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Espraiamento urbano e periferizacao da pobreza na regiao metropolitana de Sao Paulo: evidencias empiricas.

Introducao

Sao Paulo encontra-se no rol das grandes metropoles, aquelas nas quais houve grande explosao populacional recente, e hoje ocupa a posicao de segunda maior cidade da America Latina, atras apenas da cidade do Mexico (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica [IBGE], 2011; Instituto Nacional de Estadistica y Geografia [INEGI], 2011). Como agravante ao rapido crescimento vivenciado na segunda metade do seculo XX, enfrenta problemas relacionados a pobreza e a desigualdade, que adquirem caracteristicas especificas no contexto da grande metropole.

Alem destes problemas, o crescimento do tecido urbano da Regiao Metropolitana de Sao Paulo pode ter acontecido de uma maneira especifica, com espraiamento urbano. Este fenomeno pode ser indesejavel se a area urbana nao estiver crescendo naturalmente (1), mas esteja crescendo mais do que deveria. Definimos como espraiamento urbano o crescimento urbano que e desconcentrado, nao denso e que deixa vazios urbanos dentro da mancha urbana.

Uma caracteristica relacionada ao espraiamento urbano e a periferizacao da populacao. Sejam as classes de baixa renda, sejam as de alta renda (atraidas por promessas de maior seguranca), as familias moradoras das zonas geograficamente perifericas tendem a despender maior tempo em seus deslocamentos pendulares (casa-trabalho) e a ter menos acesso a infraestrutura urbana. Em termos sociais o problema e relevante, pois a maior parte do movimento de periferizacao cabe a populacao de baixa renda, o que gera desigualdade social espacial.

Por outro lado, o esvaziamento de regioes centrais deixa subutilizadas areas historicamente consolidadas, mais bem dotadas de infraestrutura e equipamentos culturais, universidades, parques, bibliotecas ou hospitais. Os custos de se levar infraestrutura as regioes perifericas mais distantes, portanto, tem implicacoes que vao alem da distancia ate as oportunidades de emprego. Alem disso, se a cidade cresce mais do que deveria (2), esses custos sao inflacionados. E sofrem uma distorcao na precificacao, pois somente uma parte da populacao usufrui dos beneficios enquanto toda a populacao paga por boa parte que e fornecida pelo poder publico.

Os dados da pesquisa de Origem-Destino (OD), realizada pela Companhia do Metropolitano de Sao Paulo-Metro, refletem a periferizacao da populacao, indicando o aumento no numero e extensao de viagens realizadas no modo individual. O total de quilometros rodados (3) em todas as viagens para o ano de 1997 e de quase 300 milhoes, enquanto no ano de 2007 esse numero e de mais de 700 milhoes (4),--um aumento de 266%--. Ja o numero total de viagens no modo individual subiu 122% (5). Sabemos como o numero e a extensao das vias nao crescem tao rapido quanto esses numeros, portanto, essa tendencia contribuiu para um aumento dos congestionamentos.

Tambem e verificada a existencia de efeitos negativos do crescimento urbano relacionados especificamente com o meio ambiente. Houve, por exemplo, desmatamento de cobertura vegetal entre os anos 1991 e 2000 como apontado pela Prefeitura do Municipio de Sao Paulo (2002) no mapa de desmatamento do Atlas Ambiental do municipio de Sao Paulo. A area vizinha aos dois grandes reservatorios de agua da porcao sul da rmsp (Represas Billings e Guarapiranga) vem sendo ocupada historicamente por loteamentos clandestinos e favelas, como relatado por Maricato (2001). Alem da perda de cobertura vegetal, a maior impermeabilizacao do solo contribui para as enchentes e elevacao das temperaturas urbanas. Ou seja, a expansao periferica gera impactos sobre o meio ambiente, causando problemas ambientais urbanos sentidos em toda a Regiao Metropolitana.

Colocados desta forma, alguns dos problemas urbanos da rmsp: periferizacao da populacao de baixa renda, aumento dos congestionamentos e ocupacao de areas ambientalmente vulneraveis, podem ser interpretados como indicios de que esta regiao metropolitana estaria passando por um processo de espraiamento urbano.

Assim, trazemos argumentos da teoria economica sobre o tema e fazemos uma analise empirica, checando a existencia do fenomeno na rmsp e buscando seus determinantes. No plano teorico apresentamos a logica da estrutura urbana e o conceito de espraiamento como um crescimento urbano exagerado, ou seja, fruto de falhas de mercado. A parte empirica apresenta a proposta de um indice para mensuracao do fenomeno entre as decadas de 1960 e 2000 e estatisticas descritivas e analise econometrica com dados censitarios de 2000 que caracterizam a periferizacao da populacao de baixa renda.

Monocentrismo, policentrismo e economias de aglomeracao

Para nossa discussao sobre espraiamento urbano o modelo de cidade monocentrica, a sintese Alonso-Muth-Mills (AMM) a partir dos trabalhos de Alonso (1964). Mills (1967, 1972) e Muth (1969), e interessante, pois estabelece explicacoes para a estrutura interna das cidades, especificamente no que diz respeito a fixacao da fronteira entre as zonas rural e urbana e a densidade. Uma das principais intuicoes da economia urbana para explicar a estrutura urbana, decorrente desse modelo, e a equivalencia do valor da queda do aluguel ao aumento dos custos de transportes no orcamento das familias que decidem morar mais longe do centro.

Brueckner (1987) refina esse modelo incorporando o lado da producao de habitacoes com terra e capital como insumos. Dessa forma aparecem como variaveis do modelo a densidade e o raio da mancha urbana. Parece interessante considerar a metropole de Sao Paulo como cidade fechada, na definicao de Brueckner (1987) aquela com utilidade exogena, pois pelo seu tamanho e importancia a influencia das demais cidades na utilidade de reserva dos seus habitantes pode ser desconsiderada. Da solucao para esse caso, chega-se que quanto maior a populacao da cidade, mais longe a fronteira e maior a densidade em todas as localizacoes. Ja um aumento no aluguel da cerra encolhe a fronteira e tambem aumenta a densidade. Um aumento no custo marginal de transportes tambem aproxima a fronteira.

