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Duas pernas, um braco: a banda Katingation e sua apropriacao do death metal no cenario pos-guerra civil angolano.

Dos piernas, un brazo: la banda Katingation y su apropiacion del death metal en el escenario posguerra civil angolano

Two legs, one arm: the band Katingation and its appropriation of death metal in angolan post-civil war scene

Introducao

Odio, violencia e niilismo sao elementos distintivos do subgenero musical death metal. Apontado por pesquisadores e fas como fonte de sua vitalidade e resistencia, tornaram-se tambem motivo de controversias entre grupos religiosos e politicos, e de parte da critica midiatica, por representarem um conjunto de "emocoes negativas", cuja influencia sobre os jovens, na forma de estimulo a agressividade, deve ser evitada (DUNN, 2004; HARRIS, 2007).

Propondo outra perspectiva, este trabalho tem por foco a discussao sobre a apropriacao do death metal em territorios "perifericos", buscando entender como este subgenero e utilizado para ressignificar cenarios de conflito social e inseguranca, marcados por pobreza, mortes e guerra.

Para tanto, analisa, em carater exploratorio, o album 2 legs, 1 arm lancado por meio da internet pelo grupo angolano Katingation, em 2013. Na obra, narrativas sobre a Guerra Civil que assolou o pais africano e suas consequencias sociais, assim como elementos da cultura angolana, atravessam a producao para criar uma visao da historia local.

Nesta direcao, esta abordagem privilegia a articulacao entre as sonoridades do genero metal e as letras das cancoes, relacionando a obra com o contexto socio-historico e geografico, a fim de discutir os sentidos atribuidos pela banda a temas como dor, morte e perdas. Nao se trata, portanto, de uma analise textual stricto sensu das letras das cancoes, mas de uma aproximacao interpretativa que, em dialogo com autores dos estudos de som e musica (FRITH, 1998; DENORA, 2004; JANOTTI JR., 2012), se interessa por entender a obra da banda Katingation como um todo--desde os aspectos plasticos da capa do album, passando pelas letras e sonoridades--em sua producao de sentidos sobre o cotidiano de Angola.

Ancorada na reflexao que destaca o papel central dos generos e cenas musicais como mediadores de atribuicao de sentidos coletivos a produtos culturais; e na importancia da nocao de afeto dentro deste processo, a premissa assumida e a de que se trata de uma apropriacao peculiar do death metal, uma vez que, nesta vertente musical, de forma geral, as "emocoes negativas", tais como odio, violencia e morte, sao acionadas para o desenvolvimento de letras com tematicas abstratas, distanciadas da realidade social imediata. (3) Contudo, em 2 legs, 1 arm, o subgenero foi utilizado como meio de representacao da identidade angolana, com cancoes que interpretam, ao mesmo tempo, o passado social e o presente de Angola e do continente africano.

Logo, pode-se destacar que o tratamento de temas considerados "negativos", neste caso, consiste em uma resposta para o odio e a agressividade, e nao um gerador deles. Ou seja, ao inves de encara-lo como um subgenero que "promove" a violencia em suas obras, o que se propoe e percebe-lo como catalisador de processos de simbolizacao e atribuicao de sentido para experiencias de morte, dor e violencia decorrentes de conflitos sociais em Angola. Articulado ao primeiro objetivo, pretende-se ainda compreender esta obra como artefato de reconstrucao narrativa e enquadramento da memoria, atraves dos quais as vivencias referentes a Guerra Civil sao atualizadas e ressignificadas no contexto de uma cultura de consumo de bens culturais de nicho, tal como e o caso do deathmetal (POLLAK, 1992; NORA, 1993; HUYSSEN, 2000).

