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Editorial: Em Defesa das Publicacoes em Portugues.

Prezados leitores, recentemente adotamos a politica de publicar somente artigos em portugues. Aparentemente, tal medida vai na contramao do movimento que varios periodicos nacionais vem adotando para se internacionalizar, o que, em um primeiro momento, pareceria ilogico ou irracional. Mas, como apontarei aqui, alem das ja boas justificativas que outros colegas brasileiros ja apontaram para se produzir em portugues (Alcadipani, 2017; Bertero, Alcadipani, Cabral, Faria & Rossoni, 2013; Goulart & Carvalho, 2008), sem esquecer dos contrapontos daqueles que advogam um maior engajamento na producao em ingles (Cabral & Lazzarini, 2011; Diniz, 2017; Farias, 2017), adiciono mais dois argumentos: um logico, em que uma internacionalizacao plena de periodicos brasileiros paradoxalmente levaria a uma nao internacionalizacao da producao nacional; outro utilitario, em que evidencio que artigos publicados em portugues sao mais acessados, mais baixados e significativamente mais citados do que os de lingua inglesa e espanhola no Spell.

Devo ressaltar que o foco nao e criticar de uma forma geral o movimento de internacionalizacao da producao nacional, mas sim questionar especificamente as razoes pelas quais os periodicos nacionais vem abdicando de publicar na lingua mae para embarcar no vernaculo da lingua inglesa, com o anseio de almejar a terra prometida do leitor estrangeiro e, melhor ainda, ser citado no meio internacional. Assim, eu gostaria de comecar questionando se realmente uma citacao de um periodico internacional vale mais do que uma citacao de um periodico nacional.

Boa parte do discurso e da retorica acerca da internacionalizacao da producao parte do pressuposto de que a "boa" citacao e aquela que parte de periodicos internacionais e, melhor ainda, aquela que parte de periodicos bem ranqueados no fator de impacto do Journal Citation Reports (JCR). A vontade e tamanha da citacao internacional que, na maioria dos casos, nem se questiona a fonte da citacao. Basta ser citado, nao importa por qual periodico, desde que seja internacional. E ainda tambem nao importaria se essas citacoes fossem feitas por periodicos nacionais, desde que estivessem em bases internacionais como o JCR e o SCOPUS. Ou seja, trocando em miudos, nao importa a fonte da citacao, desde que ela afete as metricas dos indexadores tidos como referencia internacional. Ao ponto que se olharmos as citacoes recebidas em 2017 no JCR dos dois unicos periodicos brasileiros que temos na area de administracao, vemos, por exemplo, que das 20 citacoes recebidas para compor o impacto da Revista Brasileira de Gestao de Negocios (RBGN) (1), 7 sao de periodicos nacionais (35%) e os outros sao de periodicos de menor impacto ou ate fora do JCR (2), com muitos autores de origem asiatica, hispanica e italiana. Ja a Revista de Administracao de Empresas (RAE), com toda sua trajetoria e dominancia local no campo de administracao, tem um JCR tambem baixo, de 0,404, no qual das 38 citacoes recebidas, 17 sao de revistas nacionais (45%) e, das quais, 7 sao autocitacoes. As demais citacoes recebidas, como no caso da RBGN, tem em sua maioria autores de origem nao anglo saxonica.

O fato e que os dois casos praticos de internacionalizacao desses periodicos no indexador mais "respeitado" do mundo demonstram que a almejada citacao pelos veiculos de alto impacto nao ocorreu, levando-nos, pelo menos no estagio atual, a uma posicao ainda mais periferica no jogo da ciencia, ja que ha indicios de queda no protagonismo local em termos de uso das citacoes por autores nacionais (3). No jargao popular, tal internacionalizacao em curso indica uma preferencia "por ser rabo de tubarao ao inves de cabeca de sardinha". Ao meu ver, isso esboca a tendencia cada vez maior de subordinar o conhecimento local a uma logica internacional que nao tem nada a ver com o conteudo e a qualidade em si do que e produzido, mas sim porque ha um interesse em homogeneizar a roupagem de tal producao sob uma logica academica que e estruturada sob a egide de poucos centros legitimados como produtores do conhecimento.

Tais centros capturam o que e produzido nas periferias por meio de pesquisadores que atuam como atravessadores do conhecimento local, auferindo a esses ultimos o papel de brokers no processo de recolonizacao do conhecimento. Tais atravessadores usam muitas vezes o argumento dubio de que a forma correta de se internacionalizar e aquela induzida pelo modo que eles costumam operar, em detrimento de qualquer outra forma de internacionalizar, ou, ate mesmo, fazendo o jogo duplo de afagar os colegas localmente, mas distanciando-se deles internacionalmente, ate para manter sua posicao estrategica.

Talvez os problemas de internacionalizacao dos periodicos sejam devido as estrategias equivocadas ou nao suficientes. Como aponta o ex-editor da RAE, "na mesma medida em que os programas de pos-graduacao pressionam seus professores para publicarem 'internacionalmente', os periodicos nacionais tambem precisam se internacionalizar. Aqueles periodicos que nao forem proativos no contexto da internacionalizacao nao so continuarao invisiveis para autores estrangeiros, como tambem perderao importancia para um grupo relevante de autores brasileiros" (Diniz, 2017, p. 361). Entao, se a internacionalizacao nao somente ameaca nossa projecao global, mas tambem nosso dominio local, o que um periodico poderia fazer?

Segundo Diniz (2017), os periodicos comumente vem buscando: 1) publicar em ingles; 2) aderir a editoras comerciais estrangeiras; 3) investir em chamadas de trabalho internacionais. Em relacao a primeira estrategia, o que vemos de forma cada vez mais frequente sao periodicos nacionais abdicarem do portugues, aceitando publicacoes somente em ingles. Ha alguns poucos que sao bilingues e sustentam-se financeiramente, bem como alguns que empurram os custos da traducao para os autores. Independentemente de como, o pressuposto e de que um artigo em lingua inglesa alcancaria um publico maior. Sera mesmo? Creio que nao.

Como peca de comunicacao, um artigo cientifico disputa espaco com demais artigos. Assim, se considerarmos o universo de publicacoes em ingles em 2017 na area de management na base Crossref, que e a mais ampla internacionalmente, um artigo nacional publicado la fora disputaria a atencao com outros 134.984 artigos. No Spell, que e nacional, o mesmo artigo disputaria a atencao com outros 2.991 artigos. Em termos de probabilidades, considerando que o numero de autores internacionais, tomados como provaveis leitores com interesse nas areas de gestao e, hipoteticamente, 36,18 vezes maior que o nacional (4), a probabilidade de leitura de um artigo no Brasil ainda seria maior em 24,7%. Isso se desconsiderarmos ainda os efeitos de estratificacao e prestigio dos periodicos mais centrais, que sao poderosos em detrimento dos nacionais. Logo, nao daria para dizer que tal exposicao aumentaria as chances de um artigo ser lido e citado.

Acerca da segunda estrategia, que e o uso de editoras comerciais estrangeiras, Diniz (2017, p. 362) argumenta que e "fato que essas grandes editoras conseguem garantir a qualidade necessaria a disseminacao internacional do conhecimento cientifico. [...] Isso poderia sugerir que o caminho natural para nossos periodicos, que tambem querem ganhar um lugar de destaque junto aos principais periodicos internacionais, deveria ser mesmo o de migracao para uma grande editora." Estrategia que e corroborada por Farias (2017, p. 401), ex-editor da Brazilian Administration Review, apontando que, "para competir no mercado editorial internacional, se estabelece a perspectiva de que o caminho para a internacionalizacao passa pela profissionalizacao editorial, em que um Publisher (casa editorial) sera responsavel pelas partes operacional e gerencial, e a parte academico-cientifica sera responsabilidade de um corpo editorial diversificado e de excelente reputacao".

Tal estrategia de incorporacao de periodicos nacionais por publishers internacionais como Sage, Elsevier, Emerald, Springer, Wiley, entre outros, do ponto de vista individual do periodico, aparentemente seria uma boa alternativa se tais publishers conseguissem, de alguma forma, transferir seu conhecimento, capilaridade e prestigio para os periodicos emergentes. Se conseguem, isso nao vem apresentando grandes resultados. Como apontou Diniz (2017, p. 362), citando o estudo de Lariviere, Haustein e Mongeon (2015), "particularmente nas ciencias sociais, o impacto medio dos artigos publicados nos periodicos que migraram para as grandes editoras permaneceu abaixo da media mundial. Ou seja, essa estrategia nao produziu nenhuma melhoria no impacto dos periodicos, mesmo 10 anos apos a migracao".

A razao da ineficacia de tal estrategia e obvia: o prestigio de tais publishers nao vem do conhecimento, qualidade e capilaridade editoriais, mas simplesmente porque eles hospedam os principais periodicos mundiais. De tal maneira que nao se vislumbra qualquer carater identitario ou de diferenciacao entre periodicos presentes em um publisher em particular comparado com qualquer outro. Ao mesmo tempo, e extremamente frequente, por meio de acordos comerciais, um periodico migrar de um publisher para outro, como ocorreu, por exemplo, com o Journal of Management, que migrou da Elsevier para a SAGE em 2005, sem grandes alteracoes de identidade.

Retrato ainda da baixa ou pouca influencia do publisher na qualidade dos periodicos e o grau de independencia e desacoplamento que o processo editorial-cientifico tem do processo editorial-gerencial. Tomando como referencia somente tres periodicos importantes da area de management editados pela mesma editora, a SAGE, Journal of Management (pertencente a Southern Management Association), Administrative Science Quarterly (de propriedade da Samuel Curtis Johnson Graduate School of Management, Cornell University) e Organization Studies (pertencente ao European Group for Organizational Studies - EGOS), e possivel notar que todos eles apresentam linha e processos editoriais totalmente distintos, inclusive no que se refere aos criterios de qualidade e relevancia, bem como no estilo de redacao e apresentacao dos artigos. A SAGE, em todos os casos, se apresenta como parte do processo quase que exclusivamente somente apos o artigo ser aprovado, pois ate as ferramentas de gestao editorial, como o Manuscript Central, nao sao de sua propriedade e tendem a ser compartilhados por muitas editoras. Nesse processo, pouco se incorpora da editora na identidade dos periodicos, muito menos provavel ainda que algo se altere em termos de qualidade dos artigos.

Assim, a crenca disseminada na capacidade do publisher de alavancar a internacionalizacao dos periodicos serve muito mais para manter um mito racionalizado, que ilude especialmente aqueles periodicos ainda fora do sistema que buscam ascender ao mundo das publicacoes internacionais. Tal busca alimenta interesses puramente comerciais de tais editoras, ate porque elas se abstem de todo o processo cientifico. Os publishers, sabidamente, utilizam-se das crencas na eficacia de seu mito construido para avancar particularmente em mercados emergentes, nitidamente porque vem sendo ameacados por uma serie de boicotes de paises e universidades em prol de um modelo de ciencia aberto. Isso porque e cada vez fica mais dificil de se justificar os altos valores cobrados por tais publishers para vender acesso a um produto, que, como bem apontaram Goulart e Carvalho (2008), foi apropriado da forca de trabalho dos pesquisadores que, por sua vez, tem boa parte de suas pesquisas financiadas por recursos publicos. Publishers internacionais hoje, infelizmente, nao produzem: eles simplesmente usam do copyright para se apropriar, ao mesmo tempo, do trabalho alheio e do recurso publico. E enquanto o mundo vem combatendo tal dominio comercial, ha os que o defendem no objetivo de nao se alterar as regras do jogo que eles vem tentando dominar. Com isso, corremos o risco de ainda sustentar a tecnologia obsoleta mais lucrativa da historia (Schmitt, 2014) (5).

A terceira estrategia, como aponta Diniz (2017), seria a criacao de chamadas de trabalhos incorporando pesquisadores internacionais como editores especiais no objetivo de obter pareceristas estrangeiros e, em alguns casos, atrair textos de autores internacionais. Decorrente de tal estrategia, ainda ha a expectativa de que tais participantes acabem aceitando fazer parte do comite permanente. Somadas a essas estrategias, que podemos enquadra-las como de relacionamento, ainda ha a possibilidade de convidar artigos de autores renomados, muitas vezes pagando pelo artigo diretamente, ou como contrapartida pelo autor estrangeiro ter aceitado participar de alguma atividade renumerada no pais. Isso ja ocorreu em varios periodicos nacionais, os quais mostram, com muito orgulho inclusive, que possuem artigos altamente citados de tais autores renomados.

Em comum entre essas parcerias com autores internacionais esta a crenca de que os autores locais nao sao suficientes, ou literalmente nao prestam para a internacionalizacao. Isso fica nitido, por exemplo, na citacao atribuida a Fradkin (2017) feita por Farias (2017, p. 402):

[...] a internacionalizacao bem-sucedida de periodicos, alem do conteudo em ingles de boa qualidade, deve contemplar outros dois elementos: que a instituicao do primeiro autor e os membros do conselho editorial pertencam a um pais nativo de lingua inglesa, e que os artigos descrevam estudos empiricos. Segundo esse autor, para que haja uma internacionalizacao de sucesso, os periodicos devem assumir dois caminhos: aumentar o numero de artigos publicados em lingua inglesa e a colaboracao com autores nativos de lingua inglesa. A chave para a internacionalizacao das revistas brasileiras envolve o aporte brasileiro a expertise de lingua-franca (ingles), e a especializacao, em termos de editores experientes, revisores, editores e autores. Sao necessarios profissionais que sejam nativos de paises onde o ingles e a lingua oficial para elevar os padroes das revistas no Brasil (Fradkin, 2017).

Em comum entre todas essas estrategias, ha um ponto: nao somos suficientes, talvez nem merecedores, de termos uma academia internacional genuinamente brasileira. E o que se apresenta, mas que nunca e dito, apesar de sempre estar implicito.

Assumindo tal insuficiencia como uma verdade temporaria, e se nossas estrategias de internacionalizacao de periodicos fossem levadas a cabo? Teriamos de fato entao uma internacionalizacao da producao? Eu argumento que tais estrategias de internacionalizacao dos periodicos levariam, paradoxalmente, a uma nao internacionalizacao da producao. Para ilustrar tal argumento, pensemos numa sequencia de acoes estrategicas hipoteticas de um periodico nacional em busca de internacionalizacao. Primeiramente, ele somente publicaria artigos em ingles. Como isso nao e suficiente, havendo recursos, pagaria para ser incorporado por um grande publisher. Alem disso, o periodico nao somente buscaria abrir chamadas internacionais com autores estrangeiros, mas tambem faria um esforco de recrutamento de avaliadores estrangeiros. Com o tempo, seria construido um corpo editorial cientifico e em especial, seu editor chefe, com pesquisadores internacionais. Isso tudo aumentaria, pelo menos hipoteticamente, as chances do periodico ser aceito no SCOPUS e, mais ainda, atingir a gloria de ser listado no JCR. Nesse momento e em especial, se o periodico nao possuir o adjeto Brazilian no titulo, cada vez mais autores internacionais submeteriam artigos para tal periodico que, em um segundo momento, ainda aumentaria mais a base de revisores. Consequentemente, para ser caracterizado como internacional, cada vez menos espaco seria dado aos pobres autores brasileiros. Com isso, conclui-se o fatidico projeto de internacionalizacao.

Na situacao hipotetica descrita, nao e muito dificil deduzir logicamente que o somatorio de estrategias de internacionalizacao dos periodicos levaria exatamente ao efeito de uma nao internacionalizacao justamente daquilo que mais desejamos, que e a producao e o conhecimento local. Entao, em termos de eficacia, a internacionalizacao de periodicos majoritariamente almejada e paradoxalmente nula. E e esse argumento que queria demonstrar, pois, no tipo ideal, a unica coisa que se manteria nacional, e olhe la, seria a propriedade do periodico. A propriedade do periodico importa? Para os periodicos da Academy of Management sim, mas para outros, tenho duvidas. Por exemplo, eu desafio voces a checarem quantos colegas conhecem a propriedade, por exemplo, do periodico Organization Science.

Alem dos argumentos que esbocei, gostaria de mostrar alguns dados que reforcam a importancia de se publicar em portugues. Nao me aterei aqui a discussao da producao do conhecimento local em si (ver mais em Goulart, 2018), porque esse e construido em portugues e, sim, deve ser preservado em portugues enquanto patrimonio cultural. A lingua nao e somente meio, mas faz parte de tal construcao, atribuindo sentido e significado unico ao que vivenciamos e pensamos, de dificil traducao e apropriacao. Deve-se ressaltar tambem que o Brasil e um pais de baixa proficiencia na lingua inglesa (6), o que acaba refletindo no baixo dominio dos estudantes de pos-graduacao, levando-os a preferir a leitura em portugues.

Tomando como base dados das publicacoes no Spell entre 2012 e 2014, na Figura 1, pode-se ver que os artigos em portugues sao significativamente mais acessados na media do que aqueles em lingua inglesa e espanhola. O numero de downloads medio tambem e significativamente maior. Devo ressaltar que algum leitor poderia atribuir o maior acesso e o maior numero de downloads ao uso de termos de busca em portugues, que acaba desconsiderando as demais linguas. Isso definitivamente nao ocorre: independentemente da lingua em que o artigo e publicado no Spell, os campos de busca tambem estao presentes em portugues.

Mais interessante ainda e a media de citacoes recebidas dos artigos publicados em tal periodo: os artigos em portugues tendem, na media, serem citados 1,18 vezes, enquanto os artigos em ingles sao citados, em media, 0,81 vezes e os em espanhol citados em 0,33 vezes. Entao, se o interesse de um periodico e ser citado, nao resta duvidas que a probabilidade de isso ocorrer em portugues e significativamente maior.

Um leitor mais cetico poderia questionar se o efeito da lingua em tais citacoes remete a proporcao de mais artigos em ingles em alguns periodicos menos citados ou ate mesmo a concentracao no ano mais recente, que tende a acumular menos citacoes. Para controlar tais efeitos, fiz uma analise da variancia considerando o efeito tanto do periodico, quanto do ano (detalhes sobre os procedimentos no apendice). Como visto na Figura 2, para qualquer um dos anos, as medias marginais estimadas de citacao dos artigos em portugues sao significativamente maiores, nos quais ao controlar o efeito dos periodicos, a magnitude da diferenca entre medias e ainda maior que a media simples. Por exemplo, os artigos publicados em portugues em 2012 tem uma media estimada de 1,4 citacoes, enquanto os artigos publicados em ingles no mesmo ano tem uma media de 0,76 citacoes.

Em sintese, o que eu gostaria de demonstrar com esses dados e que, se um editor esta preocupado em receber mais citacoes, nao ha duvidas que utilitariamente o portugues e mais efetivo. Pode-se indagar que tais citacoes ocorreram numa base local. So que artigos brasileiros sao cada vez mais frequentes nas bases internacionais que, por sua vez, tendem a ser mais citados por artigos brasileiros. Assim, ironicamente, publicar em portugues possa ate ser um bom negocio para aqueles que buscam ganhar destaque nas bases internacionais.

Finalizando, nesse editorial busquei esbocar um argumento logico e outro empirico para defender as publicacoes em portugues. Ha varios outros argumentos morais e racionais que se sobrepoem aos meus argumentos, como varios colegas ja apontaram. E todos eles remetem a importancia de se defender o uso da lingua natal como instrumento de preservacao e resistencia a uma logica global homogeneizante do conhecimento. Eu adicionaria ainda o prazer de se escrever em nossa lingua, que mesmo sendo usada em textos "duros" como os academicos, ainda sao possiveis de transmitir coisas belas. Nao que nao exista beleza em outras linguas, mas uma lingua natal exprime uma forma de existencia que so e comum para quem se socializou nela. Logo, para nos, defender o portugues e uma forma de defender tambem nossa existencia como sociedade brasileira.

Nesta Edicao

Nesta terceira e ultima edicao de 2018, nao temos mais grandes novidades em termos de layout e incorporacao de tecnologias no portal como nas edicoes anteriores. No entanto, gostaria de ressaltar que agora temos um perfil da RECADM no Google Academico. Tal perfil facilita o acompanhamento das citacoes que os artigos publicados na revista recebem, especialmente de fontes que nao estao vinculadas a bases como Spell, Scopus e demais. Ate o dia 25 de julho deste ano, recebemos um total de 837 citacoes, das quais 655 ocorreram nos ultimos cinco anos, em que o indice H foi 14. Isso significa que temos 14 artigos que foram citados 14 vezes ou mais. Esses numeros, para nos, significam duas coisas: a primeira e que nossos artigos estao sendo cada vez mais citados, o que e motivo de orgulho; a segunda e que o numero de citacoes nao e concentrado em poucos artigos, como ocorre em alguns outros periodicos que tem a citacao extremamente alavancada por artigos de poucos autores renomados. Isso aponta para certo grau de igualdade na exposicao dos artigos e autores.

No que se refere aos artigos desta edicao, eles se enquadram em tematicas variadas, como ja de praxe. Contudo, ha algumas palavras que se ressaltam. Dois artigos remetem diretamente a questao da politica, um enquanto comportamento, outro como padrao. A politica e as diferentes facetas que ela toma nas organizacoes sempre foi algo aspero para a administracao. Com tal intensidade que muitas vezes ela foi excluida do debate, seja pelo interesse da area da gestao de se legitimar como campo se diferenciando da ciencia e da filosofia politica, ou ate mesmo pelo vies utilitarista que leva a area a se preocupar em maior grau com criterios de eficiencia. E isso ocorreu apesar de todos os argumentos weberianos e de Guerreiro Ramos de que a administracao e uma atividade essencialmente politica. Ha ainda outros dois artigos que remetem a questoes socioambientais e de sustentabilidade, cuja preocupacao atual, mas nao tao recente, surgiu de debates politicos acerca de como as organizacoes lidam com suas externalidades. Novamente, isso ressalta que a administracao necessariamente reflete em parte o contexto politico. Por fim, temos um artigo que lida com o problema do compartilhamento do conhecimento tacito que, novamente, envolve questoes politicas no que se refere aos mecanismos que o motivam, e outro artigo que discute sobre a fotografia, ou melhor, a pratica de fotografar como instrumento de investigacao. Essa discussao e extremamente pertinente porque ha ainda aqueles que acreditam que a fotografia e uma especie de prova cabal, neutra, sem interferencia do fotografo. Pelo contrario, como muito bem apontou Ansel Adams, "nao fazemos uma foto apenas com uma camara; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a musica que ouvimos, as pessoas que amamos." Inclusive colocamos nossos interesses na fotografia, como muito bem apontou Sebastiao Salgado, que ressaltava que ele nao fazia fotografias, mas sim politica.

O primeiro artigo, "Comportamento Politico nas Organizacoes: Mecanismos de Intervencao", de autoria de Rosaria de Fatima Segger Macri Russo, Fabiano Rodrigues, Renato Russo e Abraham Sin Oih Yu, identifica a percepcao de executivos brasileiros sobre as formas de comportamento politico nas organizacoes e mecanismos de intervencao correlatos. Como resultado, a pesquisa aponta para uma visao menos negativa dos respondentes sobre o conceito de comportamento politico, quando comparada a literatura. A principal contribuicao gerencial se concentra na discussao sobre mecanismos de intervencao nas organizacoes que promovam uma dinamica do comportamento politico favoravel aos objetivos organizacionais. Do ponto de vista academico, amplia-se a discussao dos efeitos positivos do comportamento politico e apresentam-se mecanismos de intervencao para pesquisas futuras sobre politica nas organizacoes.

No segundo artigo, "Relacoes Multiniveis e Inovacao Sustentavel: O Programa Veiculo Eletrico da Itaipu Brasil", os autores Andrea Torres Barros Batinga de Mendonca, Sieglinde Kindl da Cunha e Thiago Cavalcante Nascimento analisaram as relacoes multiniveis e a transicao para ecoinovacao a partir do caso do Programa Veiculo Eletrico da Itaipu Brasil. Os principais resultados evidenciam a importancia de grandes organizacoes como agentes "empreendedores" e da formacao de parcerias nos nichos tecnologicos como fatores que influenciam a criacao das ecoinovacoes, que passam a modificar os valores compartilhados e as instituicoes dos agentes do nivel meso, em um processo de influencia bottom up. Alem disso, as mudancas do nivel macro exerceram pressao sobre os niveis meso e micro em um processo de influencia top down.

O terceiro artigo, de autoria de Breno Penha Rego, Alessandra Carvalho de Vasconcelos e Jose Glauber Cavalcante dos Santos, intitulado "Efeitos da Estrutura de Governanca Corporativa e das Caracteristicas Institucionais no Disclosure Socioambiental" analisa a influencia da estrutura de governanca corporativa das companhias abertas brasileiras e de suas caracteristicas institucionais na qualidade do disclosure socioambiental. Os resultados apontaram que a proporcao de membros independentes no conselho de administracao, como estrutura de governanca e a participacao da empresa no ISE, como caracteristica institucional, sao capazes de influenciar o nivel do disclosure socioambiental. Dessa forma, ha evidencias de que os conflitos de agencia e as pressoes de legitimidade podem agir sobre o comportamento socioambiental da empresa perante os stakeholders.

No quarto artigo, intitulado "Motivadores ao Compartilhamento de Conhecimento Tacito em Organizacoes Intensivas em Conhecimento", Patricia Fernanda Dorow, Dorzeli Salete Trzeciak e Gregorio Jean Varvakis Rados evidenciam os motivadores no compartilhamento do conhecimento tacito, de acordo com a percepcao de radiologistas integrantes de grupos de trabalhos de organizacoes intensivas em conhecimento. Os resultados contribuem para o avanco da teoria existente e apontam que quando o individuo percebe um ambiente favoravel ao compartilhamento do conhecimento, onde e reconhecido pelo seu conhecimento, ele e motivado a compartilhar, pois identifica oportunidades de aprender ao discutir casos desafiadores com seus colegas por meio de praticas que sao efetivas devido as caracteristicas peculiares dos grupos e da percepcao que os mesmos possuem da acao de compartilhar conhecimento tacito.

O quinto artigo, "A Politica de Recompensa e Promocao Influencia a Motivacao do Trabalhador?", de coautoria de Marcio Goncalves de Pinho, Tara Keshar Nanda Baidya, Marta Correa Dalbem e Eduardo Henrique de Sousa Salvino, estuda a influencia da politica de recompensa e promocao na motivacao do trabalhador, tanto intrinseca, entendida como propria do individuo, como extrinseca, vista na literatura como dependente das intervencoes ou incentivos externos vinculados ao trabalho. Os resultados mostraram que a justica empregada nas regras da recompensa monetaria e uma caracteristica que exerce influencia na motivacao intrinseca e extrinseca, enquanto a controlabilidade do sistema de promocao exerce influencia na motivacao extrinseca.

O ultimo e sexto artigo, "Fotografar para Compreender: Relato de Experiencia e Reflexoes a partir das Lentes Trabalho, Gestao e Subjetividade", de autoria de Laura Alves Scherer, Marcia Cristiane Vaclavik e Carmem Ligia Iochins Grisci, parte da ideia de que os modos de trabalhar tem implicacoes diretas na constituicao do sujeito, buscando refletir sobre o uso da fotografia como potencializador da compreensao teorica em Administracao. As autoras argumentam em favor da interacao da arte com a producao cientifica, por entender que a experiencia levou a qualificacao do olhar e, assim, possibilitou novas formas de apreensao da teoria em campo.

Finalizando, gostaria de fazer um agradecimento especial a equipe de revisores e diagramadores da RECADM, Aline Uchida e Flavia Vianna, que permitiram ao periodico sair de uma situacao de atraso nas publicacoes no ano de 2017 para a conclusao antecipada de todas as edicoes de 2018. Isso possibilitou que passassemos a disponibilizar os artigos no inicio do quadrimestre e nao no seu fim, dando-os maior visibilidade no decorrer do ano. Devo tambem um agradecimento especial a Andre Guimaraes, que nao somente concluiu em tempo habil todas as alteracoes de layout e design, mas fez com que o portal de periodicos IBEPES incorporasse as tecnologias mais recentes de gestao de informacao editorial. Como sempre, agradeco aos revisores e autores que apostaram no nosso trabalho, alavancando a RECADM em numero e relevancia. Nunca recebemos tantos artigos como nesses ultimos seis meses, como tambem nunca fomos tao eficientes no processo de avaliacao, e isso e fruto da dedicacao de autores e revisores. Para 2019, esperamos somente dar continuidade nesse processo de fazer editorial, pois avancamos muito. Sendo assim, alguma energia e atencao daremos a parte cerimonial do periodico, que envolve a tentativa de inclusao da RECADM em indexadores como Redalyc, Scopus e Web of Science.

Uma excelente leitura,

Luciano Rossoni

Editor da RECADM

DOI: http://dx.doi.org/10.21529/RECADM.2018ed3

Referencias

Alcadipani, R. (2017). Periodicos brasileiros em ingles: A mimica do publish or perish" global". Revista de Administracao de Empresas, 57(4), 405-411.

Bertero, C. O., Alcadipani, R., Cabral, S., Faria, A., & Rossoni, L. (2013). Os desafios da producao de conhecimento em administracao no Brasil, Cadernos EBAPE.BR, 11(1), 181-196.

Cabral, S., & Lazzarini, S. G. (2011). Internacionalizar e preciso, produzir por produzir nao e preciso. Organizacoes & Sociedade, 18(58), 541-542.

Diniz, E. H. (2017). Periodicos brasileiros da area de Administracao no contexto de internacionalizacao da producao cientifica. Revista de Administracao de Empresas, 57(4), 357-364.

Farias, S. A. D. (2017). Internacionalizacao dos periodicos brasileiros. Revista de Administracao de Empresas, 57(4), 401-404.

Fradkin, C. (2017). The internationalization of psychology journals in Brazil: A bibliometric examination based on four indices. Paideia, 27(66), 7-15.

Goulart, S., & Carvalho, C. A. (2008). O carater da internacionalizacao da producao cientifica e sua acessibilidade restrita. Revista de Administracao Contemporanea, 12(3), 835-853.

Goulart, S. (2018). O conhecimento local: producao, desafios e embates. Farol Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, 5(12), 268-296.

Lariviere, V., Haustein, S., & Mongeon, P. (2015). The oligopoly of academic publishers in the digital era. PLoS ONE, 10(6), e0127502.

Schmitt, J. (2014). Academic journals: The most profitable obsolete technology in history. The Huffington Post Blog. Recuperado em 31 de julho, 2018, de http://www. huffingtonpost.com/jason-schmitt/academic-journals-the-mos_1_b_6368204.html

Apendice: Analise da Variancia das Citacoes

Na Tabela 1, avalio o percentual de variancia explicada das citacoes considerando a categorizacao dos artigos em termos de idioma (Portugues, Ingles e Espanhol), periodico (88 revistas listadas no Spell que constavam na base na epoca analisada) e ano de publicacao (2012, 2013 e 2014). As tres variaveis em conjunto explicam 18,5% da variancia das citacoes individuais dos artigos, em que todas elas foram significativas. Apesar do periodico com 15,1% de explicacao da variancia e o ano com 2,8% terem uma explicacao da variancia superior ao do idioma (0,8%), nao significa que a diferenca entre as medias de citacoes entre periodicos em Portugues, Espanhol e Ingles seja de baixa magnitude. Significa somente que a variacao e maior entre as categorias das outras duas variaveis. Tendo isso em vista, a analise da variancia foi realizada para estimar as medias que foram apresentadas na Figura 2 com o objetivo de controlar o efeito do ano e do periodico, pois analisar univariavelmente a diferenca de medias entre os idiomas poderia desconsiderar o efeito do tempo de publicacao e da atratividade de alguns periodicos. Tambem conduzimos analises de variancia adicionais fazendo interacoes entre idioma, periodico e ano de publicacao, mas nenhuma delas foram significativas, por isso as desconsideramos.

Em relacao aos dados, selecionamos os artigos publicados entre 2012 e 2014 de periodicos que ja constavam na base Spell desde aquela epoca (6.708 no total). Periodicos que foram incorporados posteriormente no Spell foram desconsiderados, pois poderiam nao ter a mesma exposicao. Qualquer outro tipo de documento como editoriais, casos de ensino, entre outros documentos que nao se configuram como artigos tambem foram descartados. Deve-se ressaltar que a escolha dos anos de 201 2 a 201 4 se deu no objetivo de se manter um intervalo de exposicao de pelo menos tres anos das publicacoes recentes, pois todas as citacoes, obviamente, ocorrem depois que os artigos sao publicados. Com isso, nao faria sentido avaliar as citacoes de artigos imediatamente publicados. Nos avaliamos as citacoes em tres anos seguidos para evitar efeitos pontuais e, ao mesmo tempo, ter maior variabilidade na comparacao. Nao estendemos a analise para antes de 2012, pois o comportamento das citacoes na area era distinto, ate porque nao havia a possibilidade de consulta no Spell antes desta data.

(1) A RBGN teve em 2017 um JCR de 0,278, o que significa que, na media, 28% dos artigos publicados nos dois anos anteriores foram citados.

(2) Artigos presentes, por exemplo, no Emerging Sources Citation Index computam citacoes, mas nao estao presentes no JCR.

(3) Como apontam dados de citacoes do Spell, a Revista Contabilidade & Financas e a Revista de Administracao Contemporanea vem sendo os periodicos mais citados na area nos ultimos anos, ambas fora do SCOPUS e do JCR.

(4) Para checar a esse numero, considerei a diferenca de producao nacional no SCOPUS em relacao ao somatorio da internacional na area de Business, Management and Accounting.

(5) Definitivamente o autor nao conhece o sistema de cartorios brasileiro para fazer tal afirmacao.

(6) Ver posicao do Brasil no rank de proficiencia em ingles em:https://www.ef.com.br/epi/regions/latinamerica/brazil/

Luciano Rossoni (iD), Editor da RECADM

UniGranRio, Brasil

lrossoni@gmail.com
Tabela 1. Efeito do Idioma, do Periodico e do Ano de Publicacao nas
Citacoes Recebidas.

                    Soma dos     df      F      Sig.    Efeito
                    Quadrados

Modelo (a)           4769,32     91    16,48    0,000   18,5%
Idioma               205,86      2     32,36    0,000    0,8%
Periodico            3907,51     87    14,12    0,000   15,1%
Ano de Publicacao    716,92      2     112,68   0,000    2,8%

Erro                21045,96    6616
Total               34469,00    6708
Total Corrigido     25815,28    6707

a) [R.sup.2] = 0,185 (R2 Ajustado = 0,174), n = 6708, 88 periodicos.

Figura 1. Media de Citacoes, Acessos e Downloads no Spell (2012-2014).

             Acessos   Downloads   Citacoes

Espanhol      1349       465         0,33
Ingles        1280       392         0,81
Portugues     1569       480         1,18

Figura 2. Medias Estimadas por Ano (Dados: Spell 2012-2014).

Ano de publicacao

Idioma               Medias Marginais Estimadas

                      2012      2013     2014

Espanhol             0,5037    0,7694   1,4001
Ingles               0,2244    0,4902   1,1208
Portugues           -0,2920   -0,0263   0,6043

Note: Table made from line graph.
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Author:Rossoni, Luciano
Publication:Revista Eletronica de Ciencia Administrativa
Date:Sep 1, 2018
Words:5465
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