Printer Friendly

Education from Montaigne's perspective within the renaissance context /A educacao segundo a perspectiva de Montaigne no ambito do renascimento/La educacion segun la perspectiva de Montaigne en el ambito del renacimiento.

Introducao

Este artigo tem como proposito tratar da perspectiva educacional presente no pensamento filosofico de Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592). Na obra capital, Ensaios, o autor, discorre sobre os mais variados temas, discute a educacao, seja para reprova-la, nos moldes em que era praticada em sua epoca, seja para sugerir a maneira pela qual a considerava correta.

Desse modo, se propoe aqui a esbocar os topicos principais do pensamento do ensaista frances, a guisa de oferecer uma compreensao geral da sua filosofia e, particularmente, das suas ideias acerca da educacao. Da mesma forma que, se pretende, simultaneamente, tracar uma visao da conjuntura cultural a qual Montaigne pertence, que e o Seculo XVI, periodo em que a Europa vivencia o Renascimento (1).

A importancia de Montaigne para a educacao repousa precisamente em seu cepticismo (2), ou seja, em sua opcao teorica segundo a qual nao se deve aceitar facilmente tudo aquilo que se propugna certo e, portanto, pratica-lo incondicionalmente, ja que o raciocinio e aleatorio: "Raciocinamos ao acaso e inconsideradamente, diz o Timeu de Platao, porque, como nos mesmos, e a nossa razao grandemente influenciada pelo acaso" (Montaigne, 2004, p. 256). Assim argumentando, a sua mensagem e clara e precisa: se o nosso julgamento e relativo, isto significa que a nossa opiniao e circunstancial, motivo pelo qual algo que seria adequado em certa situacao seria igualmente inadequado em outra e vice-versa; o mesmo aplica-se aquilo que se considera benefico ou malefico, porquanto

O mercador so faz bons negocios porque a mocidade ama o prazer; o lavrador lucra quando o trigo e caro; o arquiteto quando a casa cai em ruinas; os oficiais de justica com os processos e disputas dos homens; os proprios ministros da religiao tiram honra e proveito de nossa morte e das fraquezas de que nos devemos redimir; nenhum medico, como diz o comico grego da antiguidade, se alegra em ver seus proprios amigos com saude; nem o soldado seu pais em paz com os povos vizinhos. Assim tudo. E, o que e pior, quem se analise a si mesmo, vera no fundo do coracao que a maioria de seus desejos so nascem e se alimentam em detrimento de outrem (Montaigne, 2004, p. 114-115).

Imbuindo-se de tal perfil de pensamento, tem-se que Montaigne ensinaria que a educacao, tornar-se-ia um objeto constantemente passivel de revisao e de desconfianca. De revisao, por tratar-se de uma pratica que precisa ser ininterruptamente repensada, seja em seus principios, seja em seus fins, ou mesmo em seus metodos, os quais nao sao imutaveis, tampouco infaliveis. De desconfianca, por ser algo cujos efeitos podem ser opostos aqueles que sao dela esperados, isto e, danosos, ao inves de proveitosos, porquanto o ensaista defende que nao se deve ingenuamente deixar-se convencer pelo que quer que seja, por mais sedutor ou simpatico que pareca:

Nao e sem motivo que atribuimos a simplicidade e a ignorancia a facilidade com que certas pessoas acreditam e se deixam persuadir, pois penso ter aprendido outrora que acreditar e por assim dizer o resultado de uma especie de impressao sobre a nossa alma, a qual a recebe tanto melhor quanto mas tenra e de menor resistencia: 'Assim como o peso faz pender a balanca, assim a evidencia determina o espirito'. Quanto mais a alma e vazia e nada tem como contrapeso, tanto mais ela cede facilmente a carga das primeiras impressoes. Eis por que as criancas, o povo, as mulheres e os enfermos sao sujeitos a serem conduzidos pela sugestao. Por outro lado, e tola presuncao desdenhar ou condenar como falso tudo o que nao nos parece verossimil, defeito comum aos que estimam ser mais dotados de razao que o homem normal (Montaigne, 2004, p. 174, grifos do autor).

A operacionalizacao da educacao torna-se, pois, sob tal perspectiva, uma pedagogia cetica, para a qual nao existem fundamentos, finalidades ou metodologias inquestionaveis, ou acima de qualquer suspeita; isto e, Montaigne, como um dos representantes modernos da filosofia cetica, estabelecendo que nada ha em que se possa cegamente confiar, alega, indiretamente, que nao se deve acreditar que a educacao tenha poderes plenos ou absolutos sobre o desenvolvimento do ser humano, razao pela qual so lhe restaria atuar no ambito daquilo que seria, no maximo, provavel, a partir do que se pode auferir pela vivencia, apesar da probabilidade nao ser tambem, por sua vez, algo a que se deva aquiescer sem quaisquer restricoes.

Alem de seu cepticismo lapidar, Montaigne tambem oferece de si proprio a imagem de um filosofo adepto do estoicismo (3), uma vez que, criticando a enfase desnecessaria dada a memorizacao, muito em voga na pratica educativa de sua epoca, questiona a razao pela qual uma mente na qual estao alojados tantos conhecimentos nao consegue, em contrapartida, servir-se deles para se aprimorar moralmente:

"Mas como pode ocorrer que uma alma enriquecida de tantos conhecimentos nao se torne mais viva e esperta, e que um cerebro vulgar e grosseiro armazene, sem se apurar, as obras e juizos dos maiores espiritos que o mundo produziu?" (Montaigne, 2004, p. 138).

