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Effects of verbal behavior shaping and of instructions about setting pieces behavior/Efeitos de modelagem do comportamento verbal e de instrucoes sobre o comportamento de encaixar pecas.

O repertorio comportamental dos individuos depende de suas experiencias de vida e das consequencias diretas de suas acoes no ambiente, bem como as descricoes verbais apresentadas pela comunidade tem um papel fundamental na constituicao das caracteristicas peculiares a cada ser humano.

As descricoes verbais apresentadas pela comunidade sao denominadas regras ou instrucoes, pois descrevem para um individuo como se comportar em determinada situacao e as possiveis consequencias de suas acoes. Por exemplo: uma crianca pode aprender a encaixar pecas de um jogo de lego em funcao dos brinquedos produzidos e das brincadeiras que oportunizam, ou pelas orientacoes fornecidas pela mae e/ou pela demonstracao da construcao de brinquedos e brincadeiras que a mae realiza. Assim, se a crianca aprende a encaixar as pecas do jogo em funcao das consequencias que suas acoes produzem, esse comportamento foi modelado pelas contingencias. Se ela aprende a montar brinquedos em funcao das orientacoes da mae, seu comportamento foi instalado por regras.

Skinner (1969/1980) afirmou que comportamentos modelados por contingencias sao comportamentos mantidos diretamente pelas relacoes entre a resposta e suas consequencias e comportamentos governados por regras sao comportamentos que ocorrem sob controle de estimulos discriminativos verbais.

Algumas investigacoes (Albuquerque, Paracampo & Albuquerque, 2004); Albuquerque & Silva, 2006; Catania, Lowe & Horne, 1990; Catania, Matthews & Shimoff, 1982; Cavalcante, 1999; Cavalcante, Barreiros, Rosin, Villas Boas & Salina, 2002; Neef & col.s, 2004; Northup, Kodak, Grow, Lee & Coyne, 2004; Paracampo, 1991; Shimoff, Matthews & Catania, 1986) tem sido desenvolvidas para estudar experimentalmente os efeitos de regras/instrucoes sobre o que as pessoas falam e fazem.

Catania e cols. (1982) estudaram as diferencas entre comportamento verbal modelado e instruido por meio de um experimento em que sujeitos adultos deveriam aprender a pressionar dois botoes de acordo com diferentes esquemas de reforcamento pela modelagem ou instrucao de seus comportamentos verbais. O procedimento consistiu de duas fases que se alternavam ao longo do estudo. Numa fase, os sujeitos foram expostos diretamente aos esquemas e na outra (periodo de palpites), eles deveriam completar, por escrito, sentencas acerca do seu desempenho em relacao aos botoes. Para a modelagem do comportamento verbal, o experimentador atribuia de 0 a 3 pontos conforme a resposta dada. Para alguns sujeitos, as respostas verbais modeladas ou instruidas eram discrepantes das contingencias programadas para o comportamento de pressionar. Os autores observaram que metade dos sujeitos, cujo comportamento verbal foi modelado, apresentou taxas diferenciais de respostas nos botoes, isso e, responderam de acordo com o esquema de reforcamento descrito verbalmente, mesmo quando as contingencias programadas para o comportamento de pressionar foram alteradas. Alguns sujeitos, cujo comportamento verbal foi instruido, apresentaram taxas de respostas consistentes com a instrucao, outros apresentaram taxas consistentes com o esquema em vigor e para outros nao foi observada relacao entre as taxas de pressao e o comportamento verbal. Os resultados sugerem que o comportamento verbal frequentemente produz efeitos sobre o comportamento nao-verbal subsequente, principalmente quando o comportamento verbal e modelado.

Ainda preocupados com a investigacao sobre os efeitos de comportamento verbal sobre comportamento nao-verbal, Catania e cols. (1990) estudaram os efeitos da modelagem do comportamento verbal sobre o comportamento de pressionar figuras em uma tela sensivel de acordo com diferentes esquemas de reforcamento de sete criancas com idades variando entre 4 e 5 anos. Diferentemente de Catania e cols. (1982), neste estudo o procedimento de modelagem do comportamento foi realizado por meio de um boneco que fazia perguntas as criancas sobre o funcionamento do jogo e apresentava as consequencias para as verbalizacoes das criancas que se aproximavam da resposta correta. A modelagem do comportamento verbal ocorreu para tres criancas. Destas, uma apresentou correspondencia entre comportamento verbal e nao-verbal ate o final do experimento e duas apresentaram correspondencia durante parte do experimento. Os autores apontaram dificuldades no procedimento de modelagem do comportamento verbal em funcao de variacoes ocorridas no procedimento e na inabilidade do experimentador em modelar o comportamento verbal das criancas. Apesar dessas dificuldades, quando a modelagem ocorreu, houve mudancas no comportamento nao-verbal.

