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Entrevista com Michel Laub.

Apresentacao

Michel Laub nasceu em Porto Alegre e vem se destacando na prosa de ficcao brasileira contemporanea ao lado de jovens escritores que representam o que ha de mais expressivo na literatura brasileira atual. O escritor e jornalista trabalhou como chefe-editor da revista Bravo!; foi coordenador do Instituto Moreira Salles e hoje produz material sobre literatura e cultura atraves de seu blog e tambem em outras midias. Laub publicou seu primeiro livro, intitulado Nao depois do que Aconteceu, em 1998, uma reuniao de contos que marcou sua primeira aparicao no mercado literario como escritor de literatura. Publicou tambem Musica anterior (2001), Longe da agua (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diario da queda (2010).

Apesar de o proprio autor afirmar que seu ultimo livro, Diario da Queda, seja o seu melhor trabalho como escritor de ficcao, por conta de um aprimoramento na construcao de sua narrativa, o conjunto de obras literarias de Michel Laub mostra uma unidade a configurar uma poetica em curso. Sua obra articula tramas que dialogam, em uma unidade tematica que perpassa seus romances. Em uma definicao talvez redutora, e possivel dizer que o ponto de partida das narrativas de Laub configura um vies tragico representado nas relacoes interpessoais que ficcionaliza, de modo que seus personagens sao obsessivos sujeitos em tensas relacoes com o mundo presente. Do ponto de vista da construcao dramatica de sua ficcao, essas obsessoes se originam a partir de uma experiencia traumatica do passado, o que demanda uma "certa" narrativa da memoria.

Desta maneira, o passado ressurge no presente sob a condicao de trauma e isso e condicao para que os personagens de Laub empreendam uma viagem existencial na tentativa de recuperar lembrancas, redimir ou ruminar seus delitos e falhas. Dai que a experiencia da memoria se da no ambiente pesado da consciencia de que algo no passado torna o sujeito o que ele e, no presente. Dai a relacao tematica entre trauma e memoria ser uma das marcas do autor. Entretanto, a poetica de Laub possibilita discussoes e (re) leituras que visam, muito mais do que essa nossa chave de leitura, ressignificar o texto literario, tornada mais eficiente quando efetuada por meio de uma leitura plurissignificativa e sempre a luz dos estudos literarios e da Teoria Literaria.

Assim, foi a partir das reunioes e discussoes do grupo de pesquisa interinstitucional Poeticas do contemporaneo, no ambito da UERJ/FFP, que se estabeleceu uma vertente de investigacao, que se tornou uma linha de pesquisa do grupo. Este projeto de pesquisa privilegia a producao literaria de Michel Laub em dialogo com a Teoria Literaria e com a producao ficcional recente. Esta entrevista e uma das producoes decorrentes de nosso interesses na investigacao do romance de Laub.

Para este percurso investigativo de que a entrevista e resultado, elegemos algumas discussoes que estao na base da obra Musica anterior (2001), motor inicial para o nosso estudo, ja que suscita discussoes acerca da memoria, do livre-arbitrio, das relacoes interpessoais, do banal, da cidade e, principalmente, da relacao tragica do ser humano com o mundo com que se relaciona. Assim, a obra norteia uma das preocupacoes de nossa entrevista com Laub: verificar as caracteristicas marcantes de sua escrita ficcional ate o momento.

Desta maneira, nao so em Musica anterior, mas em quase todos seus romances, o modelo narrativo de Laub se vale das obsessoes, das lembrancas, da consciencia da culpa e dos pequenos atos, elementos recorrentes em suas tramas, delineando, assim, personagens psicologicamente complexos. Neste vies, Laub esboca (in) voluntariamente sua ficcionalizacao do trauma, que vai, desde as recordacoes de Auschwitz, em Diario da queda, passando pelo tragico da vida e do homem comum, em Musica anterior, ate a percepcao de que ha um tragico sem heroismo, sem epico, a se configurar nas minucias do cotidiano e nos pequenos atos do presente, cujas consequencias se verificam sempre no futuro, quando se desdobram e sao retomadas, evocando, entao, um certo "fardo" da consciencia, observado nas acoes obsessivas de seus personagens.