Para a analise do espraiamento sera importante retomar esses resultados. Tanto a fronteira da cidade quanto as densidades tem impacto na nossa medida de espraiamento, pois esta sera calculada com respeito ao crescimento da mancha urbana (mudanca na fronteira de um momento no tempo para outro), e levara em conta quao compacto e esse crescimento (reflete a densidade). O modelo nos traz uma base teorica para conectar as outras variaveis consideradas como os custos de transportes e o tamanho da populacao a estas. Mas possui varias limitacoes, como bem ilustrado por Anas, Arnott e Small (1998) e Brueckner (2000).

Particularmente importante para a compreensao do espraiamento urbano, o trabalho de Henderson e Mitra (1996) propoe um modelo que explica o surgimento de edge citie (6), adaptando o modelo de Fujita e Ogawa (1982). Nesta adaptacao, os autores permitem que haja interacao (comunicacao) entre as firmas, com economias de escala externas as firmas, economias de aglomeracao. Existem agentes grandes, que decidem ao longo de uma historia, e que levam em conta custos fixos para a construcao de um novo centro de emprego. Glaeser e Kahn (2004) interpretam o resultado desse modelo para a analise do espraiamento tanto nos fatores que influenciam na distancia entre os centros, como nos determinantes da extensao da urbanizacao. Esses autores chegam a conclusao de que quanto maior os custos fixos da infraestrutura (para construir um subcentro), menor o espraiamento. Quanto maior o parametro que mede as economias de aglomeracao (opostas as oportunidades de comunicacao dadas pela tecnologia de informacao), menor o espraiamento.

Formas de mensuracao e definicao do espraiamento urbano

Como este sera o conceito em que focaremos a analise da evolucao da area urbanizada em Sao Paulo, cabe esclarecer a definicao e possiveis formas de mensuracao do espraiamento. Daremos inicio mencionando as diferentes definicoes, para em seguida apresentar as dimensoes do fenomeno que podem ser mensuradas. A literatura sobre o tema provem quase inteiramente dos Estados Unidos, onde o termo utilizado e urban sprawl. Parece simples e suficientemente fiel a traducao para "espraiamento urbano", no entanto cabe mencionar como o termo vem sendo utilizado naquele pais. A intensificacao do uso do termo coincide com a mudanca para o padrao atual e predominante de urbanizacao. Assim, uma definicao utilizada por urbanistas e planejadores urbanos norte-americanos e: urbanizacao em baixas densidades, nao planejada, dependente do automovel, com alternativas construtivas homogeneas e esteticamente desagradaveis (Knaap & Talen, 2005).

Em Anas, Arnott e Small (1998), o termo e mencionado como referente ao crescimento urbano que deixa espacos nao utilizados em seu interior (leapfrogging). Os vazios poderiam ate ser beneficos, se urbanizados no futuro a uma densidade superior a da urbanizacao presente. Ja segundo Glaeser e Kahn (2004), a definicao de espraiamento ja esta completa, se trata apenas de duas caracteristicas da estrutura urbana: a descentralizacao e a densidade. Esses autores afirmam que haveria uma divisao ao definir o espraiamento. Os trabalhos em economia urbana tenderiam a olhar para o fenomeno a partir da discussao sobre monocentricidade e policentricidade das cidades. O espraiamento urbano estaria identificado com as cidades policentricas: descentralizadas, mas com subcentros densificados. Contraposta a essa visao, esta a da estrutura urbana descentralizada e tambem pouco densa, sem mencao a existencia ou nao de subcentros. Com relacao as alternativas de mensuracao, Galster et al. (2001) sistematizam as dimensoes do fenomeno, indicando como medir cada uma das dimensoes--que sao oito e deveriam ser levadas em conta simultaneamente: densidade, continuidade, concentracao, aglomeracao, centralidade, nuclearidade, uso misto e proximidade.

Dessas, este estudo seguira a ideia de Glaeser e Kahn (2004), privilegiando o estudo de concentracao e densidade. A densidade e a mais explicita dentre todas as definicoes: o espraiamento implica queda da densidade. Essa se refere a comparacao da densidade residencial ou de empregos. Pode ser medida relativamente a areas que sao subdivisoes do total da cidade, comparando-se a area central com areas distantes, por exemplo. Mas tambem pode ser uma medida global de toda a cidade, comparando-se diversas cidades. Ainda e possivel a analise da evolucao da densidade media ao longo do tempo. Ja a concentracao da urbanizacao e uma medida relativa a localizacao do centro da cidade. Na hipotese de monocentricidade a referencia e o centro historico. Ja na hipotese de policentricidade a medida e feita tambem com relacao aos subcentros de emprego. Mas tambem levaremos em conta os vazios urbanos mencionados em Anas, Arnott e Small (1998). Portanto, definimos como espraiamento urbano o crescimento urbano que e desconcentrado, nao denso e que deixa vazios urbanos dentro da mancha urbana.

Forma urbana e bem-estar. O espraiamento urbano e desejavel?

A partir da revisao teorica feita acima e da motivacao ao tema dada na introducao, e possivel elencar os elementos que compoem o debate sobre se o espraiamento e ou nao socialmente desejavel, Os argumentos a favor se relacionam com o crescimento populacional impondo necessidade de mais espaco, e a preferencia do morador por mais espaco individual. Ja os argumentos contra giram em torno do aumento do uso de automoveis, dos impactos ao meio ambiente e dos custos de infra-estrutura.

As teorias de cidade monocentrica colocam que a fronteira de uma cidade se caracteriza por uma disputa de usos do solo: ganha quem puder ou estiver disposto a pagar mais. Assim, quando o uso urbano "vale" mais que o uso rural, a cidade avanca espacialmente. Ou seja, como argumenta Brueckner (2000), lugares que tem terra de uso rural mais valiosa, sao cidades mais compactas.

Se incluirmos a densidade na analise, e imaginarmos que a escolha do tamanho da moradia e, portanto, dos lotes tem implicacao direta no quao compacta a cidade e, entao, uma mudanca nas preferencias dos consumidores ja e capaz de aumentar o valor da terra urbana na fronteira da cidade. Isto se verifica, por exemplo, se a populacao passa a preferir morar em casas terreas, com jardins e piscinas. Notemos que no modelo de cidade monocentrica mencionado anteriormente as familias sao identicas e, portanto, escolhem o mesmo tamanho de lote em toda a cidade. Um efeito de mudanca de preferencias da familia representativa, ou de aumento de renda, aumentaria o tamanho do lote para todas elas. Outra formulacao desse modelo proposta por Fujita (1989) incorpora heterogeneidade dos agentes e determinam uma funcao de tamanho de lotes. Nessa formulacao, de acordo com as hipoteses sobre as preferencias das familias, e possivel chegar a um equilibrio com lotes maiores na periferia, situacao condizente com um crescimento urbano espraiado.