Cavalcante (1999) tambem investigou o papel das instrucoes e das contingencias sobre o comportamento verbal e nao-verbal de criancas de 5 e 6 anos. Diferentemente dos estudos anteriormente descritos, a autora pesquisou o desempenho das criancas em uma tarefa que se aproxima daquelas que elas costumam desenvolver no cotidiano (jogo de encaixar pecas de varias cores, formas e tamanhos em furos de um tabuleiro) de acordo com criterios previamente programados para reforcamento tanto do comportamento verbal como do comportamento de encaixar pecas. Os resultados indicaram que apenas uma das nove criancas, sob a Condicao Com Instrucao, encaixou pecas de acordo com a instrucao ate o final do jogo. Das criancas sob a Condicao Sem Instrucao (23 participantes), apenas uma apresentou desempenho compativel com as contingencias programadas para o comportamento de encaixar. De acordo com a autora, esses resultados sao diferentes daqueles obtidos na literatura da Analise Experimental do Comportamento consultada porque os procedimentos tambem o foram, especialmente no sentido de que, por um lado, foram utilizadas tarefas similares as que os participantes realizam no cotidiano e, por outro, houve pequenas diferencas na conducao do procedimento. Os procedimentos convencionalmente utilizados fazem uso de tarefas com formatos distintos envolvendo diferentes topografias em relacao as atividades do cotidiano de criancas com idades entre 5 e 6 anos. Esses procedimentos consistem na instalacao de um padrao de desempenho de acordo com um esquema de reforcamento, na apresentacao de instrucoes ou modelagem de comportamento verbal que descreve desempenho apropriado ao esquema e exposicao do desempenho ao esquema de reforcamento descrito verbalmente. Apos a estabilidade do desempenho, sao promovidas alteracoes nas instrucoes e/ou contingencias para testar o efeito de instrucoes. Neste estudo, a pesquisadora nao utilizou qualquer criterio de estabilidade do desempenho e o procedimento nao possibilitou a modelagem do comportamento de encaixar pecas de acordo com os criterios selecionados para consequenciacao. Por isso, a autora sugeriu que se continuasse investigando os efeitos de instrucoes e contingencias em tarefas semelhantes, com novas variacoes no procedimento de coleta de dados. A autora sugeriu: a) a manutencao da tarefa de encaixar e a utilizacao de apenas duas propriedades de cada dimensao das pecas (pecas azuis e vermelhas, grandes e pequenas, quadradas e circulares) em vez de tres propriedades de cada dimensao para minimizar a complexidade da tarefa e possibilitar a modelagem do comportamento de encaixar pecas; b) o estabelecimento de 40 tentativas consecutivas consequenciadas ou nao como criterio de estabilidade do desempenho e c) o criterio de 1 hora para finalizar a sessao, caso o criterio de estabilidade do desempenho nao fosse atingido.

Considerando as sugestoes de alteracoes no procedimento sugeridas por Cavalcante (1999) e analisando a importancia de investigar os efeitos de instrucoes e contingencias em contexto que se aproximam do cotidiano, Cavalcante e cols. (2002) pesquisaram o comportamento de encaixar pecas de oito criancas. As quatro criancas da Condicao Sem Instrucao apresentaram desempenho sensivel as contingencias programadas, durante todo o jogo. Das quatro criancas da Condicao Com Instrucao, tres aderiram a instrucao durante todo o jogo e uma apenas em parte do jogo. Independentemente da programacao de consequencias, verificou-se que as criancas encaixavam as pecas em sequencias (sequencias de pecas quadradas, de pecas azuis, etc) como se estivessem "brincando" com as pecas ou mesmo experimentando outras atividades que a natureza do jogo possibilitava. Esses dados sugerem que as contingencias programadas nao exerceram controle sobre o comportamento das criancas durante o jogo, isso e, independentemente das consequencias programadas o comportamento de encaixar ocorria em funcao das possibilidades que o jogo oportunizava.

Considerando a importancia de continuar investigando o desempenho de criancas em tarefas proximas daquelas desenvolvidas no cotidiano e buscando ampliar a compreensao dos efeitos de instrucoes sobre o comportamento nao-verbal, este estudo investigou os efeitos da modelagem do comportamento verbal e das instrucoes sobre o comportamento verbal (de falar sobre o que deveria ser feito na tarefa de encaixe) e sobre o comportamento nao verbal (encaixar pecas em furos de um tabuleiro) de 10 criancas, entre 8 e 9 anos de idade, em um jogo de encaixe semelhante aos brinquedos utilizados no cotidiano.

Metodo

Participantes

Apos a aprovacao do projeto de pesquisa pelo Comite de Etica em Pesquisa da Faculdade de Ciencias da Universidade Estadual Paulista--UNESP/Bauru, e apos o recebimento de autorizacao dos dirigentes da escola em que a pesquisa foi executada (Escola Estadual de Ensino Fundamental de um Municipio do Estado de Sao Paulo), realizou-se o levantamento das criancas com as idades esperadas para a pesquisa (8 e 9 anos), por meio de listagens dos alunos fornecidas pela escola.

Participaram desse estudo 10 criancas. Quanto ao sexo, idade e escolaridade dessas criancas, cada grupo foi assim composto: Grupo 1--P01 (sexo feminino, 9 anos, 3a serie), P02 (sexo masculino, 8 anos, 2a serie), P03 (sexo feminino, 9 anos, 3a serie), P04 (sexo masculino, 9 anos, 3a serie), e P05 (sexo feminino, 8 anos, 2a serie); Grupo 2--P06 (sexo masculino, 9 anos, 3a serie), P07 (sexo feminino, 9 anos, 3a serie), P08 (sexo masculino, 9 anos, 3a serie), P09 (sexo feminino, 8 anos, 2a serie), P10 (sexo masculino, 8 anos, 2a serie).

Para participar da pesquisa as criancas deveriam demonstrar discriminacao das cores azul e vermelha, das formas do circulo e do quadrado e dos tamanhos grande e pequeno.