Nesta entrevista, Michel Laub reflete acerca de sua producao e discute criticamente os aspectos mais relevantes de sua producao ficcional, das formas de construcao de sua poetica narrativa, elementos que estruturam suas tramas e denotam as obsessoes de seus personagens, homologas as obsessoes do autor quando assume um vies tragico a conduzir seus textos, que, ao final, estruturam grande parte de sua obra, e claro, ate o momento.

Entrevista

Michel Laub

Felicio Dias: E muito visivel em sua obra a ideia de que o relato ou o uso da memoria e recorrente, operando como uma especie de "artificio" narrativo. Por exemplo, tanto em Diario da queda (2011), quanto em Musica anterior (2001), esse "querer-contar-e-lembrar" dos personagens e muito forte, denotando um sentimento de angustia na narrativa que se reflete na quase impossibilidade de narrar-lembrar. Porem, acredito que, em Musica anterior, o relato parece ser mais possivel, embora tambem estruturado em idas e vindas narrativas ou em diversos flashbacks que nao se encaixam ou se fecham. Ha um motivo em especial pela preferencia do relato em primeira pessoa e para a presenca tao marcante da memoria? Acha que a memoria e o melhor meio de ficcionalizar as (im) possibilidades da narrativa?

Michel Laub: Eu nao sei o que exatamente seria a memoria, se seria o procedimento formal ou o material mesmo de onde retiro coisas de minha vida. Musica anterior, do que eu me lembro dele--e obvio que deve ter algo autobiografico ali -, e um livro quase 100% nao autobiografico. E e ate curioso, porque eu usei naquela epoca o procedimento da memoria, parece que ha alguem lembrando de algo. Mas e so usar um narrador em primeira pessoa e que fale do passado para parecer memoria, o que eu acho que esta mais na cabeca do leitor do que na do escritor quando ele escreve.

Entao, eu usei esse procedimento formal da primeira pessoa que fala de coisas da vida do personagem, da familia e das lembrancas, acho que pela primeira vez, em Musica anterior, porque no livro de contos que lancei anteriormente havia muito jogo com o narrador em terceira pessoa, e depois isso acabou se transferindo para os outros livros, o que e ate uma curiosidade porque em alguns desses livros, nao todos, em especial Longe da agua e Diario da queda, acontecia um pouquinho assim, mas principalmente em Longe da agua pode se dizer que e um romance bastante autobiografico ate um certo ponto, ainda que eu tenha usado memorias verdadeiras.

Mas, no caso de Musica anterior, as memorias sao falsas, assim como O gato diz adeus e um romance 100% falso, no sentido de nao usar minhas memorias e minha biografia.

O dispositivo da memoria na obra, digamos, se o leitor olhar assim para o livro, acho que esta mais nessa questao do formal da narrativa em primeira pessoa do que no emprego, exatamente, de memorias. As coisas que acontecem em todos os livros, embora eles tenham algo de biografia, nao sao totalmente verdadeiras. Em O segundo tempo, por exemplo, o livro e sobre futebol, e eu conheco muito bem o ambiente de futebol, em que o jogo do romance tambem aconteceu, so que a historia do livro e completamente falsa, assim como a historia de o Diario da queda e completamente falsa--a historia mais importante dele, a da relacao do homem com a mulher, o filho que vai nascer, isso e tudo falso.

Para mim e tranquilo distinguir--eu sei que para o leitor as coisas parecem de um jeito, ou se confundem, mas para mim nao ha perigo de isso se confundir porque eu sei mais ou menos o que aconteceu. Por exemplo, um fato real acontecido: voce coloca no livro, ele se ficcionaliza, voce sabe que o distorce, e voce pode ate confundir o que e real ou o que nao e, com o passar do tempo. Mas o que nao aconteceu mesmo, por exemplo, em O segundo tempo? Ha um divorcio dos pais, e meus pais nunca se divorciaram, entao isso e claramente falso, e objetivamente falso, nao ha o que me faca dizer que isso tem uma ressonancia com o real, pois nao tem mesmo.