Outra perspectiva sob a qual podemos olhar o espraiamento e a da mobilidade urbana. A expansao espacial da cidade e seu menor adensamento somente sao possiveis porque as tecnologias de transporte conjugam custo e tempo de maneira atraente para os moradores. Ainda dentro do tema da mobilidade urbana, podemos focar no deslocamento pendular para o trabalho. A descentralizacao dos empregos pode propiciar viagens mais curtas, se as familias se mudam para locais proximos aos empregos, o que tambem e condizente com um contexto de crescimento urbano espraiado.

Passando para os argumentos que fazem perceber o espraiamento como indesejado, seguiremos principalmente a logica exposta por Brueckner (2000), que indica a possibilidade de falhas de mercado no uso do solo urbano. Segundo esse autor, existiriam tres fontes de falhas de mercado: o valor social do espaco aberto (de uso nao urbano), os custos sociais do congestionamento do sistema viario e os custos da infra-estrutura publica.

Tratando do valor social do espaco aberto, o problema parte da mensuracao do valor da terra na zona de expansao. Do ponto de vista do proprietario da terra, seu valor corresponde a rentabilidade que essa terra lhe proporciona. No entanto, existe um valor intrinseco, social da terra que vai alem daquele que o direito de propriedade individual confere ao proprietario. Em termos praticos, a terra nao ocupada gera uma paisagem natural da qual nao so o proprietario desfruta, mas tambem toda a vizinhanca. Quando o proprietario decide construir sobre aquela terra, leva em conta seus beneficios particulares e seus custos particulares, e nao o custo social imposto aos seus vizinhos e a toda a cidade.

A externalidade no caso dos custos de congestionamento ja e bem conhecida, e trata do custo social gerado pela decisao individual em utilizar o automovel, ocupando lugar nas vias. Ao sair com o seu carro, cada pessoa impoe as outras pessoas custos que nao foram contabilizados no momento da tomada da decisao individual. Assim, seriam necessarios mecanismos que fizessem o individuo levar em conta esse custo, internalizando a externalidade.

Ja com relacao a infraestrutura publica: rede de agua, esgoto, iluminacao publica, pavimentacao de vias, etc., a externalidade surge com relacao ao financiamento. E responsabilidade do governo local a provisao correta de todos esses bens a todos os moradores da cidade. Se alguns individuos preferem viver em densidades menores, em areas nao urbanizadas anteriormente, serao gerados mais custos que se esses individuos preferissem viver em densidades maiores em areas ja urbanizadas. Esses custos "extras" serao repartidos nao somente entre aqueles que sao seus beneficiarios, mas entre toda a sociedade. Essa decisao individual esta impondo custos sociais que financiam um beneficio privado.

Cabe aqui salientar o trabalho de Ducci (1998) que descreve o caso do crescimento urbano de Santiago, no Chile. Muitos dos elementos aqui colocados no debate se o espraiamento e desejavel sao apontados pela autora no contexto da realidade chilena. Alem disso, para o crescimento periferico de Santiago, aponta a falta de equipamentos urbanos, escolas, hospitais, comercio, transporte e como a dependencia do automovel gera mais congestionamento e poluicao.

Metodologia

Os dados

Os dados utilizados provem de fontes secundarias, que possuem informacoes na escala intra-metropolitana. Desta maneira sao utilizadas informacoes socio-economicas dos Censos Demograficos de 1991 e 2000 e das Pesquisas de Origem e Destino da Companhia do Metropolitano de Sao Paulo de 1987, 1997 e 2007. As pesquisas OD trazem informacoes sobre os deslocamentos urbanos: numero, tempo e motivo das viagens, assim como trazem informacoes socio-economicas sobre a populacao, como idade, escolaridade, renda e o numero de empregos. Devido ao plano amostrai utilizado os dados levantados sao representativos no nivel territorial das zonas de pesquisa, o que proporciona um retrato da distribuicao espacial das variaveis internas a metropole. No ano de 1987 sao 254 zonas, em 1997 sao 389 e em 2007 sao 460.

A area dos setores censitarios e em geral muito menor que a das zonas de origem e destino. Para os anos em que a compatibilizacao foi feita, o Censo de 2000 e pesquisa od de 1997, existem 21.744 setores censitarios enquanto existem 389 zonas od cobrindo a totalidade da area da rmsp.

Outra fonte de informacoes essencial para a analise sao os produtos cartograficos: "Mapa da Expansao da Area Urbanizada da Regiao Metropolitana de Sao Paulo" e "Mapa de Uso e Ocupacao do Solo da Regiao Metropolitana de Sao Paulo-2002" da Emplasa, Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano. Utilizam-se os mapas digitalizados de evolucao da area urbanizada nos periodos de 1962 ate 2002, pois esses abrangem a totalidade dos municipios da Regiao Metropolitana de Sao Paulo. Cabe deixar claro que o mapa da area urbanizada de 2002 possui maior acuracia que os anteriores, pois a imagem de satelite utilizada e de alta resolucao (satelite Ikonos).

A compatibilizacao das tres fontes de dados: Censo Demografico, Mapas Cartograficos da Emplasa e Pesquisa de Origem e Destino, foi feita atraves da sobreposicao espacial dos mapas das unidades espaciais referentes aos dados. As tres bases de dados possuem informacoes em escalas diferentes. Escolhemos usar a escala intermediaria, dos setores censitarios quando analisamos as informacoes das tres bases ao mesmo tempo.

As analises empiricas

Para a mensuracao empirica do fenomeno do espraiamento urbano observamos os gradientes de densidade e medias de densidades de empregos e populacao em tres anos (1987, 1997 e 2007), construimos um indice de espraiamento, e buscamos seus determinantes na variacao intra-urbana de caracteristicas socio-economicas.

Para estimar o gradiente de densidade de populacao e empregos, utilizamos analise de regressao simples, minimos quadrados ordinarios. Anas, Arnott e Small (1998) comentam como essa tecnica foi bastante utilizada para documentar o que colocam como duas das mais fortes regularidades empiricas da estrutura urbana: como a densidade decai com a distancia ao centro, e como quase todas as cidades do mundo desenvolvido se descentralizam durante o seculo xx. Nossa analise empirica mostrou que Sao Paulo se encaixa nesse perfil.