Materiais e Equipamentos

O material principal empregado consistiu em um jogo de encaixe contendo um tabuleiro de madeira medindo 1m x 1m com 100 furos para o encaixe de pecas de madeira coloridas. As pecas a serem encaixadas somavam um total de 280, divididas em dois subconjuntos de 140 pecas segundo a dimensao forma (com duas propriedades: 140 quadrados e 140 circulos); cada um desses subconjuntos era subdividido em dois outros subconjuntos de 70 pecas de acordo com a dimensao cor (com duas propriedades: 70 azuis e 70 vermelhas) que, por sua vez, eram subdivididas de acordo com a dimensao tamanho (com duas propriedades: 35 grandes e 35 pequenas). Bolas de gude foram utilizadas para consequenciar as respostas de encaixar pecas e as respostas verbais de descricao da tarefa. Duas vasilhas de plastico foram colocadas ao lado do tabuleiro para as criancas depositarem as bolas de gude durante o jogo. Havia tambem uma "lojinha" com varios brindes, tais como bolas, jogos, lapis, etc. Cada brinde continha, em local visivel, um "preco", ou seja, uma etiqueta que especificava o numero de bolinhas que a crianca deveria ganhar durante o jogo para compra-lo. O registro manual dos dados foi feito em um protocolo no qual foram anotados os dados de identificacao da crianca, numero da sessao, procedimento ao qual foi submetida, data da coleta, numero das fitas e hora do inicio e termino da sessao. Cada tentativa foi representada por um numero (1, 2, 3...) e cada propriedade das dimensoes (forma, tamanho e cor) por uma letra (Q para quadrado e C para circulo; G para grande e P para pequeno; A para azul e V para vermelho), como por exemplo: 1. QAG (quadrado, azul, grande).

Observacao e registro dos dados

As sessoes de coleta de dados foram desenvolvidas por duas pesquisadoras: uma executou o procedimento e a outra realizou o registro manual dos dados. Para garantir maior fidedignidade dos resultados, as sessoes tambem foram filmadas e gravadas em fitas cassete. Apos cada sessao de coleta de dados, a pesquisadora assistia as fitas e fazia as correcoes necessarias no registro manual.

Procedimento de Coleta de Dados

Foi objeto de observacao o comportamento de encaixar pecas nos furos do tabuleiro e o comportamento verbal de descricao da tarefa. Previamente a coleta de dados, foi encaminhado um documento aos pais das criancas descrevendo em linhas gerais a pesquisa e solicitando autorizacao para que estas pudessem participar. A pesquisa foi realizada na propria escola dos participantes e a coleta de dados foi realizada em uma unica sessao para nove criancas e em duas sessoes para um dos participantes. A pesquisadora buscava o participante em sua sala de aula e o acompanhava ate outra sala da mesma escola, na qual os materiais da pesquisa ja estavam organizados e onde a observadora os aguardava. Nesse trajeto a pesquisadora fazia perguntas sobre os jogos de que a crianca gostava e quais ela conhecia, bem como explicava que ela iria participar de um jogo. Esse procedimento foi adotado com o objetivo de estabelecer o "rapport" e familiarizar a crianca com a tarefa. Ao entrar na sala de coleta de dados, a pesquisadora apresentou a observadora para a crianca, mostrou a filmadora e o gravador e fez a apresentacao da "lojinha", conforme a descricao a seguir:
   Eu trouxe voce aqui para nos brincarmos de um jogo. No jogo
   nos temos esta "lojinha" com varios brinquedos. Estes brinquedos
   podem ser comprados com bolinhas de gude como estas
   aqui (a experimentadora mostrou tres bolinhas para a crianca).
   Por exemplo, esta bola vale 30 bolinhas de gude. Este quebra-cabeca
   vale 50 bolinhas de gude. Durante o jogo voce podera
   ganhar muitas bolinhas de gude e, no final, podera vir aqui na
   "lojinha" e comprar brinquedos com suas bolinhas de gude.
   Quanto mais bolinhas de gude voce ganhar, mais brinquedos
   voce podera comprar. Entendeu?


Em seguida, foi solicitado a crianca que explicasse como deveria proceder para comprar os brindes expostos na "lojinha". Quando o participante nao descreveu o procedimento de acesso aos brindes de maneira correta, a experimentadora repetiu a instrucao ate que a crianca fizesse a descricao correspondente com a instrucao apresentada. Em seguida, a experimentadora e a crianca se dirigiram a mesa na qual estavam colocados o tabuleiro, as pecas e as duas vasilhas de plastico. Ao iniciar a sessao, a pesquisadora pediu a crianca que encaixasse algumas pecas nos furos do tabuleiro para verificar se esta apresentava coordenacao motora suficiente para a realizacao da tarefa. Enquanto a crianca estava encaixando as pecas, a pesquisadora fez perguntas com o objetivo de verificar se apresentava discriminacao dos tamanhos, formas e cores das pecas. Em seguida, a pesquisadora convidou a crianca a retirar, junto com ela, as pecas encaixadas e apresentou, por meio do gravador, a seguinte instrucao:
   Nesta brincadeira voce vai ter que encaixar estas pecinhas nos
   furos deste tabuleiro. Quando voce acertar vai ganhar uma
   bolinha de gude. Voce tem que descobrir que pega voce deve
   encaixar para ganhar bolinhas.


