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Entre objetos da ciencia e vitimas de um holocausto negro: Humanizacao, agencia e tensoes classificatorias em torno das ossadas do sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos.

Introducao

Este artigo procura problematizar alguns agenciamentos de vestigios humanos a partir da analise do tratamento dado a ossadas encontradas em 1996, no subsolo de uma residencia familiar, na regiao portuaria do Rio de Janeiro. Inspirando-me em Latour e Woolgar (1997) e Michel Callon (1986), procuro observar como se constroi progressivamente o fato cientifico de que esses ossos pertencem ao sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos, destinado ao enterramento de africanos que morreram logo apos o desembarque dos navios negreiros, entre fins do seculo XVIII e inicio do XIX (1).

Retomo aqui as criticas de Latour a nocao de "descoberta cientifica", como se certos objetos tivessem existencia a priori e estivessem somente a espera da chegada do pesquisador para serem "descobertos". Acredito que a producao de um fato cientifico constitua um resultado, e nao um ponto de partida da investigacao (CALLON, 1986). Assim, nao pretendo partir do que as ossadas "realmente seriam", mas sim daquilo em que elas vao 1 1 se transformando desde que sao encontradas em 1996 e classificadas como o sitio arqueologico em questao.Em vez de tomar o social como dado, busco as "associacoes" que vao se formando progressivamente em torno das ossadas, os esforcos em mante-las e algumas de suas controversias (LATOUR, 2012).Para tanto, pretendo seguir a "vida social" dos ossos (APPADURAI, 2008) desde que foram desenterrados.

Acredito que as escavacoes arqueologicasnao apenas reproduzem o fato objetivo de que se trata de um sitio arqueologico, mas sim que elas o produzem. O objetivo do presente artigo consiste em analisar a producao do sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos e os diversos procedimentos atraves dos quais as ossadas sao convertidas ora em objetos de pesquisa a serem armazenados em laboratorios cientificos, ora em testemunhas de um holocausto negro, que devem ser expostas ao publico no Memorial Pretos Novos.Nesse sentido, a partir de uma "definicao performativa" (Latour, 2012) do cemiterio e suas ossadas, analiso as tensoes e ambiguidades classificatorias que surgem ao longo do processo que simultaneamente objetifica e humaniza as ossadas, tratando-as ao mesmo tempo como objetos de estudos cientificos e laboratoriais e como testemunhas de um crime contra a humanidade.

As tensoes em tornodas ossadas so podem ser compreendidas num contexto recente mais amplo, que envolve, ao mesmo tempo, uma proliferacao de representacoes da escravidao em museus e memoriais de diversos paises; uma intensificacao dospedidos de reparacao para afrodescendentes e das politicas de acao afirmativa; e os pedidos de repatriamento de vestigios humanos de povos colonizados, armazenados em museus ou em laboratorios cientificos, que atribuem "novos poderes aos velhos ossos" (VERANT, 2012) e poem em cheque as tradicionais representacoes dos "negros como objetos da ciencia".

Na medida em que os que vivenciaram a escravidao ja morreram e os que foram enterrados no Cemiterio dos Pretos Novos nao podem mais falar na primeira pessoa, coloca-se a questao de quem fala por eles e do que e dito. De acordo com Stephan Palmie (2010), temos assimuma mudanca no status das lembrancas da escravidao. Suas representacoes passam a ter uma relevancia politica e moral no presente, pois adquirem sentido dentro das atuais estruturas de privilegio e de desigualdades sociais e raciais, ao mesmo tempo que dao legitimidade as lutas contra essas mesmas estruturas. Entre os efeitos dessas novas formas de se relacionar com o passado da escravidao temos, por um lado, a transformacao da memoria numa propriedade corporativa de coletividades mnemonicas que a reivindicam (PALMIE, 2010) e a pensam como uma "propriedade inalienavel" (WEINER, 1992). Por outro, temos a grande valorizacao da arqueologia da diaspora africana e a consequente projecao dos seus arqueologos. E em meio a essa trama que as diferentes representacoes das ossadas dos Pretos Novos entram em disputa e procuram se estabilizar.

Privilegio aqui a atuacao dos arqueologos envolvidos nas escavacoes e, em menor grau, a da familia que encontrou as ossadas e de integrantes do movimento negro, procurando compreender como ocorre a estabilizacao da identidade preconizada para as ossadas e quais as suas principais controversias.

A reflexao que da origem a este artigo e fruto de uma pesquisa de campo que realizo desde 2010 no sitio arqueologico e que me permitiu acompanhar a criacao do Memorial dos Pretos Novos, em 2011, bem como observar alguns momentos das escavacoes arqueologicas realizadas no local em 2012 e em 2017. Tambem foram realizadas entrevistas, consultas ao arquivo do IPHAN e visitas ao laboratorio onde parte das ossadas esta armazenada.

1) A "descoberta" das ossadas e o "ponto de passagem obrigatorio"

Em janeiro de 1996, no primeiro dia de obras de uma antiga residencia no bairro da Gamboa, na zona portuaria do Rio de Janeiro, foi encontrada uma profusao de ossos que foram identificados como humanos e que desencadearam uma serie de acoes. O casal Guimaraes, proprietario do recem-adquirido imovel, buscava la se estabelecer com suas tres filhas entao adolescentes. A familia se considera branca, e dona de uma firma de dedetizacao nas imediacoese declara que ate entao nao tinha muito contato com as praticas culturais e nem com a historia dos afro-brasileiros. Intrigados com a enorme quantidade de ossos que praticamente jorravam dos buracos do subsolo escavados pelos pedreiros, Merced e Petrucio Guimaraes comecaram a se informar na vizinhanca sobre os possiveis motivos daquelaestranha presenca. Num primeiro momento, pensaram tratar-se de uma chacina. Mas, em conversa com uma lideranca local, que, nos anos 1980, havia se envolvido com um projeto de valorizacao da historia da regiao portuaria com vistas a impedir a demolicao do antigo casario (2), foram informados de que as ossadas deveriam pertencer ao que passou a ser progressivamente chamado de Cemiterio dos Pretos Novos pelos atores diretamente envolvidos. A partir dessa classificacao inicial, realizada por um morador do bairro que havia desenvolvido uma sensibilidade historica, temos uma primeira conversao simbolica das ossadas, em que a elas e conferido um valor patrimonial.

A partir de entao, o casal informa as autoridades municipais, e o assunto chega ao setor de arqueologia do DGPC (Divisao Geral de Patrimonio Cultural), orgao da Prefeitura responsavel pelo patrimonio do municipio. A arqueologa do DGPC, Eliana Teixeira de Carvalho, e enviada ao local junto com a bioantropologa Lilia Cheuiche Machado, do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). Os primeiros oficios que circularam entre o DGPC e o IPHAN referem-se apenas a "descoberta de ossos humanos" (oficio de Eliana Teixeira, em 15 de Janeiro de 1996). Ao chegarem a residencia da familia Guimaraes, as duas pesquisadoras constatam um "grande volume de terra e entulho" (idem) e caixas e tampas de papelao "repletas de ossos, correspondendo a varios individuos, em total mistura e desordem anatomica" (idem). Nos relatos de Lilia Cheuiche:

"na medida em que [os operarios] perfuravam o solo, com o uso de pas e picaretas, uma grande quantidade de ossos humanos era fragmentada, misturando-se com a terra durante a remocao do entulho para a superficie. Os elementos osseos, extremamente danificados, foram assim incorporados ao entulho acumulado ao redor dos buracos que haviam sido abertos". (MACHADO, 2006, p.1).

