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Eros, Filia and Agape: the love from the Greek world to Christian conception/Eros, Filia e Agape: o amor do mundo grego a concepcao crista.

Introducao

Pois o amor resgata a pobreza, vence o tedio, ilumina o dia, e instaura em nossa natureza, a imperecivel alegria (ANDRADE, 2002, p. 1411).

Jacques Maritain (2001, p. 15) estabelece uma diferenca entre 'problema' e 'misterio'. O primeiro seria um "complexo nocional criado por nossa inteligencia que inicialmente parece inextrincavel e que e preciso desfazer". Ou seja, os problemas sao como os enigmas, passiveis de decifracao.

Ja o misterio tem outro grau metafisico:

[...] e uma plenitude ontologica a qual a inteligencia se une vitalmente e onde mergulha sem esgota-la [...] trata-se de penetrar sempre mais no mesmo [...] ou penetrar cada vez melhor uma mesma densidade. E um progresso no mesmo lugar, um progresso por aprofundamento (MARITAIN, 2001, p. 15).

Entre os grandes misterios destacaveis estao, lista Maritain (2001, p. 16): "os segredos do ser, do conhecimento, do amor, das realidades puramente espirituais, da causa primeira (e, acima de tudo, da vida intima de Deus)". Portanto, ao falamos sobre o amor, estamos enredados--no misterio--e a busca de uma resposta se da por aprofundamento, por adensamento, por imersao.

A lingua grega detem as tres principais acepcoes do Amor: Eros, Filia e Agape. Comumente, relacionamos o primeiro ao amor sexual; o segundo a amizade e o ultimo a um amor espiritual. Assim, apresentamos os caminhos na mitologia grega para apreender os sentidos de Eros e a visao de Platao; sobre a Filia, teremos a companhia de Aristoteles e, no caso do amor Agape, recorremos a versao propriamente crista.

Eros na mitologia

Hesiodo, na Teogonia (HESIODO, 2003, p. 111) coloca Eros, filho de Caos, entre os deuses primordiais e, alem de ser o mais belo dos belos deuses, "dos Deuses todos e dos homens todos/ ele doma no peito o espirito e a prudente vontade". Nesse sentido, vale lembrar que, independente das variacoes ocorridas com a genealogia de Eros, encontraremos o deus sempre como a forca fundamental que garante a perpetuacao dos seres e a coesao do universo.

Com o passar do tempo, a imagem de Eros ganhara varios e diferentes contornos ate alcancar aquela figura perpetuada no imaginario popular como o menino travesso e desajeitado que, com sua flecha, lanca os humanos nas mais inacreditaveis paixoes. Essa tambem e a imagem de Cupido, a 'traducao' de Eros entre os romanos.

Conforme Junito Brandao (1996), encontramos ainda outros dois sentidos para Amor-Eros: a complexio oppositorum (uniao dos opostos) e o que poderiamos denominar de Perversao.

Nessa primeira acepcao, o amor e uma forca "[...] que impele toda existencia a se realizar na acao. E ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato so se concretiza mediante o contato com o outro" (BRANDAO, 1996, p. 189). Eros objetiva a uniao, a superacao das diferencas desta relacao de opostos numa unidade que sintetize todas as potencialidades e, portanto, num desejo de elevacao, de progresso a um nivel superior.

O amor (Eros) Pervertido "[...] em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em principio de divisao e morte [...]". Ao inves da unidade original numa busca por elevacao, encontramos aqui a destruicao do outro de maneira egoistica. Ou seja, uma das partes, por fechar-se em seu proprio ego, considera-se o todo e nao uma das partes enriquecida na uniao "[...] com uma entrega total, um dom reciproco e generoso, que fara com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos" (BRANDAO, 1996, p. 189-190).

A visao de Platao

O fundador da Academia discorrera sobre o amor em dois grandes dialogos--o Banquete e o Fedro.

E muita conhecida a historia do Banquete. Um simposio realizado para comemorar a vitoria literaria de Agatao em que reunidos Aristodemos, Pausanias, Eriximaco, Fedro, Aristofanes, Socrates-Diotima e o embriagado Alcibiades resolvem, por entretenimento, realizar (cada um dos presentes) "um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder" (PLATAO, 1972, p. 177d)

Infelizmente, nao poderemos nos deter em cada um dos belos e instigantes discursos do Banquete. Concentraremos as forcas no discurso realizado por Socrates a partir do que lhe foi ensinado pela mulher de Mantineia--Diotima.