Ressalta-se que, ate o lancamento do documentario Death Metal Angola, a cena musical angolana era pouco conhecida no circuito de fas e especialistas deste genero musical. Dessa maneira, se a bibliografia sobre cenas de death metal consolidadas, como as da Florida e da Suecia; ou sobre a apropriacao do metal extremo em territorios "perifericos" como India, Taiwan, Siria, Iraque, Singapura e Brasil (HARRIS, 2007) constituem um conjunto bastante solido de reflexoes--sobretudo, em relacao aos aspectos identitarios, de resistencia e de pertencimento coletivo dos fas do genero--ha poucos estudos sobre o uso do death metal para compreensao de cenarios de conflito e inseguranca; e nenhum estudo, ate o momento, do qual se tenha conhecimento, que aborde o caso especifico da cena de metal angolana.

Assim, este trabalho propoe uma primeira aproximacao da tematica, investigando de que maneira as "regras de genero" do death metal foram apropriadas por musicos angolanos para ressignificar aspectos da vida cotidiana e a historia recente do pais; e, em que medida, esta apropriacao subverte o proprio death metal--conhecido por abordar temas niilistas, mas nao por tratar, em suas letras, de temas politicos e sociais de forma explicita.

O trabalho organiza-se em duas partes: na primeira, situa-se a cena em questao em relacao ao genero musical do metal, discutindo aportes teoricos para compreender aspectos das apropriacoes locais. A seguir, sao analisadas quatro cancoes do album da banda Katingation, com o intuito de aprofundar a discussao, buscando relacionar as letras aos contextos locais e a historia do pais africano.

Generos globais e apropriacoes locais

O debate sobre as nocoes de generos musicais e de sua articulacao com as cenas--globais ou locais--enquanto geradores de afetos e significados coletivos constitui o eixo desta reflexao. Nesta direcao, propoe-se, em dialogo com autores tais como Fabbri (1982), Frith (1998), Janotti Jr. (2004) e Trotta (2008), que o genero musical e um mediador central da experiencia de fruicao e consumo musical. Assim, as rotulacoes de cancoes dentro de generos, alem de organizarem a cadeia produtiva da musica, constituem, sobretudo, processos culturais, em que aspectos imanentes, tais como as sonoridades que identificam cada genero, negociam com outras esferas, tais como, por exemplo, as praticas de mercado e de sociabilidade. Neste sentido, cada genero musical consiste em um "campo afetivo, estetico e social em que a comunicacao e o circuito de codigos atuarao" (TROTTA, 2008).

No caso do heavy metal, sua consolidacao ocorreu a partir da Nova Onda do Heavy Metal Britanico (NWOBHM), na decada de 1980. (4) Conforme ressalta Janotti Jr. (2012), trata-se de um dos generos mais "codificados" da historia do rock, em que as "regras de genero"--como a guitarra eletrificada e distorcida, os acordes "power chord", os efeitos de "peso" sonoro obtidos pelo uso das tecnologias de captacao e amplificacao, os riffs, o vocal gutural mixado no mesmo volume de outros instrumentos e o "preenchimento" sonoro advindo da marcacao do contrabaixo e bateria--sao valores compartilhados por bandas e fas para avaliar o pertencimento de uma banda ao genero.

Alem disto, aspectos extramusicais, tais como a "escuta dedicada (5) dos fas"; e a "autenticidade/cooptacao" das bandas, avaliadas a partir de suas estrategias de circulacao em mercados mais ou menos de nicho, traduzidas pelo par mainstream/underground sao outros elementos centrais da cultura do metal (JANOTTI JR., 2012; CARDOSO FILHO, 2004).

Entre os subgeneros baseados em praticas underground para consolidar suas dinamicas esta o death metal (HARRIS, 2007), em que se destacam os vocais guturais, as variacoes ritmicas que englobam rapidez e cadenciamento, alem da utilizacao extrema das distorcoes de guitarra. (6) A partir da interpretacao de temas niilistas, morbidos, que raramente se referem a contextos locais especificos, esta vertente, consolidada na cidade de Tampa (Florida), conquistou fas ao redor do globo: primeiramente, atraves das trocas de fitas, cartas e fanzines; e, posteriormente, atraves tambem da internet, caracterizando, assim, um dos exemplos de articulacao entre cenarios e ambientes globais, locais e virtuais (BERGER, 1999; PURCELL, 2003; JANOTTI JR., 2012).