Em seguida foi solicitado a crianca que explicasse o que deveria fazer no jogo. Quando a crianca nao descreveu a tarefa de maneira correta, a experimentadora apresentou a gravacao da instrucao novamente, ate que ela conseguisse descreve-la corretamente. Em seguida, o jogo foi iniciado de acordo com o procedimento programado para a Condicao 1 ou 2 e o gravador foi acionado para registrar os comportamentos verbais da experimentadora e da crianca. Vale lembrar que, como o tabuleiro possuia 100 furos, apos o encaixe de 100 pecas, era preciso que participante e pesquisadora as retirassem do tabuleiro para que fosse possivel dar continuidade ao jogo. Como nao foi possivel evitar a comunicacao entre as criancas durante a coleta de dados, foram programadas dimensoes e propriedades diferentes para a consequenciacao do comportamento verbal e do comportamento de encaixar para cada crianca.

Condicao 1: Comportamento Verbal Modelado

Fase 1--Modelagem do comportamento verbal

Apos a crianca descrever a tarefa corretamente, o jogo foi iniciado, realizando-se o procedimento de consequenciacao do comportamento de encaixar de acordo com o criterio selecionado. A dimensao selecionada para consequenciacao foi determinada previamente e aleatoriamente para cada crianca; no entanto, a propriedade da dimensao foi escolhida com base na primeira peca encaixada pelo participante. A propriedade da dimensao escolhida para consequenciacao na Fase 1 foi sempre a que nao estava presente na primeira peca encaixada pela crianca, para evitar o reforcamento acidental. Todas as vezes que a crianca encaixou pecas de acordo com o criterio programado (por exemplo: pequeno), a pesquisadora pegou uma bolinha de gude e colocou na mao da crianca. Nas primeiras tentativas solicitou que ela colocasse as bolinhas dentro da vasilha de plastico.

Para realizar a modelagem do comportamento verbal da crianca, a cada 10 tentativas a experimentadora interrompia a tarefa e solicitava a crianca que dissesse qual era a peca que ela estava encaixando e que a experimentadora estava lhe dando bolinhas de gude de forma que a crianca descrevesse qual a peca que ela estava encaixando e que possibilitava o acesso a bolinha de gude. Diferentemente do experimento de Catania e cols (1990), que utilizou um boneco para apresentar as perguntas aos participantes, neste estudo as perguntas foram feitas pela pesquisadora. A experimentadora apresentou consequencias positivas (disse "muito bem" e colocou uma bolinha de gude na mao da crianca) as respostas que se aproximavam, cada vez mais estreitamente, da resposta final desejada. Quando a crianca nao respondeu adequadamente, foi instruida a continuar a tarefa. Dessa forma, as respostas foram selecionadas para serem consequenciadas no decorrer do experimento, dependendo do desempenho de cada participante. Para a modelagem do comportamento verbal de alguns participantes houve a necessidade de continuar apresentando a questao inicial e uma questao adicional na mesma tentativa, por exemplo: "Se voce nao me apontasse uma por uma (peca) como voce fez, como voce poderia mefalar?", para so depois que a crianca estivesse respondendo corretamente, retirar a questao adicional e deixar somente a questao inicial. A necessidade de se acrescentar tais questoes surgiu para evitar que, em certos momentos do jogo, alguns participantes permanecessem verbalizando apenas as mesmas respostas incorretas ou apenas apontando em direcao a alguma(s) peca(s) sem apresentar qualquer verbalizacao. Dessa forma, a introducao das novas questoes teve como objetivo ocasionar a ocorrencia de variabilidade na resposta dos participantes, ou seja, aumentar a probabilidade de ocorrencia de verbalizacoes que pudessem ser consequenciadas diferencialmente. Caso apenas a questao inicial fosse apresentada pela experimentadora e as criancas permanecessem verbalizando apenas as mesmas respostas que ainda nao eram a resposta final desejada, poderia ocorrer um longo periodo de tempo reforcando uma mesma resposta do participante. Isso poderia acarretar saciedade ou grande fortalecimento de alguma resposta que, mais tarde, nao faria parte do comportamento a ser modelado. Ou mesmo, se aquelas respostas que se repetiam nao fossem consequenciadas e nao se aumentasse a probabilidade do participante emitir outras verbalizacoes (apresentando a nova questao), o participante tambem poderia permanecer muito tempo sem ganhar bolinhas de gude e parar de verbalizar.

O criterio para mudanca de fase foi de 55 respostas de encaixar consecutivas consequenciadas e a verbalizacao correta da tarefa em pelo menos cinco tentativas consecutivas. Nenhuma sinalizacao indicou para a crianca a mudanca de fase.

Fase 2--Verificagao do efeito da modelagem do comportamento verbal

Apos a crianca ter atingido o criterio selecionado para finalizar a Fase 1, foi iniciado o procedimento de consequenciacao do comportamento nao-verbal e do verbal semelhante ao utilizado na Fase 1, exceto que a propriedade da dimensao selecionada para consequenciacao foi diferente da selecionada para a Fase 1. O criterio para finalizacao da sessao foi de 55 respostas de encaixar consecutivas consequenciadas e a verbalizacao correta da tarefa em, pelo menos, cinco tentativas consecutivas durante a Fase 2 ou 30 minutos contados a partir da mudanca de fase, o que ocorresse primeiro.