Conta Socrates:

Parece-me entao que o mais facil e proceder como outrora a estrangeira, que discorria interrogando-me, pois tambem eu quase que lhe dizia outras tantas coisas tais quais agora me diz Agatao, que era o Amor um grande deus, e era do que e belo, e ela me refutava, exatamente com estas palavras, com que eu estou refutando a este, que nem era belo segundo minha palavra, nem bom.

E eu entao: --Que dizes, o Diotima? E feio entao o Amor, e mau?

E ela: --Nao vais te calar? Acaso pensas que o que nao for belo, e forcosamente feio?

--Exatamente.

--E tambem se nao for sabio e ignorante? Ou nao percebeste que existe algo entre sabedoria e ignorancia?

--Que e? (PLATAO, 1972, p. 201e-202a).

Platao, por meio de Socrates-Diotima, estabelece outra possibilidade de tratar a questao do Amor, ou seja, nao faz agora um elogio simplesmente, mas investiga o que realmente seja o 'deus' e introduz a questao do amor estar entre 'dois extremos'. E, assim, aparece a revelacao de que o Amor nao e um deus e, nem por isso, e um mortal. Oucamos as palavras de Diotima:

--Um grande genio, o Socrates; e com efeito, tudo o que e genio esta entre um deus e um mortal.

--E com que poder? Perguntei-lhe.

--O de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as suplicas e os sacrificios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrificios; e como esta no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ela a si mesmo. Por seu intermedio e que procede nao so toda arte divinatoria, como tambem a dos sacerdotes que se ocupam dos sacrificios, das iniciacoes e dos encantamentos, e enfim de toda adivinhacao e magia. Um deus com um homem nao se mistura, mas e atraves desse ser que se faz todo o convivio e dialogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo; e aquele que em tais questoes e sabio e um homem de genio, enquanto o sabio em qualquer outra coisa, arte ou oficio, e um artesao. E esses genios, e certo, sao muitos e diversos, e um deles e justamente o Amor.

--E quem e seu pai--perguntei-lhe--e sua mae? (PLATAO, 1972, p. 202e-203b).

E aqui Diotima contara uma bela historia sobre a origem do Amor, no entanto, e preciso chamar a atencao sobre o que ja foi dito. Ora, nos paragrafos acima, Platao caracteriza o Amor como o ser que possibilita a relacao entre os homens e os deuses, pela interpretacao e transmissao de suplicas e sacrificios dos primeiros e ordens e recompensas dos segundos, possibilitando o dialogo entre os 'dois mundos'. Alem disso, o Amor e o responsavel pelas artes divinatorias e magicas. Portanto, para Platao, o Amor apresenta-se como um intermediario, um elo, um 'anunciador' do futuro. Voltemos ao relato de Diotima:

Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava tambem o filho de Prudencia, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o nectar--pois vinho ainda nao havia--penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza entao, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalicio, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque tambem Afrodite e bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condicao em que ele ficou. Primeiramente ele e sempre pobre, e longe esta de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas e duro, seco, descalco e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, as portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mae, sempre convivendo com a precisao. Segundo o pai, porem, ele e insidioso com o que e belo e bom, e corajoso, decidido e energico, cacador terrivel, sempre a tecer maquinacoes, avido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrivel mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal e a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, gracas a natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como tambem esta no meio da sabedoria e da ignorancia. Eis com efeito o que se da (PLATAO, 1972, p. 203b-203e).

E aqui aparece, por meio da reflexao sobre o filosofar, um desfecho surpreendente para a nossa comum visao sobre o Amor:

Nenhum deus filosofa ou deseja ser sabio--pois ja e -, assim como se alguem mais e sabio, nao filosofa. Nem tambem os ignorantes filosofam ou desejam ser sabios; pois e nisso mesmo que esta o dificil da ignorancia, no pensar, quem nao e um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Nao deseja portanto quem nao imagina ser deficiente naquilo que nao pensa lhe ser preciso.

--Quais entao, Diotima--perguntei-lhe--os que filosofam, se nao sao nem os sabios nem os ignorantes?

--E o que e evidente desde ja--respondeu-me--ate a uma crianca: sao os que estao entre esses dois extremos, e um deles seria o Amor (PLATAO, 1972, p. 204a-204b).

