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Elogio aos periodicos cientificos nas humanidades.

Felizmente ja nos acostumamos com a regularidade que a cada quadrimestre um novo numero da Historia da Historiografia e oferecido ao publico. Ha mais de uma decada, teses, dissertacoes, artigos e a producao cientifica em geral repercutem o que tem sido publicado nestas paginas. Em bibliografias de cursos de graduacao e pos-graduacao tambem encontramos artigos que se tornaram referencia essencial no debate de diferentes temas dentro e fora das areas de especializacao do periodico. Embora o grande livro monografico e autoral continue a ser o ponto culminante da pesquisa em nossas fronteiras, o dia a dia de uma producao cientifica cada vez mais plural, democratica e diversa acontece nos espacos mantidos pelos periodicos cientificos.

Ainda temos dificuldades em lidar com essa nova realidade da producao cientifica nas humanidades da era digital. Muitos colegas preferem ignorar essa producao cientifica diversa e dispersa - no sentido de nao acontecer mais em torno apenas de grandes centros, autores ou editoras consagradas - e seguem repetindo velhas formulas na recusa em responder critico-criativamente ao novo cenario. Essa resistencia explica, apenas em parte, o fato de termos indicadores de citacao proporcionalmente muito abaixo do numero de acesso e de leitores de nossos periodicos.

No tempo do livro impresso bastava um passeio pelas estantes para reencontrar seus interlocutores e fontes. A existencia de uma biblioteca vasta, vaidosa e privada era condicao quase incontornavel da vida letrada. Na era do texto digital e da publicacao em fluxo, sem o uso de programas e aplicativos, a exemplo do Mendeley, Zotero, Citavi, dentre outros, para organizar a crescente bibliografia e padronizar referencias, corremos o risco de produzir um conhecimento empobrecido e provinciano. Para avancarmos em uma cultura da citacao e do dialogo que de sentido a crescente e cada vez mais democratica producao bibliografica, precisamos incorporar de modo critico e cotidiano as novas ferramentas digitais. Por enquanto, precisamos admitir que citamos pouco e de modo assistematico, levando a perpetuacao de nossa situacao subalterna, priorizando ainda a traducao e referencia a nomes consolidados em sistemas academicos europeus e norte-americanos. Claro que esse cenario pode ser muito diferente nas diversas especialidades que formam hoje uma disciplina nada homogenea.

No ultimo forum de coordenadores de pos-graduacao da Anpuh-Brasil, realizado em novembro em Manaus, foi discutido documento produzido pelo Forum de Editores acerca do uso de ferramentas bibliometricas como fator complementar na metodologia do Qualis periodico. O conjunto das disciplinas da area de humanidades foi acionado pela Capes para apontar quais ferramentas bibliometricas estariam mais adequadas as suas especificidades. No caso dos periodicos de historia, o forum de editores indicou o uso do indice H produzido a partir da base do Google Academico, nao no curto intervalo de 5 anos que o servico oferece, mas de dez anos, produzido com a ajuda de um programa chamado Publish or Perish. A recomendacao do uso desse indicador assinala mudanca importante de postura da area, que ate entao se recusava - nao sem boas razoes - a adotar metodologias dessa natureza.

O uso de metricas pode contribuir para ampliar o debate em nossa disciplina sobre as formas de avaliar o impacto e a relevancia do que e publicado, temperando talvez o vies pela quantidade de produtos que tem sido historicamente induzido pela recepcao da avaliacao Capes, com um olhar mais atento para a qualidade e o impacto dessa producao. Longe de concluir, essa decisao deve iniciar um amplo debate, com base em estudos mais detalhados sobre as melhores formas de medir a qualidade do que publicamos.

Quando consideramos tais metricas, a Historia da Historiografia encontra-se no mesmo patamar das principais revistas nacionais na area de historia, o que nao deixa de ser extraordinario, considerando seu carater especializado. Nossa revista tem contado com o apoio entusiasmado de uma comunidade pequena, mas muito atuante e organizada, temos conseguido debater juntos a importancia da manutencao deste espaco, o que se prova no apoio financeiro espontaneo que essa comunidade tem nos prestado atraves de nossos financiamentos coletivos. Infelizmente o cenario brasileiro parece indicar que precisaremos cada vez mais desse esforco.