Condicao 2: Comportamento Nao-Verbal Instruido

O procedimento utilizado com as criancas que passaram pela Condicao 2 foi semelhante ao utilizado com as criancas que passaram pela Condicao 1, tanto para a Fase 1 quanto para a Fase 2, com algumas diferencas. A primeira delas se refere ao fato de que, no inicio da Fase 1, apos a instrucao geral, foi apresentada uma instrucao especifica que descreveu a propriedade da dimensao da peca que a crianca deveria encaixar para ganhar bolinhas de gude (Exemplo: "para ganhar bolinhas de gude, voce deve encaixar pegas da cor azul"). A segunda diferenca ocorreu no procedimento de consequenciacao do comportamento verbal, pois nessa condicao a experimentadora apresentou consequencias (disse "muito bem" e colocou uma bolinha de gude na mao da crianca) para todas as suas verbalizacoes, independentemente de seu conteudo, diante da pergunta: "Qual a pega que voce esta encaixando e que eu estou lhe dando bolinhas?". A ultima diferenca refere-se ao criterio para a finalizacao da sessao: 55 respostas de encaixar pecas consecutivas consequenciadas durante a Fase 2 ou 30 minutos contados a partir do inicio da Fase 2, o que ocorresse primeiro. Por fim, nessa Condicao, o objetivo da Fase 2 foi verificar o efeito da instrucao apresentada no inicio da Fase 1.

Resultados

Para a analise do comportamento de encaixar pecas foram registradas as frequencias simples e acumuladas do comportamento de encaixar pecas para cada crianca agrupadas em blocos de 10 tentativas. Para cada participante e para a dimensao selecionada para consequenciacao foram elaborados graficos de curvas acumuladas. Esses dados possibilitaram verificar se o desempenho das criancas correspondeu as contingencias programadas para o comportamento verbal e para o comportamento de encaixar pecas e, tambem, se existiram diferencas no desempenho das criancas quando o comportamento verbal foi modelado e quando foi instruido. Para a analise do comportamento verbal, foram registradas todas as respostas dos participantes em cada tentativa que a experimentadora solicitou a descricao da tarefa.

Inicialmente apresentar-se-a os desempenhos referentes a Condicao 1 (CVM) (Figura.1) e, em seguida, os desempenhos referentes a Condicao 2 (CNVI) (Figura 2).

Desempenhos das criancas submetidas a Condicao 1 (CVM)

Antes de descrever os efeitos do comportamento verbal modelado sobre o comportamento de encaixar dos participantes, vale ressaltar que a modelagem do comportamento verbal so ocorreu para duas (P01 e P04) das cinco criancas que participaram dessa condicao (P01, P02, P03, P04 e P05). Para outras duas criancas (P02 e P03) nao foi possivel realizar a modelagem porque, ja na primeira vez em que a experimentadora perguntou qual peca produzia a bolinha de gude, essas criancas responderam de acordo com o criterio estabelecido para consequenciacao. Como neste estudo a primeira solicitacao era feita apos 10 encaixes de pecas, as criancas encaixaram pecas de ambas as propriedades da dimensao programada para consequenciacao e, em funcao do reforcamento diferencial, passaram a encaixar as tres e quatro ultimas pecas, respectivamente, de acordo com a propriedade programada para consequenciacao. Dessa forma, como a modelagem do comportamento de encaixar ocorreu antes da primeira solicitacao de verbalizacao, a primeira verbalizacao dos participantes pode ter sido determinada pela exposicao do desempenho motor as contingencias de modelagem (reforcamento diferencial) nas 10 tentativas iniciais. A nao ocorrencia da modelagem do comportamento verbal para essas criancas impossibilitou a analise do efeito de seus comportamentos verbais modelados sobre seus comportamentos de encaixar pecas, um dos objetivos desta pesquisa.

A crianca P05 apresentou variacao nas respostas verbais a cada solicitacao apresentada pela experimentadora, dificultando a identificacao de respostas que se aproximavam daquela programada para a consequenciacao. Esse desempenho ilustra a dificuldade de realizar a modelagem do comportamento verbal, ja apontada em estudos de Catania e cols. (1982) e Catania e cols. (1990).

No que se refere ao desempenho das criancas ao longo do experimento, tanto P01 quanto P04 iniciaram o jogo oscilando entre o encaixe de ambas as propriedades da dimensao selecionada para consequenciacao na Fase 1. Na 10a tentativa, quando a experimentadora solicitou que descrevessem a peca que, ao ser encaixada, produzia bolinhas de gude, eles apontaram em direcao ao tabuleiro. Gradativamente, a emissao dos comportamentos nao-verbal e verbal de acordo com o criterio programado para consequenciacao na Fase 1 (cor azul para P01 e tamanho pequeno para P04) foi aumentando de frequencia em funcao do reforcamento diferencial.

Entretanto, enquanto P04 encaixou exclusivamente pecas do tamanho pequeno ainda na primeira sessao, P01 encaixou varias pecas azuis (cerca de 12 pecas), uma peca vermelha e, em seguida, voltava a encaixar uma sequencia de pecas azuis e assim por diante. Dessa forma, esse participante parecia "brincar" com as pecas. Essa "brincadeira" permaneceu por varias tentativas, provavelmente devido ao efeito reforcador que a mesma parecia ter para o participante. Alem disso, essa "brincadeira" nao produzia a perda de muitas bolinhas. Na verdade, o participante deixava de ganhar uma bolinha de gude em um conjunto de 13 encaixes porque encaixava cerca de 12 pecas azuis para uma peca vermelha. Por isso, o comportamento de "brincar" com o encaixe das pecas poderia ser mantido nao so pelas possiveis consequencias reforcadoras que a "brincadeira" parecia produzir, mas tambem pelo fato de nao produzir muitas perdas de bolinhas de gude. Em funcao desse desempenho, P01 participou de duas sessoes, porque nao atingiu o criterio para mudanca de fase na primeira sessao.

Depois que os participantes passaram a encaixar somente pecas de acordo com o criterio programado para consequenciacao, o unico encaixe que nao estava de acordo com esse criterio foi uma peca colocada por P04 na 101a tentativa (uma peca do tamanho grande). Para entender melhor esse desempenho e preciso relembrar como funcionava a tarefa. Apos o encaixe de 100 pecas, todos os furos do tabuleiro ficavam preenchidos e, para continuar o jogo, era necessario retirar todas as pecas. Essa unica peca do tamanho grande foi encaixada na primeira tentativa apos o reinicio do encaixe de pecas. Como na maioria dos jogos, a probabilidade das instrucoes se alterarem e maior no inicio de uma nova partida do que durante um jogo, reiniciar esse encaixe pode ter funcionado para P04 como o inicio de uma nova partida e a crianca pode ter "arriscado" encaixar a primeira peca diferente daquelas que estava colocando ate entao. A peca que P04 encaixou (uma peca do tamanho grande) nao estava de acordo com o criterio programado para consequenciacao nessa fase, portanto ela nao recebeu bolinhas de gude. Com isso, o comportamento de encaixar pecas com essa propriedade cessou e P04 voltou a encaixar pecas iguais aquelas que vinha encaixando antes. Como voltou a ganhar bolinhas de gude, continuou encaixando pecas com essa propriedade de dimensao ate o final da Fase 1.

[FIGURE 1 OMITTED]

A sensibilidade as consequencias foi caracteristica comum do desempenho de P01 e P04 porque, apos o inicio da Fase 2, emitiram poucas respostas de acordo com a Fase 1 e passaram, logo em seguida, a se comportar de acordo com as contingencias programadas para a Fase 2 ate o final da sessao.

Possivelmente o fato de essas criancas terem aprendido a falar o criterio programado para a consequenciacao do comportamento de encaixar pode ter gerado maior sensibilidade do desempenho nao-verbal as consequencias.

Quanto ao comportamento verbal de P01, a primeira verbalizacao da Fase 2 foi a mesma da Fase 1, assim como o comportamento nao-verbal esteve tambem de acordo com o criterio programado para a Fase 1. Mas, a partir da segunda solicitacao, passou a verbalizar de acordo com o criterio programado para a Fase 2. P04 tambem iniciou o jogo na Fase 2 encaixando algumas pecas de acordo com a contingencia programada para a Fase 1, mas diferentemente de P01 a primeira verbalizacao foi de acordo com o criterio programado para a Fase 2.

Desempenhos das criancas submetidas a Condicao 2 (CNVI)

As criancas que passaram pela Condicao 2 (P06, P07, P08, P09 e P10) encaixaram pecas de acordo com o criterio descrito na instrucao do inicio do jogo ate o final da Fase 1. Durante toda essa fase, tres criancas (P06, P07 e P10) nao so encaixaram pecas mas tambem verbalizaram sobre a tarefa de acordo com a contingencia descrita na instrucao desde o inicio do jogo ate o final da Fase 1. Entretanto, duas criancas (P08 e P09), apesar de terem encaixado pecas de acordo com a contingencia descrita na instrucao, a verbalizacao sobre a tarefa foi diferente da instrucao. Esses resultados indicam que, no que se refere ao comportamento de encaixar pecas, todas as criancas que participaram da Condicao 2 (CNVI) demonstraram adesao imediata as instrucoes.

[FIGURE 2 OMITTED]

O fato da primeira solicitacao de descricao da tarefa ocorrer apos 10 encaixes de pecas dificultou a identificacao dos efeitos das instrucoes sobre o comportamento verbal. Ou seja, desde o inicio do jogo ate a ocorrencia da primeira verbalizacao, todas as criancas ja haviam encaixado 10 pecas conforme a instrucao e recebido bolinhas de gude como consequencia para cada um desses encaixes. Assim, nao se pode afirmar se a verbalizacao dessas tres criancas, correspondentes com a instrucao, ocorreu como efeito da exposicao do comportamento de encaixar as consequencias ou como efeito da instrucao.

No inicio da Fase 2, todas as criancas continuaram encaixando pecas de acordo com a Fase 1, apesar da mudanca no criterio para consequenciacao. Apos algumas tentativas, quatro criancas (P07, P08, P09 e P10) passaram a encaixar pecas de acordo com a contingencia programada para essa fase e somente uma crianca manteve o desempenho verbal e nao-verbal apresentado durante a Fase 1 ate o final do jogo.

Dessa forma, nota-se que quatro (P07, P08, P09 e P10) das cinco criancas que participaram dessa Condicao apresentaram comportamento motor sensivel as consequencias. Apenas uma crianca (P06), apos a mudanca de fase, continuou encaixando exclusivamente pecas de acordo com a Fase 1 ate o final da sessao, mesmo sem ganhar bolinhas de gude.

Quanto ao comportamento verbal os participantes P07, P08 e P09, no inicio da Fase 2, continuaram verbalizando da mesma forma que na Fase 1 e, somente apos algumas tentativas, alteram suas respostas verbais. E possivel que assim como o comportamento de encaixar pecas desses participantes se modificou em funcao das consequencias apresentadas para cada encaixe correto, o comportamento verbal se alterou em funcao das mudancas ocorridas no comportamento de encaixar pecas. A crianca P10 verbalizou de forma correta durante toda a Fase 2. Entretanto, como antes de ter sua verbalizacao solicitada pela primeira vez, esse participante ja tinha encaixado uma peca de acordo com a Fase 1 e as quatro seguintes de acordo com a Fase 2, a analise realizada logo acima para os participantes P07, P08 e P09, no que se refere a influencia do comportamento motor sobre o comportamento verbal, tambem parece ser valida para essa crianca.

Esses desempenhos parecem indicar que, apesar de nao haver reforco diferencial para o comportamento verbal nessa Condicao, as consequencias que controlaram o comportamento motor de quatro participantes (P07, P08, P09 e P10) produziram efeito sobre o comportamento verbal. Assim, observa-se que o comportamento verbal desses participantes, mesmo nao sendo reforcado diferencialmente, se alterou sempre que o comportamento motor (que era consequenciado diferencialmente) mudou.

Discussao

Catania e cols. (1982) e Catania e cols. (1990) descreveram dificuldades na modelagem do comportamento verbal dos sujeitos de pesquisa. Neste estudo tambem nao foi possivel modelar o comportamento verbal de algumas criancas. Embora na realizacao deste experimento tenha-se tomado o cuidado de atender a caracteristica do procedimento de modelagem descrita por Platt e Eckerman, Hienz, Stern e Kowlowitz (citados por Catania, 1999), sobre a frequencia de apresentacao de reforcadores, constatou-se a dificuldade do experimentador em, na situacao de coleta de dados realizada com P05, identificar as respostas verbais que gradativamente se aproximavam da resposta programada e diante das quais deveriam ser apresentadas as consequencias reforcadoras. A realizacao do procedimento de modelagem do comportamento verbal exige que o experimentador tome algumas decisoes rapidas no decorrer do experimento (o que nao implica improvisacao incompativel com planejamento experimental, mas habilidade treinada para selecionar a resposta a ser reforcada). Caso alguma delas seja realizada de maneira inadequada, toda a modelagem do comportamento verbal do participante envolvido no procedimento pode ficar comprometida.

A nao ocorrencia da modelagem do comportamento verbal nos casos de P02 e P03 parece ter sido determinada, principalmente, pelo procedimento de coleta de dados, que previa a descricao verbal da crianca apos a exposicao de seu comportamento de encaixar as consequencias por varias tentativas. Os resultados encontrados sao semelhantes aos obtidos por Catania, Shimoff e Matthews (1989), que analisaram a possibilidade dos participantes estarem falando para si mesmos e gerando regras que controlariam seu comportamento nao-verbal, mesmo antes da instrucao ser modelada.

Para o desenvolvimento de estudos posteriores seriam necessarias algumas alteracoes no procedimento de coleta de dados proposto neste estudo. Sugere-se a redefinicao da tentativa em que a primeira solicitacao de verbalizacao devera ser feita. Supoe-se que antes de qualquer encaixe ou mesmo na primeira tentativa nao se constituam como os momentos mais adequados para a primeira solicitacao, pois e preciso lembrar a questao inicial apresentada aos participantes ("Qual e a peca que voce esta encaixando e que eu estou lhe dando bolinhas?"). Era solicitado as criancas que dissessem qual peca que estavam encaixando e que a experimentadora estava lhe dando bolinhas. Assim, se essa solicitacao fosse realizada antes de a crianca encaixar uma peca, a questao poderia ficar sem sentido. Caso a primeira solicitacao de verbalizacao fosse realizada apos o primeiro encaixe de pecas, a pergunta tambem se tornaria inadequada, pois a primeira peca encaixada nunca era consequenciada (a fim de evitar o reforcamento acidental) e, dessa forma, a crianca nao saberia responder qual a peca que ela encaixava e em funcao do que ganhava bolinhas.

Essa analise se aplica tambem a criancas que passaram pela Condicao CNVI, pois desde o inicio do jogo ate a ocorrencia da primeira verbalizacao, todas ja haviam encaixado 10 pecas e recebido bolinhas de gude como consequencia para cada acerto. Tres participantes dessa Condicao (P06, P07 e P10) nao so encaixaram pecas mas tambem verbalizaram sobre a tarefa de acordo com a contingencia descrita na instrucao desde o inicio do jogo. Entretanto, nao se pode afirmar se o fato de criancas verbalizarem de acordo com a instrucao desde o inicio do jogo ocorreu como efeito da adesao as instrucoes apresentadas pelo experimentador ou como efeito da exposicao ao procedimento de consequenciacao do comportamento de encaixar.

No que se refere a maior ou menor facilidade para a realizacao da modelagem do comportamento verbal das criancas sob a Condicao CVM, esta tambem pode estar relacionada as diferencas individuais dos participantes, pois apesar de serem criancas de idades proximas e que estudavam na mesma escola, cada qual pode ter passado por experiencias distintas em suas historias de vida. As diferencas no desempenho nao-verbal de P01 e P04 parecem indicar que P04 estava mais sob controle das bolinhas que ganhava e P01 estava mais sob controle da "brincadeira" que criava com as pecas no tabuleiro. Talvez os brindes da "lojinha" tivessem um efeito reforcador maior para P04 do que para P01, para a qual a "brincadeira" parecia ter um efeito reforcador maior. Dessa forma, a natureza da tarefa parece ter influenciado o desempenho de P01. Isso indica que, nas tarefas do cotidiano, as criancas podem agir de maneiras distintas daquelas que as pessoas esperam, ate mesmo deixando de ganhar presentes e elogios para aproveitar a "brincadeira" oportunizada pela atividade que estao desenvolvendo. As criancas podem, por exemplo, nao querer colorir com a cor verde as folhas do desenho de uma arvore para receber um elogio ou uma nota 10 em uma tarefa, mas preferir pintar com a cor azul em funcao de sua historia reforcadora com essa cor ou em funcao do prazer que a atividade de pintar possibilita.

O fato de os comportamentos nao-verbais de P01 e P04 estarem, provavelmente, sob controle de um aspecto diferente (tarefa ou brindes), parece ter feito com que elas precisassem de um numero distinto de tentativas para passar a encaixar somente pecas de acordo com as contingencias programadas. Entretanto, para ambos, o comportamento de encaixar passou a ficar exclusivamente sob controle do criterio programado para consequenciacao somente apos ter ocorrido a modelagem do comportamento verbal, indicando que a direcao do controle, na Fase 1, foi do comportamento verbal para o nao-verbal, conforme apontaram Catania e cols. (1982, 1990). Como nesses estudos, ocorreram muitas dificuldades para modelar o comportamento verbal, mas quando isso aconteceu, o comportamento nao-verbal tambem sofreu alteracoes.

Depois que o comportamento de encaixar foi modelado, os participantes encaixaram somente pecas de acordo com o criterio programado para consequenciacao, mas um dos participantes (P04) encaixou uma peca que nao estava de acordo com esse criterio na 100a tentativa. Conforme explicitado na sessao de analise de resultados, esse desempenho parece ter ocorrido em funcao de uma caracteristica do procedimento deste experimento: o fato de ser preciso retirar todas as pecas e recomecar o encaixe de pecas no tabuleiro quando fossem encaixadas 100 pecas. Essa mudanca pode ter sinalizado para a crianca o inicio de uma nova partida do jogo. Para evitar esse tipo de influencia no desempenho dos participantes, seria necessaria a confeccao de um outro tabuleiro com mais furos para a coleta de dados, de forma que a crianca pudesse encaixar todas as pecas da sessao sem precisar retirar pecas no decorrer da atividade para continuar jogando.

Os participantes que passaram pela Condicao CNVI encaixaram pecas de acordo com a instrucao, imediatamente apos a sua apresentacao, da mesma forma que resultados obtidos por Catania e cols. (1982, 1989) sugeriram que instrucoes determinam, com alta probabilidade, o comportamento nao-verbal.

Diferentemente dos dados descritos na literatura, apenas um participante da Condicao 2 (CNVI) encaixou pecas e descreveu a tarefa de acordo com a instrucao apresentada no inicio do experimento, durante as Fases 1 e 2. Para Matthews, Shimoff, Catania e Sagvolden (1977), o desempenho instalado por meio de instrucoes e insensivel as contingencias, isso e, as instrucoes podem desempenhar o papel de anular ou evitar o contato com as contingencias de reforcamento. Entretanto, os mesmos autores afirmam que essa insensibilidade nao e uma consequencia inevitavel da instrucao e isso foi o que parece ter acontecido para quatro (P07, P08, P09 e P10) dos cinco participantes da Condicao 2 (CNVI), pois seus desempenhos pareceram sensiveis as consequencias programadas para o comportamento de encaixar pecas.

Conclusoes

A tarefa utilizada neste experimento (encaixe de pecas nos furos de um tabuleiro de acordo com as dimensoes forma, tamanho e cor) e de natureza diferente das tarefas descritas nas pesquisas que investigam os efeitos de regras e de contingencias. Isso porque apesar de ser uma tarefa estruturada, pois consiste em encaixar uma peca em um furo, permite uma certa variabilidade de opcoes, ja que a crianca pode escolher as dimensoes das pecas a serem encaixadas e organiza-las de diversas formas. Alem disso, a propria estrutura da tarefa pode possibilitar a ocorrencia de consequencias naturais que podem sobrepujar o efeito das instrucoes e das consequencias.

Dessa forma, evidencia-se a importancia de se aprofundar o conhecimento acerca dos efeitos da modelagem de comportamento verbal e das instrucoes sobre o comportamento verbal e o nao-verbal de criancas em jogos como o utilizado nesta pesquisa, pois esses, alem de pouco investigados na literatura, aproximam-se das condicoes cotidianas vivenciadas pelas criancas em situacoes naturais. Este estudo permitiu verificar que e possivel realizar esse tipo de investigacao (efeitos da modelagem de comportamento verbal e instrucao de comportamento nao-verbal sobre o comportamento verbal e naoverbal de criancas) em atividades de natureza semelhante aquelas desenvolvidas no cotidiano). Alem disso, e necessario aprofundar o conhecimento nessa area, principalmente pelo fato de que os resultados dessa pesquisa sugerem que a modelagem do comportamento verbal e a instrucao do comportamento motor nao exercem todos os efeitos frequentemente encontrados na literatura quando o desempenho esta sob uma grande variabilidade no procedimento de consequenciacao.

Recebido em 21.12.2004

Primeira decisao editorial em 11.10.2006

Versaofinal em 27.11.2006

Aceito em 28.03.2007

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Maria Regina Cavalcante (1)

Mariana Pinotti Carrara (2)

Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho--Campus de Bauru

(1) Endereco: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Campus de Bauru, Av. Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-05, Vargem Limpa, Bauru, SP, Brasil, 17033-360. E-mail: mregina@fc.unesp.br

(2) Trabalho desenvolvido com auxilio da FAPESP (bolsa institucional de Iniciacao Cientifica).
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Article Details
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Author:Cavalcante, Maria Regina; Carrara, Mariana Pinotti
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Article Type:Report
Date:Apr 1, 2007
Words:6944
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