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Eliana Herreros: between the occupation and the performance/Eliana Herreros: entre a ocupacao e a performance.

Introducao

Entre a ocupacao e a performance e a premissa que motivou a analise da acao de Eliana Herreros na cidade de Curitiba, em Junho de 2003. O objetivo deste texto e discutir as ramificacoes e implicacoes desta performance.

A proposicao de Herreros foi citada no levantamento das acoes performaticas que se realizaram na capital paranaense realizada pelo curador Paulo Reis em 2008. Na referida pesquisa nao houve aprofundamento de analise dos trabalhos levantados, intencionou somente uma legibilidade historica da performance nessa localidade e discussoes de linguagem. A escassez de material especialmente escrito a respeito da acao performatica de Herreros, levou ao entendimento de que mereceria um olhar mais detido, para desvelar as nuancas que a envolve.

Esta analise utilizou os conceitos conferidos a performance, pelos autores Reis e RoseLee Goldberg, em levantamentos historicos sobre tal linguagem. E algumas consideracoes de Anne Cauquelin sobre o sistema das artes.

1. Contexto historiografico da performance em Curitiba

O levantamento de Reis sobre a trajetoria da performance na capital paranaense teve o intuito de oferecer uma visao historica sobre o assunto na exposicao O Corpo na Cidade--Performance em Curitiba, de 2009. A averiguacao contemplou desde os pioneiros nessa modalidade artistica ate os anos 2000.

Segundo o curador, as Acoes performaticas aparecem no circuito das artes visuais curitibanas desde o inicio da decada de 1970. Neste periodo, o meio academico das artes propiciou encontros, para discussoes sobre Arte Moderna, entre os artistas locais que resultaram em Happenings, performances, intervencoes urbanas e acoes coletivas. Durante a abertura politica da decada de 1980 as performances tiveram um cunho coletivo mais comprometido, alem de estudos sobre o movimento do corpo e vertentes pop anarquicas. A partir da decada de 1990, Reis encontrou vertentes diversificadas como performances apresentadas para um grupo de espectadores e outras para midias como video, fotografia e redes digitais. Alem de proposicoes coletivas para o espaco urbano ou institucional e ainda outras orientadas a espacialidade, a imagem, a outras linguagens como a danca ou o teatro (Reis, 2008).

2. Acao Coletiva de Transporte

2.1 Descricao da acao

Um objeto de 2 m de altura por 15 m de comprimento, costurado por Herreros com embalagens de papel aluminizado para alimentos liquidos, ditas "longa vida", tendo de um lado um mosaico de rotulos das caixas de leite utilizadas, e de outro o lado interno prateado que espelha difusamente (Figura 1 e Figura 2). Foi carregado por varios artistas em Curitiba, num trajeto que saiu da Galeria TUC, passou pela praca Tiradentes, rua XV de Novembro, praca Zacarias e terminou em frente ao MAC (Museu de Arte Contemporanea). O registro da acao foi feito por participantes presentes. (fotos por Marilia H. Sorotiuk, filha da artista, e pelas artistas Dulce Osinski, diapositivos e Lucia Misael que fotografou e filmou).

Os artistas que participaram da performance, em sua maioria das artes visuais, foram: Bernadete Amorin, Carla Vendrami, Claudio Mello, Daniela Bis, Dulce Osinski, Eliana Herreros, Izzi (estilista), Lahir Ramos, Lucia Misael, Lucia Sandrini, M. Ines Hamann, Maines Olivetti, Massanori Fukushima, Mirna Pereira Oliveira, Noemi Osna (jornalista), Sandra Natter e Tony Camargo.

2.2 Adequacao museal

A adequacao museal desse trabalho teve diferentes solucoes. Em 2009, participou da exposicao O Corpo na Cidade, quando foi exposto como video editado. Em agosto de 2013, participou da Mostra de Arte, nas comemoracoes de 10 anos do IMAGINE, onde apenas o objeto foi exposto ao ar livre, (Figura 3).