Um sistema de periodicos independente, academicamente relevante e socialmente enraizado deve estar no centro de nossas preocupacoes - e alvo das autoridades que temem pela legitimidade de seu poder. Em um tempo de noticias falsas, de ciencia falsa, de revisionismos lastreados em falsificacoes e negacionismos, defender os espacos de debates razoaveis e defender a democracia. Com excecao talvez das teses e dissertacoes, nem um outro veiculo de publicacao e tao rigorosamente cuidado e verificado quanto um artigo de periodico. Na HH, ate que possa vir a publico, qualquer artigo passa por quase duas dezenas de acoes cujo unico objetivo e verificar e aprimorar a qualidade e integridade do que sera publicado. Essa jornada comeca por uma primeira triagem na qual se verificam aspectos formais e indicios de eventual plagio; analise preliminar pelos editores executivos; distribuicao a pelo menos dois pareceristas em sistema de duplo cego; nova analise dos editores e envio de consideracoes aos autores; retorno do texto modificado que sera novamente conferido por pareceristas e editores; revisao e normalizacao de notas e referencias; atribuicao de identidade digital unica (DOI); editoracao; nova conferencia; ajustes; leitura final dos autores e, finalmente, o imprimatur.

E preciso cuidar ainda para que a revista esteja indexada em diversas plataformas que ajudam na divulgacao de seu conteudo e na producao de metricas. Quando sao repositorios, essas plataformas garantem a integridade e permanencia desse conteudo; afinal, nao podemos admitir que esse patrimonio desapareca com a volatilidade do suporte digital. A presenca em diversos repositorios e a maior garantia que podemos ter dessa permanencia e integridade, mas e uma acao que exige esforco continuo dos editores e de toda equipe. Nao e nossa intencao cansar o leitor com todos esses detalhes, mas em um momento em que a existencia dessas revistas e colocada em risco, precisamos ampliar nossa consciencia de seu valor insubstituivel.

Mas o trabalho editorial nao se encerra com a publicacao dos artigos a cada numero. E preciso fazer esse artigo chegar aos leitores, despertar sua curiosidade e apontar a relevancia de cada texto. A exemplo de outros importante periodicos de nossa area, a HH desenvolve acoes de divulgacao cientifica e historia publica, em especial atraves do portal HHMaaazine - humanidades em rede. Neste semestre inauguramos o podcast O que a HH faz?, no qual os autores sao convidados a apresentar para um publico nao especializado as ideias centrais de seus artigos. Entendemos que a funcao de um periodico cientifico na area de historia nao se esgota na comunicacao cientifica, que deve servir de plataforma de mediacao entre essa producao e a sociedade, e que, ao lado da relevancia cientifica, a historiografia precisa sempre cuidar de sua relevancia social e cultural.

A defesa dos periodicos passa tambem por uma reflexao mais ampla sobre o lugar que as coletaneas de artigos deveriam ter em nossa matriz de publicacoes cientificas. Em sua maior parte, os processos curatoriais das coletaneas sao mais fluidos, ha maior risco de endogenia, menor certeza quanto a revisao por pares, ausencia de servicos regulares de indexacao dos artigos e, consequentemente, menor potencial de impacto e citacao das contribuicoes individuais. Por outro lado, produzir uma coletanea e mais barato e rapido do que editar periodicos. Autores ja consagrados acabam priorizando a publicacao em coletaneas por essas facilidades, mas com isso retiram do sistema de periodicos artigos de maior amadurecimento, os quais poderiam ser ainda mais aprimorados pela cadeia editorial dos bons periodicos. Ao mesmo tempo, poderiamos ter boas coletaneas que funcionassem como manuais ou introducoes a literatura especializada, seja reeditando artigos seminais, seja produzindo material coligido para o ensino superior e basico ou mesmo em acoes de historia publica. As coletaneas poderiam ainda servir aos autores como veiculos para reunir sua producao de artigos em periodicos, dando ao conjunto uma unidade dificil de recuperar em seus contextos originais de publicacao.

No Edital 2019 do CNPq destinado ao apoio de periodicos nacionais, nem uma das 16 revistas da area de historia foi contemplada. Alem de nossa HH, diversas outras revistas consolidadas e tradicionais nao obtiveram financiamento, mesmo que aprovadas pelo merito de suas solicitacoes. O quadro se explica, em parte, pelo corte brutal no orcamento, reduzido de 4 para 1 milhao entre 2018 e 2019, tendo a Capes se retirado dessa acao. Mesmo assim, a area de historia foi estranhamente destacada, gerando razoaveis acusacoes de discriminacao.

Se alguem tinha duvida sobre nossa relevancia social, esta ai um bom indicador, a historiografia e os historiadores continuam a parecer perigosos aos donos do poder.

Continuemos assim!

Valdei Araujo

Mariana, 2 de dezembro 2019

DOI:10.15848/hh.v12i30.1572
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Title Annotation:EDITORIAL
Author:Araujo, Valdei
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:1629
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