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Entrepreneurial urban governance and mega-sporting events/Governanca urbana empreendedorista e megaeventos esportivos.

A nova governanca urbana empreendedorista

Desde a decada de 1980, o Estado brasileiro vem passando por grandes modificacoes politicas e institucionais. Dentre elas destacam-se a redemocratizacao, a nova Constituicao promulgada em 1988 e a implementacao de reformas estruturais baseadas em principios neoliberais.

A partir da Constituicao de 1988, os municipios passaram a ser considerados "entes administrativos", recebendo diversas responsabilidades que anteriormente cabiam ao Governo Federal. Esse processo de descentralizacao pode ser associado a uma negacao do centralismo politico de anos de governo autoritario, porem, ao alterar o sistema de decisoes politicas municipais, bem como o escopo da atuacao dos agentes vinculados a essa escala da politica, e possivel alinhar o fortalecimento do poder local as transformacoes associadas a globalizacao e a implementacao de reformas estruturais, de cunho neoliberal, em curso em diversos paises.

Com a crise do modo fordista de produzir, ganhou expressao, na decada de 1970, um processo de reestruturacao produtiva com a emergencia de um padrao de acumulacao flexivel, baseados, nas mudancas de padrao tecnologico, na flexibilizacao do trabalho, e, tambem, na constituicao de uma Nova Divisao Internacional do Trabalho, com a relocalizacao espacial das plantas produtivas (HARVEY, 1992).

No bojo da crise do fordismo, entra em crise tambem o modelo do Estado do Bem Estar, que se difundira por mais de trinta anos na Europa Ocidental em decorrencia das lutas trabalhistas e tambem da forte presenca dos idearios socialistas enquanto alternativa de sistema politico e economico. Ao final da decada de 1970 e inicio da decada de 1980, a eleicao dos governos liberais-conservadores de Margaret Thatcher (primeira ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990) e Ronald Reagan (presidente dos EUA de 1981 a 1989) trouxe para a agenda politica concepcoes neoliberais de Estado, enunciadas como unica solucao para a crise que estava em curso. Nesse contexto ficou famosa a frase de Thatcher: " there is no alternative".

A adocao de politicas desregulacionistas por esses governos anglo-saxoes, aliadas ao processo de globalizacao financeira, forcou os governos dos paises perifericos a um ajustamento economico, imposto atraves do controle do mercado financeiro. Dessa forma, como reforca Fiori (2001), as ideias neoliberais se transformaram em "pensamento unico" ao conquistar a midia e diversos intelectuais de diferentes paises que se submeteram a essas novas regras economicas. Fiori (2001) afirma que na decada de 1990 o neoliberalismo se transformou em "um novo senso comum, quase 'ensurdecedor' [...] sintetizado por algumas palavras de ordem: menos Estado, fim das fronteiras, desregulacao dos mercados, equilibrio fiscal, competitividade global etc." (FIORI, 2001, p. 74-75).

O Estado-nacao, por um lado, reduziu seu papel nas atividades economicas, com a privatizacao de empresas estatais e das infraestruturas nacionais, e nas politicas sociais. Entretanto, assumiu um novo papel de agente regulador da economia e dos servicos publicos. Por outro lado, ocorreu uma valorizacao do governo local visto como capaz de dar respostas rapidas aos desafios da globalizacao. Para Oliveira (1998 apud SANTOS JUNIOR, 2001), o Estado foi reduzido apenas no tocante as suas funcoes sociais, pois permaneceu responsavel pela reproducao do capital.

Dessa forma, as reformas institucionais que derivaram na descentralizacao administrativa, com a municipalizacao das politicas publicas, possibilitaram o estabelecimento de novas estruturas organizacionais do poder local, principalmente vinculadas as parcerias entre o setor publico e o setor privado. O Estado do Bem Estar distributivista, pautado em padroes universalistas, foi substituido pela ideia de "bom governo", no qual o qualificativo relaciona-se a sua capacidade de integrar o espaco de forma competitiva aos mercados globais (SANTOS JUNIOR, 2001).

O debate sobre a insercao das cidades no mapa dos fluxos da globalizacao muda as discussoes sobre os problemas urbanos, que, nessa otica, passam, por exemplo, a nao mais serem vinculados ao "crescimento desordenado, reproducao da forca de trabalho, equipamentos de consumo coletivo, movimentos sociais urbanos, racionalizacao do uso do solo" (VAINER, 2000, p. 76). Nesse contexto, Santos Junior (2001) afirma que:
   No novo modelo, o eixo de analise se desloca para a produtividade
   urbana, e a identificacao dos obstaculos, para a insercao
   competitiva das cidades nos circuitos globais. As funcoes do poder
   publico tambem se deslocam: as da gestao e do planejamento da
   cidade, para a garantia de um meio ambiente favoravel aos negocios
   e ao desenvolvimento economico. (p. 34-35)


Essa nova forma de governanca das cidades vem sendo denominada de "empreendedorismo urbano" (HARVEY, 2005). Porem, antes de tecer maiores comentarios sobre essa nova governanca, e importante caracterizar o que se entende por governanca.

