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EFEITOS DA ORGANIZACAO DA CARGA DE TREINAMENTO NO LIMIAR ANAEROBIO DE CORREDORES AMADORES/Effects of training load organization on the anaerobic threshold of amateur runners.

INTRODUCAO

Os exercicios aerobios, em especial a corrida, tem sido considerados como um importante componente de estilo de vida saudavel. Recentemente, esta opiniao tem sido reforcada por novas evidencias cientificas que vinculam o exercicio aerobio regular com uma serie de beneficios.

Atualmente, a populacao tem procurado se manter fisicamente ativa, fator este que podem levar a adesao da corrida de rua por muitas pessoas (Salgado e Mikahil, 2006).

Na ultima decada houve um crescimento na pratica da corrida de rua devido a diversos interesses, tais como: promocao a saude, estetica, integracao social, fuga do estresse e busca de atividades prazerosas ou competitivas.

Assim, a corrida de rua tem se tornado um grande atrativo, principalmente aos finais de semana, contanto com grande procura de atletas amadores que sao ou nao patrocinado, mas tambem com atletas que simplesmente querem correr por diversao (Salgado e Mikahil, 2006).

Dentre os beneficios que a corrida traz e possivel citar beneficios fisicos e psicologicos, alem das mudancas esteticas.

Os beneficios psicologicos estao associados a contribuicao no tratamento da depressao e melhora da autoestima, ja os fisicos sao a diminuicao na concentracao de triglicerideos, lipoproteinas de baixa densidade (LDL) e do colesterol total e glicemia (Schaan e colaboradores, 2004).

A avaliacao do limiar anaerobio permite que encontremos as zonas de treinamento ideal para o corredor, pois o teste fornece informacoes a respeito da intensidade em que o atleta utiliza energia predominantemente gerada com o uso de oxigenio, nessa intensidade ja existe producao de lactato, mas ainda existe um equilibrio entre producao e remocao no musculo.

O limiar dois e o limite em que a producao de lactato aumenta de forma que nao ha mais um equilibrio com a remocao, o que gera um acumulo dessa substancia no musculo, fazendo com que o atleta tenha uma queda no rendimento.

O objetivo do trabalho foi verificar o efeito da organizacao da carga de treinamento no limiar anaerobio em corredores amadores apos cinco semanas de treinamento de corrida.

MATERIAIS E METODOS

Amostra

Foi escolhida uma amostra intencional composta por oito homens entre 24 a 55 anos, praticantes de corrida de rua e que ja tinham participado de pelo menos uma prova amadora de corrida de rua.

O estudo seguiu os principios eticos descritos na Declaracao de Helsinki (2008) e na resolucao 466/12 do Conselho Nacional de Saude (Ministerio da Saude, 2012) com relacao aos estudos envolvendo seres humanos. O projeto teve aprovacao do CEP com numero de CAAE 96636418.6.0000.5500.

Avaliacao inicial

Para a avaliacao do limiar anaerobio foi utilizado o teste de Conconi que se inicia com cinco minutos de um breve aquecimento na esteira ergometrica. A partir do inicio do teste sao coletadas as frequencias cardiacas nas velocidades impostas, sendo estas modificadas a cada um minuto. O teste se inicia com a velocidade de 7 km/h e a cada minuto ha um aumento de 0,5 km/h na velocidade. A partir dos 10 km/h a velocidade deve ser aumentada a cada minuto em 1 km/h (Conconi e colaboradores, 1996).

Ao serem coletadas as frequencias cardiacas em cada velocidade elas devem ser colocadas em um grafico, onde uma reta sera tracada, porem em algum momento esta reta perde a sua linearidade, ocorrendo uma grande alteracao da frequencia cardiaca, o que para a literatura e o limiar um, quando a reta do grafico perde novamente sua linearidade e chamado de Ponto de Compensacao Respiratoria, ou seja, o momento onde o gas carbonico passa a nao ser completamente excluido. E um teste maximo e so e interrompido quando o aluno nao suportar mais a carga imposta.