Isso constitui, pois, um grave dano nao apenas ao conhecimento, mas tambem a moralidade, haja vista que esse modo pelo qual se ensina e se aprende, apesar de tornar as pessoas mais doutas, deixa-as incapazes de se aperfeicoarem, nao apenas intelectualmente (ja que cultivar a memoria nao implica, necessariamente, desenvolver o intelecto), mas, sobretudo, moralmente:

Pelo modo como a aprendemos nao e de estranhar que nem alunos nem mestres se tornem mais capazes embora se facam mais doutos. Em verdade, os cuidados e despesas de nossos pais visam apenas encher-nos a cabeca de ciencia; de bom senso e virtude nao se fala. Mostrai ao povo alguem que passa e dizei 'um sabio' e a outro qualificai de bom; ninguem deixara de atentar com respeito para o primeiro. Nao mereceria essa gente que tambem a apontassem gritando: 'cabecas de pote!' Indagamos sempre se o individuo sabe grego e latim, se escreve em verso ou prosa, mas perguntar se se tornou melhor e se seu espirito se desenvolveu--o que de fato importa--nao nos passa pela mente. Cumpre entretanto indagar quem sabe melhor e nao quem sabe mais (Montaigne, 2004, p. 140, grifos do autor).

Aspectos da conjuntura quinhentista renascentista

Os Quinhentos constituem um seculo em que se vivencia, paralelamente, na Europa:

a) o esplendor cultural, desencadeado e disseminado pelo Renascimento, que, a partir de meados do Seculo XIV, trouxe, sob os auspicios do Humanismo, uma renovacao cultural de carater intelectual, filosofico, cientifico, artistico e literario sem precedentes. A guisa de melhor delimitar o que aqui se entende por Humanismo, observa-se que, conforme frisa o historiador britanico Peter Burke,

Humanismo e um termo bastante elastico, com diferentes significados para diferentes pessoas. A palavra Humanismus comecou a usar-se na Alemanha no principio do seculo XIX para designar o tipo tradicional de educacao classica cujo valor comecava a ser posto em causa, parecendo ter sido Mathew Arnold o primeiro a usar o termo em ingles. Quanto a 'humanista', a palavra teve origem no seculo XV como calao estudantil referindo-se ao professor universitario de 'humanidades', os studia humanitatis. Esta era uma antiga expressao romana para descrever um programa academico composto especificamente por cinco disciplinas: Gramatica, Retorica, Poesia, Etica e Historia (Burke, 2008, p. 25, grifo do autor).

b) a expansao maritimo-comercial, franqueada pelas Grandes Navegacoes que, alem de trazer ao continente vultosas riquezas oriundas da exploracao colonial do Novo Mundo ao ocidente e do comercio com as Indias ao Oriente, ampliou, sobremodo, a percepcao de mundo do homem europeu. Em sua proverbial desconfianca cetica, Montaigne assim se refere a um relato que lhe fora feito por alguem que vivera em uma colonia francesa fundada no Brasil:

Durante muito tempo tive a meu lado um homem que permanecera dez ou doze anos nessa parte do Novo Mundo descoberto neste seculo, no lugar em que tomou pe Villegaignon e a que deu o nome de 'Franca Antartica'. Essa descoberta de um imenso pais parece de grande alcance e presta-se a serias reflexoes. Tantos personagens eminentes se enganaram acerca desse descobrimento que nao saberei dizer se o futuro nos reserva outros de igual importancia. Seja como for, receio que tenhamos os olhos maiores do que a barriga, mais curiosidade do que meios de acao. Tudo abracamos, mas nao apertamos senao vento (Montaigne, 2004, p. 193, grifo do autor).

c) a ruptura da unidade religiosa crista ocidental, promovida pela Reforma Protestante, a qual, alem de dividir os cristaos ocidentais em catolicos (papistas) e reformados (protestantes), comprometeu gravemente a influencia politica da Igreja Catolica Apostolica Romana sobre alguns importantes Estados Europeus, minando, progressivamente, a intervencao do Papado nos rumos da politica continental. O bom exito da Reforma explica-se, segundo Cambi, pelos seguintes fatores:

Na sua base, existem motivos de ordem religiosa como a aversao pela hierarquia eclesiastica considerada responsavel pela desordem disciplinar e pela corrupcao moral que dominam a Igreja de Roma, e sobretudo a aspiracao generalizada a um retorno ao autentico espirito do 'cristianismo das origens', do qual as escolas teologicas medievais e a pratica religiosa haviam afastado grande parte dos fieis. Mas existem tambem motivos de ordem social e economica como a 'crescente hostilidade da burguesia financeira dos varios paises' pelo fiscalismo papal e, na Alemanha, 'o nascente sentimento nacional', 'as agitacoes sociais que movimentam as massas camponesas contra os grandes proprietarios de terras' e o protesto dos novos intelectuais laicos (Cambi, 1999, p. 247, grifos do autor).

d) a reacao da Santa Se a sistematica perda de dominio religioso e, consequentemente, politico, concretizada pela Contrarreforma, a qual, alem de reafirmar a autoridade papal e a dogmatica eclesiastica oficial catolica, implementou alteracoes em seu proprio seio, cujo proposito era recuperar fieis perdidos no movimento protestante e impedir que o mesmo conquistasse fieis nas terras recem-descobertas. Cambi, citando Geymonat, alega que as bases do movimento contrarreformista sao:

[...] as fortissimas pressoes politicas exercidas sobre a Igreja pelos proprios monarcas fieis ao catolicismo, as resistencias interpostas a qualquer iniciativa autenticamente reformadora por parte de muitos prelados conservadores, o enrijecimento das novas Igrejas protestantes e a propria forma da luta aberta entre elas e a Igreja romana (Geymonat apud Cambi, 1999, p. 256).

e) as mudancas almejadas pelos humanistas no ambito do pensamento filosofico e cientifico, que, ao tentar romper com o paradigma escolastico aristotelico-tomista, procuravam construir um novo modelo de interpretacao da natureza e do ser humano, paradigma tal nao mais sujeito a teologia e tendo como duplo alicerce a razao e a experiencia; disso resultou uma 'verdadeira' Revolucao Cientifica (4). A partir de entao, o binomio razao-experiencia assume, pois, uma importancia sem precedentes para a historia do pensamento, porquanto a filosofia e a ciencia, predominantemente especulativas, ate entao hegemonicas e ortodoxas, serao, sistematicamente, substituidas por uma filosofia e por uma ciencia muito mais interessadas no mundo empirico, cuja observacao constituira a pedra de toque do raciocinio. A experiencia ganha, entao, um poderoso status cientifico, ao ser elevada a criterio maximo para se auferir coerencia racional ao pensamento teoretico. Conforme frisa Cassirer, "A experiencia nao mais constitui a oposicao e o polo oposto a forca fundamental do conhecimento teorico, a razao cientifica; ela representa, isso sim, seu meio por excelencia, seu campo de acao e sua confirmacao" (Cassirer, 2001, p. 279).

f) a introducao da Prensa Movel, por Gutemberg, inventada no Seculo XV e que se tornou um dos elementos-chave na propagacao de novas ideias, acelerou o processo de transformacao da mentalidade europeia, ao possibilitar acesso a informacao por um publico mais amplo, o qual, por sua vez, aderia ao proposito de somar forcas no sentido de reivindicar mudancas em prol de uma nova ordem social, economica e politica. Apesar de nao ter sido um acontecimento que, em curto e em medio prazo, teria sido tao influente na propagacao do movimento renascentista, de acordo com Burke,

[...] pode pelo menos dizer-se que a longo prazo a invencao da imprensa aumentou a disponibilidade de informacao, alargando assim os horizontes mentais e estimulando atitudes criticas em relacao a autoridade ao tornar mais visiveis as discrepancias entre diferentes autores (Burke, 2008, p. 100).

Uma vez que a Renascenca encontra-se, indissociavelmente, vinculada ao Humanismo, a polissemia que esses dois termos comportam, por serem denominacoes que descrevem acontecimentos complexos e heterogeneos, conduz a esta advertencia de Debus, para o qual:

Os proprios termos 'Renascimento' e 'Humanismo' tem sido empregados com conotacoes tao diversas que e pouco provavel que uma unica definicao satisfaca simultaneamente dois estudiosos. Nao e necessario tenta-lo aqui. O Renascimento implicou, sem duvida, uma especie de 'renascer' do conhecimento--tanto da arte como da literatura. Correspondeu tambem, seguramente, ao periodo de desenvolvimento de uma nova ciencia. Tendo admitido isto, e necessario ser cuidadoso para evitar simplificacoes. O novo amor pela natureza expresso por Petrarca (falecido cerca de 1374) e por outros humanistas do seculo XIV produziu mais do que um efeito. Aceitamos sem dificuldade que foi um instrumento no desenvolvimento de um novo estudo dos fenomenos naturais baseado na observacao, mas sabemos tambem que Petrarca e os humanistas posteriores nutriam uma profunda desconfianca pela tradicional enfase escolastica na filosofia e nas ciencias. A retorica e a historia preferidas por eles correspondiam a uma resposta consciente aos estudos 'aristotelicos' mais tecnicos, que constituiam ha muito o suporte da universidade medieval. Os humanistas buscavam o aperfeicoamento moral do homem e nao tanto as discussoes logicas e escolasticas, caracteristicas do ensino superior tradicional (Debus, 2002, p. 2, grifos do autor).

Destarte, Debus afirma que tanto o Renascimento como o Humanismo sao os dois termos capitais que expressam a nova conjuntura que se formava em meados dos Trezentos, em contraposicao ao contexto medieval; ou seja, ambos constituem a concepcao de vanguarda da moderna civilizacao ocidental, segundo a qual o ser humano e colocado como algo que vale por si proprio, motivo pelo qual tudo aquilo que e peculiarmente humano e ressaltado em si mesmo, de maneira que o homem torna-se, sob tal perspectiva, o eixo em torno do qual gravita todo e qualquer tipo de especulacao e de acao. Consequentemente, o Humanismo pode ser considerado, com toda justica, a ideia central a partir da qual o Renascimento encontra a sua fundamentacao e a sua legitimacao. A seguinte passagem sintetiza o perfil desta cultura renascentista, em contraste com o seu predecessor imediato, qual seja, a cultura medieval, a qual se opunha, apesar de com ela nao conseguir romper totalmente:

Em aberta polemica com a tradicao medieval e escolastica, toda propensa a valorizar o papel da transcendencia religiosa e a colocar o individuo dentro de uma rigida escala social, a nova civilizacao concebe o homem como 'senhor do mundo' e ponto de referencia da criacao, 'copula do universo' e 'elo de conjuncao do ser'. Um homem nao irreligioso, portanto, que nao exclui Deus, mas que volta as costas aos ideais da ascese e da renuncia, pronto para imergir no mundo historico real com o intento de domina-lo e nele expandir sua propria humanidade. O homem da nova civilizacao, uma vez adquirida a consciencia de poder ser o artifice de sua propria historia, quer viver intensamente a vida da cidade junto com seus semelhantes; para isso, mergulha na vida civil, engajase na politica, no comercio e nas artes exprimindo uma visao harmonica e equilibrada dos aspectos multiformes dentro dos quais se desenvolve a atividade humana. E aqui que se faz evidente a diferenca com o passado. O mundo nao e mais o lugar de expiacao e de pena, mas a expressao da forca reativa e do espirito de iniciativa do homem. Este nao e mais o asceta, o cavaleiro medieval da fe, mas o mercador, o pratico homem de negocios, aquele que exprime a sua atividade no mundo e nele verifica o sentido da sua operosidade. Nascem daqui uma nova concepcao de virtude, exemplarmente expressa pelo termo 'humanitas', e uma nova escala de valores eticos e sociais na qual nao existe mais lugar para a tradicional hierarquia nobiliarquica e eclesiastica (Cambi, 1999, p. 224-225, grifo do autor).

Os principais teoricos ligados ao movimento humanista proclamaram, em coro, cada qual, porem, a seu modo, o primado de tudo aquilo que se refere especificamente a dimensao humana, ressaltando, pois, a sua dignidade ou o seu valor. Alem do proprio Montaigne, Francesco Petrarca (1304-1374), Marsilio Ficino (1433-1499), Erasmo de Roterda (1466-1536), Pico della Mirandola (1463-1494), Francois Rabelais (1494-1553), Thomas Morus (1478-1535), dentre outros autores, entraram para a historia como intelectuais cujas obras foram voltadas para o tratamento da problematica genuinamente humana. Estes autores se empenharam em discutir, sob varias perspectivas, o que, de fato, significava ser humano, no ambito desse novo modelo de humanidade que ora se plasmava, o qual, por sua vez, direcionou o espirito da epoca a refletir acerca da educacao:

A nova concepcao antropologica tem necessidade de condicoes inovadoras que garantam sua realizacao. Por isso, o interesse da nova epoca e pela problematica educativa tanto no nivel teorico quanto no pratico. Nao sao apenas educadores e pedagogos que dedicam atencao a essa problematica, mas tambem literatos, politicos, representantes da nascente burguesia (mercadores, artesaos, banqueiros). Pode-se dizer que toda a producao educativa dos seculos XV e XVI, malgrado sua descontinuidade quanto a orientacoes e valores, e caracterizada por uma profunda aspiracao a dar forma e concretude ao novo ideal de homem (Cambi, 1999, p. 225).

Sob os auspicios do Humanismo, o Renascimento tambem trouxe consigo uma autentica Revolucao Cientifica; o ponto inicial desta foi dado pela Astronomia, no interior da qual o Geocentrismo Ptolomaico foi, em principio, contestado, embora hipoteticamente, pelo Heliocentrismo Copernicano. Alem disso, os experimentos de renomados cientistas, como: Tycho Brahe (1546-1601), Johannes Kepler (1571-1603) e Galileu Galilei (1564-1642), alem de endossar e aprimorar a teoria heliocentrica de Nicolau Copernico (1473-1543), alavancaram as pesquisas tanto da Astronomia, em particular, quanto da Fisica, em geral, as quais, por sua vez, atingiram o seu apice no Seculo XVIII, com os trabalhos de Sir Isaac Newton (1643-1727), consolidando-se, pois, os fundamentos da moderna ciencia natural.

Ademais, essa revolucao nao poderia ter sido mais bem-sucedida se nao tivesse o previo aporte de duas grandes vertentes do pensamento filosofico moderno: o Racionalismo e o Empirismo. Apesar dos embates epistemologicos entre os teoricos de um e de outro, todos confluiam para a defesa do progresso da ciencia, a qual, por sua vez, ainda era considerada parte da filosofia; prova disso sao os trabalhos de Rene Descartes (1596-1650), de Francis Bacon (1561-1626), de John Locke (1632-1704) e de Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), para citar apenas alguns dos mais renomados.

A nova filosofia-ciencia de matriz racionalista-empirista colocava em xeque seculos de uma tradicao filosofico-cientifica que, ate entao, limitava-se, sobretudo, a apoiar as pesquisas feitas, principalmente, por Aristoteles (384-322 a.C.), antigo filosofo grego cujo pensamento era oficialmente defendido pela Igreja Romana (interpretado pela filosofia escolastica), motivo pelo qual um ataque direto ao aristotelismo escolastico significava um ataque indireto ao Papado. Consequentemente, demonstrar a equivocidade do pensamento aristotelico, enviesado pela hermeneutica escolastica, implicava derrogar a autoridade eclesiastica em materia filosofico-cientifica, o que se tornou algo muito arriscado ou perigoso, considerando-se a reacao de certos membros da hierarquia da Igreja. Estes eram, via de regra, reacionarios, retrogrados ou hostis para com aqueles que ousavam contrariar-lhes a ortodoxia, ainda que se tratasse de uma releitura do aristotelismo, uma vez que, a partir da Renascenca, novas interpretacoes das obras do Estagirita vieram a tona.

As transformacoes pelas quais passavam as concepcoes de mundo e de ser humano na Europa tambem foram propiciadas pelas Grandes Navegacoes, as quais, alem de transferir o seu centro de comercio maritimo para os Oceanos Atlantico, Pacifico e Indico, fizeram com que os europeus tomassem cada vez mais contatos com culturas bem diferentes da sua, ampliando e alterando, a sua percepcao do universo e, simultaneamente, de si proprios.