A ideia de governanca, tal qual a de governabilidade, emergem no contexto de implementacao das politicas neoliberais. A palavra governabilidade, em sua concepcao mais simples, quer dizer tornar governavel, em contraposicao a uma pretensa ingovernabilidade que existiria antes, resultado do excesso de demandas sociais e das resistencias as reformas neoliberais. Assim, a palavra ja apresenta consigo um diagnostico conservador da crise, ao mesmo tempo em que traz a sua solucao: as reformas estruturais (FIORI, 1995). Nesse mesmo sentido, a palavra governanca esta, no seu sentido neoliberal original, atrelada a concepcao de "bom governo", ou seja, a capacidade do Estado de ser governo, sem qualquer enfase na sua relacao com a sociedade, retirando o seu sentido politico e reforcando o seu sentido tecnico.

Santos Junior (2001, p. 60) acredita na possibilidade de reconceituacao do termo governanca, que passaria a ser "entendida como a interacao entre governo e sociedade, com analises centradas na questao dos arranjos institucionais que coordenam e regulam a relacao entre o governo e os atores sociais dentro de um sistema politico". O sentido de governanca se deslocaria da analise do Estado em si, para a relacao entre a sociedade civil e o Estado, sugerindo que a capacidade de governar nao esta vinculada somente as instituicoes formais, mas tambem as relacoes de cooperacao e conflitos dos diferentes agentes sociais. Nesse sentido, Harvey (2005) reforca que a ideia de governanca urbana e muito mais ampla do que a de governo urbano e que o poder de organizacao da vida urbana esta "numa coalizacao de forcas mais ampla em que o governo e a administracao urbana desempenham apenas papel facilitador e coordenador. O poder de organizar o espaco se origina em um conjunto complexo de forcas, mobilizado por diversos agentes sociais." (HARVEY, 2005, p. 171).

Harvey (2005) indica que a abordagem empreendedora surgiu nas decadas de 1970 e 1980 no lugar de uma abordagem administrativa caracteristica da decada de 1960. Esse corte temporal reforca o papel desempenhado pela ascensao do empreendedorismo urbano na transicao geral do capitalismo de um regime de acumulacao fordista-keynesiano para um regime de "acumulacao flexivel".

A principal caracteristica desse modelo de governanca sao as "parcerias publicoprivadas", a partir das quais os empresarios integram-se a busca de fontes externas de financiamento e investimentos, justificadas como respostas a crise fiscal. Por conta dessas parcerias, os projetos de desenvolvimento urbano passam a ser especulativos, ou seja, sujeitos a riscos. As analises empiricas mostram que os riscos sao assumidos pelo setor publico enquanto que o setor privado costuma ficar com os beneficios. Outra caracteristica, consequencia das anteriores, e que os projetos passam a ter um carater pontual, cujo foco incide sobre as partes do territorio associadas aos interesses privados, normalmente vinculados a empreendimentos imobiliarios e a espacos de consumo. Assim, o planejamento e a gestao do territorio passam de um paradigma racional, totalizante, para um especulativo, pontual.

Vainer (2000) aponta que essa linha de argumentacao passa a ser encarada como "unico meio eficaz para fazer frente as novas condicoes impostas pela globalizacao as cidades e aos poderes locais" (VAINER, 2000, p.78). O "pensamento unico" neoliberal tambem se impoe na gestao e no planejamento da cidade, estabelecendo um novo paradigma: a governanca empreendedorista urbana.

A gestao das cidades passa, cada vez mais, a se parecer com a gestao das empresas, incorporando os principios de agilidade e flexibilidade para adaptar-se ao mundo dos negocios. Segundo Vainer (2000, p.76), esse modelo, "inspirado em conceito e tecnicas oriundos do planejamento empresarial, originalmente sistematizados na Havard Business School" deveria ser adotado pelas cidades pelo fato das mesmas estarem submetidas aos mesmos desafios das empresas.

Nessa argumentacao, a cidade, agora cidade-empresa, e transformada em sujeito do processo, o que levou Borja & Castells, dois intelectuais internacionais de grande prestigio, a afirmarem que "as cidades sao as multinacionais do seculo XXI" (1997 apud VAINER, 2000). E essa argumentacao que permite a transposicao das ideias de competitividade e produtividade, a partir da qual a cidade e subordinada ao mercado, para a governanca das cidades. Para Vainer, "[... ] ver a cidade como empresa significa, essencialmente, concebe-la e instaura-la como agente economico que atua no contexto de um mercado e que encontra neste mercado a regra e o modelo do planejamento e execucao de suas acoes." (VAINER, 2000, p. 86).

A visao reificada de cidade, que a considera como agente ativo do desenvolvimento politico e economico, sobrepoe-se a visao de cidade como espaco de lutas entre diferentes agentes pela apropriacao material e simbolica do espaco urbano. Ao pensar a cidade como um agente, naturalizam-se interesses de determinados agentes hegemonicos, que passam a ser vistos como interesses da cidade. Por exemplo, os investimentos pontuais que o poder publico realiza no espaco urbano favorecendo a acao dos incorporadores sao vistos como interesses da cidade (HARVEY, 2005). A cidade como agente, tornada cidade-empresa, desliza para cidade-empresarios. (VAINER, 2000).

A representacao da cidade-sujeito coexiste com a representacao cidade-objeto. A cidade-empresa coloca a venda a cidade-mercadoria. Nessa concepcao, segundo Arantes (2000), a cidade nao deve ser gerida "like a business ", mas "for business ". Mas quem sao os compradores da cidade? O que eles buscam? O que a cidade oferece a seus compradores? A venda da cidade e estabelecida a partir de grandes estrategias de marketing urbano, acompanhada de uma politica de image-making, para a sua insercao no mercado global. Nesse sentido, a dimensao simbolica das cidades associadas a cultura, aparece como capaz de oferecer distincao as cidades na atracao por investimentos (ARANTES, 2000).