Neste contexto, a nocao de cenas musicais (STRAW, 2006) tambem e produtiva para a discussao, por remeter-se as apropriacoes de generos musicais globais em circuitos locais. Assim, as cenas materializam os generos atraves de um circuito concreto constituido por casas de shows, lojas de instrumentos musicais, locais de encontros nas vias publicas etc.; e, ainda, um circuito virtual composto por sites, blogs e redes sociais. Cenas estas que, longe de "copiarem" ou reproduzirem ipsis litteris os seus modelos de referencia, vao negociar estas regras dentro de seus ambientes socioculturais, traduzindo-os a partir de novos contextos e problemas (HALL, 1992 e 1996; CANCLINI, 2009; APPADURAI, 1996; CASTELLS, 2002; ORTIZ, 1998).

Conforme destaca Janotti Jr., em referencia a banda Sepultura--um dos expoentes do death metal, no inicio da carreira:

Levando-se em consideracao a cena metal de Belo Horizonte, lugar de origem do grupo Sepultura, e possivel imaginar uma gradacao em que a afirmacao do territorio sonoro e construida atraves de negociacoes entre aspectos globais (genero heavy metal) e locais (cenas musicais), ou seja, heavy metal vs pop, agressividade vs sonoridades delicadas como a do Clube da Esquina e raiva vs catolicismo local. Esses elementos, bastante discutidos no documentario Ruido das Minas para tentar explicar por que Belo Horizonte se tornou a "capital brasileira do metal", permitem aos fas transitar entre a projecao virtual de um espaco sonoro, o heavy metal, e as tensoes regionalizadas que marcam as escutas territorializadas (JANOTTI JR., 2012, p. 15).

Contudo, no caso do death metal, o ponto a ressaltar e que as apropriacoes locais tem sido muito fieis as regras de genero--o que significa que sao poucos os exemplos de bandas locais que facam referencias diretas, em suas letras, por exemplo, aos seus contextos sociopoliticos.

E o proprio caso do Sepultura--que foi "renegado" por parte dos fas ao inserir elementos de sonoridade "local" na forma de parcerias com Carlinhos Brown e indios do Xingu, tendo como apice o album Roots (7)--demonstra a complexidade da discussao, obrigando a pensar cuidadosamente, caso a caso, na forma como os elementos locais sao introduzidos, e justificando o interesse pelo caso de Angola.

O terceiro aspecto desta apropriacao diz respeito a sua dimensao afetiva. Em dialogo com autores que tem abordado este aspecto do consumo cultural (CARDOSO FILHO, 2004; GROSSBERG, 1992), e de interesse o aprofundamento da discussao a partir de um duplo entendimento da nocao de afeto: primeiramente, como o conjunto de emocoes evocado por uma cancao, como alegria, amor, tristeza, odio ou prazer; e, em segundo lugar, a partir da evocacao do sentido de "afetacao", remetendo ao conjunto de estimulos sensoriais, corporeos e "de presenca" (GUMBRECHT, 2010) tambem acionados na nossa escuta de uma obra musical. Acepcoes que atuam em conjunto para demarcar a especificidade da fruicao musical de certo genero, banda ou cantor perante seu publico; e a forma como a musica atua como "tecnologia do self", ou seja, como um repositorio distintivo de valor e de autopercepcao para os fas (DENORA, 2004).

Finalmente, abordaremos o processo de "enquadramento da memoria" (8) (POLLAK, 1992) em jogo no processo, atraves de autores que propoem pensar nos meios de comunicacao como "lugares de memoria" (NORA, 1993). Assim, este album sera tomado como um testemunho que contribui para a construcao de um "marco historico" (CHRISTENSEN, 2009), representado nao por um monumento fisico, mas sim por lembrancas "desmaterializadas e reconfiguraveis" veiculadas pelo album na internet.