Dias: Fazendo uma leitura comparada entre Diario da queda e Musica anterior, tive um "estranhamento positivo" com Musica anterior, nao sei se por saber que foi sua primeira obra e, talvez, eu acredite que, por ser um primeiro trabalho literario (embora voce ja tivesse um livro de contos lancado, anteriormente), este romance tenha soado como um livro mais experimental, menos preocupado com certas imposicoes do mercado e da critica. Porem, como voce mesmo ja havia mencionado em outras entrevistas, tambem senti que faltaram algumas coisas a serem ditas, apesar de que, como discussao literaria, Musica anterior parece ter elementos, ainda que voce os considere incompletos, instigantes, e que devem ser discutidos em aulas e em debates sobre a literatura atual. Resumindo: sendo Musica anterior sua primeira obra, como voce a ve em relacao as posteriores ?

Laub: O leitor nao tem os elementos que eu tenho, e eu nao tenho os elementos do leitor, entao e dificil comparar. Mas acho que o que voce chama de experimental muito se deve as minhas limitacoes naquela epoca, pois havia coisas que eu nao conseguia fazer, ou melhor, eu nao sabia ainda como fazer: determinadas coisas, determinados pontos mais elevados que eu queria atingir, e eu acho que eu tentei atingir isso com uma certa formalidade do tom que hoje em dia eu nao gosto.

Fico olhando o que eu produzi, nao e que eu ache ruim, e naquela epoca foi o melhor que eu poderia fazer, mas eu acho que o livro e um pouco falso em relacao ao Diario da queda, por exemplo. Mas falso em relacao ao que eu pretendia fazer, a relacao entre projeto ou intencao e resultado final. Em Musica anterior essa distancia e muito maior. Em relacao ao Diario da queda e menos. Mas ai e so minha opiniao--se deixar muito proxima a teoria da experiencia do leitor, pode esfriar um pouco a narrativa e a sua leitura.

Dias: Eu discuto isso com meu orientador, pois ele acha o Diario da queda melhor, mas eu nao consigo concordar. Musica anterior tem alguma coisa que me chama a discussao ...

Laub: Pode ser. Inclusive e curioso, porque eu nao leio Musica anterior ha dez anos, entao eu fico com a lembranca de umas coisas que hoje acho meio ingenuas, as vezes e uma passagem, um paragrafo, algo que nao tem uma importancia maior do que o livro, mas na minha cabeca ficou aquilo marcado como algo ruim, que contaminou todo o livro. Mas, enfim, talvez nem seja isso.

Dias: A partir de algumas leituras de suas obras (diversas leituras, por sinal), e possivel perceber possibilidades bastante interessantes de dialogos com muitas correntes da filosofia, da critica politica e da teoria da literatura. Entao, sem querer retomar questoes cansadas como as da intencionalidade do autor, ha algumas referencias propositais, mais teoricas, na composicao das suas obras e que digam respeito a sua formacao intelectual?

Laub: De matriz teorica literaria mesmo, claro que tem. Mas acho que ela chega de uma maneira muito diluida e derivada, porque eu nao estudei propriamente teoria literaria, ate li, absorvo lendo resenha dos outros e sobre os outros escritores, leio tambem algumas citacoes etc. Entao, voce acaba sabendo quais sao as principais correntes. Mas eu nunca estudei nenhuma delas a fundo.

Entao, de Musica anterior ate Diario da queda, eu trabalho com personagens em primeira pessoa. Entao, e obvio que quando eu falo da primeira pessoa, algo da teoria do narrador esta ai, nao? E impossivel eu que eu nao tenha incorporado esses principios, o do narrador que e (in) confiavel, por exemplo. Eu nao sei se eu usei isso naturalmente porque, depois pensando, eu cheguei a conclusao de que incorporei muito dessas teorias e desse saber literario dos livros da Agatha Christie. Por exemplo, um que e classico, O assassinato de Roger Ackroyd (1926), me marcou muito quando eu tinha uns 14 anos. A Agatha Christie provavelmente leu os grandes modernos, leu Henry James, Ford Madox Fords e outros da lingua inglesa e os demais escritores que exploraram esses recursos ao infinito. Entao, por exemplo, eu diria que a influencia do narrador (in) confiavel em mim vem muito mais dessa linha, provavelmente a que fui pegar por meio de uma literatura secundaria--e que talvez nao tenha grande importancia para historia da literatura--, muito mais dela do que, por exemplo, de Dom casmurro. Mas, tambem, e logico que Machado de Assis vai estar na minha escrita porque eu li Dom Casmurro aos 17, 18 anos, e eu me lembro da historia e, claro, isso vai se incorporando. Mas eu acho que nao e de uma maneira direta. Musica anterior tem aquela historia de livre-arbitrio e poder, mas isso e uma das coisas que eu acho meio pretensiosas, porque eu nao li muita coisa sobre isso, e algo quase lugar-comum, hoje, eu pensar que fiz um livro e resolvi fazer uma grande teoria sobre isso, entao, essa ideia realmente nao e o caso. Mas naquela historia poderia valer. De qualquer forma, nao tenho pretensoes maiores de discutir com grandes autores ou grandes filosofos que trataram disso.

