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Education in Amazonian Communities/Educacao em comunidades amazonicas.

Introducao

O Amazonas e os estados nacionais tem sua historia de constituicao geopolitica descrita e discutida em obras especializadas. Para refletir sobre o tema educacao nas comunidades amazonicas e compreende-lo como se mostra hoje, e necessario um dialogo processual que vincule fatos preteritos e a contemporaneidade com a perspectiva futura. Nesse sentido, o Novo Mundo ou o "descobrimento" das terras brasileiras surge a partir do Velho Mundo, com impactos no modus vivendi dos individuos dos dois mundos, porem com maior forca para os nativos do primeiro. Esse processo historico direcionou a educacao no Amazonas.

Os escritos de Elias (1994b) ajudam nessa compreensao ao destacar o efeito da autoimagem. Esta reverbera na visao dos colonizadores, viajantes e missionarios religiosos, bem como na concepcao do homo economicus e, posteriormente, do homem pesquisador sobre a regiao e os seus primeiros habitantes:

Na verdade, uma fase fundamental do processo civilizador foi concluida no exato momento em que a consciencia de civilizacao, a consciencia da superioridade de seu proprio comportamento e sua corporificacao na ciencia, tecnologia ou arte comecaram a se espraiar por todas as nacoes do Ocidente (Elias, 1994b, p.64, grifos do autor).

Foi na relacao com o "outro"que os europeus deram-se conta da maior abrangencia e do significado da palavra civilite. As palavras "civilizado/incivilizado" e "colonizador/colonizado" foram potencializadas no sentido de atribuir uma grande funcao ou tarefa dos primeiros sobre os segundos, no sentido de uma boa educacao.

Gambini (2000) reforca essa reflexao:

[...] como vimos ao analisar as Cartas, desde 1549 vai tomando corpo uma antropologia da conquista segundo a qual o povo da terra vive em estado de pecado e promiscuidade, sem reis a quem obedecer, sem leis nem regras, sem deuses ou qualquer regra moral, preguicoso, indisciplinado, desalmado, uma folha em branco pronta para a escrita, 'conhecimento' do Outro que culmina na conclusao de que o mesmo foi criado pelo Demonio. A 'prova' e de uma racional idade espantosa: se tivessem sido criados por Deus, os indios imediatamente reconheceriam a verdade da palavra dos jesuitas e a acatariam com gratidao (Gambini, 2000, p.167).

A expansao maritima dos europeus foi estimulada por fatores diversos. Segundo Santos (2009, p.38), "A conquista da Amazonia inicia-se em 1616; [...] mais de um seculo depois que os portugueses chegaram ao Brasil". Nesse sentido, o autor destaca que "[...] a ocupacao lusitana da Amazonia so comecou efetivamente no inicio do seculo XVII".

Antes da chegada do colonizador na regiao amazonica, toda a formacao de seus habitantes (os grupos indigenas) dava-se por meio de uma educacao nao escolarizada, transmitida oralmente de pais para filhos e compartilhada nas comunidades. Posteriormente, entre o seculo XVII e a segunda metade do seculo XVIII, a educacao na Amazonia esteve pautada pela orientacao religiosa irradiada da Europa.

Os jesuitas foram os primeiros religiosos a chegar ao Brasil e se instalaram da Amazonia ao Rio da Prata, lutando--com sucesso--, pela liberdade dos povos autoctones. Nesse aspecto, importantes argumentos influenciaram a Corte. O Diretorio dos Indios (4), elaborado para a Amazonia em 1755 e colocado em pratica no Brasil em 1758, e um documento significativo que expressa o momento historico da politica pombalina para evitar a escravizacao dos indigenas e incentivar sua integracao a sociedade.

Por outro lado, os jesuitas eram proprietarios de varias terras, escolas e, em resumo, concentravam muito poder. Tiveram atitudes que buscaram elevar a Companhia de Jesus [irmandade jesuitica] a uma posicao superior as politicas de Portugal e Espanha; dificultaram as decisoes fronteiricas e a expansao economica do pais, incentivando a resistencia dos colonos, que precisavam da mao de obra dos indios; incorreram ao odio dos nao indigenas e do proprio clero secular. Em adicao, na Bacia do Amazonas, entraram em conflito com os Carmelitas que defendiam o expansionismo portugues. Os problemas e conflitos com o Marques de Pombal e com o clero intensificaram as tensoes, culminando com a expulsao dos jesuitas de Portugal e suas colonias, em 1759, ate que mais tarde o Vaticano extinguiu a Ordem, em 1773 (Marques, 1998).

Esse breve relato historico do Brasil Colonia pode dar uma visao da formacao do amazonida no contato com os colonizadores. A contribuicao da formacao educacional baseada exclusivamente no seio das culturas indigenas e, mais tarde, das comunidades ribeirinhas foi descartada na epoca. Com os anos, a Educacao Formal, institucionalizada e escolarizada foi sendo implantada e implementada em diferentes cidades e comunidades, quase sem nenhum reconhecimento da educacao local transmitida oralmente pela familia e pela comunidade.

Diante do exposto, o objetivo deste trabalho e refletir sobre a "educacao" no momento presente nas comunidades amazonicas, mais especificamente as ribeirinhas que habitam as margens dos rios, lagos e igarapes do Estado do Amazonas, subordinadas ao municipio de Boa Vista do Ramos.

Procedimentos Metodologicos

A sociologia processual de Norbert Elias fundamentou as reflexoes desenvolvidas neste trabalho, com maior relevancia para os conceitos de "figuracao', "diferenciacao" e "relacoes de poder" no processo educacional dos ribeirinhos.

Elias (1993, 1994a, 1994b, 1998) constroi sua teoria do desenvolvimento da sociedade humana ocidental numa perspectiva de longo prazo. Defende a ideia de que, dados os objetivos e metas individuais planejados, desencadeia-se um processo cego e nao planejado. Formulou a teoria do processo civilizador, destacando a formacao do estado com o monopolio da violencia fisica, a arrecadacao dos impostos e a obrigacao de convivencia entre as pessoas. O autor revela o diferencial social com base nas mudancas no sentir e pensar dos individuos ao longo da historia da sociedade ocidental, mostrando em seus achados o desenvolvimento do sentido da repugnancia a violencia fisica, o maior controle das emocoes e o autocontrole. Ainda, destaca transformacoes na forma de se comportar, na divisao das funcoes e no maior o nivel de interdependencia funcional.