Feitas estas observacoes, segue a analise da banda em questao.

Death Metal Angola

"Quando cantamos death metal, nos pegamos a dor que temos por dentro, e as dificuldades sobre as quais podemos falar durante nosso cotidiano. E nos falamos dessa dor atraves da musica" (UOL MAIS, 2013, on-line).

A dor com a qual Wilker, assim como outros musicos angolanos de metal, precisa lidar relaciona-se ao contexto historico, economico e social do pais. Cabe lembrar que Angola obteve independencia em 11 de novembro de 1975, apos quinze anos de luta armada contra o colonialismo portugues. Contudo, apos este conflito armado, o pais enfrentou uma guerra civil, provocada pelas disputas de poder entre tres grupos politicos: (9) Movimento Popular de Libertacao de Angola (MPLA), Frente Nacional de Libertacao de angola (FNLA) e a Uniao Nacional para Independencia Total de angola (UNITA). (10) A populacao angolana assistiu a um breve periodo de "cessar-fogo", de 1991 a 1992; e a guerra so terminou dez anos depois, no ano de 2002, com a morte de Jonas Savimbi, lider da UNITA (FISH, 2002).

apos viver decadas de sua trajetoria em guerra, a populacao continua a ter que lidar com os resquicios de seu passado violento. Com o pais devastado pelos conflitos armados, o governo enfrenta dificuldades para construir uma economia forte ou uma sociedade estavel democraticamente, para oferecer educacao, saneamento basico, transporte publico e saude. (11) Na politica, Angola realizou, em 2012, a terceira eleicao presidencial em sua historia. Outro problema decorrente do passado de conflitos armados consiste nas continuas mortes pos-guerra e serios danos sociais gerados pelas minas terrestres. Estes fatos demonstram que a Guerra Civil, em grande medida, definiu a historia moderna do pais (OYEBADE, 2007).

Neste cenario, a cena angolana de metal ganhou visibilidade fora do pais com o documentario Death Metal Angola, de Jeremy Xido, produzido em 2012. (12) A producao conta a historia de Wilker Flores, guitarrista de death metal, e sua namorada Sonia Ferreira, moradores do orfanato Okutiuka, que reuniu bandas de diversas "provincias" no primeiro festival nacional de "rock", em 2011, na cidade de Huambo.

No documentario, ve-se a ligacao afetiva de parte da juventude angolana com o genero, encarada como um caminho para a ressignificacao do passado violento e de morte, ou, como Sonia comenta, "para limpar os restos de todos esses anos de guerra" (DEATH METAL ANGOLA, 2012).

2 legs, 1 arm

O primeiro aspecto que chama atencao a respeito da banda Katingation e que sua existencia tem sido questionada em foruns focados no subgenero e, segundo informantes da cena de metal angolano, entre as proprias bandas do circuito, posto que o grupo nunca foi visto em apresentacoes ao vivo ou em encontros dos musicos locais. (13)

Porem, em postagens na rede social, os rastros da banda, inclusive da [suposta] condicao fisica de seus integrantes, (14) permitem tecer observacoes preliminares sobre o grupo--desde a capa e o titulo do album (Figura 1), que sugerem a mutilacao da perna de dois integrantes como consequencia da Guerra Civil:

[FIGURE 1 OMITTED]

"Nos estamos contentes com o disco. Demoramos muito para gravar as musicas pq e barra o baterista gravar dupla pedaleira so com uma perna" (KATINGATION FACEBOOK, 2013, on-line).

