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Entre azagaias, carrocas e espingardas: a escrita do passado sul-africano em George McCall Theal (1837-1919)/Between assegais, ox-wagons, and rifles: the writing of South African past in George McCall Theal.

George McCall Theal nasceu na provincia de New Brunswick, no Canada, em abril de 1837. Dificuldades financeiras levaramno a deixar o Canada na juventude e partir com seu tio, um capitao da marinha canadense, inicialmente para os Estados Unidos, depois para a Serra Leoa e, no inicio da decada de 1870, para o territorio sul-africano, onde se estabeleceu como professor e jornalista nas regioes fronteiricas da Colonia do Cabo. Naquele mesmo periodo, publicou o Compendium of South African History and Geography (1873), obra que demarcou suas incursoes iniciais ao campo da Historia associadas as suas atividades docentes junto ao Lovedale Missionary Institution, missao religiosa e instituicao educacional em que atuou como professor durante cinco anos. No momento em que McCall Theal migrou para a regiao, o territorio sul-africano encontrava-se dividido entre as Colonias britanicas do Cabo e de Natal, os protetorados e territorios nativos, e as republicas boeres do Transvaal (Zuid-Afrikaansche Republiek, Republica Sul-Africana) e do Estado Livre de Orange (Oranje-Vrystaat). Os conflitos interetnicos ocasionados na regiao, bem como o acirramento de disputas economicas derivadas das descobertas de jazidas auriferas e diamantiferas nas decadas de 1870 e 1880, atrairam o interesse por territorios que, ate aquele momento, apresentavam-se como postos remotos de limitada atencao sob o ponto de vista das politicas de colonizacao em vigencia no Imperio Britanico.

A trajetoria intelectual e os percursos biograficos de George McCall Theal estavam entrelacados a um momento em que os planos de uma comunidade nacional sul-africana comecavam a ser gestados, tanto entre as elites locais quanto do ponto de vista da administracao colonial. O periodo foi marcado pelas propostas de constituicao de uma confederacao na Africa do Sul, promovidas pelo entao Secretario de Estado das Colonias, Lord Carnarvon, o qual, baseando-se no modelo confederacionista implementado no Canada, em 1867, pretendia manter a autoridade britanica no territorio sul-africano, considerado a partir daquele momento, ate mesmo pela expansao da mineracao diamantifera e ampliacao das atividades portuarias, como uma area de estrategica e vital importancia. A estrutura politica pretendida por Carnarvon visava unir as colonias e os territorios britanicos e boeres, de modo a criar uma confederacao sul-africana inserida dentro do Imperio Britanico. A proposta integrava-se aos debates parlamentares na metropole que passavam a atribuir uma importancia maior a politica externa e a manutencao do Imperio, em detrimento de proposicoes de reformas sociais internas, mas foi recebida com resistencia, em especial pelas elites politicas na Colonia do Cabo, as quais, acreditavam, arcariam com os custos do projeto (JENKINS 1996, p. 116-118). Os dirigentes locais haviam garantido o status de autogoverno em 1872, consideravam tais iniciativas como uma revogacao de seus direitos e, alem disso, viam o liberalismo do Cabo como incompativel com o conservadorismo politico das republicas boeres (WESSELING 2008, p. 298). A materializacao do projeto confederacionista iniciou-se em maio de 1877, com a anexacao do Transvaal por Theophilus Shepstone, episodio malfadado que levou a guerra entre boeres e britanicos entre 1880 e 1881, cujo resultado--a devolucao territorial aos boeres--fraturou os projetos confederacionistas de uma Africa do Sul unificada naquele momento.

No periodo, a expressao "questao sul-africana" era utilizada para designar um contexto marcado por instabilidades nas fronteiras das colonias britanicas na regiao, derivadas, sob muitos aspectos, das resistencias das populacoes africanas diante da expansao colonial e das demandas pelo controle de terras e mao-de-obra local. Tome-se, a titulo de exemplos, as revoltas dos Griquas e dos Mpondos na Griqualandia, em fevereiro de 1878 e, por volta da mesma epoca, de Tswanas, Koranas e Khoi-Khoi na regiao de Kuruman, ao norte da Colonia do Cabo, e dos Bapedi no Transvaal (SCHREUDER 1980, p. 66-67). Nao obstante, o contexto imediatamente posterior a devolucao do Transvaal marcou um impulso renovado de expansionismo por parte dos boeres. Liderados pelo presidente Paul Kruger, os boeres do Transvaal utilizaram-se da instabilidade e do clima de guerra civil estabelecido entre os zulus apos a destituicao de seu ultimo soberano independente, Cetshwayo, durante a guerra anglo-zulu de 1879, para garantir a posse de terras; soma-se ainda o estabelecimento das republicas boeres de Stellaland e Goschen, em 1882, que visava dificultar as rotas comerciais britanicas rumo ao norte atraves da Bechuanalandia, e da Nieuwe Republiek (Nova Republica) em 1884, em territorio previamente ocupado pelos zulus. Em oposicao a crescente influencia imperialista britanica na regiao, sobretudo apos a descoberta das areas de mineracao, Kruger enfatizava o republicanismo boer, ancorado em leituras do passado que destacavam, em termos que ligavam religiosidade e politica, as sagas e o martirio dos voortrekkers, boeres que emigraram para o interior do subcontinente durante a gestao do Governador Benjamin D'Urban na decada de 1830. Os migrantes eram retratados nessas narrativas como um 'povo escolhido' que deixou a Colonia do Cabo para escapar das "injusticas e opressoes (...) sofridas nas maos dos britanicos" (GILIOMEE 2011, p. 264) e, apos vencer elementos de ordem natural e as resistencias dos africanos, fundou o Transvaal, o Estado Livre de Orange e a Republica de Natalia, anexada como Colonia de Natal pelos britanicos em 1843.

A despeito da fragmentacao territorial no subcontinente, o periodo em questao foi demarcado por um aumento significativo de publicacoes que intencionavam fornecer certo senso de coesao e unidade, especialmente por meio de tratados historico-geograficos, relatos de viajantes e romances historicos. Tais narrativas associavam-se ao que Saul Dubow caracterizou como a emergencia do sul-africanismo na segunda metade do seculo XIX, sentimento de pertencimento politico e nacional que, apesar das divisoes geopoliticas, almejava a integracao das populacoes brancas a partir da ideia de uma Africa do Sul simbolicamente unificada pela via de identificacoes etnicas carregadas de paradigmas de exclusao. Em linhas gerais, o sul-africanismo assumiu a expressao da elite branca de uma sociedade colonial em desenvolvimento economico e, portanto, visava marginalizar ou negar os direitos politicos as populacoes negras. O foco primario do sul-africanismo, visto mais como uma crenca do que como um sistema ideologico aperfeicoado, era baseado no relacionamento de um territorio nacional em formacao com o Imperio Britanico, bem como no aprimoramento das relacoes entre boeres e britanicos. Nesse sentido, assumia uma dimensao transnacional, encarnada em valores como razao, progresso e civilizacao e, por tal motivo, o conhecimento cientifico e tecnologico, as instituicoes de saberes historicos e geograficos, passaram a ser valorizados como elementos estruturantes da nacao sul-africana e definidores de sua identidade nacional (DUBOW 2006, p. VI).

O esfacelamento das propostas politicas de confederacao sul-africana no final da decada de 1870, a emergencia do movimento nacionalista afrikaner na Colonia do Cabo e a devolucao do Transvaal aos boeres em 1881 emolduraram transformacoes ideologicas em parte da escrita do passado na Africa do Sul finissecular. Esse movimento relacionava-se com o fortalecimento dos discursos sul-africanistas mobilizados por setores da elite colonial branca no subcontinente, muitos dos quais visavam constituir uma identidade nacional fortemente coesiva, passivel de unir britanicos e boeres, e simultaneamente excluir ou subjugar as populacoes negras africanas como elemento constituinte das utopias politicas de uma Africa do Sul unificada. Esse senso de coesao racial fez uso de elementos da memoria patria para promover um sentimento de pertencimento entre os seus articulistas, elemento presente em parte significativa dos discursos sobre a formacao nacional no seculo XIX. No caso sul-africano, a questao envolveu investimentos simbolicos e afetivos em producoes culturais que, com frequencia, reinterpretavam, apropriavam ou obliteravam elementos do passado, selecionavam episodios e personagens representativos, de modo a promover "tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforcar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes" (POLLAK 1989, p. 9).