Junto com os ossos, havia tambem "outras classes de vestigios, tais como ceramica neobrasileira e colonial, louca, objetos de adorno e de metal", que "durante cerca de dois meses foram cuidadosamente resgatados do entulho das obras" (MACHADO, 2006, p.1). Para Eliana Teixeira, os "elementos osseos" estao em "mau estado de conservacao, dadas as circunstancias fortuitas da descoberta", devendo ser alvo de um resgate emergencial em meio aos sedimentos de entulho. O acervo devera ser transportado em cerca de 15 caixas de papelao (TEIXEIRA, 1996).

Temos assim um momento inicial em quese mesclam terra, entulho, canos, tubos, alicerces, ossadas, operarios e seus instrumentos, louca, ceramica, metal, material de construcao, caixas de papelao, uma casa em obras e integrantes de uma familia intrigados com uma presenca humana nao planejada. Esse momento da descoberta, "cheio de som e furia, de desordem e de paixoes" (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p.32), ainda esta muito distante do contexto "calmo e ordenado" da justificacao (idem), quando o fato cientifico de que aquele local e o Cemiterio dos Pretos Novos ja esta estabelecido e estabilizado.

Num primeiro momento, as afirmacoes das pesquisadoras e das autoridades municipais envolvidas ainda sao relativamente vagas: "podemos concluir que se trata de um antigo cemiterio..." (oficio de Eliana Teixeira em 15 de Janeiro de 1996,). A arqueologa do IPHAN, Rosana Najar, em memorando de 04/03/96, fala na "descoberta fortuita de um provavel cemiterio" que "poderla ser o Cemiterio dos Pretos Novos" [grifos meus]. Em oficio de 11/03/96, o Coordenador da 6a CR do IPHAN ja classifica o local como um "sitio arqueologico" e informa que o mesmo "ja se encontra protegido pelo IPHAN".

Ainda que baseada em algumas incertezas, essa primeira definicao ja e suficiente para determinar os novos rumos e redes dos vestigios humanos. Entendidos como artefatos arqueologicos, os ossos encontrados sao entao coletados, limpos, triados, identificados, ensacados, etiquetados, encaminhados ao IAB e guardados em gavetas e caixas, onde permanecem ate hoje. A partir dessa nova classificacao, os ossos sao considerados ao mesmo tempo "patrimonio" e "objetos da ciencia", e sao investidos de um grande valor universal. Atuam como "arquivos da humanidade" e "testemunhos da historia" que podem fornecer preciosas informacoes cientificas sobre as migracoes, as doencas e a evolucao humanas (ARANDA, 2014). O corpo humano se inscreve aqui num "paradigma evidencial" (CROSSLAND, 2009) a partir do qual ele e suscetivel de fornecer cientificamente importantes provas de fatos pregressos. Armazenados nos sacos plasticos e caixas do IAB, eles aguardam pacientemente o despertar do interesse de pesquisadores, para que, retirados mais uma vez do seu descanso eterno, sejam enviados a laboratorios onde serao devidamente escrutinados e analisados, para responder a possiveis questoes: de onde vem esses individuos e o que eles nos informam sobre as migracoes humanas? Sao eles homens ou mulheres, e que idade tem? Quais os seus habitos alimentares? De quais doencas teriam sido acometidos? Quais as peculiaridades com que foram enterrados?

As praticas dos arqueologos em questao repousam num paradoxo muito controverso na contemporaneidade, o de tratar como objetos de ciencia osvestigios humanos de grupos submetidos a intensos processos de dominacao, como o colonialismo e a escravizacao. Durante a expansao colonial, entre meados dos seculos XIX e XX, a antropologia fisica e outras ciencias afins coletavam e analisavam os vestigios humanos e artefatos materiais desses mesmos povos e atraves deles atestavam a sua inferioridade e o seu primitivismo (VERANT, 2012). Assim tiveram origem colecoes arqueologicas e setores de antropologia biologica em varios museus, inclusive no Brasil (SCHWARCZ, 1993; SA; SANTOS; CARVALHO; SILVA, 2010). Atualmente, atraves das inumeras criticas pos-coloniais ao processo de objetificacao desses individuos, a presenca de vestigios humanos em laboratorios pode representar uma seria afronta a dignidade humana (BROWN, 2008) e muitos restos mortais sao alvos de pedidos de repatriacao. Contudo, eles nao desaparecem dos laboratorios e museus, mas sao ressignificados. Nao mais engajados numa perspectiva evolucionista, eles se propoem a fornecer importantes informacoes sobre os povos dos quais se originam, o que nao apaga as suas contradicoes (BROWN, 2008).

Atraves da atuacao dos arqueologos, temos um primeiro "ponto de passagem obrigatorio" (CALLON, 1986), que consiste num novo enquadramento ou definicao de um acontecimento, realizado por um determinado grupo de atores, que cria uma forma especifica de associacao uma rede--entre humanos e nao humanos. Esse grupo de atores--no nosso caso, os arqueologos--, ao determinar que aquele local e o sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos, envolve os mundos social e natural e suas respectivas entidades de uma certa maneira, estabelecendo suas identidades e os vinculos entre elas.

A partir de entao, definidas como pertencendo ao Cemiterio dos Pretos Novos e classificadas como integrando um sitio arqueologico, as ossadas sao retiradas de um determinado contexto anterior--o da terra em que se encontravam--e passam a integrar uma nova rede de atores, humanos e nao humanos, composta por arqueologos, laboratorios cientificos, representantes do poder publico ligados a cultura e ao patrimonio, instituicoes de pesquisa e pesquisadores, a familia Guimaraes e sua casa. E a partir dessa classificacao inicial que as ossadas comecam a seguir uma determinada trajetoria e a ter uma certa "vida social" (APPADURAI, 2008). E dentro dessa rede, e somente dentro dela, que as ossadas adquirem esse significado. Afinal, quantos ossos ja nao teriam sido encontrados por vizinhos e operarios, em obras publicas ou privadas na regiao, sem que tal enquadramento fosse realizado?

Uma vez identificado e classificado, o "achado" desperta um grande interesse dos representantes do poder publico mais diretamente envolvidos. O Diretor Geral do DGPC, em oficio de 15/02/96, ressalta "a importancia historica que essa descoberta representa para a memoria da cidade do Rio de Janeiro". A arqueologa Eliana Teixeira elabora um projeto de pesquisa para que uma verdadeira prospeccao arqueologica seja realizada na residencia. A Secretaria de Cultura concorda em arcar com as despesas das sondagens, e o IPHAN e o DGPC estreitam as suas parcerias com o intuito de melhor garantir a preservacao e as pesquisas relacionadas ao sitio.

A nova prospeccao arqueologica nunca veio a ser realizada e nenhuma outra acao dos orgaos publicos mencionados foi efetuada. Mas os resultados do primeiro salvamento sao divulgados nos trabalhos de Lilia Cheuiche Machado. Atraves de analise de biologia esqueletal, associada as pesquisas arqueologica e historica, Machado afirma que o local e de fato o Cemiterio dos Pretos Novos e traz algumas informacoes adicionais:

"Atraves do resgate emergencial e das pesquisas historicas efetuadas foi possivel identificar o local como o antigo Cemiterio dos Pretos Novos (1770 a 1830), lugar destinado aos enterramentos de escravos recem-chegados que morriam logo apos o desembarque no Rio de Janeiro". (MACHADO, 2006, p.1).

Segundo ela, "os padroes de 'mutilacoes' dentarias analisados na amostra do sitio Cemiterio dos Pretos Novos indicam a procedencia africana dos individuos ali sepultados". Seu trabalho conclui que "predominaram jovens do sexo masculino (18/25 anos), seguindo-se adultos e individuos na meia idade, em menor proporcao. Identificamos, tambem, adolescentes entre 12 e 18 anos e criancas entre 3 e 10 anos" (MACHADO, 2006, p.11).