A analise de regressao tambem foi utilizada para explorar os determinantes do espraiamento urbano. Buscamos a conexao empirica com algumas variaveis socioeconomicas, uma vez que investigamos essa conexao do ponto de vista teorico. Nao tentamos controlar todas as fontes de problemas na estimacao, pois isto ultrapassaria o escopo deste trabalho. Mesmo assim, o exercicio e valido como analise empirica exploratoria do fenomeno.

Em seguida descrevemos em detalhes a construcao do indice de espraiamento urbano, nossa medida empirica mais importante.

A construcao do indice de Espraiamento

O indice de espraiamento e inspirado em Burchfield, Overman, Puga e Turner (2006), e consiste na porcao de area urbanizada contida em um quadrado de 1 km2 centralizado em cada um dos pontos onde e medida a urbanizacao. Esses pontos estao organizados em uma quadricula, uma grelha de pontos, regular.

A quadricula foi construida com um espacamento de 50 metros entre os pontos. Em seguida investigamos para cada um desses pontos se o solo era ou nao urbanizado sobrepondo o mapa da area urbanizada. Entao, construimos ao redor de cada ponto um quadrado de 1 km2 de area e contamos quantos pontos "urbanizados" haviam dentro desse quadrado. Como o quadrado tem 1 km de lado e os pontos estao espacados entre si 50 metros, cabem 400 pontos dentro desse quadrado de referencia. Assim, o indice varia de 1 a 400. Quando o indice vale 400, o ponto no qual esta sendo medido esta completamente cercado de tecido urbano, tomando como referencia o quadrado de 1 km2. Quando o indice vale um, o ponto urbanizado esta isolado, sem nenhum outro ponto urbanizado vizinho, a mais de 50 metros e menos de 1 quilometro de distancia.

Na Figura 1 ilustramos as etapas de construcao do indice para o crescimento da area urbanizada entre 1998 e 2002. A Figura 1 (A) mostra um detalhe da mancha urbana consolidada em 1997 e o crescimento da mesma ate 2002. Em seguida, na Figura I (B) mostramos a quadricula de 50m x 50m correspondente a area urbanizada ate 2002. E com base nessa quadricula que calculamos os valores do indice. Na Figura 1 (C) os tons de cinza dos pontos da quadricula variam de acordo com o valor do indice, exclusivamente na area onde houve crescimento urbano. Valores mais altos sao mais escuros. Note-se que nas bordas da mancha os valores do indice tendem para o branco, enquanto no interior tendem para o preto. Isto indica como o crescimento urbano no interior da mancha e mais compacto (valores altos do indice), e na sua borda e mais esparso (valores baixos do indice).

Essa escala de analise permite que o indice seja sensivel a "buracos" dentro da area urbanizada. No mapa da mancha urbana de 2002, esses "buracos" correspondem aos vazios urbanos com alguma cobertura vegetal: parques, florestas ou rios e lagos. Essa caracteristica e importante, pois dessa maneira nosso indice esta captando a disputa entre os usos urbano e rural na zona de crescimento da metropole.

[FIGURA 1 OMITIR]

Portanto, esse indicador permite descrever o fenomeno a partir do ponto de vista da definicao de espraiamento que envolve a concentracao, a densidade e a continuidade da area urbanizada, sem a necessidade de identificar e localizar sub-centros de emprego. Alem disso, ele e interessante por trazer informacoes em uma escala geografica bastante detalhada, possibilitando a analise intra-urbana do fenomeno. Como a densidade, ele e sensivel a escala geografica de analise, ou seja, ao tamanho do quadrado de referencia do calculo da porcao de area urbanizada. Esse tamanho e o espacamento da quadricula poderiam ser modificados, captando diferentes fenomenos de acordo com a escala geografica de analise.

Evolucao urbana em Sao Paulo

A caracteristica da metropole de Sao Paulo que estamos interessados em investigar, se ela e espraiada ou nao, pode ser compreendida a partir do processo de estruturacao desse territorio. Esse, por sua vez, responde tanto a estimulos decorrentes das atividades economicas, quanto a estimulos das politicas publicas implementadas.

A grande mudanca recente, na estruturacao urbana da metropole, foi a predominancia de empregos na cidade de Sao Paulo no setor terciario. Como colocado em Biderman (2001), essa nova atividade economica se beneficia mais de ganhos de urbanizacao. Segundo Meyer, Grostein e Biderman (2004), isto renova a distribuicao funcional dos municipios da regiao e provoca mudancas na utilizacao do espaco. A nova funcao de servicos especializados para consumidores e firmas se concentra no municipio de Sao Paulo. Ela provoca a necessidade de novos espacos, mais modernos, incitando a desconcentracao das funcoes centrais.

Em geral, esse movimento intraurbano reforca o padrao periferico de urbanizacao, no qual a porcao central da metropole perde populacao, enquanto a mancha urbana continua crescendo. O poder publico, por sua vez, nao so corrobora como tambem e indutor desse padrao, pois constroi conjuntos de habitacao popular em zonas muito afastadas do centro, e permite a invasao de areas desocupadas nas franjas da cidade.

Assim, as populacoes de menor renda paulatinamente passam a morar nas periferias por tres razoes. A disponibilidade de terrenos que pudessem ser ocupados de forma irregular (mais intenso na regiao sul). A oferta publica de grandes conjuntos habitacionais a partir da decada de 1960 (mais intenso na regiao leste), o que tambem estimulou a autoconstrucao na periferia devido a oferta de lotes urbanizados de baixo preco. Na decada de 1980 o movimento para a periferia tambem se intensifica nas camadas de maior poder aquisitivo que buscam os condominios fechados (Meyer et ah, 2004).

Taschner e Bogus (2001) tambem identificam a reestruturacao dos processos produtivos e mudancas socio-ocupacionais no espaco intrametropolitano paulista. Estas autoras apontam como o padrao de crescimento demografico e periferico mas adicionam a esta analise o perfil ocupacional das camadas sociais. Identificam a desigualdade social como efeito da globalizacao, mas qualificam essa desigualdade no espaco como "espacos fortemente segregados, onde a presenca seja da populacao de alta renda e alta qualificacao profissional, seja de populacao de baixa renda e precaria qualificacao para o trabalho, e pouco permeada por elementos de outras camadas sociais". (Taschner & Bogus, 2001, p. 112). Essa segregacao aconteceria tambem na periferia.