A medida que os relatos das expedicoes navais traziam noticias de novas terras, de povos desconhecidos, de habitos intrigantes, de costumes exoticos, de linguas estranhas, de plantas inauditas e de animais diferentes, dentre tantas outras coisas tidas ate entao como 'escalafobeticas', os conhecimentos adquiridos a partir de tais experiencias tornaram-se inevitaveis, levando as mentes europeias, sobretudo as mais perspicazes, a repensarem os seus saberes, as suas certezas ou as suas verdades; por tal razao, Montaigne, referindo-se aos povos recem-descobertos pelos europeus, argumenta que

Esses povos nao me parecem, pois, merecer o qualificativo de selvagens somente por nao terem sido senao muito pouco modificados pela ingerencia do espirito humano e nao haverem quase nada perdido de sua simplicidade primitiva. As leis da natureza, nao ainda pervertidas pela imiscao dos nossos, regem-nos ate agora e mantiveram-se tao puras que lamento por vezes nao as tenha o nosso mundo conhecido antes, quando havida homens capazes de aprecia-las (Montaigne, 2004, p. 196).

Montaigne pode ser contado entre tais mentes, inquietas e inquiridoras, considerando-se o seu perfil de pensador que, diante de uma epoca profundamente marcada por incertezas e descobertas interminaveis, materializa um espirito que, simultaneamente, questiona e relativiza os valores sobre os quais se erigira a civilizacao na qual esta inserido, uma vez que considera que "Nossos julgamentos estao longe de ser justos, porquanto se ressentem da depravacao dos nossos costumes" (Montaigne, 2004, p. 214).

Desse modo, o ensimesmado ensaista frances mostrase como alguem que, percebendo a decadencia de seu mundo medieval, feudal, teocentrico, fechado e finito, faz disso um dos seus principais motes para refletir acerca de sua condicao pessoal e particular, diante de uma nova realidade cultural, progressivamente moderna, mercantilista, antropocentrica, aberta e infinita, que tambem e a sua e que, igualmente, nao a considera menos decadente, ja que "Nosso seculo, pelo menos no meio em que vivemos, e tao viciado que nao somente nao pratica a virtude como ainda nao a concebe sequer. Dir-se-ia que ja nao passa ela de jargao academico" (Montaigne, 2004, p. 213).

Oscilando entre o Medievo e a Modernidade, Montaigne, ao descrever-se a si mesmo, projeta em seus Ensaios uma faceta da indole do homem humanista ou renascentista, que, nao mais se sentindo firmemente amparado pela seguranca inquestionavel da crenca religiosa, auspiciada pela teologia, reconhece-se, definitivamente, entregue a propria razao e experiencia, a partir das quais precisa fazer uso para tentar construir o seu conhecimento, imperfeito e parcial, do qual, todavia, precisa para poder julgar acerca de qual posicao assumir ou de qual acao tomar; destarte, Montaigne mostra-se conscio de que "O conhecimento nao apresenta a realidade tal como ela e, de maneira absolutamente neutra, mas a representa, ou seja, refere-se a mesma a partir de uma perspectiva determinada, imbuida de certos valores" (Wolter, 2007, p. 159).

Ainda que recorra a tradicao greco-latina, haja vista o volumoso conjunto de autores helenos e romanos que cita em seus Ensaios, Montaigne ja nao mais o faz nos moldes medievais dogmaticos, com empafia autoritaria, mas sim nos parametros modernos ceticos, servindo-se nao raro ate mesmo com certa dose de ironia e sempre sugerindo que nada mais e irrepreensivel, motivo pelo qual tudo se tornou passivel de observacao e, principalmente, de contestacao ou de duvida: "Assim, leitor, sou eu mesmo a materia deste livro, o que sera talvez razao suficiente para que nao empregues teus lazeres em assunto tao futil e de tao minima importancia" (Montaigne, 2004, p. 31).

Inserindo-se no ambicioso projeto renascentista de conjugar o proposito de retornar aos antigos classicos greco-latinos, exaltando-lhes a magnitude, com o escopo de criar algo novo a partir de entao, sob a sua inspiracao, Montaigne, ao conclamar, em seus Ensaios, para a autoconsciencia, cujo exemplo ele proprio oferece, sintetiza o ideal humanista, porquanto "[...] a propria ideia de Renascimento so pode ser compreendida em sua verdadeira significacao se conseguimos captar este movimento de retomada que resulta na criacao de algo novo; movimento este, o qual, por outro lado, e possibilitado por uma tomada de consciencia acerca de si mesmo" (Azar Filho, 1999, p. 10).

Ao proclamar a sua autoinvestigacao, Montaigne convida a autorreflexao, que cada individuo deve fazer de si mesmo e, consequentemente, deslindar a condicao universal humana, porquanto ocupar-se de si proprio e tarefa capital, na qual cada um cabe empenhar-se: "Meu oficio, minha arte, e viver; quem me censura falar disso segundo meu sentimento, a experiencia que tenho e o emprego que dou, proiba a um arquiteto referir-se as suas proprias construcoes, obrigando-o a comenta-las de acordo com as de outrem" (Montaigne, 2004, p. 326).