2.3 Trajetoria e contexto da artista

Eliana Herreros nasceu em Lota, no Chile e graduou-se em Pedagogia em Artes Plasticas na Universidad de Chile em 1973. Apos o golpe politico que estabeleceu uma ditadura militar naquele pais militar em 1973, sua familia passou um periodo na Europa. Herreros morou na Franca, onde se aprimorou em arte de rua e na Suica, onde trabalhou com arte terapia. Desde 1993, reside e trabalha em Curitiba.

Ao chegar a capital paranaense, a encontrou com o titulo de "Capital Ecologica", cultivado com as campanhas de reciclagem lancadas em 1989: coleta domiciliar de lixo, coleta especial, lixo que nao e lixo, cambio verde, programa compra de lixo e varricao e limpeza (ICI, s/d). O assunto do descarte do lixo que hoje encontra-se absorvido, na epoca estava em plena efervescencia. A artista veio de uma familia imersa numa cultura de reaproveitamento e fixou-se numa cidade determinada a entrar na era da sustentabilidade.

O trabalho de Herreros e impregnado por essa consciencia ecologica. A acao realizada em junho de 2003 surgiu como um desdobramento de trabalhos desenvolvidos anteriormente. Os primeiros objetos, construidos com materiais descartados costurados uns aos outros, eram pautados na linguagem da pintura: bidimensionais, focados nos estudos de luz, com dimensoes medias e expostos nas paredes. Quando a artista iniciou a confeccao do grande objeto utilizado em sua performance, ela o imaginou em dialogo com a cidade, descendo por um telhado. Foi sua participacao em grupos de discussao de arte, como o grupo liderado por Eliane Prolik e o grupo de arte politica orientado por Carla Vendrami que forneceram subsidios para que seu trabalho saisse em grupo pelas ruas da cidade.

2.4 Classificacao da acao por Reis

Como se classificaria essa acao que conjuga uma ocupacao efemera num espaco publico urbano, necessita da interacao de varios participantes e utiliza o movimento do corpo como uma performance? Encontra-se entre definicoes, e por esse motivo nao se enquadra exatamente numa tipologia ja estabelecida de linguagem. Paulo Reis citou esta acao entre proposicoes coletivas em acoes performaticas nos anos 2000 e menciona a acao de Herreros como "acao coletiva de transporte" (Reis, 2010: 108).

3. Performance e Ocupacao

3.1 Definicao

O conceito de performance utilizado por Reis acomoda uma justaposicao ou encontro de partes, situacoes ou realidades, como num embate entre o corpo do artista e o do publico, entre diferentes corpos sociais ou entre o corpo e distintos espacos. A performance nas artes visuais situa-se num territorio hibrido de praticas (Reis, 2008). A acao de Herreros encaixa-se perfeitamente a essa logica: encontra-se entre a construcao de objeto e o deslocamento de corpos pelo espaco urbano.

Verifica-se se nas investigacoes sobre performance de RoseLee Goldberg, acoes que exploram o corpo como um elemento do espaco. Segundo a pesquisadora, a performance ganhou forca na batalha contra os convencionalismos da arte estabelecida e tornou-se um meio de demolir categorias e apontar para novas direcoes:

A performance tem sido um meio de dirigir-se diretamente a um grande publico, bem como de chocar as plateias, levando-as a reavaliar suas concepcoes de arte e sua relacao com a cultura. (Goldberg, 2000: prefacio VII-VII)

As definicoes de Reis e de Goldberg consideram a performance uma linguagem que extrapola categorias e se encontra entre linguagens. Isso nos leva a considerar a ocupacao urbana existente na acao de Herreros como uma parte importante de sua performance:

Praticar o lugar--real e imaginario, individual e coletivo, publico eprivado, material ou existencial--revela paisagens potenciais que instigam a experiencia urbana e legitimam a intervencao e ocupacao performativas como acao transformadora. (Amaral, 2011:54)

3.2 Caracteristicas

A autora analisa a acao de Herreros utilizando caracteristicas conferidas a performances citadas por Goldberg.