Em Diario da queda, sim, para estruturar uma narrativa sobre a Segunda Guerra e Auschwitz eu fiz uma leitura maior e ate mais preocupada, porque eu iria falar de um tema muito sensivel, e entao eu usei muito o Primo Levi como simbolo de toda aquela questao. Assim, toda essa presenca de antepassados formais e assuntos que poderiam me impedir de escrever foi contornada lendo-os e, a partir do conhecimento maior deles, e enfrentando o problema. Eu acho ate bem legal os estudos sobre os livros, mas eu nao gosto muito de piscar o olho para a critica, principalmente para a critica academica: "ah, eu plantei a referencia a obra la, a critica vai saber e citar nas resenhas". Cada vez mais eu tenho implicancia com isso. Evitar isso torna o livro mais interessante, porque as interpretacoes ficam mais abertas, porque se eu fizesse referencias muito fechadas e obvio que isso as poderia direcionar. Isso acaba sendo um suborno intelectual: o autor coloca um misterio ali sabendo que os pesquisadores ou criticos vao querer desvendar o misterio, e vao se sentir inteligentes quando desvendarem e em troca falarao bem do livro. Isso barateia a obra, pois a obra nao e isso. Como literatura, o valor dela nao esta nesse dialogo com outras obras. O dialogo com outras obras e obvio, voce sabe que vai estar ali, mas voce tem que criar algo novo, autonomo, algo de valor humano para alem da discussao academica.

Dias: Percebo que ha um tom tragico na sua escrita, especialmente em Musica anterior, um tragico da banalidade, do cotidiano, das relacoes pessoais, das lembrancas, do destino, do afetivo, da vida sem acontecimentos, ou de acontecimentos aparentemente desimportantes, enfim. Sei que ja faz um bom tempo (muito tempo), mas quando escreveu Musica anterior voce tinha a ideia dessa sua propensao ao tragico? Voce se preocupava em ficcionalizar isso que vejo com sendo uma queda no tragico, especialmente quando leio o romance sob a otica daquele narrador-juiz? Alias, ainda hoje, voce consegue se ver como um escritor que ronda essa tragicidade filosofica (essa forma de desajuste contemporaneo do homem com o mundo) na composicao de Musica anterior?

Laub: E. A posteriori, e razoavelmente simples de ver que em todos os livros meus ha uma certa tragicidade, e eles acabam em mortes, mas nao e algo que vou pensando no decorrer da escrita. E ate curioso porque eu sempre tento fugir disso, em todo livro que escrevo penso: "Dessa vez eu nao vou matar um personagem". Ate consigo eventualmente fazer um final mais otimista, tipo Diario da queda, mas ele e um final ao mesmo tempo tragico, uma queda total do personagem, e um procedimento que as vezes acaba sendo inevitavel para mim, e tem a tragicidade do enredo e, ainda, a tragicidade do escritor que esta tentando escrever um outro tipo de assunto e, no entanto, acaba voltando para esse tipo de abordagem.

Eu vejo isso como algo mais pratico do que planejado, porque eu escrevo um livro e as coisas que funcionam eu sigo, e nas vezes que eu tentei me desviar dessa forma tragica nao funcionou narrativamente. Eu tento fugir disso, talvez a minha vocacao seja escrever esse tipo de narrativa (tragica), mas nao porque eu tenha antes pensado "la vou eu escrever novamente sobre o tragico e o cotidiano banal". Isso acaba vindo sempre depois da interpretacao, a partir daquela coisa da narrativa que vai se resolvendo tecnicamente, no decorrer.