Em outro dialogo platonico, o Fedro, a primeira coisa que chama a atencao na leitura e o fato de Socrates 'discutir' com o texto (discurso) escrito por Lisias e que a personagem que da titulo ao dialogo e um portador entusiasmado.

Apos a leitura do discurso de Lisias, Socrates faz as seguintes ponderacoes: aos homens escapa a essencia das coisas; o amor e desejo e, mesmo aqueles que nao amam, tem um desejo pelo belo. Neste sentido, Socrates nos chama a atencao para a 'contraposicao' entre um desejo inato para a busca do prazer e uma ideia adquirida que nos encaminha a procurar o bem,

[...] sempre que o desejo irracional vence o sentimento que nos leva para o bem e se dirige para o prazer despertado pela beleza, vindo a ser reforcado pelos desejos da mesma familia, que so visam a beleza fisica e se torna pendor irresistivel, e conclui que dessa propria forca heroica tira o nome de Eros, ou de Amor (PLATAO, 1975, p. 238c).

Assim, constata Socrates, que o sujeito que e governado pelas paixoes, nao passa de um escravo do desejo, e, assim, so busca no 'amado' encontrar e usufruir do maior prazer possivel. E o portador desse espirito doentio so consegue se relacionar com o que lhe e submisso, sendo incapaz de uma relacao com o que lhe e igual ou mesmo superior.

Depois desta visao realista do desejo, mas um pouco negativa sobre Eros, Socrates mostra-se receoso com os castigos que o deus podera infligirlhe, uma vez que o filosofo nao foi nem um pouco favoravel aos designios do amor na vida dos homens.

Para precaver qualquer mal-entendido, Socrates retoma o seu discurso em outras bases, a comecar de um elogio inicial "[...] a verdade e que os maiores bens nos vem do delirio, que e, sem a menor duvida, uma dadiva dos deuses" (PLATAO, 1975, p. 244a). Apos o elogio do delirio, Socrates nos conta o mito dos cavalos alados, em que dois animais encontramse na mesma parelha:

Inicialmente, no nosso caso o cocheiro dirige uma parelha desigual; depois, um dos cavalos da parelha e belo e nobre e oriundo de raca tambem nobre, enquanto o outro e o contrario disso, tanto em si mesmo como por sua origem. Essa a razao de ser entre nos tarefa dificilima a direcao das redeas (PLATAO, 1975, p. 246b)

Isso significa dizer que a alma humana consiste numa tripla divisao: os dois cavalos (um de boa raca e outro de ma) e o cocheiro que 'organiza' as contradicoes da parelha. E essa e a condicao humana, uma vez que a luta travada entre a nobreza e a mesquinharia, entre o belo e o feio, consiste na luta travada entre a alma e o corpo no homem. Dai a dificuldade de compreendermos o delirio causado pela reminiscencia da contemplacao beatifica, por isso

O individuo atacado de semelhante delirio, sempre que apaixonado das coisas belas, e denominado amante. Conforme disse ha pouco, toda alma de homem ja contemplou naturalmente a verdadeira realidade, sem o que nao teria nunca adquirido essa forma; porem nao e igualmente facil para todas, a vista das coisas terrenas, recordar-se das celestes [...] (PLATAO, 1975, p. 249d-250a).

Ao falar da contemplacao-lembranca do mundo de perfeicoes celestes, veja como Socrates acaba descrevendo o 'delirio' amoroso:

Sao bem poucas as (pessoas) que conservam a lembranca do que viram. Sempre que essas poucas percebem alguma imagem das coisas la do alto, ficam tomadas de entusiasmo e perdem o dominio de si mesmas. Porem nao sabem o que se passa com elas (PLATAO, 1975, p. 250a).

No Fedro, Platao nos apresenta duas concepcoes sobre o amor, uma muito ligada ao desejo, o que poderiamos suspeitar ser uma descricao da maioria das relacoes em que as pessoas se tornam escravos dos desejos e outra concepcao de amor, a partir da explicacao da parelha de cavalos guiada por um cocheiro, em que a busca pelo equilibrio entre o corpo e a alma direciona-se para o Bem, ou seja, a 'vitoria' da alma conduzira os amantes a uma vida ordenada e filosofica, longe dos vicios e perto da virtude