3.2.1 linguagem plastica

Quando Goldberg afirma que "muitos artistas desejavam contrapor-se a influencia da escultura minimalista preocupada com a essencia do objeto" (Goldberg 2000: 147), ela refere-se aos artistas que trabalhavam seus corpos como objetos e concentravam-se no criador e nao no objeto em si.

A acao de Herreros e centrada no objeto, num primeiro momento percebido como o peso maior da acao. Sua dimensao avantajada e o revestimento prateado ocultou os "carregadores" de um lado e de outro, o colorido dos rotulos capturou a atencao. Porem o grande esforco fisico exigido dos participantes para carregarem o pesado objeto pelo trajeto proposto, faz com que objeto e carregadores sejam partes indissociaveis da mesma obra/performance. O objeto so pode circular com a presenca de varias pessoas devido suas dimensoes.

3.2.2 Satira ao mundo da arte

"Satirizava a natureza excessivamente seria do mundo da arte." (Goldberg 2000: 146)

Duas caracteristicas nesse trabalho apontam fortemente para uma critica ao circuito artistico. A escolha por convidar artistas visuais para carregarem o objeto e o trajeto que termina em frente ao Museu de Arte Contemporanea (MAC). Herreros confidenciou que sentia-se incomodada com a dificuldade em inserir-se no circuito oficial da cidade e isso a levou a pensar noutras possibilidades de atuacao. Cabe considerar que essas escolhas soam como um desabafo e uma provocacao. A participacao de outros artistas na performance de Herreros, validam a acao como artistica, como uma redundancia que alimenta o Sistema das Artes (CAUQUELIN, 2005).

3.2.3 Inter-relacao entre arquitetura e arte

"Alguns artistas viam a performance como um meio de explorar a inter-relacao entre a arquitetura do museu e da galeria e a arte neles exposta." (Goldberg 2000: 144)

O objeto andante seguiu o trajeto pelas ruas centrais de Curitiba refletindo a arquitetura da cidade em sua superficie espelhada. O movimento inseriu o objeto e os artistas na dinamica urbana.

3.2.4 Protesto social e aumento da consciencia do publico

"Em fins da decada de 80 e inicio de 90, a performance era frequentemente usada como forma de protesto social" (Goldberg 2000: 204) "Artistas criavam performances que aumentavam o nivel da consciencia do publico." (Goldberg 2000: 166)

Com potencial transformador, a reinsercao do descartado na cena urbana, funcionou como um apelo a cidade. Segundo Herreros, a cidade sempre se impoe, cabe aos cidadaos a adequacao ao labirinto arquitetonico e as consequencias dessa aglomeracao (Herreros, 2013) A proposta da acao foi uma resposta a esta situacao, ao sair da submissao e colocar-se numa postura de conversa com a cidade, mostrando a ela o volume de material por ela descartado. Sua acao devolve o descarte, sob a forma de seu imenso objeto, as ruas. Escancarado em forma de procissao, assedia a populacao em sua rotina quotidiana e nao passa desapercebido. A presenca do artista em publico na qualidade de interlocutor instiga o questionamento sobre o limite entre arte e vida.

Ao operar um ativamento do espaco publico pelo investimento de um sujeito pos-muro de Berlim, essas propostas, mais do que "critica institucional", apostam numa positivacao possivel dos sempre problematicos espacos da cidade e instituicoes artisticas (museus, colecoes publicas, espacos expositivos). (REIS, s/d)

Conclusao

Sua acao reafirma o grito de alerta presente em seu discurso, ao lembrar que somos todos responsaveis e arcamos com as consequencias de nossas acoes.