Os ventos que fizeram soprar o Humanismo, ao levarem a contestacao do pensamento filosofico e cientifico, de respaldo eclesiastico, geravam, igualmente, inquietacoes e disputas entre os intelectuais, uma vez que havia, por um lado, pensadores apoiando as teorias aceitas pela Igreja e, por outro, autores desenvolvendo doutrinas e experimentos que tornavam cada vez mais impraticavel considerar-se o Papado uma autoridade inabalavel, nao apenas em materia religiosa, mas igualmente em questoes de ordem filosofica e cientifica. Perante tal conjuntura, Montaigne assim se expressa:

No que diz respeito a grande querela que nos divide atualmente, em que ha cem artigos a suprimir ou a introduzir e todos de primeira importancia, so Deus sabe quantas pessoas podem vangloriar-se de terem estudado as razoes essenciais, a favor ou contra, de cada partido. O numero de individuos escrupulosos e limitado, se e que existem; e nao foram eles feitos para nos perturbar. Mas fora deles toda essa multidao para onde vai? A Reforma produz o efeito de todo remedio pouco eficiente e mal ministrado: os humores de que procura livrar-nos, ele os excita e os amargura; e eles continuam em nos. Nao nos pode purgar na sua fraqueza, e nos enfraquecem entretanto; e de sua acao tiramos apenas infinitas dores internas (Montaigne, 2004, p. 128).

Apesar de considerar-se um catolico romano convicto (5) e avesso ao movimento reformista, conforme demonstra a passagem supracitada, Montaigne expressa a sua desconfianca em relacao a este choque constante de opinioes, preferindo admitir que, dada a instabilidade do julgamento humano, o mais sensato a fazer seria abster-se de tais querelas, para que haja mais paz, haja vista serem elas responsaveis por tantas violencias e atrocidades, desencadeadas a partir da Reforma e da Contrarreforma. O motivo pelo qual Montaigne argumenta em favor da inutilidade ou da esterilidade das disputas, sejam elas de que naturezas forem, repousa no fato de que

Nossa maneira habitual de fazer esta em seguir os nossos impulsos instintivos para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, segundo as circunstancias. So pensamos no que queremos no proprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o camaleao. O que nos propomos em dado momento, mudamos em seguida e voltamos atras, e tudo nao passa de oscilacao e inconstancia. 'Somos conduzidos como titeres que um fio manobra' (Montaigne, 2004, p. 292, grifo do autor).

A Reforma, cujo mentor foi o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546), principiou por uma mobilizacao em prol da moralizacao interna da Igreja Romana, a qual, na sua visao, bem como na de varios outros contemporaneos, tinha sido seduzida pelo poder da politica, do luxo, da riqueza e da ostentacao. Na opiniao dos reformadores, a igreja teria se desviado, portanto, da sua verdadeira missao: anunciar a mensagem evangelica, segundo ideais de humildade, simplicidade, pobreza e caridade. Indignado, sobretudo, com a venda de indulgencias, pratica que veiculava a corrupcao eclesiastica, Lutero, teologo de formacao, desenvolveu uma linha de pensamento e de acao, dedicando-se, principalmente, a extirpar o comercio com as coisas sagradas. Assim, em 31 de outubro de 1517, fixou as suas 'Noventa e Cinco Teses' na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, propondo uma discussao que afrontava a autoridade papal e a venda de indulgencias, dentre outros ensinamentos oficiais do catolicismo romano.

O projeto luterano de retorno as origens do cristianismo significou, a primeira vista, um ataque ao espirito renascentista de retomada da Antiguidade Classica. Burke, em contrapartida, sublinha, em relacao a Lutero, que

[...] nao se opunha ao Humanismo no sentido dos studia humanitatis. Ele proprio recebera uma educacao classica e aprovava o ressurgimento do ensino antigo, que acreditava ser promovido por Deus como preparacao para a reforma da Igreja. Apoiou ainda os esforcos do seu colega Philip Melanchthon para atribuir a universidade de Vitemberga um curriculo humanista (Burke, 2008, p. 69, grifo do autor).

O Papa Leao X (1475-1521) foi-lhe, inicialmente, indiferente ao movimento; depois, bastante hostil. Declarou-o heresiarca, condenou os seus escritos e, por fim, excomungou-o, apos varios anos de discussoes, em que Lutero era sempre coagido a ab-rogar suas conviccoes, mas sempre permaneceu irremovivel. A condenacao papal seguiu-se a imperial. Carlos V (1500-1558), do Sacro Imperio Romano-Germanico, expediu o Edito de Worms, que o declarava fugitivo e herege, assim como proscrevia os seus livros. Contudo, foi protegido pelo Principe Frederico III, o Sabio (1463-1525), Eleitor da Saxonia, que, embora permanecendo catolico romano, ofereceu-lhe abrigo no Castelo de Wartburg, apos a Dieta de Worms, que culminou na condenacao do movimento reformista, inaugurando-se, pois, um periodo sangrento entre catolicos e protestantes.

