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EFEITO DO PROTOCOLO DE ISQUEMIA PRE-CONDICIONANTE NA PERFORMANCE DA POTENCIA DE MEMBROS INFERIORES EM ATLETAS DE HANDEBOL.

INTRODUCAO

O handebol e um esporte que possui caracteristicas intermitentes de alta intensidade e curta duracao com pausas entre os esforcos, o que exige de seus praticantes um elevado indice de condicionamento fisico. Principalmente devido ao tempo de jogo (60 min), o handebol pode ser caracterizado como uma modalidade esportiva em que grande parte do gasto energetico dos atletas e suprida pelo metabolismo aerobio, porem as acoes determinantes ocorrem como resultado da eficiencia do metabolismo anaerobio. Para que a periodizacao dos atletas seja altamente eficaz e necessario que conhecamos os mais variados metodos de treinamento existentes e quais sao os reais beneficios adquiridos com sua pratica.

Alguns estudos investigaram o efeito agudo da aplicacao do treinamento de forca com oclusao vascular sobre a ativacao muscular. Porem, ha escassez de estudos que investiguem o efeito agudo da aplicacao do treinamento em condicao ocluida em atletas de handebol.

Alguns efeitos do treinamento com restricao de fluxo sanguineo sao conhecidos, como o aumento da forca e da hipertrofia. Conjecturando nas especificidades do esporte, foi aplicado o metodo de isquemia pre-condicionante (IPC). A IPC refere-se a periodos de isquemia seguidos de reperfusao.

Geralmente o protocolo de IPC envolve tres ou quatro ciclos de 5 min de oclusao circulatoria acima da pressao arterial sistolica, seguido por um periodo de 5 min de reperfusao.

Deste modo, o objetivo do presente estudo foi verificar o efeito do protocolo de isquemia pre-condicionante em atletas de handebol, direcionado para a potencia de membros inferiores.

MATERIAIS E METODOS

A pesquisa experimental de natureza aplicada e transversal foi realizada no laboratorio de Avaliacao Fisica da instituicao de ensino superior Unipe de Joao Pessoa-PB.

Os criterios de exclusao foram incumprimento dos procedimentos relacionados a realizacao da coleta de dados.

O presente estudo foi aprovado pelo Comite de etica em pesquisa (parecer no 0476/13) do Centro de Ciencias da Saude da Universidade Federal da Paraiba - CEP/CCS.

A populacao do estudo foi composta por oito atletas da equipe masculina de handebol Gremio Unipe, com idade entre 18 e 27 anos, que realizaram em ordem aleatoria um protocolo com dois testes de saltos verticais.

Os voluntarios assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido para fazer parte da pesquisa, conforme determina a Resolucao 466/12 do Conselho Nacional de Saude (CNS).

O protocolo de isquemia pre-condicionante consistiu em tres ciclos de isquemia com igual periodo de reperfusao. A pressao utilizada na isquemia foi de 220 mmHg (Manometro para Treinamento com Oclusao Vascular CardioMed), a mesma pressao utilizada nos estudos de Clevidence e colaboradores (2012), Cruz e colaboradores (2015), Gibson e colaboradores (2013, 2015) Groot e colaboradores (2010), Kido e colaboradores (2015), Marocolo e colaboradores, (2016).

Para a medida de potencia dos membros inferiores, foram utilizados os testes de salto vertical com o auxilio do instrumento eletronico plataforma de salto (Jump System Pro Cefise) seguindo o protocolo de Bosco e colaboradores (1983) com tecnica de salto vertical com contra movimento, sem ajuda dos movimentos dos bracos (CMJ) e teste de forca reativa unilateral, realizado em uma altura de 20 cm da plataforma. Foi informado aos voluntarios, que os mesmos permanecessem com os membros inferiores estendidos durante a fase de voo.

As sessoes de IPC consistem em ciclos de 5 minutos de oclusao, seguido de 5 minutos de reperfusao (sem oclusao), repetidas vezes de acordo com o protocolo: Grupo experimental realizou tres ciclos de IPC e Grupo Controle (sem ciclos de IPC). Foi padronizado o tempo de 30 minutos em todas as sessoes, antes da execucao dos testes.

Todos os sujeitos foram informados na primeira sessao, bem como 24 horas antes do teste, dos procedimentos previos para a realizacao da coleta, que foram: nao ingestao de cafeina, alcool ou drogas 24 horas antes do teste, abstencao de atividade fisica 48 horas antes do teste. As sessoes aconteceram no mesmo dia para as duas sessoes experimentais, com intervalo de 72 horas entre elas.

Os individuos do grupo IPC realizaram tres ciclos de 5 minutos ocluidos com 5 minutos de reperfusao, totalizando 30 minutos. Logo em seguida, realizaram os testes de saltos verticais.

Na circunstancia de grupo controle, os individuos nao realizaram ciclos de IPC, apenas os testes de saltos verticais em circunstancias iguais as da condicao de grupo experimental.