Se a melhor parte da alma sair vitoriosa e os conduzir a uma vida bem ordenada e filosofica, eles passarao o resto de sua vida felizes e em harmonia, sob o comando da honestidade, reprimindo a parte da alma que e viciosa e libertando a outra que e virtuosa. E ao morrer recebem asas e ficam leves, pois venceram um dos tres combates verdadeiramente olimpicos, o maior bem que a sabedoria humana ou a loucura divina podem proporcionar a um homem. Mas se se entregam a uma vida em comum sem filosofia, e, contudo honesta, podera suceder que os dois corceis rebeldes assumam o dominio num momento de embriaguez ou de descuido. Os cavalos indomaveis dos dois amantes, dominando suas almas pela surpresa, os conduzirao ao mesmo fim. Eles se entregarao ao tipo de vida mais invejavel aos olhos do vulgo, e se atirarao aos prazeres. Satisfeitos, gozarao ainda estes mesmos prazeres, mas raramente, porque esses mesmos prazeres nao terao aprovacao da alma. Terao uma afeicao que os ligara, mas que sera sempre menos forte do que aquela que liga os que verdadeiramente amam (PLATAO, 1975, p. 256b-d).

A Filia a partir de Aristoteles

Apos essa breve definicao de Eros, entre a mitologia e a filosofia, procuremos compreender a Filia contando com o precioso auxilio de Aristoteles. Na Etica a Nicomaco, o estagirita diz:

Ha, assim, tres especies de amizade, iguais em numero as coisas que sao estimaveis; pois com respeito a cada uma delas existe um amor mutuo e conhecido, e os que se amam desejam-se bem a respeito daquilo por que se amam (ARISTOTELES, 1984, p. 181).

As duas primeiras especies sao imperfeitas, uma vez que existe a amizade por conta da utilidade, ou seja, quando uma pessoa ama a outra por conta do bem que recebe pelo amigo 'amam pelo que e bom para eles mesmos'. No outro caso, temos a amizade por causa do prazer, ou seja, a amizade se da por conta do carater agradavel que o amigo causa.

Eis por que tais amizades se dissolvem facilmente, se as partes nao permanecem iguais a si mesmas: com efeito, se uma das partes cessa de ser agradavel ou util, a outra deixa de ama-la (ARISTOTELES, 1984, p. 181).

Felizmente, para Aristoteles, existe a amizade perfeita, ou seja, o grau maximo da Filia. E essa se da pelos homens virtuosos que desejam encontrar e conviver com iguais:

A amizade perfeita e a dos homens que sao bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e sao bons em si mesmos. Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos sao os verdadeiramente amigos, porque o fazem em razao da sua propria natureza e nao acidentalmente. Por isso sua amizade dura enquanto sao bons--e a bondade e uma coisa muito duravel. E cada um e bom em si mesmo e para o seu amigo, pois os bons sao bons em absoluto e uteis um ao outro. E da mesma forma sao agradaveis, porquanto os bons o sao tanto em si mesmos como um para o outro [...] (ARISTOTELES, 1984, p. 181-182).

Infelizmente, alerta-nos Aristoteles que esse grau de amizade geralmente nao e frequente, nao sao tao comuns homens com um elevado nivel de virtude; e, alem disso, para a perfeicao da amizade, e necessario tempo e familiaridade.

Ora, retomando o exposto acima, segundo Aristoteles, a Filia pode existir de tres formas: a que valoriza a utilidade que o 'amigo' representa; a que busca no amigo o aprazivel e, o que ele considera como a amizade em seu grau mais perfeito, a busca do homem pelo 'semelhante em virtude'. Nos dois primeiros casos, a amizade e buscada como um meio, um subterfugio para alcancar determinados estados de saciedade ou prazer. No caso da amizade perfeita, esta busca se da numa relacao de identidade e reciprocidade e, nesse caso, a amizade nao e um meio, mas um fim. Aqui os homens desejam compartilhar as qualidades mutuas.

As caracterizacoes da amizade-Filia apresentadas por Aristoteles dao-nos a sensacao de que o fundador do Liceu revela o carater 'construtivo' e opcional da amizade, uma vez que essa nao surgira de uma flechada magica, mas do tempo, da confianca e da afinidade entre os humanos. Nao e a toa que Aristoteles ainda dira: "[...] o homem sumamente feliz necessitara de amigos" (ARISTOTELES, 1984, p. 210).

Agape e as sagradas escrituras

Para compreender os significados de Amor, tao importante quanto o pensamento grego e a influencia dos ideais cristaos. Pretendemos discorrer agora como o amor-Agape aparece no Novo Testamento.