Lilia Cheuiche tambem descreve que "os corpos nus eram envoltos em esteiras, amarradas por cima da cabeca e por baixo dos pes. O rito era sumario: de forma descuidada, sem abrir covas, jogavam um palmo de terra sobre cada um deles, lancando-os aos pares". (VARGAS et al., 2001). A autora observa ainda que os corpos enterrados haviam sido queimados: "as fogueiras eram acesas sob os corpos amontoados e, em muitos casos, os envolviam completamente" (MACHADO, 2006, p.11).

Apesar de todas essas afirmacoes, Lilia Cheuiche e reticente em suas conclusoes, devido as mas condicoes do resgate arqueologico: "a natureza da amostra e a condicao de fragmentacao e mistura dos ossos e dentes avaliados nesse estudo dificultaram conclusoes e interpretacoes" [grifos meus] (MACHADO, 2006, p.12).

Poucos anos depois dos trabalhos de Machado3, novos estudos da Fiocruz pretenderam confirmar as pesquisas anteriores e declararam que as ossadas eram de fato de africanos e que eram procedentes de diferentes regioes do continente (BASTOS, 2010). Atualmente, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Leicester, na Inglaterra, esta dando inicio a uma importante pesquisa sobre o genoma do povo brasileiro, tendo por base essas mesmas ossadas.

Os arqueologos e demais representantes do poder publico envolvidos, cada qual ao seu modo, atuam como porta-vozes das ossadas, falando por elas e atribuindo-lhes uma identidade propria, a de pertencentes ao sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos. Ao mesmo tempo, atribuem a si proprios um papel e uma identidade, o de responsaveis pela sua protecao e por revelar cientificamente quem, de fato, elas sao.

Os arqueologos e demais profissionais ligados a instituicoes do Estado, seja de pesquisa, seja de politicas de preservacao patrimonial, tem legitimidade e prestigio para poder nomear e fazer valer as suas proprias classificacoes, conferindo uma chancela "cientifica" as ossadas encontradas e determinando os seus novos rumos. Aos poucos, ainda que apoiada em resultados inconclusivos, essa identidade se estabiliza.

2) Do global ao local e vice-versa

As representacoes objetificadas das ossadas nao sao as unicas possiveis, e as acoes dos arqueologos e representantes do poder publico certamente nao se esgotam nelas. Em novembro de 2001, mes da consciencia negra, o entao diretor do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Antonio Carlos Austregesilo de Athayde, fascinado com a descoberta arqueologica, organiza a exposicao "Africanos Novos na Gamboa, um portal arqueologico" e o "Seminario Cotas da Escravidao". Ambos os eventos giravam em torno da descoberta do Cemiterio dos Pretos Novos, com o intuito de lhe dar visibilidade e ampliar os debates sobre o sitio. O seminario era fortemente influenciado pela Conferencia Mundial contra o Racismo, Discriminacao Racial, Xenofobia e Intolerancia Correlata, promovida pela ONU, em Durban (Africa do Sul), em 2001. Ela contara com diversos representantes do movimento negro brasileiro, que tiveram um papel fundamental na definicao de um dos principais pontos debatidos na Conferencia, querepousa na importancia de

"todos os paises da regiao das Americas e de todas as outras areas da Diaspora africana, reconhecerem a existencia de sua populacao de descendencia africana e as contribuicoes culturais, economicas, politicas e cientificas feitas por esta populacao e a reconhecerem a persistencia do racismo, discriminacao racial, xenofobia e intolerancia correlata que os afeta especificamente...". (CONFERENCIA, 2001, p.16).

Alem disso, a Conferencia declara a escravizacao e o trafico transatlantico negreiro como crimes contra a humanidade.

A primeira mesa-redonda organizada por Athayde intitulava-se "PosDurban, a visao institucional" e era composta por 7 importantes liderancas do movimento negro que haviam participado do encontro da ONU4. Com isso, Athayde consolida a presenca de mais um relevante grupo de atores que se organiza em torno das ossadas: os ativistas negros.

O Seminario Cotas da Escravidao se inspira nao apenas nas recentes decisoes da ONU, mas num contexto internacional mais amplo de crescente publicizacao e politizacao das memorias da escravidao e do trafico negreiro. Desde o inicio dos anos 1990, intelectuais africanos se dedicavam a dar visibilidade a importantes locais da costa africana relacionados ao trafico transatlantico negreiro (ARAUJO, 2014). Suas acoes inspiraram a UNESCO que, em 1996, criou o projeto Rota do Escravo, com o intuito de patrimonializar esses mesmos locais, desenvolver o turismo de memoria e sensibilizar a opiniao publica sobre os efeitos produzidos pela escravidao negra. Tambem nos anos 1990, ativistas afro-americanos comecaram a redescobrir e a dar visibilidade a antigos cemiterios de escravos nos EUA, transformando os locais em memoriais onde cultuam os seus ancestrais. O African Burial Ground de Nova York, que ganhou mais proeminencia, mobilizou inumeros ativistas, deu origem a uma das maiores escavacoes arqueologicas urbanas dos EUA e foi transformado em monumento nacional, num processo permeado por intensos conflitos (BARRET, 2014; BLAKEY, 2010; HARRINGTON, 1993; MCCARTHY, 1996). As reivindicacoes em torno das ossadas dos cemiterios de escravos nos EUA ocorrem num contexto mais amplo em que os vestigios humanos de povos antes colonizados sao alvos de inumeros pedidos de repatriamento por parte dos que se consideram seus descendentes.

Portanto, em 2001, havia um contexto de forte mobilizacao internacional em torno de um novo enquadramento da escravizacao que procurava desnaturaliza-la e denuncia-la (VASSALLO, 2017). Ao mesmo tempo, buscava-se valorizar a presenca e a participacao dos africanos e afrodescendentes na formacao das sociedades americanas. Tentava-se retirar os escravizados da invisibilidade e da condicao de objetos em que eram historicamente colocados--seja como mercadorias do trafico, seja como de interesse cientifico--, e atentar para a sua humanidade. Ativistas negros e pesquisadores procuravam converter o termo "escravo"--que conota passividade e naturaliza a sua condicao--em "escravizado" (BARRETT, 2014), ressaltando o intenso processo de dominacao a que eram submetidos. As ossadas dos escravizados deveriam seguir a mesma logica: deixar de serem consideradas (somente) pelo seu interesse cientifico e serem tratadas como cadaveres humanos dignos de receberem ritos funebres. Assim, ossadas e demais vestigios humanos sao investidos de "novos poderes" (VERANT, 2012) e se tornam poderosos simbolos de diferentes formas de dominacao que se exercem tanto no passado quanto no presente, bem como das lutas de resistencia. Por isso, as ossadas sao reivindicadas por diversos ativistas negros, que as veem como "bens inalienaveis" (WEINER, 1992), e para quem elas possuem uma relevancia moral e politica nas lutas do presente contra a desigualdade racial (PALMIE, 2010). Durban representava um ponto de inflexao fundamental nesse movimento, estabelecendo analogias com o holocausto judeu e classificando a escravizacao como um holocausto negro. Ainda que boa parte das reivindicacoes veiculadas durante a Conferencia ja fizesse parte da agenda politica do movimento negro brasileiro, o reconhecimento de uma instituicao internacional com o poder e o prestigio da ONU impacta fortemente o imaginario e as acoes dos representantes do poder publico local, exercendo uma influencia que so os militantes negros locais dificilmente conseguiriam obter.

Athayde, que tinha relacoes com o mundo do samba e da cultura afro-brasileira, foi fortemente influenciado por todo esse processo. Para o seminario Cotas da Escravidao, convidou tambem importantes pesquisadores norte-americanos dedicados a historia da escravidao e da diaspora africana, como Paul Lovejoy e Mary Karash, e organizou mesas-redondas sobre o projeto Rota do Escravo da UNESCO e sobre o African Burial Ground de Nova York. O seminario tambem contou com apresentacoes de arqueologos do IAB e do IPHAN, de Eliana Teixeira, de Lilia Cheuiche, do Diretor do DGPC, de professores e pesquisadores universitarios e do proprio Athayde, entre outros.