Dias: Tenho visto alguns estudos trabalhos sobre outras obras suas, mas me parece que sobre Musica anterior ninguem se atreveu ainda a fazer um estudo mais critico e profundo sobre essas questoes (a condicao do tragico)...

Laub: E verdade, e talvez seja o mais tragico de todos, ele e quase uma tragedia grega ...

Dias: Esse meu projeto parte de uma aproximacao entre uma ja estabelecida critica literaria que se faz na universidade (e que se destina ao estudo da literatura contemporanea) e a possibilidade de pensar a ficcao atual sob outros parametros, especialmente buscando trabalhar nas fronteiras politicas, culturais e filosoficas que escritores como voce suscitam, ao construir uma poetica de autor. Queremos insistir no estudo do "agora" na universidade e nos estudos academicos e sua obra esta nesse projeto. Voce tem noticia de trabalhos sobre sua obra no meio academico? Sabe da recepcao de seus romances nas universidades? Como lida com as discussoes, com os estudos criticos (falo tambem de dissertacoes e teses) sobre seu trabalho. Voce e um leitor das teorias contemporaneas que buscam dar conta do fenomeno literario? (Teoria da Literatura, Politica, Sociologia, Estudos Culturais etc)?

Laub: Olha, eu nao tenho tanta ideia da repercussao de meus livros na universidade. Eventualmente chega alguma coisa para mim, como agora esta chegando, e quando chega eu tenho o maior prazer de responder as perguntas, e de ate ler os trabalhos, porque acho interessante, mas nao e algo que eu acompanhe frequentemente, entao provavelmente tem muita coisa sendo feita e que eu nao sei, e entao eu nao sei para que lado isso tudo esta sendo interpretado. Pelo pouco que eu noto, a grande maioria dos trabalhos vai por esse lado da memoria, que acho que, na verdade, e bem razoavel mesmo, porque e, de fato, o que mais aparece nos livros.

Mas, ao contrario de alguns autores, nao me influencio por esses trabalhos, porque tem muitos autores que escrevem meio que intuitivamente o livro, ai a academia detesta o livro do sujeito e ele vai pelo caminho que a propria academia disse que e o caminho dele, e fica aquele dialogo de que falei, meio que um suborno multiplo: o autor lancar um livro com uma certa forma pre-estabelecida, pois sabe que a academia vai interpretar de certo jeito, indo ao encontro do que a academia ja havia dito e tal. Isso limita muito o escritor.

Eu entendo por liberdade narrativa a ideia de voce, a cada livro que comeca, nao saber exatamente aonde isso vai dar. No meu caso ainda nao aconteceu, mas as vezes isso pode ir completamente contra tudo que voce ja fez ate entao, e e artisticamente mais interessante, e algo mais legal de se definir do que o dialogo com a critica academica. Eu nao tenho nada contra a academia, so acho que sao instancias diferentes, e que bom que sejam distintas, pois dessa maneira a academia interpreta como quer os livros e eu escrevo os livros como eu quero.

Dias: E o que e interessante para nos, leitores e pesquisadores, sao os livros que fogem ao padrao esperado da critica em si, porque dentro da academica, na verdade, nao ha nem a critica literaria comercial ou a midiatica, o que vejo sao estudos recorrentes sobre os livros e o grande proposito, ao final, e o de trazer a literatura contemporanea para que seja discutida cada vez mais na universidade.

Laub: Cada um no seu papel. Inclusive, foi uma das razoes para uma decisao que tomei em determinado momento da vida. Entao, a decisao de que eu jamais faria um mestrado foi por causa disso. Eu achei que estragaria meu proprio objeto, porque e legal que ele esteja cru. Se fosse escrever tese seria um outro procedimento. Eu ate parei um pouco de fazer critica literaria por conta disso. Faco uma resenha ali e outra aqui, mas nao como habito, senao a leitura vira um tipo de mecanismo totalmente analitico de critico, o que e outra linguagem. Leitura de escritor e outra coisa, e que bom que sejam mundos diversos, porque desse jeito a relacao entre ambas se complementa.

Dias: Uma pergunta bem direta sobre Musica anterior: por que o narrador-juiz e tao obcecado por Luciano, ja que ele cuidou de outros casos, ate mais contundentes? Por que esse personagem o marca tanto?