Seguindo as concepcoes de Norbert Elias, "figuracao" expressa os seres humanos ligados por teias de interdependencias funcionais, isto e, "Nao ha ninguem que nunca tenha estado inserido numa teia de pessoas" (Elias, 2011, p.139). Para o autor, "O conceito de configuracao serve portanto de simples instrumento conceitual que tem em vista afrouxar o constrangimento social de falarmos e pensarmos como se o 'individuo' e a 'sociedade' fossem antagonicos e diferentes" (Elias, 2011, p.141). Diante dessa assertiva, o autor rompe com o abismo, criado ao longo dos seculos, que colocava individuo de um lado e sociedade de outro. Elias destaca que o poder e uma caracteristica estrutural nas figuracoes, que nao e vitalicio e nem um talisma, e esta no fulcro das relacoes humanas.

Os termos "figuracao/configuracao" sao explicados por Landini (2006), ao dizer que Norbert Elias, apos analise, passou a utilizar em seus escritos o termo "figuracao", pois o prefixo "con" do verbete "configuracao" denotava redundancia. Diante dessa explicacao, optou-se aqui por utilizar o termo "figuracao", acompanhando Elias.

Ja a concepcao de "processos sociais" permite entender as transformacoes de longo prazo no Amazonas, das quais a educacao escolarizada faz parte. Portanto, o processo social:

[...] refere-se as transformacoes amplas, continuas, de longa duracao--ou seja, em geral nao aquem de tres geracoes--de figuracoes formadas por seres humanos, ou de seus aspectos, em uma de duas direcoes opostas. Uma delas tem, geralmente, o carater de uma ascensao, a outra o carater de um declinio. Em ambos os casos, os criterios sao puramente objetivos. Eles independem do fato de o respectivo observador os considerar bons ou ruins (Elias, 2006, p.27, grifo do autor).

Os conceitos, numa perspectiva historica, fundamentam a compreensao sobre o Amazonas atual, por forca dos processos sociais que refletem a interrelacao dos periodos do Brasil Colonia e da Republica.

Para melhor captar e decifrar a dimensao e significado da comunidade e das atividades diarias, fez-se aqui a opcao por uma pesquisa participante, de enfase qualitativa, com trabalho de campo possibilitado pela etnografia. Geertz (1989, p.20) enfatiza a importancia de se fazer uma descricao densa, na qual o etnografo "[...] em todos os niveis de atividade do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro, deve entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, tracar as linhas de propriedades, fazer o censo domestico" [...] "escrever seu diario'. Na coleta de dados empregou-se a observacao participante e o dialogo com questoes abertas para captar os significados dos simbolos de uma realidade que se mostra ha mais de vinte anos na vida do pesquisador. Esse metodo propiciou compreender a vida diaria dos habitantes da area pesquisada e suas atividades de extrativismo, caca, pesca, coleta de produtos da floresta, cultivo do solo, pratica do futebol e, tambem, a educacao escolarizada (Matos, 2008).

Comunidades amazonicas: entre o rio e a terra

Com os anos de integracao, o Amazonas passou a conviver com um maior contingente de imigrantes, sob conducao do Estado brasileiro, por meio do Instituto de Reforma Agraria (Incra) a destinar espacos para assenta-los. Segundo Pasquis et al. (2005), entre os anos de 1950 e 1960, apesar de a Amazonia ser considerada pelos governantes brasileiros como um "espaco vazio" nao houve reforma agraria. Entre criticas e tensoes acerca da distribuicao de terras, no Amazonas essa politica consolidou as comunidades de assentamento agrario, muitas quais localizadas em terra firme e ocupadas por individuos de outras regioes do pais.

Outras comunidades foram contempladas pela politica de protecao ambiental, influenciada pelo pensamento ecologico surgido nos Estados Unidos com a criacao da primeira area de preservacao ambiental, o Parque Yellowstone, em 1872. A ideologia irradiou e se consolidou no Brasil com da Lei no 9.985, de 2.000, dando origem ao Sistema de Unidades de Conservacao, que, por forca das regras para manutencao do meio ambiente--flora e fauna--, tem interferido nas praticas socioculturais dessas comunidades e criado tensoes em seu modo de vida.

Diferentemente das situacoes acima referidas, este estudo e centrado em comunidades originarias as margens de rios, lagos e igarapes, formadas de forma espontanea ou por interesse, por lacos biologicos ou afetivos. Tal origem permite a convergencia de pessoas, nao para se matarem, mas para viverem em interdependencia funcional e solidariedade. Todavia, isso nao implica uma harmonia eterna, pois em sua dinamica figuracional ha poder, emocoes e diferenciacao social que provocam tensoes e conflitos, em um espaco geopolitico sem alocacao por parte do Estado, mas em relacao a ele. Porem, na experiencia amazonica, ha de entender que o estabelecimento das primeiras moradas e precedido por um estudo previo do espaco--rio e terra--, e pela interpretacao do tempo para a consolidacao da comunidade.

Esse habitante da hinterlandia amazonica e designado, pelo outro, de caboclo, isto e, uma mistura do branco com o indigena. Porem, em sua autodesignacao, o amazonida se relaciona ao lugar de nascimento e nao se intitula como caboclo, apresentando-se como "Eusou do Aninga, uma comunidade de Boa Vista do Ramos"; "Eu sou da Comunidade do Curuca"; "Eu nasci na vila Fatima do Igarape Acu, mas moro aqui no Ipixuna" (Matos, 2015). Dependendo da situacao, a exemplo de expressoes populares, na qual se ve a forca da autoimagem, o termo "caboclo" soa de forma pejorativa e inferioriza o amazonida: "o caboclo e bicho preguicoso".

De qualquer forma, o amazonida (o conhecido caboclo) nao se reduz a esse conceito estatico, preconcebido, pois, quanto mais se observam as interdependencias funcionais e o diferencial social avancando na hinterlandia amazonica, menos tem efeito a funcao conceitual caboclo. Nao se ouve a expressao "eu era caboclo, agora sou professor"ou "eu era caboclo, agora sou empresario" ou "meus pais sao caboclos, mas eu sou advogado" A miscigenacao e um fato no Amazonas, porem, nao foi o fator biologico a limitar o desenvolvimento social.

Essa formacao historica na Amazonia nasce com os colonizadores e a exploracao das drogas do sertao e se intensifica no ciclo da borracha, dentre outras fases (Benchimol, 1999; Silva, 2004; Loureiro, 2007; Santos, 2009; Texeira, 2009). O Amazonas sente a presenca de portugueses, espanhois, franceses, negros, japoneses e judeus que contribuiram na cultura, no modo de vida e na miscigenacao.

O presente estudo foi desenvolvido em tres comunidades amazonicas com influencia de portugueses, nordestinos, negros e indigenas. Subordinadas ao municipio de Boa Vista do Ramos (AM), as comunidades rurais Bico, Cuiamucu e Canela-Fina, nomes ficticios, existem ha mais de duzentos anos, sendo habitadas por nao indigenas, conforme Matos (2008, 2015). Os estudos sobre as Terras Pretas de Indios no Amazonas acusam a presenca de seres humanos por nao menos de quinhentos anos na regiao (Teixeira et al., 2010).

Essas comunidades estao as margens de rios de agua preta e em areas de terra firme; portanto, as casas que as constituem nao ficam submersas em periodo de enchente do rio, como ocorre em areas de varzea no Amazonas. Contam com igreja catolica e adventista, sede social e campo de futebol. As escolas funcionam no sistema multisseriado, ou seja, na mesma sala de aula, o professor ministra conteudos para criancas de diferentes idades, situacao ja registrada em 1995 (Matos, 1996). O professor era um morador da comunidade, cuja formacao nao havia sido concluida e hoje e designada como "Ensino Fundamental I". Algumas residencias localizam-se na sede da comunidade, enquanto grande parte esta alocada em areas dos sitios, distantes cem metros ou mais uns dos outros.

Quanto ao modo de vida, as comunidades praticam o extrativismo animal--caca e pesca--, tanto para consumo proprio quanto para comercializacao; extrativismo vegetal, com a extracao de madeira, cipo, palha e oleos vegetais; coleta da castanha amazonica e de frutos silvestres, como acai, bacaba, uxi, piquia e tucuma; criacao de animais domesticos, como porco, carneiros e bovinos; cultivo do solo, mantendo a tradicao da roca e a pratica do puxirum para o plantio de mandioca brava e mansa, banana, jerimum, cara, milho e outros.

Nesse modo de vida, os moradores tem o rio e a terra como espaco de trabalho e de outras praticas sociais. Em termos de sazonalidade, aprende-se no cotidiano que ha um tempo de chuva e outro de sol, um tempo de enchente e outro de vazante do rio. Aprende-se que ha area de mata primaria, de capoeira, de igapo. Aprende-se que ha cabeceiras, rios, lagos, igapos e igarapes. E nesse ambiente de terra e agua que a vida brota, morre e renasce, enquanto homens e mulheres plantam, colhem e consomem; criam e abatem ou simplesmente extraem do ambiente o necessario para manutencao da vida, fortalecendo o ethos amazonico.

A educacao como direito de todos e dever do Estado

A expressao acima, extraida da Constituicao Brasileira, em seu artigo 205 (Brasil, 1988), tornou-se expressao comum em nossa sociedade, ao ter como ponto de discussao o tema educacao. A Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Nacional (Lei no 9.394/1996), em seu art. 1, estabelece que a educacao desenvolve-se nas instituicoes de ensino e tambem no ambiente social. Assim, as reflexoes sobre o tema perpassam tanto a educacao institucionalizada quanto aquela provinda do seio da comunidade (Brasil, 1996).

Por sua vez, o paragrafo primeiro do mesmo artigo explicita o que Estado brasileiro entende por educacao institucionalizada:"Esta Lei disciplina a educacao escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituicoes proprias'. Ao institucionalizar a educacao, seja em zona rural ou urbana, o Estado penaliza pais e responsaveis, caso negligenciem seu dever, conforme dispoe o Art. 246 do Codigo Penal (Decreto--Lei no 2.848/1940), referindo-se ao abandono intelectual: "deixar, sem justa causa, de prover a instrucao primaria de filho em idade escolar" (Brasil, 1940, online).

Continuando, o paragrafo segundo do mesmo artigo identifica a direcao da educacao: "A educacao escolar devera vincular-se ao mundo do trabalho e a pratica social" (Brasil, 1940, online). Assim, esse paragrafo e um norte indutor e estimulador, em direcao ao qual, a medida que as series iniciais sejam cumpridas e esgotadas as possibilidades nas comunidades, os pais se esforcam para encaminhar seus filhos em busca de continuidade dos estudos, sendo uma forca "oculta" no universo amazonico para que o aprendiz migre para centros com mais condicoes de escolaridade e por la fique. Vez ou outra volta a sua comunidade para visitar os pais e trazer os netos para que estes os conhecam.

Esse modelo de educacao reverbera por toda a hinterlandia amazonica, e sua ideologia voltada para o trabalho e disseminada como se fosse a melhor opcao de se viver bem ou ser alguem na vida. As praticas educativas imbricadas ao modus vivendi--aquelas que se alicercam as praticas socioculturais, atreladas aos ciclos naturais e que constituem o palco para consolidar o ethos amazonico--, sao menos valorizadas, como se esse conhecimento secular nao tivesse uma sistematizacao. Portanto, cabe ao analista reconhecer (e trazer para o contexto da educacao institucionalizada) que as dimensoes conceitual, procedimental e atitudinal nao se reduzem explicitamente a ela, mas que fazem parte da educacao que ocorre no modus vivendi, do cultivo do solo ao extrativismo animal e vegetal.

Quando nos bancos da educacao institucionalizada se ensinam os conceitos de cooperacao e ajuda mutua, os ribeirinhos ja os possuem, assimilados por seculos, e os aplicam na atividade de puxirum, pois isso esta imbricado ao seu modo de vida. O enfraquecimento desses conceitos, no interior da comunidade, nao e saudavel nas relacoes sociais.

Destarte, a educacao institucionalizada nao permite a qualquer estado brasileiro, municipio ou comunidade, a autonomia de nega-la ou deixar de implanta-la, implementa-la, mante-la ou refutar os preceitos estabelecidos na forma de lei. Portanto, as atuais escolas das comunidades ribeirinhas seguem normas estabelecidas na Lei de Diretrizes e Bases da Educacao (LDB), tendo como guia os Parametros Curriculares Nacionais (PCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Porem, e nos preceitos e competencias impostos por tais normas que os estados e municipios tem respaldo, por meio da Proposta Pedagogica Curricular (PPC), podendo ajustar e contextualizar conteudos, procedimentos de ensino e calendario escolar conforme as peculiaridades da regiao. Essa preocupacao encontra respaldo no Art. 28 da LDB, que trata da oferta da educacao basica para a populacao rural; na Resolucao do Conselho Nacional de Educacao e Camara de Educacao Basica (CNE/CEB) no 1, de 3 de abril de 2002, que institui diretrizes operacionais para a Educacao Basica nas Escolas do Campo (Brasil, 2002, online); e na Resolucao no 2, de 28 de abril de 2008 (Brasil, 2008, online), que estabelece diretrizes complementares, normas e principios para o desenvolvimento de politicas publicas de atendimento da Educacao Basica do Campo.

Se adequacoes de conteudos no curriculo ainda nao sao um fato a ser comemorado, o ajuste no calendario no universo amazonico e realidade, pois o ciclo das aguas pode comprometer o calendario escolar caso haja necessidade de suspender as aulas devido a enchentes do rio ou a grandes vazantes.

Mas qual e o modelo de educacao hoje existente nas comunidades ribeirinhas?

Os municipios do Amazonas nao possuem uma base curricular propria, com conteudos especificos regionais, porem, como visto acima, e permitido que se facam adequacoes de conteudos pertinentes a realidade sociocultural. O modelo da educacao e fundamentado na proposta de Estado que atenda a parametros internacionais que mensuram o nivel de educacao dos paises. Nesse caso, pode-se elencar o Indice de Desenvolvimento da Educacao Basica (IDEB) (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira, c2018).

O modelo de educacao e seu papel na formacao do individuo so sao compreensiveis quando vinculados ao processo de desenvolvimento da sociedade e ao modo como a nacao esta integrada a figuracao da educacao, que e um tema central circunscrito as pastas administrativas dos governantes em todo o mundo, para mais ou para menos.

No Brasil, como visto acima, a educacao vem sendo implantada desde a colonizacao com a proposta de civilizar aqueles que aqui viviam. Os colonizadores chegaram e se estabeleceram em terras desconhecidas num periodo em que a Europa vivia um processo de mudancas sociais, com a passagem da monarquia para o estado-nacao, como observa Norbert Elias, nas obras "Processo Civilizador: uma historia dos costumes" (1994b) e "Processo Civilizador: formacao do estado e civilizacao" (1993). E um periodo de mudanca comportamental, com maior pacificacao interna da sociedade mediante regras pre-estabelecidas, de modo que as normas de boas maneiras, o decoro e o controle das emocoes, dentre outros aspectos, tornaram-se um diferencial.

Numa analise socio-historica, pode-se compreender que os descobridores oriundos do "Velho Mundo", ao aportarem nas novas terras com a autoimagem de civilidade, nao reconheceram as culturas locais e consideraram os nativos como povos barbaros, primitivos e incivilizados. Esse e um marco temporal que pode explicar a ideologia que fundamentou a Educacao Formal dos povos autoctones, habitantes das terras que foram chamadas de "Novo Mundo" pelos colonizadores.

A educacao escolarizada foi sendo implantada sem considerar o conhecimento ancestral e a propria constituicao historica dos amazonidas, criando-se um modelo de educacao ate certo ponto desconectada da realidade local e negadora da alteridade. Nesse sentido, as pessoas que ainda habitam esses espacos geopoliticamente instituidos aprendem regras e modelos da cultura ocidental, como a busca da polidez e a tentativa de sempre civilizar alguem, sendo a educacao escolarizada um dos meios para atingir esse objetivo, isto e, formar um sujeito polido e "integrado" a sociedade.

O Amazonas, constituido por sessenta e dois municipios, possui comunidades ribeirinhas distantes dos centros mais urbanizados, mas nem estas nao escaparam as regras e seguem modelos historicamente constituidos cujas diretrizes permanecem ate os dias atuais, dentre elas a de uma "boa civilizacao" Portanto, qualquer estudo sobre o tema educacao no Amazonas deve levar em consideracao o processo civilizador ocidental que avancou para dentro da floresta e provocou mudancas sociais e comportamentais. O sentimento de vergonha, dentre outros mecanismos utilizados no processo educacional, quer seja institucionalizado ou concebido nas relacoes sociais da comunidade, contribui para coibir comportamentos tidos como socialmente inapropriados.

Sobre o sentimento de vergonha, Goudsblom (2009, p.56) reflete que "A dor fisica ocorre quando ha algo de errado com o corpo; e um sinal, um aviso de que o corpo esta ferido. Em um sentido similar, a vergonha e um sinal de que ha algo errado em uma figuracao social" Na continuidade, o autor acrescenta: "A dor social e social em um sentido duplo: e infligida socialmente pelas pessoas que 'envergonham' (como punicao), e demonstrado socialmente pela pessoa que e envergonhada (como expiacao)". Goudsblom (2009, p.59) acrescenta que "[...] o envergonhamento como atividade social, e a vergonha como experiencia individual sao ambas potencialmente destrutivas".

Nesse sentido, pode-se compreender nao so efeito do processo civilizador que avanca sobre a hinterlandia amazonica, o que vem ao encontro dos esclarecimentos de Elias (1993, p.193): "[...] constitui uma mudanca na conduta e sentimentos humanos rumo a uma direcao muito especifica".

Seguindo as concepcoes teoricas de Norbert Elias, Matos (2015), em pesquisa de campo em comunidades rurais do Amazonas, revela:

Em visita a escolas infantis, quer estejam situadas na capital do Estado, nas sedes dos municipios e, por extensao, em area rural, quer sejam de nao indigenas quanto de indigenas, constatam-se os instrumentos civilizadores. A escola no Amazonas, independente do espaco situado e, antes de tudo, modeladora de comportamento. Fixado em quadros ou em paredes, palavras de boas maneiras sao destacadas: bom dia, boa tarde, boa noite; com licenca; obrigado; por favor (Matos, 2015, p.39).

Matos (2015, p.40) complementa que:
   O aprender conteudos da Matematica, do Portugues, da Fisica, da
   Historia, da Geografia e outras areas do conhecimento parte de
   propostas concebidas por homens e mulheres que direcionam a
   formacao do individuo, com um adendo que os conteudos sejam
   passados por profissionais especificos de cada area, porem
   espera-se que seja comum entre todos os profissionais identificar
   condutas exemplares e de boas maneiras. [...]. Individuos refinados
   e polidos e o que a sociedade deseja.


A educacao institucionalizada conduz seus escolares para a diferenciacao social, reverberando no modo de vida das comunidades amazonicas. Assim, em busca de uma profissao, os filhos de cacadores, pescadores e agricultores convergem para sede dos municipios. Hoje, nos sessenta e dois municipios do Amazonas, constata-se a presenca do ensino de nivel superior, na modalidade presencial ou a distancia mediada via satelite. Para Matos (2015), a expressao popular "filho de peixe, peixinho e" nao se aplica ao Amazonas: filho de pescador, agricultor ou cacador, no minimo, sera professor, pois ecoa o ideal preconcebido de que a educacao para o trabalho deve ser diferente daquela do modus vivendi.

Comunidades amazonicas: o lugar da educacao escolarizada e a da nao escolarizada

As comunidades de Bico, Cuiamucu e Canela-Fina nao sao as mesmas de antes: mostram mudancas que vao do uso da canoa a remo, ao barco movido a motor de rabeta; do uso de machado, a motosserra; do tercado, enxada para carpir, a rocadeira; da pesca com armadilhas, vara, arco e flecha ou arpao, ao uso de malhadeiras. O ralo para ralar a mandioca foi substituido pelo motor de ralar; a lamparina cedeu lugar a luz eletrica, que trouxe a geladeira, a qual esta substituindo gradativamente o pote de armazenar agua; a energia possibilitou a chegada da televisao e outros eletroeletronicos (Matos, 2015).

Tais mudancas remetem aos efeitos da tecnizacao que avanca sobre a hinterlandia amazonica, o que, segundo Elias (2006), permite que se aprenda, cada vez mais intensamente, a explorar objetos inanimados, em favor da humanidade.

A formacao de homens e mulheres, que, por muito tempo, foi construida no seio das comunidades amazonicas, foi sendo gradativamente compartilhada ou dividida com a educacao escolarizada. A energia eletrica, a implementacao de antenas parabolicas, a televisao e outros recursos tecnologicos possibilitaram que a educacao escolarizada tivesse importante tempo na vida dos comunitarios. Algumas comunidades oferecem aulas nos tres turnos, atendo criancas, jovens e adultos.

Entre a institucionalizacao da educacao e a educacao provinda das relacoes sociais, o tempo e um elemento que deve ser levado em consideracao nas reflexoes postas, pois um tempo de aprendizagem e destinado a escola, e outro, em sua maior parte, ao convivio social, onde as praticas socioculturais sao desenvolvidas em ambiente de terra e de rio--portanto, um tempo ligado aos ciclos naturais, no qual o "etno + o conhecimento" se fundem e se perpetuam.

Nessa dinamica, entre o cultural e o natural, entende-se com Norbert Elias (1998, p.81) que "[...] toda mudanca no 'espaco' e uma mudanca no 'tempo' e toda mudanca no 'tempo' e uma mudanca no 'espaco", que se pode vislumbrar nas comunidades amazonicas. Para Elias (1998), o tempo e uma construcao simbolica e organizadora das relacoes sociais. Sua sintese se expressa de forma macro, no calendario; e de forma micro, no relogio. Esse tempo, instituido ao longo do desenvolvimento da sociedade, passa a agir de forma coercitiva sobre a vida das pessoas.

Na educacao institucionalizada, o amazonida tem que cumprir a carga horaria estipulada no calendario, respeitando o tempo de aula, a entrada e saida da escola ou da sala de aula. O amazonida, ainda crianca, ao chegar a idade escolar, comeca a sentir o efeito coercitivo e as rotinas do tempo nas relacoes sociais.

As peculiaridades climaticas do Amazonas fizeram reconhecer a necessidade de ajustes no calendario para melhor conduzir a educacao escolarizada dos ribeirinhos. A realidade mostra escolas situadas em areas de varzeas e de terra firme. Nos ciclos das aguas, no periodo da vazante, alguns rios, lagos e igarapes sao de dificil navegacao, comprometendo a acessibilidade a escola e fazendo aumentar a distancia e o tempo.

No periodo de enchente, se a escola for situada em area de varzea e sua estrutura nao for elevada, sua estrutura vai ficando progressivamente submersa, ate que nao se consiga mais ministrar aula. Por outro lado, na subida das aguas, o rio ganha melhor navegabilidade: a agua avanca sobre terras e deixa-as submersas, permitindo atalhos, o que diminui as distancias e o tempo de chegada a escola. Na expressao local, o rio no Amazonas, na subida das aguas, torna-se "mar de agua doce".

Enquanto ocorrem ajustes no calendario e no tempo da educacao escolarizada, os amazonidas mostram como ha uma sistematizacao do conhecimento ao conviverem e aprenderem com os ciclos naturais: o melhor tempo para plantar e colher determinados cultivares; o melhor tempo para pescar ou cacar determinadas especies de animais silvestres. E, portanto, o oculto ou o explicito circunscrito na lua, no sol, no vento, na terra, na agua, bem como todos os elementos naturais de onde o amazonida retira, interpreta e ressignifica licoes de vida e para a vida, da morte e do bem viver, nesse universo de rios e florestas. Se longe de sua terra querida ele e tomado pela saudade, e porque no amazonida, em "seu eu corpo", estao impregnadas lembrancas do cheiro da terra umedecida, do piado dos passaros, da degustacao do peixe, das estorias de pescador e cacador, todas elas assimiladas na vida compartilhada do modus vivendi.

Uma mencao ao etno

Estudos tem demonstrado o conhecimento assimilado secularmente por uma civilizacao, que nao surgiu na academia e muito menos nos conteudos ideologicos propostos nos curriculos e conduzidos pela educacao escolarizada.

"A Ciencia dos Mebengokre: alternativas contra a destruicao", sob a coordenacao cientifica de Darrel Posey e de iniciativa do Museu Paraense Emilio Goeldi, traz informacoes sobre como populacoes primitivas desenvolveram seus conhecimentos na relacao com o meio:

Os indios sobreviveram na Amazonia por milenios. Seu conhecimento de ecossistemas, as relacoes planta-homem-animal e a manipulacao dos recursos naturais desenvolveram-se atraves de incontaveis geracoes, fruto de tentativas e de experiencias acumuladas (Posey et al., 1987, p.13).

Posey et al. (1987) mostram a diversidade do conhecimento desse grupo etnico e, associando-a ao que a ciencia ocidental ja definiu, acrescentam o radical etno as palavras referentes aos seus saberes, como "etnozoologia" "etnomedicina" "etnobotanica" "etnoagronomia"ou "etnoastronomia" Tal terminologia indica que essas comunidades detem um saber fazer, uma forma particular e especializada de sistematizacao do conhecimento para cada categoria. Sao saberes constituidos na relacao homem/ambiente e provenientes se mitos, crencas e significados simbolicos alusivos ao mundo real.

Ribeiro (1995), em sua obra "Os indios das Aguas Pretas: modo de producao e equipamentos produtivos", proporciona o que e expresso no prefacio do livro "O sabor do saber indigena', apontando a maneira como a etnia Desana, do alto Rio Negro (AM), desenvolveu ao longo dos seculos seus conhecimentos sobre pesca e flora, aos quais a autora designa como etnoictiologia e etnobotanica.

O exposto ajuda compreender que as populacoes ribeirinhas do Amazonas, antes da chegada da educacao escolarizada, absorveu saberes dos indigenas. Foi esse etnoconhecimento que lhes permitiu desenvolver estrategias de sobrevivencia e manter a vida nos tropicos umidos, pois:

O ser humano singular trabalha com conceitos extraidos de um vocabulario linguistico e conceitual preexistente, que ele aprende com outras pessoas. Se assim nao fosse, a pessoa nao poderia confiar em ser entendida pelas outras ao desenvolver uma lingua existente e, portanto, os conceitos existentes (Elias, 1994a, p.132).

Portanto, o radical etno, somado a palavra conhecimento, designa o conhecimento de um grupo. O etnoconhecimento conduz a relacao do homem com a terra e a agua e os seres que os constituem--animados, inanimados e os sobrenaturais, criados no imaginario desses humanos e que medeiam essa relacao. O etnoconhecimento e todo um conjunto de saberes aprendido na relacao com o outro e consigo mesmo, somado as vivencias dos espacos de rios, florestas, seres humanos e nao humanos.

O etnoconhecimento e um diferencial social na arte da cacada e na pescaria. Pescar com arco e flecha ou com arpao exige do pescador um bom autocontrole, o conhecimento do comportamento da diversidade ictiologica, do habitat e de como abordar para a captura. A lei da refracao descrita nos livros de fisica e vivenciada na pratica pelo pescador que desfere sua flecha. Um construtor de moradia ou de embarcacao opera calculos matematicos quando se defronta com sistemas de alavancas e tecnicas construtivas. Igualmente, retirar e selecionar madeira nao e tarefa para qualquer um; nos livros especializados, a madeira e classificada quanto a sua resistencia, identificada em laboratorio quanto aos componentes quimicos e materiais lenhosos (Burger; Richter, 1991), enquanto no dia a dia o amazonida identifica a madeira desta forma:

Olhar para a arvore e observar a cor do tronco, o formato da copa, o tamanho e a forma das folhas lhe dizem qual madeira e. Se isso nao lhe der condicoes, entao retirar uma lasca da arvore, cheirar e ver sua cor ajudam a eliminar a duvida. [...]. Ele, de posse das informacoes, sabera a utilidade da madeira, sua durabilidade e para que construcao ou objetivo servira (Matos, 2015, p.206).

Esse conhecimento nao e estatico; ele se transforma e incorpora novos saberes. E aprendido e aperfeicoado ao longo da vida. O erro e acerto fazem parte do processo, e o erro e permitido nessa aprendizagem, pois"ninguem nasce sabendo tudo" conforme o dito popular. Se a transmissao for por via oral, pode-se compreender que "O fundo de uma lingua contem, de facto, o sedimento das experiencias realizadas no decurso de muitas geracoes por muitos individuos diferentes e ai depositadas sob uma forma simbolica" (Elias, 1994c, p.92).

Sem pretender fazer aqui uma analise dicotomizada, o corpo e a mente interagem numa relacao em que a acao revela a elaboracao, o planejamento e a intencao do individuo para absorver, aperfeicoar e repassar o conhecimento na convivencia, de forma imbricada ao modo de vida, ou pela oralidade ou pelo corpo em acao. Nesse sentido, a pratica e a concretude pela qual a aprendizagem se fortalece, sendo a terra e o rio os espacos de vivencias laboratoriais, com atividades socioculturais, laborais e nao laborais que se perpetuam nesse modus vivendi e sustentam o ethos amazonico.

A educacao nao escolarizada nas comunidades de Bico, Cuiamucu e Canela-Fina

Em tempos anteriores, a formacao do individuo alicercava-se no seio da estrutura familiar, formada por parentes e compadres, ou seja, a comunidade constituia o principal ambiente de ensinamento. Nessa figuracao, o diferencial social se mostra no pescador, cacador, madeireiro ou agricultor, que permanece como agente transmissor de conhecimento.

Ja atualmente, o processo de integracao vem avancando no Amazonas e pressionando moradores das mais distantes comunidades ribeirinhas a outro diferencial social, que nao e o mesmo do ser pescador, agricultor, cacador ou madeireiro. Agora, a crianca ou jovem estudante e conduzido ao modelo que o leve a ser alguem na vida, e a escola, no universo amazonico, quer seja destinada a nao indigenas ou a indigenas, nao so ensina a ler, escrever e calcular, mas tambem segue os ditames do processo civilizador ocidental, modelador de comportamento. Entre outros ensinamentos, a exemplo dos centros mais urbanizados, conduz o individuo a ser produtivo e acelerar o tempo. Portanto, o conhecimento hibrido e realidade no modus vivendi nas comunidades ribeirinhas, alicercado tanto na educacao escolarizada quanto naquela baseada na vida diaria. A primeira esta ganhando terreno em aguas profundas.

O campo e o espaco onde se podem ver as transformacoes e a manutencao das tradicoes. Enquanto a escola rural proporciona ensinamentos por vezes distanciados do complexo modo de vida da comunidade--ate por falta de conhecimento dos proprios professores que estao a frente dessa Educacao Formal--, as familias ensinam seus filhos no contexto da tradicao, conforme a dinamica mostrada acima.

No dia a dia, o cacador, ao chegar em casa, se foi bem-sucedido, traz sua embiara. No tratar a caca, as criancas sao levadas a uma aula de anatomia animal ao identificarem os orgaos, as partes vulneraveis e as comestiveis, aquelas destinadas aos caes de caca, bem como aquelas utilizadas em medicamentos. Os ensinamentos continuam, e a crianca ou o jovem aprende sobre o comportamento animal, sua rotina alimentar e seus habitos, se diurnos ou noturnos. Da mesma forma, o pescador. Igualmente, nas rodas de conversa, o madeiro classifica as arvores e as seleciona para determinadas benfeitorias (Matos, 2008).

Dentre o modus vivendi das comunidades amazonicas, destaca-se a atividade de puxirum, tambem chamado de ajuri ou "mutirao" a depender a regiao. Puxirum significa ajuda mutua, sendo esse um costume transmitido por sucessivas geracoes, pelo qual o interessado convida seus pares para uma atividade laboral e, quando futuramente tambem for convidado, restitui o dia para o outro. Essa atividade e registrada por Wagley (1988), Moran (1990), Ribeiro (1995) e, com maior aprofundamento, por Matos (2008, 2015). Esse saber fazer secular foi destacado pelo Padre Jose de Anchieta, cuja obra "Arte de Gramatica da Lingua Mais Usada na Costa do Brasil" (Anchieta, 1595), registra os verbos "aiur" (venho) e "aiure"(vim de minha vontade, nao por me mandarem).

Em Bico, Cuiamucu e Canela-Fina, bem como nas demais comunidades amazonicas, o puxirum e realizado para a construcao de casas e a limpeza do espaco comunitario. Se o puxirum exigir forca e resistencia fisica, convidam-se os homens, como para derrubar a mata a machado; se for para a limpeza da roca, chamam-se as mulheres (Matos, 2008, 2015). Merece destaque o puxirum do plantio de roca, cuja figuracao pode ser constituida por criancas, jovens, adultos e anciaos, sejam homens ou mulheres, sem distincao, desempenhando suas funcoes.

Merece destaque o puxirim no manejo da mandioca, um dos cultivares tradicionais em todo o Amazonas, cujos derivados compoem a dieta alimentar: pe de moleque, cruera, beijus e farinha, sendo esta ultima o produto mais utilizado, ja que sempre presente nas refeicoes do dia a dia. Ha mandioca brava e mandioca mansa. A primeira possui natureza altamente toxica, nao sendo possivel aos seres humanos o consumo in natura sem serem levados a morte ou a serias consequencias de saude. A mandioca brava de alta toxidade e eliminada dos cultivares:

[...] Oliveira (1982) identificou e classificou cinquenta e dois cultivares de mandioca quanto ao teor de acido cianidrico. No espaco empirico, longe dos laboratorios, e assim que se faz, segundo o Sr. Heliomar Goncalves, de 44 anos: aqui a mandioca conhecida por Amana, e a campea, e a mais forte. A batata era muito forte. Nao deu certo, nao vejo mais as pessoas plantarem. Ela e muito forte, ate as folhas se carneiro comer morre [...] as folhas sao diferentes, a arvore cresce reta, a cor da maniva e meio roxa, outras sao tortas. Aqui pra nos eu planto a Jurandi e a mandioca-branca, mas o pessoal planta a Milagrosa, Amarelinha. A Jacare cresce reta, a arvore e roxa. La no Curuca (comunidade), o pessoal planta a Tracaja, Surucucu. Todas elas dao bem batata, produzem bem (Matos, 2015, p.178, grifos do autor).

A selecao dos melhores cultivares e passada as novas geracoes e se insere na figuracao do puxirum. Aos anfitrioes, familia responsavel pelo puxirum, cabe fornecer alimentacao e organizar a atividade na area de plantio. Tanto em casa quanto no espaco da roca, os anfitrioes devem estar sempre de bom humor e ser hospitaleiros, pois essa e uma interdependencia funcional que inclui: cortadores de maniva --sao homens, alguns de idade avancada, aos quais e reservada essa tarefa, pois nao exige esforco fisico; cavadores--, geralmente sao homens adolescentes ou adultos jovens, pois e a atividade que mais exige esforco fisico; distribuidor ou distribuidora de maniva--pode ser homem ou mulher, jovem ou adulto; distribuidora de agua ou aguadeira--, quando ha jovens, sao elas que distribuem agua aos participantes, frente ao clima quente e umido; cozinheiras--sao mulheres que ficam na residencia ajudando na preparacao dos alimentos. Ate criancas de sete anos ja estao no rocado, ajudando a distribuir as manivas para serem plantadas, porem sem que a ludicidade seja abafada (Matos, 2008).

O puxirum de plantio da roca e essa atividade coletiva de interdependencia funcional, no qual a diversidade desencadeia momentos de humor, sociabilidade e interacoes sociais que ajudam a cumprir a tarefa sem que a obrigatoriedade se sobreponha a espontaneidade.

Porem, identificam-se mudancas que apontam o enfraquecimento do puxirum em comunidades proximas as sedes dos municipios. Moradores dessas comunidades lembram-se de um tempo em que o puxirum era uma pratica comum, a exemplo do apresentado. Hoje essa pratica encontra-se enfraquecida, dentre outros motivos, por um fator de ordem economica: quem disponibiliza de recursos, paga a diaria de quem trabalha, e nao troca mais o dia, conforme ensinava a tradicao. Outros fatores tambem concorrem para tanto, como a incorporacao da tecnologia, a exemplo da rocadeira e da motosserra, que realizam trabalho de seis ou mais homens em um so dia. Alem disso, outra condicionante e a exigencia legal de as familias manterem os filhos na escola. Com o passar dos anos sem a pratica dessa atividade, o que se ve e o enfraquecimento do puxirum e o avanco do processo de diferenciacao social.

Consideracoes Finais

A formacao do amazonida se constroi num processo de longo prazo, fundamentado em figuracoes advindas de raizes coloniais, bem como do conhecimento ancestral dos povos indigenas e das ressignificacoes dos ribeirinhos atuais. Nesse cenario, constata-se uma dicotomia entre, de um lado, a educacao escolarizada, que ensina leitura, escrita, regras de boas maneiras e induz o individuo a ser produtivo e nao perder tempo, incrementando um diferencial social; e, de outro, os ensinamentos assimilados no contexto da convivencia familiar e no seio da comunidade, que vao permitindo ao individuo, ao longo da vida, as manhas de sobrevivencia nesse universo impar.

No processo de integracao, a vida do dia a dia e as praticas socioculturais do ribeirinho sao mediadas, querendo ou nao, pelo tempo. Em considerando o tempo como uma construcao simbolica, compreende-se como o amazonida e conduzido pela educacao institucionalizada e pela nao escolarizada.

Conforme discutido acima, a educacao escolarizada na sociedade ocidental e acelerada e produtiva. Embora na educacao dos amazonidas o tempo de aprendizagem nao seja um problema, ele o e para o observador de fora. Aprender os valores morais, sociais e ambientais na pratica cotidiana, compreender os ciclos naturais, extrair o suficiente para manutencao da vida, entender das relacoes ecologicas sao comportamentos que nao condizem com a celeridade do tempo nem com a produtividade e, ate onde se pode ver, essa educacao nao tem fim a vista e esta presente no modus vivendi.

Os municipios e comunidades ribeirinhas do Amazonas, dadas as figuracoes, seguem os preceitos legais que norteiam as bases curriculares. Porem, com base na mesma legalidade, os estados e municipios podem promover adequacoes, ajustes e contextualizacao de conteudos e calendarios que atendam a realidade sociocultural.

Enquanto antes se podia ver a pratica do puxirum como uma atividade que fazia parte da vivencia na hinterlandia amazonica, hoje, a medida que avancaram as concepcoes de que "tempo e dinheiro" e de que o "individuo e preguicoso", emergiram nesse universo novos diferenciais sociais. Assim, o puxirum da roca foi enfraquecendo, a ponto de haver comunidades, proximas a sede de municipios, que nao o realizam, pois quem pode, paga em especie a diaria do convidado. Tal realidade faz lembrar Elias (1994a), quando este aponta que, no processo de desenvolvimento da sociedade, os moradores vao se afastando da nocao de interdependencia entre as pessoas, o que repercute em suas praticas, a exemplo do puxirum.

Por fim o texto deixa questoes abertas e vislumbra alguns legados da experiencia da educacao em comunidades ribeirinhas: conhecimentos ancestrais advindos dos povos indigenas e a incorporacao de novos conhecimentos, base para a sobrevivencia na Amazonia; a forca do processo colonizador, na tentativa de integrar os povos indigenas e os amazonidas a sociedade mais ampla, numa via de mao unica; e politicas publicas educacionais com ideologias civilizatorias. Fica a preocupacao, a insistencia e a persistencia para que se de atencao ao principio da alteridade na educacao institucionalizada, com o reconhecimento do etnoconhecimento, do saber fazer dos amazonidas e do seu modus vivendi, para inseri-los no contexto curricular.

Colaboradores

G.C.G. MATOS colaborou na concepcao, coleta e analise dos dados, na redacao e revisao final do artigo. M.B.R. FERREIRA colaborou na analise dos dados, redacao e revisao do artigo.

http://dx.doi.org/10.24220/2318-0870v24n3a4604

Referencias

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Recebido em 6/5/2019, reapresentado em 14/6/2019 e aprovado em 24/6/2019.

Glaucio Campos Gomes de Matos (2) [ID] 0000-0003-3464-1781

Maria Beatriz Rocha Ferreira (3) [ID] 0000-0003-2925-3143

(1) Artigo elaborado a partir da tese de G.C.G. MATOS, intitulada "Praticas socioculturais, figuracao, poder e diferenciacao em Bico, Cuiamucu e Canela-Fina: comunidades amazonicas" Universidade Estadual de Campinas, 2008.

(2) Universidade Federal do Amazonas, Faculdade de Educacao Fisica, Programa de Pos-Graduacao em Sociedade e Cultura. R. Karl Jansky, Quadra E, 80, Shangrila VII, Parque Dez de Novembro, 69054-741, Manaus, AM, Brasil. Correspondencia para/Correspondence to: G.C.G. MATOS. E-mail: <glauciocampos@bol.com.br>.

(3) Universidade Estadual de Campinas, Laboratorio de Estudos Avancados em Jornalismo. Campinas, SP, Brasil.

Apoio: Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior e Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico. Aprovada a dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelo Comite de Etica da Universidade do Amazonas, em 12 de julho de 2017 (CAEE no 0208.0.115.000-07).

(4) Sobre o "Diretorio dos indios" ver: <https://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>. Acesso em: 30 mar. 2019.
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Title Annotation:Educacao e Civilizacao
Author:Matos, Glaucio Campos Gomes de; Ferreira, Maria Beatriz Rocha
Publication:Revista de Educacao PUC - Campinas
Date:Sep 1, 2019
Words:8136
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