Nesse momento, a enfase de diversos pesquisadores que participam do seminario recai na valorizacao da presenca africana e afrodescendente na formacao da cidade e do pais, ate entao, invisibilizada em boa parte dos relatos oficiais. Em sua pesquisa, Lilia Cheuiche declara que a descoberta do Cemiterio dos Pretos Novos "revelou a importancia do local para a memoria e identidade cultural da cidade do Rio de Janeiro e da populacao afrodescendente" e pode favorecer "uma melhor compreensao dos aspectos da diaspora involuntaria africana ao Brasil" (MACHADO, 2006, p.1). Em sua fala, a arqueologa do IPHAN, Rosana Najar, afirma que "repensar a preservacao, inclusive a de nosso patrimonio arqueologico, tentando incorporar o passado dos varios sujeitos que formaram o Brasil, e apontar para a construcao de um outro futuro possivel, e pensar um outro projeto de pais e de sociedade" (NAJAR, 2001). Assim, os mesmos pesquisadores que dao um tratamento objetificado as ossadas, classificando-as, escrutinandoas, ensacando-as e considerando-as como artefatos da cultura material, ressaltam a sua condicao humana e proclamam o respeito aos seus descendentes e ao seu legado cultural.

O encerramento do evento ocorreu com a "Cerimonia marcos da escravidao", que fixava uma placa na parede externa da residencia da familia Guimaraes sinalizando a presenca do sitio arqueologico e sua importancia historica. Podemos dizer que, tendo por referencia as ossadas, Athayde traduziu localmente as tendencias que ocorriam no plano internacional, contribuindo para a ressignificacao das mesmas. Poucos anos depois, Athayde junto com alguns pesquisadores e ativistas negros convenceram o Prefeito a promulgar o Decreto n. 24.088, de 5 de abril de 2004, que criava o Portal dos Pretos Novos, "onde serao referenciados e homenageados os negros que nao resistiram a vinda da Africa e, ao falecerem, foram enterrados no secular e desconhecido Cemiterio dos Pretos Novos". Essa iniciativa se inspirava no projeto Rota do Escravo, da UNESCO, que criava ou restaurava portais, monumentos e patrimonios diretamente relacionados ao trafico negreiro. O Prefeito tinha interesse nessas acoes de promocao da localidade, pois desenvolvia nesse momento o Plano Porto do Rio de revitalizacao da zona portuaria. No entanto, as acoes preconizadas no Decreto nunca sairam do papel.

Num outro sentido, o Seminario Cotas da Escravidao coloca as ossadas num plano internacional, na medida em que as poe em contato com importantes pesquisadores norte-americanos dedicados aos estudos sobre a diaspora africana. Sua rede entao se amplia e transcende as fronteiras da nacao, pois dela passam a fazer parte locais como o African Burial Ground de Nova York, monumentos do projeto Rota do Escravo da UNESCO e seus respectivos pesquisadores ou defensores. Desde entao, pesquisadores estrangeiros e a midia internacional visitam com frequencia o sitio arqueologico.

O seminario de 2001 tambem teve um papel central na atuacao da familia Guimaraes, pois foi assim que seus entes compreenderam a real importancia "cientifica" da descoberta que haviam realizado sob os seus pes e selaram lacos com pesquisadores brasileiros e estrangeiros que nunca mais se desfizeram. Sua casa passou a ser crescentemente invadida por uma legiao de jornalistas, pesquisadores, militantes negros e demais curiosos.

3) O Cemiterio dos Pretos Novos como um holocausto negro

Durante o processo de estabilizacao do fato cientifico, cada entidade pode se submeter a identidade proposta pelo projeto inicial ou, ao contrario, "recusar a transacao e definir de outra maneira a sua identidade, seus objetivos, projetos, orientacoes, motivacoes ou interesses" (CALLON, 1986, p.10). Assim tem inicio as controversias.

A familia Guimaraes nunca concordou com o papel que lhe foi atribuido inicialmente pelos arqueologos que fizeram o salvamento das pecas. No entendimento dos membros da familia, eles proprios e que sao responsaveis pelas ossadas e delas devem cuidar, entendendo o seu trabalho como uma missao. Eles acusam os arqueologos de nao levar em conta a sua propria atuacao em todo esse processo e de nao lhes divulgar os resultados das pesquisas conduzidas sobre as ossadas por eles encontradas. Alem disso, desqualificam a pesquisa dos arqueologos afirmando que o estado de deterioracao dos ossos escavados em 1996 inviabiliza qualquer resultado conclusivo. A familia Guimaraes legitima e justifica as suas proprias acoes em torno da ideia de luta pela memoria e pelo respeito dos Pretos Novos ali enterrados e desqualifica a atuacao dos arqueologos de 1996 e dos da Fiocruz por nao se engajarem nela. Como parte dessa luta, acreditam que a historia dos Pretos Novos nao deve ficar confinada ao mundo da academia e deve ser do conhecimento de todos.

Com esse intuito, compraram o imovel contiguo a sua casa e la criaram o Instituto dos Pretos Novos (IPN), em 2005, abrindo o espaco a visitacao. Desde entao, procuram divulgar as suas proprias narrativas sobrea historia que encontraram enterrada sob os seus pes atraves de palestras, debates e atividades artisticas voltadas para os Pretos Novos, a escravidao e a cultura afro-brasileira. No seu espaco, atribuem os seus proprios sentidos a si mesmos e aos ossos do subsolo que nem sempre coincidem exatamente com o dos arqueologos que fizeram o salvamento em 1996.

Apesar de a familia Guimaraes ter participado ativamente dos eventos de 2001 organizados por Athayde e ter sido posta a par das diversas acoes internacionais relacionadas a escravidao, e somente em 2010 que as analogias com o holocausto negro comecam a lhe fazer sentido. Ao longo dos anos 2000, o Brasil adotou diversas politicas de acao afirmativa (5), que ampliaram para varios setores da sociedade os debates e representacoes sobre a escravidao e seu legado, tornando-os mais accessiveis a populacao em geral.

Tambem nos anos 2000, uma serie de acoes internacionais comecaram a trazer a publico as novas possibilidades de representacao da escravizacao como crime contra a humanidade. Na costa africana ocidental, importantes pontos do projeto Rota do Escravo tornaram-se alvo de intensas visitacoes turisticas, sobretudo de afro-americanos que buscam refazer simbolicamente o trajeto daqueles que consideram seus ancestrais, os africanos escravizados. Apesar de alguns desses locais terem a sua autenticidade contestada, isso nao foi suficiente para frear o processo de visitacao e alguns se tornaram alvo de peregrinacao de importantes liderancas politicas que ali pediram perdao pelo envolvimento pregresso de suas nacoes com o trafico transatlantico negreiro (6). E tambem a partir dos anos 2000 que varios memoriais e museus sobre a escravidao ou sobre a diaspora africana sao criados em Londres, Liverpool, Nantes, Bordeaux, Washington, entre outras localidades. Essas acoes comemorativas, ainda que criticadas por diversos autores pela relacao de descontinuidade entre passado e presente e por nao atingirem as estruturas de dominacao contemporaneas (TROUILLOT, 2000; PALMIE, 2010; CHIVALLON, 2012), tambem divulgam para o grande publico as ideias preconizadas em Durban que ate entao circulavam de modo mais restrito.