Este conteudo simbolico vem sendo apropriado por agentes economicos que acumulam lucro, prestigio e poder com a permanente construcao, destruicao e venda de imagens da cidade (RIBEIRO, 2006). A manipulacao das linguagens simbolicas, associadas a essa estetizacao do poder, reflete nas escolhas sobre quem, ou o que, pode estar visivel na paisagem (ARANTES, 2000). Nessa concepcao, a cidade e vista, obviamente, como valor de troca, sobrepondo-se aos interesses daqueles que a veem cotidianamente como valor de uso.

A cidade enquanto valor de troca, cidade-mercadoria, e qualificada a partir de demandas de localizacoes associadas ao mercado externo, ou seja, ao capital transnacional. Este estaria interessado em atributos especificos das cidades: espacos de convencoes, parques industriais, centros historicos, areas portuarias, parques tematicos de lazer, condominios fechados, megaeventos, etc. Dessa forma, Vainer (2000) reforca que todas as cidades devem vender a mesma coisa, pois os possiveis compradores possuem as mesmas necessidades.

Ferreira (2011) argumenta que esse processo tem levado a certa banalizacao do espaco, pois a producao do espaco urbano, derivada da competicao interurbana pela atracao de fluxos globais, estaria realizando-se baseada na copia de "modelos de sucesso internacional", tais como os citados no paragrafo anterior. Assim, cidades localizadas em diferentes partes do planeta passam a ter muitas caracteristicas semelhantes.

Percebe-se que os compradores da cidade-mercadoria sao o capital internacional e os visitantes solvaveis. A cidade transformada em coisa, nao e uma mercadoria qualquer, mas, sim, uma mercadoria de luxo (VAINER, 2000). Segundo Vainer (2000), a cidade como sujeito e objeto de negocios nega radicalmente o espaco politico, de conflitos e disputas ideologicas entre os agentes. Como a cidade passa a ser encarada como um agente, empresa multinacional, os interesses estabelecidos como sendo da cidade, sao naturalizados. A cidade competitiva precisa da uniao de todos os seus habitantes para sair da crise e para oferecer paz e estabilidade ao capital internacional e aos visitantes estrangeiros. Dai emerge a cidade-patria, onde impera o consenso e onde sao reforcadas as identidades territoriais.

Entretanto, as especificidades da urbanizacao brasileira apontam que a insercao da acumulacao urbana nos circuitos financeiros globalizados ocorre mantendo parcialmente o padrao de modernizacao-conservadora caracteristico da sua historia urbana. Resultando, portanto, em uma governanca empreendedorista com tracos muito particulares, pois, ao mesmo tempo em que transforma a cidade em mercadoria a ser vendida no mercado global, mantem praticas patrimonialistas de acumulacao urbana e de representacao politica baseada no clientelismo. (RIBEIRO & SANTOS JUNIOR, 2011).

Para Ribeiro e Santos Junior (2011), a permanente crise do capitalismo financeirizado e o ciclo de prosperidade e estabilidade que o Brasil vem atravessando, aliado a existencia de ativos urbanos passiveis de espoliacao, ou seja, comprados a precos baixos e vendidos no mercado mundial, tem inserido as cidades brasileiras nos circuitos internacionais de acumulacao.

Assim, as disputas e as relacoes de dominacao e poder entre os agentes sociais urbanos na cidade do Rio de Janeiro vem configurando uma nova coalizao de forcas locais, em alianca com antigas coalizoes dominantes (caracterizadas pelo localismo, paroquialismo e clientelismo), envolvendo inclusive, ainda que de forma minoritaria, os segmentos populares e progressistas, em torno da governanca empreendedorista. Essa nova coalizao de forcas seria sustentada por fracoes do capital imobiliario em alianca com fracoes do capital financeiro e estaria vinculada a algumas formas especificas de intervencao na cidade, com destaque para a reestruturacao das areas centrais e a realizacao de megaeventos (SANTOS JUNIOR & SANTOS, 2011).

Os megaeventos esportivos como estrategia da governanca urbana empreendedorista

Buscando fazer uma sintese dos principais elementos relacionados a governanca urbana empreendedorista analisados na secao anterior, apresenta-se a Figura 1, elaborada por Sanchez et al. (2004). No esquema apresentado, ressalta-se a importancia conferida aos grandes projetos de desenvolvimento urbano, entre os quais estao os megaeventos esportivos.

[FIGURE 1 OMITTED]

Sanchez et al. (2004) reforcam a importancia dos Grandes Projetos de Desenvolvimento Urbano (GPDUs) como uma das principais estrategias adotadas pelas cidades (tornadas sujeitos) em busca de crescimento economico e de competitividade. Muitas sao as expectativas e os exemplos de GPDUs orientados para a "revitalizacao urbana" e para a atracao tanto de turistas quanto de investimentos estrangeiros em resposta a crise fiscal e as desigualdades socio-espaciais.

Entre as intervencoes urbanas de grande porte, tem se destacado, pela recorrencia, como modelo de sucesso e de banalizacao do espaco, as intervencoes em areas portuarias (frentes maritimas ou ribeirinhas), os projetos de renovacao das areas centrais e os projetos de reestruturacao urbana baseados na atracao de eventos internacionais de grande porte, principalmente os esportivos, foco do presente trabalho.