Durante parte significativa do seculo XIX, as incursoes a escrita do passado sul-africano transcorriam, maioritariamente, por iniciativa de intelectuais com vinculos a instituicoes de carater historico-geografico ou ligados as elites locais, sobretudo na Colonia do Cabo. Tome-se, a titulo de exemplo, a obra History of the Colony of the Cape of Good Hope (1869), um compendio de historia politica que visava registrar uma "narrativa do progresso civilizatorio" (WILMOT; CHASE 1869, p. 1) da Africa do Sul, simultaneamente inscrevendo o passado sul-africano na sucessao de imperios coloniais. Isso porque, ainda que respeitando as particularidades locais, a ideia que persiste, sobretudo na primeira parte da obra, incide em enquadrar o territorio sul-africano em uma intrincada trama de imperios ultramarinos--portugues, holandes e britanico, personificados em suas elites dirigentes e nas acoes politicas realizadas ao longo do periodo colonial. Um de seus autores, John Centlivres Chase, foi membro atuante da South African Literary Society, instituicao de carater cientifico fundada por um coletivo de intelectuais em 1824, cuja revista, South African Quarterly Journal, reservava amplo espaco a investigacoes geograficas e geologicas em um momento de definicao das fronteiras geopoliticas dos territorios sul-africanos. A rede que ligava a producao escrita a instituicoes cientificas igualmente se estende a Alfred Whaley Cole, Roderick Noble e John Noble, fundadores do periodico Cape Monthly Magazine e professores da South African College, instituicao educacional e universitaria fundada em 1833. A revista, que se converteu em espaco de divulgacao cientifica e interlocucao intelectual, delegava atencao especial aos debates historicos e antropologicos a respeito da ocupacao territorial na regiao, buscando quadros explicativos as configuracoes geopoliticas da Africa do Sul na contemporaneidade, a partir da selecao cuidadosa de episodios historicos para compor mitos fundacionais (DUBOW 2006).

Esse movimento de incursao ao passado recente dos territorios sul-africanos tambem ocorreu no lado boer da questao. O nacionalismo afrikaner ganhou forca cultural e politica entre as decadas de 1880-1890, integrado por remanescentes das dispersas comunidades boeres que, liderados por setores da politica e da intelectualidade, visavam produzir um sistema de figuracoes culturais capaz de resistir a crescente influencia britanica na regiao. A formacao do movimento estava interligada a valorizacao de elementos culturais e linguisticos e, sobretudo, apos a reconquista da independencia do Transvaal na guerra de 1880-1881, a emergencia de um sentimento de "missao nacional" entre os colonos boeres. Em 1875, Stephanus du Toit, um clerigo da Igreja Holandesa Reformada, ao lado de outros intelectuais, fundou uma sociedade denominada Die Genootskap Van Regte Afrikaners, Irmandade dos Verdadeiros Afrikaners, dedicada a valorizacao do uso do afrikaans, associacao considerada como uma das bases fundacionais do movimento nacionalista. Por meio de suas narrativas historico-geograficas, du Toit visava fornecer uma visao alternativa aquela promovida por intelectuais no lado anglo-africano da questao. Em 1877, publicou Die Geskiedenis van Ons Land in die Taal van Ons Volk, a "historia de nossa terra na lingua de nosso povo", considerado como o primeiro tratado historico sob o prisma de observacao afrikaner. Em sua optica, du Toit interpretava os boeres como um povo distinto, que, embora disperso pelas colonias britanicas e republicas independentes, estava cingido por um destino comum, atribuido pela vontade divina, a saber, governar a Africa meridional e civilizar as chamadas "racas inferiores" (MEREDITH 2008).

Nas incursoes iniciais da historiografia sul-africana ao longo do Oitocentos, dois episodios do passado recente assumiram lugar de destaque: o mfecane e o Great Trek, localizados temporalmente nas tres primeiras decadas daquele seculo. O termo mfecane, comumente traduzido como "esmagamento", foi um neologismo cunhado pela historiografia no seculo XX (1), para designar uma serie de transformacoes historicas e migracoes populacionais transcorridas na Africa do Sul do inicio do seculo XIX. A historiografia colonial sul-africana, embasada em preceitos racialistas, construiu uma interpretacao que enfatizava a violencia emanada do centro de poder zulu, e em especial de seu monarca, Shaka kaSenzangakhona, entre as decadas de 1820 e 1830. Na perspectiva desses historiadores, o expansionismo militar dos Zulus teria rompido um equilibrio anterior e provocado ondas sucessivas de guerras, mortes e deslocamentos populacionais (RICHNER 2005; SANTOS 2017, p. 23). Nas ultimas decadas do Oitocentos, o Great Trek ,"Grande Jornada", isto e, o movimento migratorio de boeres insatisfeitos com a esfera de influencia politica britanica que deixaram a Colonia do Cabo em comboios formados por carrocas puxadas por bois e marcharam ao interior sul-africano em meados da decada de 1830, foi interpretado, em especial pelo emergente movimento afrikaner, como um mito de fundacao de uma nacao branca, envolto em graus de martirio e heroismo (ETHERINGTON 2011). Nos discursos historicos produzidos no periodo, os dois episodios tornam-se complementares, e suas interpretacoes atrelavam-se a muitas das ansiedades que perpassavam a elite colonial nas decadas de 1870 e 1880: de um lado, o acirramento das tensoes com os s, mormente na chamada guerra anglo-zulu; e, de outro, os atritos com os boeres que culminaram nos conflitos pos-1880 e na devolucao do Transvaal no ano seguinte.

A selecao desses episodios como mitos edificantes da historia nacional evidencia os usos politicos do passado, na medida em que tais narrativas historico-geograficas visavam constituir paradigmas de inclusao e exclusao em uma sociedade colonial perpassada por significativas transformacoes de cunho politico. George McCall Theal, dos lugares sociais em que ocupou ao longo de sua trajetoria intelectual, nao estava alheio a tais discussoes e, por meio de sua obra, contribuiu para sedimentar determinadas visoes a respeito do que se considerava como o expansionismo militar dos zulus e a saga dos migrantes boeres no Great Trek, e, no interim, forneceu subsidios metodologicos e conceituais para a constituicao de um modelo de escrita do passado colonial sul-africano em lingua inglesa.

"Determinacao para ser imparcial": debates letrados e questoes de metodo

Alem das diversas instituicoes historicas e culturais previamente mencionadas, bem como a rede de interlocucao formada por impressos periodicos e tratados historicos, o processo de constituicao de interpretacoes da temporalidade sul-africana recebeu imprescindivel contribuicao do primeiro arquivista da Colonia do Cabo, Hendrik Carel Vos Leibrandt, e do historiador George McCall Theal, foco de analise do artigo, com enfase nas suas representacoes da dispersao zulu e das migracoes boeres. Embora fornecessem visoes contraditorias do passado sul-africano, ambos visavam suplantar as distincoes entre boeres e britanicos para compor uma historia em longa duracao da cooperacao e solidariedade entre populacoes brancas, incluindo holandeses, alemaes, huguenotes franceses e britanicos. Nessas e noutras narrativas, figuras representativas de periodos historicos eram eleitas como herois ou martires, ao exemplo do governador holandes Simon van der Stell (1639-1712), responsavel pela administracao do Cabo no final do seculo XVII, o qual foi considerado por muitos intelectuais do periodo como um antecedente historico da identidade colonial branca que visavam promover. Alem disso, a assertiva de George McCall Theal a respeito da migracao recente de populacoes negras para o territorio sul-africano, movimento temporalmente localizado por ele no final do seculo XVI, igualmente almejava legitimar a perniciosa ideia racialista da Africa do Sul como uma nacao branca, ao implicar que os africanos nao possuiam mais direitos a terras do que os europeus e seus descendentes --sejam eles boeres ou britanicos (FOSTER 2008, p. 41-43).