Influenciada pelos novos debates internacionais e locais sobre a escravidao, Merced Guimaraes elabora progressivamente um novo entendimento para o Cemiterio dos Pretos Novos: o de que ele e testemunho de um crime contra a humanidade, um holocausto negro. As politicas de acao afirmativa e de promocao da cultura afro-brasileira dos anos 2000 impactaram diretamente nos rumos do IPN: em 2010, gracas aos diversos editais voltados para a promocao da cultura popular e afro-brasileira, o instituto se transforma num Ponto de Cultura (7) destinado a promocao da historia e da memoria dos africanos e seus descendentes, e tambem obtem verba para construir o Memorial dos Pretos Novos. Assim, todo o espaco do instituto e as acoes que ele promove sao reelaborados a partir dessa nova chave interpretativa. Ao operar essa mudanca, Merced Guimaraes nao so traduz para o memorial os seus proprios entendimentos sobre o sitio arqueologico, como tambem impoe ao seu modo a identidade de outros atores e define quem eles sao e o que eles "querem" (CALLON, 1986), com a ajuda de varios dispositivos.

Num espaco de cerca de 50[m.sup.2], o memorial ocupa uma das salas do IPN e e composto por varios elementos: cerca de 8 paineis, de aproximadamente 1m de altura, que reproduzem gravuras de africanos no Brasil, realizadas por pintores viajantes do seculo XIX; 10 paineis, de aproximadamente 1,5m de largura, contendo explicacoes textuais e algumas imagens sobre o trafico transatlantico negreiro, os locais de sepultamento de escravos no Rio de Janeiro e o papel do Instituto dos Pretos Novos em relacao ao sitio arqueologico; a reproducao de um tronco de cerca de 2m de altura simbolizando um pelourinho, cuja extremidade inferior e pintada de vermelho em referencia ao sangue dos escravizados; os nome de batismo de alguns dos africanos que foram ali enterrados, localizados no livro de obitos do cemiterio e pintados na parede de fundo; dois pocos de sondagem escavados pelo arqueologo Reinaldo Tavares, em 2012, com vistas a realizacao da sua dissertacao de Mestrado em Arqueologia pelo Museu Nacional da UFRJ. Os pocos expoem fragmentos de ossos humanos atribuidos aos Pretos Novos encontrados nas suas escavacoes e sao encobertos por piramides de vidro.

Atraves desses dispositivos, Merced Guimaraes traduz ao seu modo a ideia do sitio arqueologico como o testemunho de um holocausto negro e procura estabilizar a sua propria visao dos fatos. No material explicativo produzido pelo IPN, bem como no memorial, temos um processo de vitimizacao dos escravizados (VASSALLO, 2017) que procura trazer a tona a sua humanidade e denunciar o intenso sofrimento a que foram submetidos. Assim, os paineis que reproduzem as gravuras de africanos e os nomes de batismo dos que foram enterrados no local procuram revelar que, apesar de permanentemente objetificados pela sociedade escravocrata brasileira, os africanos escravizados eram seres humanos e, como tais, dotados de rosto e nome proprio, devendo ser tratados como individuos. O pelourinho, pintado de vermelho na extremidade inferior, simboliza o intenso sofrimento a que foram submetidos os que foram ali enterrados. Os paineis explicativos reiteram essas informacoes. Num deles, intitulado "Memorial Pretos Novos", lemos a seguinte informacao:

"A visao que se tinha do local [do mercado de escravos transferido para o Valongo em fins do seculo XVIII] era perturbadora, devido ao estado em que se encontravam os cativos recem-chegados da Africa (chamados de Pretos Novos). Figuras esqueleticas, doentes e seminuas eram aglomeradas em barracoes, numa situacao de martirio que podia durar ate um ano, desde o momento de sua captura, ate a comercializacao. Debilitados pelos maus-tratos e acometidos de enfermidades diversas, muitos nao resistiam. Seus corpos eram depositados no Cemiterio dos Pretos Novos criado naquele mesmo ano [1769] pelo Marques do Lavradio. Foram 61 anos de uma rotina de sepultamentos em que os mortos eram lancados ao solo, possivelmente em valas comuns, que permaneciam abertas ate estarem repletas, podendo ficar expostos por varios dias".

Ao descrever as figuras "esqueleticas", "seminuas" e "doentes" submetidas a intensos maus-tratos nos barracoes, bem como a forma com que ocorriam os sepultamentos, temos a denuncia de um tratamento desumano dado a esses individuos. As representacoes que o IPN procura veicular sobre os Pretos Novos podem ser sintetizadas na frase comumente veiculada no seu material de divulgacao: "faltou respeito na vida, faltou respeito na morte, faltou respeito na historia".

Em sintonia com as novas formas de representacao da escravidao e coma emergencia da "vitima" como uma categoria politico-juridica (FASSIN; RECHTMAN, 2011; SARTI, 2011), Mercedes Guimaraes e demais integrantes do IPN traduzem ao seu modo os debates mais amplos para as representacoes das ossadas e do seu proprio papel junto a elas. Atraves dessas afirmacoes e dos objetos que as veiculam, o IPN redefine a identidade das ossadas que nos sao apresentadas como individuos--os africanos escravizados--e como vitimas de intensos maus-tratos nao so em vida como na morte. Mas define tambem o que eles "querem". De acordo com os principais integrantes do instituto, o que essas ossadas querem e respeito. Com isso, o proprio IPN constroi para si uma identidade, a da instituicao que, enfim, trara o respeito para esses seres humanos tao desrespeitados na vida, na morte e na historia, que nunca os levou em conta. Com esse intuito, esse mesmo painel declara que: "o Memorial Pretos Novos e aberto ao publico para reivindicar o respeito as vidas de homens, mulheres e criancas que aqui foram sepultados, e se consolidar como simbolo da preservacao de uma memoria de resistencia e superacao". Portanto, e atraves das acoes que trazem a publico a historia do sitio arqueologico e do sofrimento dos que foram ali enterrados que estes obteriam o respeito que, de alguma forma, cicatrizaria as suas feridas e restauraria a sua dignidade humana.

As narrativas sobre a escravidao veiculadas no IPN adquirem ainda mais impacto na medida em que, tambem em 2011, o Cais do Valongo e desenterrado a poucas centenas de metros dali e, gracas a atuacao de pesquisadores, liderancas negras e representantes do poder publico, passa em pouco tempo a simbolizar o local das Americas e mesmo do mundo por onde mais teriam desembarcado africanos escravizados (VASSALLO; CICALO, 2015). O achado ocorre em meio ao Projeto Porto Maravilha de revitalizacao (8), que confere uma enorme visibilidade a regiao portuaria e lhe atribui grande interesse por parte do poder publico municipal. Em julho de 2017, esse novo sitio e reconhecido pela UNESCO como patrimonio da humanidade, tendo o cemiterio como parte da sua "zona de amortecimento". Alem disso, tanto o cais quanto o cemiterio recebem da UNESCO uma placa de reconhecimento da sua importancia para o projeto Rota do Escravo. Juntos, os dois sitios arqueologicos consolidam localmente as novas representacoes sobre a escravidao a partir de uma perspectiva moral, ou seja, como uma denuncia de um crime contra a humanidade (VASSALLO, 2017), e trazem a luz o fato de o Rio de Janeiro e o Brasil terem sido, respectivamente, a maior cidade e o maior pais escravagista em todo o mundo.

O desenterramento do Cais em meio ao ambicioso projeto de revitalizacao e a sua possibilidade de reconhecimento pela UNESCO, os crescentes pedidos de reparacao para afrodescendentes, bem como as iniciativas internacionais de criacao de museus e memoriais sobre o trafico transatlantico negreiro e a escravidao, dao grande projecao tanto as ossadas dos Pretos Novos quanto a alguns dos atores mais diretamente ligados a elas, como os arqueologos e a familia Guimaraes. Nesse contexto, acirram-se as disputas locais em torno das representacoes da escravidao condensadas nas ossadas encontradas no cemiterio.

4) O "grito" de Bakhita

No inicio de 2017, o arqueologo Reinaldo Tavares volta a escavar no principal poco de sondagem do Memorial Pretos Novos, dessa vez para realizar a sua pesquisa de doutorado, tambem pelo Museu Nacional da UFRJ. Sua intencao e aprofundar os buracos ja abertos em 2012 para ver o que encontra nas camadas inferiores. Sua equipe e composta pela sua coorientadora, alguns outros arqueologos e tecnicos.