Formado na provincia de Kuando Kubango, o trio composto pelo vocalista Ngombe Semedo, pelo baixista e guitarrista Katito Mutungula e pelo baterista Tchissakwe Matisse apresenta nove musicas, cantadas em ingles, que transitam entre interpretacoes variadas da morte, da violencia e de outras situacoes de ameaca ao bem-estar social no contexto local. (15)

Na faixa de abertura, "Kijibanganga", (16) o ouvinte e transportado para um ambiente sonoro que evoca um cenario de violencia, com sons de tiroteios e ruidos de elefantes e outros grandes mamiferos em fuga. Tudo leva a crer que a composicao instrumental represente a extincao de elefantes e rinocerontes, provocada pela caca ilegal para o comercio de marfim (17)--problema nao so de Angola, mas de outros paises do continente, acionando assim, logo na abertura, elementos que compoem a dimensao transnacional da identidade dos musicos, corroborando a observacao de Hall de que "Identidades culturais sao pontos de identificacao, os pontos instaveis de identificacao ou sutura, que sao feitos dentro do discurso da historia e da cultura. Nao uma essencia, mas um posicionamento" (HALL, 1996, p. 53).

A este primeiro posicionamento identitario articulam-se outros, mais ligados a aspectos nacionais e locais, que podem ser apreendidos nas cancoes analisadas a seguir. Na oitava musica, "Enter the musseque of death", por exemplo, a fusao de sons tribais ao peso do death metal, nos dois minutos e quatro segundos de duracao, compoe o cenario de aproximacao com a morte na esfera dos musseques (18) da capital Luanda. "Enter the musseque of death, where the sun is black, and the sky is dead", (19) anunciam os guturais de Ngombe.

Mais do que apenas abrigar moradores com baixo nivel economico e social, os musseques constituiram locais de resistencia ao colonialismo portugues durante os movimentos de independencia, no inicio da decada de 1960 (20) (GUIMARAES, 2009, on-line). Os versos "Enter the musseque of death, where the dirt starts, and the world ends" (21) falam sobre as cubatas (22) construidas nessas zonas de areias avermelhadas de Luanda (GUIMARAES, 2009, on-line). Estas construcoes sao moradias de individuos expulsos do centro da cidade devido a expansao urbana ou pelos novos imigrantes (AMARAL, 1968 apud GUIMARAES, 2009, on-line). Assim, a representacao desta esfera social ganha um ar "opressor" com as passagens: "Enter the musseque of death, where the wind don't blow, and heat reigns" (23) e "Enter the musseque of death, where you'll live, die and die again". (24)

Na sexta faixa, "Machimbombo Flat Tire", (25) um terceiro aspecto das posicoes identitarias e explorado: o de morador local que enfrenta a morte no dia a dia a partir da falta de investimento em transportes e mobilidade urbana. A partir da experiencia do trio com o meio de transporte coletivo [machimbombo], a letra remete a forca do acaso e ao risco no deslocamento de moradores entre as provincias africanas de Benguela, Huambo, a capital Luanda e Kuando Kubango. "On the path to Benguela, The Machimbombo had a flat tire", "On the path to Huambo, The Machimbombo had a flat tire", "On the path to Luanda, The Machimbombo had a flat tire". "On the path to Kuando Kubango, The Machimbombo had a flat tire". (26)

Entre passagens dos vocais gritados e guturais, o ouvinte e transportado para a desordem e para a inseguranca enfrentada por pessoas que se utilizam desses meios de transporte coletivo: os pneus furam e os veiculos "quebram" ou trafegam superlotados; as condicoes das rodovias e das proprias viaturas sao precarias; o excesso de velocidade dos motoristas coloca os passageiros em risco, transformando, assim, o uso do machimbombo em uma das experiencias rotineiras de aproximacao com o perigo: "The boredness starts to settle among us, As we walk towards our destination: death". (27)

Finalmente, na nona faixa, o risco social narrado e outro: a presenca de minas terrestres, "plantadas" em territorios africanos durante a Guerra Civil: "Spoils of war in your backyard. Don't step over your crops". (28)