A partir da decada de 1880, McCall Theal produziu sua monumental History of South Africa, obra em multiplos volumes que intencionava fornecer interpretacoes do impacto cumulativo das populacoes europeias no sudoeste da Africa. Na sua escrita da historia da Africa do Sul, Theal representou a experiencia colonial nos termos de uma emergente "nova sociedade" pautada em um processo civilizacional protagonizado pelas populacoes brancas no territorio sul-africano. E, embora nao negligencie a presenca de africanos nos processos de dispersao etnica e ocupacao territorial da Africa do Sul, ate mesma por sua utilizacao de relatos orais, notadamente em Kaffir Folk-Lore, publicado em 1882, sua historia e frequentemente vista sob uma perspectiva teleologica que a aparta do passado branco. A despeito das pretensoes objetivas em produzir uma narrativa cientifica, sua escrita encontra-se profundamente entrelacada a posicionamentos pessoais a respeito do dominio de outros territorios e das interacoes culturais no ambito do colonialismo (SCHREUDER 1986, p. 95). Afinal, a pratica historica no seculo XIX estava indubitavelmente articulada a lugares de producao socioeconomicos, politicos e culturais, portanto, perpassada pela experiencia social e por configuracoes identitarias (CERTEAU 2002, p. 71-72).

A perspectiva ideologica professa por McCall Theal deslindava-se em uma visao de mundo que Deryck Schreuder descreveu em termos de um "nacionalismo colonial", posicionamento politico que ganha forca no seu projeto de escrita do passado sul-africano a partir de meados da decada de 1880, momento em que o historiador aproxima-se do Afrikaner Bond, organizacao politica de carater anti-imperialista criada com o afa de fortalecer os interesses economicos, culturais e politicos dos afrikaners. Ate entao, em especial no seu panfleto propagandistico destinado a atrair colonos ao Cabo (South Africa as it is 1871) e no Compendium, McCall Theal apresentava uma visao empatica as culturas e costumes africanos, edulcorada por uma rasa preocupacao com os direitos nativos no processo de colonizacao, mas que, simultaneamente, evocava as vantagens da sua cristianizacao. Dessa forma, a titulo de exemplo, McCall Theal apresenta os boeres em seu Compendium como um grupo etnico de espirito seminomade, "decididamente livres de vicios proeminentes", porem, suas perspectivas com relacao as populacoes negras nao "consideravam como um pecado desrespeitar os direitos nativos, quando estes direitos interferiam na prosperidade do homem branco". De modo similar, o historiador, ao mencionar o tratado assinado entre Portugal e o Transvaal, o qual estendeu os limites da Republica Sul-Africana sobre os territorios Bapedi, afirma que o "naquele tratado, os direitos nativos foram simplesmente ignorados por ambas as potencias envolvidas" (THEAL 1878, p. 166-231). Por sua proximidade com o missionarismo de Lovedale, McCall Theal inclui os nativos africanos entre os seus possiveis leitores e afirma, no prefacio da segunda edicao, a necessidade de registrar "tudo na historia do seu povo--mesmo as grafias dos nomes de seus antigos chefes" (THEAL 1878, p. VI).

Uma serie de fatores politicos e pessoais fraturou sua lealdade ao imperialismo britanico e ao humanitarianismo de Lovedale, que inclui a insercao no servico civil no Departamento de Financas, e posteriormente no Departamento de Assuntos Nativos, sua aproximacao com a elite colonial branca no Cabo (nominalmente do Afrikaner Bond), bem como o descontentamento, partilhado por muitos boeres, com as tentativas britanicas de constituir uma confederacao sul-africana. A visao particular em torno de uma identidade local formulada pelo historiador a partir desse momento centralizava uma comunidade colonial branca, convergia na defesa pela administracao autonoma dos territorios sul-africanos como uma estrategia politica privilegiada e amparava sua legitimidade na ideia de uma unidade cultural partilhada pelos colonizadores e de seu lugar em um amplo sistema imperial. Em suma, o historiador "criou uma History que oferecia uma forca coesiva, legitimadora e intelectual na evolucao de uma mitologia da nacionalidade colonial branca" (SCHREUDER 1986, p. 96), uma especie de utopia racial, versao apaziguadora do passado, em contraste com o acirramento das hostilidades entre boeres e britanicos em meados da decada de 1880, os quais eram gerados, na sua perspectiva, pelas ambicoes do imperialismo britanico.

Na interpretacao de George McCall Theal a respeito dos processos de ocupacao territorial e das praticas politicas coloniais, os colonizadores europeus assumiam um papel heroico na constituicao da nacao e, por isso, seus ideais de unidade cultural visavam abarcar tanto britanicos quanto boeres na conformacao de uma classe dirigente. Por extensao, sua producao historica assume uma dimensao fundamental na constituicao de uma cultura historica da elite colonial branca, devido a "sua capacidade de ligar sua visao conceitualizante, e altamente evocativa, de uma nova sociedade colonial branca" (SCHREUDER 1986, p. 96), somada a inspiracao rankeana de produzir uma narrativa historica a partir de operacoes de pesquisa envoltas em aurea de objetividade e cientificidade. Tal efeito era promovido nao apenas no embasamento a uma extensa pesquisa de folego em documentos e acervos concernentes aos seculos recentes da historia politica sul-africana, mas tambem pela precisao em coletar e expor datas e eventos com a minima intervencao ou interpretacao do intelectual. Esses elementos demonstram o modo como Theal aproximava-se de tendencias mais amplas da escrita da historia no periodo, em especial de historiadores alemaes, britanicos e franceses, cuja fundamentacao metodica-documental visava afastar-se de outras praticas da cultura historica, sobretudo dos cronistas, para ser "empiricamente pertinente, argumentativamente plausivel e demonstrativamente convincente" (MARTINS 2010, p. 10). Assim, alem de ancorar-se numa pressuposta objetividade de sua narrativa--afinal, afirma em diversos momentos ser"guiado pelo principio que a verdade deve ser contada a despeito da nacionalidade ou partido [politico]" (THEAL 1894, p. VII)--Theal utilizava dados antropometricos, evidencias geologicas e vastos aportes documentais, enfatizando, mormente em seus prefacios e introducoes, os procedimentos de autenticidade, veracidade e coleta da documentacao, elementos em comum com as praticas de outros historiadores europeus do periodo, sobretudo ligados a Escola Historica Alema (BARROS 2013, p. 978-979).

Sua condicao enquanto outsider era, com certa frequencia, base primaria da aurea de objetividade que o historiador visava produzir em suas narrativas. Afinal, por ser canadense, julgava estar apto a produzir uma versao imparcial do passado sul-africano, ou, como anuncia no prefacio a The History of the Emigrant Boers in South Africa:
Determinacao para ser estritamente imparcial, liberdade dos
preconceitos que podem involuntariamente afetar aquela determinacao,
sao igualmente necessarios. Eu acredito possuir tais qualificacoes, e
de qualquer forma tenho feito o maximo esforco naquela direcao. Nao
tenho interesses a servir com nenhum partido em especial, e estou em
termos amigaveis com todos. Embora resida na Africa do Sul por mais de
um quarto de seculo, sou um canadense por nascimento, o descendente de
uma familia que se alinhou ao rei durante a epoca da Revolucao
Americana, e apos isso exilou-se de Nova York para New Brunswick
[Canada] com outros Royalistas. Os primeiros anos de minha vida apos a
infancia foram passados nos Estados Unidos e em Serra Leoa. Portanto,
nenhum vinculo de sangue e nem preconceitos adquiridos na juventude sao
barreiras para que possa formar um julgamento imparcial dos eventos que
ocorreram na Africa do Sul ha uma geracao (THEAL 1888, p. VIII-IX).