Para proceder a escavacao, aterra e retirada por niveis e e peneirada pelo menos duas vezes. Na peneiracao sao encontrados pedacos de ossos, dentes, contas, pedras e material de construcao. Depois de peneirada, a terra e colocada em sacos e e descartada. O material encontrado na peneiracao e identificado, etiquetado, ensacado, armazenado em caixas e enviado ao Museu Nacional da UFRJ.

Em maio do mesmo ano, em meio as escavacoes, a equipe e surpreendida pela descoberta de um esqueleto semi-intacto, em posicao anatomica, a pouco menos de um metro de profundidade. Ate entao, os ossos desenterrados e expostos sob as piramides de vidro do memorial nao tinham mais do que poucos centimetros e encontravam-se fragmentados. Era dificil para um visitante leigo identifica-los como humanos, tornando absolutamente necessarias as explicacoes adicionais relatadas por integrantes do IPN, guias turisticos e pelos proprios paineis e demais objetos que compunham o memorial.

A identidade e o papel do esqueleto sao atribuidos pela equipe de arqueologos tendo a frente Reinaldo Tavares. Diferentemente dos arqueologos que fizeram o resgate em 1996, a enfase de Tavares recai na denuncia do sitio como um crime contra a humanidade, em sintonia com as representacoes veiculadas no Memorial Pretos Novos. Assim, o esqueleto contribui para a estabilizacao do sitio arqueologico como um holocausto negro e para a vitimizacao dos que foram ali enterrados.

Atraves da observacao de caracteristicas anatomicas, feita a olho nu por uma especialista da equipe, o esqueleto foi identificado como sendo de uma mulher africana de cerca de 20 anos. Ela foi batizada de Josefina Bakhita pelo tecnico Andrei Santos que a encontrou. De acordo com Andrei, Bakhita "foi a primeira santa negra catolica, ela foi escravizada e ela e padroeira dos cativos escravos. Eu achei uma homenagem justa. Ela passou pelo que eles passaram, ela sentiu o que eles sentiram (...). Se eu me recordo bem, Bakhita significa 'bem-aventurada' em arabe" (entrevista, em 04 de Agosto de 2017).

Para Tavares, Bakhita representa "um grito", "uma denuncia" de todos os horrores que aconteceram naquele local e revela a maneira desumana pela qual os africanos recem-chegados eram tratados na sociedade brasileira escravagista. Ela encarna "o principal simbolo de tudo o que aconteceu ali". Segundo ele, e ela que vai "contar a historia dos Pretos Novos" para o publico, por isso e "bem-aventurada". De acordo com Andrei Santos, ela "se mostra como uma traducao fidedigna do que aconteceu aqui. As marcas fisicas da escravidao estao ali, traduzidas naquele esqueleto" (entrevista, 04 de Agosto de 2017).

Como se ja possuisse uma existencia a priori, somente esperando ser "descoberta", o tecnico responsavel pelo achado fala numa "revelacao": "as poucas pinceladas que eu dei foram revelando os tracos da face, da mandibula, e veio a surpresa: conforme a gente foi passando os pinceis (...) ela foi sendo revelada' (grifo meu, entrevista com Andrei Santos em 04 de Agosto de 2017).

Ainda de acordo com Andrei, a "descoberta" mudou radicalmente os rumos da escavacao:

"E foi uma surpresa quando ela estava la articulada, foi um impacto muito forte. Ai a equipe toda se reuniu e isso mudou o contexto, deu de fato um novo rumo para a pesquisa (...) e ela foi a figura central dessa mudanca (...). A gente pode dizer que a pesquisa tem o antes da Bakhita e o depois da Bakhita" (entrevista em 04 de Agosto de 2017).

Assim, para os proprios membros da equipe arqueologica, Bakhita nao e apenas uma ossada inerte, ela e dotada de agencia. Ela muda os rumos da pesquisa arqueologica e do proprio instituto, ao mesmo tempo em que "grita" para os visitantes todos os horrores que ocorreram ali. Personificada, Bakhita tem nome, sexo, idade, voz, religiao e capacidade de acao.

Sua agencia e seu poder de revelacao se estendem aos estudos da escravidao como um todo e so poderao ser compreendidos aos poucos:

"ela ainda nao revelou tudo, ela abriu portas, ela veio literalmente para revolucionar o instituto e as pesquisas bioarqueologicas no contexto do Cemiterio dos Pretos Novos e ate no contexto da escravidao (...).E claro que nos nao temos acesso a tudo o que ela pode nos revelar agora, mas posteriormente, com outros pesquisadores trabalhando em cima, nos vamos ter essas informacoes (...). E isso e importante para o entendimento de montar esse grande quebra cabeca que e a escravidao brasileira (...). Ela esta ali com as informacoes que nos precisamos". (entrevista a Andrei Santos em 04 de Agosto de 2017).

A intencao inicial de Reinaldo Tavares era a de armazenar Bakhita no Museu Nacional, junto com os demais vestigios e objetos encontrados no local. No entanto, atendendo aos pedidos da familia Guimaraes e de frequentadores do instituto, Tavares e sua equipe optaram por deixa-la in loco, no proprio contexto do poco de sondagem em que foi encontrada, para que seu "grito" possa ser escutado por todos os visitantes do IPN. Para tanto, a equipe arqueologica realiza um trabalho de "consolidacao" que consiste em cobrir o esqueleto com produtos quimicos que evitem a sua deterioracao. Os demais elementos de acondicionamento de Bakhita tambem deverao ser controlados para impedir a sua erosao, tais como a iluminacao, a temperatura e a cobertura de vidro, que ira protege-la de ameacas externas.

Durante as escavacoes, a grande quantidade de visitantes (9) que ja frequenta regularmente o Memorial dos Pretos Novos e incentivada a conhecer os pocos de sondagem e ser recebida pelos arqueologos da equipe. Em meio aos objetos que compoem o memorial, como os paineis que apresentam rostos de africanos e os que explicam as suas condicoes de enterramento no Rio de Janeiro, os seus nomes de batismo pintados na parede de fundo e o pelourinho, os visitantes se deparam com o esqueleto de Bakhita. Posicionados ao redor do poco onde ela se encontra, eles escutam a explicacao de Reinaldo Tavares, que lhes apresenta Bakhita e lhes traduz o seu "grito". Nesse momento, e comum os visitantes serem invadidos por uma forte emocao, um sentimento de revolta e terem vontade de chorar. Assim, esta tambem seria uma das caracteristicas da sua agencia, a de despertar determinados sentimentos no publico.

Podemos dizer que os objetos expostos no memorial e as narrativas dos arqueologos atuam como dispositivos (LATOUR; WOOLGAR, 1997), que conformam o olhar e a sensibilidade dos visitantes e contribuem para a estabilizacao do fato que se quer afirmar. Esses dispositivos estendem e materializam a hipotese de que aquele local e um sitio arqueologico que testemunha um dos maiores crimes contra a humanidade, um holocausto negro. Eles possuem a habilidade de persuadir, ou seja, de convencer os outros da importancia do que fazem e da verdade do que dizem (CALLON, 1986, p.9). Eles atuam como uma moldura (MILLER, 2013) que enquadra os acontecimentos de uma determinada maneira, de modo geralmente inconsciente. Assim, o ambiente material tem uma dupla caracteristica: e ele que torna o fenomeno possivel, mas e dele que se deve facilmente esquecer

9 O IPN recebe centenas de visitantes por semana, que incluem estudantes do ensino fundamental e medio acompanhados de seus professores, coletivos negros, turistas afroamericanos e turistas em geral, integrantes de passeios organizados a pe pela zona portuaria, estudantes universitarios, pesquisadores de diferentes areas, jornalistas, entre outros.