A infraestrutura urbana e um ponto-chave na evolucao do espraiamento. Necessariamente a conversao de terra rural em terra urbana implica provisao de infraestrutura urbana. Mas e o poder publico que tem a incumbencia de faze-lo e e a totalidade da sociedade que paga por ela. No caso brasileiro e, em particular, de Sao Paulo, como e a populacao de menor poder economico que predominantemente ocupa as zonas perifericas, e muitas vezes em carater irregular, esta provisao e lenta, insuficiente, na medida em que essa populacao de menor renda tem menor poder politico. Como exemplo dessa situacao, a Figura 2 ilustra os dez piores municipios em proporcao de domicilios conectados a rede publica de agua ou de esgotamento sanitario para o ano 2000, todos na periferia da RMSP.

[FIGURA 2 OMITIR]

Houve espraiamento urbano em Sao Paulo?

Estimacao dos gradiente de densidade

Segundo Anas, Arnott e Small (1998), o padrao de distribuicao das densidades populacional e de empregos pode ser aproximado por uma funcao exponencial negativa da seguinte maneira:

[EXPRESION MATEMATICA IRREPRODUCIBLE EN ASCII]

Onde k e a distancia ao centro, D(k) e a densidade em funcao da distancia ao centro, [D.sub.0] e a densidade no centro e [D.sub.1] e o gradiente de densidade. Esta funcao pode ser estimada utilizando-se uma regressao linear simples, aplicando o logaritmo natural para os dados disponiveis para cada zona origem-destino. Em seguida apresentamos os resultados:

Todos os gradientes estimados decrescent ao longo dos tres anos. Eles sao estatisticamente significantes com um nivel de significancia de 1%. Em todos os periodos a inclinacao da funcao de densidade dos empregos e maior que a populacional. Assim, tanto empregos como residencias estao se desconcentrando. Por outro lado, os empregos permanecem mais concentrados que as residencias. Os gradientes cada vez menores indicam que a fronteira urbana esta cada vez mais longe.

As medias das densidades populacional e de empregos das zonas origem e destino, apresentadas na tabela 2, complementam as informacoes dos gradientes de densidade. O aumento constante da media das densidades de empregos indica como estes estao se concentrando em algumas zonas origem-destino. Ja a queda da densidade media populacional entre 1997 e 2007 indica desconcentracao da populacao nesse periodo, condizente com a dispersao residencial e espraiamento urbano no periodo. Portanto, a queda dos gradientes de densidade de empregos e populacional e a queda da densidade populacional no periodo 1997-2007 sao medidas empiricas que descrevem o crescimento urbano da rmsp como espraiado.

Indice de espraiamento do crescimento da mancha urbana

Para identificar mais detalhadamente o fenomeno do espraiamento urbano, passamos a relatar o resultado da mensuracao do indice de espraiamento proposto, exclusivamente na parte da cidade onde houve crescimento da mancha urbana para os seis periodos de crescimento disponiveis. Atraves desse indice, medimos se o tecido urbano cresceu de forma mais ou menos compacta. Como mencionado anteriormente, na borda da mancha urbana o indice e menor, assim como no interior da mancha urbana o indice e maior.

[GRAFICO 1 OMITIR]

Apresentamos, no Grafico 1, a evolucao do indice calculado para o crescimento da mancha urbana e a media anual do crescimento da area urbanizada. O indice do periodo 1981-1985 (242) cresceu com relacao ao periodo 1975-1980 (180). Esse e o unico comportamento de crescimento compacto, que preenche vazios urbanos, ao longo de todo o periodo estudado. Os outros periodos aparentam uma queda

do indice, ou seja, crescimento urbano mais disperso. Ja com relacao a area media de crescimento da mancha urbana, apos 1974 ha uma tendencia de crescimento cada vez menor em area. O aumento muito grande na media anual do crescimento da area urbanizada para o ultimo periodo e justificada pela utilizacao de foto de satelite mais detalhada em 2002, que capta menores areas urbanizadas antes nao identificadas. Assim, a mensagem que extraimos e que a partir de 1985 o crescimento urbano que aconteceu em menor quantidade foi tambem se organizando de maneira cada vez mais esparsa na fronteira da metropole. Portanto, esse periodo mais recente e compativel com o fenomeno de espraiamento urbano.

Os determinantes do espraiamento

Descricao das variaveis utilizadas

Neste exercicio empirico a variavel explicada, oriunda dos mapas de expansao da area urbanizada da Emplasa, e a media do indice de espraiamento mencionado na secao anterior, calculada dentro dos setores censitarios de 2000. Utilizamos como variaveis explicativas as informacoes tanto das pesquisas od do metro quanto do Censo Demografico 2000. Apresentamos, na Figura 3, o mapa do valor do indice para cada um dos pontos onde ele foi calculado, no periodo de 1998 a 2002. Note-se como os valores mais altos estao proximos da borda da area urbanizada ate o ano de 1997, o ano imediatamente anterior ao crescimento considerado.

[FIGURA 3 OMITIR]

Passamos a analisar as variaveis utilizadas. A superposicao do mapa de crescimento da mancha urbana entre 1998 e 2002 e o mapa de setores censitarios indicou os setores onde houve crescimento urbano (periferia), apenas 1,5% do total. Apresentamos, na Tabela 3, as estatisticas descritivas das variaveis dependentes e independente para esses setores e para os setores correspondentes a mancha urbana de 1997. Esses dados formam um bom retrato da porcao da metropole que estamos estudando.

A media do indice de espraiamento nos setores onde houve crescimento urbano sao muito inferiores as dos setores da mancha de 1997, indicando como a nova ocupacao urbana e menos compacta que a consolidada.

Com relacao as viagens por modo, tanto para a periferia quanto para a mancha consolidada as viagens por modo coletivo sao em media superiores as de modo individual. No entanto, na mancha consolidada as viagens por modo coletivo sao ligeiramente superiores enquanto na zona de expansao urbana a media e mais de 60% maior que as viagens por modo individual. Da mesma maneira, ha menos automoveis por domicilio que para os setores da mancha de 1997. Ou seja, a populacao ocupando a periferia se desloca menos de automovel que a populacao da mancha consolidada.

Surpreende como a densidade de domicilios dos setores da expansao urbana e muito maior que da mancha consolidada. Com relacao a extensao da rede de agua e esgoto, e curioso como a rede de esgoto cobre uma proporcao muito menor de setores que a de agua, alem de ser muito inferior a da mancha consolidada.