Kuando Kubango, provincia de origem do grupo, serviu como a primeira base da UNITA. Os versos discorrem sobre este contexto social, com a interpretacao da posicao estrategica deste territorio nos conflitos armados, no passado, e da presenca de campos minados nos dias atuais: "Landmines, seeds of death, Enjoy the fireworks". (29) Assim, a cancao do grupo pode ser ouvida como um testemunho de como Angola depara com resquicios de seu passado violento: "Don't take your legs for granted, They may go out out with a bang". (30)

O conjunto das cancoes mapeia assim diversos aspectos da vida urbana e da relacao dos habitantes com seu passado recente de guerras e lutas; e aponta para a forma como as marcas de genero do death metal podem ser apropriadas como meio de representacao da identidade angolana, com cancoes cujas narrativas conectam o presente ao passado desta nacao, entrelacando as vivencias dos musicos a memoria coletiva.

Assim, se a memoria for compreendida como um processo--sempre em disputa e reinvencao--no qual sujeitos se posicionam, e constroem coletivamente narrativas que darao sentido ao presente (HUYSSEN, 2000); e em que os meios de comunicacao e midias--a musica incluida entre eles--atuam como atores que produzem "enquadramentos", a apropriacao do death metal em um espaco social periferico pode demonstrar um caso especifico deste processo.

Neste sentido, conforme foi antecipado na introducao, o odio, a agressividade e outras "emocoes negativas" do death metal sao canalizadas nao na direcao do niilismo, mas enquanto elementos produtivos, que funcionam como catalisadores da construcao de sentidos para uma parcela da juventude angolana. O death metal e, portanto, condutor de afetos e elemento agregador de um grupo, que talvez--cabe indagar--nao se identifique com os generos musicais culturalmente mais legitimados no pais, tais como a semba e o kuduro, demonstrando como as identidades englobam diferentes formas pelas quais os sujeitos sao posicionados pelas narrativas do passado.

Consideracoes finais

Este artigo buscou abordar a apropriacao do death metal em cenarios perifericos, com base em perspectiva que relacione os codigos culturais do subgenero aos processos de releitura de episodios de conflitos sociais, violencia e guerras.

A partir da breve analise de um album da banda angolana Katingation, conduzida de maneira exploratoria, foram recolhidas algumas pistas que apontam para dois conjuntos de questoes.

O primeiro conjunto de pistas diz respeito a investigacao do genero metal e a construcao da cena de death metal de Angola. Com mais perguntas do que respostas sobre esta cena pouco visivel no cenario global, buscou-se demonstrar que a banda Katingation mantem-se fiel a algumas das "regras de genero", como as que dizem respeito as marcas sonoras do metal, convocadas atraves dos vocais guturais e agressivos, das distorcoes, da velocidade ritmica, das letras cantadas em ingles e da utilizacao dos acordes "classicos" do death metal. Mas, por outro lado, "redireciona" o odio e a agressividade das letras para reinterpretar a memoria recente de seu pais sobre a Guerra Civil e o cotidiano de conflitos sociais e violencia, transformando, assim, o niilismo, sem alvo aparente, do death metal global numa narrativa produtora de sentidos locais.

O segundo conjunto de questoes diz respeito a relacao dos produtos culturais com a memoria coletiva. Neste caso, a pista e a de que generos musicais tambem podem funcionar como "lugares de memoria" (NORA, 1993), que, ao lado de monumentos, datas, personagens historicos e literatura, consolidam o senso de pertencimento e negociam as fronteiras sociais entre os grupos.

Neste sentido, o que se propoe e pensar este album como um testemunho que contribui para a construcao de um "marco historico" na forma de um memorial (CHRISTENSEN, 2009) para as vitimas de conflitos sociais. Memorial representado nao mais por um monumento fisico, mas sim por lembrancas "desmaterializadas e reconfiguraveis"--e talvez efemeras?--veiculadas pelo album na internet, e cujos significados continuam a ressoar apos a conclusao deste texto, convocando a novas "escutas dedicadas", a serem registradas em futuros trabalhos.