Roche (2001 apud ALMEIDA et al., 2009) define megaeventos (comerciais e esportivos), a partir da escala cultural, da carga dramatica, do apelo popular e da significancia internacional, destacando tambem o alcance de midia e de mercado desses eventos.

Os Jogos Olimpicos, alem de grande apelo de midia e de mercado internacional, se caracterizam como o evento esportivo que possui maior poder de transformacao da paisagem das cidades, alterando as formas, as funcoes e a dinamica territorial. Mascarenhas (2004) destaca que as instalacoes esportivas alem de apresentarem um aspecto duravel, decorrente do alto investimento em capital fixo, e ampla visibilidade, muitas vezes passam a se constituir em importantes centralidades fisica e simbolica no interior do espaco urbano.

Os Jogos Olimpicos se apresentam no imaginario coletivo como metafora das desigualdades do cenario internacional e vitrine das potencias economicas, politicas e tecnologicas, o que e evidenciado tanto pelo desempenho olimpico, expresso no quadro de medalhas, quanto pela realizacao dos Jogos. De 26 edicoes dos Jogos Olimpicos, 14 foram realizadas na Europa Ocidental, enquanto os Estados Unidos foram o pais onde o evento aconteceu mais vezes, em um total de quatro edicoes.

Nenhuma edicao foi realizada no continente africano e no sul-americano. Isso deixara de ser verdade, em breve, com a realizacao dos Jogos Olimpicos de 2016, na cidade do Rio de Janeiro. Esse fato esta relacionado ao papel politico e economico que o Brasil vem desempenhando no cenario internacional.

A partir do que foi considerado acima, pode-se afirmar que existe uma logica espacial da realizacao dos Jogos Olimpicos, visualizada na Figura 2.

[FIGURE 2 OMITTED]

Os Jogos Olimpicos da Era Moderna foram realizados pela primeira vez no ano de 1896, sob idealizacao de Pierre de Coubertin. As Olimpiadas modernas estao divididas em Jogos de Verao e Jogos de Inverno, a periodicidade e de quatro em quatro anos, como na antiguidade, alternando a cada dois anos entre os Jogos de Verao e de Inverno.

A recriacao do movimento olimpico nesse periodo relaciona-se a expansao de organizacoes que tinham por objetivo a promocao da paz. Dessa forma, Pierre de Coubertin desejava criar, a partir do esporte, uma forma racionalizada dos conflitos entre os paises e promover a confraternizacao entre as nacoes em oposicao as guerras (RUBIO, 2010). Cabe lembrar que para os gregos, as olimpiadas representavam um momento de tregua nos conflitos para que os competidores e os espectadores pudessem chegar com seguranca ate Olimpia.

Ao analisar a historia de mais de um seculo de existencia do movimento olimpico, tornar-se nitida a relacao dos Jogos com as mudancas politicas e sociais mundiais que ocorreram, como, por exemplo, a ascensao do nazismo, a 2a Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1945-1991), apesar de o movimento se declarar como apolitico.

Cabe tambem ressaltar as transformacoes urbanas associadas aos Jogos Olimpicos, especialmente aos Jogos Olimpicos de Verao, pois, como lembra Mascarenhas (2011), a realizacao de tal evento demanda: dotar as cidades de instalacoes, dentro de padroes internacionais, para que possam abrigar a pratica de diversas modalidades esportivas; criar condicoes de alojamento para os atletas, tecnicos, imprensa e membros do comite olimpicos; bem como expandir e/ou aperfeicoar a infraestrutura urbana. Sem duvida alguma, a realizacao de um evento de tal porte se consagra como um momento chave das transformacoes na paisagem de uma cidade.

Observa-se, no entanto, que, nem sempre o evento se configurou de forma tao expressiva. As primeiras realizacoes dos Jogos Olimpicos (1896-1904) deixaram poucas marcas na paisagem das cidades-sede. Os Jogos nao tinham apoio dos governos nacionais e o numero de participantes era reduzido, basicamente descendentes da aristocracia europeia e norte-americana que possuiam dinheiro suficiente para se dedicar ao esporte, pois o amadorismo era condicao para participacao. Devido a falta de apoio uma das formas encontradas pelos organizadores foi realizar os Jogos juntamente com as Exposicoes Internacionais. Dessa forma, as tres primeiras edicoes dos Jogos foram marcadas por um verdadeiro desprezo ao movimento olimpico (RUBIO, 2010).

Ao analisar a historia dos Jogos Olimpicos, percebe-se que o evento fo aumentando gradativamente a sua escala de abrangencia, o seu nivel de organizacao e a sua capacidade de realizar impactos na infraestrutura urbana, conforme apresentado na Tabela 1, traduzida e adaptada do texto de Essex & Chalkley (2004).

A partir dos Jogos Olimpicos de 1908, em Londres (Reino Unido), os organizadores comecaram a trabalhar com mais antecedencia para arrecadar verbas para a construcao de instalacoes esportivas e para a divulgacao do evento, que tambem passou a contar com um publico maior.

Ja nos Jogos de Los Angeles (EUA), em 1932, pode-se falar em "urbanismo olimpico". No contexto pos-crise de 1929, os Jogos renderam lucros de mais de US$ 1 milhao de dolares aos seus organizadores, que levaram o padrao da producao cinematografica de Hollywood, ja reconhecido a epoca, para a producao dos Jogos (RUBIO, 2010). Nessa edicao tambem foi edificada a primeira vila olimpica com caracteristica de habitacao permanente e nao mais de dormitorios, uma caracteristica distintiva dos eventos anteriores (MASCARENHAS, 2011).