A tradicao arquivistica, se cotejada ao cerne da producao intelectual e da trajetoria de George McCall Theal, pode ser vislumbrada na producao de uma serie de trinta e seis volumes intitulada Records of the Cape Colony 1793-1831, no qual o historiador sul-africano compilou e transcreveu documentos concernentes a administracao da Colonia do Cabo no periodo de transicao a esfera de influencia ultramarina britanica. Por extensao, Theal ainda publicou outras series de documentos, tais como os nove volumes da Records of South-Eastern Africa, entre 1898 e 1903, e, a servico do governo recentemente estabelecido na Uniao Sul-Africana, os Documents Relating to the Kaffir War of 1835, publicado em 1912. A vasta documentacao compilada por Theal nesses volumes derivava da tradicao europeia na arquivistica, mas tambem de um interesse avido pela oralidade, em particular na incorporacao das culturas africanas. A utilizacao de testemunhos orais torna-se significativa para a producao de interpretacoes sobre as transformacoes historicas na Africa do Sul do inicio do seculo, fenomeno observado por McCall Theal como resultado do expansionismo zulu e da incorporacao de suas estrategias e sistemas militares por outros grupos africanos, ao exemplo dos Ngwane, cuja aniquilacao era justificada pelo historiador como medida defensiva para o Cabo (RICHNER 2005, p. 130).

O uso de fontes orais nas praticas historicas concernentes ao mfecane aponta para as "complex as relacoes" entre as narrativas africanas e os discursos coloniais, em especial nos "processos de representacao nos quais se engajam" (NDLOVU 2017, p. 8). Afinal, embora muitos relatos referentes as estrategias militares dos zulus no periodo tenham sido publicados por viajantes ou missionarios europeus, as trajetorias de suas liderancas foram transmitidas oralmente pelos izimbongi, categorizados por Sisifo Ndlovu como "intelectuais publicos" responsaveis pela ressignificacao e continuidade da memoria coletiva entre os zulus. Os epicos disseminados oralmente pelos izimbongi integravam a "organizacao comunal" dos zulus, e era um elemento constituindo das "suas proprias formas de projetar e interpretar as suas realidades e experiencias" (NDLOVU 2017, p. 5). Por isso, a incorporacao da oralidade africana nas primeiras obras de McCall Theal aponta para as interacoes culturais no embate colonial em termos de apropriacao, isto e, de narrativas africanas sendo ressignificadas para acomodar os interesses coloniais, sobretudo no que compete a apropriacao de terras e controle de mao-de-obra africana.

Em seu History of South Africa, publicado entre as decadas de 1880 e 1910, George McCall Theal visou retratar a historia do veld e das relacoes interetnicas que levaram a constituicao do territorio sul-africano moderno. O ponto de partida fundamenta-se na migracao de etnias africanas na regiao, particularmente os grupos San e Khoikhoi, bem como o impacto causado pelas levas imigratorias dos Nguni e os Sotho. Alem desses temas, Theal dedicou volumes a chegada dos primeiros portugueses no subcontinente sul-africano e a crescente concentracao de holandeses, alemaes e huguenotes franceses na regiao a partir do seculo XVII. Os volumes finais de sua coletanea privilegiavam a presenca crescente e a forca politica dos britanicos no territorio sul-africano, tomando a decada de 1890 como contexto de encerramento de sua obra. Nesses ultimos tomos, escritos e publicados apos a constituicao do estado nacional sul-africano (Uniao Sul-Africana 1910), a guerra entre boeres e britanicos ocupa um lugar significativo e um alerta acerca dos efeitos de conflitos entre brancos, bem como das consequencias perniciosas da excessiva interferencia do imperialismo britanico. O historiador verte seus olhos ao passado na intencionalidade de pavimentar uma ideia de Africa do Sul branca, sustentada pelo trabalho nativo e na constituicao de reservas tribais administradas por uma elite formada a partir da aproximacao entre britanicos e boeres (SCHREUDER 1986, p. 97-98).

A trajetoria de George McCall Theal no campo da historio grafia sul-africana do seculo XIX ainda se torna emblematica dos embates que cercam as "lutas de representacoes" (CHARTIER 1990, p. 17) em torno de um passado comum, convertido em objeto de disputa por distintos posicionamentos politicos. O episodio em questao, a saber, a designacao de Hendrik Leibbrandt para o cargo de arquivista oficial da Colonia do Cabo em 1881, evidencia as disputas entre diferentes vertentes da producao escrita e da cultura historica na Africa do Sul ao fin-de-siecle, contrapondo, de um lado, o circulo de intelectuais razoavelmente alinhavados ao lado imperialista da questao; e, de outro, um grupo "settler", no qual McCall Theal integrava-se, e que enfatizava os interesses do colonato e das elites locais. E possivel que esses atritos, sintomaticos dos embates e disputas geradas no campo da intelectualidade, ja apresentassem precedentes no inicio da decada anterior, ja que a Cape Monthly, em agosto de 1873, publicou uma critica pontiaguda ao Compendium of South African History and Geography de Theal. O artigo direciona seus comentarios mais asperos ao excesso de violencia atribuido por Theal aos governadores coloniais, em especial no que se refere ao tratamento de nativos:
talvez houvesse casos excepcionais de tratamento cruel destes nativos,
cujas disposicoes selvagens eram suficientes para provocar; mas como um
todo, e em clara comparacao com outros assentamentos mesmo em tempos
posteriores, o colono do Cabo era distinto, tal qual ele ainda e, por
consideracao no que diz respeito ao seu volk" (A NEW BOOK 1873, p.
127-128).


Pouco mais de uma decada depois, a indicacao de Leibbrandt representou um golpe significativo para McCall Theal, o qual compreendia que, por seus meritos profissionais e producao intelectual, a funcao naturalmente lhe pertencia (MERRINGTON 2012, p. 200).

As controversias entre essas duas vertentes ja haviam se deslindado a partir das interpretacoes dispares fornecidas em torno da figura do governador holandes Willem Adriaan van der Stell, afastado do cargo em 1707 apos acusacoes de corrupcao referentes a concessao de monopolio sobre a comercializacao de carne e vinho. Na perspectiva de Leibbrandt, as intencoes de Van der Stel, vistas como tiranicas e opressivas pelo lado boer do embate, visavam ao desenvolvimento da agricultura na colonia do Cabo, e nao necessariamente implicavam na delimitacao dos direitos dos colonos. Sua defesa por Van der Stell fica evidente na selecao dos documentos que integram a obra Precis of the archives of the Cape of Good Hope, em especial no volume dedicado as argumentacoes do governador durante as acusacoes:
o governador responde que rapidamente mostrara (...) que foi
injustamente, falsamente, maliciosamente acusado (...), que lhe causa
ampla tristeza e magoa, apos ter sido lider de uma cidade bem governada
e amplamente civilizada, e partilhar de um governo justo e adequado
(LEIBBRANDT 1896, p. 428).


McCall Theal, em seu Compendium, ja indicara van der Stell como um individuo "apaixonado, tiranico ecobicoso de riquezas", o qual enriquecera as custas dos "burghers" e, municiado de uma "furia sem limites", estabelecera "um reino de terror" na Colonia do Cabo (THEAL 1878, p. 94-95). Como resultado, os simpatizantes do Afrikaner Bond alinharam-se a interpretacao de George McCall Theal, enquanto que aqueles favoraveis a modernizacao, intervencao estatal e desenvolvimento politico das relacoes com o Imperio Britanico, forneceram apoio a visao de Leibbrandt. Nesse interim, o primeiro ministro do cabo, Sir Gordon Sprigg negou o acesso de Theal aos arquivos na Cidade do Cabo, sob a alegacao de que a administracao colonial opunha-se a sua ocupacao parcial como historiador, demandando-lhe dedicacao integral ao cargo de funcionario civil (MERRINGTON 2005, p. 201).