Laub: Olha ... Primeiro, porque a narrativa tem aquela coisa, de colocar um foco so, e e legal que seja so um caso. E tambem o fato de ele ser obsessivo ajuda a amarrar a narrativa, porque as vezes o que o personagem central esta narrando nao e tao importante assim, mas pelo fato de ele ser tao obsessivo percebe-se que isso e importante para ele, para aquele narrador. Entao o leitor da aquele desconto para o drama do personagem: "que bobagem isso de a mulher do cara nao poder ter filhos, de ele nao poder ter filhos". Mas para o narrador isso e tudo, e o fim. E como ele narra convictamente, o leitor aceita.

Agora, em termos de conteudo mesmo, acho que tem a ver com toda a questao da esterilidade, da impotencia masculina. Isso esta bastante ligado a questao do estupro, pois, neste caso, nao poderia ser um crime de assassinato. Era importante que fosse um crime de natureza sexual, porque existe toda uma questao sexual no romance, meio subterranea.

Dias: Qual a importancia do seu trabalho como jornalista em relacao a carreira de escritor?

Laub: Meu trabalho como jornalista foi bastante importante em determinado ponto. Acho que agora isso passou. Foi no sentido de eu ter sido editor, de saber pegar um texto, principalmente na reescrita. Voce escreve uma coisa bruta e depois sabe olhar o texto, ver o que funciona e nao funciona ... Ajeitar e mudar um texto, isso o jornalismo me deu, principalmente naquele nivel da eficiencia, que e um dos niveis da literatura.

Digamos, grosseiramente, que a literatura seja constituida em tres niveis: linguagem, eficiencia e densidade (que e uma coisa meio eterea). O jornalismo tem uma linguagem normalmente muito objetiva, e a literatura e bem diferente disso, e isso talvez nao ajude. Mas na eficiencia, aquela coisa de voce manter o interesse do leitor enquanto esta contando uma historia, que e uma coisa que muitas vezes a teoria literaria e os proprios escritores desprezam, mas eu considero algo muito importante, esse ato do leitor comecar um livro e ter interesse de saber o que aconteceu e chegar la no final de 200 paginas, sabe, com vontade de chegar la. Nesse ponto, de saber contar uma historia, de um elemento que vem antes, que vem depois, as surpresas eventuais, isso a pratica do jornalismo me trouxe, porque quando voce escreve uma reportagem e uma historia que esta contando e precisa manter o interesse do leitor do inicio ao fim. Portanto, e um treino, um nivel, claro, muito superficial, basico, mas e uma base que vai acabar servindo para literatura. Ja a densidade, que e o nivel literario por excelencia, a vida que voce coloca no texto, a complexidade dos personagens, a sensacao de que aquilo nao e so um relato bonitinho, isso tem a ver com talento, nao se ensina. E algo que esta dentro do escritor.

Dias: Para quem voce escreve? Que publico-leitor tem em mente?

Laub: Nao tenho um publico especifico em mente. Quer dizer, tem um pouco de mim, como leitor. Eu preciso gostar do que eu escrevi para nao cortar, e digamos que eu seja a primeira instancia, depois vem os primeiros amigos para quem eu mostro, depois meu editor, depois a imprensa, o leitor comum, a academia, mas a instancia mais proxima sou eu mesmo. Quando eu vou escrever nao me policio muito, eu escrevo de maneira solta. Entao depois, como editor de mim mesmo, e neste momento sim vem a coisa de ser jornalista, eu vou ver com outros olhos, com um pouco mais de rigor, e corto e acrescento coisas.

Dias: Voce acha que ha uma saturacao de estilos dentre os novos autores, ou, melhor, dentre os chamados autores da geracao "90" e "00"?

Laub: Essas separacoes sao totalmente mercadologicas, porque eu mesmo comecei nos anos 90. Meu primeiro livro de contos e de 98, e meu romance e de 2001, entao posso dizer que sou da geracao 2000, porque eu estreei em editora grande em 2001, mas na verdade eu ja escrevia antes. E eu tenho mais ou menos a mesma idade de alguns desses escritores da geracao de 90. Entao, nem no criterio cronologico, nem no criterio de idade, nem no de temas propriamente ditos eu acho que me diferencio tanto, nem dos da geracao 90 e nem dos de 2000.