Analisando a renda media do responsavel pelo domicilio, a amplitude e semelhante entre os dois grupos de setores. Como as medianas sao menores que as medias, ha evidencias de concentracao de renda nas classes de renda superiores. Mesmo assim, a renda e consideravelmente menor na franja de expansao metropolitana.

Olhando mais de perto para a distribuicao da renda identificamos os setores censitarios do decil inferior de renda e os do decil superior de renda considerando os dois conjuntos de setores ao mesmo tempo, tanto os da franja periferica, quanto os da mancha consolidada. O limiar de renda media do decil superior e de 2.464 reais de 2000, enquanto que o limiar do decil inferior de renda e 367 reais de 2000. De um total de 21.495 setores 3.424 (16%) estao na zona de expansao urbana. Mas, dos setores do decil inferior de renda 33% estao na zona de expansao urbana e dos setores do decil superior apenas 4% estao neste grupo. Ou seja, ha proporcionalmente mais pobres na franja de expansao urbana e menos ricos. Esmiucando a distribuicao espacial da renda apresentamos, na Figura 4, a localizacao desses setores. Notamos como a expansao urbana acontece de forma mais generalizada pelas classes mais pobres, enquanto pela classe mais rica acontece de forma mais concentrada. Cabe notar especificamente a ocupacao de alta renda na porcao Noroeste da metropole, onde se concentram condominios fechados ja mencionados no texto.

[FIGURA 4 OMITIR]

Com relacao a variavel de setores censitarios subnormais (7), indicando se o setor e ou nao subnormal, 9,55% dos setores em questao sao subnormais, proporcao muito semelhante a totalidade dos setores da mancha consolidada, de 9,42%. Neles encontramos a populacao de baixa renda: verificamos que a media da renda media mensal do responsavel nos setores subnormals e de 332 reais de 2000, bem menor que nos demais setores, de 742 reais de 2000.

Em resumo, este retrato e condizente com a seguinte descricao da periferia da metropole: onde ha ocupacao apresenta alta densidade domiciliar, mas com poucos empregos e com infra-estrutura urbana insuficiente. Viaja-se pouco de carro, pois a renda e abaixo da media. Mas a desigualdade de renda e grande, com alguns locais de alta renda, os condominios fechados. Ha menos ricos na periferia que na mancha urbana consolidada.

Estimacao econometrica dos determinantes do espraiamento

Como estrategia de controle de endogeneidade seguimos Burchfield et al. (2006), utilizando as medidas das caracteristicas no periodo inicial como determinantes do indice de espraiamento do crescimento da area urbanizada. A escolha do periodo analisado foi feita com base na disponibilidade dos dados, pois somente tivemos acesso ao mapa de setores censitarios do ano de 2000 (8). Assim, utilizamos as informacoes das pesquisas od de 1997 e do Censo Demografico de 2000 como descritores do periodo inicial. Por outro lado, o periodo de crescimento da mancha urbana considerado foi o de 1998 a 2002. Devemos considerar o periodo de crescimento de 1998 a 2002 como suficientemente desconectado das condicoes iniciais do Censo de 2000. Isto enfraquece uma correlacao direta entre o que aconteceu no periodo de 1998-2002, com as caracteristicas da area em 2000, viabilizando nossa estrategia de controle de endogeneidade.

Os resultados da regressao sao apresentados na Tabela 4. A escolha dos determinantes se confirmou como apropriada, pois somente duas variaveis nao sao estatisticamente significantes. Dentre os determinantes encontramos aqueles corroborando o modelo de cidade monocentrica, e aqueles que nao estao de acordo com as hipoteses desse modelo. Os determinantes em sintonia com o modelo de cidade monocentrica podem ser divididos em dois blocos. O primeiro reunindo as variaveis mensurando a proximidade a centros ou subcentros (distancia ao centro e as densidades). O segundo, relativo as variaveis de mobilidade urbana (aproximacoes dos custos de transporte). Ja com relacao a determinantes que nao estao de acordo com as hipoteses do modelo de cidade monocentrica temos um bloco de variaveis captando a heterogeneidade dos agentes (renda e caracteristica subnormal do setor), alem de um bloco de variaveis que captam a presenca de infra-estrutura (agua e esgoto). Estas caracteristicas nao estao de acordo com a hipotese do modelo AMM que diz que o suporte fisico da cidade deve ser espacialmente homogeneo em suas caracteristicas. Em seguida comentamos os resultados de acordo com cada bloco de variaveis.

Com relacao a proximidade de centros ou subcentros, a significancia e o sinal do coeficiente da variavel distancia a Se confirmam o poder explicativo do modelo de cidade monocentrica. Esse e um resultado esperado, pois nosso indice de espraiamento e tambem uma medida de densidade, que segundo o modelo AMM cai quanto maior da distancia do centro de negocios. Alem disso, esta regularidade empirica tambem e captada pela nossa estimacao do gradiente de densidades apresentada anteriormente.

Ja as variaveis: densidade de empregos e densidade de populacao, com seus sinais positivos, podem ser interpretadas como indicando a coexistencia da cidade monocentrica com a policentrica. O centro historico permanece importante, mas existem outros subcentros tambem importantes. Pela definicao de um centro, este possui maior concentracao de empregos. Por sua atratividade, quanto menor a distancia a ele, maior a densidade populacional. Assim, ambas as variaveis podem ser vistas como medindo a proximidade a subcentros, o que explica os impactos positivos no indice de espraiamento.

O bloco com variaveis relacionadas a mobilidade urbana das areas com crescimento urbano tambem e analisado a luz do modelo AMM. Estas variaveis sao fundamentais no contexto de nossa analise, pois o automovel e causador de poluicao atmosferica e congestionamentos, alem de ser apontado como grande causador do espraiamento urbano em Glaeser e Kahn (2004), assim como em Burchfield et al. (2006).

No modelo AMM, mudancas nos custos de transportes tem impacto sobre a fronteira da cidade e a densidade. Um aumento nos custos marginais de transporte implica na fronteira da cidade mais proxima ao centro e rotacao no sentido horario da funcao de densidade. Ou seja, no nosso caso, diminuiria o indice de espraiamento para o crescimento da mancha urbana.