Na analise estatistica dos dados foi utilizado o software SPSS 24. Para o teste de normalidade foi utilizado o teste de Shapiro-Wilk. As diferencas entre os diferentes grupos foram analisadas utilizando o teste tamanho de efeito, segundo Cohen (1988).

RESULTADOS

Todos os dados obtidos com o calculo da potencia em todos os testes sao apresentados na tabela 1.

Os valores da potencia pos IPC apresentaram diferencas estatisticas quando comparados aos valores da sessao controle. A condicao ocluida promoveu uma queda no desempenho da maioria dos atletas em todos os testes realizados.

Na tabela 2 estao indicados os valores do procedimento estatistico tamanho de efeito. Houve diferenca significante nas variaveis entre os grupos controle e experimental (p<0,05).

DISCUSSAO

No presente estudo, partiu-se da premissa de que os ciclos de isquemia pre-condicionante poderiam ocasionar um efeito positivo no desempenho da potencia de membros inferiores em atletas de handebol.

Entretanto, verificou-se que o protocolo de IPC nao demonstrou diferencas estatisticas muito relevantes entre o grupo controle e o experimental. Porem, vale ressaltar que visivelmente, a fadiga e a queda do desempenho dos individuos sao muito perceptiveis.

O efeito que o treinamento com IPC exerce sobre as variaveis fisiologicas ainda apresenta certas discrepancias.

Em sua revisao literaria Masahiro (2017) aponta alguns dos possiveis fatores que levam a estas discrepancias, como por exemplo os diferentes protocolos de IPC que nao limitam a mesma pressao de oclusao, localizacao aplicada, numero de ciclos de isquemia/reperfusao, e o tempo de pre exercicio pos IPC. Nesta revisao literaria, o autor afirma que cerca de metade dos estudos anteriores mostraram efeitos beneficos da IPC no desempenho do exercicio. O que vai de encontro aos resultados obtidos em nosso estudo.

Crisafulli e colaboradores (2011) e Cruz e colaboradores (2015) sugerem que a IPC reduz a sensibilidade do corpo aos sinais de fadiga, indo de encontro a nossa hipotese de que o acumulo de metabolitos pode aumentar a fadiga central e prejudicar a potencia anaerobia. Talvez, essa diferenca de resultados possa ser explicada pelo tempo de pre exercicio pos IPC.

Em, Gibson e colaboradores (2013) investigaram se a IPC em uma populacao treinada afetaria o desempenho do sprint maximo. E concluiram que nao havera beneficio para os jogadores de esporte em equipe utilizar a IPC como meio de melhorar o desempenho do sprint a uma distancia de 30 m. Esse mesmo estudo cogitava que a movimentacao neural e a taxa de passo aumentada induzida pela IPC poderiam ter influencia positiva em tarefas que exigissem alta potencia, como a corrida.

Corroborando com os resultados do nosso estudo, Paixao e colaboradores (2014) concluiram que a IPC tem um efeito prejudicial sobre a performance anaerobia. Seu protocolo consistiu em 4 ciclos de 5 min de IPC e 5 min de reperfusao com pressao aplicada de 250 mmHg. O desempenho foi avaliado em testes de Wingate para potencia maxima e media, potencia anaerobia total e indice de fadiga. Eles sugerem que a poupanca de ATP poderia ser o principal aspecto que contabiliza os efeitos negativos da IPC.

Como podemos observar, ainda nao existe uma metodologia ideal de IPC para fins esportivos. E baseados no principio da individualidade biologica, podemos apenas especular com nossos resultados que os atletas podem ser classificados como responsivos ou nao responsivos a IPC.

CONCLUSAO

Nossos resultados indicam que uma sessao de isquemia pre-condicionante nos membros inferiores foi capaz de diminuir a performance dos atletas.

O que pode explicar a queda do desempenho e o acumulo de metabolitos ocasionado pela condicao ocluida anteriormente a realizacao do exercicio.

Os resultados estatisticos aliados a nossa percepcao visual no momento dos testes, nos permite afirmar que esta estrategia nao foi efetiva para promover o aumento da potencia muscular.

REFERENCIAS

1-Bosco, C.; Luhtanen, P.; Komi, P. V. A simple method for measurement of mechanical power in jumping. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology. Vol. 50. Num. 2. p. 273-282. 1983.

2-Clevidence, M. W.; Mowery, R. E.; Kushnick, M. R. The effects of ischemic preconditioning on aerobic and anaerobic variables associated with submaximal cycling performance. European Journal of Applied Physiology. Vol. 112. p. 3649-3654. 2012.

3-Crisafulli A, Tangianu F, Tocco F, Concu A, Mameli O, Mulliri G, Caria MA. Ischemic preconditioning of the muscle improves maximal exercise performance but not maximal oxygen uptake in humans. J. Appl. Physiology. Vol. 111. p. 530-536. 2011.