Como afirma Peter Merrington, a designacao de Leibbrandt gerou controversias, ja que diversos membros do comite organizado no ano precedente com a funcao de selecionar o Bibliotecario Parlamentar e Arquivista Colonial, haviam previamente apontado McCall Theal para a funcao. Seu principal articulista havia sido Jan Hendrik Hofmeyr, membro do Afrikaner Bond e editor de seu periodico principal, Het Volksblad, o qual fez uso dos editoriais para a defesa do historiador ao cargo. De modo semelhante, Saul Solomon, editor do Cape Argus e membro do parlamento do Cabo, havia apoiado a designacao de Theal. O primeiro ministro do Cabo ignorou a indicacao do comite e manteve Leibbrandt na funcao, em parte por ter previamente garantido ao arquivista o encargo de catalogar e coletar fontes e arquivos da cidade de Graaff-Reinet, no Cabo Oriental, regiao de importancia historica nas lutas pelas demarcacoes de fronteiras do territorio sul-africano. A controversia entre Theal e Leibbrandt estava igualmente imersa em outras particularidades retoricas e politicas: a tonalidade das narrativas do passado sul-africano de McCall Theal era muito mais empatica a causa do separatismo boer; enquanto Leibbrandt alinhavava-se ao lado do imperialismo britanico, ao exemplo de seu cunhado, o supramencionado historiador John Noble, e de Douglas Fairbridge, membro da Assembleia Legislativa do Cabo (MERRINGTON 2005, p. 201).

"Guerras de exterminio": o mfecane e o Great Trek

No que diz respeito a formacao nacional do territorio sul-africano em seu periodo mais recente, duas chaves de leitura recebem relevancia na obra de George McCall Theal: o Great Trek, em especial no volume dedicado as migracoes internas dos boeres na Africa do Sul, particularmente sintomatico de sua empatia a causa boer, e o mfecane, ao produzir uma narrativa hegemonica, geograficamente coesa, racialmente informada e fortemente zulucentrica, sobretudo em seu Progress of South Africa in the Century (1901). Esses processos historicos, caracterizados pela dispersao etnica rumo ao interior dos territorios coloniais, eram vistos pelo historiador sul-africano como intrinsecamente interligados e, ao defender o protagonismo boer na historia politica colonial em oposicao as praticas vistas como barbaras e tiranas da monarquia zulu, proporcionava um relato do passado que atendia as expectativas de muitos membros da elite branca colonial na Africa do Sul. Tais sujeitos formavam, presumivelmente, a comunidade de leitores imaginada por McCall Theal, independentemente de sua identificacao etnica, ja que, como relembra no prefacio de Progress, o historiador almeja produzir "as verdades indisputaveis sobre a historia sul-africana, e cada individuo podera colorir estas verdades para adequar as suas inclinacoes, seja em favor dos ingleses, holandeses ou bantos". E, apesar de declarar-se ansioso pela "extensao e solidificacao do Imperio", Theal adverte seus leitores a respeito do fato de que nao "permitira aquele sentimento prejudicar meu trabalho" (THEAL 1901, p. VI).

Ate a decada de 1870, as principais narrativas que tratavam dos movimentos migratorios de africanos entre os anos de 1810-1830 concentravam-se em areas geograficas ou grupos etnicos especificos, produzindo, de modo reiterado, um discurso que enfatizava a multiplicidade de atores historicos envolvidos na historia da Africa do Sul das primeiras decadas do seculo. Em linhas gerais, alguns autores, ao exemplo de missionarios e viajantes, destacavam a emergencia do reino zulu, a formacao da Zululandia e o esvaziamento populacional da regiao de Natal, posteriormente ocupada pelos vootrekkers; as incursoes militares dos tlokwa e mais tarde dos ndebele, as quais teriam produzido um vazio populacional alem das fronteiras da Colonia do Cabo; a travessia dos ngwane, de Natal para o Transkei, pela regiao do Transgariep, onde teriam sido derrotados por um exercito colonial; e, por fim, narrativas sobre os fingo, oriundos de Natal, escravizados pelos gcaleka e libertados pelo governador D'Urban. No periodo de publicacao das obras de Theal, a questao zulu e sua incorporacao problematica a sociedade colonial sul-africana voltava ao debate, nominalmente pelos conflitos gerados pela resistencia dos zulus liderados pelo rei Cetshwayo em fins dos anos de 1870, o que ajuda a explicar sua enfase zulucentrica (RICHNER 2005).

Afinal, a partir daquele momento, a historiografia colonial passou a promover uma visao unificada desse contexto, que culpabilizava oszuluspelosdeslocamentospopulacionaisou pelo suposto exterminio etnico que teria causado um esvaziamento no interior do subcontinente sul-africano entre as decadas de 1810 e 1830; o processo, posteriormente designado de mfecane, era intimamente associado a formacao do estado Zulu, visto como epicentro das transformacoes historicas (RICHNER 2005, p.182-183). Segundo Norman Etherington, tais narrativas tambem eram debitarias a oralidade africana, ao exemplo dos basothos, governados por Moshweshwe (1786-1870), os quais, conscientes das discussoes a respeito da ocupacao e uso das terras, esforcaram-se para promover suas proprias historias, muitas das quais coligidas por missionarios, para legitimar suas demandas em um periodo no qual a influencia politica das liderancas locais era medida pela posse de terras, e nao mais apenas por rebanhos de gado. George McCall Theal, ao apropriar-se dessas narrativas africanas, em geral centradas na regiao do rio Caledon, transformou as demandas de lideres africanos em uma justificativa generalizada para a ocupacao das terras por britanicos e boeres, ja que, nessa perspectiva, elas teriam sido esvaziadas pela onda de violencia provocada pelos zulus (ETHERINGTON 2011, p.333-337).

Ao tratar sobre as guerras zulus em seu Compendium, Theal concentrou-se sumariamente nas regioes costeiras do Cabo Oriental, na Colonia de Natal e na Zululandia, promovendo uma interpretacao dos processos de migracao do inicio do seculo como resultantes da acao expansionista dos zulus, bem como da adocao de suas estrategias militares por outros grupos etnicos. O historiador adotou uma forma de periodizacao tripartite predominante no periodo, sugerida na primeira metade dos anos de 1870 porTheophilus Shepstone, secretario de assuntos nativos na Colonia de Natal: um periodo inicial, anterior a decada de 1810, marcado pela ausencia de conflitos, idealizado como um momento edenico de relativa harmonia entre as populacoes africanas; uma segunda fase, entre 1812 e 1820, caracterizada por "um grande redemoinho de confusao, guerra e massacre" (THEAL 1878, p. 82), promovido pela evasao de diversas liderancas militares africanas que fugiam das forcas zulus em direcao ao sul; e um periodo posterior, em que a acao colonial britanica almejava suplantar a fase de violencia e genocidio etnico por meio da cristianizacao e da intensificacao do processo civilizatorio (RICHNER 2005, p. 130).

Nesta optica, o que se observa e uma visao que enfatiza certo efeito domino, na medida em que o monarca zulu, Shaka, era responsabilizado pela "trajetoria de sanguinolencia" que teria, eventualmente, promovido a migracao de diversos grupos populacionais, "alguns fugitivos selvagens, inconsequentes, buscando apenas ficar para alem do controle dos bandos de Tshaka [sic]", outros "furiosos por terem perdido suas posses e determinados a infligir em outros as miserias que eles mesmos passavam" (THEAL 1878, p. 82). Na escrita do passado sul-africano empreendida por McCall Theal, as forcas motrizes do expansionismo zulu nas tres primeiras decadas do seculo perpassam, indubitavelmente, pelas marcas do racialismo como elemento estruturante dos sentidos explicativos elaborados pelo historiador: a violencia descomedida, o desejo de provocar "massacres e roubos" e atribuido por ele ao simples "desejo de sangue humano e uma resolucao por viver e reinar sozinhos" (THEAL 1878, p. 83). A convergencia entre o determinismo biologico e preceitos evolucionistas tornaramse predominantes no pensamento social e historico de varios intelectuais no ultimo quartel do seculo, de modo a ecoar, na producao de Theal e de muitos de seus contemporaneos, em um ideario de superioridade racial europeia em detrimento do barbarismo e selvageria associado as "racas nativas".