Dois momentos se apresentam como fundamentais. O primeiro deles quando Jesus apresenta os mandamentos mais importantes:

O primeiro de todos os mandamentos e este: Ouve, Israel: o Senhor teu Deus e um so Deus; e amaras o Senhor teu Deus com todo o teu coracao, e com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forcas. Este e o primeiro mandamento. E o segundo e semelhante ao primeiro: Amaras o teu proximo como a ti mesmo. Nao ha outro mandamento maior do que estes (EVANGELHO DE MARCOS, 1951, 12, 29-31).

O apostolo Paulo dara seguimento a essa recomendacao de Jesus, ao definir o que seja o amor no 'discurso' sobre as tres virtudes teologais: a fe, a esperanca e o amor.

Ainda que eu falasse as linguas dos homens e dos anjos, se nao tiver amor, sou como um bronze que soa, ou como um cimbalo que tine. E, ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os misterios e toda a ciencia, e tivesse toda a fe, ate ao ponto de transportar montes, se nao tiver amor, nao sou nada. E, ainda que distribuisse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se nao tiver amor, nada disto me aproveita.

A caridade e paciente, e benigna; a caridade nao e invejosa, nao e temeraria; nao se ensoberbece, nao e ambiciosa, nao busca os seus proprios interesses, nao se irrita, nao suspeita mal, nao folga com a injustica, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo cre, tudo espera, tudo sofre (PRIMEIRA EPISTOLA AOS CORINTIOS, 1951, 13. 1-7).

A primeira acepcao do amor-Agape e um dar primazia a Deus e, num segundo momento, temos o amor entre os homens como o principio e como o mandamento, por excelencia, da conduta dos cristaos. Mas, nao o amor Eros (e seus ciumes) ou mesmo o amor Filia (e seus interesses), aqui, no amor Agape, temos um amor doacao.

Mais que isso, o amor cristao, ou seja, o amor na sua acepcao Agape, nao surge entre os homens. Ele e uma dadiva, um dom de Deus como o mais alto dos sacrificios (Jesus, Deus encarnado, morreu crucificado por amor aos homens) que deve ser seguido como sinal de reconhecimento. Oucamos a exortacao do apostolo Joao aos cristaos em que isto e revelado:

Carissimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. E todo o que assim ama, nasceu de Deus, e conhece a Deus. Quem nao ama, nao conhece a Deus; porque Deus e caridade. Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou o seu Filho unigenito ao mundo, para que por ele tenhamos a vida da graca. O amor de Deus consiste nisto: Em nao termos sido nos os que amamos a Deus, mas em que ele foi o primeiro que nos amou a nos, e enviou o seu Filho como vitima de propiciacao pelos nossos pecados. Carissimos, se Deus nos amou assim, devemos nos tambem amarmos-nos uns aos outros (PRIMEIRA EPISTOLA DE JOAO, 1951, 4, 7-11).

E o amor, entre os que pertencem a comunidade dos cristaos e sinal da presenca de Deus, do seu espirito, que e Agape:

Ninguem jamais viu a Deus, porem, se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nos, e o seu amor e em nos perfeito. Por isto conhecemos que estamos nele e ele em nos: porque nos comunicou o seu espirito (PRIMEIRA EPISTOLA DE JOAO, 1951, 4, 11-13).

Sendo assim, Agape enquanto amor cristao se revela em algumas formas: caridade e misericordia. Nesse sentido, o exercicio desse amor-agape pressupoe benevolencia, complacencia, compaixao, indulgencia e perdao ilimitados,

[...] o coracao puro e o coracao que ama, o que acontece na comunidade do servico e da obediencia com Jesus Cristo. O amor e o fogo que purifica e que une o entendimento, a vontade, o sentimento, que une o homem consigo mesmo, na medida em que o une a partir de Deus, de tal modo que ele se torna servidor da unidade dos que andam separados: e assim que o homem entra na habitacao de Deus e pode ve-lo. E isto significa precisamente ser bemaventurado (IGREJA CATOLICA, 2007, p. 96).