(LATOUR; WOOLGAR, 1997, p.67). Bakhita expressa e da materialidade ao imaterial, ou seja, a toda a emocao que se constroi ao seu redor atraves dos dispositivos criados pelos arqueologos e pela familia Guimaraes e seus apoiadores. Juntos, os diferentes integrantes que compoem essa rede estabilizam a identidade de Bakhita, que se torna aquilo que a ela se atribui.

Durante a interacao com o publico, os textos e objetos colocados em evidencia no memorial bem como a atuacao dos arqueologos funcionam como esquemas que codificam a realidade e organizam a percepcao, fornecendo certas maneiras de ver e compreender os eventos (GOODWIN, 1994). Atraves do modo pelo qual classificam as ossadas, os arqueologos transformam o mundo nas categorias e eventos que para eles sao relevantes. Esse sistema de codificacao e classificacao permite que restos mortais se transformem em pecas passiveis de serem exibidas (PIRES, 2017, p.122).

5) Os limites dos porta-vozes e as ambiguidades dassificatorias

O processo de classificacao das ossadas e de nomeacao de Bakhita nao e isento de ambiguidades. Sera que seus porta-vozes sao de fato representativos? Quem fala em nome de quem? Quem representa quem (CALLON, 1986)? Os ossos efetivamente nao falam e Bakhita nao "grita". Falar como portavoz e silenciar aqueles em nome dos quais se fala, o que sempre pode ser problematico. Afinal, "e muito dificil falar de modo definitivo em nome de silenciosos seres humanos, mas e ainda mais dificil falar no nome de entidades que nao possuem linguagem articulada" (CALLON, 1986, p.14). Independentemente do carater constrangedor dos dispositivos e do aspecto convincente do argumento, o sucesso nunca esta garantido e existem sempre forcas inimigas querendo frustrar projeto inicial (CALLON, 1986: 10). A equipe de Tavares e a familia Guimaraes procuram atuar como porta-vozes das ossadas. Mas os dispositivos que eles criam nem sempre funcionam, e outras possibilidades de entendimento sempre podem ser acionadas. Para que Bakhita possa "gritar", Tavares e os Guimaraes tem que realizar uma longa e dificil negociacao, nem sempre bem-sucedida, com as ossadas e demais atores envolvidos na rede. O consenso nunca esta garantido e pode ser contestado a qualquer momento: a traducao se torna entao traicao (CALLON, 1986, p.15).

Primeiro, e preciso que a propria Bakhita consinta com o papel que lhe e atribuido. Para tanto, e necessario que ela de fato nao se decomponha sob a quimica protetora que a envolve, a iluminacao que lhe da visibilidade, o calor, a umidade e o mofo que sempre ameacam se instalar sob a sua cobertura de vidro.So assim Bakhita podera continuar contando a historia que dela se espera. Mofo, umidade, agua da chuva, luze erosao sao todos fenomenos nao controlados que desarrumam as classificacoes do memorial e revelam o carater fluido e arbitrario das identidades que se deseja impor.

Segundo, existe um tensionamento entre a perspectiva dos arqueologos da equipe de Tavares, que queriam seguir com as investigacoes sobre Bakhita a partir de um "paradigma evidencia!" do corpo humano (CROSSLAND, 2009) e envia-la ao laboratorio, e as narrativas dos integrantes do IPN em torno da ideia de uma luta pela memoria dos Pretos Novos, que consiste na divulgacao dessa historia para o grande publico, pois se Bakhita e investida do papel fundamental de "revelar tudo o que aconteceu ali", isso nao a isenta de disputas sobre como e para quem essas revelacoes devem ser feitas, muito pelo contrario.

Terceiro, outros integrantes da rede tambem nao aceitam facilmente os fatos propostos. Parte significativa do movimento negro nao concorda com as representacoes atribuidas as ossadas pela equipe de Tavares e pela familia Guimaraes. Para eles, os ossos ali enterrados sao seus ancestrais e, portanto, seus "bens inalienaveis", e uma familia "branca" jamais podera ser a sua porta-voz. Criticam o fato de "brancos" continuarem narrando uma historia que consideram lhes pertencer, reproduzindo assim as estruturas de dominacao racial. Reivindicando-se como uma "comunidade mnemonica", nos termos de Palmie (2010), eles defendem o direito de poder eles mesmos representar esse passado. Alem disso, tecem severas criticas ao processo de vitimizacao que o memorial procura dramatizar e que, segundo eles, despolitiza o violento processo de dominacao dos africanos escravizados e dos que foram ali enterrados. Propoem entao o uso do termo "cadaveres", que melhor traduziria o seu posicionamento.

Quarto, os visitantes nem sempre se comportam da forma esperada. Alguns "sentem" e "veem" os espiritos dos escravizados, outros "passam mal" com a sua presenca e ha tambem os que conseguem "falar" com eles e receber suas mensagens. Alguns declaram que o pelourinho na verdade e um opa, eixo central de circulacao de energia entre o ceu, a terra e as divindades, que esta presente nos terreiros de candomble. Um visitante chegou a dizer que o pelourinho personificava Exu, divindade das religioes de matriz africana. Em todas essas circunstancias, os enterrados deixam de encarnar o papel de vitimas da escravidao e poem em jogo uma miriade de possibilidades interpretativas.

As ambiguidades classificatorias estao na base da producao dos fatos cientificos. No caso do Memorial dos Pretos Novos, temos uma negociacao que envolve um jogo de visibilidade e invisibilidade. O que se mostra e o que se oculta? De quem? Para que a "voz" de Bakhita possa ser escutada, e necessaria uma negociacao entre o que fica visivel ao publico no memorial e o que segue em caixas para os laboratorios.

Bakhita deve ficar exposta para contar ao publico a historia dos Pretos Novos, enquanto outros ossos e objetos encontrados ficarao ocultados nos laboratorios cientificos e so serao visiveis aos futuros pesquisadores que o solicitarem. Responderao a outras perguntas e contribuirao para a producao de outros fatos cientificos. Numa das visitas ao IPN, presenciei os arqueologos muito envolvidos com um pedaco de terra que continha alguns objetos. Indagavam se um deles seria um osso ou uma pedra. Depois de solucionada a questao, todo o conjunto foi considerado digno de interesse, tendo sido observado, classificado, fotografado e armazenado, para ser futuramente levado ao Museu Nacional. No entanto, a mesma equipe arqueologica que optou por encaminhar esses ossos e demais objetos encontrados espera que Bakhita permaneca in loco para contar a historia dos Pretos Novos e denunciar o que houve. Para que o "grito" de Bakhita possa ser escutado, os outros ossos e demais objetos sao silenciados nos sacos plasticos e em suas caixas, onde permanecerao no mais profundo anonimato. Temos uma divisao do trabalho em que o publico tera acesso a Bakhita, que, por sua vez, nao podera mais ser analisada cientificamente, enquanto os outros ossos e objetos serao ocultados do publico e revelados a possiveis futuros pesquisadores. Nao contarao a sua historia para os visitantes cada vez mais numerosos do IPN, mas poderao vir a conta-la a novos pesquisadores que porventura venham a se interessar por eles. Assim, Bakhita se "humaniza" e se "personifica" na mesma medida em que os demais ossos enviados aos laboratorios sao objetificados.