Data de submissao: 7/5/2014

Data de aceite: 21/7/2014

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(1) Doutoranda em Comunicacao pela Universidade Federal Fluminense. Mestre em Comunicacao pela mesma instituicao, Universidade Federal Fluminense--UFF, Niteroi, RJ, Brasil. e-mail: melsantos1985@gmail.com.

(2) Doutora em Comunicacao pela UFRJ. Professora do Departamento de Estudos Culturais e midia e do Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao da Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora bolsista do CNPq (PQ 1 D). Coordenadora do LabCult--Laboratorio de pesquisas em Culturas Urbanas e Tecnologias da Comunicacao, Universidade Federal Fluminense--UFF, Niteroi, RJ, Brasil. e-mail: sibonei.sa@gmail.com.

(3) Como excecoes, podem-se citar obras que abordam a realidade social e historica, como o album homonimo do grupo Dismember (2008), e Opus Mortis VIII (2011) do grupo Vomitory, ambos suecos; ou, no Brasil, o album Roots, do Sepultura, e The Core of Disruption, dos cariocas do Lacerated and Carbonized.

(4) O marco de origem do heavy metal, apontado por musicos, headbangers, midias segmentadas e pesquisas academicas, seria o lancamento do primeiro album dos britanicos do Black Sabbath [13 de fevereiro de 1970].

(5) A "escuta dedicada" consiste em ouvir musica com total atencao voltada para essa atividade, alem de conhecimento das praticas que caracterizam historicamente a constituicao de um genero, pressupondo aprendizados entre "iniciantes" e "iniciados" nas "comunidades de gosto" (JANOTTI JR., 2012).

(6) Entre as bandas mais conhecidas de death metal estao: Morbid Angel, Death, Obituary, Deicide, Cannibal Corpse etc.

(7) O Sepultura ja havia inserido outros elementos sonoros, como a percussao latina, nos albuns anteriores, como Arise (1991), e sonoridades tribais, em Chaos A.D. (1993), mas, por uma serie de razoes que fogem ao escopo da discussao, Roots tornou-se o marco divisorio da banda para a questao.

(8) Memoria entendida como fruto do processo coletivo de interpretacoes do passado que se deseja guardar (POLLAK, 1989).

(9) Em 1975, apos a declaracao de independencia, os tres movimentos--FNLA, UNITA e MPLA--formaram uma frente comum e assinaram, com a representacao portuguesa, o Acordo de Alvor, que previa a participacao de todos no governo do pais. Pouco tempo depois, os tres grupos entraram em conflito pelo poder.

(10) A UNITA e a FNLA se uniram contra o MPLA, iniciando uma guerra longa que viria a causar 500 mil mortes. O conflito foi inserido no contexto da Guerra Fria: a URSS e Cuba apoiaram o MPLA; a Africa do Sul e os EUA apoiaram a UNITA; o Zaire (Republica Democratica do Congo) e tambem os EUA apoiavam a FNLA.

(11) O crescimento economico foi impulsionado com a expansao do setor petrolifero e do gas, alem da implantacao de um programa de despesas publicas. Contudo, ainda registra um baixo indice de desenvolvimento humano (IDH), situando-se no 148 lugar entre 187 paises analisados.

(12) aestreia ocorreu em Dubai, na 9 a edicao do Festival internacional de Filmes de Dubai, em dezembro de 2011.

(13) Estas condicoes tambem sao alvos de comentarios nos foruns de metal, tal como a que relaciona o baterista do Katingation, Tchissakwe Matisse, ao baterista do grupo britanico Def Leppard, Rick Allen, que perdeu um braco em acidente de automovel e retornou ao posto na banda apos adaptar a bateria a sua nova situacao.