Nesse sentido, talvez seja interessante trazermos aqui a palavra do Papa Bento XVI sobre a relacao entre amor e sofrimento, caracteristica, segundo o maximo representante da Igreja Catolica, da fe crista. Com esse alerta, Bento XVI, demonstra as implicacoes que um 'sim' ao amor-Agape pode levar. Consiste num adeus as ilusoes e um aprofundamento na responsabilidade frente a essa 'dadiva',

[...] tambem o 'sim' ao amor e fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriacoes do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor nao pode de modo algum existir sem esta renuncia mesmo dolorosa a mim mesmo, senao torna-se puro egoismo, anulando-se deste modo a si proprio enquanto tal.

Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justica; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes sao elementos fundamentais de humanidade, o seu abandono destruiria o mesmo homem. Entretanto levanta-se uma vez mais a questao: somos capazes disto? O outro e suficientemente importante, para que por ele eu me torne uma pessoa que sofre? Para mim, a verdade e tao importante que compensa o sofrimento? A promessa do amor e assim tao grande que justifique o dom de mim mesmo? Na historia da humanidade, cabe a fe crista precisamente o merito de ter suscitado no homem, de maneira nova e a uma nova profundidade, a capacidade dos referidos modos de sofrer que sao decisivos para a sua humanidade. A fe crista mostrou-nos que verdade, justica, amor nao sao simplesmente ideais, mas realidades de imensa densidade. Com efeito, mostrou-nos que Deus--a Verdade e o Amor em pessoa--quis sofrer por nos e conosco. Bernardo de Claraval cunhou esta frase maravilhosa: Impassibilis est Deus, sed non incompassibilis--Deus nao pode padecer, mas pode-se compadecer. O homem tem para Deus um valor tao grande que Ele mesmo Se fez homem para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue, como nos e demonstrado na narracao da Paixao de Jesus. A partir de la entrou em todo o sofrimento humano alguem que partilha o sofrimento e a sua suportacao; a partir de la se propaga em todo o sofrimento a con-solatio, a consolacao do amor solidario de Deus, surgindo assim a estrela da esperanca (IGREJA CATOLICA, 2007, p. 38-39).

Se Deus e amor-Agape, e esse amor e recebido como uma graca divina, o exercicio do amor em relacao a Deus e aos outros homens, inclusive os inimigos, e, certamente, o caminho para o descanso na patria celeste. Esse amor, em algum momento, e/sera plenitude.

Consideracoes finais

Com a mitologia grega, temos uma apresentacao de Eros relacionado aos extremos, quer como uniao dos opostos quer como vivencia egoistica impedindo a experiencia da relacao, do estar aberto ao outro e isso ja era considerado uma perversao.

Platao apresenta Eros como intermediario (entre extremos), lembra os riscos do desejo desenfreado e aponta o equilibrio como possibilidade de ter uma vida voltada para a virtude.

Aristoteles divide a Filia em tres configuracoes em que essa forma de amor pode estar circunscrita aos interesses, prazeres ou virtude. Tendo a forma guiada pela virtude, a caracteristica da verdadeira amizade.

O Agape cristao pretende ser vivido a partir da doacao originaria da divindade aos humanos. Assim, o amor primeiramente (divinamente) recebido sera realmente vivenciado a partir do momento que for 'devolvido' a Deus e compartilhado entre os homens, especialmente, pela caridade.

Max Scheler, no ensaio Amor e conhecimento, faz uma consideracao importante sobre o amor tratando efetivamente sobre a diferenca entre a concepcao grega e a concepcao propriamente crista:

[...] na experiencia crista, ocorreu uma reviravolta radical a respeito das nocoes do amor e do conhecimento, do valor e do ser. Denominei esse fato de 'inversao do movimento do amor', pois constitui uma negacao do axioma grego segundo o qual o amor seria o movimento do mais baixo para o mais alto, do me on (nao ser) para o ontos on (o ser), do homem para o Deus que ele nao ama, para o Deus que tambem nao ama, do pior para o melhor. Tal fato consiste em conceber o amor como movimento do mais alto para o mais baixo, de Deus se rebaixando ate o homem, do santo ao pecador e assim por diante, ideia que se encontra definitivamente integrada a essencia do mais alto e, portanto, do Altissimo, de Deus (SCHELER apud COSTA, 1996, p. 113).

Para Scheler, o mundo grego antigo veria como um monstruoso paradoxo, o que sucedeu na Galileia no Anno Domini "Deus desceu espontaneamente aos homens e tornou-se um servo, morrendo na cruz a morte do pior dos servos!" (SCHELER, 1994, p. 93). Nesse sentido, para Scheler, Cristo e uma especie de mestre-modelo para os seus discipulos e seguidores.