Protocolo experimental

Apos a realizacao da primeira avaliacao, os participantes receberam uma planilha (quadro 1) contendo cinco semanas de treinamento baseada em seus limiares obtidos no teste.

A distribuicao da carga de treinamento pode ser observada na figura 1.
Quadro 1 - Planilha de treinamento.
                                     Semana 1
Treino 1                             Treino 2
                                     Aquecimento: 5' de corrida a 60%
Aquecimento: 5' de corrida a         FCmax. 5 series de corrida a 85%
60% FCmax. 5 series de 4' de         FCmax com 2' de corrida a 65%
corrida a 85% FCmax com 2'           FCmax. 5' de corrida a 60%
de corrida a 65% FCmax.              FCmax.
5' de corrida a 60% FCmax.
                                     Semana 2
Treino 4                             Treino 5

Aquecimento: 5' de corrida a         Aquecimento: 5' de corrida 60%
60% FCmax. 8 series de corrida       FCmax. 8 series de corrida de
de 300m a 95% FCmax com recuperacao  300m a 95% FCmax com recuperacao
ativa por 150m caminhando. 5' de     ativa de 100m caminhando. 5' de
corrida a 60% FCmax.                 corrida a 60% FCmax.
                                     Semana 3
Treino 7                             Treino 8

Aquecimento: 5' de corrida a         Aquecimento: 2Km de corrida a
60% FCmax. 10 series de corrida      60% FCmax. 10 series de 150m de
de 100m a 85% FCmax na subida        corrida a 85% FCmax na subida
com recuperacao ativa de 1'          com recuperacao ativa de 1' de
a 60% FCmax.                         corrida a 60% FCmax.
5' de corrida a 60% FCmax.           5' de corrida a 60% FCmax.
                                     Semana 4
Treino 10                            Treino 11
Aquecimento: 5' de corrida a         Aquecimento: 5' de corrida a 60%
60% FCmax. 10 series de corrida      FCmax. 10 series de corrida de
de 400m a 95% FCmax com              400m a 95% FCmax com 2' de
recuperacao ativa de 2'              caminhada. 5' de corrida a 60%
de caminhada. 5' de corrida          FCmax.
a 60% FCmax.
                                     Semana 5
Treino 13                            Treino 14
Corrida de 8Km a 65% FCmax.          Corrida de 10 Km a 65% FCmax.

Treino 1                             Treino 3

Aquecimento: 5' de corrida a         Corrida de 5km no menor tempo
60% FCmax. 5 series de 4' de         possivel.
corrida a 85% FCmax com 2'
de corrida a 65% FCmax.
5' de corrida a 60% FCmax.

Treino 4                             Treino 6

Aquecimento: 5' de corrida a         Corrida de 5km no menor tempo
60% FCmax. 8 series de corrida       possivel.
de 300m a 95% FCmax com recuperacao
ativa por 150m caminhando. 5' de
corrida a 60% FCmax.

Treino 7                             Treino 9

Aquecimento: 5' de corrida a
60% FCmax. 10 series de corrida      Corrida de 5km no menor tempo
de 100m a 85% FCmax na subida        possivel.
com recuperacao ativa de 1'
a 60% FCmax.
5' de corrida a 60% FCmax.

Treino 10                            Treino 12
Aquecimento: 5' de corrida a         Corrida de 5km no menor tempo
60% FCmax. 10 series de corrida      possivel.
de 400m a 95% FCmax com
recuperacao ativa de 2'
de caminhada. 5' de corrida
a 60% FCmax.

Treino 13                            Treino 15
Corrida de 8Km a 65% FCmax.          Corrida de 5km no menor tempo
                                     possivel.

Figura 1 - Distribuicao da carga de treinamento.

                        Semanas

% Fcmax  Cargas   1  2  3  4  5
95-100%  Maxima
80-90%   Elevada
70-80%   Alta
60-70%   Media
<60%     Baixa


Ao final da quinta semana de treinamento os avaliados foram submetidos a reavaliacao utilizando novamente o teste de Conconi.

Estatistica

Para a analise estatistica foi utilizado o software BioEstat 5.0 para verificacao da normalidade dos dados por meio do teste Shapiro-Wilk. Para os dados que apresentaram distribuicao normal foi utilizado o teste t-Student para comparacao das medias, e para os dados que nao demonstraram distribuicao normal foi utilizado o teste de Wilcoxon. Para ambos os testes foi adotado p[less than or equal to]0,05 para nivel de significancia.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Apos 5 semanas da distribuicao dos treinamentos acima foi possivel verificar que os atletas avaliados tiveram melhora em sua performance, conforme exposto na tabela abaixo.

Estes dados mostram que 5 semanas de treinamento periodizado pode fazer com que os atletas tenham uma melhora significativa em seus limiares de corrida. Os dados acima mostram que os 8 atletas avaliados melhoraram tanto o L1 quanto o L2, deste modo o atleta suportara uma intensidade maior durante as corridas.

Na presente pesquisa nao houve treinamento concorrente, mas o treinamento de corrida aliado ao treinamento de forca pode ser uma boa estrategia para aumentar a desempenho do atleta e prevenir lesoes, uma vez que a modalidade exige que o atleta tenha uma estrutura muscular muito bem fortalecida.

Estudo realizado por Domingos e colaboradores (2007) traz uma proposta de periodizacao diferente do que foi apresentado na pesquisa acima, ele inclui sessoes de treino de forca explosiva, forca maxima e resistencia de forca em sua periodizacao, se preocupando tambem com as adaptacoes neuromusculares do atleta avaliado.

Ele afirma que os programas de treinamento concorrente se mostram mais efetivos para melhorar a resistencia de forca, o tempo de exaustao numa atividade aerobia e a velocidade de corrida de longa e media distancia quando comparados aos programas de treinamento exclusivos de orientacao aerobia.

Goncalves e colaboradores (2007), em um estudo de caso, avaliou um individuo com idade de 30 anos, do genero masculino que pratica a modalidade com orientacao de um profissional ha 3 meses. Em seu estudo, durante 24 semanas com 5 dias de treino semanais, variando as cargas de treino.

No primeiro dia 80 a 100% da FCmax; segundo dia 60 a 80% da FCmax; no terceiro dia 40 a 60% da FCmax; no quarto dia 30 a 40% da FCmax e no quinto dia 10% a 20% da FCmax. Alem dos treinos aerobios todos os dias o atleta fazia exercicios de musculacao e flexibilidade com intuito de prevenir lesoes. Ao final do estudo foi possivel observar uma melhora significativa no limiar anaerobio do atleta.

Paavolainen e colaboradores (1999), realizaram um experimento com 10 atletas e com duracao de nove semanas de treinamento de resistencia e potencia.

O treinamento consistiu em corridas abaixo do limiar anaerobio ate intensidades acima do limiar. Os autores concluiram que houve melhora do tempo de corrida em 5km apos treinamento de potencia, sprints e endurance sem mudancas significativas na potencia aerobia maxima.

Este fato demonstra o exposto acima, que o limiar anaerobio, principalmente determinado pelo lactato sanguineo e mais sensivel ao treinamento do que valores de VO2max.

Denadai e colaboradores (2003), analisou 17 atletas para identificar a validade da velocidade critica para estimar o limiar anaerobio, antes e apos dois diferentes programas de treinamento em atletas de endurance. Todos os corredores treinavam 6 dias por semana, com um volume semanal que oscilava entre 70 a 90 km.

O experimento foi desenvolvido durante 8 semanas, sendo estas, subdivididas em 4 diferentes fases: pre-teste, treinamento, polimento e pos- teste. Antes do programa de treinamento, a velocidade critica apresentou boa validade para a determinacao do limiar anaerobio.

Apos o treinamento, entretanto, a velocidade critica, para os dois grupos estudados, nao apresentou a mesma sensibilidade do limiar anaerobio para identificar as adaptacoes determinadas pelo treinamento.

A inclusao de 1 a 2 sessoes semanais de treinamento intervalado de alta intensidade (90 - 100%VO2 max), durante periodos relativamente curtos de 4 semanas, sao eficientes para a melhora do limiar anaerobio, fato este que foi observado em nosso estudo.

CONCLUSAO

Concluiu-se que o Limiar Anaerobico se caracteriza como um metodo de controle de treinamento mais adequado para corredores seja ele amador ou de alto rendimento.

No presente estudo fica comprovado que o monitoramento ideal das cargas e algo necessario para um bom desempenho na corrida e que os oito atletas avaliados obtiveram melhora em seus limiares de corrida.

Sendo assim, avaliar o individuo e organizar o treinamento tem se tornado essencial para se tracar novas estrategias e obter maiores resultados no ambito da corrida de rua.

REFERENCIAS

1-Conconi, F.; e colaboradores. Determination of the anaerobic threshold by a noninvasive field test in runners. Journal of Applied Physiology. Vol. 52. Num. 4.1997. p. 869-873.

2-Denadai, B.S.; Ortiz, M.J.; Stella, S.; Mello, M.T. Validade da velocidade critica para a determinacao dos efeitos do treinamento no limiar anaerobio em corredores de endurance. Revista Portuguesa de Ciencias do Desporto. Vol. 3. Num. 1. 2003. p. 16-23.

3-Domingos, A. M.; Costa, A.J.S.; Dantas, J.M. Periodizacao do treinamento em corredores de rua especialista em provas de dez quilometros. Universidade Gama Filho. Monografia de Especializacao. Natal. 2007.

4-Declaracao de Helsinque. World Medical Association. Seul: 59a Assembleia Geral da Associacao Medica Mundial. 2008.

5-Goncalves, L.B. Corrida de rua: Qualidade de vida e desempenho. Universidade Estadual de Campinas. TCC Graduacao. Faculdade de Educacao Fisica. Campinas. 2007.

6-Ministerio da Saude. Conselho Nacional de Saude. Resolucao no. 466, de 12 de dezembro de 2012.

7-Paavolainen, L.; Hakkinen, K.; Hamalainen, I. Explosive strength raining improves 5-km running time by improving running economy and muscle power. Journal of Applied Physiology. Vol. 3. Num. 86. 1999. p. 1527-1533.

8-Salgado, J.V.V.; Mikahil, M.P.T.C. Corrida de rua: analise do crescimento do numero de provas e de praticantes. Revista Conexoes. Vol. 4. Num. 1. 2006. p.100-110.

9-Schaan, B.; Harzheim, E.; Gus, I. Perfil de risco cardiaco no diabetes mellitus e na glicemia de jejum alterada. Revista de Saude Publica. Vol. 38. Num. 4. 2004. p.529-536.

Recebido para publicacao 05/09/2018

Aceito em 16/04/2019

Tiago Silva Andrade (1), Bruno de Souza Vespasiano (2) Luciano Henrique Nunes Pinheiro (1), Andressa Mella Pinheiro (1)

(1-)Faculdade de Santa Barbara d'Oeste, Santa Barbara d'Oeste-SP, Brasil.

(2-)Faculdades de Ciencias Sociais e Agrarias de Itapeva (FAIT), Itapeva-SP, Brasil.

E-mails dos autores:

tiandrade10@gmail.com

brunovespasiano@msn.com

lucianonpinheiro@gmail.com

andressamella@gmail.com
Tabela 1 - Resultados referentes as avaliacoes 1 e 2.

                   Idade              L1 (km/h)
                   (anos)             Av. 1

Media [+ or -] DP  35,1 [+ or -] 9,4  9,6 [+ or -] 0,9

                                           L2 (km/h)
                   Av. 2                   Av. 1

Media [+ or -] DP  10,6 [+ or -] 1,4 (**)  12,9 [+ or -] 1,6

                    Av. 2

Media [+ or -] DP   13,4 [+ or -] 1,8 (*)

Legenda: (*) p=0,05, (**) p=0,01.
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Author:Andrade, Tiago Silva; de Souza Vespasiano, Bruno; Pinheiro, Luciano Henrique Nunes; Pinheiro, Andres
Publication:Revista Brasileira de Prescricao e Fisiologia do Exercicio
Date:May 1, 2019
Words:2559
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