Alem disso, persiste nas narrativas formuladas por George McCall Theal um aspecto que o conecta a diversas producoes de carater historico gestadas na segunda metade do seculo XIX: a crenca de que a individualidade representada pelas liderancas politico-militares--os "grandes homens"--seria capaz de irradiar elementos de compreensao para toda a tessitura social e cultural na qual se encontravam inseridos, ideia apresentada originalmente por Thomas Carlyle na decada de 1840 (LORIGA 2011, p. 53-61). Dai a enfase constante, sobretudo no Compendium, em torno das trajetorias de Shaka e seus sucessores imediatos, Dingane e Mpande. Nao ha nele a intencao de transforma-los em herois: Dingane e descrito como um governante "sem qualquer talento, um mero copista", cujo temperamento refletia em seus exercitos ao demandarem "novas vitimas"; Mpande, seu irmao e sucessor, e visto pelo historiador como "um homem sem nenhuma genialidade", cujo reinado demarcou o declinio do expansionismo militar iniciado por Shaka, mesmo que sem a perda de "sua ferocidade" (THEAL 1878, p. 197). Como se ve, o discurso racialista, em articulacao a crenca na individualidade representativa, visa apresentar os zulus como movidos pela violencia descomedida e desmotivada--ou ainda destituidos de sua propria agencia, como meros "copistas" sem "genialidade".

Publicado em 1901 em volume unico, Progress of South Africa in the Century pode ser visto como uma sumarizacao da magnum opus de George McCall Theal, History of South Africa, apresentando de modo conciso os principais argumentos da sua obra enciclopedica. A julgar pelo titulo, amplamente sugestivo das utopias de civilizacao e progresso que perpassam a producao deste historiador, persiste uma concepcao de tempo linear e progressivo, indicado pela divisao interna do texto: se os primeiros capitulos sao dedicados aos "antigos habitantes da Africa do Sul", isto e, "bushmen", "hottentots" e "bantos", o desfecho de Progress assinala que "o grande progresso dos ultimos anos se deve a uma quantidade maior de comunidades europeias sendo livres para conduzir seus proprios assuntos da sua propria forma" (THEAL 1901, p. 506). Por tudo o que se viu acerca da trajetoria de McCall Theal, nao surpreende o fato de que, ao tratar sobre sua contemporaneidade demarcada pela segunda guerra sul-africana, travada entre boeres e britanicos entre 1899 e 1902, o imperialismo britanico, se movido por "paixao e derramamento de sangue", nao e visto como uma forca coesiva, mas sim como causa imediata para uma "grande onda de barbarismo", responsavel por "intensos sentimentos de hostilidade e odio entre povos que precisam continuar a viver juntos no mesmo solo", isto e, "ingleses e holandeses, tao intimamente ligados por sangue e carater" (THEAL 1901, p. 502).

O periodo correspondente as decadas de 1810 e 1830 e tratado no capitulo destinado a lidar com a "guerra zulu de exterminio", e demarca um retorno de McCall Theal a ideia da individualidade representativa, pois o reino zulu e personificado nas acoes e trajetoria de Shaka, comparado, na abertura do texto, aos massacres promovidos pelo imperador romano Julio Cesar na Galia, embora "aquele numero foi grandemente ultrapassado pela carnificina causada direta ou indiretamente por Tshaka na Africa do Sul" (THEAL 1901, p. 169). Alem de descrever a trajetoria de Shaka, e sua ascensao ao poder entre os zulus devido a atos de bravura e crueldade, o periodo e descrito pelo historiador a partir da retorica do "mito das terras vazias" (MCCLINTOCK 2010), isto e, o expansionismo zulu nas primeiras decadas do seculo teria causado um vazio populacional que facilitou a ocupacao posterior da regiao pelos colonos boeres. A dispersao populacional provocada por Shaka era interpretada por McCall Theal como um dos males necessarios para sua concepcao de progresso no subcontinente, ja que "se o terrivel exterminador nunca tivesse existido indubitavelmente teriamos progresso na Africa do Sul, mas nao seria aquele tipo de progresso que ocorreu, nao existiriam o Estado Livre de Orange, a Republica do Transvaal ou a Colonia Rodesia, como existem atualmente" (THEAL 1901, p. 170). A ideia de um violento efeito domino causado pelo reino zulu recebe enfase no capitulo:
Os proximos a fugir foram a grande tribo dos Amangwane, os pequenos
tigres, que plenamente justificavam seu nome pela conduta que
mantinham. Deixando seu antigo lar nas margens do Umzinyati, eles
atacaram primeiro os Hlubis, que dispersaram, e entao atravessaram a
[cordilheira de] Drakensberg e atacaram o povo que ocupava a regiao
norte do que hoje e a Basutolandia e a parte oriental do Estado Livre
de Orange. Estes, incapazes de resistir ao choque da horda de Matiwane,
que tinham parcialmente adotado as armas zulus, fugiram por sua vez, e
sob a lideranca de uma mulher chamada Ma Xtatisi atravessaram o rio
Vaal e dirigiram-se ao noroeste. A regiao diante deles era densamente
habitada, mas as populacoes nao eram suficientemente inteligentes para
se unir a tempo de um perigo em comum. Uma regiao foi assim destruida,
seu gado e graos devorados, e entao a horda assassina movia-se para ao
proxima (THEAL 1901, p. 174).


A historiografia recente tem demonstrado que esses movimentos migratorios nao estavam necessariamente ligados a "guerras de exterminio" provocadas internamente pelo expansionismo Zulu, mas demarcavam a emergencia de novas liderancas africanase aformacao de reinos independentes, muitos dos quais baseados em formas mais antigas de organizacao socio-politica. Julian Cobbing questionou a interpretacao zulucentrica da mfecane, apontando ao fato de que as transformacoes nas sociedades africanas do inicio do seculo XIX tambem ocorreram em reacao defensiva contra o avanco europeu na regiao, ao exemplo dos comerciantes portugueses de escravos na regiao da baia Delagoa, a captura de nativos xhosa pelos colonos do Cabo Ocidental ou as incursoes de griquas e koras na regiao do Transgariep, responsaveis por comercializar escravos sotho-tswanas na colonia do Cabo (COBBING 1988). A partir dos escritos de McCall Theal, essa rede intrincada e complexa de processos historicos foi convertida em uma serie de eventos desencadeados teleologicamente: populacoes deslocadas pelo avanco zulu, ao exemplo dos ngwane ("amangwane"), teriam incorporado suas taticas militares, provocando subsequentes ondas de terror e exterminio.

Dentre os sobreviventes da "guerra de exterminio" promovida pelas azagaias de Shaka, McCall Theal ainda relata a proliferacao de praticas de canibalismo. As narrativas de canibalismo integravam muitos dos relatos de missionarios e viajantes que descreveram as regioes de Natal, do Transvaal e do vale Caledon durante a primeira metade do seculo XIX, e, a despeito das hipoteses contraditorias a respeito de sua veracidade, faziam parte do imaginario de muitos europeus a respeito do interior da Africa do Sul. As praticas de canibalismo e escravidao, com certa frequencia inter-relacionadas (RICHNER 2005, p. 193-194), integravam a imaginacao literaria e as ficcoes cientificas da Africa como um "continente negro", particularmente intensificada nas ultimas decadas do seculo com a proliferacao de relatos de viajantes e antropologos, e com o acirramento da corrida colonial. Por um lado, os relatos de antropofagia reforcavam preceitos evolucionistas que observavam em seus praticantes os estagios mais inferiores da evolucao humana, ofereciam uma legitimacao politica, de base pseudocientifica, para justificar o dominio das terras ultramarinas por europeus vistos como civilizados e de modo simultaneo legitimavam o exterminio etnico das "racas menos desenvolvidas" (BRANTLINGER 1985, p. 185-186). Por outro, demonstram o modo como tais discursos dotados de uma aurea de cientificidade eram constituidos a partir de elementos presentes nos romances goticos e na literatura aventuresca, ao cingirem cenarios de violencia interetnica e declinio racial, especialmente na obra de George McCall Theal, povoada por um simultaneo entusiasmo com o futuro politico da Africa do Sul e preocupacoes de ambito racial, sobretudo com a miscigenacao, vista como uma ameaca ao progresso colonial.