Segundo Karol Wojtyla (1993), Max Scheler estabelece uma etica em que de certo modo, esta orientada por dois atos primarios: amor ou odio. Sendo assim, o amor tende a manifestar os valores do objeto com clareza e, com isso, Scheler tambem em sua etica se opoe aos antigos, na medida em que "[...] nao existe, segundo ele, o amor 'pelo bem', no sentido de que o bem mesmo seja o fim da aspiracao" (WOJTYLA, 1993, p. 34).

O mundo grego compreende o amor numa relacao em que o desejo do perfeito, do melhor, consiste no grande 'motor' da vivencia amorosa. Por outro lado, o cristianismo apresenta o amor como algo que nasce de uma gratuidade em que a origem do amor se da a partir de um ato de humildade da divindade.

Nesse sentido, ha uma novidade interessante quando procuramos entender o amor, especialmente, na sua dimensao Agape, nos nossos tempos de 'amores violentos' em que sao constantes (e midiaticamente ampliados) os chamados 'crimes de amor'.

Nos ultimos tempos, inumeros sao os casos, de 'ex' (namorados, maridos etc) que, 'por amor'; por nao conseguirem viver sem o 'objeto' do seu 'amor'; preferem eliminar definitivamente esse 'objeto' e, em alguns casos, acabam, tambem, cometendo suicidio.

Somente a ideia de uma posse animalesca poderia transformar pessoas em objeto. No entanto, nao somente as formas extremas de violencia nos indicam essa coisificacao das pessoas nas relacoes 'afetivas', outros fatores, como individualismo, consumismo etc poderiam ser elencados.

No entanto, ao compreender a questao a partir da concepcao agape crista, nenhum amor pode sobreviver sem algo que vem antes, algo que possibilita a perpetuacao do proprio amor. Como afirma Julian Carron,

Amas sem exigir ser amada. O primeiro alvorecer do amor e que uma pessoa, diante de outra, experimenta que e bonito que essa pessoa exista. Nao que seja minha, mas que exista: o bonito e que existe. O mundo e diferente porque e sinal dAquele que e antes de tudo. Desse modo, 'amas a flor nao porque a cheiras, mas porque existe; amas o fruto nao porque o mordes, mas porque existe; amas a crianca nao porque e tua, mas porque existe'.

Que mudanca! Mas cuidado, que desafio! Que desafio de mudanca de mentalidade sao essas palavras! Nos achamos que isto nao possa ser possivel, mas e. Onde esta o problema? E que quando a pessoa ama sem exigir ser amada, ela e investida por uma forca de amor jamais conhecida antes. Gratuidade absoluta: porque existe (CARRON, 2002, p. 29).

Sem essa gratuidade, sem esse olhar que sauda a existencia, pura e simples, da pessoa amada, mesmo que nao 'possuida', nao podera haver uma vivencia efetiva do amor, nas formas originarias de Eros, Filia e Agape.

DOI: 10.4025/actascihumansoc.v33i2.10173

Referencias

ANDRADE, C. D. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

ARISTOTELES. Etica a Nicomaco. In: Colecao os pensadores. Sao Paulo: Abril Cultural, 1984.

BRANDAO, J. S. Mitologia Grega I. Petropolis: Vozes, 1996.

COSTA, J. S. Max Scheler: o personalismo etico. Sao Paulo: Moderna, 1996.

CARRON, J. Mesmo vivendo na carne, vivo na fe do filho de Deus. Rimini: Exercicios da Fraternidade de Comunhao e Libertacao, 2002.

EVANGELHO DE MARCOS. Portugues. In: Biblia Sagrada. Traducao Pe. Matos Soares. Sao Paulo: Pia Sociedade de Sao Paulo, 1951. p. 1361-1389.

HESIODO. Teogonia. Sao Paulo: Iluminuras, 2003.

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Received on May 18, 2010.

Accepted on July 15, 2011.

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Elton Moreira Quadros

Programa de Pos-graduacao em Memoria, Linguagem e Sociedade, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Estrada do Bem Querer, km 4, 45083-000, Vitoria da Conquista, Bahia, Brasil. E-mail: eltonquadros@yahoo.com.br
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Author:Quadros, Elton Moreira
Publication:Acta Scientiarum. Human and Social Sciences (UEM)
Date:Jul 1, 2011
Words:5301
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