A acao de Herreros encaixa-se nas definicoes de performance, tanto de Reis quanto de Goldberg. Seu estado entre linguagens, calcada na forca do deslocamento de corpos carregando o objeto como protesto, aponta para a linguagem da performance. Entretanto culmina numa aproximacao entre arte e vida nessa "passeata" repleta de metaforas.

A grande questao para Herreros foi a reinsercao do descartado, assunto hoje absorvido, mas que na epoca estava em plena efervescencia. O desejo da artista de falar a cidade se concretizou, ja que ela sentiu-se inserida no espaco social, urbano e artistico. Os transeuntes invariavelmente olhavam o movimento e, o incomodo de nao saber do que se tratava, os impelia a aproximarem-se para sanar sua curiosidade. A cidade acolheu seu grito e partiu para o dialogo. Dialogo este nao registrado palavra por palavra, mas cuja efemeridade nao elimina a transformacao por ele operada: tanto o publico quanto a artista e seus colaboradores vivenciaram a obra simultaneamente.

Referencias

Amaral, Lilian (2011) Coletivo Expandido: flanar, vagar, derivar, errar. Quando o encontro se transforma em corpo coletivo, corpo andante. [Consult. 2013-12-11] VIS--Revista do Programa de Pos-Graduacao em Arte--V. 10 no 1 janeiro/junho 2011, Brasilia. Disponivel em: <http:// webartes.dominiotemporario.com/ performancecorpopolitica/textes%20pdf/ revista_do_programa_de_pos-graduacao_ em_arte_da_unb_v10_n1_janeiro_ junho_2011_bras%C3%ADlia_issn-15185494.pdf>

Cauquelin, Anne (2005) Arte contemporanea: uma introducao. Sao Paulo: Martins Fontes.

Goldberg, RoseLee (2006) A arte da performance: do futurismo ao presente. Sao Paulo: Martins Fontes.

ICI, Instituto Curitiba de Informatica (s/d). Agencia Curitiba de Desenvolvimento S/A. Meio Ambiente. [Consult. 2013-12-11] Dados. Disponivel em <URL:http://www. agencia.curitiba.pr.gov.br/ publico/conteudo.aspx?codigo=37>

Misael, Lucia sobre obra de Eliana Herreros (2003) Performance sem titulo, 2003, ruas da cidade, Curitiba, Parana. Fotografia. Acervo da artista.

Reis, Paulo (2010) Corpo na cidade: performance em Curitiba. Curitiba: Ideorama.

Reis, Paulo (2010) Arranjos e circuitos. Forum Permanente, web, Revista Numero, numero Quatro. s/d. [Consult. 2013-0505] Artigo. Disponivel em <http://www. forumpermanente.org/rede/numero/revnumero4/pauloreispra4>

Reis, Paulo (2010) (2008). Trajetoria curitibana. Gazeta do Povo. Caderno G. Publicado em 06/09/2008. [Consult. 2013-12-02] Artigo. Disponivel em <http://www.gazetadopovo.com.br/ cadernog/conteudo.phtml?id=805301>

Sorotiuk, Eliana Herreros. (2013) Performance. Entrevista gravada concedida a Ely Felber na casa da entrevistada em Curitiba, Parana, Brasil.

Artigo completo submetido a 26 de Janeiro e aprovado a 31 de janeiro 2014.

ELISANGELA DRABZINSKI FELBER MACCARI, Brasil, artista visual. Bacharel em Pintura pela Escola de Musica e Belas Artes do Parana (EMBAP), Especialista em Historia da Arte do Seculo XX pela Escola de Musica e Belas Artes do Parana, cursando Licenciatura em Artes Visuais pela Faculdade de Artes do Parana (FAP). Presidente da Associacao Imagine Cultural.

AFILIACAO: Associacao Imagine Cultural, Rua Presidente Faria 4184, Colonia Faria, Colombo Parana, CEP 83411 050. Brasil. E-mail: ely.felber@gmail.com
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Felber Maccari, Elisangela Drabzinski
Publication:CROMA
Date:Jul 1, 2014
Words:2213
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