O deslocamento populacional e o genocidio atribuido por Theal ao expansionismo zulu teriam facilitado, por sua vez, a emigracao dos boeres para o interior do subcontinente na decada de 1830. Porem, o historiador sul-africano aponta um importante antecedente, sintomatico das resistencias dos colonos diante da crescente influencia politica britanica: a rebeliao de Slachter's Nek em 1815, ocasionada apos a morte do fazendeiro boer Frederik Bezuindenhout, executado por soldados britanicos da Colonia do Cabo ao ser acusado de maus tratos contra seus escravos de origem khoi. Na optica de McCall Theal, um dos lideres da rebeliao, Jan Bezuidenhout, e descrito como um fazendeiro iletrado, porem dotado de um "codigo de honra (...), que continha pelo menos um dos principios comuns as mentes mais nobres em todos os setores de sua raca: morrer, ao inves de fazer algo degradante". Alem disso, sua esposa e delineada porTheal como uma evidencia da racialidade elevada dos boeres, afinal tratava-se de "uma verdadeira mulher do interior sul-africano", a qual demonstrava que "o sangue batavo nao havia degenerado pela mudanca do clima". Para Theal, o imperativo etico e politico do historiador era relembrar esses episodios da resistencia boer, legitima-los como parte do passado colonial e salvaguarda-los para sua geracao, pois as prisoes e execucoes dos membros do movimento deixavam claro "a natureza impiedosa da autoridade inglesa", e conclui, ao afirmar que a punicao nao passava de um "grave erro politico" (THEAL 1901, p. 118-120).

Convem ainda destacar que, em Progress, McCall Theal utiliza do termo "afrikander" para descrever os colonos do inicio do seculo, expressao que passa a ser de uso comum apenas nas decadas de 1870-1880, como parte das novas configuracoes de identificacao politica constituidas na Africa do Sul do periodo; o anacronismo, aqui, deixa inegaveis os vinculos entre as acoes justificadas dos boeres no passado e de seus descendentes em tempos de "derramamento de sangue" na busca pela liberdade politica e religiosa longe da opressao imperial britanica. Ao recuperar o episodio de Slachter's Nek, representa seus articulistas como martires injusticados diante das novas legislacoes concernentes ao trabalho servil africano estabelecidos pelo governo colonial no Cabo e a mobilizacao de tropas compostas por Khoi-Khoi (GILIOMEE 2011, p. 84-85). Em favor de suas utopias de pureza racial, McCall Theal ignora o fato de que diversos dos homens envolvidos na revolta viviam com esposas africanas; que uma de suas liderancas, Cornelis Faber, tentou realizar uma alianca politico-militar com os ngqika; e que, de um modo geral, os fazendeiros bem estabelecidos pouco se interessaram pelo movimento, composto, maioritariamente, por rufioes iletrados das fronteiras, destituidos de terras proprias e com rebanhos limitados. Ate mesmo a opcao pelo uso do termo "afrikander", e nao mais "boer", evidencia nao apenas o peso politico atribuido a designacao, especialmente apos a formacao do Afrikander Bond em 1881, mas tambem os vinculos entre colonos brancos e proprietarios de terras, ja que alguns setores do Bond compreendiam que o partido estava fundamentado "em vinculos comunais de forma a excluir nao brancos" (GILIAMEE 2011, p. 289).

Mais do que uma analise detalhada da saga dos vootrekkers, History of the Emigrant Boers in South Africa fornece pistas importantes a respeito do metodo historico mobilizado por George McCall Theal. No prefacio, o historiador destaca a ausencia de estudos a respeito das migracoes boeres e do estabelecimento das republicas do Transvaal e do Estado Livre, alem de enfatizar suas "incomuns capacidades para coletar informacoes orais", tanto de testemunhas europeias quanto africanas envolvidas nos processos historicos privilegiados. Alem disso, atesta ao carater arquivistico-documental de seu trabalho, com enfase na documentacao coletada nos Arquivos Coloniais do Cabo e nos Arquivos Holandeses; na sua perspectiva, a documentacao cingida possuia "o maior valor historico", suplantando, inclusive os bluebooks produzidos pelo governo britanico, os quais, concluia, estariam inflamados por sentimentos tendenciosos. A tradicao arquivistica torna-se um corolario da objetividade do historiador, na medida em que "apos ler, comparar e digerir [os documentos], o unico trabalho em escrever a historia da emigracao era aquele de guiar a pena". A selecao documental pressupoe igualmente a exclusao de uma gama de fontes que McCall Theal considera como demasiadamente parciais, "como aqueles devotados a controversias teologicas, poesia, ficcao e ciencias especiais" (THEAL 1888, p. V-VIII).

No capitulo dedicado ao Great Trek, o autor categoriza a migracao de milhares de boeres rumo ao interior do subcontinente como uma ansia por escapar "do que viam como uma opressao intoleravel", promovendo "um evento singular na historia da colonizacao moderna" (THEAL 1888, p. 59). O episodio possibilita ao historiador elaborar largamente a respeito das discussoes raciais concernentes aos boeres, aproximando-os dos anglo-saxonicos, pois afirma que os boeres na Africa do Sul sao "homens de nossa propria raca, daquela vigorosa vertente teutonica holandesa que ocupou a Inglaterra e a Escocia" a qual, a despeito dos processos historicos de dispersao geografica, conservou "de modo imutavel" a "corrente contumaz". A miscigenacao entre britanicos e boeres e vista como uma evidencia das relacoes harmonicas e cordiais cultivadas pelos colonos da regiao antes do Great Trek, fraturadas, no inicio do seculo XIX, por uma complexidade multicausal: segundo McCall Theal, a "comparacao de numerosos documentos escritos em diferentes epocas, por diferentes pessoas" possibilita vislumbrar um quadro explicativo das razoes que levaram os colonos boeres a deixarem a Colonia do Cabo. Em primeiro lugar, o governo britanico e acusado por sua incapacidade de fornecer protecao em amparo aos colonos, bem como de favorecer as populacoes nativas em disputas por terras. Em segundo, os missionarios da London Society, acusados de abuso de autoridade e de "advogar esquemas diretamente hostis ao progresso da civilizacao e a manutencao da ordem", o que demonstra o afastamento de McCall Theal do missionarismo, nota expressiva de seus primeiros trabalhos. Por fim, a questao nativa: a abolicao do trabalho servil nas colonias britanicas e a concessao de "perfeita igualdade politica" aos nativos, embora Theal destaque a escassez de documentos concernentes a esse fator (THEAL 1888, p. 59-65).

