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Erotizacao, normalizacao e valorizacao: descontinuidades inscritas na (in)visibilidade dos corpos.

CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. Historia do Corpo 2:

da Revolucao a Grande Guerra. Traducao: Joao Batista Kreuch, Jaime Clasen; revisao da

traducao: Ephraim Ferreira Alves. Petropolis: Vozes, 2008. 511 p. ISBN 9788532636263.

Com o objetivo de dialogar com tematicas responsaveis pela visibilidade do corpo desde o Renascimento ate o seculo XX, Alain Corbain, Jean-Jaques Courtine e Georges Vigarello reunem em tres volumes, sob o titulo Historia do Corpo, reflexoes acerca do corpo, concebido por diversos campos sociais como um territorio simbolico-discursivo. Ao colocarem em pratica tal projeto, os autores, de renome internacional, procederam a realizacao de uma obra que, ao lancar um olhar plural e de vertentes diversas sobre o corpo, buscava confirmalo como centro de estudos da historia humana. A partir da singularidade que caracteriza o conjunto dos tres volumes, das possibilidades de reflexao e de dialogo com outras areas do conhecimento, dentre as quais a da Analise do Discurso, debruca-se, em especial, naquilo que foi apresentado no segundo volume, no qual o corpo e apresentado como objeto da ciencia. Esse mesmo corpo, ainda subjacente as influencias da religiao, e dissecado, avaliado, manuseado, estudado pelos medicos, o que acaba por culminar na producao de verdades de uma epoca, numa perspectiva que remete a foucaultiana.

Dividido em tres partes, o segundo volume, denominado Historia do corpo: da Revolucao a Grande Guerra, propoe reflexao acerca dos efeitos de verdade sobre o corpo entre o fim do seculo XVIII e meados do seculo XX, localizando as rupturas e descontinuidades que possibilitaram olhares e praticas diferenciados da ciencia medica sobre o corpo trabalhado e modelado, os quais ainda sustentam, em grande parte, as praticas contemporaneas. Destacam-se, na discussao apresentada, as contribuicoes dos estudos de Michel Foucault sobre a sexualidade e sobre os mecanismos de repressao e vigilancia. Alem disso, e possivel considerar que o livro ultrapassa os propositos da historia tradicional e dialoga com o projeto arqueogenealogico de Foucault ao definir o papel do historiador como aquele que tenta perceber como se realizam as combinacoes de crencas e conviccoes que, em ultima instancia, determinam as praticas sociais.

Na primeira parte do livro, Olhares cruzados sobre o corpo, a abordagem do corpo gira em torno do religioso, do medicinal e do estetico. Trata-se de um periodo em que, mesmo sob a influencia da religiao, a ciencia torna o corpo objeto de seus estudos. No primeiro capitulo, intitulado O olhar dos medicos, Olivier Faure sustenta que nao e possivel, atualmente, falar do corpo e de seu funcionamento sem lancar mao da terminologia medica. A premissa do autor e a de que a apropriacao dessa terminologia permitiu ver o corpo como um objeto exterior, do qual, consequentemente, era possivel afastar-se. Essa mesma premissa possibilitou ver as causas das doencas como um fator que se estende para alem do saber medico contemporaneo, estando ligadas ao modo de vida do individuo, a ideia de hereditariedade, ao destino ou a culpa. Essas crencas foram frutos, diz o autor, das representacoes medicas surgidas no seculo XVIII, as quais buscavam fazer do corpo um organismo dependente do ambiente e do comportamento do seu possuidor. As abordagens ambiental e global de um lado, fisiologista e localista de outro, longe de serem concorrentes, constituem os dois pilares da medicina atual e se complementam, embora a segunda perspectiva, por ser mais tecnica e mais revolucionaria, tenha adquirido maior prestigio nas imaginacoes sociais do que a primeira. Para o autor, a transformacao da medicina no principal guia de leitura do corpo comprova que a ciencia medica tem sua elaboracao no cerne social e nao em reconditos cientificos subtraidos da realidade. O estabelecimento de uma medicina tecnicista, cujo objeto e um orgao ou uma disfuncao, e nao mais o individuo ou o corpo doente, deve ser percebido como expressao de um novo humanismo. Ainda que manifestasse folego ja nos tempos de Hipocrates, o movimento da medicina clinica somente se fixou macicamente apos a primeira metade do seculo XVIII, quando, movidos por aspiracoes militares ou economicas, os soberanos absolutos voltaram-se para a saude do povo. Nesse contexto, com a criacao da medicina anatomoclinica, o corpo morto se torna tao importante na medicina quanto o corpo vivo. Contudo, a necessidade de agir, sem, necessariamente, esperar pela morte do paciente, levou os medicos a buscar um meio de "tornar visivel o interior do corpo humano, e fazer uma especie de autopsia sem dissecacao", razao pela qual a introducao da anestesia no meio medico gerou entusiasmo na maioria do terreno medicinal. O seu uso, todavia, implicou transformacoes na relacao dos pacientes com o medico, as quais nao necessariamente favoreciam os primeiros. Isso porque a anestesia priva o paciente de qualquer controle sobre a operacao; alem disso, expoe o doente a riscos preocupantes.