Diante da inevitavel perda de fieis, a Igreja Romana organizou o seu contra-ataque. Em 1543, o Papa Paulo III (1468-1549) convocou o Concilio de Trento (1545-1563), tambem conhecido como Concilio da Contrarreforma. A partir deste, foram lancadas as bases para a reestruturacao interna do catolicismo romano, assim como foram reafirmados dogmas eclesiasticos contestados pelos protestantes. Mais que uma reacao ao movimento reformista, o Concilio Tridentino significou, sobretudo, uma renovacao sem precedentes no seio da Igreja Catolica que, a partir de entao, reforcou a sua unidade dogmatica, hierarquica e disciplinar, assim como a tornou mais ciosa da importancia da moralidade das suas praticas, razao pela qual as vendas de indulgencias foram definitivamente banidas. Alem disso, a autoridade papal, rejeitada pela Reforma, foi reafirmad. O Tribunal do Santo Oficio, tambem conhecido como Santa Inquisicao ou, simplesmente, Inquisicao, foi reativado; textos biblicos e documentos eclesiasticos refutados pelos protestantes tiveram a sua aceitacao oficialmente reconfirmada. Foi organizado o Index Librorum Prohibitorum (Index dos Livros Proibidos), uma relacao de titulos de livros cuja leitura era condenada; um novo breviario, o Breviario Romano (Livro Oficial de Oracoes, atualmente conhecido como Liturgia das Horas), e um novo catecismo, o Catecismo Romano (Livro Oficial de Instrucao Crista) foram editados. Ressalta-se ainda que e nesta epoca que e fundada a 'Companhia de Jesus' (Societas Jesu), tambem conhecida como 'Ordem Jesuitica', cujo proposito capital era combater a favor do catolicismo romano, seja no ambito da propria cristandade europeia (impedindo a propagacao de credos protestantes), seja no ambito nao cristao (evangelizando os povos pagaos para converte-los ao cristianismo catolico); para tanto, foi decisiva a sua atividade pedagogica, sistematizada em sua obra conhecida como Ratio Studiorum.

Em sintese, os diferentes aspectos do Renascimento aqui mencionados (quais sejam: o Humanismo, as Grandes Navegacoes, a Reforma e a Contrarreforma) talvez nao tivessem tido repercussao tao rapida se nao fosse a Prensa Movel de Gutenberg. Gracas a ela, os livros, que ate entao so podiam ser manuscritos ou copiados por um restrito numero de especialistas (geralmente monges, denominados 'copistas' ou 'amanuenses') puderam, a partir de entao, ser impressos, motivo pelo qual nao so cresceu o volume de obras publicadas, mas tambem a qualidade dos seus textos. Embora, no Seculo XVI, a maioria da populacao europeia fosse analfabeta, os circulos letrados beneficiaram-se deste crescimento bibliografico quantitativo e qualitativo, considerando-se a rapidez com a qual circulavam titulos que, simultaneamente, disseminavam e laicizavam a cultura. Destarte, a Prensa Movel contribuiu para a quebra do monopolio cultural eclesiastico, franqueando a aristocracia e a burguesia seculares o acesso a um universo intelectual ate entao restrito ao Clero. No entanto, salienta-se que a disseminacao e a laicizacao da cultura em questao nao implicaram o desenvolvimento do moderno modelo cientifico na mesma proporcao, uma vez que, de acordo com Woortmann, o qual, por sua vez, apoiando-se noutro autor por ele indiretamente citado, alega que:

A propria invencao da imprensa, contrariamente ao que se poderia imaginar, militou contra o espirito cientifico emergente pois, nos primeiros tempos, serviu para afirmar a predominancia da palavra escrita sobre os fatos e a experimentacao. A imprensa difundia, alem da Biblia--tornando as Escrituras Sagradas mais poderosas--os textos da ciencia da Antiguidade e os relatos fabulosos de viajantes, repletos de seres monstruosos. Alem disso, como mostra Minois (1990), a hegemonia do escrito sobre a experiencia e revelada pela defasagem entre as descobertas geograficas e seu registro em livros cientificos (Woortmann, 1996, p. 8).

Consideracoes finais

Espera-se que estas consideracoes acerca das ideias filosoficas e educacionais de Montaigne, vinculadas ao seu contexto historico, suscitem reflexoes no tocante a problematica da fundamentacao teorica da educacao. As formulacoes de Montaigne permitem conceber a pedagogia como uma atividade que, malgrado os incansaveis esforcos especulativos e pragmaticos de seus profissionais, trata de algo que comporta limites, falhas, preconceitos e imperfeicoes de diversas ordens, motivo pelo qual a pedagogia jamais devera ser considerada um receituario inconteste ou dogmatico para a formacao do ser humano, mas sim, um guia para o seu autoaperfeicoamento.

O cepticismo intelectual e o estoicismo moral de Montaigne permanecem como alertas contra possiveis enganos, ilusoes ou equivocos causados por concepcoes que nao questiona ate que ponto o saber e confiavel. O mesmo modo que fazem ignorar a importancia da formacao da conduta humana. Que o presente texto contribua para que se possa suscitar reflexoes sobre a problematica da fundamentacao teorica da educacao, em prol de uma pratica pedagogica que usufrua das contribuicoes teoricas da filosofia.

A educacao pautada pelo cepticismo e pelo estoicismo, como a preconizada por Montaigne, consiste em duvidar que a educacao, por si mesma, resolva os mais profundos desafios humanos. Em contrapartida, sua proposta educacional nao hesita em defender a virtude, porquanto ela e indispensavel para o aprimoramento do proprio ser humano. Ademais, pela virtude instaurar-se-a a liberdade humana, posto que um individuo virtuoso nao tera a sua mente subserviente a preconceitos, a erros, a supersticoes e a coisas do genero. A virtude, forca que propulsiona o progresso intelectual e moral da natureza humana, e aquilo que liberta de paixoes que predispoem ao vicio; logo, e palmilhando a senda da virtude que a humanidade podera alcar os patamares mais elevados do proprio desenvolvimento. Outrossim, a educacao cetica e estoica do ensaista e um apelo a busca pela sabedoria, a qual se orienta para a aquisicao da virtude, que, por sua vez, e a chave para a libertacao das imperfeicoes caracteriza a natureza humana.

Doi: 10.4025/actascieduc.v38i4.26518

Agradecimentos

Artigo oriundo de projetos de pesquisa que contam com o apoio da CAPES/OBEDUC (Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior/Observatorio da Educacao), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico) e da FAPEMIG (Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais).