Outro momento importante da historia dos Jogos foi em Berlim (Alemanha), em 1936. Adolf Hitler fez grandes investimentos na organizacao do evento e na preparacao dos atletas. Seu objetivo era fazer uma propaganda do governo nazista atraves do esporte. Os Jogos, mais uma vez, mostraram-se rentaveis, alem de terem colaborado para o fortalecimento da imagem de Hitler tanto na Alemanha quanto no exterior.

A periodicidade dos Jogos foi interrompida pela deflagracao da 2a Guerra Mundial, que acabou acarretando o cancelamento das edicoes de 1940 e 1944. Na edicao de Londres, em 1948, por conta das dificuldades financeiras decorrentes da reconstrucao do pais no pos-guerra, foram utilizadas instalacoes militares e escolares para a realizacao dos Jogos. Por outro lado, as edicoes seguintes, de Helsink (Finlandia), em 1952, e Melbourne (Australia), em 1956, incorporaram demandas sociais de infraestrutura, transporte e, inclusive grandes projetos habitacionais (MASCARENHAS, 2011).

No contexto de crescimento da organizacao, dos investimentos e, portanto, da visibilidade dos Jogos, a edicao de Roma (Italia), em 1960, apresentou duas grandes novidades: a construcao de uma vila olimpica com instalacoes modernas e o inicio das transmissoes por radio e televisao. O inicio das transmissoes televisivas se tornou um importante marco na historia dos Jogos Olimpicos, pois passou a lhes conferir a condicao de megaevento global.

Na edicao de 1964, o governo japones desejava mostrar ao mundo que havia superado a derrota na 2a Guerra Mundial. Em Toquio, os Jogos alem de terem sido repletos de inovacoes tecnologicas, serviram para reconquistar uma area que estava sendo usada como base militar pelos EUA, com o pretexto da necessidade de instalar, naquele local, a vila olimpica. (MASCARENHAS, 2011)

Em 1968, pela primeira vez os Jogos foram realizados em uma cidade de um pais periferico, a Cidade do Mexico (Mexico). Se, por um lado, houve uma serie de questionamentos provenientes de paises ricos sobre os Jogos serem realizados em um pais pobre, por outro, deles emergiram apoio e o discurso sobre a importancia da difusao do movimento olimpico e dos seus ideais originais de promover a uniao entre nacoes (RUBIO, 2010).

Entretanto, os contrastes entre a quantidade de recursos financeiros investidos e as condicoes de pobreza do pais sede, geraram manifestacoes populares contra os gastos excessivos e a corrupcao. O governo respondeu brutalmente as manifestacoes. Raeder (2011) relata que dez dias antes da abertura dos Jogos ocorreu um massacre de manifestantes na Plaza las Tres, em Tlatelolco, na Cidade do Mexico. Algumas fontes apontam para mais de mil mortos, apesar das fontes governamentais relatarem quatro mortos e vinte feridos.

Melo & Gaffney (2010) destacam que, se a edicao de 1960 marcou o inicio da difusao e comercializacao global dos Jogos, a edicao de 1968 foi a primeira exposicao, nessa mesma escala, dos conflitos sociais e, principalmente, da violencia praticada contra as classes populares no contexto de mercantilizacao do evento.

Cabe destacar tambem a decisao do Comite Olimpico Internacional (COI) por realizar os Jogos mesmo apos o massacre, colaborando para a construcao da ideia de que, para essa instituicao, os interesses comerciais vinculados a escala global do evento, tornado espetaculo, se sobrepoe a violacao dos direitos humanos.

Rubio (2010), ao estudar os principais aspectos dos Jogos Olimpicos no seculo XX, denomina o periodo entre 1948 e 1984 como a "fase dos conflitos". A autora apresenta diversos exemplos de conflitos que tiveram como palco as edicoes dos Jogos Olimpicos: desde a ja citada disputa ideologica entre EUA e URSS, que culminou com o boicote dos paises capitalistas as Olimpiadas de Moscou (URSS), em 1980, com a respectiva resposta dada pelos sovieticos e pelos paises socialistas nas Olimpiadas de Los Angeles, em 1984; passando pelas manifestacoes antirracismo realizadas nos Jogos da Cidade do Mexico, quando dois atletas negros estadunidenses, Tommie Smith e John Carlos, acabaram banidos das competicoes esportivas ao fazerem o gesto dos Panteras Negras, simbolo da luta contra o racismo nos EUA, apos o recebimento de suas medalhas. Na ocasiao o COI alegou que o evento nao era lugar para a politica, porem, nao forneceu o mesmo tratamento a ginasta tcheca, Vera Caslavska, que se recusou a cumprimentar, no momento de recebimento de medalhas, as suas adversarias sovieticas, em protesto a invasao de Praga. (RUBIO, 2010)

Nesse contexto, e importante lembrar tambem a acao do grupo terrorista palestino Setembro Negro que sequestrou atletas israelenses nos Jogos Olimpicos de Munique (Alemanha), em 1972. A acao terminou com a morte de 11 atletas israelenses, 5 terroristas, 1 policial e 1 piloto, gerando uma comocao internacional. No entanto, o COI, mesmo assim, decidiu sustentar o evento, apos guardar 1 dia de luto em homenagem as vitimas. (RUBIO, 2010)

Os fatos relatados demonstram a dimensao de megaevento global que os Jogos Olimpicos foram adquirindo na segunda metade do seculo XX. A escolha do evento para a realizacao de manifestacoes politicas associa-se a capacidade de visibilidade que o evento poderia conferir as disputas entre EUA e URSS, as acoes terroristas ou de movimentos antirracismo, conforme os exemplos citados.