O que houve no caso da geracao de 90 e que surgiram coletaneas. Essas coletaneas focalizaram um grupo pequeno de autores, e ai, se voce tem um grupo pequeno, de mais ou menos 5 ou 10 pessoas, ou 20, e mais facil identificar os tracos em comum. E nos anos 2000 ficou mais espalhado porque a facilidade de publicacao foi bem maior, e ai tinha a Internet, e agora e possivel rastrear mais ou menos uns 200 autores de relevancia pelo Brasil.

Mas isso e uma questao que vem da facilidade de barateamento dos meios impressos, da Internet etc. Isso e algo muito mais economico e mercadologico do que literario. Eu acho muito dificil falar de geracao 2000. Tem gente escrevendo de tantas maneiras, nao sei nem por onde comecar a tracar essa aproximacao. Talvez o ponto seja a diversidade mesmo, mas ai e como dizer que nao tem ponto em comum.

Dias: E falar de geracao e muito dificil, porque, por exemplo, tem Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, voce mesmo e Sergio Sant'Anna ...

Laub: Milton Hatoum publicou livro em 89, mas ele se consagrou mesmo nos anos 2000. Ele tem por volta de 50/60 anos ... O Bernardo Carvalho comecou nos anos 90, la por 94/95, e meu primeiro livro de contos e de 98. Considero Bernardo um veterano para mim, gosto muito dele, considero ele um exemplo e tambem um cara de uma geracao acima. Agora, se pensarmos bem, eu publiquei 3 ou 4 anos depois dele, o que e quase nada. Na epoca ate poderia ser mas, depois que o tempo passa, voce vai ficando velho, 3 ou 4 anos nao sao nada. Entao e dificil de voce falar de geracoes.

Dias: O caso do Daniel Galera tambem, que esta mais presente no cenario literario agora ...

Laub: O proprio Galera comeca no inicio dos 2000. Se usar outros criterios, daqui a pouco ele e quase da minha geracao, e ai qual a diferenca entre mim, o Bernardo e o Galera em termos de geracoes? Um esta um pouco acima de mim, outro um pouco abaixo.

Dias: Uma ultima questao. Vejo semelhancas tematicas de questoes ja apontadas em seu primeiro livro, o de contos. Uma delas e a ideia de que um fato do passado, ainda que aparentemente banal, traz consequencias ate mesmo graves no futuro da personagem. Ha uma questao do trauma e outra da divida (ou da culpa) que me intrigam. Os temas do trauma e da divida para com o outro sao obsessoes suas? Se sim, ou nao, poderia comentar essa minha leitura?

Laub: Ha isso mesmo, o fato pequeno que vai ocasionar mudancas no futuro do personagem, aquela coisa do romance de formacao. Em Musica anterior talvez haja uma veia psicanalitica, um certo psicologismo. Acho que usei muito isso, pelo menos na minha lembranca, so que eu fui mudando com o tempo. Hoje em dia eu tenho ate um certo receio da psicanalise, principalmente da psicanalise aplicada a narrativa artistica, so que continuo usando esse procedimento, um fato passado que se desdobra no futuro. E uma contradicao lidar com um modelo narrativo que tem tudo para remeter ao psicologismo, e ao mesmo tempo eu desprezo esse psicologismo. Entao fico no meio do caminho e tento fazer a coisa me desviando dessa relacao. A teoria do trauma e tal e uma coisa psicanalitica que pode gerar o psicologismo mais rasteiro, mas nao da para dizer que isso nao esta nos meus livros.

Dias: Agradeco a voce por sua disponibilidade, gentileza. Muito obrigado.

Felicio Laurindo Dias (2) Paulo Cesar Oliveira (3)

(1) Entrevista concedida a Felicio Laurindo Dias em 02 de fevereiro de 2013, por telefone.

(2) Bolsista de Iniciacao Cientifica da FAPERJ e graduando em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

(3) Professor Adjunto de Teoria Literaria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Professor Titular da Uniabeu. Vice-lider do Grupo de Pesquisa CNPq "Nacao-Narracao". Bolsista do Programa de Apoio a Pesquisa da Uniabeu (PROAPE).
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Title Annotation:escritor
Author:Dias, Felicio Laurindo; Oliveira, Paulo Cesar
Publication:Soletras
Article Type:Entrevista
Date:Jan 1, 2013
Words:4892
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