Na arqueologia, a ambiguidade classificatoria e permeada pelo que os proprios arqueologos chamam de "sensibilidade", ou seja, um processo em que a "imaginacao arqueologica" (FABRE; HOTTIN, 2008) preenche os vazios que a ciencia nao consegue explicar. Como definir e classificar cada um dos objetos encontrados nao e uma tarefa simples e nem isenta de conflitos e divergencias de interpretacoes. Sera que um objeto e uma pedra ou um osso? Sera que e de um homem ou de uma mulher? Sera que deve permanecer in loco ou ser encaminhado ao laboratorio? Sera que deve servir ao publico ou aos pesquisadores? Apesar da crenca dos cientistas de que a imaginacao deve ser afastada da observacao e do "olhar clinico", pois contem relacoes ilusorias (CROSSLAND, 2009; FOUCAULT, 1977), o carater aparentemente logico do raciocinio [e] apenas uma parte de um fenomeno bem mais complexo, que Auge (1975) chama de "praticas de interpretacao" e que e feito de negociacoes locais, tacitas, de avaliacoes constantemente modificaveis, de gestos inconscientes ou institucionalizados. (...) A crenca no carater logico e direto da ciencia emerge no decorrer dessas praticas de interpretacao (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p.160).

Assim, o carater objetivo de um fato e a consequencia do trabalho dos pesquisadores e nao a sua causa (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p.200), e e permeado pela sensibilidade e pela imaginacao. A equipe de Tavares e a familia Guimaraes nao reproduzem um fato objetivo acerca do intenso sofrimento dos africanos enterrados no sitio arqueologico Cemiterio dos Pretos Novos. Eles o produzem, e essa producao so pode ser compreendida no contexto mais amplo e contemporaneo no qual emergem novas formas de representacao da escravidao e seus multiplos tensionamentos. No entanto, as ossadas insistem em escapar as logicas classificatorias que lhes sao predeterminadas, evidenciando a sua fluidez e arbitrariedade.

Conclusao

Este artigo procurou analisar o processo de conversao simbolica atraves do qual ossadas humanas se transformaram simultaneamente em objetos de investigacao cientifica armazenados em laboratorios e denuncias de um crime contra a humanidade que devem ser expostas ao publico. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour e de Michel Callon, procurei compreender como foi construido o fato cientifico de que o local e o Cemiterio dos Pretos Novos e como esse fato influenciou a trajetoria das ossadas. Busquei demonstrar que o fato cientifico do sitio arqueologico nao tinha existencia a priori e que foram os seus principais atores que o produziram e que estabilizaram as suas definicoes, atraves de inumeros dispositivos. No entanto, os sucessivos processos classificatorios que envolvem as ossadas nao sao isentos de ambiguidades e sao alvos de significativas controversias.

Percebemos que a trajetoria das ossadas se elabora a partir de uma relacao constante entre o local e o global, na qual restos mortais classificados como de africanos podem adquirir alguns sentidos, como os dos arqueologos de 1996, os dos arqueologos de 2012 e 2017, os da familia Guimaraes e os de integrantes do movimento negro.As disputas classificatorias em torno das ossadas dos Pretos Novos nos remetem a um debate mais amplo sobre as representacoes contemporaneas da escravidao a partir de uma condenacao moral.

Acredito que as ossadas dos Pretos Novos encarnem hoje uma metonimia da escravizacao que se declina de diferentes maneiras, e por isso sao investidas do poder de suscitar narrativas diversas e de mobilizar as pessoas em diferentes formas de atuacao, dai as tensoes e ambiguidades que pairam em torno delas. Por isso se tornam tao importantes: elas dao materialidade a poderosos simbolos que giram em torno de ancestralidade, afrodescendencia, escravizacao, dominacao racial, racismo cientifico e lutas contra as desigualdades raciais. Expressando os limites entre ser um objeto de pesquisa e vitima de um holocausto negro, as ossadas nos incitam a refletir sobre algumas tensoes classificatorias envolvendo restos humanos, e em particular de africanos escravizados, na contemporaneidade.

DOI: 10.12957/irei.2018.35858

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Recebido em outubro de 2017

Aprovado em marco de 2018

Simone Ponde Vassallo *

* Simone Ponde Vassallo e professora adjunta do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: simonepvassallo@gmail.com.

(1) Agradeco a Daniela Manica, Pedro Ferreira e Clarice Rios, pelas sugestoes oferecidas no ST Antropologia e Antropocentrismos, debates, desafios e perspectivas, durante a VIa ReACT, de 16 a 19 de maio de 2017, na USP, Sao Paulo. Tambem agradeco a gentileza de Claudia Fonseca, pelas sugestoes bibliograficas e por ter propiciado o contato com as demais autoras do presente dossie, a contribuicao de Felipe Berocan Veiga e Andrei Santos, respectivamente docente e discente do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense, e por fim, a familia Guimaraes, a equipe de Reinaldo Tavares e aos demais informantes que tornaram este artigo possivel.

(2) As atividades de valorizacao do bairro afirmando-o como de "interesse historico" para impedir as demolicoes resultaram na elaboracao do Projeto SAGAS, que deu origem a legislacao municipal que protege inumeros imoveis dos bairros Saude, Gamboa e Santo Cristo (lei n. 971, de 4 de maio de 1987). E nesse contexto que as informacoes sobre a existencia de Um mercado de escravos e do Cemiterio dos Pretos Novos comecam a ser veiculadas, Sobretudo atraves da publicacao sobre a historia dos bairros Saude, Gamboa e Santo Cristo (CARDOSO et al., 1987).

(3) Lilia Cheuiche Machado faleceu em 2005, levando a uma interrupcao provisoria das pesquisas sobre as ossadas.

(4) Sao elas: Joel Rufino dos Santos (Subsecretario de Estado de Direitos Humanos), Benedita da Silva (Vice-Governadora do Estado do Rio de Janeiro), Marcelino Germano (Subsecretario de Acompanhamento Operacional do Gabinete do Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro), Carlos Moura (Presidente da Fundacao Cultural Palmares), Edson Santos (Vereador da Cidade do Rio de Janeiro), Ivanir dos Santos (Presidente do Centro de Articulacao de Populacoes Marginalizadas), Edna Roland (Presidente da Fala Preta/Organizacao de Mulheres Negras).

(5) Dentre elas, podemos mencionar as cotas para o ingresso de estudantes negros em universidades publicas, a possibilidade de titulacao da terra aos remanescentes de quilombos, a lei 10.639, que torna obrigatorio o ensino da historia e da cultura africana e afrodescendente nas escolas, o Estatuto da Igualdade Racial.

(6) Tal foi o caso de Bill Clinton quando Presidente da Republica nos EUA; Tony Blair quando Primeiro Ministro britanico, Luis Inacio da Silva, quando Presidente da Republica no Brasil, e o Papa Joao Paulo II, entre outros.

(7) Programa do Ministerio da Cultura voltado para a promocao da cultura de coletivos Culturais de baixa renda ou em situacao de vulnerabilidade.

(8) Trata-se de um ambicioso projeto de requalificacao da regiao portuaria, realizado entre 2009 e 2016, que mobilizou alguns bilhoes de reais com o intuito de atrair a iniciativa privada e ao mesmo tempo adequar essa regiao aos grandes eventos que a cidade abrigava nesse periodo, como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olimpicos.

(9) O IPN recebe centenas de visitantes por semana, que incluem estudantes do ensino fundamental e medio acompanhados de seus professores, coletivos negros, turistas afroamericanos e turistas em geral, integrantes de passeios organizados a pe pela zona portuaria, estudantes universitarios, pesquisadores de diferentes areas, jornalistas, entre outros Caption: Sacos plasticos do IAB contendo partes de ossos coletadas no Cemiterio dos Pretos Novos em 1996.

Caption: Caixas do IAB que armazenam os sacos plasticos contendo as ossadas do Cemiterio dos Pretos Novos, coletadas em 1996.

Caption: Bakhita no poco de sondagem do Cemiterio dos Pretos Novos.

Caption: Demais ossos e objetos encontrados nas escavacoes de 2017 no Cemiterio dos Pretos Novos e guardados em caixas que seguem para o Museu Nacional da UFRJ.

Caption: Memorial dos Pretos Novos.
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Author:Vassallo, Simone Ponde
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:10619
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