A dimensao global do megaevento tambem e ressaltada pelo numero cada vez maior de paises participantes, bem como pela ascensao dos valores pagos pelos direitos de transmissao dos Jogos. Conforme demostrado no Figura 3, na decada de 1980 houve um expressivo aumento dos valores pagos pelo direito de transmissao, passando de US$ 88 milhoes em 1980 para US$ 286,9 milhoes, em 1984, ate atingir a cifra de US$ 1,74 bilhoes, em 2008 (INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE, 2012). Esse crescimento astronomico esta associado a estrategia de mercantilizacao dos Jogos adotada pela gestao de Juan Antonio Samaranch na presidencia do COI. O mandato de Samarach (1980- 2001), so foi menor que o do Barao de Coubertin (1896-1925), idealizador dos Jogos.

[FIGURE 3 OMITTED]

Sua primeira iniciativa na direcao da mercantilizacao das Olimpiadas foi a realizacao do Tratado de Nairobi, em 1981, tendo em vista o estabelecimento do direito de propriedade sobre os simbolos olimpicos (cinco aneis, bandeira, lema, hino, designacoes, emblemas, chama, tocha, identificacoes como "Jogos Olimpicos", entre outros). Esse tratado marcou o reconhecimento do potencial economico das propriedades olimpicas, garantindo o controle do seu uso ao COI (ALMEIDA et al., 2011).

Em 1985, foi criado o programa The Olympic Partners (Os Parceiros Olimpicos), conhecido pela sigla TOP. A ideia do programa era negociar de uma so vez, para um conjunto de patrocinadores, os direitos a exclusividade de patrocinio dos Jogos de Verao e de Inverno, bem como de marketing sobre os simbolos olimpicos, por um periodo de quatro anos. A receita do primeiro quadrienio do programa (1985-1988) foi de US$ 96 milhoes, ja no ultimo foi (2009-2012) foi de 957 milhoes (INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE, 2012)

As onze empresas que atualmente participam do programa TOP sao: Coca-Cola, Acer, Atos, Dow, GE, McDonald's, Omega, Panasonic, Procter & Gamble, Samsung e Visa. Dentre os patrocinadores mencionados, destaque deve ser dado a Coca-Cola, que participou de todas as sete edicoes do programa TOP e e patrocinadora das Olimpiadas desde os Jogos de Amsterdam (Paises Baixos), em 1928, por mais que possa ser questionavel a relacao entre uma empresa de refrigerantes e a pratica esportiva e os ideais de vida saudavel a ela associados. O mesmo questionamento tambem pode ser levantado para o patrocinio da cadeia de fast food McDonald's. A partir desses dados, pode-se inferir que, mais que valores e etica associados ao esporte olimpico, o imperativo passa a ser sua transformacao em mercadoria.

O COI ao transformar os Jogos Olimpicos em propriedade, simultaneamente tambem os transformou em produto para as empresas que querem associar suas marcas aos signos e atributos olimpicos, tais como a vitoria, a competitividade, o prazer, a forca, a superacao, entre outros. Desde os Jogos de Roma, em 1960, com o inicio das transmissoes televisivas, que diversas empresas buscaram associar suas marcas aos atletas campeoes olimpicos.

Dessa forma, a decada de 1980 ficou marcada pelo fim do amadorismo, idealizado pelo Barao de Coubertin, como condicao para a participacao nos Jogos Olimpicos, e pelo inicio de uma "fase profissional", na qual o esporte se transformou em meio de vida para os atletas e os campeoes foram transformados em mercadorias a serem vendidas em todo o planeta. Rubio afirma que "o atleta profissional nao e apenas aquele que tem ganhos financeiros pelo seu trabalho, ele e tambem a representacao vitoriosa de marcas e produtos que querem estar vinculados a vitoria, a conquista de resultados." (RUBIO, 2010, p. 66)

Nesse sentido, os Jogos Olimpicos de Los Angeles (1984) foram o marco historico do inicio dessa "fase profissional" do esporte olimpico, que se estende ate os dias atuais, e tambem do fortalecimento da relacao, cada vez mais indissociavel, entre os interesses empresariais e a preparacao e a realizacao desse evento.

Se na edicao de Montreal (Canada), em 1976, o governo local teve um prejuizo de aproximadamente US$ 1,7 bilhao, que foram revertidos em impostos a populacao quebecoise que so terminaram de ser pagos no ano 2000 (RUBIO, 2010), na edicao de Los Angeles, em 1984, com um Comite Organizador Local composto basicamente por empresarios, e a quase nula participacao do governo estadunidense, o resultado final foi um evento altamente lucrativo que ficou conhecido com os "jogos capitalistas" (MASCARENHAS, 2011).

Cabe ressaltar que os Jogos de Moscou (URSS), em 1980, haviam sido realizados sob o regime socialista, portanto, sob outro parametro de comparacao. Apesar da crise que ja se instaurava no regime socialista, nas Olimpiadas, os sovieticos mostraram ao mundo grandes atletas e tambem grande capacidade de organizacao. Ao considerar as transformacoes urbanas, foi exibido um modelo de urbanismo funcional diretamente associado ao sistema socialista e um projeto de vila olimpica que seria o apice da politica de habitacoes populares, com a construcao de 18 predios de 16 andares (MASCARENHAS, 2011).

