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Entre Inri Cristo, crack e o amor.

TREVISAN, Dalton. O anao e a ninfeta. Rio de Janeiro: Record, 2011. 159 p. ISBN 978-85-010-9479-7 850109479X

Inri Cristo lidera uma pequena procissao pela Rua XV. Calcando sandalias e vestindo apenas um camisolao branco, o homem que afirma ser a reencarnacao do Filho de Deus e alto, extremamente magro e cultiva uma farta barba loira. Ao seu lado, duas mocas de camisola caqui desbotada trazem uma faixa anunciando o fim do mundo. Sao 17h e os transeuntes nao se contem: debocham da cena aos berros e insultos. "Olha ai o grande pilantra! Cai fora, malaco! Lugar de louco e no hospicio!" (TREVISAN, 2011, p. 98). Ate as criancas que acompanham a via crucis aproveitam para sacanear Inri Cristo: 'Bi-cha! Bi-cha lou-ca!' (TREVISAN, 2011, p. 98). Em meio as ofensas, quem diria, Dalton Trevisan surge complacente. "Por que a intolerancia, a colera que espuma? E nao aceita-lo pobre excentrico, um mais entre tantos? A ninguem agride, quem sabe diverte" (TREVISAN, 2011, p. 98), defende o Vampiro de Curitiba em 'O reencarnado', uma das boas historias de O anao e a ninfeta, contemplado com o premio Portugal Telecom de melhor livro de contos de 2012.

Em sua nova obra, Dalton Trevisan explora as novelas nada exemplares do submundo curitibano, protagonizadas por loucos, alcoolatras, usuarios de crack e cocaina, prostitutas e mulheres brutalmente espancadas. Nao e uma obra tao violenta quanto Macho nao ganha flor (2006) e O maniaco do olho verde (2008)--, mas os episodios do horror urbano estao la, narrados sempre por uma voz nao confiavel, carregados de girias contemporaneas, lacunas de silencios e um humor grotesco.

E assim que o Vampiro de Curitiba retoma um de seus contos mais conhecidos, 'Uma Vela para Dario', publicado originalmente em 1964 no livro Cemiterio de elefantes. No conto classico, Dario leva 2h para morrer, de uma morte natural cuja causa nao e explicitada pelo narrador--provavelmente um ataque cardiaco, conforme a avaliacao de um dos personagens que acompanham o drama do protagonista. Enquanto agoniza, seus pertences sao surrupiados, pouco a pouco, por pedestres anonimos: apenas uma vela, no final da historia, e depositada por "[...] um menino de cor e descalco" (TREVISAN, 1964, p. 40) ao lado do corpo de Dario.

A versao, agora, com 'Uma rosa para Joao', surge com algumas diferencas. Em vez da morte natural, o personagem e assassinado. A trama, originalmente ambientada em uma cidade, foi transposta para uma favela, e a ajuda nao vem, segundo o narrador, porque os moradores estao temerosos com relacao aos gritos de socorro do protagonista, quebrando o silencio da madrugada. 'Com medo ninguem acudiu', justifica o narrador. Os pertences de Joao--"[...] o velho par de chinelos, o bone com a inscricao Jesus, um cachimbo partido, a garrafa de pinga vazia"--(TREVISAN, 2011, p. 85-86) nao foram afanados pelos populares, como aconteceu com Dario, e permanecem com o personagem, juntamente com uma flor espetada na boca: capricho funebre deixado pelo assassino. Dario ganhou uma vela; Joao, uma rosa. No conto, Joao e um andarilho, ex-morador de rua, viciado em 'droga e cachaca'. A mulher foi trocada 'por trinta pedras' e a filha vendida 'por um tantinho de po'. Com 'Uma rosa para Joao', Dalton Trevisan atualiza o antologico conto da decada de 60, apontando mudancas no submundo curitibano, como as novas drogas (cocaina, crack) e os novos espacos urbanos (favela): o Vampiro nao parou no tempo.

Quando se dedica as tramas violentas, o contista investe em uma escrita seca, permeada de desespero e ironia: bem diferente de quando se debruca sobre o amor, soltando, para valer, a danada mao de poeta contido, pincelando metaforas e silencios, compondo ilhas de um lirismo vigoroso, afoito e fatalmente comico, como no excerto de 'O caracol':

Comigo nao tem essa de ai, Jesusinho, nao pode, ai, nao, assim doi. Eu quero tudo o que o meu Grao-Mestre ensinou--o remoinho de bracos e pernas, o mordisco e o tabefe nas dunas calipigias, a garoa miuda de palavras porcas e liricas, a lingua titilante na orelha que orvalha a calcinha o miado o grito o uivo! a louca vertigem! a revoada nupcial nas asas dum dragao de fogp sobre os telhados da Rua Ugolino. (TREVISAN, 2011, p. 132).

No conto 'O velho poeta', o recluso Dalton Trevisan, de 87 anos, da voz ao escritor parnasiano Alberto de Oliveira, uma especie de seu 'alter ego', tambem idoso, com aproximadamente a mesma quantidade de livros publicados--'cerca de quarenta'--e que vive em Curitiba isolado das pessoas. Ao analisar a capital paranaense, definida como 'provincia ingrata' e 'aldeia estrangeira', Alberto de Oliveira nota a ausencia dos 'famosos chatos', 'os tais chatos das sete pragas do Farao' que antes perambulavam pela cidade, fazendo referencia ao conto 'Senhor', publicado por Dalton Trevisan em 1968 no livro Misterios de Curitiba. Bem conhecido, escrito em forma de oracao, o texto traz o apelo do narrador para que Deus o afaste de todos os chatos.

Revisitando rapidamente o conto da decada de 60, o 'alter ego' de Dalton Trevisan lanca um olhar surpreendentemente ironico aquelas suplicas contra os sujeitos inconvenientes:

Epa! que fim, que triste fim deram aos famosos chatos da cidade? Nas ruas ja nao esbarro em nenhum conhecido, sequer os tais chatos das sete pragas do Farao. Programado para deles fugir, nao e que de repente sinto a sua falta? (TREVISAN, 2011, p. 47),

relembra o narrador. 'A cidade e outra', decreta, observando as discrepancias entre as duas Curitibas, a contemporanea e a do passado.

Em 159 paginas, Dalton Trevisan vira ate conselheiro sentimental, disparando dicas e questoes preciosas aos jovens apaixonados:

O jogo amoroso e uma guerra suja de poder. Pode mais quem gosta menos; [...] odio e componente fatal do amor; [...] prender o ente amado e certeza de perde-lo. E, se nao o prendemos, como hei de guarda-lo? (TREVISAN, 2011, p. 157-158).

Com folego de jovem escritor, publicando praticamente uma obra inedita por ano, Dalton Trevisan continua com a mao firme. Revisita seus contos antologicos, atualizando a Curitiba mitificada em suas obras, e pode escrever sobre qualquer assunto, mantendo sempre um final arrebatador, enlacando o leitor ate a alma. Das violentas e tragicas peripecias do cotidiano, passando pelos sabios conselhos amorosos, a inusitada via crucis de Inri Cristo as 17h pela Rua XV: a marca do gigante, concisa e silenciosa, em cada linha do Vampiro de Curitiba.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v36i1.22259

Referencias

TREVISAN, D. Cemiterio de elefantes. Rio de Janeiro: Record, 1964.

TREVISAN, D. O anao e a ninfeta. Rio de Janeiro: Record, 2011.

Received on October 25, 2013.

Accepted on January 14, 2014.

Alexandre Gaioto

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Author:Gaioto, Alexandre
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2014
Words:1106
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