Uma das questoes sobre as quais McCall Theal se detem em sua analise dos fluxos migratorios rumo ao interior do subcontinente diz respeito ao seu estatuto juridico, bem como o reconhecimento dos direitos politicos dos colonos boeres e a legitimacao de sua autonomia com relacao as instituicoes britanicas. O historiador atentava-se ao fato de que "os primeiros emigrantes constantemente defendiam que deixaram a Colonia para se livrarem nao da lei, mas da ausencia de lei [lawlessness]", e, neste mesmo movimento, "defendiam ter deixado de serem cidadaos britanicos" (THEAL 1888, p. 70). A alegacao da autonomia politica dos boeres, justificado por seu anseio por uma sociedade distinta da lawlessness representada pela autoridade britanica, ressoava de modo empatico ao separatismo boer da decada de 1880, ao observar em seus antecedentes um movimento legitimo, movido por insatisfacoes que se intensificam no periodo em questao. Na configuracao do mito de origem nacional delineado em sua obra, o historiador mapeia nao apenas chaves de leitura para a gestao dos ressentimentos entre britanicos e boeres, mas tambem uma via de justificacao das lutas pela independencia e da existencia legitima das suas republicas. De modo distinto das acoes do governo britanico nas decadas de 1830-1840, que inicialmente recusa-se a reconhecer a autonomia politica boer, o reconhecimento da independencia do Transvaal pela Convencao de Londres, em 1884, e laureada posteriormente por McCall Theal como um "ato de liberalidade por parte do governo", e "nao ha motivos pelos quais os sentimentos mais amistosos nao possam ser renovados por parte daquele pequeno estado" [o Transvaal] (THEAL 1901, p. 438).

Mais do que a busca por terras ou riquezas, o Great Trek e apresentado nessas narrativas, em especial se cotejadas com as outras demandas de boeres e seus descendentes, como uma constante busca por liberdade irrestrita, pela premissa de uma "terra prometida". A trajetoria dos voortrekkers era apresentada por McCall Theal como uma saga de lutas contra forcas da natureza, escassez de recursos e mantimentos, e constantes ataques dos matabele (ndebele), liderados por Moselekatse (Mzilikazi) e posteriormente dos zulus, governados na epoca por Dingane, meio-irmao de Shaka. Na optica do historiador canadense, a legitimidade das reivindicacoes boeres por terras se baseava tanto nas suas conquistas militares contra os nativos quanto no argumento do esvaziamento de terras provocado pelas guerras zulus: ao avancarem sobre as margens do rio Caledon, os voortrekkers "nao encontraram pessoas naquela vizinhanca exceto bosquimanos, e ninguem teve objecoes a ocupacao das terras" (THEAL 1888, p.56). "Exceto bosquimanos": estava claro para McCall Theal naquele momento que, por pertencerem a "racas inferiores" e devidamente desumanizados, a presenca africana naquelas regioes tornava-se efemera com a chegada de populacoes brancas. O que antes era visto como um movimento migratorio dentre tantos outros, adquiria ares de singularidade e, tanto nas obras de McCall Theal quanto em outros textos de historiadores afrikaners, transformava-se na "Grande Jornada".

Se Shaka torna-se uma individualidade representativa do expansionismo zulu, do lado boer da questao, McCall Theal faz questao de selecionar herois e martires, com destaque para uma das principais liderancas voortrekkers, Piet Retief, assassinado com sua delegacao de boeres por Dingaan em 1838. A carta-declaracao de Retief, na qual expoe as principais insatisfacoes e reivindicacoes dos emigrantes, e resgatada por McCall Theal como um dos documentos que testemunha a origem da identidade afrikaner e da propria Africa do Sul enquanto tal. Alem de remeter suas origens etnico-raciais a leva de imigrantes huguenotes que deixaram a Franca no final do seculo XVII em busca de liberdade religiosa, o historiador descreve Piet Retief como um "homem de grande valor" que desafiou a autoridade dos governadores do Cabo, e, ao aproximar-se dos colonos boeres da regiao, conquistou "sua confianca e estima". O lider vootrekker, que previamente ocupava um cargo militar, ainda recebe destaque no momento em que, ao desafiar o sistema de tratamento nativo estabelecido por Andries Stockenstrom em dezembro de 1836, o qual reconhecia a autoridade e soberania dos chefes das tribos xhosa alocados para alem de Fish River e estendia a eles a responsabilidade da manutencao da ordem entre seus suditos. Segundo McCall Theal, Piet Retief, por sua oposicao, foi "oficialmente retirado da lista de comandantes de campo" (THEAL 1888, p. 81); com uma dose moderada de imaginacao historica, pode-se especular que talvez o canadense encontrasse nele alguem que, tal qual o proprio historiador, havia sido deliberadamente excluido de encargos oficiais por suas afiliacoes politicas.

Nesse sentido, um ultimo elemento ressalta das narrativas de McCall Theal acerca das migracoes dos boeres na decada de 1830: seu antagonismo quanto a administracao colonial e as supostas medidas discriminatorias tomadas pelo Cabo. Segundo Norman Etherington, ate entao, a responsabilidade pelas migracoes nao era atribuida a administracao do governador D'Urban, o qual possuia relativa admiracao pelos boeres, e um jornal anglofono contemporaneo aos fatos expressava suas esperancas de que "esta migracao pode ser a maior bencao ja vivenciada nesta parte da Africa do Sul" (ETHERINGTON 2011, p. 340). Ate mesmo em outros tratados historico-geograficos, ao exemplo do supramencionado History de Alexander Wilmot e John Chase, os voortrekkers sao descritos em termos amenos, como "fazendeiros prosperos e inteligentes" (WILMOT; CHASE 1869, p. 343), e as insatisfacoes dos boeres sao atribuidas a questoes ligadas aos ataques de africanos as suas propriedades. Em History of the emigrant Boers, Theal responsabiliza diretamente o "Governo Imperial" por sua incapacidade em proteger os habitantes do Cabo contra ataques, pela sua parcialidade ao "favorecer os selvagens" e pela "forma injusta" com a qual a escravidao foi abolida (THEAL 1888, p. 62). Dessa forma, o historiador canadense reforcava a hipotese da opressao britanica, identificada como resultante de seu imperialismo, e simultaneamente demonstrando uma visao empatica com os boeres.

A escrita da historia de George McCall Theal deixou reverberacoes inegaveis nas leituras do passado sul-africano delineados pelos projetos politicos anglo-boeres no final do seculo XIX. No que diz respeito aos deslocamentos etnicos de africanos nas primeiras decadas, o historiador canadense erradicado na Africa do Sul propos uma narrativa geograficamente coesa, que culpabilizava os zulus, uma forca politica inegavel no final da decada de 1870 e ameaca aos projetos expansionistas, como responsaveis pelo genocidio e dispersao etnica que teria ocasionado um esvaziamento territorial, posteriormente ocupado pelos boeres. Por esse motivo, a intencionalidade de McCall Theal visava legitimar a dispersao dos colonos boeres na decada de 1830 como uma saga em busca pela liberdade, para longe da presenca britanica, cujo imperialismo, em especial se associado a intervencao militar no processo de anexacao territorial, era caracterizado pelo historiador como violento e conflituoso. Em um momento no qual a ideia de uma Africa do Sul unificava estava sendo gestada, o projeto de escrita do passado de McCall Theal partia de pressupostos racialistas, ao enfatizar a legitimidade politica de uma comunidade colonial de ascendencia europeia e, afastando-se de seu contato inicial com o missionarismo e o humanitarianismo, visava negar o acesso a terras e a direitos politicos aos africanos negros.

REFERENCIAS

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Evander Ruthieri da Silva

http://orcid.org/0000-0002-5988-3739 [iD]

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Evander Ruthieri da Silva [iD]

evander.ruthieri@gmail.com

Doutorando no Programa de Pos-Graduacao em Historia da

Universidade Federal do Parana

Curitiba

Parana

Brasil

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior -- Brasil (CAPES).

RECEBIDO EM: 16/ABR./2019 | APROVADO EM: 11/SET./2019

(1)-O neologismo mfecane foi introduzido pelo historiador Eric Walker em 1928, a respeito dos debates em torno do conceito de mfecane na historiografia sul--africana e dos usos politicos do passado, ver: GUMP 1998; COBBING 1988; ETHERINGTON 2011.

DOI 10.15848/hh.v12i31.1477
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Title Annotation:ARTIGOS: ARTICLES
Author:da Silva, Evander Ruthieri
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:11521
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