vespidae sp1         2            0,23     R
Vespidae sp2         7            0,82     R
Vespidae sp3         1            0,12     R
Vespidae sp4         --           --       --

Lepidoptera
Urbanus sp.          2            0,23     R
Lepdoptero sp1       23           2,69     R
Lepdoptero sp2       --           --       --
TOTAL                854          100

                     Cultivo Organico
Visitantes Florais   No. de
                     visitas      %        Freq.

Diptera
Belvosia bicincta    2            0,12     R
Palpada vinetorum    51           3,17     R
Ornidia obesa        16           0,96     R
Musca domestica      165          10,27    F
Tachinidae sp1       4            0,24     R
Tachinidae sp2       --           --       --
Diptero sp1          --           --       --
Diptero sp2          3            0,18     R

Hymenoptera
Apis mellifera       1097         68,31    A
Trigona spinipes     2            0,12     R
Brachygastra sp      54           3,40     R
Polistes sp.         83           5,17     R
Camponotus sp.       27           1,68     R
Vespidae sp1         74           4,60     R
Vespidae sp2         13           0,8      R
Vespidae sp3         --           --       --
Vespidae sp4         3            0,19     R

Lepidoptera
Urbanus sp.          --           --       --
Lepdoptero sp1       --           --       --
Lepdoptero sp2       13           0,8      R
TOTAL                1607         100

                     Recurso      Resultado
Visitantes Florais   floral       da
                                  visita *

Diptera
Belvosia bicincta    N            (Po)
Palpada vinetorum    N            (Po)
Ornidia obesa        N            (Po)
Musca domestica      N            (Po)
Tachinidae sp1       N            (Pi)
Tachinidae sp2       N            (Pi)
Diptero sp1          N            (Pi)
Diptero sp2          N            (Pi)

Hymenoptera
Apis mellifera       N/P          (Po)
Trigona spinipes     N            (Pi)
Brachygastra sp      N            (Po)
Polistes sp.         N            (Pi)
Camponotus sp.       N            (Pi)
Vespidae sp1         N            (Po)
Vespidae sp2         N            (Pi)
Vespidae sp3         N            (Pi)
Vespidae sp4         N            (Pi)

Lepidoptera
Urbanus sp.          N            (Pi)
Lepdoptero sp1       N            (Pi)
Lepdoptero sp2       N            (Pi)
TOTAL

* (Po) = polinizador;

* (Pi) = pilhador
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Title Annotation:texto en portugues
Author:De Siqueira, Katia Maria Medeiros; Kiill, Lucia Helena Piedade; Martins, Celso Feitosa; Lemos, Ivani
Publication:Revista Brasileira de Fruticultura
Date:Jun 1, 2008
Words:5419
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