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Editorial.

Foi na primeira metade do seculo XX que uma nova forma de encarar os problemas filosoficos tomou corpo e passou a desenvolver-se. O existencialismo, como seria conhecido principalmente a partir da filosofia de Jean-Paul Sartre, surge, na contemporaneidade, da preocupacao da relacao existencial dos individuos com as categorias ate entao apenas consideradas em seu carater abstrato. A partir dai, nao e suficiente o conhecimento correto, por assim dizer, dos conceitos filosoficos mas sim a relacao deste conhecimento com aquilo que e vivido, experienciado na vida cotidiana, como o conhecimento serve a vida, tornando-se entao eficaz e nao apenas acessorio.

Buscando sua inspiracao ainda nos pensadores do seculo XIX, como Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche, o existencialismo encontra seu lugar no seculo XX recebendo tambem influencia direta da fenomenologia de Edmund Husserl e Martin Heidegger. Com Simone de Beauvoir, Sartre e Albert Camus adicionou-se a esse conjunto o teatro, o romance, o conto e, principalmente, o ensaio como estilo de escrita para compreensao da realizacao da vida humana. Assim, o existencialismo estabeleceu-se como uma das principais doutrinas da filosofia pos Segunda Guerra Mundial, tendo influenciado pensadores que se tornarao fundamentais nas decadas porvir, como Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Merleau-Ponty e Michel Foucault.

Refletindo os sentimentos recorrentes do inicio do seculo passado, provocados pela inseguranca e desilusao com o futuro da humanidade gerado pelas duas grandes guerras, a industrializacao do trabalho, a desvalorizacao da vida de uns em detrimento de outros, o autoritarismo, etc., conceitos como angustia, desespero e desamparo sao retomados do seculo XIX pelos existencialistas do seculo XX a fim de compreender como o conhecimento caminha junto a existencia tornando-a mais liberta e menos servil. Nesse contexto a vida que caminha junto ao conhecimento faz-se mais urgente de maneira a estimular a procura por novas formas de vida, isto e, outras formas de realizacao individual e comunitaria que desembocam, necessariamente, em uma nova etica. Os valores metafisicos sao revisitados e reinterpretados, quando nao rejeitados, como no caso da essencia, que nao mais encontra um lugar anterior a propria criacao existencial do individuo humano.

E nesse contexto historico, tanto do pensamento como da humanidade como um todo, que surge uma das mais relevantes obras de literatura e filosofia do seculo: A Nausea, publicada por Sartre em 1938, que completou, no ano de 2018, 80 anos desde sua primeira publicacao, o que serviu de motivacao para a tematica do dossie da atual edicao de nossa revista. Em comemoracao, a Ekstasis: revista de fenomenologia e hermeneutica traz no presente numero seis artigos, alem de uma resenha e uma traducao, dedicados a analise do existencialismo e suas categorias em geral, bem como do existencialismo sartreano. Sobre A Nausea, a resenha realizada por Nathan Ramos Vieira nos apresenta uma analise de como os conceitos abordados literariamente nesta obra influenciam diretamente o desenvolvimento posterior da filosofia de Sartre em O existencialismo e um humanismo. O artigo de Rafael de Souza Pinheiro e Bruna Santos da Silva segue analisando a mesma obra, discorrem sobre como Sartre critica o determinismo psicologico, bem como a nocao de intimidade, presente em obras literaria francesas como as de Honore de Balzac e Marcel Proust.

O artigo de Deborah Moreira Guimaraes nos explicita, a partir da obra A transcendencia do Ego, as caracteristicas fundamentais da teoria sartreana da consciencia na passagem entre o projeto fenomenologico e o projeto etico de Sartre.

Com Marcio Gimenes de Paula voltamos ao seculo XIX a fim de compreender como o tema da subjetividade e a critica ao conceito de historia desenvolvidos por Kierkegaard aparecem na obra do existencialista frances.

Gustavo Fujiwara dedica-se a reflexao sobre o conceito de nada a partir de duas obras de Sartre, L'imaginaire, de 1940, e Carnets de la Drole de Guerre, escrito entre os anos de 1938 e 1940, e como o conceito aparece como um operador ontologico e fenomenologico da consciencia.

Rodrigo Benevides Barbosa Gomes traca o percurso da discussao epistemologica sartreana realizada em O Ser e o Nada, no qual Sartre defende que a deducao e a intuicao nao sao nada mais do que instrumentos para se chegar ao que pode, de fato, ser chamado de conhecimento: a intuicao.

Por fim, mas longe de ser o menos importante dos artigos aqui publicados, somos brindados com o artigo de Vincent de Coorebyter, professor da Universite Livre de Bruxelles, com traducao de Fernanda Alt.

Contamos ainda com as contribuicoes de Gabriel Lago de Souza Barros, Matheus Maia Schmaelter, Rita de Cassia Oliveira e Yonathan Listik enriquecendo a tematica central da revista Ekstasis com artigos sobre fenomenologia, a hermeneutica do pecado a partir de Lutero e Kierkegaard, Paul Ricoeur e Jean-Luc Nancy.

O intuito do vol. 7, n. 2 da revista Ekstasis e fomentar o interesse ao redor do tema do existencialismo em suas relacoes hermeneuticas e fenomenologicas, altamente relevantes para a compreensao do individuo em sua relacao consigo mesmo, com a sociedade e com toda a realidade ao seu redor, relacoes que permanecem vivas e determinantes para a existencia humana e que se atualizam diante das transformacoes provocadas por avancos tecnologicos, historicos e os diferentes modos de organizacao politicos que se manifestam no desenvolvimento deste ja tao complexo seculo XXI.

Boa leitura a todos!

por Dndo. Matheus Schmaelter e Dndo. Peter Franco de Souza matheus.lc@gmail.com epeterfranco@hotmail.com UERJ

DOI: 10.12957/ek.2018.43200
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Author:Schmaelter, Matheus; de Souza, Peter Franco
Publication:Ekstasis: Revista de Hermeneutica e Fenomenologia
Article Type:Editorial
Date:Dec 1, 2018
Words:886
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