No segundo capitulo, denominado A influencia da religiao, Alain Corbin trata dos novos conceitos e representacoes que anunciam o seculo XX, marcando o fim do seculo XIX, um periodo de desencantamento com o mundo e de queda da pratica religiosa, pelo menos entre os homens, uma vez que foi com as mulheres que a Igreja contou para manter a sua influencia. Apesar disso, foi no seculo XIX que se viu aprofundar, nas populacoes fervorosas, a espiritualidade e a moral tridentinas. Desta feita, Corbin ressalta que seria "condenar-se a incompreensao da cultura somatica do seculo XIX" ignorar o peso da religiao crista sobre o corpo e suas representacoes. Nao se pode tirar da mente que, por se fundamentar na encarnacao da divindade, o cristianismo toma o corpo de Cristo como centro de seu sistema de crencas. Alem disso, aos olhos catolicos, a Igreja e a expressao do corpo do Jesus ressuscitado, conciliador dos vivos e mortos. E o corpo tambem templo do Espirito Santo e receptaculo do Cristo da Eucaristia. Segundo Corbin, a espiritualidade do seculo XIX debrucou-se insistentemente sobre o doloroso corpo do Cristo Redentor. Praticas como a via-sacra e a recitacao do rosario convidam a reviver as torturas experimentadas por Jesus, cujo sangue recobre o corpo e circula na historia. A consagracao da Franca ao Sagrado Coracao de Jesus e incontaveis procissoes e canticos somente contribuiam para difundir o dolorismo, a exaltacao ao sagrado orgao. A partir da metade do seculo, esse dolorismo cedeu espaco a uma mariofononia, o culto a virgindade mariana, responsavel, em parte, pelo surgimento de uma preocupacao do clero com as jovens, sobretudo no que se referia a danca ou a relacao com a musica.

O olhar dos artistas e o titulo do terceiro capitulo, no qual Henri Zerner ressalta a grande notoriedade que ganhou o nu entre os artistas, em meados do seculo XIX. Para estes, o nu e sempre o que mais se aproxima do ideal para ser representado, dado que, do mesmo modo que as vestes servem para ocultar o corpo, elas acabam por revela-lo, denunciar seus contornos. Todavia, se, na arte, o seculo XIX foi a epoca da pudibundaria por excelencia, na vida cotidiana, o corpo, sobretudo o da mulher, nunca foi tao cuidadosamente protegido. Zerner chama a atencao tanto para a invencao e o rapido desenvolvimento da fotografia, em 1839, quanto para o grande impacto que isso causou nos habitos artisticos e visuais do seculo XIX. Conforme o autor, o simbolismo tambem marcou fortemente o fim do seculo XIX e influenciou decisivamente a estetica do seculo XX. Esse movimento, mesmo nao tendo definidos os seus contornos em termos de artes plasticas, pregava a primazia da emocao sobre a percepcao. Para os simbolistas, o corpo e o marco de uma misteriosa e inacessivel realidade. Decorre dai o que se vera em As imagens sociais do corpo, cuja autora, Segolene Le Men, toma as pinturas de Delacroix como estopim da construcao de uma nova linguagem corporal, assentada na observacao das vestimentas, da fisionomia e da silhueta dos contemporaneos. De modo geral, os artistas da segunda metade do seculo XIX primavam por obras que punham em evidencia a preeminencia das classes sociais abastadas, cujos procedimentos eram imitados para gerar o deboche. Nesse contexto, figuras de aspectos monstruosos, desafiando as normas do belo, eram, na realidade, o retrato do individuo, de uma civilizacao envelhecida, das aberracoes da natureza humana.

Na segunda parte do livro, Prazer e dor: no coracao da cultura somatica, dividida em dois capitulos, Alain Corbin traca um percurso historico sobre a intervencao da ciencia nas questoes do prazer sexual, do corpo e da dor enquanto tecnica de repressao. No primeiro capitulo, O encontro dos corpos, o estudioso ve a sexualidade como um assunto degradante para o seculo XIX, principalmente no que tange a satisfacao do prazer. Em consonancia a essa positividade, Corbin faz referencia aos mecanismos de poder que controlam e estimulam o corpo a uma vontade de saber, abordados nas pesquisas de Michael Foucault. Nessa perspectiva, Corbin questiona se a economia de mercado e a Revolucao Industrial favoreceram a repressao sexual ou permitiram uma liberacao de pulsoes. De um lado, alguns autores afirmam que a nocao de civilizacao foi antagonista da livre satisfacao do desejo. Em contrapartida, outros a tem como referencia de uma primeira etapa da revolucao sexual em meados do seculo XX. A Revolucao Industrial, ainda que seja considerada um grande catalisador da prostituicao, uma vez que, em seu periodo, surgiram os grandes cinturoes de pobreza nas grandes cidades, nao possibilitou a libertacao sexual das mulheres, principalmente das classes operarias. O autor ainda aborda as diferencas sexuais existentes entre o homem e a mulher, e o tratamento dispensado a libido feminina no decorrer da historia, tratamento este que acabou por estabelecer a subordinacao da mulher, marcando as relacoes sociais. O autor percorre tambem o campo da sexualidade ao tratar da relacao entre homossexuais, cujas praticas, dado o tratamento de antifisico, evidenciavam a monstruosidade de seus praticantes. Ao final do seculo XIX, o prazer e a volupia deixaram de ser considerados apenas na perspectiva da procriacao, e o hedonismo recebeu uma nova legitimidade, enquanto pratica de valorizacao do prazer sexual.

Por outro vies, em Dores, sofrimentos e miserias do corpo, o suplicio e visto como realidade antagonica ao prazer. A inscricao de pena sobre o corpo culpado cumpre a restituicao da soberania lesada e configura um lugar de poder. Nessa perspectiva, a guilhotina se instituiu como uma ruptura que nao permitia a redencao do acusado e se configurou como objeto simbolico de punicao, no imaginario do seculo XIX. A prisao, por sua vez, encerrava a exposicao publica dos corpos no processo de punicao e promovia a sua docilizacao por outros dispositivos de poder, como o aprisionamento e as condicoes precarias das penitenciarias. Por fim, Corbin aborda a transformacao do estatuto da dor, a qual passa a ser articulada a aspectos emocionais. A principio, a dor era tida como marcas deixadas no corpo para a provacao da alma. No entanto, a evolucao da medicina, pelos metodos de analgesia e anestesia, promoveu uma intolerancia a dor e ao sofrimento humano, impondo-se, desse modo, um discurso de sensibilidade a todo tipo de degradacao da integridade humana.

A terceira parte do livro, O corpo corrigido, trabalhado e exercitado, e composta por tres capitulos. O primeiro, Nova percepcao do corpo enfermo, de Henry-Jacques Stiker, problematiza o tratamento simbolico de monstruosidade atribuido pelo imaginario social ao corpo enfermo empirico, entre o fim do seculo XVIII e meados do seculo XX. Stiker traz para a discussao o dilema desse periodo: como normalizar o corpo enfermo e fazer com que sua visibilidade deixe de ser somente feia e pavorosa? O estudo aborda o tratamento ainda confuso dispensado ao "monstro" no inicio do seculo XIX, em que se da uma ruptura a partir da corrente racionalista, que postula que um monstro nao e totalmente monstro; ele e humano, com regularidades de um lado e irregularidades de outro. Stiker propoe ainda observar a industria de producoes de monstros, tema contemplado em museus, na literatura, no cinema e nos espetaculos dos circos da epoca. Por fim, ressalta-se no capitulo outra ruptura na representacao e tratamento do corpo enfermo: mesmo nao afastando totalmente a estigmatizacao, o corpo enfermo, sob o prisma do corpo acidentado pelo trabalho ou pela guerra, passa a ser uma responsabilidade coletiva e social, resguardado pela bandeira do direito a igualdade de oportunidades e participacao social.

O segundo capitulo, intitulado Higiene do corpo e trabalho das aparencias, de Georges Vigarello, aborda as praticas do banho e da agua, adotadas no seculo XIX, e que provocaram a conversao de representacoes da cidade e do corpo. O estudo revela uma pratica trabalhosa no contato com a agua e a utilizacao de outros recursos para a limpeza, como a troca de roupa branca e as lavagens parciais. Vigarello destaca tambem que, com a transformacao do olhar sobre a agua, o banho adquiriu outro estatuto: mesmo sendo ainda privilegio da burguesia, as salas de banho representaram tanto uma conquista espacial como psicologica, considerando a intimidade que esses lugares impunham. O processo lento de popularizacao da agua tambem e abordado no capitulo, assim como a preocupacao com a engenharia sanitaria, ja em meados do seculo XX.

O tema central do terceiro capitulo, O corpo trabalhado--ginastas e esportistas no seculo XLK, de Georges Vigarello e Richard Holt, e a evolucao da ginastica e das praticas esportivas, especialmente na Gra-Bretanha. Uma das principais rupturas no seculo XIX, apontada pelo estudo, e a analise do movimento: nao so se apreciava o desempenho, mas a forca fisica deveria ser calculada segundo unidades de medida universalmente comparaveis. Ao deixar de ser apenas um prazer, o esporte passa a corresponder ao equilibrio entre corpo e espirito. O corpo do esportista, consequentemente, era marcado por esses significados, cujo grau dependia da atividade exercida, da classe social e da nacao. Vigarello e Holt argumentam que o sucesso do esporte foi garantido por exprimir o que o homem ideal deveria ser aos olhos da burguesia: vigoroso, decidido, competitivo e capaz de controlar a si mesmo e aos outros. Nessa perspectiva, a ordem dos capitulos da terceira parte desta obra parece apontar para um processo de normalizacao do corpo, por meio de dispositivos de seguranca, tais como a higienizacao e a pratica esportiva.

Ao mobilizar a centralidade do corpo como objeto de estudo, nota-se a importancia da recuperacao de sentidos e do ja-dito que constituem o corpo para que se possa compreender ressignificacoes mais atuais deste objeto. As tres partes do livro concentram-se nas descontinuidades sobre esse tema, sobretudo no seculo XIX, em que ha uma ruptura no campo da ciencia, impulsionada pela Revolucao Industrial. Verifica-se a forma como a religiao, a medicina e a arte abordam e concebem o corpo, instaurando suas praticas no ambito social. Historia do corpo: da Revolucao a Grande Guerra evidencia os tabus acerca do corpo perpassado pela anatomia fisico-clinica, pelo processo de erotizacao

do corpo, pela normalizacao do corpo enfermo e pela valorizacao do corpo util e saudavel, inscrevendo-os como paradigmas na modernidade. Por fim, a contribuicao desta obra, dada a riqueza de suas pesquisas, atravessa os diversos campos de estudos, desde as ciencias das linguagens ate os terrenos biologicos, razao pela qual se justifica a sua insercao e publicacao nos espacos de pesquisas academicas, constituindo-se leitura singular para pesquisadores que possuem o corpo ou seus possiveis desdobramentos como objeto de estudo.

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Received on July 1, 2009. Accepted on July 16, 2009.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.7578

Andre Ricardo Pinheiro Lima, Erica Danielle Silva * e Thais Almeida Marconi

Universidade Estadual de Maringa, Av. Colombo 5790, 87020-900, Maringa, Parana, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: erica_dsilv@yahoo.com.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Pinheiro Lima, Andre Ricardo; Silva, Erica Danielle; Marconi, Thais Almeida
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Article Type:Resena de libro
Date:Apr 1, 2009
Words:2935
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