Desta forma, e interessante que a variavel "media de automoveis por domicilio" tenha um coeficiente negativo. Ela constata que de fato a possibilidade de se locomover em automovel implica em um crescimento urbano mais esparso, como dizem as teorias em que o automovel e o causador do espraiamento urbano. No contexto do modelo AMM, podemos considerar o modo de deslocamento via automovel como mais custoso que os demais modos, justificando o impacto negativo no indice.

Em seguida apresentamos os resultados para as variaveis que medem o total de viagens produzidas por modo de deslocamento. O total de viagens por modo individual nao e significante, apesar da significancia da variavel referente a media de automoveis por domicilio. Ja as variaveis relativas aos deslocamentos via modo coletivo e a pe sao significantes, passamos a interpretar seus coeficientes. Consideramos que o que diferencia o impacto desses modos de deslocamento e o custo de transporte. As viagens a pe sao menos custosas, em termos monetarios, que as viagens por modo coletivo. Portanto, justifica-se que o impacto dessa variavel no indice de espraiamento seja positivo, enquanto a variavel que mede o total de viagens do modo coletivo tem impacto negativo. Outra caracteristica relativa as viagens por modo coletivo na RMSP e que as tarifas sao unicas, nao variam de acordo com o comprimento das viagens. Portanto, sao um estimulo a ocupacao de terras mais distantes, ainda atendidas por alguma linha de onibus. Esse fato ajuda a explicar que zonas onde se usa mais o transporte coletivo apresentem crescimento urbano menos compacto.

Deixamos de lado o arcabouco do modelo AMM, apresentando o impacto das variaveis que indicam a heterogeneidade dos habitantes na rmsp, quais sejam, a renda media do responsavel e o fato do setor ser subnormal ou nao. A analise das estatisticas descritivas feita anteriormente nos mostra como estas variaveis indicam as duas possibilidades de ocupacao da periferia identificadas na analise do historico da cidade. Por um lado a populacao de menor renda, em busca de opcoes baratas de moradias, por outro a populacao de alta renda em busca de condominios fechados. Devido as restricoes orcamentarias, a ocupacao da populacao de baixa renda e mais compacta que a da populacao de alta renda.

A dummy da subnormalidade indica o aumento de 32 unidades no indice de espraiamento, esta variavel sinaliza a ocupacao do solo de forma ilegal, sem deixar espacamentos minimos entre as edificacoes. Favelas, por definicao, sao muito densas. O sinal da variavel de renda e coerente com a hipotese de ocupacao menos compacta (indice de espraiamento baixo) das populacoes de maior renda em condominios fechados. No entanto, essa variavel nao e estatisticamente significante, portanto, nao podemos confirmar empiricamente a conexao entre alta renda e ocupacao menos densa da area urbana.

Entrando na interpretacao das variaveis que medem a rede de infra-estrutura urbana de abastecimento de agua e rede de esgoto, vemos que ambas variaveis possuem um impacto positivo no indice. Um aumento de 100% de domicilios atendidos por rede de agua aumenta o indice em 75 pontos enquanto um aumento de 100% na rede de esgoto aumenta o indice em 29 pontos. Como esse impacto acontece a partir de condicoes iniciais sobre o crescimento urbano, isso significa que lugares com maior provisao de infraestrutura atraem crescimento mais compacto que lugares com menor infraestrutura. Como vimos na teoria, a urbanizacao de zonas mais afastadas da cidade implica em custos de infraestrutura que serao bancados pelos contribuintes da cidade inteira. Esse impacto tambem pode ser interpretado a luz dos resultados do modelo de Henderson e Mitra (1996), que tambem menciona que menores custos de infraestrutura estimulam a urbanizacao, no seu caso, sob a forma de novos centros de emprego.

Conclusoes

A partir da nossa definicao de espraiamento urbano: a area urbanizada cada vez menos concentrada, menos densa e com mais vazios urbanos, elencamos os principais resultados da analise, para concluir se houve ou nao espraiamento urbano na RMSP. Complementarmente, retomamos os principais esclarecimentos com relacao aos seus determinantes, que nos permitem explorar os vinculos com os problemas urbanos que nos serviram de motivacao: os congestionamentos, a vulnerabilidade ambiental e a desigualdade socio-espacial.

Cabe destacar o grande esforco feito no sentido de encontrar uma medida empirica do fenomeno do espraiamento urbano. Ressaltamos que o indice proposto satisfaz esse objetivo, pois, leva em conta os tres aspectos do fenomeno. E sensivel a vazios urbanos, e medido em escala geografica suficientemente detalhada e, ao ser medido apenas na parte da area urbanizada em que houve crescimento urbano, leva em conta a deseoncentracao populacional. Por outro lado, o fato de se utilizar uma mesma quadricula de pontos para traduzir as informacoes dos mapas de area urbanizada dos diferentes anos permitiu a comparacao temporal e analise da evolucao urbana.

Com relacao a densidade media das zonas od, houve a queda da densidade populacional no periodo 1997 a 2007. Por outro lado, a analise dos gradientes de densidade indicou uma tendencia a desconcentracao tanto de populacao quanto de empregos. A analise da media dos indices de espraiamento urbano calculados na franja de crescimento urbano passa a cair somente a partir do periodo 1981 a 1985 em diante. Portanto, concluimos que houve espraiamento urbano na rmsp, porem nao em todo o periodo estudado (1962 a 2002), mas apenas no crescimento urbano mais recente.

Passando para as causas do espraiamento, foram possiveis analises interessantes relativas aos efeitos das diferencas dos custos de transporte de diferentes modalidades de deslocamento. Destaca-se a insercao das causas do espraiamento no contexto do processo de periferizacao da populacao pobre e opcao das classes altas por condominios fechados. Os determinantes encontrados e a analise de seu impacto indicam que esse fenomeno acontece principalmente a partir da ocupacao da periferia urbana pelas classes de renda inferiores. A analise da provisao de infraestrutura para essa periferia de qualidade de vida precaria coloca o poder publico num circulo vicioso: pois quanto mais disponibilidade de infra-estrutura tambem maior sera o "espalhamento" da area urbanizada.

Essas conclusoes mostram a urgencia de alternativas habitacionais populares na parte ja consolidada da cidade. Nesses lugares os investimentos em equipamentos publicos e infra-estrutura ja estao feitos, ha menos necessidade de automovel, que causa congestionamentos e evita-se o uso de areas de cobertura vegetal nativa que deveriam ser preservadas.