As edicoes posteriores aos Jogos Olimpicos de Los Angeles foram marcadas pela exploracao economica das Olimpiadas em diversos aspectos, tais como: midia, publicidade, construcao civil, mercado imobiliario, consultorias especializadas, entre outros. Mas, tambem foram caracterizadas pelo aumento dos impactos sociais e ambientais, principalmente aqueles relacionados as populacoes mais pobres das cidades sede. (MELO & GAFFNEY, 2010)

Nas Olimpiadas de Seul (Coreia do Sul), em 1988, o governo sul-coreano promoveu a imagem de um pais moderno, construindo instalacoes desportivas de ultima geracao e divulgando internacionalmente marcas das suas principais empresas. Porem, simultaneamente, as obras para a realizacao do evento foram responsaveis pela remocao de 720.000 pessoas, totalizando 9% da populacao da cidade. Isso sem considerar o elevado contingente populacional que foi obrigado a trocar de residencia devido a elevacao dos precos nas areas onde ocorreram as intervencoes urbanisticas para a realizacao dos Jogos (MELO & GAFFNEY, 2010).

Melo & Gaffney (2010) reforcam que esses problemas se repetiram, com algumas variacoes, nas edicoes posteriores. Os autores revelam ainda que mesmo no caso dos Jogos de Barcelona (Espanha), em 1992, onde menos de 0,15% da populacao foi removida em decorrencia das obras para os Jogos, ocorreram remocoes indiretas em decorrencia do aumento de mais de 150% dos precos das moradias. A consequencia desse processo foi o deslocamento de parte da populacao para as periferias.

Tanto os Jogos de Barcelona (1992) quanto os de Seul (1988) foram realizados a partir da parceria entre o setor publico e o setor privado. Em ambos os casos, expressivas quantidades de verbas foram gastas em projetos urbanisticos que redefiniram centralidades e se constituiram em marcos na evolucao urbana. As Vilas Olimpicas construidas para a realizacao desses Jogos tambem apresentaram uma nova concepcao, nao mais associadas as classes populares, mas, sim, ao seu uso pelas classes medias, revelando tambem os crescentes interesses empresariais na organizacao dos Jogos.

Na edicao de 1996, o movimento olimpico comemorava um seculo de existencia. Apesar da candidatura de Atenas e do simbolismo da data associado a cidade, os Jogos foram realizados em Atlanta, sede da Coca-Cola, que, conforme descrito anteriormente, era o patrocinador mais antigo dos Jogos. A escolha da cidadesede para essa edicao dos Jogos evidencia o poderio das grandes empresas patrocinadoras das Olimpiadas frente aos valores pregados pelo movimento olimpico.

A edicao de 1996 fortaleceu a parceria publico-privada como modelo de organizacao dos Jogos. A cidade de Atlanta nao dispunha de instalacoes esportivas em quantidade e qualidade exigida para a realizacao do evento, o que demandou a participacao do poder publico e nao permitiu a repeticao do modelo adotado em Los Angeles em 1984 (MASCARENHAS, 2011).

Quatro anos mais tarde, em Sidney (Australia), os recursos publicos novamente foram fundamentais para a realizacao das Olimpiadas. A organizacao buscou construir a ideia de Jogos Ecologicos, seguindo uma serie de recomendacoes do Greenpeace, tais como: a reciclagem de lixo olimpico, a utilizacao de energia solar para os estadios, o uso de trem, entre outros (DARIDO, 2000). A Vila Olimpica alcancou o maior grau de sofisticacao do olimpismo, contou com dois mil imoveis de alto padrao em sofisticado bairro litoraneo construido utilizando diversas tecnologias relacionadas ao meio ambiente (MASCARENHAS, 2011). Ao final, o Greenpeace admitiu avancos na organizacao dos Jogos, mas questionou que o governo nao cumpriu com a promessa de descontaminacao da baia de Homebush e os riscos ambientais continuaram a existir para os habitantes que viviam na area.

Depois de ter sido preterida por Atlanta para realizar a edicao comemorativa de 100 anos do movimento olimpico, Atenas (Grecia) foi escolhida para sediar a primeira edicao dos Jogos Olimpicos do seculo XXI. Com as Olimpiadas os governantes buscaram simultaneamente reforcar as raizes de "berco da civilizacao ocidental", que conferem distincao simbolica a cidade, e tambem construir uma paisagem moderna que promovesse uma imagem de cidade global (STAVRIDES, 2008). Para tanto, foram construidos projetos de arquitetura espetaculares, como o Estadio Olimpico, modernizou-se o sistema de transporte, construindo um novo aeroporto, expandindo o metro e construindo autoestradas.

Entretanto, os gastos excessivos para a realizacao do evento levantaram muitos questionamentos, que continuam ate os dias atuais, inclusive relacionando a atual crise da economica do pais a realizacao dos Jogos. Stavrides (2008) aponta ainda que nos Jogos de Atenas foi instituido um tipo de "estado de emergencia", a partir do qual, tendo em vista o sucesso do evento e a imagem da cidade, foi permitida a violacao de leis de uso do solo e de direitos trabalhistas.