4-Cruz, R. S. DE O. et al. Effects of ischemic preconditioning on maximal constant-load cycling performance. Journal of Applied Physiology. Vol. 119. Num. 9. p. 961-967. 2015.

5-Gibson, N.; e colaboradores. Effect of ischemic preconditioning on land based sprinting in team sport athletes. International Journal of Sports Physiology and Performance. Vol. 8. Num. 6. p. 671-676. 2013.

6-Gibson, N.; e colaboradores. Effect of ischemic preconditioning on repeated sprint ability in team sport athletes. Journal of Sports Sciences. Vol. 33. Num. 11. p. 1182-1188, 2015.

7-Groot, P. C. E.; e colaboradores. Ischemic preconditioning improves maximal performance in humans. European Journal of Applied Physiology. Vol. 108. p. 141-146. 2010.

8-Kido, K.; e colaboradores. Ischemic preconditioning accelerates muscle deoxygenation dynamics and enhances exercise endurance during the work-to-work test. Physiological Reports. Vol. 3. p. e12395-e12395. 2015.

9-Marocolo, M.; e colaboradores. Are the beneficial effects of ischemic preconditioning on performance partly a placebo effect? International Journal of Sports Medicine. Vol. 94. Num. 10. p. 822-825. 2015.

10-Masahiro, H. Ischemic preconditioning: Potential impact on exercise performance and underlying mechanisms. Sports Med. Vol. 6. Num. 1. p. 15-23. 2017.

11-Paixao, R.C.; Mota, G.R.; Marocolo, M. Acute effect of ischemic preconditioning is detrimental to anaerobic performance in cyclists. Int J Sports Med. Vol. 35. p.912-915. 2014.

Vanessa Montenegro (1) Luis Filipe Gomes Barbosa Pereira Lemos (1) Leonardo Emmanuel Medeiros Lima (2)

(1-) Centro Universitario de Joao Pessoa (Unipe), Joao Pessoa-PB, Brasil.

(2-) Universidade Anhembi Morumbi, Sao Paulo-SP, Brasil.

E-mails dos autores:

montenegrovanessa@outlook.com

leonardo@rhcorrida.com

Endereco para correspondencia:

Vanessa Montenegro

CEP: 580.530-28, Joao Pessoa, Paraiba, Brasil.

Phone: (83) 99821-0920

Recebido para publicacao 17/07/2017

Aceito em 27/11/2017
Tabela 1 - Valores absolutos de potencia nos grupos controle e
experimental (n=8.)

Teste                        Grupo                  Media (DP)

Tempo voo CMJ                Controle         528,62 [+ o -] 549,55
                         Experimental         508,75 [+ o -] 47,62
Altura CMJ                   Controle          34,52 [+ o -] 6,44
                         Experimental          31,98 [+ o -] 5,77
Potencia CMJ                 Controle          25,43 [+ o -] 2,38
                         Experimental          24,48 [+ o -] 2,29
Tempo voo Reat. D            Controle         404,12 [+ o -] 67,20
                         Experimental         369,75 [+ o -] 61,41
Altura Reat. D               Controle          20,51 [+ o -] 6,51
                         Experimental          17,16 [+ o -] 5,32
Potencia Reat. D             Controle          19,44 [+ o -] 3,23
                         Experimental          17,79 [+ o -] 2,95
Tempo solo Reat. D           Controle         413,25 [+ o -] 43,56
                         Experimental          429,5 [+ o -] 95,55
Tempo voo Reat. E            Controle         412,12 [+ o -] 42,81
                         Experimental            396 [+ o -] 30,99
Altura Reat. E               Controle          21,02 [+ o -] 4,50
                         Experimental          19,33 [+ o -] 3,15
Potencia Reat. E             Controle          19,83 [+ o -] 2,06
                         Experimental          19,05 [+ o -] 1,49
Tempo solo Reat. E           Controle         435,62 [+ o -] 89,19
                         Experimental         439,25 [+ o -] 80,41

Legenda: n = tamanho da amostra. Valores apresentados como media
[+ o -] desvio padrao. *p<0,05 diferenca significante da IPC.

Tabela 2 - Valores teste tamanho de efeito.

Teste                     Tamanho de efeito

Altura CMJ                  ES       -0,42
Potencia CMJ                ES       -0,41
Tempo de voo CMJ            ES       -0,41
Altura Reat. D              ES       -0,56
Potencia Reat. D            ES       -0,53
Tempo voo Reat. D           ES       -0,53
Tempo solo Reat. D          ES       -0,22
Altura Reat. E              ES       -0,43
Potencia Reat. E            ES       -0,43
Tempo voo Reat. E           ES       -0,43
Tempo solo Reat. E          ES       -0,04
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Author:Montenegro, Vanessa; Lemos, Luis Filipe Gomes Barbosa Pereira; Lima, Leonardo Emmanuel Medeiros
Publication:Revista Brasileira de Prescricao e Fisiologia do Exercicio
Date:May 1, 2018
Words:2175
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