Vanessa Nadalin. Instituto de Pesquisa Economica Aplicada, Brasilia, Brasil.

Danilo Igliori. Universidade de Sao Paulo, Sao Paulo, Brasil.

Recibido el 29 de mayo de 2013, aprobado el 9 de mayo de 2014

E-mail: Vanessa Nadalin, vanessa.nadalin@ipea.gov.br | Danilo Igliori, digliori@usp.br

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(1) Discutiremos mais adiante a ideia do crescimento "exagerado", nao "natural" das cidades.

(2) Discutiremos mais adiante a ideia do crescimento nao "natural", das cidades que crescem mais do que deveriam.

(3) Computamos a extensao de cada viagem como a distancia euclidiana entre o centroide da zona de origem e o centroide da zona de destino.

(4) O total de quilometros rodados em 1997 e 286.280.160 km. Em 2007, 762.994.798 km.

(5) O total de viagens produzidas no modo individual para o ano de 1997 e de 31.432.205, enquanto para o ano de 2007 e de 38.234.971. (6) As edge cities sao um fenomeno diferenciado da periferizacao de empregos e familias. Sao cidades proximas a grandes centros, de uso misto, com todas as funcoes de uma cidade. Sao criadas por grandes incorporadores da iniciativa privada. Em Sao Paulo, o condominio residencial e empresarial de Alphctville e um exemplo.

(7) A definicao de aglomerado subnormal do ibge: "E o conjunto constituido por um minimo de 51 domicilios, ocupando ou tendo ocupado, ate periodo recente, terreno de propriedade alheia (publica ou particular), dispostos, em geral, de forma desordenada e densa, e carentes, em sua maioria, de servicos publicos essenciais".

(8) Cuja fonte foi o centro de estudos da metropole.
TABELA 1 Estimativas do gradiente de densidade

TIPO DE DENSIDADE   ANO    GRADIENTE   DENSIDADE    R2
                                       NO CENTRO

Empregos            1987   0,212       3.159        0,471
Empregos            1997   0,149       8.171        0,311
Empregos            2007   0,125       21.634       0,652
Populacional        1987   0,144       10.353       0,616
Populacional        1997   0,114       8.935        0,249
Populacional        2007   0,064       16.155       0,359

FONTE ELABORACAO PROPRIA A PARTIR DOS DADOS DAS PESQUISAS DE ORIGEM
E DESTINO COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SAO PAULO

TABELA 2 Medias das densidades de empregos e populacional nas zonas
de origem-destino

             DENSIDADE      DENSIDADE DE
             POPULACIONAL   EMPREGOS

ANO   1987   7.511          4.762
      1997   9.918          5.133
      2007   8.684          8.177

FONTE ELABORACAO PROPRIA A PARTIR DOS DADOS DAS PESQUISAS DE ORIGEM
E DESTINO COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SAO PAULO

TABELA 3 Estatisticas descritivas das variaveis dependentes e
independente

                                 SETORES DA MANCHA ATE I997

                              MEDLA    MEDIANA   MINIMO   MAXIMO

indice de Espraiamento        105      93        9        347
Distancia a Se (km)           15,6     15,2      0,1      80,3
Densidade de Empregos         52       30        0        1.371
  ([km.sup.2])
Viagens produzidas por modo   44.154   33.512    0        144.496
  coletivo
Viagens produzidas por modo   43.161   28.469    0        215.202
  individual
Viagens produzidas por modo   55.364   38.265    0        272.776
  a pe
Media de automoveis por       0,74     0,67      0,12     2,31
  domicilio
Densidade de Domicilios       9.394    4.503     0        812.196
  (domicilios/[km.sup.2])
% de domicilios abastecidos   98,2%    100,0%    0,0%     100,0%
  com agua da rede geral
% de domicilios com           86,7%    99,2%     0,0%     100,0%
  esgotamento sanitario via
  rede geral
Renda media do responsavel    1.248    798       47       18.876
  (reais de julho de 2000)

                              SETORES EM QUE HOUVE CRESCIMENTO
                              DA MANCHA ENTRE 1998 E 2002

                              MEDIA    MEDIANA   MINIMO   MAXIMO

indice de Espraiamento        225      225       8        400
Distancia a Se (km)           27,2     25,1      3,1      88,6
Densidade de Empregos         11       6         0        202
  ([km.sup.2])
Viagens produzidas por modo   35629    28.112    289      144.496
  coletivo
Viagens produzidas por modo   28.241   17.367    20       215.202
  individual
Viagens produzidas por modo   55.982   38.101    57       272.776
  a pe
Media de automoveis por       0,57     0,55      0,20     2,31
  domicilio
Densidade de Domicilios       2.760    1.252     0        204.639
  (domicilios/[km.sup.2])
% de domicilios abastecidos   82,0%    98,3%     0,0%     100,0%
  com agua da rede geral
% de domicilios com           49,8%    54,4%     0,0%     100,0%
  esgotamento sanitario via
  rede geral
Renda media do responsavel    703      496       34       16.480
  (reais de julho de 2000)

FONTE ELABORACAO PROPRIA

TABELA 4 Determinantes do indice de espraiamento do crescimento da
mancha urbana entre 1998 e 2002

                                        COEFICIENTE   ESTATISTICA T

Constante                               183,63        24,94 *
Distancia a se                          -1,98         -15,46 *
Densidade de empregos                   1,66          10,71 *
Densidade de domicilios                 1.20E-03      2,79 *
Media de automoveis por domicilio       -15,30        -2,19 **
Viagens produzidas por modo coletivo    -2.25E-04     -2,33 *
Viagens produzidas por modo             -2.58E-05     -0,450
  individual
Viagens produzidas por modo a pe        2,20E-04      5,54 *
Renda media do responsavel              -1.94E-03     -1,580
Setor censitario subnormal              31,98         6,47 *
% de domicilios abastecidos com agua    75,69         17,16 *
  da rede geral
% de domicilios com esgotamento         29,38         7,54 *
  sanitario via rede geral
Numero de observacoes                   3.424
F (11,3412)                             388,19
Prob > F                                0
R2                                      0,4985

* SIGNIFICANTE A 1%

** SIGNIFICANTE A 5%
FONTE ELABORACAO PROPRIA
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Nadalin, Vanessa; Igliori, Danilo
Publication:EURE-Revista Latinoamericana de Estudios Urbanos Regionales
Article Type:Ensayo
Date:Sep 1, 2015
Words:9392
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