(14) Um exemplo da curiosidade em torno da existencia ou nao da banda consiste na troca de posts no forum Ultimate Metal: Vitor: @lifesucks, the drummer from katingation have one leg only ... rick allen knows him. Life Sucks: Well, a lot of people in Angola are missing limbs (landmine victims), so it wouldn't be that surprising. Disponivel em: <http://www.ultimatemetal.com/forum/general-metal-discussion/322184-death-metal-5.html>. Acesso em: 29 abr. 2014.

(15) O EP e composto pelas cancoes "Kijibanganga" (intro); "Death toll rising"; "Die by the Tarrachinha"; "Back to the crica"; "Death by Katingation"; "Machimbombo flat tire"; "Moamba (aka Kryptonite)"; "Enter the musseque of death"; "Landmines & Fireworks".

(16) O equivalente a assassino na lingua Kimbumdu, pertencente ao grupo de familia das linguas africanas designada por "bantu". Chama-se de kimbundu, ou lingua de Angola, por ser a lingua geral do antigo reino de Ngola e a primeira a ser estudada e traduzida pelos europeus.

(17) Cerca de 100 mil elefantes africanos, ou seja, 20% da populacao total desses animais no continente, esta ameacada de extincao na proxima decada. Este tipo de caca ilegal ocorre em paises como Africa do Sul, Quenia e Camaroes. Fonte: <http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/africa-pode-perder-20-de-seus-elefantes-em-10-anos>.

(18) Musseque, termo originario do quimbundo, indica as zonas de areias avermelhadas, situadas no planalto de Luanda. As diferencas entre os musseques se dao em funcao de sua antiguidade e localizacao. Os mais antigos, proximos do centro da cidade, parecem-se com labirintos, com casas coladas umas as outras em ruelas sem quintais. Porem, os mais recentes, afastados do centro, possuem casas rodeadas de quintais.

(19) "Entre no musseque da morte, onde o sol e preto, e o ceu esta morto". Traducao das autoras.

(20) O poder de divulgacao de suas ideias, mesmo limitado, consistiu na distribuicao de panfletos reivindicando a independencia, assim como a mobilizacao dos angolanos.

(21) "Entre no musseque da morte, onde a sujeira comeca e o mundo acaba". Traducao das autoras.

(22) Casas tradicionais de materiais vegetais. O termo serve tambem para as casas de pau a pique (GUIMARAES, 2013).

(23) "Entre no musseque da morte, onde nao ha vento, e a violencia reina." Traducao das autoras.

(24) "Entre no musseque da morte, onde voce ira viver, morrer e morrer de novo." Traducao das autoras.

(25) Machimbombo seria o termo em angolano para transporte publico. A palavra foi adaptada na Africa colonial portuguesa --Angola e Mocambique--derivada do ingles machine pump, a partir da instalacao de carros eletricos em Portugal pelos ingleses. Mais informacoes disponiveis em: <http://blog.lusofonias.net/?p=8197>. Acesso em: 29 abr. 2014.

(26) "No caminho para Benguela, um pneu do machimbombo furou", "No caminho para Huambo, um pneu do machimbombo furou", "No caminho para Luanda, um pneu do machimbombo furou", "No caminho para Kuando Kubango, um pneu do machimbombo furou". Traducao das autoras.

(27) "O aborrecimento comeca a aparecer entre nos, enquanto caminhamos em direcao ao nosso destino: morte." Traducao das autoras.

(28) "Resquicios da guerra em seu quintal. Nao ultrapasse suas terras." Traducao das autoras.

(29) "Minas terrestres, sementes da morte. Aprecie os fogos de artificio." Traducao das autoras.

(30) "Nao tome suas pernas como garantidas. Elas podem sumir com uma explosao". Traducao das autoras.

Melina Aparecida dos Santos Silva (1)

Simone Pereira de Sa (2)
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Author:Aparecida dos Santos Silva, Melina; Pereira de Sa, Simone
Publication:Comunicacao, Midia E Consumo
Date:May 1, 2014
Words:6126
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