Em 2008, os Jogos Olimpicos foram realizados na cidade de Pequim. O poderio economico chines, no inicio do seculo XXI, credenciou o pais a sediar os Jogos e a exibir para o mundo o progresso tecnico e a capacidade organizativa do seu governo. Foram feitos investimentos de mais de US$ 34 bilhoes que produziram uma verdadeira revolucao urbanistica, com a construcao de instalacoes esportivas, de avenidas, de condominios de luxo, a expansao do metro e do aeroporto. Esse processo acarretou na remocao de quase 10% da populacao da cidade, totalizando 1.250.000 moradores. (MASCARENHAS et al., 2008; MELO & GAFFNEY, 2010)

Para consolidar sua imagem como superpotencia o governo chines construiu dois icones arquitetonicos no Parque Olimpico: o Estadio Nacional (Ninho do Passaro) e o Centro Nacional de Esportes Aquaticos (Cubo D'agua). Outro exemplo foi o investimento na formacao de atletas para o sucesso no quadro de medalhas, os chineses conseguiram atingir a marca de 51 medalhas de ouro, feito so alcancado anteriormente por URSS (1972, 1980 e 1988), EUA (1904 e 1984) e Inglaterra (1908), e garantiram o primeiro lugar isolado na competicao.

Consideracoes finais

Na analise historica dos Jogos Olimpicos, aqui desenvolvida, destaca-se a transformacao das Olimpiadas em um megaevento esportivo, cada vez mais marcado pelo dominio dos interesses empresariais no planejamento, na organizacao e na realizacao dos Jogos, bem como na mercantilizacao dos signos associados ao evento. Nesse sentido, o inicio das transmissoes televisivas a partir dos Jogos de Roma, em 1960, bem como as acoes implementadas por Samarach na decada de 1980, como o estabelecimento do direito a propriedade dos simbolos olimpicos e a criacao do programa "Os Parceiros Olimpicos" (TOP), foram marcos desse processo.

Paralelamente a essas transformacoes em direcao ao empresariamento e, consequentemente, a mercantilizacao dos Jogos Olimpicos, ha tambem a introducao de uma nova forma de governanca das cidades: o empreendedorismo urbano, que considera os Jogos como uma oportunidade de realizacao de grandes transformacoes urbanisticas e de reposicionamento da cidade no mundo, que passaria a ter sua imagem atrelada aos signos olimpicos de competitividade, saude, vigor, etc.

Dessa forma, o empreendedorismo urbano tem como uma de suas principais caracteristicas a realizacao de intervencoes urbanas capazes de atrair investidores, entre as quais destacam-se as de grande porte e os megaeventos, como, por exemplo, os Jogos Olimpicos. Essas intervencoes subordinam a gestao e a producao do espaco urbano aos circuitos do capitalismo globalizado, na construcao de um discurso que enuncia a meta de tornar a "cidade ganhadora" na "guerra dos lugares", na atracao de investimentos e turistas internacionais, numa perspectiva em que a cidade e vista simultaneamente empresa e mercadoria.

Por outro lado, essa experiencia de governanca empreendedorista e de realizacao de megaeventos esportivos, que se tornaram paradigmaticas nas ultimas decadas do seculo XX apresentaram tambem violacoes no direito a cidade, expressos nos casos de remocoes das populacoes residentes em areas de intervencoes urbanisticas, nos desalojados indiretamente pelo aumento significativo do valor do solo urbano nas cidades-sede e tambem na repressao aos movimentos sociais.

DOI: 10.12957/geouerj.2013.5058

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Artigo recebido para publicacao em marco de 2013.

Artigo aceito para publicacao em maio de 2013.

Demian Garcia Castro

Licenciado e bacharel em Geografia (UERJ), especialista em Sociologia Urbana (UERJ), mestre em Geografia (UERJ), mestre em Engenharia Urbana (UFRJ), doutorando em Geografia (UERJ) Professor do Colegio Pedro II

demiancastro@yahoo.com.br

Nota

Esse artigo esta relacionado as discussoes apresentadas na dissertacao de mestrado do autor, desenvolvida no programa de Pos-graduacao em Engenharia Urbana da UFRJ. Tal trabalho esta inserido no ambito da pesquisa "Metropolizacao e Megaeventos", financiada pela FINEP. O autor agradece ao seu orientador, Orlando Alves dos Santos Junior, pelas valiosas sugestoes feitas no processo de elaboracao desse trabalho.
Tabela 1--Periodizacao dos Jogos Olimpicos associada as mudancas
de impactos na infraestrutura das cidades-sede (1896-2008)

                    Mudancas de impactos na infraestrutura das
Periodizacao        cidades-sede

Fase 1: 1896-1904   * Pequena escala
                    * baixo nivel de organizacao
                    * sem necessariamente acarretar algum novo
                      desenvolvimento

Fase 2: 1908-1932   * pequena escala
                    * maior nivel de organizacao
                    * envolvendo a construcao de instalacoes
                      esportivas especificas

Fase 3: 1936-1956   * grande escala
                    * alto nivel de organizacao
                    * envolvendo a construcao de instalacoes
                      esportivas especificas com algum impacto na
                      infraestrutura urbana

Fase 4: 1960-2008   * grande escala
                    * alto nivel de organizacao
                    * envolvendo a construcao de instalacoes
                      esportivas especificas com significativo
                      impacto na infraestrutura urbana

Fonte: Essex & Chalkley (2004). Traduzido e adaptado pelo autor.
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Author:Castro, Demian Garcia
Publication:Geo Uerj
Date:Jun 1, 2013
Words:6912
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