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Eder Oliveira, a Amazonia nao e para os fracos.

Eder Oliveira, the Amazon is not for the wimps

Acompanho o trabalho do artista Eder Oliveira desde seu tempo de estudante, na Faculdade de Artes Visuais, e pude observar como questoes acerca da ideia de identidade o norteiam desde os primeiros trabalhos, em que o rosto do artista, a partir de uma fotografia 3 x 4, retirada de seu documento de identidade, foi empregada como elemento para a construcao estetica e conceitual. Impressa em papel artesanal feita pelo proprio, a obra e composta por tres imagens aparentemente iguais (Figura 1), mas trazendo diferencas sutis, ja apontando para um debate que avanca por sua producao: o retrato como indice de poder ou segregacao; "desde ali ja havia uma busca de um autorretrato da exclusao", como aponta o artista em uma conversa informal.

De la para ca, a obra do Oliveira ganhou espaco na cena artistica. Recebendo, ja em 2007, um Segundo Grande Premio no Salao Arte Para, com Sem Titulo (2007), acao em espaco publico com afixacao de cartazes "lambe-lambe" (Figura 2)--intervencao urbana com origem na propaganda popular, nos antigos anuncios exibidos em muros--tipo de experiencia que o artista trouxe, ainda, de sua vida em Timboteua. No Arte Para, rostos estampados em alto contraste sobre papel jornal e paginas impressas, faces imprecisas, na instabilidade de pertencimento, acossados pelas estruturas de poder, na luta da ativacao de um corpo vivo no mundo, colocando em xeque estigmas e marginalizacao.

Esse sujeito amazonico, sob continuada discriminacao etnica povoa as imagens de Oliveira. O homem mestico, o negro, o caboclo sao os sujeitos para os quais o artista direciona o olhar.

Ali encontrei o homem marginalizado, temido, mas muitas vezes tido como inocente por sua condicao, tentando se afirmar perante os desafios cotidianos que a vida o impele, em que normalmente a sorte ja o predispoe ao fracasso na vida exigida pelo sistema vigente. Imagens predatorias, fotografias retiradas proximas ao modelo com flash disparado frontalmente gerando retratos vazios de pessoas acuadas, muitos semelhantes aos 3 x 4 colados no RG, que nao necessariamente mostram a identidade do portador. (Oliveira, 2014: 346).

O artista, neste seu texto intitulado Autorretrato, nos apresenta pistas do universo que optou por abarcar. A identidade do corpo representado pela imagem, em grande parte coletada nas paginas policiais, traz a tona uma espessura da fotografia, que ao subverter o preceito modernista de autoria, em uma perspectiva pos-moderna, conduz a imagem para a possibilidade de ressignificacao, de reproducao, de apropriacao, atingindo papel de referencia, torcendo sua funcao inicial do objeto fotografico, mas sem distanciar-se completamente dele. Ha uma interrupcao presente no olhar dos sujeitos, uma suspensao de tempo nitidamente caracteristica do fotografico. Essa captura fruto do desejo de permanencia, cria o incomodo da fotografia sequestrada, pelos fotografos das paginas policiais. Oliveira revela essa indisposicao no rosto dos sujeitos, que reativa pela pintura, em murais e telas a oleo, resignificando-os. Sobre esse tipo de instancia, de imbricamento, Rosalind Krauss ira dizer:

Esta ideia de captura da experiencia fugitiva para conseguir rete-la, de registro do presente e sua conservacao apesar da passagem do tempo, Freud a utiliza para caracterizar a fotografia. Contudo, mesmo antes do surgimento da fotografia, ja era costume descrever a escrita dessa mesma maneira. Ela tambem tinha como funcao consignar a palavra do momento por escrito para restitui-la num outro campo espacial e temporal. A escrita era o instrumento da memoria. Como outros instrumentos, era acionada pela mao. A palavra se transferia de um orgao, a boca, a outro orgao menos nobre e requintado, a mao. (Krauss, 2002: 211)

O Autorretrato de Oliveira e texto, palavra que constitui um territorio no qual o artista se compreende, enquanto sujeito que percebe o mundo e e afectado (na perspectiva de Gilles Deleuze e Felix Guattari) por este, mas e tambem pela mao, pela pintura que o artista transfere seu pensamento para o plano fisico, reificando aquilo que sua percepcao lhe apresenta, tal qual nos propoe Suely Rolnik:

Um outro tipo de experiencia que a subjetividade faz de seu entorno e a que designo como fora-do-sujeito' ou 'extra-pessoal': e a experiencia das forcas que agitam o mundo enquanto corpo vivo e que produzem efeitos em nosso corpo em sua condicao de vivente. Tais efeitos consistem em outra maneira de ver e de sentir aquilo que acontece em cada momento. (Rolnik, 2016: 10).

Eder Oliveira nao passa incolume ao mundo que o rodeia, atento, compreende claramente as operacoes que se manifestam no cotidiano, sejam os preconceitos que rondam de forma aparentemente sutil, sejam as violencias aos direitos que ocorrem de maneira mais aguda. De sua vila natal ate a mudanca para a capital foram inumeras experimentacoes de estar no mundo, com seus multiplos atravessamentos entre uma pequena comunidade e a ferocidade de uma das cidades mais violentas do Brasil.

Pelo que o artista nos apresenta em seu texto Autorretrato, ha em seu processo uma instauracao, um sentido em que as coisas ja existem no mundo, mas o artista da a elas a forma, como sinaliza Lapoujade ao dizer que instaurar e um fixar da existencia de um ser (Lapoujade, 2017: 81). Oliveira, ao retirar de paginas policiais retratos de sujeitos expostos pela midia e categorizados por valores maniqueistas, lanca luz a uma condicao de excecao imposta ao cidadaos das classes menos favorecidas e reitera suas existencias.

Retirar a imagem desse contexto comum a ela e transpor em pintura com enquadramento proximo ao rosto, sem algemas, sem circunstancias, falando de questoes humanas e do que isso pode mostrar alheio a uma manchete sensacionalista e o que busco quando reproduzo o retrato do homem amazonico nas paredes da cidade de Belem, impondo ao transeunte o confronto com rostos que ele tende a ignorar, uma imagem que migrou da representacao iconica do trabalho para o reflexo daquilo que se deve temer e evitar. (Oliveira, 2014: 346).

Percebe-se com o discurso do artista uma consciencia de seu papel enquanto sujeito que ultrapassa o limite do eu para estar no mundo de forma ativa e viva, respondendo aos estimulos que lhe sao lancados. Assim foi no projeto Amazonia, a Arte, (2010), mostra exibida no Museu Vale, Vitoria/ES e na Fundacao Clovis Salgado, Palacio das Artes, Belo Horizonte/MG, 2010, em que o artista realizou pinturas murais trazendo os rostos de desconhecidos pesquisados em jornais, mesclando-os com de amigos para o exterior e para o interior do predio, respectivamente. Na mistura, estes rostos nao sao identificados, e a inocencia ou suposta culpabilidade dos suspeitos fica a criterio de quem olha, conclamando o observador e perceber os meandros produzidos pela midia e pela reatividade deflagrada decorrente do que Rolnik chama de "inconsciente colonial-capitalistico" (Rolnik, 2016: 16). Para o projeto Amazonia, Lugar da Experiencia (2012), quando convidado a integrar o nucleo da Colecao Amazoniana de Arte da Universidade Federal do Para, propoe uma pintura mural para a Rua da Marinha, 250 e duas telas. Em conversa com o curador, discutiu-se acerca da imagem emblematica do pistoleiro Quintino, que figurou no projeto do artista duplamente, destacando a dubiedade que esta figura propiciava, como podemos ver:

Quintino aparece duas vezes, na rua e dentro da galeria, em tela. O temido "gatilheiro" que nos anos 1980 mudou de lado: deixa de trabalhar--para patroes que encomendavam crimes relacionados a terra para lutar junto as minorias que reivindicam condicoes justas de sobrevivencia no campo. Perseguido e assassinado, Quintino volta como representacao de uma das passagens recentes da historia de violencia na regiao, muitas vezes figurando em versoes controversas, dependendo do posicionamento de quem a conta, ora vilao, ora heroi. Eder Oliveira ira, ao se deter na violencia cotidiana, retirada das paginas policiais, colocar lado a lado personagens, que por vezes, figuram em lados antagonicos, vitimas e suspeitos, levando-nos, no desconhecimento, a olhar para o retrato daqueles que, muitas vezes, nao queremos saber da historia, sequer olhar. (Maneschy, 2013: 30)

Essa ambiguidade e uma condicao presente no projeto do artista, uma confusao iminente provocada por duas caracteristicas presentes em seu trabalho: cor forte e os tracos fisionomicos. A cor intensa detem suas particularidades, uma delas e propiciada pelo daltonismo do artista, que o levou a optar pelo embate de trabalhar as cores no limite de sua percepcao; a outra se apresenta pela magnitude das cores e da luz dos elementos, sejam estes naturais ou empregados pelo homem em cores vivas. Estas coloracoes estao nas roupas, na tez "morena" do amazonida que detem uma grande gama de tons. Os individuos de cor branca no norte do Brasil sao minoria diante dos caboclos, negros, mesticos e indios; a despeito disto, o arquetipo de beleza branca, loura, de olhos claros, ainda e idealizado como a suprema beleza por grande parte da populacao. Padrao dificil de se atingir, obviamente. Mas, este sujeito mestico, de estatura baixa, pele escura e alvo de preconceito e violencia. Este individuo com seu rosto marcado por linhas acentuadas, olhar grave, distante do estereotipo de beleza anglo-saxonica encontra-se muitas vezes em posicao de suspeicao, ora por estar em circunstancia de instabilidade em uma cidade violenta, ora por ocupar papel em situacao de tensao social. Sua cor de pele e seus tracos ja os condenam por principio.

Mesmo quando o artista lanca seu olhar para os policiais militares em Alistamento, projeto em que dissemina uma convocatoria nos quarteis militares de Belem para convidar os alistados a tomar parte de seu trabalho--respondendo a um questionario e participando de uma sessao fotografica, gerando as imagens que foram transpostas para as telas e paredes da exposicao -, o artista desvela uma especie de tensao psicossocial, como aponta a curadora Marta Mestre:

Eder Oliveira nos expoem diante daquilo que deveria ter ficado guardado ou invisivel. Uma especie de "retorno do recalcado nacional" (E. Viveiros de Castro) que "desarranja" corpos, rostos e percepcoes. E que ao reconfigurar as formas perceptivas existentes torna-se politico sem que necessite ser engajado.

ALISTAMENTO assume um magnifico efeito de espelho antropologico que, sob o veu de falar dos outros (soldados), deixa passar observacoes sobre nos, sobre a nossa cultura, os nossos valores e atitudes. E de um modo simples coloca em evidencia o quanto toda a imagem e sempre a imagem de um "outro", sendo a experiencia de alteridade capaz de uma reformulacao constante dos termos em que nos definimos. (Mestre, 2015).

Este recalque ao qual Viveiros de Castro se refere e que Marta Mestre se apoia e uma recorrencia persistente, uma vez que tantas aspiracoes foram reprimidas, que constantemente ressurgem, alteradas, de forma distorcida, ou deformada. Neste contexto, Viveiro de Castro revela: "Converter, reverter, perverter ou subverter (como sequeira) o dispositivo de sujeicao armado desde a Conquista de modo a torna-lo dispositivo de subjetivacao" (Castro, 2008:141).

Assim, o sujeito "nao branco", "moreno", "rustico", "marajoara", "pardo", "tipico", "nortista", aparece como designacao presente nas respostas das perguntas feitas por Eder Oliveira, tal qual as constituidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), no censo realizado a cada 10 anos em que a cor da pele e uma das perguntas apresentadas, utilizadas na auto-identificacao dos entrevistados. O artista ira perguntar: "1) Como voce se ve? 2) Como voce ve o homem amazonico?". Os termos empregados nas respostas formaram um conjunto de palavras, agrupadas em dois conjuntos, de acordo com as perguntas, seguindo o padrao das etiquetas de identificacao apresentadas nos uniformes dos membros da corporacao: um de como o sujeito se ve e o outro de como este ve o outro; outras obras sao retratos dos individuos em roupa de camuflagem, parte pintados a oleo, parte em grandes dimensoes em madeira, levados para as ruas da cidade.

E essa pessoa recalcada, com

a subjetividade reduzida ao sujeito e que com ele se confunde interpreta o desmoronamento de 'um' mundo como sinal do fim 'do' mundo e dela mesma. Em outras palavras, esse tipo de subjetividade vive a tensao entre aquelas duas experiencias como uma ameaca de desagregacao. (Rolnik, 2016:17).

Com sua producao, Eder Oliveira nos expoe uma condicao fatidica que os menos favorecidos enfrentam em um pais em que a uma vergonha historica persiste, erigida na discriminacao imposta aos desvalidos, num estado de excecao calcado na opressao do herdeiro do sujeito nativo, mesmo sendo este um pais mestico, a fantasia estetica anglo-saxonica se impoe.

Oliveira nos convida a perceber um dano historico, uma continuada exploracao do sujeito que, diferente do dominador, vive em condicoes de interdicao, sem poder exercitar seus direitos sociais em plenitude, especialmente em um pais que e mestico. Com sua obra profundamente politica, o artista nos conclama:: Veja! Acorde! Tome posicao.

Referencias

Castro, Eduardo Viveiros de (2008) Eduardo Viveiros de Castro--Col. Encontros. Rio de Janeiro: Editora Azougue ISBN: 9788588338937.

Herkenhoff, Paulo (org.)(2014). Porororca--A Amazonia, no MAR, Rio de Janeiro: MAR/Contraponto Editora. ISBN: 978-8564022-60-7

Krauss, Rosalind (2002). O Fotografico. Barcelona: Gustavo Gili SA. ISBN:84-252-1858-6.

Maneschy, Orlando (2013). Amazonia, Lugar da Experiencia. Belem: Edufpa. ISBN: 978-85-63728-13-13.

Mestre, Marta (2015) "Alistamento". [Texto curatorial da exposicao homonima,] Sesc Boulevard. Belem--Para .

Oliveira, Eder. (2014) "Autorretrato". Porororca--A Amazonia, no MAR, Rio de Janeiro: MAR/ Contraponto Editora. ISBN: 978-85-64022-60-7.

ORLANDO FRANCO MANESCHY *

Artigo completo enviado a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

* Brasil, artista visual, curador independente e professor pesquisador.

AFILIACAO: Universidade Federal do Para, Faculdade de Artes Visuais do Instituto de Ciencias da Arte. Rua Augusto Correa, 1--Guama, Belem--PA, 66075-110, Brasil. E-mail: orlandomaneschy@gmail.com

Leyenda: Figura 1 * Eder Oliveira, Sem Titulo, 2006, mista sobre papel. Fonte: Acervo Museu Casa das Onze Janelas.

Leyenda: Figura 2 * Eder Oliveira, Sem Titulo, 2007, Acao em espaco publico (cartazes).

Leyenda: Figura 3 * Eder Oliveira, Sem Titulo, 2012, Intervencao na Rua da Marinha, 250. Fonte: ]Arquivo[ Colecao Amazoniana de Arte da UFPA.

Leyenda: Figura 4 * Eder Oliveira, Sem Titulo (Guerrilheiro Quintino) e Sem Titulo--Da Serie Camisa Azul, 2012, oleo sobre tela. Fonte: Acervo da Colecao Amazoniana de Arte da UFPA.

Leyenda: Figura 5 * Eder Oliveira, Sem Titulo (Guerrilheiro Quintino) e Sem Titulo--Da Serie Camisa Azul, 2012, oleo sobre tela. Fonte: Acervo da Colecao Amazoniana de Arte da UFPA.

Leyenda: Figura 6 * Eder Oliveira, Sem Titulo, 2014, site specific, acrilica sobre parede, 31a Bienal Internacional de Sao Paulo. Fonte: Acervo do artista.

Leyenda: Figura 7 * Eder Oliveira, Serie "S--1", 2015, oleo sobre tela. Fonte: acervo do artista.

Leyenda: Figura 8 * Eder Oliveira, Camuflagem recessiva e Insignia, 2015, oleo sobre madeira. Fonte: Acervo do artista.

Leyenda: Figura 9 * Eder Oliveira, Sala Vermelho, 2016, Projeto Arte Para 2016, Casa das Onze Janelas. Fonte: Acervo do Artista.
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Title Annotation:Artigos originais/Original articles
Author:Maneschy, Orlando Franco
Publication:Estudio
Date:Jul 1, 2018
Words:2644
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