Referencias

Azar Filho, C. M. (1999). Consideracoes esparsas sobre a relacao entre virtude, natureza e educacao no renascimento. Principios: Revista de Filosofia, 7(1), 03-28.

Burke, P. (2008). O Renascimento. Lisboa, PT: Edicoes Texto & Grafia.

Cambi, F. (1999). Historia da Pedagogia. Sao Paulo, SP: Unesp.

Cassirer, E. (2001). Individuo e cosmos na filosofia do Renascimento. Sao Paulo, SP: Martins Fontes.

Debus, A. G. (2002). O homem e a natureza no Renascimento. Porto, PT: Porto Editora. 2002.

Koyre, A. (2006). Do mundo fechado ao universo infinito. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitaria.

Montaigne, M. (2004). Ensaios (Vols. 1-2). Sao Paulo, SP: Nova Cultural.

Wolter, K. M. (2007). Um estudo sobre a relacao entre filosofia cetica e criacao ensaistica em Michel de Montaigne. Revista Dois Pontos, 4(2), 159-170.

Woortmann, K. (1996). Religiao e ciencia no Renascimento. Brasilia, DF: Universidade de Brasilia. Recuperado de: http://vsites.unb.br/ics/dan/Serie200empdf.pdf

Received on February 5, 2015. Accepted on October 27, 2015.

Gustavo Araujo Batista

Universidade de Uberaba, Av. Nene Sabino, 1801, 38055-500, Bairro Universitario, Uberaba, Minas Gerais, Brasil. * Autorpara correspondencia.

E-mail: mrgugaster@gmail.com

(1) Inclui-se aqui cinco outros acontecimentos Imprescindiveis para a compreensao desse contexto historico, quais sejam: as Grandes Navegacoes, a Reforma Protestante, a Contrarreforma Catolica, a Revolucao Cientifica e a Prensa Movel).

(2) O cepticismo, como doutrina filosofica, tem as suas origens com Pirro de Elis (ca. 360 a.C-270 a.C), mas suas ideias fundamentais ja se encontravam entre os sofistas; o termo cetico deriva de skeptikos, que, em grego, significa: aquele que investiga. Ao formular o seu pensamento, o filosofo grego estabelece, como seu fundamento, dois principios, a saber: a) 'acatalepsia' (impossibilidade do conhecimento da natureza propria das coisas, pois tanto a afirmacao quanto a negacao do que quer que seja tem argumentos igualmente validos, razao pela qual igualmente se deve suspender todo e qualquer tipo de juizo (epoque), porquanto nao ha afirmacao ou negacao qualquer que seja melhor do que outra); b) 'ataraxia' (despreocupacao, haja vista que, perante a contradicao da realidade, e inutil aborrecer-se ou inquietar-se por causa dela, razao pela qual a conduta mais adequada seria a de nao se incomodar com coisa alguma). Pirro teve seguidores, que ficaram conhecidos como pirronicos, da mesma forma que suas ideias influenciaram filosofos platonicos da Academia, de modo que, ao final, estabeleceram-se dois tipos de cepticismo, a saber: a) o cepticismo pirronico (derivado diretamente das ideias de seu fundador); b) o cepticismo academico (conjugacao do pirronismo com o platonismo).

(3) O estoicismo foi fundado por Zenao de Cicio (333 a.C-263 a.C.); o termo estoico deriva da palavra grega stoa, que significa: portico; logo, o estoico e o filosofo dos porticos, ja que era neles que o escolarca Zenao e os seus discipulos reuniam-se, em Atenas. Em sintese, o estoicismo dividiu a filosofia em tres partes, a saber: a) Fisica: estudo da natureza ou da ordem universal e racional; b) Logica: estudo das leis da razao para se chegar a verdade; c) Etica: estudo daquilo que o ser humano deve fazer e evitar. Os estoicos, que floresceram no periodo helenistico e tiveram expoentes entre os romanos (estoicismo imperial), destacaram-se, em geral, pelo seu ideal etico, isto e, a 'apatia', cujo significado e: imperturbabilidade, impavidez ou impassividade, seja perante a adversidade, seja perante a prosperidade, uma vez que, acima de tudo, importa curvar-se ao cumprimento do dever, que e aquilo que a razao determina ser feito ou evitado, porquanto a virtude significa agir racionalmente.

(4) Esta expressao, cunhada por Alexandre Koyre (1892-1964), filosofo e historiador da ciencia, traduz uma reviravolta na concepcao da natureza ou da realidade inaugurada pela modernidade, haja vista que, segundo este autor, "Enquanto o homem medieval e o antigo visavam a pura contemplacao da natureza e do ser, o moderno deseja a dominacao e a subjugacao" (Koyre, 2006, p. 5).

(5) Eis uma citacao que o comprova: "Nos, 'catolicos', nos confessamos a Deus e ao nosso confessor, e os protestantes fazem-no em publico" (Montaigne, 2004, p. 326, grifo nosso).
COPYRIGHT 2016 Universidade Estadual de Maringa
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2016 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Batista, Gustavo Araujo
Publication:Acta Scientiarum. Education (UEM)
Article Type:Report
Date:Oct 1, 2016
Words:6395
Previous Article:Social representations related to primary school male teachers and the unavoidable associations with female teachers/Representacoes sociais...
Next Article:Evaluative culture: the impulse given by MERCOSUR to the consolidation of South American evaluation system/Cultura avaliativa: o impulso dado pelo...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2021 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |